quarta-feira, 21 de março de 2007

Deitar mãos à obra


Não sei nem quero saber quem vão ser os empresários da construção civil que vão enriquecer à custa do betão armado que vai nascer naquele espaço. Não sei nem quero saber quem é que tem dinheiro (eu não sou) para comprar ali uma casa para viver. Não gosto é de ouvir os mesmos de sempre a clamarem por socorro porque vem aí a desgraça, o monstro, a mão capitalista que transforma metros quadrados de terra em milhões de euros. Para os arautos da desgraça, Santarém até pode continuar a crescer graças à construção desenfreada nos subúrbios da cidade. Não interessa como nem em que condições. No Campo Emílio Infante da Câmara é que a obra tem que cair do céu.O Campo Emílio Infante da Câmara, em Santarém, é quase um território de ninguém. A gente espanta-se com o número de pessoas que ao longo dos últimos anos debitaram discursos, fizeram projectos, alimentaram ilusões e não fizeram a ponta de um corno para que o antigo campo da feira se reconvertesse no espaço que todos desejam: o novo centro da cidade. A La Defense de Santarém, a cidade do futuro.
Uma dúzia de anos depois, sem a feira do Ribatejo a impedir a reconversão daquele espaço, a discussão sobre o campo Emílio Infante da Câmara volta a estar ao rubro porque finalmente alguém decidiu (a Misericórdia de Santarém) deitar mãos à obra e iniciar o que até agora ninguém teve a coragem de assumir.
Não somos mestre-de-obras, nem temos amigos engenheiros ou arquitectos, mas também não devemos nada aos arautos da desgraça que acham que tudo o que mexe na cidade de Santarém tem que levar um tiro na cabeça. Se a Misericórdia de Santarém conseguiu finalmente um projecto com pés e cabeça para parte daquele espaço, esperamos que a obra seja feliz e que a cidade das Portas do Sol comece a ganhar finalmente um novo centro. Quem andou nestes últimos anos a fazer projectos na areia que fale mas com conhecimento de causa. Por amor à cidade e não para defender interesses pouco claros. Santarém não é um feudo de meia dúzia de empresários que falam alto e de políticos que não fazem… nem saem de cima. Haja alguém que ajude a dar o pontapé na crise e pegue os bois de caras. Mesmo que a praça de toiros venha baixo.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Semear para colher mais tarde


Fernando Palha contou uma história que é exemplar: Nos anos que já lá vão um conhecido ganadeiro da região conseguiu iludir meio mundo, entre os quais ele se incluía, e vendeu um toiro cego para uma das corridas mais importantes da temporada. Quem fez isto há quarenta anos não podia ser uma pessoa inteligente. Muito menos deve ter ficado na história. Provavelmente, hoje, se o seu nome fosse divulgado toda a gente diria: olha que sacaninha! Os verdadeiros sacanas não têm emenda. Até na hora de abrirem a boca para comer pensam no dinheiro que gastaram com a comida.Há cerca de um mês participei numa reunião entre amigos para discutirmos o futuro da Palha Blanco. Foi a terceira vez que num curto espaço de tempo ajudei a levantar questões que se prendem com o futuro da praça e da festa brava em Vila Franca de Xira.
Como sou dos que ainda acreditam na força do associativismo aceito sempre com um sorriso o convite para o debate. E desta vez não foi diferente. Falei pouco mas conheci gente interessante. E ouvi falar muito das actividades taurinas das décadas de sessenta e setenta quando a festa tinha outro fulgor e a câmara municipal não precisava de se meter pelo meio para compensar a falta de interesse das pessoas da comunidade, assim como o empenho dos empresários e das associações que, nessa altura, faziam a festa, atiravam os foguetes e ainda iam apanhar as canas. E a verdade é que já nesse tempo nem tudo era um mar de rosas.
Esta conversa veio toda ao correr do teclado do computador a propósito da nossa participação nas conversas à volta da praça de toiros Palha Blanco. Como o tempo não volta para trás e a Palha Blanco é muito bonita por fora mas por dentro é um recinto de espectáculos condenado ao fracasso, deixo aqui uma sugestão ao digníssimo Provedor e por extenso a toda a Mesa da Santa Casa: Esqueçam durante uns anos a pequena receita do aluguer da praça e promovam um investimento privado, ou municipal, que dê outra dignidade ao monumento. Vila Franca de Xira agradece ( e merece) e, como diz o povo, quem semeia mais tarde ou mais cedo acaba por colher.

quarta-feira, 7 de março de 2007

Não sei nem imagino…


Não me esqueço, certo dia em que saía do gabinete de um recém empossado presidente de câmara municipal e assisti à “espera” que um técnico do município fazia à porta do seu gabinete para o pressionar a aprovar rapidamente a instalação no concelho de uma grande superfície comercial. Na altura fiquei de olhos em bico com a situação e surdo e mudo com o que estava a ver e a ouvir. Mas alguém me explicou mais tarde com todas as letras: desde que chegou à autarquia que isto é o pão-nosso de cada dia. Quem cá esteve antes dele devia ter uma alma muito caridosa para atender a tantos pedidos à porta do gabinete.Não sei, sinceramente, como é que o presidente da Câmara Municipal do Cartaxo se está a dar com as medidas extremas de proibir os engenheiros e arquitectos da autarquia de acumularem o emprego público com os trabalhinhos por fora. Infelizmente a comunicação social esquece-se muitas vezes de acompanhar algumas notícias e de nos dar conta do efeito que as mesmas produzem depois de publicadas.
Falo deste assunto porque sou daqueles que entendo que a Redacção de um jornal pode fazer mais pelo cumprimento de determinados princípios éticos que uma comissão governamental composta pelas mais ilustres personalidades. Um jornalista que conheça bem o Cartaxo e acompanhe a vida local não pode esquecer este assunto e tem obrigatoriamente que voltar a ele no seu jornal. Tem obrigação de falar dele com a regularidade que as suas investigações jornalísticas o exigirem (Só para esclarecer os mais incautos a sugestão para esta crónica nasceu precisamente da conversa com um jornalista da Redacção sobre o que ainda continua a ser notícia e é relacionado com este assunto). Estamos a falar de medidas que puseram em sentido a classe politica da região embora todas as vozes se calassem inteligentemente.
Não sei nem imagino quanto tempo demora a convencer um político a instalar superfícies comerciais à beira da estrada, como é o caso gritante do Plus, ali a caminho da Portela das Padeiras. Não sei nem quero saber. Mas que deve dar uma trabalheira… disso não tenho dúvidas.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Conversa com uma estátua

Fui dos que aprendi a ler com o escritor Alves Redol. Ainda hoje tenho saudades das emoções que encontrei nos seus livros. Às vezes apetece-me voltar a um ou outro dos seus romances e tenho medo do caminho de volta. As releituras são sempre complexas e eu detesto quando me vejo a catalogar os meus escritores da idade jovem, neste caso o meu mestre de muitas emoções que ainda hoje marcam a minha segunda pele.
Tenho uma admiração pelo escritor Alves Redol que não foi conquistada na escola, nem em colóquios, nem em homenagens públicas, nem onde se escreve na pedra os nomes que alguém entende que merecem a eternidade. A minha admiração pelo escritor foi conquistada à luz roubada aos meus pais que sempre queriam a luz apagada à noite, foi conquistada página a página, palavra a palavra, numa altura em que descobrir um bom livro era tão importante para o meu futuro como conhecer o Tejo e os melhores lugares para mandar um mergulho sem correr o risco de lá ficar para sempre como aconteceu a alguns dos meus amigos do tempo da idade jovem.
Acho graça à estátua de Alves Redol que homenageia o escritor em Vila Franca de Xira mas não a admiro. Percebo a intenção do escultor que produziu a obra mas não punha a minha assinatura por baixo se me pedissem uma opinião favorável antes da sua instalação num espaço público da cidade.
Quando passo pela estátua, e ás vezes acontece diariamente, pergunto sempre ao escritor se ele se sente bem ali, nu, naquele posto de vigia da cidade. Às vezes nem olho para ele porque a minha interrogação já é coisa mental. E o meu olhar em frente ainda vê melhor a estátua do que se ficasse ali, parado, a perguntar-lhe eternamente ó companheiro o que é que me dizes a esta ideia de te despirem na rua, num tempo em que já poucos te lêem e ainda menos se lembram de ti e da tua obra inigualável?

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

As nuvens que passam


Um dia, já lá vão meia dúzia de anos, falava nisso com um empresário da cidade e chamava a atenção, na minha santa ingenuidade, para o papel que os empresários da região poderiam ter substituindo-se aos bardamerdas de alguns políticos que só sabem fazer o discurso da praxe e homenagear os amigos e conhecidos, que é uma boa forma de aproveitarem a boleia para também se homenagearem permanentemente a si próprios. O quê, fazer uma homenagem a esse paneleiro dum cabrão? Foi assim que ouvi falar de Bernardo Santareno, um escritor e intelectual português, dos maiores, que será com certeza muito recordado e homenageado daqui a muitas dezenas ou centenas de anos quando todos nós já formos, há uma eternidade, apenas uma nuvem que passou.A criação de uma Fundação Bernardo Santareno e o anúncio de um prémio literário com o nome do autor escalabitano vem fazer justiça a um grande nome da literatura portuguesa. Santarém ainda é uma terra de província, das mais cuscas, quando se trata de valorizar o nome de alguém pelo trabalho e pelo mérito da sua obra. É fácil falar em público do Sá da Bandeira, do Passos Manuel, do Braancamp Freire, enfim, de muitos e venerados nomes da cidade que ficaram na história mas cuja memória só resiste porque o discurso político não os esquece na hora que mais lhe convém.
Lembrar publicamente, apenas vinte anos depois da sua morte, um autor que deixou uma obra incomparável na área da literatura, do teatro em particular, não seria nada do outro mundo se ele não fosse um homossexual assumido. Tudo leva a crer que o nome e a obra de Bernardo Santareno não é familiar aos escalabitanos nem motivo de orgulho para quem nasceu ou adoptou a cidade porque ele era “invertido”.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Poemas à nossa terra


Entusiasmado com a leitura de uma das obras poéticas mais importantes do último século, talvez a obra poética e ensaística mais importante a seguir a Pessoa, por tudo o que tem de inovadora e contra a corrente, resolvi partilhar com o leitor este prazer, numa altura em que redescobri igualmente uma obra importante de um poeta ribatejano chamado Álvaro do Amaral Neto que canta o Ribatejo e as terras ribatejanas como nenhum poeta português o fez até hoje.O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades. Não sei a quem é que interessa a informação de que estou a reler Almada Negreiros, republicado pela Assírio e Alvim, com o entusiasmo de um adolescente e a vontade de aprender de um velho leitor.
De tanto conviver com o livro em certa altura da minha vida julgava que o tinha na minha biblioteca. Afinal não tenho. Um dia destes, em casa do Professor Veríssimo Serrão, vi uma daquelas edições numeradas e de capa dura que me fez pele de galinha. Não sei por que artes mágicas o Professor deu por isso e logo se prontificou para escrever um prefácio ao livro se eu tivesse a coragem de o reeditar. E porque o Professor Veríssimo Serrão não brinca em serviço deixou que de regresso a casa trouxesse o livro debaixo do braço para não perder pelo caminho o sentido das palavras bonitas e justas que trocamos a meio de um dia de sol.
Não sei se vou encontrar solidariedades para reeditar o livro como gostava numa edição fac-similada e também com capa dura. Os poemas a Vila Franca de Xira, a Alhandra, à Barquinha, a Almeirim, Cartaxo, à Chamusca ( a terra de nascimento do poeta), assim como a dezenas de outras localidades da região, bem mereciam voltar à luz do dia.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

A televisão regional


Nos últimos tempos algumas notícias no sítio online de O MIRANTE têm sido acompanhadas com vídeos. A ideia não é nada original mas está a resultar.
Portugal é um atraso de vida no que respeita aos avanços das novas tecnologias. A televisão regional em Espanha tem mais de 20 anos de sucesso. Um dia destes visitei um canal local no sul de Espanha com cerca de uma centena de profissionais. Casos destes existem às centenas no país vizinho. Enquanto a televisão regional em Portugal continua a ser uma miragem, os canais portugueses dão-nos noticiários sobre um país que não é o nosso e enchem-nos a cabeça de imagens de guerra, de traficantes de droga na Colômbia, de desastres no Brasil, de histórias de violência passadas algures no mundo, esquecendo o país real.
Com a globalização da informação toda a gente sabe que é mais fácil pôr no ar as imagens da guerra no Iraque ou dos confrontos na Palestina, ou das derrocadas no Brasil, que as imagens que retratam a realidade portuguesa que não é aquela que os fazedores de notícias fabricam quando se deslocam entre as docas de Lisboa e S. Bento. O problema é que estamos todos acomodados. Dão-nos uma televisão pornográfica com noticiário que nos escandaliza e filmes com meia hora de intervalos para anúncios e os portugueses comem e calam. Ninguém vai ali ao lado, a Salamanca ou a Badajoz, a Cádiz ou a Sevilha, para ver como se faz o mundo novo.
A televisão regional ainda é uma utopia para a maioria dos responsáveis pelo governo da nação e das autarquias. Quase todos acham que não há dinheiro nem haverá mercado. Experimentem, caros leitores, olhar à volta e perguntar para onde vai tanto dinheiro das “obras a mais” e de concursos públicos que ninguém sabe como são ganhos e com que critérios. É aí que está um dos segredos de tanta descrença. O dinheiro existe. Anda é por caminhos ínvios.