quarta-feira, 28 de março de 2007
Um coração do meu tempo
Eu gosto da minha terra. E não consigo perceber aquelas pessoas que dizem mal de tudo menos delas próprias. Sei que algumas das minhas terras pararam no tempo. Teimam em ser pequenas ilhas onde cada um cuida do seu aquário. Mas não é isso que me amolece o coração. Eu ainda tenho um coração do tempo dos meus avós.Eu gosto da terra onde nasci (Chamusca) e da terra onde trabalho, e das terras que visito quase diariamente no meu ofício de operário de uma empresa de comunicação social. Não trocava a minha terra por Lisboa durante uma semana (embora goste de Lisboa, todas as semanas, em certos dias), nem por Paris, Rio de Janeiro, Amesterdão ou Madrid, quatro cidades que também conheço bem e onde gostava de ter mais tempo para estragar um par de sapatos. Se tenho que dizer mal da minha terra fico triste. Eu gosto da minha terra como gosto da minha casa e do meu quintal e dos caminhos que me levam à lezíria, à charneca ou ao bairro. Posso orgulhar-me de ser vizinho da terra onde nasceu Saramago, de ser amigo do Sérgio Carrinho, do Moita Flores, de contar entre os meus melhores amigos as pessoas mais simples deste mundo, que me fazem lembrar todos os dias o lugar de onde vim e para onde vou. E não me importo de conviver diariamente nas minhas terras com gente medíocre ou reaccionária, que se pudesse dava-me um tiro ou apertava-me as goelas, e fazia-me pagar cara as noites de insónia que lhe causei no desempenho do meu trabalho. Fazendo minhas as palavras de um editor (Cruz Santos) as minhas paixões são sempre a favor. Não tenho nada contra. E quando tenho não chega ao coração. Fica a meio caminho e num dia de sol perde-se numa curva da estrada.
Eu gosto de parar no meio da rua e conversar com os velhos da minha terra. Gosto de comer sardinhas assadas com a mão. Gosto de ir ao campo roubar laranjas para comer na altura. Gosto de alimentar a ideia de ainda conseguir construir uma barraca no meio do campo para poder voltar, um dia, a sentir o desconforto que fez os nossos ossos mais rijos. Ainda gosto de agarrar numa colher de pedreiro, num serrote, numa enxada, e fingir que sei do oficio. Gosto de subir os choupos, como na idade em que criei uma ovelha e depois vendi-a porque me recusei a comer a sua carne.
quarta-feira, 21 de março de 2007
Deitar mãos à obra
Não sei nem quero saber quem vão ser os empresários da construção civil que vão enriquecer à custa do betão armado que vai nascer naquele espaço. Não sei nem quero saber quem é que tem dinheiro (eu não sou) para comprar ali uma casa para viver. Não gosto é de ouvir os mesmos de sempre a clamarem por socorro porque vem aí a desgraça, o monstro, a mão capitalista que transforma metros quadrados de terra em milhões de euros. Para os arautos da desgraça, Santarém até pode continuar a crescer graças à construção desenfreada nos subúrbios da cidade. Não interessa como nem em que condições. No Campo Emílio Infante da Câmara é que a obra tem que cair do céu.O Campo Emílio Infante da Câmara, em Santarém, é quase um território de ninguém. A gente espanta-se com o número de pessoas que ao longo dos últimos anos debitaram discursos, fizeram projectos, alimentaram ilusões e não fizeram a ponta de um corno para que o antigo campo da feira se reconvertesse no espaço que todos desejam: o novo centro da cidade. A La Defense de Santarém, a cidade do futuro.
Uma dúzia de anos depois, sem a feira do Ribatejo a impedir a reconversão daquele espaço, a discussão sobre o campo Emílio Infante da Câmara volta a estar ao rubro porque finalmente alguém decidiu (a Misericórdia de Santarém) deitar mãos à obra e iniciar o que até agora ninguém teve a coragem de assumir.
Não somos mestre-de-obras, nem temos amigos engenheiros ou arquitectos, mas também não devemos nada aos arautos da desgraça que acham que tudo o que mexe na cidade de Santarém tem que levar um tiro na cabeça. Se a Misericórdia de Santarém conseguiu finalmente um projecto com pés e cabeça para parte daquele espaço, esperamos que a obra seja feliz e que a cidade das Portas do Sol comece a ganhar finalmente um novo centro. Quem andou nestes últimos anos a fazer projectos na areia que fale mas com conhecimento de causa. Por amor à cidade e não para defender interesses pouco claros. Santarém não é um feudo de meia dúzia de empresários que falam alto e de políticos que não fazem… nem saem de cima. Haja alguém que ajude a dar o pontapé na crise e pegue os bois de caras. Mesmo que a praça de toiros venha baixo.
quarta-feira, 14 de março de 2007
Semear para colher mais tarde
Fernando Palha contou uma história que é exemplar: Nos anos que já lá vão um conhecido ganadeiro da região conseguiu iludir meio mundo, entre os quais ele se incluía, e vendeu um toiro cego para uma das corridas mais importantes da temporada. Quem fez isto há quarenta anos não podia ser uma pessoa inteligente. Muito menos deve ter ficado na história. Provavelmente, hoje, se o seu nome fosse divulgado toda a gente diria: olha que sacaninha! Os verdadeiros sacanas não têm emenda. Até na hora de abrirem a boca para comer pensam no dinheiro que gastaram com a comida.Há cerca de um mês participei numa reunião entre amigos para discutirmos o futuro da Palha Blanco. Foi a terceira vez que num curto espaço de tempo ajudei a levantar questões que se prendem com o futuro da praça e da festa brava em Vila Franca de Xira.
Como sou dos que ainda acreditam na força do associativismo aceito sempre com um sorriso o convite para o debate. E desta vez não foi diferente. Falei pouco mas conheci gente interessante. E ouvi falar muito das actividades taurinas das décadas de sessenta e setenta quando a festa tinha outro fulgor e a câmara municipal não precisava de se meter pelo meio para compensar a falta de interesse das pessoas da comunidade, assim como o empenho dos empresários e das associações que, nessa altura, faziam a festa, atiravam os foguetes e ainda iam apanhar as canas. E a verdade é que já nesse tempo nem tudo era um mar de rosas.
Esta conversa veio toda ao correr do teclado do computador a propósito da nossa participação nas conversas à volta da praça de toiros Palha Blanco. Como o tempo não volta para trás e a Palha Blanco é muito bonita por fora mas por dentro é um recinto de espectáculos condenado ao fracasso, deixo aqui uma sugestão ao digníssimo Provedor e por extenso a toda a Mesa da Santa Casa: Esqueçam durante uns anos a pequena receita do aluguer da praça e promovam um investimento privado, ou municipal, que dê outra dignidade ao monumento. Vila Franca de Xira agradece ( e merece) e, como diz o povo, quem semeia mais tarde ou mais cedo acaba por colher.
quarta-feira, 7 de março de 2007
Não sei nem imagino…
Não me esqueço, certo dia em que saía do gabinete de um recém empossado presidente de câmara municipal e assisti à “espera” que um técnico do município fazia à porta do seu gabinete para o pressionar a aprovar rapidamente a instalação no concelho de uma grande superfície comercial. Na altura fiquei de olhos em bico com a situação e surdo e mudo com o que estava a ver e a ouvir. Mas alguém me explicou mais tarde com todas as letras: desde que chegou à autarquia que isto é o pão-nosso de cada dia. Quem cá esteve antes dele devia ter uma alma muito caridosa para atender a tantos pedidos à porta do gabinete.Não sei, sinceramente, como é que o presidente da Câmara Municipal do Cartaxo se está a dar com as medidas extremas de proibir os engenheiros e arquitectos da autarquia de acumularem o emprego público com os trabalhinhos por fora. Infelizmente a comunicação social esquece-se muitas vezes de acompanhar algumas notícias e de nos dar conta do efeito que as mesmas produzem depois de publicadas.
Falo deste assunto porque sou daqueles que entendo que a Redacção de um jornal pode fazer mais pelo cumprimento de determinados princípios éticos que uma comissão governamental composta pelas mais ilustres personalidades. Um jornalista que conheça bem o Cartaxo e acompanhe a vida local não pode esquecer este assunto e tem obrigatoriamente que voltar a ele no seu jornal. Tem obrigação de falar dele com a regularidade que as suas investigações jornalísticas o exigirem (Só para esclarecer os mais incautos a sugestão para esta crónica nasceu precisamente da conversa com um jornalista da Redacção sobre o que ainda continua a ser notícia e é relacionado com este assunto). Estamos a falar de medidas que puseram em sentido a classe politica da região embora todas as vozes se calassem inteligentemente.
Não sei nem imagino quanto tempo demora a convencer um político a instalar superfícies comerciais à beira da estrada, como é o caso gritante do Plus, ali a caminho da Portela das Padeiras. Não sei nem quero saber. Mas que deve dar uma trabalheira… disso não tenho dúvidas.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
Conversa com uma estátua
Fui dos que aprendi a ler com o escritor Alves Redol. Ainda hoje tenho saudades das emoções que encontrei nos seus livros. Às vezes apetece-me voltar a um ou outro dos seus romances e tenho medo do caminho de volta. As releituras são sempre complexas e eu detesto quando me vejo a catalogar os meus escritores da idade jovem, neste caso o meu mestre de muitas emoções que ainda hoje marcam a minha segunda pele.
Tenho uma admiração pelo escritor Alves Redol que não foi conquistada na escola, nem em colóquios, nem em homenagens públicas, nem onde se escreve na pedra os nomes que alguém entende que merecem a eternidade. A minha admiração pelo escritor foi conquistada à luz roubada aos meus pais que sempre queriam a luz apagada à noite, foi conquistada página a página, palavra a palavra, numa altura em que descobrir um bom livro era tão importante para o meu futuro como conhecer o Tejo e os melhores lugares para mandar um mergulho sem correr o risco de lá ficar para sempre como aconteceu a alguns dos meus amigos do tempo da idade jovem.
Acho graça à estátua de Alves Redol que homenageia o escritor em Vila Franca de Xira mas não a admiro. Percebo a intenção do escultor que produziu a obra mas não punha a minha assinatura por baixo se me pedissem uma opinião favorável antes da sua instalação num espaço público da cidade.
Quando passo pela estátua, e ás vezes acontece diariamente, pergunto sempre ao escritor se ele se sente bem ali, nu, naquele posto de vigia da cidade. Às vezes nem olho para ele porque a minha interrogação já é coisa mental. E o meu olhar em frente ainda vê melhor a estátua do que se ficasse ali, parado, a perguntar-lhe eternamente ó companheiro o que é que me dizes a esta ideia de te despirem na rua, num tempo em que já poucos te lêem e ainda menos se lembram de ti e da tua obra inigualável?
Tenho uma admiração pelo escritor Alves Redol que não foi conquistada na escola, nem em colóquios, nem em homenagens públicas, nem onde se escreve na pedra os nomes que alguém entende que merecem a eternidade. A minha admiração pelo escritor foi conquistada à luz roubada aos meus pais que sempre queriam a luz apagada à noite, foi conquistada página a página, palavra a palavra, numa altura em que descobrir um bom livro era tão importante para o meu futuro como conhecer o Tejo e os melhores lugares para mandar um mergulho sem correr o risco de lá ficar para sempre como aconteceu a alguns dos meus amigos do tempo da idade jovem.
Acho graça à estátua de Alves Redol que homenageia o escritor em Vila Franca de Xira mas não a admiro. Percebo a intenção do escultor que produziu a obra mas não punha a minha assinatura por baixo se me pedissem uma opinião favorável antes da sua instalação num espaço público da cidade.
Quando passo pela estátua, e ás vezes acontece diariamente, pergunto sempre ao escritor se ele se sente bem ali, nu, naquele posto de vigia da cidade. Às vezes nem olho para ele porque a minha interrogação já é coisa mental. E o meu olhar em frente ainda vê melhor a estátua do que se ficasse ali, parado, a perguntar-lhe eternamente ó companheiro o que é que me dizes a esta ideia de te despirem na rua, num tempo em que já poucos te lêem e ainda menos se lembram de ti e da tua obra inigualável?
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
As nuvens que passam
Um dia, já lá vão meia dúzia de anos, falava nisso com um empresário da cidade e chamava a atenção, na minha santa ingenuidade, para o papel que os empresários da região poderiam ter substituindo-se aos bardamerdas de alguns políticos que só sabem fazer o discurso da praxe e homenagear os amigos e conhecidos, que é uma boa forma de aproveitarem a boleia para também se homenagearem permanentemente a si próprios. O quê, fazer uma homenagem a esse paneleiro dum cabrão? Foi assim que ouvi falar de Bernardo Santareno, um escritor e intelectual português, dos maiores, que será com certeza muito recordado e homenageado daqui a muitas dezenas ou centenas de anos quando todos nós já formos, há uma eternidade, apenas uma nuvem que passou.A criação de uma Fundação Bernardo Santareno e o anúncio de um prémio literário com o nome do autor escalabitano vem fazer justiça a um grande nome da literatura portuguesa. Santarém ainda é uma terra de província, das mais cuscas, quando se trata de valorizar o nome de alguém pelo trabalho e pelo mérito da sua obra. É fácil falar em público do Sá da Bandeira, do Passos Manuel, do Braancamp Freire, enfim, de muitos e venerados nomes da cidade que ficaram na história mas cuja memória só resiste porque o discurso político não os esquece na hora que mais lhe convém.
Lembrar publicamente, apenas vinte anos depois da sua morte, um autor que deixou uma obra incomparável na área da literatura, do teatro em particular, não seria nada do outro mundo se ele não fosse um homossexual assumido. Tudo leva a crer que o nome e a obra de Bernardo Santareno não é familiar aos escalabitanos nem motivo de orgulho para quem nasceu ou adoptou a cidade porque ele era “invertido”.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007
Poemas à nossa terra
Entusiasmado com a leitura de uma das obras poéticas mais importantes do último século, talvez a obra poética e ensaística mais importante a seguir a Pessoa, por tudo o que tem de inovadora e contra a corrente, resolvi partilhar com o leitor este prazer, numa altura em que redescobri igualmente uma obra importante de um poeta ribatejano chamado Álvaro do Amaral Neto que canta o Ribatejo e as terras ribatejanas como nenhum poeta português o fez até hoje.O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, portugueses, só vos faltam as qualidades. Não sei a quem é que interessa a informação de que estou a reler Almada Negreiros, republicado pela Assírio e Alvim, com o entusiasmo de um adolescente e a vontade de aprender de um velho leitor.
De tanto conviver com o livro em certa altura da minha vida julgava que o tinha na minha biblioteca. Afinal não tenho. Um dia destes, em casa do Professor Veríssimo Serrão, vi uma daquelas edições numeradas e de capa dura que me fez pele de galinha. Não sei por que artes mágicas o Professor deu por isso e logo se prontificou para escrever um prefácio ao livro se eu tivesse a coragem de o reeditar. E porque o Professor Veríssimo Serrão não brinca em serviço deixou que de regresso a casa trouxesse o livro debaixo do braço para não perder pelo caminho o sentido das palavras bonitas e justas que trocamos a meio de um dia de sol.
Não sei se vou encontrar solidariedades para reeditar o livro como gostava numa edição fac-similada e também com capa dura. Os poemas a Vila Franca de Xira, a Alhandra, à Barquinha, a Almeirim, Cartaxo, à Chamusca ( a terra de nascimento do poeta), assim como a dezenas de outras localidades da região, bem mereciam voltar à luz do dia.
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