quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Aprender a lição e manter o espírito


No regresso de umas férias, às quais aliei o trabalho e o lazer, no caminho entre o aeroporto e a avenida Pascoal de Melo, em Lisboa, com a mala cheia de livros, recebi à janela do táxi, sem precisar de pagar ou agradecer, três jornais diários. E confesso o interesse na sua leitura, que no entanto não me faz dispensar a do Público, do Expresso, do DN, da Visão, entre outros, dependendo da força dos títulos das primeiras páginas.É uma tentação escrever sobre o nosso trabalho. Bem sei que é batota. Não resisto, no entanto, a aproveitar o espaço para confessar o entusiasmo pelo futuro do jornal onde escrevo. Também por que é aqui que está a aposta de duas décadas de vida. De vinte anos de trabalho que passaram num instante com a ajuda dos leitores que nos acompanham desde o início ou nos apanharam pelo caminho e nunca mais nos largaram da mão.
Há dias estive em casa do jornalista e escritor Juan Árias e ouvi-o dizer com todas as palavras que o futuro dos jornais no suporte de papel está condenado. E depois contou como se vive hoje essa preocupação no El País, o jornal que ele viu nascer. E contou ainda como continua a fazer jornalismo, apesar da idade da reforma, numa cidadezinha do Brasil, isolada do mundo, e consegue saber e ler tudo o que lhe interessa sem sair de casa.
Nestas férias viajei muito de autocarro e, na rodoviária, nos transportes para cidades mais distantes, pude ver à entrada dos mesmos resmas de jornais (títulos de referência) para leitura gratuita de quem embarcava. Há muitos anos que vejo o mesmo nos principais aeroportos das mais importantes cidades da Europa.
Foi nessas viagens que aprendemos a lição (que nunca se aprende verdadeiramente) que fez com que um dia, já lá vão mais de uma dúzia de anos, o patrão do Expresso, ao conhecer o nosso projecto, dissesse que O MIRANTE estava dez anos avançado em relação à concorrência. Mantemos o espírito. Damos o coiro para fidelizar leitores através da assinatura. Mas nunca deixamos de dar a ler o jornal aproveitando todos os meios ao nosso alcance para fidelizar leitores que mais tarde se tornem assinantes.
Vamos fazer uma parceria, a muito curto prazo, com um jornal de referência, que nos vai fazer aumentar a tiragem para os números que perseguimos há muito tempo e que fará com que cheguemos a mais 30 mil leitores da região. Com a Internet, onde também investimos, e mesmo com a morte anunciada dos jornais no suporte de papel, ainda é possível fazer muito caminho caminhando. Quando a morte chegar de certo que não nos apanhará na praia.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

A falta de uma política florestal não é um crime?


Quando o nosso território florestal e agrícola for uma manta de retalhos, sem vegetação, sem animais, sem água, com os ribeiros e os rios secos e assoreados, já será tarde para acreditar em milagres. Pior do que perder a riqueza florestal e agrícola é perdermos a nossa identidade. Sem emprego para aqueles que ainda insistem em viver na sua terra, vamos todos de comboio para Lisboa, ou para os dormitórios de Lisboa, que há-de ser bem melhor do que viver na aldeia como os macacos vivem no zoológico (É claro que ficaremos sempre alguns. Quanto mais não seja para demonstração da espécie nas visitas guiadas para turistas nacionais e estrangeiros).Há trinta anos a charneca ribatejana era um oásis. Hoje é terra queimada. E, nos casos em que já não há memória do fogo, a charneca é um imenso eucaliptal. Mais uns anos e será o caos. Se os governos do país continuarem a olhar para os recursos dos nossos territórios da charneca como continuam a olhar para as reservas de ouro do Banco de Portugal, vamos ficar muito mais depressa sem a riqueza florestal que ainda nos resta do que sem o ouro português amealhado durante tantos anos.
Um dia destes só teremos olivais (no Alentejo) e eucaliptais. Tudo por conta dos espanhóis no primeiro caso e das celuloses no segundo. A falta de uma política florestal para o nosso território é um crime. Não sei quem é que vai responder por ele. Quem enriquece à custa do crime não é o país. São os donos das terras e os capitalistas das celuloses. Mas são os políticos os últimos responsáveis. E não vejo nenhuma razão para fazer dos proprietários dos terrenos os maus da fita. Num mercado de livre concorrência cada um procura defender os seus interesses o melhor que sabe e pode. Esperar que sejam os proprietários das terras a substituírem-se ao Governo do país é acreditar na Nossa Senhora de Fátima e, pior do que isso, é esperar que seja Ela a trazer-nos a salvação para a nossa floresta.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

A mania da calotice e tudo o que veio a propósito


A Câmara de Santarém é apenas um caso. Mas é emblemático. E não pode ser esquecido. Principalmente quando temos na nossa região uma das autarquias do país que mais respeita os prazos de pagamento a fornecedores, como é o caso da Câmara de Vila Franca de Xira presidida pela socialista Maria da Luz Rosinha*.Conheço muitos empresários que acham que a melhor forma de financiarem as suas empresas é com o dinheiro dos seus fornecedores. Quanto mais tempo demorarem a pagar uma factura mais barata vai ficando a mercadoria. E menos têm que recorrer ao crédito bancário. Conheço políticos que afinam pela mesma bitola. Há câmaras que acumulam dívidas a pequenos fornecedores durante anos a fio. Nalguns casos, numa e noutra situação, conheço ainda mais pequenos e médios empresários que viveram, ou ainda vivem, histórias dramáticas por causa da mania da calotice que afecta a mentalidade de tanta gente.
É verdade que estas práticas não são de hoje. Mas os tempos mudaram caramba. Para as novas gerações, que tomaram conta da nossa economia e da nossa política, já não serve a desculpa da educação salazarista. Salazar tem as costas largas. Mas não exageremos. Conheço algumas empresas que nos últimos seis anos ganharam vários processos em tribunal contra a Câmara de Santarém por esta se recusar a pagar o que devia. Pouca gente guarda memória do anterior executivo. Excepto os que ainda estão a arder com o seu dinheirinho e todos aqueles que tiveram coragem de afrontar o Poder e ganharam, com juros, na justiça.
Portugal era um país falido se fosse governado por alguns artolas do mundo empresarial e político da nossa região que não têm que trabalhar todos os dias com as apertadas regras de mercado. JAE

* Ora aqui está uma boa base de trabalho para o Secretário Geral do PS, José Sócrates, que nas últimas eleições autárquicas também apostou no homem errado para Santarém e acabou a perder uma das mais emblemáticas câmaras do país para o PSD, um partido que estava tão longe do Poder autárquico escalabitano como Portugal está, em termos de qualidade de vida, dos principais países da Europa.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Uma questão de desamor ao povo


O filme deve ser visto para percebermos a evolução da nossa sociedade. Para percebermos, apesar das injustiças que ainda vivemos, o que nos separa, passados trinta e três anos, desse estado miserável de obscurantismo e pobreza em que vivíamos.Anda por aí um filme, Torre Bela (ver texto sobre o filme nesta edição), que os portugueses deviam ver obrigatoriamente. Os mais novos para perceberem o que foi a Revolução do 25 de Abril e os mais velhos para lavarem a memória. A primeira vez que vi estas imagens ia caindo para o lado de espanto.
Fico magoado sempre que oiço alguém clamar por Salazar e pedir o “ó tempo volta para trás”. Não é que não tenha respeito pela memória de alguns homens desse tempo. É porque tenho memória que não compreendo como é possível eleger Salazar como um dos nossos melhores.
Fui testemunha privilegiada da revolução do 25 de Abril. Antes já ouvia conspirar e, depois, pude assistir a algumas acções que marcaram aqueles tempos. Passados todos estes anos recordo de memória alguns homens e mulheres desse tempo e rio-me do ridículo de algumas situações que vivi e de muitas outras que apenas presenciei. O filme Torre Bela é um documento que fala por todos nós. É um filme que ressuscita a nossa história recente. É um documento filmado no Ribatejo que todos os ribatejanos deviam ter em casa para mostrarem aos filhos.
Se há coisas a que sou fiel é à memória que guardo dos meus avós que me ajudaram a criar e a educar. Enquanto a minha avó ganhava para a sopa ripando camisas, eu fazia recados, nos intervalos em que não brincava na rua, descalço, com a roda de uma bicicleta. Sempre por perto. Não que alguém tivesse medo que eu desaparecesse mas porque “o trabalho do menino é pouco mas quem não o sabe aproveitar é louco”.
Não sei quem é que me ensinou, aos dez anos, a perceber que o mundo era injusto para com os meus. Por isso já nessa altura eu entregava à minha avó o que ganhava dos recados que fazia. E perguntava-me como era possível a minha avó ser uma pessoa tão boa, honesta e trabalhadora e ser assim tão pobre apesar de trabalhar como uma escrava.
Salazar foi o político português mais injusto da nossa História. Tudo o que fizeram à herdade e ao Palácio do Duque de Lafões, que este filme retrata de uma forma comovente de tão real e dramática, é culpa de Salazar, da sua avareza e do seu desamor ao povo português.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Elogio a um homem de carácter


Como a desgraça não está sempre atrás da porta finalmente a sorte protegeu-o e as receitas antecipadas da EDP vão permitir que ele mostre aos escalabitanos obra feita para, se quiser, ganhar um segundo mandato desta vez com maioria absoluta.Diz o povo que a maioria dos nossos melhores amigos são, ou foram, aqueles de quem mais desdenhamos. Eu não acredito nesta máxima embora não tenha por hábito desvalorizar os ditados populares. Pelo que me conheço nunca foi assim comigo. Sou capaz de tentar encostar um amigo à parede se tiver razões muito fortes para isso. Mas se ele se encosta está tramado: ter amigos fracos não é o meu forte.
Toda esta conversa porque, ultimamente, tenho reparado com mais atenção que o meu amigo Francisco Moita Flores tem passado dias difíceis à frente do executivo da Câmara de Santarém.
É público que apoiei pessoalmente a sua candidatura e que sou seu amigo.Ter inimigos fortes e empenhados em nos destruir, como foi o caso do anterior presidente da Câmara de Santarém, pode ser uma boa oportunidade para fazermos novos e melhores amigos. Este é o meu melhor exemplo.
Graças ao uso abusivo do poder, à ignorância do político que o PS escolheu para governar os destinos da autarquia escalabitana, tive oportunidade de conhecer melhor Francisco Moita Flores, um homem que faz da política um exercício de cidadania, para além de um ser humano de excepcionais qualidades.
Não sei o suficiente, porque julgo que nem ele saberá, se Moita Flores se recandidata a um novo mandato. Nesta altura, como sou seu amigo, isso é o que menos me interessa. Nem estou preocupado por não saber quem vai ser o próximo timoneiro da Câmara de Santarém, já com as vantagens adquiridas com a aprovação, para breve, da nova lei eleitoral que vai dar grandes vantagens a quem ganhar as eleições nem que seja por um voto a mais.
Se o PS ou o PSD, ou outro qualquer partido, conseguirem mobilizar alguém com a elevação de carácter, inteligência e sabedoria que quase todos reconhecemos em Francisco Moita Flores, Santarém nunca mais voltará ao tempo da apagada e vil tristeza dos anteriores executivos socialistas.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Os livros, a festa brava e o futebol

A ligação entre a literatura e a festa brava está bem documentada nos romances de Ernest Hemingway, nas telas e textos poéticos de Picasso, entre muitos outros. Mas não é só ao nível dos grandes artistas que estas duas artes se fundem. No seio de uma família dita normal, como é a minha, também se pode sentir a forte ligação entre o mundo das touradas e a literatura. Eu explico. Um dia destes participei numa tertúlia literária com escritores e jornalistas da moda. Durante duas horas entretive a minha fraca vaidade no meio de uma trintena de assistentes, entre os quais se encontravam meia dúzia de manequins que foram dar um brilho diferente à apresentação dos livros para este Verão.
O mundo à volta dos livros é verdadeiramente cinematográfico. Os escritores na sua grande maioria são tipos esquisitos. Os críticos têm um buraquinho ao fundo das costas por onde regra geral não cabe uma agulha. E os jornalistas de serviço à cultura são verdadeiros peralvilhos. Os grandes editores não têm rosto e quando têm é de cera. Os distribuidores de livros são, regra geral, uns falidos. Só para as livrarias e os leitores é que me faltam adjectivos. Ou por outra: deixem-me poupar palavras.
Tinha a memória ainda fresca deste fim de tarde passado no centro do mundo quando, à noite, em casa, depois de ter partilhado esta experiência, um dos meus filhos começou a fazer o relato entusiasmado de uma viagem a Badajoz para ver uma corrida de toiros. Desta vez foi ela que foi parca em palavras. Mas deu para perceber o encanto que lhe tinha despertado aquele mundo dos toiros e dos homens que, não sendo toureiros, nem cavaleiros nem forcados, são tudo isso e mais um par de chocas, tal é orgulho que sentem por pertencerem a um mundo verdadeiramente fantástico que tudo deve à arte e à fantasia. Tudo como na boa literatura.
Em tempos que já lá vão também viajei nestas nuvens. E nem imaginam como eu me entregava ao sonho. Ainda hoje sou capaz de me perder de amores pela festa brava, principalmente se vejo um jovem toureiro a usar o capote como as mulheres usam os olhos para conquistarem os homens. Mas, deixem que vos diga: o mundo da festa brava ao nível das relações humanas é igual, ou pior, ao ambiente dentro de campo nos jogos do campeonato do INATEL do meu tempo de jogador de futebol.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Em Setembro teremos novidades


Em pleno Agosto, quando o país fecha para férias, tenho a agenda cheia de apontamentos e de assuntos para agarrar com as duas mãos. Mas não é isso que me impede de comparecer a uma segunda-feira a meio da tarde numa consulta médica de rotina. O médico atrasou-se duas horas. Nesse tempo consultei mais de uma dúzia de revistas e recolhi apontamentos para não perder de vista assuntos que também podem ser abordados no nosso jornal de uma forma a interessarem os leitores da nossa região. Pelo telefone ajudei a acabar um texto e a finalizar dois ou três contactos. Atendi algumas chamadas de rotina e acompanhei os últimos desenvolvimentos da nossa conturbada relação com a gráfica.Às nove horas da noite, quando estou a sair do edifício do jornal, vou à sala dos comerciais e vejo um colega de trabalho a receber uma chamada. Do outro lado do telefone contam-se histórias de vida que parecem retiradas de um filme. Não sei se vamos contar a história tal é o dramatismo da situação e os problemas que estão por detrás da jovem que resolveu ligar-nos. O Marco Rodrigues não é jornalista nem nunca quis ser. Mas enquanto mantém um diálogo com a jovem faz um trabalho que me surpreende e faz pensar: ser jornalista não é só uma profissão: é um privilégio.
Escrevo estas linhas na véspera da saída da última edição de O MIRANTE em pleno labor para que o fecho do jornal decorra sem falhas e com o interesse que cada edição de O MIRANTE merece ter. Como sempre as questões da política preenchem uma boa parte do nosso quotidiano. Mas os jornalistas da Redacção sabem que não podem sustentar o seu trabalho apenas no que vão ouvir às reuniões de câmara e muito menos no interesse que os políticos julgam ter quando nos convocam para conferências de imprensa onde repetem o óbvio e o habitual.
Já não sei o que fiz ao papel onde tomei alguma notas para dar à Joana que anda a escrever a sua tese de licenciatura. Mas não perdi as duas folhas que rasguei de uma revista, praticando uma maldade que tanto condeno aos outros. Eram duas histórias que eu tinha que trazer no bolso para mostrar o quanto andamos distraídos no nosso próprio quintal e deixamos por conta dos outros o trabalho que nos pertence.
Se tivesse mais espaço contava com mais pimenta o que me aconteceu neste dia e me fez voltar a escrever para o umbigo. Em Setembro vamos dar uma vida nova ao nosso projecto mostrando que não andamos cá só para ver andar os outros.