quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Um exemplo de cidadania


A Dona Luísa Moutinho do Casal do Freixo, em Vialonga, foi à sessão de discussão pública do PDM de Vila Franca de Xira fazer o seu trabalho de casa desfolhando o rol de problemas que afectam os moradores em que ela se inclui com orgulho, há quase meio século.
Numa intervenção cheia de pronúncia, com a memória das matérias escritas em papel quadriculado, mas com os assuntos na ponta da língua, a Dona Luísa Moutinho falou durante cerca de vinte minutos para uma plateia que enchia o auditório do clube desportivo da terra. Embora os casos problemáticos do Casal do Freixo não tivessem nada a ver com o tema da sessão, e os interesses dos munícipes, a verdade é que a Dona Luísa Moutinho marcou pontos.
Senhora presidenta para ali, senhora presidenta para acolá, Luísa Moutinho viu-se em palpos de aranha quando chegou a hora de se dirigir ao vereador Alberto Mesquita, para o qual também levava alguns recados que tinham a ver com a vida difícil de quem mora no Casal do Freixo.
Como lhe deve ter ficado no ouvido, na apresentação dos membros da mesa, que Alberto Mesquita ocupa o cargo de vice-presidente da câmara, a Dona Luísa Moutinho não esteve com meias medidas; dirigiu-lhe a palavra e toca de o tratar por senhor presidente. Não tendo a certeza de que o trato estivesse a condizer com o estatuto do vereador justificou-se dizendo alto e bom som que se ele estava na mesa, que dirigia os trabalhos, ao lado da presidenta só poderia ser o presidente.
A gargalhada na sala foi quase geral. Mas não foi isso que a inibiu de continuar a contar as desgraças do Casal do Freixo que é um lugar desprezado pelos senhores da política que não têm em conta a qualidade de vida de quem lá mora há quase meio século e viu nascer a Vialonga destes novos tempos.
É sobre a gargalhada quase geral que quero falar. Rir faz bem à saúde. Sorrir faz com que o sangue circule melhor nas veias. Uma boa gargalhada pode derrubar uma muralha. Mas há alturas em conta que o povo não sabe do que ri quando ri de si próprio. E foi com essa sensação que eu fiquei quando a Dona Luísa Moutinho chegou ao fim do seu discurso e os membros da Assembleia de Freguesia de Vialonga, que estavam presentes na sala, deixaram de abanar a cabeça e de dizer em surdina “mas o que é que isto tem a ver com o PDM”.
De verdade não tinha. Mas de todas as intervenções que ouvi nas discussões do PDM de Vila Franca de Xira esta foi uma daquelas que mais me encheu as medidas. O resto não foi palha não senhor. Mas ouvi muita conversa rasteira que em nada contribuiu para os problemas do Casal do Freixo e das pessoas como a Dona Luísa Moutinho. Se todos os cidadãos cumprissem a sua parte, como ela cumpriu à sua maneira, outro galo cantaria na organização do nosso território e na preservação de uma certa qualidade de vida que os especuladores imobiliários destroem como quem faz a vindima todos os anos.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Os que fazem a diferença


Uma das crónicas publicadas neste espaço esteve na origem de um telefonema de um político de Vila Franca de Xira que ligou indignado porque eu não estava a ser justo na minha opinião.
Não costumo reagir mal quando me ligam, principalmente para o telemóvel, nomeadamente quando é para falar de trabalho. Posso não estar disponível na altura e responder com poucas palavras, ou com o silêncio, se a conversa me cheirar a esturro. Mas depressa dou o braço a torcer. Ninguém vive sozinho, gosta de ficar a falar sozinho, pode governar sozinho e jamais será feliz isolado do mundo.
Mas é curioso como os políticos aparecem só quando muito bem entendem. E quando aparecem é para contestarem artigos de opinião. Na semana em que escrevi a crónica O MIRANTE publicava três páginas sobre o assunto da crónica. Quem me ligou ignorou o trabalho editorial que fizemos no concelho. A sua grande preocupação foi telefonar-me e chamar-me injusto. Não quis deixar o assunto apenas entre mim e os meus botões porque o achei uma boa introdução para deixar aqui um elogio que me parece justo.
As federações distritais do PSD e do PS de Santarém têm nesta altura dois presidentes que fazem a diferença. Vasco Cunha é um político de excepção a dialogar e a trabalhar. Pelo que vou sabendo também faz a diferença a dirigir. É guerreiro mas não é de guerras. É bom homem mas não é parvo. É aparentemente uma pessoa um pouco discreta demais para o exercício de um cargo político mas, com os anos que já leva de trabalho, a verdade é que está a fazer a diferença. E para melhor. Foi já no seu mandato que Moita Flores ganhou a Câmara de Santarém. Foi a partir da altura que tomou conta da distrital que o partido começou a comunicar. Chegam à redacção de O MIRANTE, em média, dois press por semana. E não é só propaganda. São actas de reuniões de trabalho, informações que ajudam a perceber como vai a actividade partidária no distrito.
Paulo Fonseca tomou agora conta da distrital de um partido que não sabe o que é comunicar com os jornais. O PS não existe como partido político no contacto com os órgãos de comunicação social. Mas se quisermos falar do político Paulo Fonseca a coisa pia mais fino. Compará-lo com o anterior presidente da distrital, António Rodrigues, é comparar alhos com bugalhos. Paulo Fonseca como político é educado, um homem de respeito, um Senhor no trato, um político que também faz a diferença.
O PS é um saco de gatos há muitos anos. Paulo Fonseca tem algumas responsabilidades uma vez que já ocupou o lugar e, na altura, não fez com que se notasse a diferença. O seu percurso como governador civil deu-lhe crédito e estatuto. Não admira que tenha convencido os seus camaradas que é a pessoa certa para o lugar certo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Duas feiras... duas políticas


Vem aí a Feira de S. Martinho na Golegã. Embora tenha boas recordações da feira de outros tempos reconheço que as alterações que a Feira Nacional do Cavalo tem sofrido nos últimos anos beneficiaram o certame e deram mais dignidade ao evento.
José Veiga Maltez, o presidente da câmara municipal, conhece bem a sua terra e as suas gentes, é um homem de bom gosto, e não facilita se tiver que optar entre a vontade popular e a sua convicção de que aquilo que ele pensa e quer é o que melhor serve a terra e as tradições.
Veiga Maltez conhece bem a vizinha Espanha e sabe como os espanhóis fizeram evoluir muitas das suas iniciativas tradicionais de forma a evoluírem para organizações mais profissionais e dignas de figurarem nos calendários internacionais, como é o caso da Feira Nacional do Cavalo.
A Golegã é um dos concelhos mais pequenos da região. Tem um orçamento minúsculo em relação a outros concelhos vizinhos. Mas quando toca a trabalhar, a organizar e a mostrar obra, o bom gosto e a prática dos bons costumes, a par da dedicação e do profissionalismo, são muito mais importantes que o dinheiro.
Em Santarém, só para dar um exemplo, nunca faltou dinheiro para nada. E veja-se no que se transformou a Feira Nacional de Agricultura; veja-se a miséria que os homens da CAP instalaram no CNEMA.
A guerra surda que Luís Mira e João Machado, os senhores da CAP, fazem à gestão de Francisco Moita Flores é um caso de polícia. Santarém está a ser roubada todos os dias e aquela administração usa o dinheiro da autarquia para promover guerras contra quem a representa e a dignifica.
Se há entidades que merecem ter uma palavra a dizer na Feira Nacional da Agricultura e Feira do Ribatejo é a Câmara de Santarém. Não os políticos de quem os senhores da CAP mais gostam. Não os pacóvios da política que eles manobraram durante muitos e muitos anos, de forma a servirem-se da feira e dos superiores interesses de Santarém e da sua população.
A Feira de S. Martinho é a festa que mais e melhor dignifica a região e mostra o que de melhor existe por cá. A sua organização não depende de interesses que passem ao lado dos superiores interesses do concelho. Ali o que conta são os interesses da Golegã, a dignificação do evento e, cada vez mais, os interesses da pequena economia local que aproveita para facturar. A pequena e acolhedora vila da Golegã transforma-se por alguns dias na capital portuguesa. Passam por ali milhares de pessoas. Portugal está ali representado no seu melhor (esquecemos, por agora, que o seu pior também lá estará, embora travestido). Nos próximos dias sou goleganense do coração. E vou provar a água-pé numa adega da vila para não perder o sabor dos meus verdes anos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Os políticos locais e as políticas de proximidade


Tenho a pior impressão dos políticos que nos governam desde o Terreiro do Paço à Assembleia da República. Na casa da democracia o que não faltam são democratas que em vez de governarem o país trabalham para escritórios de advogados e acumulam lugares de administradores em grandes empresas que vivem dos negócios com o Estado e da  influência que os deputados têm junto dos governantes.
A Assembleia da República, a casa da democracia, é um ninho de empresários e administradores de empresas. Estou certo que, com uma boa divulgação pública sobre o trabalho extra dos deputados, o país entraria em estado de choque com os políticos que temos e com a rede de influências que eles representam.
Tenho a melhor opinião sobre os políticos de proximidade, nomeadamente os presidentes de junta, os eleitos das assembleias municipais e de freguesia, os presidentes de câmara. Num e noutro caso há, como é normal, as excepções que confirmam a regra.
Tenho assistido com alguma regularidade aos debates sobre o PDM (Plano Director Municipal) que  a autarquia liderada por Maria da Luz Rosinha resolveu levar a todas as freguesias do concelho. Na primeira jornada, que decorreu em Alverca, o debate foi uma desgraça. Em Vila Franca de Xira não foi muito melhor. Os políticos da oposição e os agentes da sociedade civil em vez de fazerem o trabalho de casa, e apresentarem e defenderem casos concretos, vão para as sessões fazer política pura e dura, com discursos muito bem elaborados e muito bem pensados mas, em nenhuma situação apresentaram um caso, um único caso, em que se tenha percebido que eles representavam os interesses dos munícipes prejudicados pelos eventuais erros ou omissões do PDM.
Os políticos locais são os guardiães dos interesses das populações. O que eles não puderem fazer por cada munícipe, em cada rua e em cada esquina do concelho, mais ninguém fará. Já vamos na sétima sessão e ainda não vimos um político local a pedir  a palavra para falar em nome de um munícipe, de uma associação ou de um grupo de munícipes, com os interessados atrás de si sentindo-se representados. Não é por acaso que os políticos de proximidade ganham quase sempre as eleições quando se recandidatam. Eles sabem falar com o povo, sabem aproveitar os mecanismos que os aproximam dos munícipes. Ao contrário, os políticos da oposição só sabem discursar e divergir. O problema deles é na rua, no contacto com as populações, na interacção com os munícipes, na forma como (não) passam a mensagem para fora.
As grandes questões do PDM de Vila Franca já estão decididas. Por isso é que é triste ver os políticos da oposição e os agentes das associações mais preocupados em exibir os seus dotes de polemistas que a pedirem a palavra para falarem em nome dos munícipes de forma a levarem a Carta a Garcia. 

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Jerónimo de Sousa no meu jardim


Há vinte e cinco anos uma das mulheres mais ricas da minha terra olhou da janela da minha casa para a rua, onde a vinte metros existe um jardim público, e desabafou: vocês são uns sortudos. Que sorte a vossa terem um jardim à porta de casa, um jardim tão bonito para usufruírem quando querem, sem terem que pagar a jardineiros nem fazerem contas às despesas com a água.
A pessoa em causa tinha um jardim espectacular, que eu conheci na infância, e onde imaginei muitas vezes que era ali que se encontravam os poetas e as musas, os cães de guarda e os faisões, os patos e os cavalos brancos, todos eles a competirem para terem direito a transportarem no dorso, uma vez por dia, a criança que eu era nos meus sonhos.
Realmente moro numa terra privilegiada e num local de que não me queixo. E confesso a minha felicidade por morar paredes-meias com um jardim e não com uma estrada nacional ou uma grande urbanização. Daí que tenha tomado boa nota da observação. E que nunca a tenha esquecido. O meu jardim à porta de casa, apesar de ser público, foi motivo suficiente para que alguém, que tinha um jardim privado, muito maior e mais bonito, não escondesse um certo sentimento que nos fez rir. Um sorriso que não foi espelhado porque a pessoa em causa era nossa amiga, estava com certeza a dizer aquilo com a melhor das intenções, e a sua idade e estatuto na altura também lhe permitia meter-se connosco e com a nossa sorte.
Vem tudo isto a propósito porque o tio Jerónimo de Sousa esteve no passado domingo no meu jardim a falar ao povo da minha terra em cima de um palanque acompanhado pelo presidente da câmara, Sérgio Carrinho. Foi lá dizer com toda a autoridade que o Sócrates anda a dar aos banqueiros, que dizem que estão falidos, o dinheiro do Estado que devia ser para apoiar a crise dos pobres. Há anos que as televisões e os jornais noticiam que os bancos têm lucros fabulosos com a ajuda, é claro, daquilo que nos roubam nos juros e nos arredondamentos e nas despesas. A economia dá um tombo, os banqueiros choram lágrimas de crocodilo, e lá vai o Governo a correr financiar os capitalistas. Dinheiro para os pequenos empresários, para quem cria emprego, para quem precisa de recorrer à justiça e aos serviços de saúde, isso é só para dois mil e troca o passo. Urgente, urgente é ajudar os banqueiros com alguns milhões.
Bendito Jerónimo. Nunca estive tão de acordo com ele. Que volte ao meu jardim logo que possa. É sempre bem-vindo. Mesmo trazendo atrás de si uns tipos em festa (o encontro foi logo a seguir ao almoço) que fizeram mais barulho que os pássaros do meu jardim logo pela manhã.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Os empresários que merecem prémios


Sou a favor da regionalização, ou descentralização, como lhe queiram chamar, e acho que nunca mais seremos um país próspero e mais justo se não acabarmos com o poder excessivo do Terreiro do Paço e estas divisões administrativas que só nos embaraçam e envergonham à luz do que se passa noutros países da Europa.
Vivemos na região mais rica do país. Estamos a dezenas de quilómetros de Lisboa, temos uma centralidade invejável, um vasto território cheio de pessoas e de condições para prosperar. Se não nos unirmos e não formos um pouco melhor do que temos sido como empresários, políticos e sociedade civil, bem podemos editar jornais, fomentar o associativismo, entregar prémios, que nem assim passaremos da cepa torta.
Não quero exagerar falando de O MIRANTE mas permitam que na hora em que estamos a premiar o trabalho e o mérito demos como exemplo o nosso trabalho uma vez que O MIRANTE, a partir de determinada altura, deixou de ter medo das distâncias que separam os concelhos. Quem faz a gestão de O MIRANTE acreditou que um jornalista que viva em Tomar pode perfeitamente unir-se a um que viva em Vila Franca de Xira e trabalharem integrados numa mesma equipa, debaixo do mesmo tecto, construindo um projecto que é exemplar a nível nacional e o maior fornecedor de mão de obra para as televisões, e para os seus programas da manhã e da tarde, precisamente porque somos a voz dos cidadãos e, depois do nosso trabalho, a que se chama jornalismo de proximidade, outras portas se abrem à divulgação e visibilidade dos acontecimentos.
Temos muitas razões para acreditar no tecido económico da região do Vale do Tejo. Mas falta massa cinzenta. Dou-vos um exemplo: não há empresários, nem políticos, nem activistas culturais a disputarem um espaço de opinião nos jornais da região para falarem sobre assuntos que interessem à generalidade das pessoas e que se ouçam ou leiam fora de portas.
Não há massa crítica suficiente no nosso meio. Mas a culpa não é dos empresários. Temos obrigação de estar atentos mas não podemos ser pau para toda a obra. 
Como todos eventualmente já repararam o pavilhão de
O MIRANTE na FERSANT tem algumas imagens de homens que foram premiados nas várias edições do Galardão. Alguns receberam com lágrimas este galardão e disseram que “parar era morrer” e, por isso, trabalhavam e continuaram a trabalhar para merecerem o prémio. Há ali pessoas nas fotografias que abracei e com quem falei de projectos de vida e de sonhos, apesar da idade um pouco mais avançada do que a minha. Alguns deles já morreram. Nada disso impede que estejamos aqui a festejar a vida e o trabalho. É esta iniciativa que permite que os recordemos. É o êxito do trabalho dos premiados e, ao mesmo tempo, o êxito desta iniciativa, que permite que os recordemos publicamente e que possamos ao longo dos próximos anos continuar a prestar-lhes homenagem. 



Este texto é parte de uma intervenção realizada no passado dia 10 na entrega do Galardão Empresa do Ano, que se realizou pela oitava vez, que também é notícia nesta edição.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O crime compensa


Ando empenhado em ajudar quem me ajuda a receber uma dívida que remonta aos anos de 2002 e 2003. O que oiço para justificar o calote é de bradar aos céus. O que me dizem para justificar o tempo que ainda vamos ter que esperar para nos pagarem deixa-me de mãos a abanar e de espírito perturbado. Oiço uma voz que me diz que tenho razão em pedir que os casos sejam denunciados ao Ministério Público mas logo a mesma pessoa adianta que isso não é possível porque a instituição iria à falência com uma chuva de auditorias que a tornariam ingovernável. “Se tivesses a cabeça formatada para as questões do Direito perceberias porque não é possível partir a loiça e chamar os bois pelos nomes e denunciar os irresponsáveis e os corruptos que estragam a nossa vida pública”, diz a voz amiga que tenta resolver-nos o problema.
Estou de regresso à minha secretária no jornal e não me apetece mexer uma palha. Minutos depois começo a entrevistar dois candidatos a jornalista para reforçarem a equipa de O MIRANTE. Um deles deixa-me como novo depois de dar a perceber que tem sangue na guelra. Lá em cima, na redacção, os jornalistas trabalham os últimos textos para mais uma edição. Chamam-me ao telefone para perguntar se quero dar uma vista de olhos no texto da última página e a minha resposta é não. Já estou a trabalhar para a edição das próximas semanas.
Nunca almocei no Solar dos Presuntos nem ao balcão do Gambrinuis mas vou com regularidade ao Rossio, em Lisboa, comer uma sopa à lavrador e um lombinho magro. Como de pé como toda a gente.
Há quase trinta anos que conheço aquele corredor restaurante com um balcão ao meio. Eu bebo uma cerveja preta sem álcool mas a maioria dos frequentadores bebem imperial ou vinho tinto.
É ali que aprendo a mastigar devagar para não engolir muito oxigénio e evitar os gases. É ali, àquele balcão onde come o vagabundo, o pobre e o remediado, que gosto de treinar o estômago para os momentos difíceis da vida.

No teatro das nossas vidas, regra geral, as sessões são de manhã, à tarde e à noite. Ali, naquele espaço que mais parece um teatro de bolso que um restaurante, as sessões são contínuas, começam e acabam com o nascer e o pôr-do-sol e, na grande maioria das vezes, a peça é para maiores de idade.
Tudo o que aprendi de importante à hora do almoço foi a comer de pé ao lado de gente que paga com trocados, estala a língua depois de saborear, e não tem que olhar para o lado se um arroto mais barulhento lhe sair da boca.
Esta crónica é dedicada ao senhor Josué, o homem que na passada segunda feira, antes de mandar vir a sopa à lavrador e um pastel de bacalhau, me cumprimentou respeitosamente depois de um reencontro que já não acontecia há uns bons anos.