No Palácio Marquês da Fronteira, em São Domingos de Benfica, Lisboa, voltei ao teatro que não o da Politécnica, o Maria Matos, o São Luís ou o Recreios da Amadora, só para citar algumas salas que costumo frequentar. O teatro interessa-me mais pelos actores do que pelas peças. Vou ao teatro para ver representar os meus actores preferidos e observar o trabalho dos meus encenadores de eleição.
A recente visita ao Palácio Marquês da Fronteira (ler página 23 desta edição) tinha como objectivo ver em cena Victor Hugo, Alexandra Carvalho e Humberto Machado, que já conheço de outras representações, para além do trabalho de Carlos Carvalheiro de quem vou ouvindo elogios e que conseguiu por de pé um projecto fora de Lisboa com actores amadores de fora de Lisboa de que haverá muitos poucos exemplos em Portugal.
Cheguei quase uma hora mais cedo ao Palácio para me encontrar com o Victor Hugo que deixou crescer a barba, farta e branca para melhor representar o Rei Lear. E valeu a pena, tanto a hora de conversa como as duas horas de teatro e passeio pelo palácio. De verdade cheguei ao Palácio/residência de José de Mascarenhas eram cerca de 16h00 e só retornei ao Largo da Estefânia, onde tenho um esconderijo, já passava das 21h00.
Ouvi, no meio de tanta conversa, a pergunta habitual sobre se estava a ver o teatro como jornalista ou como simples espectador; mas ouvi acima de tudo o Victor Hugo falar de si e da sua santa terrinha, que também é a minha, com o desencanto que comungo mas ao qual não dou qualquer importância. Foi uma conversa para matar o tempo, beber vinho branco, comer um rissol e fumar dois cigarros; mas deu para perceber o que vai na alma de um homem a caminho dos oitenta anos que ainda faz teatro com uma atitude e uma energia que nos espanta.
Na nossa conversa sobre sentimentos, bairrismos, colectividades e cidadania deu para perceber que vivemos em mundos diferentes e que a minha opinião não coincide com a dele nem o meu espírito está possuído do mesmo Deus que nos alimenta a alma. Mesmo assim, no reencontro depois da representação, quando lhe dei os parabéns pelo papel que tinha acabado de desempenhar, a sua reacção surgiu em forma de pergunta: “não deixei mal a Chamusca pois não; achas que representei bem a nossa terra?” JAE
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
A emoção depois da noite eleitoral
Confiando que ainda tenho leitores exigentes não arrisco escrever uma crónica, depois de eleições, sem que o tema seja a emoção que ficou da noite eleitoral. Confesso que nunca vivi de forma tão desinteressada umas eleições legislativas. Mas o problema é meu que estou a ficar desencantado. Um dia isto passa e espero que seja depressa. Na nossa região os principais candidatos das listas dos dois principais partidos são gente sem alma e sem história. O PS tem como principal figura distrital um advogado que acabou de ser condenado em tribunal, em primeira instância, num processo com contornos muito estranhos; e não foi por acaso que o PS teve nestas eleições, no concelho de Ourém, a mais fraca votação de sempre em eleições legislativas. Idália Serrão é uma funcionária da política e não se lhe conhece qualquer profissão se um dia lhe tirarem o “tacho”. O PSD tem na figura de Nuno Serra o mais ‘Pepsodent’ dos sorrisos e a mais calada das bocas. O camarada Duarte Marques, que é o líder distrital de verdade mas aparece como segundo, está tão empenhado na discussão dos problemas na região como eu estou interessado em escrever sobre Pangarés. No seu concelho (Mação) o PSD perdeu 32% dos votos em relação a 2011. Dá para perceber o ego destes jovens republicanos?
Vi nas televisões as mais fracas e tendenciosas reportagens. Os jornalistas fizeram de Ricardo Salgado, Armando Vara e José Sócrates figuras de primeira linha sem lhes colocarem uma única pergunta de interesse. Salgado saiu pela primeira vez à rua desde que está em prisão domiciliária. Ninguém lhe perguntou se tem visto as manifestações dos lesados do BES. Limitaram-se a filmar e às perguntas de quem faz jornalismo com muito respeitinho. Uma vergonha num país onde o Estado controla o jornalismo no audiovisual como se vivêssemos na Coreia do Norte.
António Costa perdeu as eleições mas não perdeu. Aconteceu o que é normal no PS. Vão contar-se espingardas nos próximos anos e o PS em vez de ser oposição vai afundar-se nas habituais lutas internas. Jerónimo de Sousa ainda vai levar a CDU aos números insignificantes do PDR. Entretanto vai cantando vitória aliado aos companheiros de Os Verdes que personificam a maior aldrabice em coligações eleitorais. A Coligação PSD/CDS que ganhou as eleições perdeu 800 mil votos em relação a 2011. Alguém tem dúvidas que se o PS tivesse uma direcção forte e propostas mais ousadas ganhava as eleições? Daqui a quatro anos quero o voto electrónico; uma nova Constituição da República; a reforma do Estado e deputados eleitos por círculos uninominais de forma a sabermos quem nos representa na Assembleia da República e a quem podemos pedir contas ao longo de quatro anos. JAE
Vi nas televisões as mais fracas e tendenciosas reportagens. Os jornalistas fizeram de Ricardo Salgado, Armando Vara e José Sócrates figuras de primeira linha sem lhes colocarem uma única pergunta de interesse. Salgado saiu pela primeira vez à rua desde que está em prisão domiciliária. Ninguém lhe perguntou se tem visto as manifestações dos lesados do BES. Limitaram-se a filmar e às perguntas de quem faz jornalismo com muito respeitinho. Uma vergonha num país onde o Estado controla o jornalismo no audiovisual como se vivêssemos na Coreia do Norte.
António Costa perdeu as eleições mas não perdeu. Aconteceu o que é normal no PS. Vão contar-se espingardas nos próximos anos e o PS em vez de ser oposição vai afundar-se nas habituais lutas internas. Jerónimo de Sousa ainda vai levar a CDU aos números insignificantes do PDR. Entretanto vai cantando vitória aliado aos companheiros de Os Verdes que personificam a maior aldrabice em coligações eleitorais. A Coligação PSD/CDS que ganhou as eleições perdeu 800 mil votos em relação a 2011. Alguém tem dúvidas que se o PS tivesse uma direcção forte e propostas mais ousadas ganhava as eleições? Daqui a quatro anos quero o voto electrónico; uma nova Constituição da República; a reforma do Estado e deputados eleitos por círculos uninominais de forma a sabermos quem nos representa na Assembleia da República e a quem podemos pedir contas ao longo de quatro anos. JAE
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
O Armando Alves, a Maria Viana e os “fraca roupas”
Voltei à cidade do Porto e à livraria de sempre. Quando entrei na loja, na manhã da última sexta-feira, reparei num homem alto e robusto de olhos pregados nas estantes da vasta colecção de livros de poesia. Mais de meia hora depois ainda lá estava observando, espreitando, remexendo. Reconheci-me nele. Às vezes também fico tempos infinitos a revisitar as lombadas dos livros à procura de um que, eventualmente, me tenha escapado e mereça fazer parte da minha vida. O facto de estar na livraria do editor e amigo José da Cruz Santos levou-me, cerca de uma hora depois, à conversa com o homem gigante e de sorriso aberto que tinha observado na primeira meia hora. Afinal era o Armando Alves, um dos mais conceituados artistas plásticos portugueses com uma vasta e importante Obra, em parte ligada a três editoras: Inova (1968); Limiar (1975) e Oiro do Dia (1980).
José da Cruz Santos ia falando comigo nos intervalos dos telefonemas e do atendimento do lado de fora do balcão. Sempre pedindo permissão para interromper a conversa. “Desculpe”; “Dá-me licença”. Foi assim até à última partilha e enquanto me foi apresentando ao Armando Alves que, entretanto, me convidou para visitar a sua casa e conhecer melhor a sua Obra.
Era meio-dia quando saí da livraria. Duas horas depois estava na Zona Industrial de Condeixa a comer um prego e a beber uma cerveja depois de uma visita à senhora da asneira. Ainda o sol cantava bem alto e já apanhava abrunhos e ameixas junto ao rio Tejo na Chamusca. Cerca das nove e meia da noite estava em Cascais, no espaço da Maria Viana, para a ouvir em mais um concerto, acompanhada pelo Nanã Sousa Dias. Muito curiosa a forma como ela me recebeu, já depois de ter falado ao João Almeida, da Antena 2, que transmitia o concerto em directo. “Há tanto tempo que não apareces”, como se eu fosse íntimo. De verdade ela é a cantora de serviço, a dona do espaço, a porteira e a principal empregada de mesa. Até enquanto cantava, de olhos fechados, uma canção de Ella Fitzgerald, Maria Viana tomava conta do negócio. E como ela é magistral a cantar e interpretar!!!!
Eram 11h30 quando saí à rua para dar de caras com o José Carlos de Vasconcelos que andava por ali a passear três livros debaixo do braço. Conversamos sobre livros, jornais e jornalistas durante meia hora até cada um ir à sua vida. O mais curioso da história deste dia de sexta-feira é o que fica por contar. Nas três horas de viagem entre Porto e Lisboa escrevi, de memória, uma crónica sobre o “fraca roupa” do vice-presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, Fernando Paulo Ferreira, que ainda não teve coragem de falar a O MIRANTE sobre os erros cometidos no Orçamento Participativo levando muitos dos seus eleitores à indignação. O outro “fraca roupa” que me atazanou o pensamento é presidente da junta de freguesia da cidade. Chama-se Mário Calado e surpreendeu-me pela negativa ao comprar espaço publicitário em cartazes gigantes dentro da cidade para fazer propaganda à sua Obra como político. Em vez de limpar a cidade dos cartazes que fazem do concelho de Vila Franca de Xira um concelho do terceiro mundo ainda contribui para a poluição. Este é um assunto que me interessa por isso numa próxima voltarei à “vaca fria”. JAE
José da Cruz Santos ia falando comigo nos intervalos dos telefonemas e do atendimento do lado de fora do balcão. Sempre pedindo permissão para interromper a conversa. “Desculpe”; “Dá-me licença”. Foi assim até à última partilha e enquanto me foi apresentando ao Armando Alves que, entretanto, me convidou para visitar a sua casa e conhecer melhor a sua Obra.
Era meio-dia quando saí da livraria. Duas horas depois estava na Zona Industrial de Condeixa a comer um prego e a beber uma cerveja depois de uma visita à senhora da asneira. Ainda o sol cantava bem alto e já apanhava abrunhos e ameixas junto ao rio Tejo na Chamusca. Cerca das nove e meia da noite estava em Cascais, no espaço da Maria Viana, para a ouvir em mais um concerto, acompanhada pelo Nanã Sousa Dias. Muito curiosa a forma como ela me recebeu, já depois de ter falado ao João Almeida, da Antena 2, que transmitia o concerto em directo. “Há tanto tempo que não apareces”, como se eu fosse íntimo. De verdade ela é a cantora de serviço, a dona do espaço, a porteira e a principal empregada de mesa. Até enquanto cantava, de olhos fechados, uma canção de Ella Fitzgerald, Maria Viana tomava conta do negócio. E como ela é magistral a cantar e interpretar!!!!
Eram 11h30 quando saí à rua para dar de caras com o José Carlos de Vasconcelos que andava por ali a passear três livros debaixo do braço. Conversamos sobre livros, jornais e jornalistas durante meia hora até cada um ir à sua vida. O mais curioso da história deste dia de sexta-feira é o que fica por contar. Nas três horas de viagem entre Porto e Lisboa escrevi, de memória, uma crónica sobre o “fraca roupa” do vice-presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, Fernando Paulo Ferreira, que ainda não teve coragem de falar a O MIRANTE sobre os erros cometidos no Orçamento Participativo levando muitos dos seus eleitores à indignação. O outro “fraca roupa” que me atazanou o pensamento é presidente da junta de freguesia da cidade. Chama-se Mário Calado e surpreendeu-me pela negativa ao comprar espaço publicitário em cartazes gigantes dentro da cidade para fazer propaganda à sua Obra como político. Em vez de limpar a cidade dos cartazes que fazem do concelho de Vila Franca de Xira um concelho do terceiro mundo ainda contribui para a poluição. Este é um assunto que me interessa por isso numa próxima voltarei à “vaca fria”. JAE
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
Os sírios, os moçambicanos e os ribatejanos
Há cerca de dez anos fiz uma viagem a Moçambique para visitar a cidade de Nampula. Dormi uma noite no melhor hotel da cidade que tinha lençóis da cor do carvão, um velho e ferrugento regador como chuveiro instalado num cubículo onde mal cabia um homem. Era ainda um hotel que passava factura mas sem número de contribuinte. Em oito dias comi mais lagosta que em toda a minha vida. Tive uma boa recompensa: sofri uma diarreia que se manifestou em início de viagem numa carrinha 4X4, em estrada de mato, numa distância de mais de 300 quilómetros. Posso dizer, com certeza, que foram as 24 horas mais difíceis da minha vida de viajante.
No último dia da nossa estadia em Nampula fomos almoçar à mata, no meio de uma pequena aldeia, e comemos da panela dos nativos. Éramos cerca de uma dúzia de pessoas e do que me lembro ninguém ficou chocado com a triste realidade que ainda hoje me azeda o espírito. Duas mulheres jovens passeavam entre nós com dois filhos presos à cintura com mais moscas no rosto que abelhas à volta de um cortiço. Das duas ou três vezes que fiz das mãos abanos as moscas nem abriram as asas. Estavam literalmente em cima de rostos quase cadáveres e em vez de moscas pareciam carraças. Não guardei as feições das crianças mas guardei as imagens do sono profundo em que pareciam mergulhadas como se o colo das mães fosse o lugar mais seguro do mundo. De verdade era apenas uma cintura onde as passeavam, já insensíveis à dor e à proximidade da morte.
Lembrei-me deste triste episódio quando alguém muito recentemente sugeriu que perguntássemos aos presidentes das nossas freguesias rurais como é que eles se estão a preparar para o acolhimento de refugiados da Síria. “Era interessante saber como é que o presidente da Junta da Azinhaga, da Moçarria, de Envendos ou do Chouto, lugares onde até as moscas têm melhor vida que as cigarras, se preparam para a ajuda humanitária.”
A minha convicção é que não se preparam nem têm como se preparar. Alguns até são responsáveis por centros de apoio a crianças e a velhos mas nenhum tem orçamento ou instalações para acolher refugiados. E não vale a pena dourar a pílula; se os refugiados sírios precisarem dos ribatejanos para se livrarem da miséria e da guerra vão ter que aprender rápido a cavar terra para batatas.
Não sou retornado mas vivi na época o drama de alguns retornados das antigas colónias. De boa vontade e de coração aberto não me importaria de ajudar a acolher crianças moçambicanas, ou sírias, que morrem de fome e de doenças de que já ninguém se lembra em Portugal. JAE
No último dia da nossa estadia em Nampula fomos almoçar à mata, no meio de uma pequena aldeia, e comemos da panela dos nativos. Éramos cerca de uma dúzia de pessoas e do que me lembro ninguém ficou chocado com a triste realidade que ainda hoje me azeda o espírito. Duas mulheres jovens passeavam entre nós com dois filhos presos à cintura com mais moscas no rosto que abelhas à volta de um cortiço. Das duas ou três vezes que fiz das mãos abanos as moscas nem abriram as asas. Estavam literalmente em cima de rostos quase cadáveres e em vez de moscas pareciam carraças. Não guardei as feições das crianças mas guardei as imagens do sono profundo em que pareciam mergulhadas como se o colo das mães fosse o lugar mais seguro do mundo. De verdade era apenas uma cintura onde as passeavam, já insensíveis à dor e à proximidade da morte.
Lembrei-me deste triste episódio quando alguém muito recentemente sugeriu que perguntássemos aos presidentes das nossas freguesias rurais como é que eles se estão a preparar para o acolhimento de refugiados da Síria. “Era interessante saber como é que o presidente da Junta da Azinhaga, da Moçarria, de Envendos ou do Chouto, lugares onde até as moscas têm melhor vida que as cigarras, se preparam para a ajuda humanitária.”
A minha convicção é que não se preparam nem têm como se preparar. Alguns até são responsáveis por centros de apoio a crianças e a velhos mas nenhum tem orçamento ou instalações para acolher refugiados. E não vale a pena dourar a pílula; se os refugiados sírios precisarem dos ribatejanos para se livrarem da miséria e da guerra vão ter que aprender rápido a cavar terra para batatas.
Não sou retornado mas vivi na época o drama de alguns retornados das antigas colónias. De boa vontade e de coração aberto não me importaria de ajudar a acolher crianças moçambicanas, ou sírias, que morrem de fome e de doenças de que já ninguém se lembra em Portugal. JAE
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
As cebolas de Rio Maior
A inauguração da Feira Nacional da Cebola que acompanhei um pouco à distância da comitiva oficial, de forma propositada, originou que acabasse a visita sem cumprimentar a maioria dos convidados. A comitiva era pequena mas os corredores por onde circulamos afastaram-me com facilidade e sem perder de vista os principais convidados do executivo de Rio Maior.
A presença discreta, que fiz questão de manter enquanto durou a maior parte da visita, deu para perceber que a maioria dos políticos, em maior número nesta cerimónia, só se aproximam para confraternizar e eventualmente cumprimentar aqueles que os procuram na cabeça do pelotão. Vão todos de fato e gravata, a cabeça entre os ombros, e quando não estão sozinhos a olhar para o chão ou para o membro do Governo convidado, procuram um camarada de partido a quem podem sempre roubar uma conversa ou apoiar as mãos nos ombros.
O facto de caminhar na cauda do pelotão permitiu-me ouvir algumas conversas de deputados e candidatos a deputados nas próximas eleições a espalharem charme junto de alguns expositores. Uma delas, a doutora Idália Serrão, uma das cebolas da política, estava tão embevecida na conversa com três expositores que a julguei a mais feliz dos mortais. No momento de passar por ela, e já depois de ter observado os cumprimentos e a aparente familiaridade, ouvi a apresentação formal. “Sou deputada da Assembleia da República. Estou aqui como convidada”. Nem queria acreditar que a doutora deputada tinha arriscado meter-se com três produtores de cebola de mãos calejadas e aparência simples contrastando com o seu habitual porte altivo e a sua figura muito conhecida da televisão como emplastro atrás dos lideres do PS, ao jeito de um homem do norte que é mais conhecido que o Pinto da Costa. Vi ainda alguns políticos aos pares a tirarem ‘selfies’ e a fotografarem a cerimónia com o telemóvel, provavelmente, para alimentarem a sua página do facebook.
Puxei por este texto para contar finalmente, e para rematar, que o convidado que mais me despertou a atenção foi o filho de Silvino Sequeira, antigo presidente da Câmara de Rio Maior, pai de um igualmente ilustre político da terra, João Sequeira, que é pessoa de confiança de António Costa e que já tem lugar garantido na Assembleia da República na próxima legislatura. É um dos mais jovens e promissores políticos da região. Para além de ser figura de relevo no Largo do Rato, onde é cumprimentado por senhor doutor por todos os funcionários do PS, é adorado em Rio Maior pelas pessoas mais velhas que o viram nascer e crescer e acham que, por ser filho de Silvino Sequeira, ainda vai alcançar um lugar honroso num qualquer governo do PS. Que se saiba, em toda a sua vida, nunca fez mais nada que política e jogos políticos. Tem um curso universitário, goza da boa fama de ser bom filho, usa roupa e óculos de marca e, segundo se diz, é tão vaidoso e convencido que um dia que chegue à idade do pai vai apagá-lo da História sem ele próprio dar por isso
Como toda a gente sabe a Feira da Cebola de Rio Maior deve o seu êxito aos produtores que vêm das Caldas da Rainha e arredores. Quem sabe os riomaiorenses não tenham em João Sequeira um mágico que transforme as salinas em campos de boa terra para plantar cebolas. Na política, e com esta notável geração de políticos, tudo é possível para bem das terras do interior. JAE
A presença discreta, que fiz questão de manter enquanto durou a maior parte da visita, deu para perceber que a maioria dos políticos, em maior número nesta cerimónia, só se aproximam para confraternizar e eventualmente cumprimentar aqueles que os procuram na cabeça do pelotão. Vão todos de fato e gravata, a cabeça entre os ombros, e quando não estão sozinhos a olhar para o chão ou para o membro do Governo convidado, procuram um camarada de partido a quem podem sempre roubar uma conversa ou apoiar as mãos nos ombros.
O facto de caminhar na cauda do pelotão permitiu-me ouvir algumas conversas de deputados e candidatos a deputados nas próximas eleições a espalharem charme junto de alguns expositores. Uma delas, a doutora Idália Serrão, uma das cebolas da política, estava tão embevecida na conversa com três expositores que a julguei a mais feliz dos mortais. No momento de passar por ela, e já depois de ter observado os cumprimentos e a aparente familiaridade, ouvi a apresentação formal. “Sou deputada da Assembleia da República. Estou aqui como convidada”. Nem queria acreditar que a doutora deputada tinha arriscado meter-se com três produtores de cebola de mãos calejadas e aparência simples contrastando com o seu habitual porte altivo e a sua figura muito conhecida da televisão como emplastro atrás dos lideres do PS, ao jeito de um homem do norte que é mais conhecido que o Pinto da Costa. Vi ainda alguns políticos aos pares a tirarem ‘selfies’ e a fotografarem a cerimónia com o telemóvel, provavelmente, para alimentarem a sua página do facebook.
Puxei por este texto para contar finalmente, e para rematar, que o convidado que mais me despertou a atenção foi o filho de Silvino Sequeira, antigo presidente da Câmara de Rio Maior, pai de um igualmente ilustre político da terra, João Sequeira, que é pessoa de confiança de António Costa e que já tem lugar garantido na Assembleia da República na próxima legislatura. É um dos mais jovens e promissores políticos da região. Para além de ser figura de relevo no Largo do Rato, onde é cumprimentado por senhor doutor por todos os funcionários do PS, é adorado em Rio Maior pelas pessoas mais velhas que o viram nascer e crescer e acham que, por ser filho de Silvino Sequeira, ainda vai alcançar um lugar honroso num qualquer governo do PS. Que se saiba, em toda a sua vida, nunca fez mais nada que política e jogos políticos. Tem um curso universitário, goza da boa fama de ser bom filho, usa roupa e óculos de marca e, segundo se diz, é tão vaidoso e convencido que um dia que chegue à idade do pai vai apagá-lo da História sem ele próprio dar por isso
Como toda a gente sabe a Feira da Cebola de Rio Maior deve o seu êxito aos produtores que vêm das Caldas da Rainha e arredores. Quem sabe os riomaiorenses não tenham em João Sequeira um mágico que transforme as salinas em campos de boa terra para plantar cebolas. Na política, e com esta notável geração de políticos, tudo é possível para bem das terras do interior. JAE
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
Deus descalço e em tronco nu
Mas que lindo mês de Agosto. O Entroncamento é a
terra do homem fenómeno José Canelo, campeão do mundo de atletismo em
maiores de 90 anos. Mas é em Coruche que duas ribeiras em território do
Couço (a ribeira de Sor e a ribeira de Raia) dão corpo e vida ao Rio
Sorraia que na segunda-feira, feriado municipal, recebeu um barco para
visitas guiadas à vila. Quem não acredita que veja o vídeo de O MIRANTE
TV publicado no sítio diário. É curioso como um rio que nasce de duas
ribeiras, aqui à nossa porta, tem tanta influência na vida de uma terra e
representa um investimento sempre em actualização. Há muitos outros que
têm o Tejo ao fim da rua onde moram e, ou fazem dele retrete, ou
ancoradouro para barcos, quando não é o caso de o ignorarem simplesmente
para proveito das indústrias que de vez em quando pintam a sua água da
cor do petróleo. E não falamos mais, por agora, de açudes que servem
como armadilhas para os peixes, obra de políticos que ainda hoje são
considerados como se tivessem sido autarcas modelo, quando não passaram
de simples fanfarrões na utilização dos dinheiros públicos em tempos de
vacas gordas.
Mas que lindo mês de Agosto. Luís Ferreira, o homem de Cem Soldos que põe de pé o Festival Bons Sons, merece que o apontemos como exemplo. Ao contrário do que é habitual em iniciativas culturais o Bons Sons não vive do favor dos políticos nem do dinheiro do orçamento público. Tem patrocinadores e paga-se com o dinheiro das entradas. Os políticos festeiros da nossa região deviam seguir o exemplo.
Em Dornes, ou na praia fluvial da aldeia do Mato ou em Constância, na confluência do Zêzere com o Tejo, a natureza é espectacular e é um privilégio viver nesta região do Ribatejo. No entanto estamos entregues a meia dúzia de políticos fraquinhos como decisores que vivem em “tocas e gaiolas” e só sabem promover-se a eles próprios. Dou o exemplo do Dr. Pombeiro que, enquanto presidente da Câmara da Barquinha, o melhor que fez foi dar o nome ao cais principal da vila, e agora é secretário executivo da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, um cargo que, para nossa maior desgraça, lhe dá ainda mais importância que o de presidente da Câmara da Barquinha.
Mas que lindo mês de Agosto. O rio Sorraia, que nasce de duas ribeiras em território do Couço, faz milagres em Coruche. No site “Viver o Tejo” da NERSANT há muito mais informação sobre lugares da nossa região onde Deus ainda anda descalço e em tronco nu.
Mas que lindo mês de Agosto era o princípio de uma frase chorada sobre o que é viver num país em que toda a gente se lamenta com falta de dinheiro e de trabalho mas assim que a pulga aperta vai a banhos para o Algarve e para a linha do Estoril. Mas também era sobre os campos do Ribatejo, onde nesta altura já se faz a vindima, ainda se apanha o tomate e o milho é o rei da paisagem. JAE
Mas que lindo mês de Agosto. Luís Ferreira, o homem de Cem Soldos que põe de pé o Festival Bons Sons, merece que o apontemos como exemplo. Ao contrário do que é habitual em iniciativas culturais o Bons Sons não vive do favor dos políticos nem do dinheiro do orçamento público. Tem patrocinadores e paga-se com o dinheiro das entradas. Os políticos festeiros da nossa região deviam seguir o exemplo.
Em Dornes, ou na praia fluvial da aldeia do Mato ou em Constância, na confluência do Zêzere com o Tejo, a natureza é espectacular e é um privilégio viver nesta região do Ribatejo. No entanto estamos entregues a meia dúzia de políticos fraquinhos como decisores que vivem em “tocas e gaiolas” e só sabem promover-se a eles próprios. Dou o exemplo do Dr. Pombeiro que, enquanto presidente da Câmara da Barquinha, o melhor que fez foi dar o nome ao cais principal da vila, e agora é secretário executivo da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, um cargo que, para nossa maior desgraça, lhe dá ainda mais importância que o de presidente da Câmara da Barquinha.
Mas que lindo mês de Agosto. O rio Sorraia, que nasce de duas ribeiras em território do Couço, faz milagres em Coruche. No site “Viver o Tejo” da NERSANT há muito mais informação sobre lugares da nossa região onde Deus ainda anda descalço e em tronco nu.
Mas que lindo mês de Agosto era o princípio de uma frase chorada sobre o que é viver num país em que toda a gente se lamenta com falta de dinheiro e de trabalho mas assim que a pulga aperta vai a banhos para o Algarve e para a linha do Estoril. Mas também era sobre os campos do Ribatejo, onde nesta altura já se faz a vindima, ainda se apanha o tomate e o milho é o rei da paisagem. JAE
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
“Poesia-me”
"Poesia-me”. A palavra está escrita num mural algures numa cidade que já esqueci o nome. Ainda hoje me sirvo dela. “Não estamos aqui para viver vidas úteis....mas belas”. Esta frase foi roubada de um livro e está escrita na minha testa para a ler quando me vejo ao espelho. Regra geral estou “aqui” quase sempre a fazer o contrário daquilo que os mestres ensinam; “O livro é um mudo que fala; um surdo que responde; um cego que guia; um morto que vive”. Palavras do Padre António Vieira que é autor do Sermão a Santa Iria de Santarém “na opinião do mundo, uma das virgens loucas que por isso excedeu singular e unicamente a todas as virgens prudentes”. A Obra está a ser reeditada mas o Sermão está na internet disponível para todos os que gostam de ler o mais sábio de todos os padres portugueses que foi condenado em 1667 pela Inquisição e privado de pregar em público, além de ser obrigado a passar cinco anos em degredo, em Roma. Um doloroso castigo pois os sermões transformaram Vieira, citando Fernando Pessoa, no “imperador da língua portuguesa”. A punição deu origem a uma amizade epistolar com Cristina Vasa, ex-rainha da Suécia, que foi morar em Roma depois de abdicar do trono. As cartas, muito eróticas, foram recentemente publicadas em livro, no Brasil, e são uma inspiração para qualquer cristão que se preze, vista batina ou calças de ganga.
O relatório diário da Mariana em Agosto é uma desilusão. Gosto de chegar ao fim do dia e ler os recados dos leitores zangados com a má distribuição do jornal, o recado do leitor azedo com a notícia que saiu incompleta, o telefonema anónimo a denunciar algo errado, as ordens dos leitores que muitas vezes entendem, e bem, que nós somos fraca-roupa e que, muitas vezes, ficamos nas covas. Em Agosto pára tudo. Até os telefonemas dos leitores a protestarem ou a sugerirem notícias. Vivemos num país que, como no tempo das vacas gordas, vai de férias em Agosto. Apesar de ter caído o Carmo e a Trindade com a prisão de José Sócrates e Ricardo Salgado, e de Mário Soares, o Papa da nossa democracia, ser visita assídua dos dois, Portugal vai de férias em Agosto e não discute o preço do hotel nem da diária. O Padre António Vieira gostaria certamente de alterar alguns dos seus sermões caso fosse Santo ao ponto de nos fazer uma visita a cada século. JAE
O relatório diário da Mariana em Agosto é uma desilusão. Gosto de chegar ao fim do dia e ler os recados dos leitores zangados com a má distribuição do jornal, o recado do leitor azedo com a notícia que saiu incompleta, o telefonema anónimo a denunciar algo errado, as ordens dos leitores que muitas vezes entendem, e bem, que nós somos fraca-roupa e que, muitas vezes, ficamos nas covas. Em Agosto pára tudo. Até os telefonemas dos leitores a protestarem ou a sugerirem notícias. Vivemos num país que, como no tempo das vacas gordas, vai de férias em Agosto. Apesar de ter caído o Carmo e a Trindade com a prisão de José Sócrates e Ricardo Salgado, e de Mário Soares, o Papa da nossa democracia, ser visita assídua dos dois, Portugal vai de férias em Agosto e não discute o preço do hotel nem da diária. O Padre António Vieira gostaria certamente de alterar alguns dos seus sermões caso fosse Santo ao ponto de nos fazer uma visita a cada século. JAE
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