quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A Justiça em Tribunal e a defesa de Sousa Gomes

O Tribunal de Almeirim reteve durante cerca de sete anos um processo contra o presidente da câmara municipal, Joaquim Sousa Gomes, que deixou o cargo em 2013. O autarca tem estado a ser julgado em audiências que terminaram esta semana e defendeu-se da acusação do Ministério Público dizendo que sempre quis fazer o bem para a sua terra e para as suas gentes e que não retirou qualquer benefício pessoal do cargo de presidente da câmara como, aliás, é público e notório para quem conhece o autarca, a sua família, e o acompanha no seu dia a dia...
Debilitado fisicamente e psicologicamente, devido a doença, Joaquim Sousa Gomes está a ser alvo de uma injustiça que deveria fazer sentar em tribunal os governantes portugueses que fazem da Justiça um pau de dois bicos. Sousa Gomes está a sentir na pele e na sua própria vida o problema que ajudou a criar levando um tribunal para Almeirim. Se o ex-autarca tivesse sido julgado em tempo justo outro galo cantaria em sua defesa. Nesta altura os juízes do Tribunal de Santarém querem julgar um processo mas o que estão a fazer verdadeiramente é a matar um arguido. A falta de saúde de Sousa Gomes, e o vexame que já manifestou estar a sentir, matam como qualquer cidadão honrado sabe muito bem. Era o Estado Português e os responsáveis pela falta de Justiça nos tribunais portugueses que deveriam estar a ser julgados neste momento e não o autarca reformado com direito a viver em paz os últimos anos de vida.
JAE

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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O exemplo da NERSANT

A semana iniciou-se na região do Médio Tejo com um Encontro Internacional de Negócios promovido pela NERSANT. Fui ver a sessão de abertura e a azáfama dos empresários que meia hora depois já enchiam a sala que a organização preparou para as apresentações e eventuais negócios. É com estas iniciativas que se faz uma região forte. Não vi autarcas, nem responsáveis pelos Politécnicos, nem sei de agentes ligados às associações de desenvolvimento local que se tenham interessado até agora pela iniciativa. Há muitos anos que a NERSANT é um exemplo de associativismo empresarial com provas dadas. Não faz sentido ver algumas instituições a remarem contra a maré ou lutando contra moinhos de vento só porque os Governos ainda apoiam políticas à Dom Quixote.

O PCP não diz uma palavra sobre o jovem activista luso-angolano que está em greve de fome contra os mais elementares direitos num país democrático. José Eduardo dos Santos é Presidente da República há 36 anos de um país que tem a maior taxa de mortalidade infantil do mundo: uma em cada seis crianças morre antes dos seis anos de idade. E este é só um pequeno pormenor do país governado por amigos políticos de Jerónimo de Sousa e companhia. Por mim podem continuar a apregoar o comunismo que eu vou ali inscrever-me na Amnistia Internacional para não me ficar pelas palavras.

Das 64 páginas de O MIRANTE da edição da passada semana mais de metade eram de publicidade. Fui dos que ajudei a repaginar o jornal para que entrasse toda a publicidade de última hora. Na semana passada não vi outro jornal de dimensão nacional ou regional com o volume de publicidade que nós publicamos. Era uma edição normal; o trabalho das nossas equipas é que é sempre anormal; e de vez em quando temos destas boas surpresas. JAE

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Os actores e a vida real

O teatro promovido pelo Carlos Carvalheiro, encenador do Fatias de Cá, tem uma particularidade que é única e merece ser destacada. O encenador não se limita ao trabalho com os actores e à montagem do espectáculo; preocupa-se com o bem-estar dos espectadores e tenta que cada um deles viva uma experiência diferente cada vez que assiste a um dos espectáculos do Fatias de Cá. Nem sempre resulta porque há actores mais envergonhados e há espectadores ainda mais tímidos que fazem questão de fugir às regras estabelecidas, ou seja, há actores que fogem do chá final para poderem confraternizar com os espectadores e há espectadores que demoram a libertar-se dos pruridos quando chega a hora do convívio à mesa a meio do espectáculo. Mas o esforço não é inglório, na minha simples opinião, e deve continuar a marcar a diferença, embora possa roubar espectadores por causa dos preços proibitivos.
Na estreia de Lear, e no final do espectáculo, os actores estavam cansados e percebeu-se perfeitamente que só ficaram para conviver aqueles que assumem a direcção do grupo e fazem questão de dar a cara para que a imagem da organização não fique em causa. Falamos de um pormenor mas que faz toda a diferença. O MIRANTE chegou ao Palácio Marquês da Fronteira por voltas das 16h30 e todos os actores já estavam dentro das instalações. Cinco horas depois os actores estavam a despir a roupa do faz de conta a a vestir a ganga da vida real. E muitos deles gostam de representar e de receber elogios mas a vida em casa espera e é muitas vezes tão cruel como a vida dos reis infelizes e dos seus familiares.
Vítor Hugo é um bom exemplo do que acabamos de concluir. O actor amador da Chamusca tem quase 80 anos de vida, embora a representar tenha a energia de um jovem de 20, na vida real as coisas nem sempre são o que parecem. E para lhe roubarmos um abraço na despedida foi preciso vir ao seu encontro à entrada do Palácio já que a sua grande preocupação, assim que acabou a cena, foi regressar a correr à Chamusca para junto da mulher da sua vida. JAE

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O Victor Hugo do teatro

No Palácio Marquês da Fronteira, em São Domingos de Benfica, Lisboa, voltei ao teatro que não o da Politécnica, o Maria Matos, o São Luís ou o Recreios da Amadora, só para citar algumas salas que costumo frequentar. O teatro interessa-me mais pelos actores do que pelas peças. Vou ao teatro para ver representar os meus actores preferidos e observar o trabalho dos meus encenadores de eleição.
A recente visita ao Palácio Marquês da Fronteira (ler página 23 desta edição) tinha como objectivo ver em cena Victor Hugo, Alexandra Carvalho e Humberto Machado, que já conheço de outras representações, para além do trabalho de Carlos Carvalheiro de quem vou ouvindo elogios e que conseguiu por de pé um projecto fora de Lisboa com actores amadores de fora de Lisboa de que haverá muitos poucos exemplos em Portugal.
Cheguei quase uma hora mais cedo ao Palácio para me encontrar com o Victor Hugo que deixou crescer a barba, farta e branca para melhor representar o Rei Lear. E valeu a pena, tanto a hora de conversa como as duas horas de teatro e passeio pelo palácio. De verdade cheguei ao Palácio/residência de José de Mascarenhas eram cerca de 16h00 e só retornei ao Largo da Estefânia, onde tenho um esconderijo, já passava das 21h00.
Ouvi, no meio de tanta conversa, a pergunta habitual sobre se estava a ver o teatro como jornalista ou como simples espectador; mas ouvi acima de tudo o Victor Hugo falar de si e da sua santa terrinha, que também é a minha, com o desencanto que comungo mas ao qual não dou qualquer importância. Foi uma conversa para matar o tempo, beber vinho branco, comer um rissol e fumar dois cigarros; mas deu para perceber o que vai na alma de um homem a caminho dos oitenta anos que ainda faz teatro com uma atitude e uma energia que nos espanta.
Na nossa conversa sobre sentimentos, bairrismos, colectividades e cidadania deu para perceber que vivemos em mundos diferentes e que a minha opinião não coincide com a dele nem o meu espírito está possuído do mesmo Deus que nos alimenta a alma. Mesmo assim, no reencontro depois da representação, quando lhe dei os parabéns pelo papel que tinha acabado de desempenhar, a sua reacção surgiu em forma de pergunta: “não deixei mal a Chamusca pois não; achas que representei bem a nossa terra?” JAE

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A emoção depois da noite eleitoral

Confiando que ainda tenho leitores exigentes não arrisco escrever uma crónica, depois de eleições, sem que o tema seja a emoção que ficou da noite eleitoral. Confesso que nunca vivi de forma tão desinteressada umas eleições legislativas. Mas o problema é meu que estou a ficar desencantado. Um dia isto passa e espero que seja depressa. Na nossa região os principais candidatos das listas dos dois principais partidos são gente sem alma e sem história. O PS tem como principal figura distrital um advogado que acabou de ser condenado em tribunal, em primeira instância, num processo com contornos muito estranhos; e não foi por acaso que o PS teve nestas eleições, no concelho de Ourém, a mais fraca votação de sempre em eleições legislativas. Idália Serrão é uma funcionária da política e não se lhe conhece qualquer profissão se um dia lhe tirarem o “tacho”. O PSD tem na figura de Nuno Serra o mais ‘Pepsodent’ dos sorrisos e a mais calada das bocas. O camarada Duarte Marques, que é o líder distrital de verdade mas aparece como segundo, está tão empenhado na discussão dos problemas na região como eu estou interessado em escrever sobre Pangarés. No seu concelho (Mação) o PSD perdeu 32% dos votos em relação a 2011. Dá para perceber o ego destes jovens republicanos?
Vi nas televisões as mais fracas e tendenciosas reportagens. Os jornalistas fizeram de Ricardo Salgado, Armando Vara e José Sócrates figuras de primeira linha sem lhes colocarem uma única pergunta de interesse. Salgado saiu pela primeira vez à rua desde que está em prisão domiciliária. Ninguém lhe perguntou se tem visto as manifestações dos lesados do BES. Limitaram-se a filmar e às perguntas de quem faz jornalismo com muito respeitinho. Uma vergonha num país onde o Estado controla o jornalismo no audiovisual como se vivêssemos na Coreia do Norte.
António Costa perdeu as eleições mas não perdeu. Aconteceu o que é normal no PS. Vão contar-se espingardas nos próximos anos e o PS em vez de ser oposição vai afundar-se nas habituais lutas internas. Jerónimo de Sousa ainda vai levar a CDU aos números insignificantes do PDR. Entretanto vai cantando vitória aliado aos companheiros de Os Verdes que personificam a maior aldrabice em coligações eleitorais. A Coligação PSD/CDS que ganhou as eleições perdeu 800 mil votos em relação a 2011. Alguém tem dúvidas que se o PS tivesse uma direcção forte e propostas mais ousadas ganhava as eleições? Daqui a quatro anos quero o voto electrónico; uma nova Constituição da República; a reforma do Estado e deputados eleitos por círculos uninominais de forma a sabermos quem nos representa na Assembleia da República e a quem podemos pedir contas ao longo de quatro anos. JAE

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

O Armando Alves, a Maria Viana e os “fraca roupas”

Voltei à cidade do Porto e à livraria de sempre. Quando entrei na loja, na manhã da última sexta-feira, reparei num homem alto e robusto de olhos pregados nas estantes da vasta colecção de livros de poesia. Mais de meia hora depois ainda lá estava observando, espreitando, remexendo. Reconheci-me nele. Às vezes também fico tempos infinitos a revisitar as lombadas dos livros à procura de um que, eventualmente, me tenha escapado e mereça fazer parte da minha vida. O facto de estar na livraria do editor e amigo José da Cruz Santos levou-me, cerca de uma hora depois, à conversa com o homem gigante e de sorriso aberto que tinha observado na primeira meia hora. Afinal era o Armando Alves, um dos mais conceituados artistas plásticos portugueses com uma vasta  e importante Obra, em parte ligada a três editoras: Inova (1968); Limiar (1975) e Oiro do Dia (1980). 
José da Cruz Santos ia falando comigo nos intervalos dos telefonemas e do atendimento do lado de fora do balcão. Sempre pedindo permissão para interromper a conversa. “Desculpe”; “Dá-me licença”. Foi assim até à última partilha e enquanto me foi apresentando ao Armando Alves que, entretanto, me convidou para visitar a sua casa e conhecer melhor a sua Obra.
Era meio-dia quando saí da livraria. Duas horas depois estava na Zona Industrial de Condeixa a comer um prego e a beber uma cerveja depois de uma visita à senhora da asneira. Ainda o sol cantava bem alto e já apanhava abrunhos e ameixas junto ao rio Tejo na Chamusca. Cerca das nove e meia da noite estava em Cascais, no espaço da Maria Viana, para a ouvir em mais um concerto, acompanhada pelo Nanã Sousa Dias. Muito curiosa a forma como ela me recebeu, já depois de ter falado ao João Almeida, da Antena 2, que transmitia o concerto em directo. “Há tanto tempo que não apareces”, como se eu fosse íntimo. De verdade ela é a cantora de serviço, a dona do espaço, a porteira e a principal empregada de mesa. Até enquanto cantava, de olhos fechados, uma canção de Ella Fitzgerald,  Maria Viana tomava conta do negócio. E como ela é magistral a cantar e interpretar!!!!
Eram 11h30 quando saí à rua para dar de caras com o José Carlos de Vasconcelos que andava por ali a passear três livros debaixo do braço. Conversamos sobre livros, jornais e jornalistas durante meia hora até cada um ir à sua vida. O mais curioso da história deste dia de sexta-feira é o que fica por contar. Nas três horas de viagem entre Porto e Lisboa escrevi, de memória, uma crónica sobre o “fraca roupa” do vice-presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, Fernando Paulo Ferreira, que ainda não teve coragem de falar a O MIRANTE sobre os erros cometidos no Orçamento Participativo levando muitos dos seus eleitores à indignação. O outro “fraca roupa” que me atazanou o pensamento é presidente da junta de freguesia da cidade. Chama-se Mário Calado e surpreendeu-me pela negativa ao comprar espaço publicitário em cartazes gigantes dentro da cidade para fazer propaganda à sua Obra como político. Em vez de limpar a cidade dos cartazes que fazem do concelho de Vila Franca de Xira um concelho do terceiro mundo ainda contribui para a poluição. Este é um assunto que me interessa por isso numa próxima voltarei à “vaca fria”. JAE

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Os sírios, os moçambicanos e os ribatejanos

Há cerca de dez anos fiz uma viagem a Moçambique para visitar a cidade de Nampula. Dormi uma noite no melhor hotel da cidade que tinha lençóis da cor do carvão, um velho e ferrugento regador como chuveiro instalado num cubículo onde mal cabia um homem. Era ainda um hotel que passava factura mas sem número de contribuinte. Em oito dias comi mais lagosta que em toda a minha vida. Tive uma boa recompensa: sofri uma diarreia que se manifestou em início de viagem numa carrinha 4X4, em estrada de mato, numa distância de mais de 300 quilómetros. Posso dizer, com certeza, que foram as 24 horas mais difíceis da minha vida de viajante.
No último dia da nossa estadia em Nampula fomos almoçar à mata, no meio de uma pequena aldeia, e comemos da panela dos nativos. Éramos cerca de uma dúzia de pessoas e do que me lembro ninguém ficou chocado com a triste realidade que ainda hoje me azeda o espírito. Duas mulheres jovens passeavam entre nós com dois filhos presos à cintura com mais moscas no rosto que abelhas à volta de um cortiço. Das duas ou três vezes que fiz das mãos abanos as moscas nem abriram as asas. Estavam literalmente em cima de rostos quase cadáveres e em vez de moscas pareciam carraças. Não guardei as feições das crianças mas guardei as imagens do sono profundo em que pareciam mergulhadas como se o colo das mães fosse o lugar mais seguro do mundo. De verdade era apenas uma cintura onde as passeavam, já insensíveis à dor e à proximidade da morte.
Lembrei-me deste triste episódio quando alguém muito recentemente sugeriu que perguntássemos aos presidentes das nossas freguesias rurais como é que eles se estão a preparar para o acolhimento de refugiados da Síria. “Era interessante saber como é que o presidente da Junta da Azinhaga, da Moçarria, de Envendos ou do Chouto, lugares onde até as moscas têm melhor vida que as cigarras, se preparam para a ajuda humanitária.” 
A minha convicção é que não se preparam nem têm como se preparar. Alguns até são responsáveis por centros de apoio a crianças e a velhos mas nenhum tem orçamento ou instalações para acolher refugiados. E não vale a pena dourar a pílula; se os refugiados sírios precisarem dos ribatejanos para se livrarem da miséria e da guerra vão ter que aprender rápido a cavar terra para batatas. 
Não sou retornado mas vivi na época o drama de alguns retornados das antigas colónias. De boa vontade e de coração aberto não me importaria de ajudar a acolher crianças moçambicanas, ou sírias, que morrem de fome e de doenças de que já ninguém se lembra em Portugal. JAE