quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Deus vive na Net

Até ao Ano Novo vai ser difícil escrever crónicas. Começa a época das azevias, do Bolo-Rei e dos velhozes. De dia trabalha-se muito e à noite, quando chega a hora do serão, o que menos apetece é escrever crónicas sobre o dia de trabalho. Aliás, com Costa ou sem Costa, o país vai devagarinho recuperando o velho atraso em relação à Europa Ocidental. Dou um exemplo:
Há bem pouco tempo demorei uma eternidade a preencher papéis e a fazer reconhecimentos notariais para depois me dirigir a um serviço público e fazer a transferência de propriedade de um carro. Tinha o problema quase resolvido quando o funcionário reparou que a um canto do formulário alguém tinha usado corrector para desfazer um erro. Foi o bastante para me mandar dar uma volta e repetir todos os caminhos e despesas que já tinha feito. Como já sou burro velho deixei passar dois dias e lá veio o momento de inspiração. Entreguei o trabalho a um advogado que pela internet resolveu o problema em dois dias sem que eu precisasse de voltar a fazer a via sacra nomeadamente recolhendo novas assinaturas.
Deus vive na internet e é amigo de todos os pobres diabos como eu que têm que lutar pela vida e acham que um cêntimo ainda é dinheiro. Não sei quanto vou pagar ao advogado mas pelo menos livrei-me de chamar nomes feios a um funcionário público. Não é coisa pouca para quem anda todo o dia no fanico e não joga nem pede milagres. É evidente que também vou aproveitar o tempo de Natal para me santificar, como todos os pobres diabos e, quem sabe, ainda aproveito a fama do Padre Borga e começo a ir à missa à Chamusca onde o padre cantor enche a igreja matriz. 
Ainda a propósito da internet: França é o país estrangeiro onde os leitores online de O MIRANTE mais procuram as nossas notícias. A seguir vem a Inglaterra; depois o Brasil e a Alemanha.
O MIRANTE vai ter um novo sítio em breve. Já ultrapassamos o prazo de validade do sítio actual mas a política que mantemos de dar informação sem pagamento de assinatura limita o investimento na plataforma online. O MIRANTE tem mensalmente mais de meio milhão de visitantes únicos. E vamos vivendo apenas do investimento publicitário como aliás é política também ao nível da edição em papel. JAE

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Trocar o Tejo pelo Sena

Estive em Paris nos dias a seguir ao actual estado de guerra e cumpri a minha agenda com um ligeiro desvio da Rua Taillandiers onde o Fernando Graça tem um bar que, segundo me contou na altura da inauguração, está decorado com postais antigos de Lisboa.
Por enquanto não troco a minha aldeia por qualquer outra aldeia do mundo. Não troco o Tejo pelo Sena nem morto. Viajei atrás de duas exposições das muitas que se realizam pelo mundo e que nunca chegam a Lisboa, a Santarém ou a Tomar, só para falar de três cidades que fazem parte da minha vida. Uma delas tem por título “Esplendores e Misérias - Imagens da Prostituição de 1859 a 1910” e permitiu-me ver filmes pornográficos no Musée d’Orsay, porventura um dos melhores museus do mundo, ao lado de respeitados senhores e senhoras de todas as idades e nacionalidades, que aceitavam um pequeno desvio das salas onde se exibem pinturas centenárias de Edgar Degas, Edvard Munch, Henri de Toulouse-Lautrec, entre muitos outros autores da época. O desvio é para dentro de uma sala com cortinados vermelhos onde o cinema pornográfico da altura é exibido como obra de arte. São pequenos filmes de autores anónimos que coincidem com o início da era do cinema e que demonstram bem o quanto teria sido importante para nós, cidadãos com o mundo do lado de lá de um computador, que já houvesse cinema no tempo de Sodoma e Gomorra.
Quatro dias de Paris chegam e sobram para ficar com saudades de Lisboa ou da Chamusca, da mota, do cinema à porta de casa, dos livros à mão de semear, dos caminhos da lezíria e da charneca ribatejana.
Esta crónica foi escrita no aeroporto de Orly, enquanto lia o El País, edição de sábado, e tomava outras notas. Ainda não tinha saído da cidade e já viajava para a Feira do Livro de Guadalajara, no México, com os 12 escritores ingleses recomendados por Alberto Manguel; e lia sobre a correspondência de Gabriel Garcia Marquez com Gonzalo Rojas, um poeta chileno que conheci na sua casa, no Chile, e que um dia tenho que ajudar a traduzir para português; e ainda em Paris, lendo o Babelia, continuo a tomar boa nota da situação de guerra que ainda se vive na cidade de Balzac e Zola mas ligado ao mundo pelas palavras de Ian McEwan que em entrevista tenta explicar “o mistério” de haver tanta gente de boas famílias da Europa ligada às causas terroristas que chegam da Arábia. O título da entrevista diz tudo: “Lá utopia es una de las nociones más destrutivas”. JAE

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A Justiça em Tribunal e a defesa de Sousa Gomes

O Tribunal de Almeirim reteve durante cerca de sete anos um processo contra o presidente da câmara municipal, Joaquim Sousa Gomes, que deixou o cargo em 2013. O autarca tem estado a ser julgado em audiências que terminaram esta semana e defendeu-se da acusação do Ministério Público dizendo que sempre quis fazer o bem para a sua terra e para as suas gentes e que não retirou qualquer benefício pessoal do cargo de presidente da câmara como, aliás, é público e notório para quem conhece o autarca, a sua família, e o acompanha no seu dia a dia...
Debilitado fisicamente e psicologicamente, devido a doença, Joaquim Sousa Gomes está a ser alvo de uma injustiça que deveria fazer sentar em tribunal os governantes portugueses que fazem da Justiça um pau de dois bicos. Sousa Gomes está a sentir na pele e na sua própria vida o problema que ajudou a criar levando um tribunal para Almeirim. Se o ex-autarca tivesse sido julgado em tempo justo outro galo cantaria em sua defesa. Nesta altura os juízes do Tribunal de Santarém querem julgar um processo mas o que estão a fazer verdadeiramente é a matar um arguido. A falta de saúde de Sousa Gomes, e o vexame que já manifestou estar a sentir, matam como qualquer cidadão honrado sabe muito bem. Era o Estado Português e os responsáveis pela falta de Justiça nos tribunais portugueses que deveriam estar a ser julgados neste momento e não o autarca reformado com direito a viver em paz os últimos anos de vida.
JAE

Comentário à noticia: http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=731&id=113157&idSeccao=13286&Action=noticia#.Vk2yCHbhBhE

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O exemplo da NERSANT

A semana iniciou-se na região do Médio Tejo com um Encontro Internacional de Negócios promovido pela NERSANT. Fui ver a sessão de abertura e a azáfama dos empresários que meia hora depois já enchiam a sala que a organização preparou para as apresentações e eventuais negócios. É com estas iniciativas que se faz uma região forte. Não vi autarcas, nem responsáveis pelos Politécnicos, nem sei de agentes ligados às associações de desenvolvimento local que se tenham interessado até agora pela iniciativa. Há muitos anos que a NERSANT é um exemplo de associativismo empresarial com provas dadas. Não faz sentido ver algumas instituições a remarem contra a maré ou lutando contra moinhos de vento só porque os Governos ainda apoiam políticas à Dom Quixote.

O PCP não diz uma palavra sobre o jovem activista luso-angolano que está em greve de fome contra os mais elementares direitos num país democrático. José Eduardo dos Santos é Presidente da República há 36 anos de um país que tem a maior taxa de mortalidade infantil do mundo: uma em cada seis crianças morre antes dos seis anos de idade. E este é só um pequeno pormenor do país governado por amigos políticos de Jerónimo de Sousa e companhia. Por mim podem continuar a apregoar o comunismo que eu vou ali inscrever-me na Amnistia Internacional para não me ficar pelas palavras.

Das 64 páginas de O MIRANTE da edição da passada semana mais de metade eram de publicidade. Fui dos que ajudei a repaginar o jornal para que entrasse toda a publicidade de última hora. Na semana passada não vi outro jornal de dimensão nacional ou regional com o volume de publicidade que nós publicamos. Era uma edição normal; o trabalho das nossas equipas é que é sempre anormal; e de vez em quando temos destas boas surpresas. JAE

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Os actores e a vida real

O teatro promovido pelo Carlos Carvalheiro, encenador do Fatias de Cá, tem uma particularidade que é única e merece ser destacada. O encenador não se limita ao trabalho com os actores e à montagem do espectáculo; preocupa-se com o bem-estar dos espectadores e tenta que cada um deles viva uma experiência diferente cada vez que assiste a um dos espectáculos do Fatias de Cá. Nem sempre resulta porque há actores mais envergonhados e há espectadores ainda mais tímidos que fazem questão de fugir às regras estabelecidas, ou seja, há actores que fogem do chá final para poderem confraternizar com os espectadores e há espectadores que demoram a libertar-se dos pruridos quando chega a hora do convívio à mesa a meio do espectáculo. Mas o esforço não é inglório, na minha simples opinião, e deve continuar a marcar a diferença, embora possa roubar espectadores por causa dos preços proibitivos.
Na estreia de Lear, e no final do espectáculo, os actores estavam cansados e percebeu-se perfeitamente que só ficaram para conviver aqueles que assumem a direcção do grupo e fazem questão de dar a cara para que a imagem da organização não fique em causa. Falamos de um pormenor mas que faz toda a diferença. O MIRANTE chegou ao Palácio Marquês da Fronteira por voltas das 16h30 e todos os actores já estavam dentro das instalações. Cinco horas depois os actores estavam a despir a roupa do faz de conta a a vestir a ganga da vida real. E muitos deles gostam de representar e de receber elogios mas a vida em casa espera e é muitas vezes tão cruel como a vida dos reis infelizes e dos seus familiares.
Vítor Hugo é um bom exemplo do que acabamos de concluir. O actor amador da Chamusca tem quase 80 anos de vida, embora a representar tenha a energia de um jovem de 20, na vida real as coisas nem sempre são o que parecem. E para lhe roubarmos um abraço na despedida foi preciso vir ao seu encontro à entrada do Palácio já que a sua grande preocupação, assim que acabou a cena, foi regressar a correr à Chamusca para junto da mulher da sua vida. JAE

Comentário à noticia: http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=726&id=112386&idSeccao=13176&Action=noticia#.Vh97city3uM

O Victor Hugo do teatro

No Palácio Marquês da Fronteira, em São Domingos de Benfica, Lisboa, voltei ao teatro que não o da Politécnica, o Maria Matos, o São Luís ou o Recreios da Amadora, só para citar algumas salas que costumo frequentar. O teatro interessa-me mais pelos actores do que pelas peças. Vou ao teatro para ver representar os meus actores preferidos e observar o trabalho dos meus encenadores de eleição.
A recente visita ao Palácio Marquês da Fronteira (ler página 23 desta edição) tinha como objectivo ver em cena Victor Hugo, Alexandra Carvalho e Humberto Machado, que já conheço de outras representações, para além do trabalho de Carlos Carvalheiro de quem vou ouvindo elogios e que conseguiu por de pé um projecto fora de Lisboa com actores amadores de fora de Lisboa de que haverá muitos poucos exemplos em Portugal.
Cheguei quase uma hora mais cedo ao Palácio para me encontrar com o Victor Hugo que deixou crescer a barba, farta e branca para melhor representar o Rei Lear. E valeu a pena, tanto a hora de conversa como as duas horas de teatro e passeio pelo palácio. De verdade cheguei ao Palácio/residência de José de Mascarenhas eram cerca de 16h00 e só retornei ao Largo da Estefânia, onde tenho um esconderijo, já passava das 21h00.
Ouvi, no meio de tanta conversa, a pergunta habitual sobre se estava a ver o teatro como jornalista ou como simples espectador; mas ouvi acima de tudo o Victor Hugo falar de si e da sua santa terrinha, que também é a minha, com o desencanto que comungo mas ao qual não dou qualquer importância. Foi uma conversa para matar o tempo, beber vinho branco, comer um rissol e fumar dois cigarros; mas deu para perceber o que vai na alma de um homem a caminho dos oitenta anos que ainda faz teatro com uma atitude e uma energia que nos espanta.
Na nossa conversa sobre sentimentos, bairrismos, colectividades e cidadania deu para perceber que vivemos em mundos diferentes e que a minha opinião não coincide com a dele nem o meu espírito está possuído do mesmo Deus que nos alimenta a alma. Mesmo assim, no reencontro depois da representação, quando lhe dei os parabéns pelo papel que tinha acabado de desempenhar, a sua reacção surgiu em forma de pergunta: “não deixei mal a Chamusca pois não; achas que representei bem a nossa terra?” JAE

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A emoção depois da noite eleitoral

Confiando que ainda tenho leitores exigentes não arrisco escrever uma crónica, depois de eleições, sem que o tema seja a emoção que ficou da noite eleitoral. Confesso que nunca vivi de forma tão desinteressada umas eleições legislativas. Mas o problema é meu que estou a ficar desencantado. Um dia isto passa e espero que seja depressa. Na nossa região os principais candidatos das listas dos dois principais partidos são gente sem alma e sem história. O PS tem como principal figura distrital um advogado que acabou de ser condenado em tribunal, em primeira instância, num processo com contornos muito estranhos; e não foi por acaso que o PS teve nestas eleições, no concelho de Ourém, a mais fraca votação de sempre em eleições legislativas. Idália Serrão é uma funcionária da política e não se lhe conhece qualquer profissão se um dia lhe tirarem o “tacho”. O PSD tem na figura de Nuno Serra o mais ‘Pepsodent’ dos sorrisos e a mais calada das bocas. O camarada Duarte Marques, que é o líder distrital de verdade mas aparece como segundo, está tão empenhado na discussão dos problemas na região como eu estou interessado em escrever sobre Pangarés. No seu concelho (Mação) o PSD perdeu 32% dos votos em relação a 2011. Dá para perceber o ego destes jovens republicanos?
Vi nas televisões as mais fracas e tendenciosas reportagens. Os jornalistas fizeram de Ricardo Salgado, Armando Vara e José Sócrates figuras de primeira linha sem lhes colocarem uma única pergunta de interesse. Salgado saiu pela primeira vez à rua desde que está em prisão domiciliária. Ninguém lhe perguntou se tem visto as manifestações dos lesados do BES. Limitaram-se a filmar e às perguntas de quem faz jornalismo com muito respeitinho. Uma vergonha num país onde o Estado controla o jornalismo no audiovisual como se vivêssemos na Coreia do Norte.
António Costa perdeu as eleições mas não perdeu. Aconteceu o que é normal no PS. Vão contar-se espingardas nos próximos anos e o PS em vez de ser oposição vai afundar-se nas habituais lutas internas. Jerónimo de Sousa ainda vai levar a CDU aos números insignificantes do PDR. Entretanto vai cantando vitória aliado aos companheiros de Os Verdes que personificam a maior aldrabice em coligações eleitorais. A Coligação PSD/CDS que ganhou as eleições perdeu 800 mil votos em relação a 2011. Alguém tem dúvidas que se o PS tivesse uma direcção forte e propostas mais ousadas ganhava as eleições? Daqui a quatro anos quero o voto electrónico; uma nova Constituição da República; a reforma do Estado e deputados eleitos por círculos uninominais de forma a sabermos quem nos representa na Assembleia da República e a quem podemos pedir contas ao longo de quatro anos. JAE