quinta-feira, 24 de março de 2016

Um elogio aos carteiros

Nos mais de 30 anos que levo de empresário à força só trabalhei com quatro bancos e jamais consegui crédito que não fosse com o aval do património que entretanto fui adquirindo e que me está emprestado até à hora da minha morte. Recentemente mudei de banco. Actualmente todas as contas caucionadas da empresa e aberturas de crédito estão apenas garantidas por duas assinaturas. O gerente do banco é o meu gestor de conta; ainda ontem passou pela empresa para deixar uns papéis. Não fui eu quem evoluiu como empresário; continuo a sê-lo à força; foi o sistema que melhorou. Saí do meio dos banqueiros e dos bancários ricos, ou supostamente ricos, e fui à procura de melhores ofertas. E encontrei. 
Escrevo em cima de um jornal diário que publica uma entrevista com o administrador dos CTT e o director do novo banco propriedade dos Correios. Dizem eles que estão a contar com os carteiros para fazerem clientes e conquistar mercado muito rapidamente. “Os carteiros são bem vistos pelos portugueses”, afirmam, como se nós não soubéssemos! Certamente, mais tarde ou mais cedo, vou ser cliente deste novo banco porque também eu tenho uma boa relação com os carteiros e respeito pelo seu trabalho. Se o banco dos CTT lhes der uma comissão na angariação de clientes, ao mesmo tempo que lhes dá as cartas para distribuir, é certo que podem contar com a minha adesão.
Uma boa parte dos gajos e gajas que me escrevem para tentarem publicar um livro, para enviarem um currículo ou pedirem um qualquer jeitinho, começam a mensagem com um Boa Tarde e despedem-se com Cumprimentos. O meu problema não são estes gajos e gajas e a sua inabilidade para escreverem uma missiva e gerarem afectividade; o meu problema são aqueles que, ao engano, ainda vamos aceitando para trabalharem na nossa equipa.  JAE

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Tolerância zero

“Em Portugal o número de relatos associados à área da saúde tem apresentado um crescimento exponencial. Esta conflitualidade crescente entre pacientes, profissionais e instituições de saúde, implica, forçosamente, maior reflexão e novas formas de actuação”. Este texto foi retirado de uma comunicação, entre muitas, que caem diariamente no meu email profissional. Sou sensível a esta questão e defendo que nas questões da saúde os governos deviam implementar tolerância zero para os profissionais da área nomeadamente médicos e enfermeiros. Tenho a certeza que com este tipo de política poupar-se-iam muitas vidas. Para os tribunais a perda de uma vida vale, em média, cinquenta mil euros. Há casos em que os tribunais decidem valores dezenas de vezes superiores em condenações na defesa da honra. Alguém tem dúvidas que uma vida que acaba brutalmente numa curva da estrada, ou silenciosamente devido a um erro médico, tem mais valor que a honra de alguém que foi injuriado ou caluniado? Como é que é possível comparar o valor da vida de uma pessoa com o valor da honra de alguém que pode viver para se salvar da calúnia e provar a sua inocência?
Tolerância zero para os profissionais da saúde não acabaria com os erros médicos mas ajudaria muito a simplificar a vida dos doentes e a protegê-los das armadilhas do Sistema que incluem, entre outras, as conhecidas companhias de seguros que não se livram da fama, e do proveito, de serem mais poderosas que os Governos. JAE

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Os jornais e a selva

Nos últimos tempos alguns comentadores da vida política entretiveram-se a escrever sobre os jornais e a Comunicação Social em geral. Está na moda discutir os media e o assunto é apetecível porque a publicidade, o grande sustentáculo dos jornais, caiu ao nível da sarjeta. Já ninguém vive nas suas torres de marfim. A realidade a preto e branco chegou para todos.
Como é normal a grande maioria entende, e defende, que as grandes empresas devem considerar serviço público o apoio à edição levando os prejuízos à conta dos grandes lucros nas actividades principais. Em teoria é muito bonito. Na prática é o que já acontece há muitos anos, desde que existe imprensa e se tornou necessário inventar formas de defender os interesses, às vezes inconfessáveis, de determinados grupos económicos e políticos sem olhar a misérias.
Ninguém escreve sobre a falta de qualidade da informação nem da falta de preparação dos jornalistas. Já ninguém põe em dúvida que a informação se tornou num vendável de banalidades repetidas por todos os escribas a trabalhar em bando atrás de ministros, ex-ministros, banqueiros e outras espécies do nosso zoológico europeu.
Cada dia que morre um velho morre mais um leitor de jornal em papel. É assim nos últimos 40 anos com os jornais de referência a inventarem todos os dias formas de esconderem as tiragens miseráveis que já não pagam as despesas da impressão e muito menos o valor do papel.
É um gozo ler os homens públicos que enchem páginas inteiras de artigos de opinião a escreverem para eles próprios e meia dúzia de amigos. E o gozo é maior ainda quando damos conta que, em teoria, eles já não escrevem para os animais do zoológico: eles são os últimos animais da selva e, embora em cativeiro, procuram sobreviver como melhor sabem escrevendo e comentando na televisão.
O resultado das eleições presidenciais confirmaram aquilo que está escrito nas estrelas. Os portugueses riem do Tiririca brasileiro mas logo que lhes dão uma oportunidade votam no Tino de Rans. Jerónimo de Sousa e os seus amigos de Alpiarça e Vila Franca de Xira precisam aprender a lição ou um dia destes vão passar à História. JAE

Os efeitos da tragédia e os autarcas legionella

Este assunto é manchete desta edição porque O MIRANTE sente-se no dever de estar do lado das famílias que sofreram, ainda sofrem e vão sofrer para sempre, do efeito da tragédia que foi o surto de legionela no concelho de Vila Franca de Xira. Depois da visita dos autarcas de Vila Franca de Xira a duas das fábricas ficamos a saber com o que podemos contar em termos de trabalho dos eleitos municipais. Para eles não há dúvidas que os culpados têm que ser apurados pela justiça; o resto, que ficou espelhado naquilo que disseram numa assembleia municipal, depois de uma visita aparentemente secreta às fábricas, é um lamentável equívoco de quem tem a obrigação de pôr os responsáveis das fábricas a falarem à população e a assumirem aquilo que só eles têm a obrigação de assumir.
Bem basta os deputados da Assembleia da República para protegerem o Sistema e deixarem os mais fracos nas mãos do destino. Ao nível local exige-se mais dos autarcas. Eles conhecem e são vizinhos do pé da porta das famílias dos cidadãos que morreram ou ficaram doentes e com mazelas para o resto da vida.
Deixem-se de tretas e de conversa fiada e apareçam, e falem, se tiverem algo de novo para transmitir. Se não têm, respeitem pelo menos os que sofreram e sofrem dos efeitos da tragédia. Ou então demitam-se da comissão e dêem lugar a outros autarcas mais competentes e corajosos. JAE

Comentário à noticia: http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=741&id=114537&idSeccao=13513&Action=noticia#.VqnrAFLznuM

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O PS é uma vergonha mas eles nem dão por isso

Joaquim Sousa Gomes morreu esta terça-feira mas com ele já tinha morrido há muito tempo, embora pouco a pouco, a boa imagem que o Partido Socialista tinha no distrito de Santarém. Este Senhor dirigiu o mesmo partido que agora é dirigido por António Gameiro, um advogado/deputado que só é notícia pelas piores razões. É ele que divide a liderança da distrital, para mim mais do que simbólica, com o autarca de Ourém, Paulo Fonseca, que cortou relações com O MIRANTE assim que publicamos a primeira notícia da sua mais que anunciada insolvência. 
É o PS do advogado António Gameiro que permite, sem uma palavrinha de indignação, o caso mais vergonhoso dos últimos tempos no PS do distrito de Santarém que, embora envergonhe alguns socialistas do Largo do Rato, não deixa de passar impune e dar uma imagem do que valem os partidos ao nível da ética e da credibilidade. 
A presidente da Câmara de Tomar, Anabela Freitas, pressionada pelo Governo, deu como nulo o concurso onde o seu companheiro afectivo, Luís Ferreira, conseguiu emprego na Câmara de Tomar. Mas não deu a mão à palmatória, nem ainda pediu desculpas, por o ter nomeado seu chefe de gabinete e lhe ter entregue, pelo que se vai lendo na imprensa e nas redes sociais, a liderança política do seu mandato presidencial.
Se António Gameiro tivesse aprendido alguma coisa com Joaquim Sousa Gomes; se a política para certa gente não fosse mais do que o exercício de fazer caminho, os paulos fonsecas, as anabelas freitas e os luíses ferreiras deste mundo estavam tramados; ou voltavam a nascer ou tinham que andar na rua de cabeça baixa. JAE

Joaquim Sousa Gomes: um socialista que deixa saudades

A última vez que vi Sousa Gomes foi à entrada do Tribunal de Santarém, em passo de corrida, amparado como é evidente, directo a uma sala onde decorria o julgamento que foi notícia noutras edições recentes de O MIRANTE.
Uns dias antes tinha falado com ele numa amena cavaqueira sentado numa mesa de um café de Almeirim, roubando à manhã de trabalho a mais proveitosa das conversas que tive nos últimos tempos com alguém que tinha coisas sábias para me dizer e eu não sabia.
Vou guardar para mim a conversa e os desabafos que o ex-autarca de Almeirim me fez, numa conversa que atestou a confiança pessoal que sempre teve na minha pessoa e a frontalidade de alguns desabafos que só eram justificados pelo seu estado de saúde e pela imensa solidão que o abalava.
Não recupero as palavras da minha última crónica sobre Sousa Gomes, por vergonha, e por saber que desta vida ninguém sai glorioso. Está escrito que vamos pagar caro o bem que fizemos; que mais tarde ou mais cedo vamos morrer engasgados com aquilo que se atravessava na nossa garganta e que não tivemos coragem de cuspir da boca para fora.
No dia da morte de José Joaquim Sousa Gomes confirmo que ele era um Homem bom; com carácter; que me telefonou algumas vezes chateado com algumas notícias mas que nunca me ameaçou por eu escrever o que ele nem sempre gostava.
O Partido Socialista perdeu um dos seus melhores dirigentes. Este foi daqueles homens que fez o seu trabalho e morreu. Não deixou o Poder para de seguida esmolar um cargo de executivo numa qualquer empresa municipal ou do Estado. Nos últimos tempos as coisas não lhe correram bem mas não se passou nada que abalasse o seu prestígio, a sua idoneidade e a firmeza do seu carácter.
JAE

Comentário à noticia: http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=740&id=114422&idSeccao=13488&Action=noticia#.VqC36lLznuM

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Um elogio a Francisco Pinto Balsemão

O MIRANTE mantém o estatuto de jornal ao serviço da região e dos leitores da região mas chegou a hora de nos aproximarmos ainda mais daqueles que, a nível nacional, também conhecem o nosso trabalho e vigiam a nossa capacidade de fazer chegar as nossas notícias a um maior número de leitores espalhados pelo mundo.
Frequentemente as notícias de O MIRANTE servem de inspiração a muitos jornalistas de outros órgãos de comunicação social. E a importância que vimos dando ao que acontece na nossa região não é de hoje, nem de ontem: vem de há largos anos desde que somos lideres da informação regional e únicos no panorama de uma imprensa de proximidade que se estende por uma vasta região com uma cultura própria e um território que se diferencia, não só em termos geográficos como culturalmente.
Nesta edição damos conta que instituímos pela primeira vez o prémio Personalidade do Ano distinguindo Francisco Pinto Balsemão, o patrão do jornal Expresso e da SIC, um homem que ao longo da sua vida sempre assumiu o jornalismo como trabalho de serviço público, provando-o em inúmeras situações especais mas principalmente quando foi primeiro-ministro e tinha o seu próprio jornal a criticar o seu Governo.
Deve-se a Francisco Pinto Balsemão, e à sua capacidade de liderança, um grande período de luta associativa que os patrões dos jornais travaram num período importante mas muito difícil da nossa democracia. Foi no tempo em que assumiu a presidência da Associação Portuguesa de Imprensa Não-Diária que o associativismo teve força para marcar a agenda política de muitos ministros de muitos governos.
Os tempos hoje são outros mas o associativismo só não é tão forte como nesses tempos porque faltam ideais e ideais como nesses anos de luta. Os jornais e as televisões são cada vez mais de grupos com fortes influências no poder instituído e já lá vai o tempo de um por todos e todos por um, embora a imprensa local e regional fosse sempre o parente pobre da associação também pelo amadorismo que ainda hoje caracteriza muita da imprensa que resiste fora dos grandes centros como Lisboa e Porto. JAE