quinta-feira, 28 de agosto de 2025

A morte em directo do forcado Manuel Trindade

 Manuel Trindade, forcado do grupo de S. Manços, morreu ao tentar pegar na primeira tentativa um touro com quase 700 quilos na corrida que se realizou no passado dia 22 de Agosto na praça de toiros do Campo Pequeno. A morte não foi imediata, mas as contusões que o forcado sofreu contra as tábuas foram tão fortes que a sua morte acabou por acontecer horas depois já no Hospital.

Não deixo passar a morte deste forcado sem deixar aqui o que penso desta ocorrência e aquilo que protagonizo para o futuro da actuação dos grupos de forcados nas arenas. Assim como defendo o uso de bandarilha sem arpão, defendo que um grupo de forcados que se desfez em quatro segundos até o forcado da cara morrer contra as tábuas deve repensar a sua existência e a sua responsabilidade na morte do seu companheiro.

Não vale a pena poupar palavras. Um forcado que vai para a cara de um toiro sabe que pode morrer se não tiver as ajudas de que precisa. Se as ajudas forem incapazes de se juntarem a ele na cara do toiro, de parar o toiro ou desviá-lo das tábuas, o forcado pode morrer. Foi o caso.  Alguma coisa deve ser alterada, tendo em conta o historial da arte de pegar toiros. Nos últimos anos morreram 11 forcados nas arenas portuguesas (o número é provisório e cheguei lá depois de falar com alguns críticos da festa que escrevem regularmente sobre toiros).

Por ter vestido uma jaqueta sei o que é viajar à córnea ou à barbela na cabeça de um touro até bater nas tábuas. Eu e muitas centenas de forcados tivemos sempre a sorte do nosso lado, e não deixámos lá os miolos nem os órgãos que depois de castigados causam a morte antes da ajuda médica.

Um grupo de forcados vai para dentro do redondel com oito homens, mas tem outros tantos na trincheira. O que nós vemos nas fotos e no vídeo da pega de Manuel Trindade é quase um suicídio em directo. O toiro não tinha cara de diabo, mas com os seus quase 700 quilos certamente que tinha a força de um diabo.

Tenho no computador o filme da pega e é doloroso ver como o grupo de S. Manços foi ficando pelo caminho naqueles breves quatro segundos enquanto durou a reunião entre forcado e toiro e o embate nas tábuas que causou a tragédia.

Quem me lê e é aficionado vai dizer que estou a aproveitar-me da infelicidade de um forcado para ganhar leitores e fazer demagogia. Não estou: primeiro porque sei que na cabeça do forcado da cara o seu maior medo é chegar às tábuas sem ajuda, depois porque já vivi a mesma situação; segundo porque mesmo os forcados que nunca pegaram um toiro de caras sabem que o grande perigo das pegas não vem do toiro baixar a cabeça demais, de ensarilhar ou sequer de tentar derrotar o forcado; com mais ou menos pirueta ninguém morre da queda. Mas contra as tábuas morre-se ou fica-se paraplégico com muita facilidade, seja nas touradas oficiais, nas picarias ou nas largadas.

Quem fez o favor de me enviar o filme dos acontecimentos publicou as imagens e convidou-me a usá-las. Respondi-lhe que O MIRANTE, regra geral, não publica fotos de pessoas ou actos violentos. Do outro lado veio a resposta que eu esperava: “concordo: alguma coisa tem que ser feita para que se possam evitar mais mortes nas arenas como a de Manuel Trindade”.

Os trapezistas do circo já não morrem se caírem do arame, os pilotos de fórmula 1 morrem mas muito menos que os forcados, e quando arriscam é para sustentarem as suas grandes fortunas, o mesmo com os pilotos de aviões, de barcos, os atletas de alta competição que muito raramente morrem a praticarem desporto. Não é justo que os responsáveis pelas corridas de toiros não protejam os seus principais protagonistas que são os forcados, quando a pega corre mal e os seus companheiros não estão à altura de o ajudarem, embora por razões alheias à sua vontade e coragem.

Confesso que pensei duas vezes se devia escrever sobre o assunto, sabendo que o mundo dos touros não tem quem pense as touradas, quem tenha soluções para humanizar mais o espectáculo, defendendo-o dos anti-taurinos que são capaz de festejarem a morte de um toureiro ou de um forcado como se festeja a morte de um terrorista. Ver e ouvir os militantes anti-taurinos festejarem a morte de um toureiro ou de um forcado é execrável e mostra que ainda vivemos numa sociedade onde não há limites para a desumanidade. JAE

Nota: Dedico esta crónica a Rui Manuel Souto Barreiros que, embora tenha mais 12 anos do que eu, ainda me ensinou muito sobre como se sobrevivia, na altura da juventude, no seio dos grupos de forcados .



Henrique de Carvalho Dias publicou na edição online de O MIRANTE um texto e uma galeria de fotos da corrida no Campo Pequeno onde Manuel Trindade perdeu a vida. Esta foto foi cedida por Eugénio Eiroa Franco, um jornalista aficionado que edita o  “tribunadatauromaquia”. Entre o momento da reunião do forcado com a cara do touro e o embate fatal nas tábuas passaram apenas quatro segundos.


quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Cheguei a velho... e agora?

Em tempo de eleições autárquicas, os velhos como eu perguntam quem é o candidato que promete a construção de residências para seniores, que tem um protocolo com as instituições do concelho para que nenhum velho morra em casa sozinho. Quem é o autarca que faz propaganda política com o investimento em cuidados para as pessoas da terceira idade, aqueles que nos últimos 70, 80 ou 90 anos carregaram o país às costas? Acho que não encontramos nenhum.

Não sei se faz sentido escrever uma crónica a dizer que cheguei à idade da velhice, mas ainda não me caiu a ficha. Quero dizer: tenho a idade de velho, mas mantenho a forma física e julgo que intelectual para fazer o que sempre fiz, embora em alguns casos mais devagar e com mais calma. Claro que não vai ser por muito tempo. Basta olhar à minha volta e fazer dos outros os meus espelhos.

O título da crónica não é inocente: quem sabe sirva de inspiração para um podcast. Não sou eu que me vou meter em trabalhos, mas quem não tem nada para fazer certamente tem aqui um bom pretexto para conseguir uns milhões de seguidores e ainda poder sonhar com uma entrevista numa qualquer televisão, no horário da manhã, que é quando o país acorda para a triste realidade do jornalismo em televisão.

A maioria da população adulta que vota é velha como eu e não faz a diferença na hora do voto. A maioria de nós nem imagina onde é que vai passar o resto dos seus dias, quem lhes vai mudar a última fralda ou dar o último prato de sopa à colher, se as coisas derem para o torto e não morrermos jovens como todos desejamos. Quantos de nós têm, ou vai ter a curto prazo, 2 ou 3 mil euros para pagar a uma residência de idosos que não seja um lar ilegal, ou legal mas gerido por alguém que aceita velhos a bom preço (900 euros), como quem acolhe cães moribundos?

Em tempo de eleições autárquicas, os velhos como eu que se perguntem quem é o candidato que promete a construção de residências para seniores, que tem um protocolo com as instituições do concelho para que nenhum velho morra em casa sozinho? Quem é o autarca que faz propaganda política com o investimento em cuidados para as pessoas da terceira idade, aqueles que nos últimos 70, 80 ou 90 anos carregaram o país às costas? Acho que não encontramos nenhum.

Quem não tiver amealhado uma boa fortuna, ou não tiver familiares endinheirados, se viver muito tempo baboso e de fralda tem um fim pior que um rato que se mete num buraco de uma cobra.

É difícil perceber que a direita do PSD e a esquerda do PS ainda sejam tão estúpidos que não gastem agora com os velhos e as crianças o que já não precisam de gastar em alcatrão e saneamento básico. É difícil perceber que os políticos/autarcas continuem a dar de mão beijada os melhores terrenos aos Continentes e aos Pingos Doces desta vida para, em vez de termos jardins e monumentos à entrada das nossas cidades, tenhamos grandes superfícies comerciais com anúncios gigantescos a fazerem lembrar a poluição visual nos países de terceiro mundo.

O voto é secreto e cada um deve votar segundo as suas convicções. Por uma vez faço um apelo aos velhos como eu que votem em quem tem nos seus programas eleitorais políticas de apoio à construção de creches e residências para idosos. Chega de nos meterem o dedo no traseiro e de fingirem que também não conhecem as pessoas da terra que para serem pais têm que deixar de trabalhar ou são segregados e espoliados dos seus direitos.

Por último: os velhos como eu sabem quem trouxe Ricardo Salgado de volta do Brasil para refazer a sua fortuna; quem recebia Belmiro de Azevedo nos gabinetes; quem fechou os olhos aos assaltos às empresas públicas desde que a nossa democracia perdeu o estado de graça.  Está na hora dos nossos políticos tirarem a máscara e não continuarem a querer fazer-se passar por otários que nós já comemos muitas gamelas de malvas cozidas e temos memória de elefante. JAE


Nota: Duas frases, que nenhum velho deve esquecer, de dois velhos que morreram jovens. Millôr Fernandes: “Um homem é realmente velho quando só pensa nisso”. Pablo Picasso: “É preciso muito tempo para nos tornarmos jovens”.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

É muito fácil enlouquecer quando não se viaja

“O amor é terrivelmente permanente e cada um de nós só tem direito à sua pequena porção”. Uma crónica sobre um livro de Luísa Dacosta e as cartas particulares a Marcello Caetano.

O que deu origem a esta crónica foi o gesto de, ao chegar a casa, quase às 11 da noite, ir à estante e tirar um livro para cima de uma mesa para no outro dia não me esquecer de o levar dentro da mala para o escritório e enviar no correio a um amigo que fez o favor de mo emprestar. Não é um livro qualquer: é um livro de Luísa Dacosta (1927-2015) com dedicatória, que se intitula Corpo Recusado, cuja leitura nunca teria procurado se o meu amigo não me tivesse contado que o livro é autobiográfico e conta a história de um amor traído. O personagem principal era uma figura importante da crítica literária portuguesa, que faz parte do meu imaginário, e com quem aprendi a desvendar alguns livros. Sabê-lo ali retratado na figura do amante que não foi capaz de saltar a cerca, fez-me saber, desde há cerca de um ano em que li o livro, em que lugar exacto da estante ele repousava à espera de ser devolvido.

Não por acaso hoje foi dia de cumprir a promessa de devolver o livro; passei uma boa parte da tarde à procura de um livro de Joaquim Veríssimo Serrão, que me lembro de ler e assinalar como faço aos livros de que gosto e depois guardo religiosamente para ir relendo. E um livro fácil de substituir na estante, mas o que procuro tem as marcas de uma primeira e segunda leitura que eu não gostava de perder. Por isso procuro-o, sabendo que um dia vou achá-lo, embora nessa altura certamente já tenha comprado um novo volume.

Acabei de reler os dois volumes das “Cartas Particulares a Marcello Caetano” com prefácio e organização de José Freire Antunes. A ideia era transcrever algumas das cartas para provar à sociedade que a comemoração do centenário da data de nascimento de Joaquim Veríssimo Serrão merecia ter figuras do Estado, e que a sua amizade com Marcello Caetano não foi caso único, antes e depois do 25 de Abril, havendo até o caso das cartas do actual presidente da República, que bem merecem uma leitura embora à distância de muito mais de meio século. Com a mão na massa cheguei à conclusão que mostrar estas cartas exige-me um trabalho que não me apetece fazer, e escrever o que me vai na alma sobre o assunto começa a parecer-me gastar cera com defuntos. No entanto valeu a pena a releitura. Os dois volumes estão ao lado da biografia de Pacheco Pereira sobre Álvaro Cunhal, também em dois grossos volumes, estes com menos horas de leitura do que aquelas que eu acho que merecem. Heráclito deixou escrito que “os que procuram ouro cavam muita terra e acham pouco”. É assim também com a leitura: quanto mais queremos saber sobre a vida de algumas figuras públicas mais nos escapa o que eles viveram na realidade.

Antes de começar a escrever a crónica e de voltar a folhear Corpo Recusado, em jeito de despedida do livro que me proporcionou uma leitura quase mística, sem arriscar um único sinal de leitura porque não se podem riscar os livros que os amigos nos emprestam, descobri uma folha com uma citação de um livro de Lawrence Durrell: “O amor é terrivelmente permanente e cada um de nós só tem direito à sua pequena porção”. O sentido da frase tem tudo a ver com o romance da Luísa Dacosta, mas agora também serve para deixar aqui nota da certeza que se sente de que por mais que nos esforcemos nunca conseguimos escrever na perfeição a carta adiada, a crónica, o poema ou o romance que diariamente nos consome os neurónios. JAE.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

O Tejo poluído e o Douro das águas profundas e navegáveis

No Porto é fácil falar de igual para igual com qualquer pessoa. No meu caso gosto de carregar nas teclas das ondas da praia da Aguda, das águas revoltas do mar de Esposende, ou da Granja, e o resto vem com a memória do que li nos livros de Agustina, Camilo, Eça ou João de Araújo Correia, entre outros.


Dormir com uma má decisão que só pode ser revertida no dia seguinte, se tudo der certo, já é canja para mim que cheguei à idade de quem vive à beira do abismo: ou deito-me por aí abaixo ou aprendo a equilibrar-me. Escolhi para já a última alternativa. 

Desfiz o equívoco que deu origem ao primeiro parágrafo com uma simples frase: já não sou o Joaquim que era há 20 anos. E o problema resolveu-se sem mágoas e equívocos, fruto do que sem pensar e de forma a despachar conversa tinha dito no dia anterior, e sem que com isso tenha perdido a razão. 

Na noite em que escrevo num quarto de hotel do Porto, estou de regresso de um momento musical numa casa apalaçada de um empresário da cidade.  Embora não seja a minha praia, “viajei”, durante o convívio, com alguns amigos e conhecidos por vários países do mundo por onde eles ainda viajam, alguns já dividindo trabalho com os filhos, fazendo aquilo que os portugueses sempre fizeram bem: vender o nosso produto lá fora. 

Como já não estou em idade de desvendar segredos, ou seja, já pouco me interessa saber como se ganha dinheiro, basta e sobeja-me ouvir as histórias, como a da senhora que há 60 anos se passeava no Porto com o Porsche com seis pessoas lá dentro, e deu várias voltas ao mundo a vender vinho do Porto da casa de família; o empresário que começou a viajar para a Tailândia e enriqueceu em meia dúzia de anos; o que construiu um império que lhe permite ter a casa de seis milhões onde hoje me acompanhou até à porta na hora da despedida, ou aquele que, por brincadeira, comprou um quadro de um pintor famoso e hoje tem uma colecção de arte que vale uns bons milhões.

No Porto é fácil falar de igual para igual com qualquer pessoa. No meu caso gosto de carregar nas teclas das ondas da praia da Aguda, das águas revoltas do mar de Esposende, ou da Granja, e o resto vem com a memória do que li nos livros de Agustina, Camilo, Eça ou João de Araújo Correia, entre outros. 

O Joaquim que hoje tem a oportunidade de ouvir, mesmo sem saber trautear, as canções do Rui Veloso numa casa apalaçada de Gaia, Vila da Feira ou Matosinhos, é o mesmo que há meio século corria para Lisboa para conhecer mundo e aprender o ofício que lhe deu corpo e espírito, qual deles o mais importante, para hoje poder decidir, quase à beira do abismo, se me cago de medo de cair ou se, na desportiva, aprendo sem dramas a arte de me equilibrar até a queda se transformar no prazer da última evasão.

Há força de acreditar que nunca devemos perder as ilusões, finalmente consegui perceber porque é que o norte e os portugueses do norte de Portugal fazem a diferença. Não fazia nada de diferente na minha vida se pudesse voltar atrás e mudar alguma coisa; talvez antecipasse uma dezena de anos a ingestão dos comprimidos que comecei a tomar para a queda do cabelo. Fiquei careca muito cedo, mas não tão cedo o suficiente para que os cabelos nos olhos não me tivessem tirado a visão, impedindo-me de ter ficado muito tempo a olhar de perto as águas poluídas do meu rio Tejo, em vez de ter ido mais cedo e mais vezes rio acima até ao Douro para ver melhor nas suas águas profundas e navegáveis. JAE

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Numa guerra os primeiros a morrer são as crianças

É imperdoável que os líderes dos organismos mundiais, a começar pela ONU, dirigida pelo português António Guterres, discursam nos dias de hoje a clamarem que “a fome jamais deve ser usada como arma de guerra”, quando todos os dias, e de há muitos séculos, essa é a arma principal dos facínoras. Uma vergonha que nos envergonha. 


Julho e Agosto são meses de menos trabalho em quase todas as profissões: a economia do país cresce significativamente em muitas áreas mas na maioria dos casos quase que anda a passo de caracol. Eu não me queixo: faça sol ou faça chuva tenho sempre trabalho, e quando não tenho invento, que é aquilo onde, para minha desgraça, acho que ainda sou o melhor de mim no meio de tanta gente que, certamente, já me deve olhar ou começar a ver como descartável.

Hoje, segunda-feira, dia 28 de Julho, por volta das 17h00,  o correio da redacção tem três e-mails de leitores a pedirem ajuda para denunciarmos roubos e má administração de alguns responsáveis por gabinetes de trabalho de autarquias, nomeadamente com assuntos ligados às obras e más condições de habitabilidade. É raro o dia que os leitores de O MIRANTE não contribuem para a agenda dos jornalistas, o que para nós é uma honra, um sinal de que embora não tenhamos sempre razão, temos um trabalho que nos obriga a nunca baixarmos os braços. Há outras mensagens no correio de hoje menos importantes, aparentemente, de leitores a protestarem por não terem recebido a edição impressa na sexta-feira, ameaçando desistir da assinatura. Há dias em que o telefone toca várias vezes só para explicarmos que a culpa é dos CTT que recebem os valores das facturas, a tempo e horas, todos os meses, e que não retribuem prestando o serviço com a qualidade que deviam. Nem por isso deixamos de dialogar com a administração dos CTT, também porque devemos ser dos maiores clientes do país. Curiosamente, são muito mais as reclamações da área do Vale do Tejo, a área com mais população, do que da Lezíria e Médio Tejo, mas ninguém tem explicações para dar, e nós limitamo-nos a confiar na lei do mercado; e a pedir encarecidamente a compreensão dos assinantes, já que as nossas notícias e reportagens são únicas e o jornal tem, no mínimo, uma vida que, em muitos casos, dura muito para além dos sete dias da semana.


As crianças são as primeiras vítimas

O que se passa no mundo, na Ucrânia e na Palestina, e em muitos países africanos de que nunca ouvimos falar, e que parece que não existem, é o maior absurdo dos dias que vivemos. Matar crianças à fome é a arma mais poderosa usada pelos ditadores políticos. Sem querer desviar as atenções das imagens que chegam de Gaza, com as crianças a morrerem à fome devido à guerra, remeto para um filme com o título de A Chorona, que pode ser visto na plataforma Filmin, um drama político que tem como pano de fundo o genocídio da população indígena maia, em 1982, sob o comando do ditador guatemalteco Efraín Ríos Montt. O director do filme, o guatemalteco Jayro Bustamante, mostra como se ataca um povo e se acaba com ele pela raiz, ou seja, antes de matar os pais matam-se primeiro os seus filhos, porque são as crianças, com a morte dos adultos, que ficam para darem testemunho. A guerra é cruel em todos os aspectos, mas fazer a guerra começando por matar primeiro as crianças, parece ser uma táctica tão antiga como a existência da humanidade. Mesmo assim os nossos políticos discursam como se fossem padres, e embora não usem armas com balas que matam, usam as palavras e os argumentos falsos que vão matando lentamente, como é o caso das crianças em Gaza. É imperdoável que os líderes dos organismos mundiais, a começar pela ONU, dirigida pelo português António Guterres, discursem nos dias de hoje a clamarem que “a fome jamais deve ser usada como arma de guerra”, quando todos os dias, e de há muitos séculos, essa é a arma principal dos facínoras. Uma vergonha que nos envergonha. JAE.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

José António Falcão: o alentejano que mora no coração do Ribatejo

José António Falcão é mais conhecido no Alentejo que os últimos ministros dos últimos governos do país. É um alentejano de gema, filho de proprietários agrícolas, mas a sua praia é a museologia, o património, a biodiversidade, a música e o trabalho de dinamizador cultural que vai conciliando com o de conservador de museus, ensaísta, professor, investigador, entre outros afazeres todos ligados ao que mais o apaixona. Mora em Santarém há muitos anos com a sua mulher Sara Fonseca, mas parece que ninguém dá por ele.


Escrever uma crónica é como varrer o chão da nossa casa. Assim como é difícil varrer o chão sem deixar algum lixo pelos cantos, ainda que seja apenas o cotão debaixo dos móveis, escrever sobre um acontecimento obriga-nos a esquecer muitas vezes aquilo que mais nos marcou, mas que não pode ser contado porque sabemos que não interessa ao leitor.

No sábado à noite fui a Coruche assistir a um recital de piano que fez parte do programa do Terras Sem Sombra que já vai na sua 21ª edição. A Igreja da Misericórdia registou uma enchente para ver e ouvir Eliane Reyes ao piano a tocar as 14 valsas de Chopin. Tive a sorte de ficar perto do palco, o que me permitiu observar tudo aquilo que num recital passa quase sempre despercebido à maioria do público presente na plateia. É exactamente disso mesmo que não vou falar porque não escrevo crítica musical nem acredito que o assunto interesse aos poucos que lêem esta coluna. Assim como não falo dos apertos de mão que recebi, dos beijos, das saudações pelo nome próprio, das conversas cruzadas antes e depois do concerto que quase fazem de mim um munícipe coruchense.

Não posso dizer que acompanho o Terras Sem Sombra como um alentejano ou um grande amigo e admirador do José António Falcão e da Sara Fonseca. Mas já assisti a sessões suficientes para confirmar que o Terras Sem Sombra é um caso à parte no panorama das iniciativas culturais com assinatura. Não só pela importância dos programas, que variam de ano para ano, como pelas parcerias que conquista a cada edição. Neste caso, na noite do concerto da Eliane Reyes, estavam como convidados o embaixador da Bélgica e um delegado geral de Bruxelas, que patrocinam o festival e suportaram o pesado (imagino) cachet da premiada e prestigiada pianista belga.   

José António Falcão é um alentejano dos quatro costados, mas curiosamente vive em Santarém há muitos anos. É herdeiro de uma grande casa agrícola no Alentejo, mas a sua vida é dedicada às coisas da cultura, desde a valorização do património à divulgação de tudo o que mexe com a nossa identidade cultural, sem excepções. O facto de viver no coração do Ribatejo e trabalhar na divulgação e valorização do seu Alentejo, levando a cultura aos lugares mais isolados do território, faz dele uma figura intelectual de excepção. Há menos de um mês estava a almoçar no café Central, em Santarém, com a proprietária da maior e mais prestigiada ganadaria do Alentejo, a prepararem mais um fim-de-semana do programa do Terras Sem Sombra deste ano.

Falta contar que José António Falcão foi  conservador da Casa dos Patudos entre 1993 e 1997, e responsável pelo Museu Municipal em Alpiarça, entre 2003 e 2008. O resto é uma vasta lista de prémios, de condecorações, de uma vasta bibliografia, de muito trabalho no terreno, na área académica, investigação, assim como na área da museologia, que é onde se destaca mais o seu trabalho e a sua participação na vida cultural do país. Ainda hoje guardo o catálogo da exposição de arte sacra que organizou no Panteão Nacional que foi uma das mais visitadas de sempre naquele monumento nacional.

Curiosamente, uma das últimas vezes que conversamos em Santarém, não foi sobre o Terras Sem Sombra, nem sobre a sua múltipla actividade cultural e profissional no país e no estrangeiro. Em 2020 o alarme de incêndio do edifício da empresa Águas de Santarém esteve avariado cerca de um ano e disparava a meio da noite deixando os moradores num desespero sem conseguir dormir. Só quando O MIRANTE escreveu sobre o assunto é que acabou o martírio. Um dos moradores é José António Falcão, o escalabitano adoptado que, aparentemente, poucos conhecem e sabem que é uma personalidade intelectual com um vastíssimo e rico currículo que qualquer associação da cidade bem podia aproveitar se os seus dirigentes soubessem onde ele mora e lhes batessem à porta. JAE.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

O Colete Encarnado em Vila Franca de Xira e as memórias das festas que ficam para a vida

A festa do Colete Encarnado não se recomenda a quem não gosta de grandes ajuntamentos, e muito menos a quem gosta de ir jantar ou lanchar com os amigos ouvindo música clássica, falando dos problemas da quadruplicação da linha do comboio, do futuro aeroporto em Alverca, do barulho e da poluição dos aviões, dos problemas no hospital, dos aterros ou do crescimento da habitação em altura, entre outros assuntos que afectam especialmente o concelho de Vila Franca de Xira, um dos mais diferenciadores da Área Metropolitana de Lisboa.

A festa do Colete Encarnado junta uma multidão em Vila Franca de Xira durante 3 dias. Não há outra festa ligada aos toiros que junte tanta gente, sendo certo que a grande  maioria não vai às corridas nem às largadas e, certamente, uma parte também não aprecia as tradições tauromáquicas nem as aplaude. 

O Colete Encarnado tem uma tal dimensão ao nível da festa popular que os toiros e as touradas ficam para segundo plano. O forte da festa é a presença de milhares de pessoas, os encontros entre grupos de amigos, e, especialmente, a forma como o concelho mostra a sua actividade associativa. A festa nas ruas não se recomenda a quem não gosta de grandes ajuntamentos, e muito menos a quem gosta de ir jantar ou lanchar com os amigos ouvindo música clássica e falando dos problemas da quadruplicação da linha do comboio, do futuro aeroporto em Alverca, do barulho e da poluição dos aviões, dos problemas no hospital, dos aterros ou do crescimento da habitação em altura, entre outros assuntos que afectam especialmente o concelho de Vila Franca de Xira, um dos mais diferenciadores da Área Metropolitana de Lisboa.

Conheço mais de ouvir contar do que vivenciar as festas do Colete Encarnado.  O mesmo com a Feira de Maio, na Azambuja, ou Alenquer, as festas de Mação que também decorrem nesta altura, as de Abrantes que acabaram recentemente, e muitas outras que são notícia em O MIRANTE, e vão continuar a ser, se a redacção do jornal perceber que falar das festas locais é mais do que publicar o programa.  

Nos meus tempos de juventude sempre fui mais de bailaricos e largadas do que de petiscos e copos, embora me lembre de muitas ressacas, também quando era jovem, que me faziam corar de vergonha nos sete dias da semana seguinte. E, uma vez, uma única vez, por obrigação, peguei de caras à saída dos curros as quatro vacas de uma picaria nas festas de Vale de Cavalos, por razões que não é altura para explicar. Mas faço notar que ainda hoje guardo memórias dolorosas de algumas ressacas, e não me lembro de uma única razão para beber quase até cair para o lado.

Voltando ao Colete Encarnado: quando as galinhas tinham dentes, ia a Vila Franca de Xira todos os anos para ter que contar. Ainda hoje provo da mesma sopa. Aonde vou estou sempre a trabalhar. Foram nesses anos dourados, em que ainda tinha mau vinho, que mandava despejar a cerveja para o copo junto ao balcão para depois me juntar aos amigos e ninguém perceber que estava a beber cerveja sem álcool. Mesmo assim, com toda essa escola da vida que me obrigou bem cedo a ganhar juízo, ainda apanhei uns sustos nas varolas, a mota resvalou algumas vezes nas curvas, e cheguei a enfiar o barrete até quase tapar os olhos, mesmo tendo uma curta vida de forcado e nunca tenha vestido o traje de campino. JAE.