Uma crónica sobre os 52 anos de Abril, à boleia da homenagem a António José Ganhão, um autarca que fez história tal como os melhores autarcas comunistas que, entretanto, quase desapareceram da vida política local.
As comemorações do 25 de Abril na região não tiveram discursos à altura de se escreverem manchetes, e isso é apenas a normalidade a funcionar. A nível nacional é notícia o descontentamento de Vasco Lourenço por o actual governo ter abandonado o projecto de cedência de instalações no Terreiro do Paço, em Lisboa, para um museu sobre o 25 de Abril e, como é habitual, quem escreveu sobre o assunto nem sequer dedicou uma linha ao também adiado museu de Abril, em Santarém, que sofre as mesmas vicissitudes do de Lisboa.
Uma boa maioria dos actuais decisores da nossa economia e da política não têm ideia do que se viveu nesses dias conturbados da revolução, e muito menos do que se passou no coração daqueles que, mesmo pouco politizados, sentiam na pele e na alma a pobreza desses tempos. Daí que as comemorações vivam de discursos e não de iniciativas, de palavras e não de acções. Era bom que trocássemos umas ideias sobre este assunto para não cairmos nas conversas fascistas dos partidos de direita que gozam com as festividades de Abril, como gozam com os herdeiros do poder democrático que são apanhados a receber dinheiro em envelopes ou, como foi o caso recente do chefe de gabinete de António Costa, apanhado com dinheiro vivo aos milhares escondido em envelopes no gabinete de trabalho. O anúncio do IKEA sobre este episódio grotesco teve como consequência a ida de um ex-primeiro-ministro para um dos cargos mais importantes da União Europeia. Não admira que tenha deixado o país na miséria ao nível das reformas da saúde, do ensino, das polícias, da Justiça, em suma, das principais áreas em que o país precisa de reformas, como precisa de um bom ambiente para não morrermos a respirar dióxido de carbono.
O acto que mais deu nas vistas nos festejos dos 52 anos da Revolução foi a homenagem, em Benavente, a António José Ganhão, proposta pela actual liderança da câmara, que meio século depois do 25 de Abril passou do PCP para o PSD. Não é de somenos importância realçar esta decisão política do eleitorado do concelho de Benavente, que nas últimas eleições se distribuiu de tal maneira pelos cinco partidos concorrentes que o PSD conseguiu a presidência da câmara, elegendo apenas dois vereadores. A iniciativa da actual presidente em homenagear o autarca vivo que teve mais influência no poder local também me parece boa ideia. António José Ganhão foi um verdadeiro comunista no poder, nunca deu nas vistas a não ser quando o obrigaram, por assuntos de tribunal. Tinha uma postura institucional que, espremida, não dava sumo, mas aparentemente também tinha tudo controlado na sua cabeça: servir as populações ao nível dos bens essenciais como água, esgotos, habitação e, como não podia deixar de ser, tinha a sua política para a recolha do lixo, o apoio às associações e uma cassete que usava para falar ao estilo do PCP.
Apesar de trabalhar muitos anos no concelho, nunca falei ao telemóvel com António José Ganhão, e a única vez que lhe liguei foi o motorista que atendeu e disse-me que o senhor presidente não podia atender. Mas Ganhão tem uma história com O MIRANTE que não deixo passar sem deixar testemunho. Em muitas décadas de trabalho foi o único político que “vetou” a contratação de um jornalista para a redacção. Como foi num tempo em que não dormia, só trabalhava, tive tempo para juntar os três (o jornalista tinha sido seu delfim, mas entretanto, tinha-o apunhalado pelas costas) e consegui proporcionar, numa conversa de cerca de uma hora, a cerimónia do cachimbo da paz. E o jornalista lá ganhou o emprego. Foi a única vez que me sentei com Ganhão a uma mesa e a única vez que percebi que dirigir um jornal também é meter a cabeça num cepo quando é preciso. Esse jornalista mais tarde fez-me a mim e a quem trabalhava comigo o mesmo que tinha feito anteriormente a Ganhão, só que de maneira mais refinada e cobarde.
Sérgio Carrinho, António Mendes e António José Ganhão foram os autarcas comunistas mais influentes que fizeram a história do PCP no Ribatejo. Ganhão era o mais silencioso deles todos e o menos afectuoso. Teve a sorte de trabalhar num concelho perto da Área Metropolitana de Lisboa, o que até lhe proporcionou autorizar condomínios de luxo no seu concelho, o que pode parecer um paradoxo, mas não é; na vida política, tal como na vida de qualquer cidadão, “do porco se faz presunto”.
Não pretendo com este texto dizer mais do que já escrevi, mas falta o essencial: Ganhão foi um autarca sério, tal como Carrinho e Mendes; era, e ainda é, uma boa pessoa, embora tivesse aquele ar autoritário que muitas vezes esconde mais as fraquezas que as forças. Não dava muitas confianças, como era norma nos dirigentes comunistas de verdade, que, entretanto, também por isso desapareceram do mapa. Pessoalmente tenho pena de não o ter conhecido e convivido com ele como com outros autarcas e deputados do seu tempo. Mas não deixo de me associar à sua homenagem, sem esquecer que ele teve um substituto à altura chamado Carlos Coutinho, um político que acabou por pagar caro os ódios de estimação que sobraram de António José Ganhão (e não foram poucos), os problemas mal resolvidos da sua gestão, que foi silenciosa, mas teve muitos grãos na engrenagem. Dificilmente escreveria sobre o trabalho autárquico de Ganhão e a homenagem merecida que recebeu sem falar do seu braço direito durante 15 anos, que depois ainda teve tempo para fazer três mandatos, ganhando eleições, tentando continuar o trabalho que, na sombra, já fazia como vice de Ganhão. JAE