quinta-feira, 12 de março de 2026

As terras da Lezíria ribatejana deviam ser Património Mundial da Humanidade

O Alentejo é hoje um território quase deserto e o Ribatejo para lá caminha se não houver coragem política para mudarmos de rumo.

Fui testemunha dos estragos que as cheias fizeram nos campos da Lezíria, e nem imagino, ou imagino e não quero armar-me em justiceiro, os prejuízos que a grande maioria dos agricultores sofreram com as descargas à bruta das barragens. Dantes, quando as galinhas tinham dentes, as cheias eram notícia não pelo espectáculo que proporcionavam, mas pelos prejuízos que causavam. Desta vez, com o que se passou e ainda passa com o desastre causado pelas tempestades, os problemas do assoreamento do Tejo, a falta de vigilância das marachas e tudo o que falta ao nível do ordenamento do território, vai fazer com que os prejuízos causados pelas descargas mal medidas das barragens fiquem por conta de quem ousa trabalhar a terra, insistir na ilusão de que os campos do Ribatejo são mesmo património da Humanidade, tal como as igrejas e os conventos e outros monumentos de pedras milenares. O assoreamento do Tejo é um problema que vem do antes do 25 de Abril de 1974. Daí para cá, com as alterações na floresta, a eucaliptizacão dos territórios, o nível de assoreamento aumentou de forma que ninguém quer saber, muito menos quem devia cuidar do que é seu e está organizado em cooperativas e associações.  Os agricultores são cada vez menos e cada um trabalha para sobreviver. Não há tempo para organizar e muito menos militância para protestar. Já não é o fascismo que nos impede de cairmos na desgraça, agora é o comodismo e a falta de líderes locais e regionais. As organizações de agricultores estão de mãos atadas porque muitos que as lideram têm rabos de palha e também têm que defender os seus interesses. Estamos a bater no fundo porque os velhos desistiram de lutar e os novos rendem-se às evidências. Os espanhóis vêm aí com as suas estufas porque o Alentejo já deu o que tinha a dar. O Alentejo é hoje um território quase deserto e o Ribatejo para lá caminha se não houver coragem política para mudarmos de rumo.


Há muitas décadas, muito mais de meio século, ouvi dizer pela primeira vez que o cemitério está cheio de pessoas insubstituíveis. A frase acompanha-me desde essa altura e nunca a esqueci como outras mais leves (quem não viaja não tem ilusões) que guardo para um dia tatuar num braço, provavelmente quando já não tiver pernas para viajar.

Lembrei-me de escrever sobre o assunto porque estou a quase 7 mil quilómetros de Santarém, e passei a manhã no computador a fazer o que qualquer pessoa podia fazer por mim, que era ler o meu correio e despachar só os assuntos mais importantes. Com esta mania de que tenho que controlar tudo como há meio século, hoje vou chegar atrasado ao centro da cidade, onde me esperam assuntos urgentes como procurar três livros num alfarrabista, comprar uma viagem cheia de complicações por causa de um destino que não tem voos directos, participar numa master class sobre como escrever um romance histórico, dado por uma amiga que é só uma das escritoras vivas mais importantes da literatura em língua portuguesa, e entre tantas outras tarefas importantes comprar um adaptador para o cabo do computador e entregar o que estou a usar que me foi emprestado na portaria do hotel. É mais que certo que por causa da manhã de trabalho ao computador não vou ter tempo de dar o mergulho da praxe no mar azul onde quase vejo a minha sombra da janela do hotel onde escrevo esta crónica.

Antes de sair para o sol abrasador que me obriga a proteger a pele para não ficar da cor do tomate maduro, dou uma volta pelo trabalho que acabei de fazer e sinto a missão cumprida. Não fiz nada de jeito, comparado com quem trabalha na redacção a paginar e a escrever os textos que quinta-feira chegam à caixa do correio no papel de jornal. Estou ainda à vontade para dizer que aquela frase das pessoas insubstituíveis fez o seu caminho, e hoje estou muito mais capaz de aceitar a morte e deixar de trabalhar, do que naquela altura em que achava que para chegar à idade que tenho hoje era preciso que Deus descesse à terra. JAE.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Os gestores públicos que acabaram com a Excelência do Hospital Vila Franca de Xira

Cinco anos depois de adoptar o modelo de Entidade Pública Empresarial, deixando para trás oito anos de gestão público privada, o Hospital Vila Franca de Xira está sem serviços que já foram considerados os melhores do país. Os últimos anos de gestão foram um desastre que ninguém assume para vergonha dos nossos políticos e da nossa gestão pública.


Não podemos sacrificar na cruz um gestor por ele ser incompetente e não saber. Mesmo que seja um gestor incompetente, e tenha a noção da sua incompetência, ninguém o obriga a dar a mão à palmatória se quem o escolheu e nomeou gestor não o convidar a abandonar o cargo. O MIRANTE acompanhou de perto a gestão do Hospital Vila Franca de Xira desde a sua inauguração, e na altura própria, quando o hospital foi considerado um exemplo, premiámos os seus gestores e reconhecemos o seu trabalho. Quando a Parceria Público Privada acabou, e a gestão passou para o Estado, não deixámos de continuar a fazer o trabalho de escrutínio do hospital dando voz a quem sofreu na pele a incompetência dos gestores públicos que foram substituir os privados. Não é altura para recordar as infelicidades de quem teve o azar de cair nas malhas dessa gestão incompetente do Hospital Vila Franca de Xira, mas também não seria justo que calássemos as críticas, que não recordássemos o nosso trabalho editorial, agora que o hospital passa por uma situação que ninguém previa, que é o fim de serviços hospitalares essenciais para um verdadeiro Serviço Nacional de Saúde (ver página 16 desta edição).

Neste meio tempo, entre a saída do anterior gestor público e a entrada de um outro, soubemos, quase em segredo, e o quase não é apenas uma figura de estilo, como a gestão do Hospital VFX bateu no fundo, dando origem às tragédias que aqui contámos ao longo destes últimos anos, e a muitas outras que terão acontecido e ficaram entre quatro paredes. Por mais que se exija de um jornal que conte as verdades, e desmascare as incompetências, há linhas que não se podem ultrapassar, ou corremos o risco de ficarmos presos nas armadilhas que nós próprios quisemos desmontar.

Se o Governo não acudir ao Hospital Vila Franca de Xira, que haja alguém que dê o rosto pelo falhanço da sua gestão depois do hospital ter sido considerado durante vários anos um exemplo nas práticas dos seus profissionais, como aconteceu em 2018 quando recebeu o prémio mundial pela redução do consumo de antibióticos, e no início de 2020 quando foi classificado como “o Hospital mais bem gerido do país”, avaliado por um conjunto de mais de cem instituições, como o único hospital público que obteve a classificação máxima de Excelência Clínica (três estrelas) em seis áreas clínicas, nomeadamente, Cirurgia de Ambulatório; Unidade de Cuidados Intensivos; Cuidados Transversais (Avaliação da Dor Aguda); Neurologia (Acidente Vascular Cerebral); Obstetrícia (Partos e Cuidados Neonatais) e Pediatria (Cuidados Neonatais).

Estamos a escrever só uma pequena parte da história de sucesso que foi o Hospital Vila Franca de Xira até ao dia 1 de Junho de 2021, quando a instituição passou oficialmente para a esfera da gestão pública, adoptando o modelo de Entidade Pública Empresarial, terminando a parceria com o grupo José de Mello Saúde.

Não sabemos se estas palavras fazem doer a alguém que está do nosso lado, e que lamenta tanto como nós a gestão incompetente dos gestores públicos; se estamos a acender uma fogueira que pode ser considerada pelos mais puristas como uma forma de combustível da antiga inquisição; é muito provável que sim, não é fácil lidar com as derrotas dos gestores do Estado, que conquistámos com o 25 de Abril de 1974, e ainda menos com a liberdade que temos de escrever aquilo que nos vai na alma e não é só o que agora está à vista de todos: O Hospital Vila Franca de Xira esteve entregue nos últimos quatro anos a quem não o soube gerir, e quem paga as favas somos todos nós que precisamos do Serviço Nacional de Saúde como de pão para a boca. JAE.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Tanto trabalho só para um concerto!?

Mais de quarenta anos depois de realizar programas numa rádio pirata, de ter feito a minha escola a realizar entrevistas e a escrever e relatar crónicas de reuniões políticas e associativas, depois de tantos anos passados, e mesmo agora que já toco piano, ainda me sinto o rapaz que faz a festa, atira os foguetes para o ar e depois vai apanhar as canas.


Confesso a minha paixão pela rádio que vem do tempo em que começaram a surgir as rádios locais. Não quero saber onde param as entrevistas e as crónicas que editei, e a que dei voz, quando ajudei a fundar umas dessas rádios; imagino que ia ter vergonha de me ouvir e de me reconhecer um verdadeiro “aprendiz de feiticeiro”. A prova de que a vergonha nunca me impediu de continuar a aprendizagem está aqui nesta confissão que me saltou ao caminho, numa viagem de carro, a ouvir a Antena 2. O jornalista de serviço entrevistava um músico que falava de um concerto que estava a preparar, e a certa altura, já quase no final da conversa, saiu-lhe este comentário em jeito de pergunta: “tanto trabalho só para um concerto!?” Não tomei nota da resposta porque viajei para uma outra conversa, horas antes, que ainda mexia comigo às 10 da noite, depois de sair a correr do jornal e de ter ouvido algo parecido de alguém que não é maestro nem músico, mas também organiza concertos em papel de jornal de 55 gramas: “já não há mais espaço no jornal, nem para notícias nem para publicidade”. Na manhã desse mesmo dia a azáfama em todos os sectores do jornal ainda se ouvia na rua, o telefone tocava e eu ia perguntando de hora a hora se íamos conseguir cumprir os horários combinados com a gráfica. Este “tanto trabalho para um concerto” foi a questão que respondeu à interrogação que fazia a mim próprio pelo caminho, cansado mas feliz por deixar o jornal sem um único espaço para preencher uma hora antes de seguir via digital para um armazém, que podia ser um palco, onde as máquinas, que podiam ser instrumentos musicais, imprimem, dobram, espalham tinta de várias cores, ensacam, fazem etiquetagem, e depois transportam o produto para carrinhas que se fazem à estrada para, horas depois, como por magia, os carteiros entregarem de casa em casa, nas cidades mas também nas mais pequenas vilas e aldeias e lugares da região ribatejana. Aí chegados, responde-se finalmente à pergunta “tanto trabalho só para um concerto?”, quero dizer, “tanto trabalho só para editar um jornal com 72 páginas”, que dias depois já está a embrulhar bananas ou a limpar vidros, como a música de duas horas de concerto, que demorou uma eternidade a montar, já anda a viajar no espaço animando e dando mais luz à vida das estrelas.

Mais de quarenta anos depois de realizar programas numa rádio pirata, de ter feito a minha escola a realizar entrevistas e a escrever e relatar crónicas de reuniões políticas e associativas, depois de tantos anos passados, e mesmo agora que já toco piano, ainda me sinto o rapaz que faz a festa, atira os foguetes para o ar e depois vai apanhar as canas.

Na véspera de mais uma edição da entrega dos prémios Personalidades do Ano de O MIRANTE, a homens e mulheres que ajudam a fazer a História do nosso país e da nossa região, pela excelência do seu trabalho, o tema desta crónica não me deixa mentir: ainda tenho de roubar muitas horas ao sono para aprender com o canto dos rouxinóis como se aprende a assobiar enquanto se toca flauta. JAE.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O CHEGA em Salvaterra de Magos, a falta de vergonha na Chamusca, e ainda o elevador da Glória

Se falarmos da vida política local, o descontentamento da população não é inferior ao das grandes urbes. É nos territórios mais desfavorecidos que André Ventura colhe mais votos e mais simpatias. A sua força política nunca se traduzirá em poder nos próximos anos porque André Ventura é um homem sozinho.

Os resultados para as eleições presidenciais em Salvaterra de Magos, e em muitas cidades, vilas e aldeias do Alentejo, são a prova provada de que André Ventura não é o líder da direita em Portugal e muito menos o líder de qualquer ideia ou ideologia política. André Ventura colhe os frutos de 50 anos de governo dos partidos tradicionais, que em meio século raramente se entenderam para implementar medidas de governo que acabem com a corrupção, a desigualdade, a falta de apoio social e os privilégios políticos que minam a democracia. Em resumo: a grande maioria dos políticos das novas gerações não aprenderam nada com as democracias mais avançadas dos países mais desenvolvidos, e uma boa maioria dos simpatizantes do CHEGA sempre votaram nos partidos de esquerda, de que Salvaterra de Magos é apenas um bom exemplo. O título de líder da direita em Portugal é só mais uma das suas habilidades, que não são poucas, que já mudaram e vão continuar a mudar a forma de fazer política à portuguesa.

Se falarmos da vida política local, o descontentamento da população não é inferior ao das grandes urbes. É nos territórios mais desfavorecidos que André Ventura colhe mais votos e mais simpatias. A sua força política nunca se traduzirá em poder nos próximos anos porque André Ventura é um homem sozinho. No máximo manterá o apoio parlamentar até que a maioria dos seus deputados se deixem manipular pelo sistema que eles próprios criticam. Veja-se o caso da Câmara de Lisboa, onde uma vereadora do Chega acaba de se aliar a Carlos Moedas, dando-lhe tranquilidade para a governação.

Não me esqueço que escrevi aqui que Carlos Moedas perdia as eleições para a Câmara de Lisboa com a queda do elevador da Glória, um desastre que correu mundo e que foi rapidamente esquecido. Há provas das deficiências na manutenção do elevador, muitas dúvidas sobre quase tudo, mas as 16 mortes e as duas dezenas de feridos não foram suficientes para que os lisboetas castigassem nas urnas o líder da câmara responsável pela empresa municipal Carris. Um dia Carlos Moedas não vai ser conhecido por ter sido presidente da Câmara de Lisboa, mas por não se ter responsabilizado pela manutenção de um equipamento que era uma das maiores atracções turísticas de Lisboa que foi alvo de uma tragédia que chocou o mundo.   

Há cerca de dois meses O MIRANTE publicou uma entrevista com um candidato do PSD à Câmara da Chamusca que fez acusações graves a Rui Martinho, que também era candidato por um grupo independente. O tempo passou e as acusações que deveriam ter merecido uma posição pública do agora vereador foram ignoradas. Rui Martinho é da família do PSD, e só se desvinculou porque não o quiseram como líder à câmara. Vai daí usou todos os argumentos que lhe pudessem dar uma vitória, já que o PS estava fragilizado pela gestão de dois morcões que saíram da política com o rabo pelo chão, embora o novo candidato do PS fosse um jovem quadro sem provas dadas. Convencido que tinha a vitória no papo, Martinho usou todas as artimanhas que tinha à mão para comprar o apoio daquele que lhe poderia tirar o tapete, como aliás veio a acontecer. Repito: as acusações de Tiago Prestes deveriam fazer corar de vergonha o vereador Rui Martinho, e depois de serem públicas não lhe restava outra hipótese que pedir a renúncia e dar o lugar ao quem se segue na lista. Debalde. Se Tiago Prestes tivesse carregado mais na linguagem, tivesse espaço para contar mais como Rui Martinho passou a fronteira da decência, certamente que as consequências seriam as mesmas; Rui Martinho ia continuar como até aqui a especializar-se em actualizar a sua página social no facebook, onde prova quase diariamente a sua miséria humana, a misógenia, certamente convencido de que o facto da Chamusca ser conhecida como “terra de gente fusca” lhe dá o poder da invisibilidade, que lhe permite ser por uma vez um político atilado e, por outro, um sócia de André Ventura. JAE.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Uma viagem pelo Médio-Tejo em tempo de Inverno

Tenho vergonha de ter sonhado tanto morar numa propriedade murada, ter uma piscina ou uma sauna só para mim, ganhar tanto dinheiro que me permitisse apenas viajar pelo mundo, depois de tanto que já trabalhei.

Quando era mais novo, e mais ingénuo, perguntava-me muitas vezes porque é que os ricos regra geral moravam em casas muradas; o mesmo quanto ao facto de terem piscinas só para eles, comprarem iates para darem os seus passeios no mar, trabalharem em gabinetes onde só entra o vento dos ares condicionados para suportarem o calor do Verão ou o frio do Inverno.

Com o tempo fui percebendo como o mundo funciona, e como é difícil a uma pessoa que tem telhados de vidro frequentar uma piscina pública, ter a porta de casa virada para a rua, onde qualquer pessoa pode bater e pedir para entrar, frequentar uma praia onde a maioria dos veraneantes levam rádio, fumam para cima dos vizinhos e falam mais alto que as ondas do mar. Ainda não percebi essa coisa de comprarem iates de luxo, mas um dia quem sabe consiga compreender quando estiver a chegar ao fim da lição que é toda uma vida de muitas aprendizagens.

Nos últimos tempos tenho viajado mais para a zona do Médio Tejo, e reconheço que o território por ali não é como eu pensava. Num dia de chuva, numa aldeia como São José das Matas, podemos perfeitamente imaginar que estamos no início de um novo mundo, o cenário é dos filmes ingleses de espionagem do século XX, e as casas de alguns moradores parecem verdadeiros celeiros onde não faltam cestas de ovos, muitos frascos de mel, garrafões de azeite e cestos cheios de fruta e legumes. Recentemente, ao passar a meio da noite a pé por aquelas estradas onde não entra um carro, tive saudades da minha máquina fotográfica, que já não uso há muitos anos e que substitui pelo telemóvel. Mesmo com o telemóvel, as fotos que fiz numa noite de muita chuva, deixaram uma vontade de as imprimir em papel, de tal forma o cenário me fez ver tanta beleza onde, certamente, também há muita pobreza e sofrimento.

É evidente que nem todas as casas têm a fartura que eu aqui descrevo, mas quem mora por lá e trabalha desde quando o dia nasce até que o sol se põe, a realidade é mesmo essa.

A falta de mão-de-obra nas pequenas aldeias faz com que os moradores que tenham um tractor, ou uma carrinha de caixa aberta, saibam fazer um pouco de tudo, são tão úteis ou ainda mais que o médico de família. Apesar da crise no SNS, já é mais fácil conseguir uma consulta no Centro de Saúde do que encontrar um pedreiro, um carpinteiro ou um electricista disponível, muito menos quem suba acima de um telhado, ou saiba concertar um fogão ou um radiador, sequer trocar os fusíveis de uma instalação eléctrica que tenha dado o berro.

Tenho vergonha de ter sonhado tanto morar numa propriedade murada, ter uma piscina ou uma sauna só para mim, ganhar tanto dinheiro que me permitisse apenas viajar pelo mundo, depois de tanto que já trabalhei. O fim do mundo e a beleza da aurora boreal nos céus da Noruega, das praias desertas na América Latina, dos rios com casas flutuantes, dos ambientes das cidades como Miami ou Paris, Barcelona ou Santiago do Chile, entre muitas outras, são certamente menos atractivas que algumas cidades portuguesas, que algumas cascatas da região do Médio Tejo, ou algumas das suas praias fluviais.

Um dia li uma entrevista com uma artista americana que comprou uma caravana para viver o resto da sua vida, onde não tinha água nem luz, e o próprio chão era um baldio. Dizia ela que não queria ser uma fonte de receita das empresas ou do Estado, e recusava-se a renovar o cartão de cidadão porque argumentava que ninguém tinha direito a controlar a sua vida. Perdi-lhe o rasto. Já deve ter morrido. Comprei uma caravana recentemente e lembrei-me dela. Estou à espera de inspiração para me meter ao caminho sem o tempo contado e viajar sem destino. Por enquanto sou só mais um sacana que escreve crónicas e tira água à nora. JAE

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Leiria não existe

“Leiria não existe” segundo a publicidade, mas Ourém também não. Luís Albuquerque chorou frente às televisões, mas as suas lágrimas tiveram menos impacto que as palavras duras de Santana Lopes na Figueira da Foz.


Leiria não existe: esta é a frase principal de uma campanha de publicidade outdoor paga pela câmara municipal que vai servir para introduzir nesta página, humor negro, que é um género raro talvez por falta de inspiração do cronista.

No distrito de Leiria a tempestade Kristin levou coberturas de prédios no valor de milhões de euros, alguns moradores endinheirados salvaram-se escondendo-se em grupo nas casas de banho, grande parte das empresas com coberturas e montras de vidro e alumínio foram destruídas, e tudo o que lá estava dentro desapareceu ou ficou inoperacional. Habitações familiares de gente pobre e rica foram tratadas de forma cruel por uma ventania que soprou a mais de 200 quilómetros por hora, que a chuva engrossou, originando prejuízos e infortúnios sem escolher classes sociais ou a idade das vítimas. Leiria quase desapareceu do mapa. Há centenas de empresas que vão ter dificuldades em voltar à normalidade, e centenas ou milhares de casas que, no dia em que escrevemos esta crónica, ainda não têm telhado. Se toda esta desgraça fosse em Lisboa, as televisões tinham tempo de antena para duas semanas, e os membros do governo e comentadores tinham que trabalhar horas a mais. Certamente que de Espanha tinham vindo telhas que dariam para tapar todos os telhados de Lisboa. Como foi em Leiria, as notícias foram muitas, mas a qualidade da informação foi escassa, tanto quanto a da ajuda. As filmagens dos prejuízos e as reportagens nos locais começaram quando o próprio presidente da câmara se mostrou incrédulo por não ter do seu lado, e da sua população, todos os meios necessários para fazer frente a uma catástrofe sem igual em Portugal. Vale escrever outra vez que Leiria não existe mesmo no mapa dos grandes interesses nacionais. Santarém também não. Coimbra idem idem, aspas aspas. Mas Leiria teve a ousadia de fazer uma campanha de publicidade dizendo o óbvio, embora a campanha seja considerada um êxito, o que a realidade veio desmentir.

Estamos nas mãos dos capitalistas da distribuição, dos bancos e das energias. Eles mandam, e os governos e os que se alimentam do Sistema obedecem. Mesmo que alguns de nós mijemos fora do penico, depressa levamos com o nosso mijo na cara e temos que ficar de boca calada. Leiria não existe. É altura da câmara municipal dizer quanto pagou por esta publicidade que só serviu para provar que a água não tem cor.

Ourém também não existe, como todos sabemos, mesmo tendo no concelho o Santuário de Fátima, que é conhecido em todo o mundo e é a maior atracção turística do país. Luís Albuquerque chorou frente às televisões, mas as suas lágrimas tiveram menos impacto que as palavras duras de Santana Lopes na Figueira da Foz, que depois de mostrar desagrado pela falta de solidariedade das instituições governamentais recebeu quase de imediato a visita do Presidente da República.

O concelho de Santarém, Tomar e Abrantes, que reúnem um maior número de habitantes, ainda sofrem com a falta de luz, internet e telhas em algumas casas das freguesias. Mas a comparação com o que se passou e está a passar no distrito de Leiria não tem sentido devido ao tamanho e dimensão dos prejuízos patrimoniais e humanos. JAE.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Orlando Raimundo e “A Linguagem dos Jornalistas”

Morreu o jornalista e escritor Orlando Raimundo. Este texto é de homenagem à sua memória, e uma forma de dar a conhecer um dos seus primeiros livros quando exercia a profissão e era mobilizado para dar formação aos novos jornalistas.


Orlando Raimundo (77 anos) é notícia nesta edição por ter falecido na passada semana. Pouco tempo depois de O MIRANTE começar a circular tivemos a sorte de o encontrar pelo caminho. A relação de amizade durou até aos dias de hoje, 38 anos depois, e com ele trabalhámos o suficiente para que o recordemos já com saudade. Guardo religiosamente a primeira e única edição do livro “A Linguagem dos Jornalistas - Manual de Escrita Jornalística”, que é uma edição de 1991 que, segundo sabemos, nunca foi reeditada embora seja um livro de leitura obrigatória principalmente para quem se inicia na profissão. Como todos somos, ou sentimos que somos, um pouco jornalistas, transcrevo alguns dos parágrafos do livro que sublinhamos, e que ainda hoje nenhuma inteligência artificial consegue substituir na aprendizagem obrigatória para quem exerce a profissão.

• Acossada durante meio século pela censura imposta pelo Estado Novo, sem liberdade para existir em voz alta, a imprensa portuguesa revela ainda preocupantes sinais de imaturidade (:) Os jornais portugueses são ainda tristes e pessimistas. A maioria dos homens que os fazem parecem tristes e pessimistas”.

• Para que um jornal seja independente, duas condições terão de se reunir: é preciso que aqueles que o fazem desejem essa independência e estejam prontos a pagar o preço; e é preciso que essa vontade se traduza em actos (citação de Beuve-Méry).

• A ideia de que a indústria cultural só se assume plenamente quando segue, e respeita as modernas regras do modo de produção capitalista é, por outro lado, indesmentível. O desprezo por este pressuposto tem mantido na pobreza envergonhada a maior parte dos órgãos de informação regionais. Incapazes de apostar no profissionalismo e declarar morte ao amadorismo ao improviso e ao biscate, muitos desses jornais vivem uma morte às arrecuas”.

• Poucos são hoje os leitores dispostos a contribuir com o seu dinheiro e a sua atenção para a existência de empresas que produzem jornais desinteressantes. (:) O público olha a liberdade de imprensa como um valor que obriga a relatar verdades “sem papas na língua”, não querendo saber das dificuldades em lá chegar. Que é como quem diz: quem não tiver unhas que largue a guitarra.

• Em Portugal não há sondagens sobre o nível de compreensão dos textos pelos leitores. Mas em diversos países as sondagens deixam sempre os jornalistas perplexos: a capacidade de entendimento das pessoas fica sempre aquém das suas perspectivas.

• “O que não foi noticiado não aconteceu”, dizia o ditador Salazar, justificando deste modo, entre os seus apoiantes, a existência da censura.  

• O leitor deve ser olhado pelos jornalistas como o cliente de uma loja: alguém que tem sempre razão, fazê-lo feliz, para que volte mais vezes, passa por dar-lhe condições para que seja capaz de ver, ler, reter e compreender.

• O tempo já não é só de palavras claras e linguagem simples, como sugeria Ernest Hemingway. Os compradores de jornais, outrora fiéis e pachorrentos devoradores de “sonhos de papel”, são hoje cidadãos apressados, com um sentido bem mais prático da utilidade da informação (:) Entre um candidato a jornalista que domine as técnicas e escreva depressa, embora com erros, e outro que desconheça os pequenos segredos dos novos processos, apesar de escrever prosas poéticas, nenhum editor hesitará hoje em dia em contratar o primeiro.

• Os profissionais da informação são, assim, parte importante de uma “tribo” muito especial. Entre eles se encontram, muito provavelmente, os únicos homens que alguma vez na vida experimentaram uma dor semelhante à do parto: os repórteres. Marginais de elite, segundo o senso comum, são gente que está na vida de uma maneira profundamente diferente da dos outros cidadãos. JAE.