quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Barack Obama a puxar pelas minorias e o distrito de Santarém como jóia da coroa

Na semana em que Barack Obama veio a Lisboa, e foi recebido como um herói dos nossos tempos, O MIRANTE entregou os prémios Galardão Empresa do Ano. Percebemos por isso como de ano para ano vamos crescendo como região, embora devagar, devagarinho.

 

Aceitei um convite para ouvir Barack Obama no Meo Arena, em Lisboa, onde só tinha entrado uma vez. Prefiro um concerto num jardim que numa arena monumental, por isso a minha ausência daquele espaço e de outros parecidos. Nunca tinha participado num evento tão eclético, embora saiba que eles existem. Também aqui prefiro o cinema e o documentário e a reportagem, onde consigo perceber melhor a realidade por trás destes grandes eventos de massas e, em muitos casos, de elites.

Trago o assunto aqui porque fui sensível às manifestações da plateia cada vez que Obama falava de minorias, puxava pelo colectivo, criticava a arrogância dos políticos e defendia a política como uma actividade nobre, onde as decisões deviam ser sempre partilhadas com o maior número de bons decisores.

O tempo que permaneci nos bastidores, onde não faltavam bares abertos, o networking praticava-se como nos velhos tempos, embora em contextos e tempos diferentes. Como me sinto retirado/reformado, senti-me mais no papel de jornalista do que director-geral de O MIRANTE. Mas não deixei de reparar como se movimentavam algumas trutas que querem vingar, ou já vingaram, no mundo dos negócios. Conclusão para as duas horas em que cirandei entre políticos e os maiores empresários do país: é muito importante ter a experiência necessária, de forma a não fazer má figura, para não se perceber quem nestas iniciativas arrasta o rabo e quem anda com o rabo no ar.

O facto de ainda trabalhar muitas horas a mais por dia, não me obriga a comparecer a todas as festas como há 10 ou 20 anos, quando ainda não tinha passado a barreira de uma idade que exige contenção e muito juízo. Sou sensível aos problemas físicos que chegam com a idade, mas, tal como muitas outras pessoas que trabalham com a massa cinzenta, tenho algum receio das doenças mentais da moda. Por isso já não faço fretes e vou regularmente à farmácia comprar alimento para os “cabelos no coração”. José Saramago confessava, aos 80 anos, que depois de escrever treinava a mente com jogos analógicos. Para além de continuar um leitor compulsivo, vejo cinema e jogo damas no computador, tentando manter a memória e exercitando a paciência que se adquire com o estudo das jogadas, mas também com a “raiva” dos erros e das dificuldades impostas pelo “adversário”. Não troco a minha vida espiritual, que também passa pela ligação à terra e aos prazeres das viagens, por nada deste mundo. E se falo disto aqui não é para deixar recados; no meu mundo não entram as vidas dos outros, a ideia é deixar escrito aquilo que também me serve de bússola; se escrever o que penso, mais dificilmente me deixo trair nos momentos em que o Diabo me escreve, telefona ou bate à porta de minha casa (se a crónica admitisse emojis punha aqui vários bonecos a sorrir).

A realização da 26.ª edição do Galardão Empresa do Ano voltou a reunir mais de três centenas de empresários e líderes da região que aceitam o desafio de serem parceiros de O MIRANTE, nesta e noutras iniciativas. Este ano foi a melhor cerimónia de sempre. Para o ano faremos ainda melhor. Deixo aqui uma nota que me apraz registar; os empresários que foram homenageados não usaram meias palavras para se expressarem, e alguns galvanizaram-se nos seus discursos, curtos, mas substantivos, para permitirem que escrevamos que a região está no mapa e precisamos que o país acorde, e os políticos que nos governam a partir de Lisboa percebam que estamos a chegar a um ponto sem retorno se todos continuaram a assobiar para o lado. Um dos premiados, depois de ver fotos antigas do Galardão, teve a coragem de elogiar Joaquim Silvério, dizendo que aprendeu quase tudo com um homem que só tinha a quarta-classe, e outro defendeu com tanta energia o papel do ensino privado em Portugal que é impossível que a energia do seu discurso não tenha feito estremecer as paredes milenares do Convento de S. Francisco, e ficado na memória das mais de três centenas de pessoas que estiveram na cerimónia. JAE

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A importância de merecer fazer parte da toponímia da cidade de Santarém com um Dr. atrás do nome

De Jorge de Sena a Pina Bausch, recordando ainda José Rodrigues Miguéis, a propósito de nomes de ruas e da falta de jeito dos responsáveis pela toponímia das cidades (com uma nota final sobre a forma moderna de receber pívias).


A história de uma terra pode estudar-se/descobrir-se na sua toponímia se esse trabalho estiver entregue a pessoas que entendem do assunto. O episódio em Lisboa com a inauguração da rua Pina Bausch é um bom pretexto para trazer aqui este tema que entendo da maior importância para a cultura local.

Deixo o caso Pina Bausch para os lisboetas mas não é por acaso que aproveito a novela para escrever a crónica da semana.

Pina Bausch é uma das mais marcantes figuras da cultura universal do nosso tempo. O filme/documentário de Wim Wenders sobre Pina Bausch, estreado em França em 2011, com recurso à tecnologia 3D, possibilitou ao director alemão filmar a dança da grande coreógrafa alemã de forma perfeita. “Pina”, simplesmente, é o nome da obra que homenageia com beleza e maestria a arte de uma mulher que transformou o ballet contemporâneo.

Pude vê-la trabalhar num único espectáculo e depois fiquei rendido não só ao documentário como a um livro de Claudia Galhós que é um ensaio sobre a sua Obra, e para já o único livro publicado em língua portuguesa sobre a vida e o seu trabalho. A sua cultura alemã pode muito bem ser confundida com a admiração que ela tinha por Portugal e pela cultura portuguesa.

Pina Bausch (1940–2009) manteve uma relação profunda com Portugal. Dar-lhe um nome de rua em Lisboa é uma homenagem mais do que merecida, que devia ter sido acompanhado por outras iniciativas que lembrassem o extraordinário percurso da coreógrafa, mas também o valor da sua grandeza como ser humano. É bom lembrar que o bailado e o teatro definham nas salas de espectáculos porque o Governo não investe o suficiente na produção cultural das grandes companhias independentes.

O que deu polémica em Lisboa foi terem gravado na pedra “dançarina” em vez de bailarina.


Imaginem agora em Santarém uma rua com o nome de um dos maiores poetas de sempre em língua portuguesa a quem identificam com um Dr. antes do nome. Falo de Jorge de Sena, que dá nome a uma rua da cidade. Quem teve a responsabilidade de gravar este nome apresentando-o com um Dr., ou era analfabeto ou não tinha qualquer responsabilidade na gestão da toponímia da cidade. Jorge de Sena é uma figura que deve ser homenageada por ser um dos maiores camonistas, autor de um grande romance, de um conjunto de contos do melhor da nossa literatura, autor de uma poesia que muita gente ainda terá que descobrir porque faz parte do nosso património cultural. Para além de ter uma vida profissional prejudicada pelo facto de ser antissalazarista, o que o obrigou a ir dar aulas para o Brasil e, mais tarde, a fixar-se nos EUA, o convite para discursar no dia 10 de Junho de 1977, durante comemorações do Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas na Guarda, não compensa em quase nada a dívida que Portugal nunca saldou, o quanto o escritor pensava sobre a importância de Camões, a identidade portuguesa e o papel das comunidades lusas dispersas pelo mundo. O seu discurso teve uma repercussão nunca mais vista e sentida noutras comemorações do Dia de Portugal, nomeadamente quando falou sobre a cultura e a pátria para além do território.

Jorge de Sena era uma figura polémica, mas não vivia das polémicas, trabalhava desalmadamente na sua Obra e no estudo da Obra de Camões. No meio disto tudo tinha que trabalhar como professor para sustentar uma família numerosa já que teve 9 filhos. Mécia de Sena foi companheira inseparável em todos os momentos e a certa altura a grande secretária do escritor, responsável pela publicação de muitos dos seus livros após a sua morte. Tive o privilégio de visitar Araraquara, uma cidade a cerca de 300 quilómetros de S. Paulo, onde pela primeira vez dormi num hotel fazenda. Visitei a sua antiga escola, mas já num tempo em que a maioria dos professores só tinha ouvido falar do escritor e professor e pouco adiantaram sobre a sua personalidade e a sua vivência numa cidade a muitos quilómetros de S. Paulo, onde tudo acontecia, e acontece ainda hoje, por mais que o Rio de Janeiro continue a ser a cidade maravilhosa.

Nota 1: não escrevo esta crónica para encher chouriços ou mostrar conhecimento. Escrevo para apelar à Câmara de Santarém que mande alterar a placa e faça justiça ao autor de Sinais de Fogo.

Nota 2: recentemente li um dos muitos textos de João Leite (presidente da Câmara de Santarém) em que tratava João Moutão (presidente da Universidade Politécnica) por Professor Doutor fora do protocolo e num texto onde os títulos não acrescentavam nada à informação. João Leite costuma ser tratado por alguns sectores da vida intelectual da cidade por Mestre Doutourando, o que é uma verdadeira pívia que lhe fazem e de que ele não tem culpa. Só esperamos que seja mesmo assim, que esta questão dos títulos seja guardada para as academias e para os académicos analfabetos que ajudam a Câmara de Santarém a tratar da toponímia, que no caso de Jorge de Sena foi, e continua a ser, exemplar. JAE.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Quando o Verão chega ao fim e o cronista ficou a ver navios

Este Verão faltei vezes demais nas praias onde a leitura de meia dúzia de livros durante uns dias de férias me fazem acreditar que ainda tenho energia para voltar a reler as Viagens de Gulliver.


O Verão está a chegar ao fim e o meu tempo de praia foi insignificante para o quanto eu gosto de nadar e mergulhar e, mais ainda, de ficar de papo para o ar a ler um livro.

É na praia e durante as longas viagens que consigo mais tempo para ler. Nada me entusiasma mais o gosto pela leitura que sair do meu ambiente de todos os dias, e viajar nem que seja para debaixo de uma moita ou nas asas de um avião.

Este Verão faltei vezes demais nas praias onde a leitura de meia dúzia de livros durante uns dias de férias me fazem acreditar que ainda tenho energia para voltar a reler as Viagens de Gulliver, só para citar um conjunto de livros que devem ter sido os primeiros a darem-me a conhecer a riqueza de um mundo ficcionado.

Tenho alguns milhares de livros comprados um a um em livrarias e feiras. Quanto mais os anos passam, mais livros vou juntando àqueles que li e assinalei para um dia voltar a ler. Nada me impede de sonhar alto, de continuar a viver na ilusão de que sou eterno. Quando leio um livro e não deixo a minha marca nas suas páginas é certo que não nos merecemos um ao outro.

Escrevo embalado pela leitura sem interrupções de um livro sobre bibliófilos, colecionadores, livrarias, leilões e um manancial de informações que servem para confirmar que também sou uma ave rara. É quando viajo que tudo de bom me acontece, mas regra geral enjoo na viagem, coisa que me acontece desde criança. E enjoar numa viagem às vezes dá vontade de morrer pelo caminho. Diz o autor do livro que é muito maior do que julgamos a quantidade de pessoas para quem acumular livros é muito mais importante que lê-los. Como não tenho espírito de coleccionador fico parvo a ler como funciona o mercado dos livros raros, como se fixam os preços e como uma boa parte dos bibliófilos são pessoas que sofrem de paixão como se os livros tivessem alma.

Eu apaixono-me pelos autores e fico cego de admiração quando um livro me enche as medidas, mas tempos depois é uma fonte de conhecimento, uma boa recordação, nada me prende a um livro que não seja a tentativa de lhe roubar a alma que ele não tem.

Sempre pensei que numa folga do meu trabalho de jornalista e editor, um dia fundava uma livraria; para vender alguns dos meus livros, mas também para passar pela experiência de exercer uma profissão cada vez mais rara: a maior parte dos livreiros podiam estar a vender tremoços ou camisas de seda.

Não é desses que guardo recordações no tempo em que despertei para a leitura, e depois a escrita literária, como forma de prolongar a experiência do encantamento. Ainda conheci livreiros que me aconselharam a leitura de certos livros, ajudando-me a descobrir os temas que mais me interessavam.

Quanto à livraria o Diabo que me ouça e me castigue nas horas em que ainda penso nisso e em mais mil coisas que gostava de fazer e já não posso porque não tenho pernas e pesa-me a cabeça.

Oito horas de viagem a ler sem fechar olho é o que faz de mim uma ave rara, não o suficiente para ficar orgulhoso. A minha grande vaidade vai ser, um dia, quando for velhinho, poder dizer que adormeci enquanto lia um livro. JAE.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A gastronomia ribatejana a dar que falar

Almeirim está para a sopa da pedra como a tourada para os aficionados. Depois do festival que decorreu recentemente, os restaurantes fecharam durante vários dias. Passámos por lá algumas vezes e as filas metiam medo ao susto. Um elogio à gastronomia ribatejana que beneficia do facto de o Ribatejo ficar a meio caminho de quase tudo, para o bem e para o mal.

“Até aos 7 faz-se, a partir dos 7 anos lembra-se”. A frase é do reportório do banho turco que na última semana pratiquei em horários mais diversificados do que o habitual, daí que tenha ficado mais sensível às conversas quando a ideia é mesmo desligar.

Almeirim está para a sopa da pedra como a tourada para os aficionados. Depois do festival que decorreu recentemente, os restaurantes fecharam durante vários dias. Passámos por lá algumas vezes e as filas metiam medo ao susto. Não há nada na região que seja tão lucrativo e que atraia tanta gente de fora do concelho e do distrito. A gastronomia é bandeira de muitos concelhos do país, de norte a sul. Nós temos vantagem porque ficamos a meio caminho. Não admira, por isso, que recentemente, ao almoçarmos num restaurante às portas de Santarém, tivéssemos encontrado a comitiva dos Xutos & Pontapés, que iam actuar nesse dia a Viseu, e a equipa completa dos Resistência que também iam a actuar a norte no concelho de Freamunde.

Ficamos ainda a saber que alguns deles, quando chegam, já dão beijinhos a quem os recebe, o que prova que a fama já vem de longe e conta a favor da hospitalidade que ajuda a preservar tradições.

Sou um amante das coisas doces. Adoro tigeladas e gostava de ver os pasteleiros do doce mais famoso de Abrantes rendidos à ideia das miniaturas, como já se usa nos pastéis de nata e nos pampilhos. Aquela mão cheia de ovos e açúcar e canela era o doce preferido da minha mãe. Nos últimos anos de vida oferecia-lhe, como mimo, uma tigelada por semana para não agravar a diabetes. Agora sou eu que não resisto nem que seja cortada ao meio. Fica aqui o apelo aos fabricantes para que o consumo seja mais apelativo.

Uma das minhas escritoras favoritas é Almudena Grandes (Madrid 1960 - Novembro 2021). Morreu com 61 anos mas deixou uma obra que vai perdurar. Curiosamente, o seu primeiro êxito literário é de 1989 com “As Idades de Lulu”, um livro erótico para todas as idades. Foi o primeiro e o último. Alguns dos seus romances posteriores têm o génio da sua escrita, mas nunca mais publicou um romance erótico que, apesar das várias reedições, é muito raro encontrar em alfarrabistas. Leila Slimani é de outro país e de outra geração, mas é igualmente uma romancista genial. Curiosamente, o seu primeiro sucesso editorial também foi um romance erótico (“No Jardim do Ogre”) publicado em França em 2014 e em Portugal mais recentemente onde já vai na sexta edição. Depois deste já saíram vários romances, na sua grande maioria premiados e elogiados pela crítica. “Canção Doce” é um dos romances que melhor retrata a crueldade do mundo em que vivemos, onde o trabalho e o êxito social fazem com que a generalidade das pessoas bem-sucedidas esqueçam, ou ignorem, os valores sagrados da vida.

Não é de somenos importância o erotismo na escrita de grandes nomes da literatura. A inclassificável Agustina Bessa Luís publicou em 1960 “Ternos Guerreiros”, que não sendo um livro erótico contém uma escrita de grande sensualidade que nunca desapareceu da sua obra de uma centena de livros. “Ternos Guerreiros” está neste momento a ser adaptado para cinema, o que diz bem da sua importância na obra da autora, na altura em início de carreira.

A Região de Turismo do Alentejo e Ribatejo prometeu fazer da região ribatejana a capital da literatura, aparentemente à boleia de José Saramago, o nosso Nobel, que nasceu na Azinhaga, mas tem na sua Obra marcas de uma longa vivência em toda a região. Depois de uma primeira iniciativa o projecto parece ter borregado. É pena. Mas começa a ser sina. O Ribatejo tem a fama e os outros têm o proveito. Não aproveitar o êxito e a fama de José Saramago e do Nobel, que é único, é a mesma coisa que deixar passar a água do Tejo a caminho do mar da palha e não a aproveitar para regar os campos e fomentar as hortas nos campos da Lezíria. JAE.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O papel da comunicação social na denúncia de um Estado que umas vezes é pai outras enteado

As notícias de proximidade como aquelas que nós escrevemos exigem gente no terreno, uma porta aberta para a comunidade, gente que do outro lado não produz informação só para sustentar poderes políticos e económicos. Raramente é notícia um apelo nacional para acudir a uma pessoa que não tem o apoio do Estado para se salvar de uma doença, por não ter como muitos outros o apoio do Estado que para uns é pai e para outros enteado.

Há um ditado que diz que quem confessa a verdade não merece castigo. Vem o mesmo a propósito desta crónica semanal ainda durar depois de tantos anos a teclar. Confesso que a crónica resiste por impulso do trabalho diário. Há semanas em que é escrita no calor das conversas entre pares. Não tenho qualquer vontade de me substituir aos jornalistas de O MIRANTE depois de tantos anos na labuta. Não perdi o prazer de escrever para o jornal, de fazer parte da equipa, mas não tenho tempo para fazer tudo o que gosto; por isso algumas coisas têm que ficar pelo caminho. A crónica deixou de ser prioridade na minha agenda, mas resiste. Esta semana é um bom exemplo para escrever, com conhecimento de causa, que ninguém arruma as botas enquanto tiver pernas para andar.

Ao longo de muitas décadas, O MIRANTE tem ajudado muita gente em situação dramática de doença. Lembro-me de alguns casos em que fomos importantes na compra de cadeiras de rodas, de pagamento de cirurgias, de internamentos em hospitais privados, de ajudas financeiras a pessoas desesperadas com a doença de filhos, netos e outros familiares. Tenho de memória os telefonemas de pessoas que nos deram conta dos montantes que transferiram, informando antes que queriam fazê-lo para as nossas contas bancárias para terem a certeza que o dinheiro chegava; outros que nos pediram que os representássemos na doação e não quiseram ser identificados. Arrisco escrever que em todos os casos nunca fomos enganados, nunca demos visibilidade a situações de pedidos de ajuda humanitária que não merecessem a ajuda dos leitores. Não quero saber, nem para o caso interessa compreender as pessoas que ao longo dos anos pediram ajuda, mas que se negaram a dar o rosto pedindo que tivéssemos dó. Há casos gritantes de familiares que, por pudor, aceitam campanhas de solidariedade, mas fogem à exposição como o diabo foge da cruz. E como eu os compreendo. Não sei se não faria o mesmo se precisasse da ajuda anónima; se, para viver, tivesse que pedir publicamente que me ajudassem a pagar aos médicos e aos hospitais. Com muitas pessoas o orgulho fala mais alto que o sentido da sobrevivência. Há muita gente que prefere morrer de dor que de vergonha. E pedir dinheiro e solidariedade à comunidade para salvar a vida, ou viver mais uns anos, ou para pagar tratamentos que dão qualidade de vida, pode custar mais que aguentar a dor e o sofrimento. O Estado falha na grande maioria dos casos porque somos um país pobre; e somos ricos, às vezes, quando estão em causa os interesses de pessoas que se movimentam muito bem junto dos políticos ou de quem os representa nas instituições.

No dia em que escrevo este texto ligaram-nos a dar conta que havia uma família mobilizada para ajudar uma outra família que precisa de ajuda. Mas estavam a encontrar dificuldades. Perguntaram-nos como deviam proceder já que temos informação privilegiada. Quiseram saber como era possível negarem a ajuda que estava a ser disponibilizada. Não queriam acreditar que não tivéssemos uma resposta; como se fôssemos especialistas na matéria e não profissionais da comunicação social.

A comunicação social portuguesa notícia com regularidade um morto por esfaqueamento na Tailândia, ou na Austrália, às vezes vários feridos graves numa escola de uma cidade dos EUA, ou num país do Oriente. Nós vemos e não podemos deixar de pensar no velho ditado: um desastre de mota na nossa terra é uma tragédia, se morrerem 100 pessoas num desastre na China é só mais um desastre. A ideia com que ficamos muitas vezes é que a comunicação social portuguesa, na sua generalidade, só publica certas notícias porque lhes chegam limpinhas sem osso. Não têm trabalho de redacção e muitas vezes de edição. As notícias de proximidade como aquelas que nós escrevemos exigem gente no terreno, uma porta aberta para a comunidade, gente que do outro lado não produz informação só para sustentar poderes políticos e económicos, mas para servir a comunidade. Muito raramente é notícia um apelo nacional para acudir a uma pessoa que não tem o apoio do Estado para se salvar de uma doença, de uma vida no fio da navalha por não ter os recursos próprios para pagar tratamentos, por não ter como muitos outros o apoio do Estado que para uns é pai e para outros enteado. JAE.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A morte saiu à rua e levou o João

No passado sábado recebi pela manhã a notícia da morte do meu irmão. Era um dos dias em que íamos estar juntos por causa de uma festa em família. Segundo a sua companheira Adelaide, morreu com um sorriso nos lábios, a dormir, quando o coração, já com problemas, resolveu avariar de vez.

Quem tem o vício de escrever morre um pouco todos os dias nas palavras que ficam gravadas, no papel ou na memória do computador. Daí que muitas vezes fiquemos pelo caminho porque achamos que já escrevemos tudo o que de mais importante tínhamos para escrever. Sei alguma coisa do assunto porque o meu passatempo favorito é ler biografias e ver documentários. Também gosto de escrever, mas tenho rejeitado alguns convites para esse trabalho fácil, mas só aparentemente, pelo menos para quem não gosta de vender gato por lebre e tem que esturrar as pestanas. Uma crónica é diferente: não exige pormenores, é uma encomenda do espírito que despachamos com as impressões que ficam das memórias recentes que podem até ser as que vivemos há mais tempo, mas as que mais duram. No passado sábado recebi pela manhã a notícia da morte do meu irmão. Era um dos dias em que íamos estar juntos por causa de uma festa em família. Segundo a sua companheira Adelaide, morreu com um sorriso nos lábios, a dormir, quando o coração, já com problemas, resolveu avariar de vez. Somos os dois herdeiros da calvície dos nossos avós, dos problemas com o coração do nosso pai, entre outras heranças, mas tão diferentes um do outro como o chão da lezíria do chão da charneca.

Eu fui muito mais privilegiado que ele porque quase tudo o que ele aceitava do nosso pai eu rejeitava. Nunca era coisa boa, e, por isso, o João, que tinha sete anos de diferença de mim, aceitou aprender o ofício de pedreiro que o meu pai também queria para mim. Não tinha como ajudá-lo nessa altura. Ajudei mais tarde quando me procurou e trazia uma solução para mudar de vida, que aprovei de imediato e à qual dei a ajuda fundamental para que fosse em frente. Nada disso o impediu de viver uma vida com altos e baixos, como todos nós que somos gente. Os nossos sete anos de diferença foram a bênção que Deus me deu, se é que há Deus e ele tem alguma influência no nosso destino; para a minha mãe poder cuidar do João, o Joaquim foi viver para a casa da avó Ilda, que me ensinou tudo, tudo, e que é, ainda hoje, muitas décadas depois de a encontrar morta na beira da cama, a pessoa que mais influenciou a minha vida espiritual, e a que mantenho como referência, sem excepções, em tudo o que faço. Curiosamente, o João era todo a cara e o espírito da família da minha avó materna, enquanto eu sou mais a do meu avô paterno. Mas aqui o destino provou que não controlamos tudo. A minha avó era a única da família materna que escrevia diariamente capítulos da Odisseia, sem que alguém desse por isso, enquanto a família do meu avô paterno inspirava-se diariamente no brilho das espadas dos primeiros reis de Portugal, coisa que dura até hoje. 

Que me lembre nunca me zanguei com o meu irmão. Ele tratava-me carinhosamente por mano, mas eu nunca consegui ir além do trato pelo nome próprio. Sem dúvida superioridade do irmão mais velho que sabia ser a referência do irmão mais novo. O João tinha tudo aquilo que sempre é valorizado em sociedade; era alegre, brincalhão, atirava os foguetes e ia apanhar as canas, não era desconfiado, perdoava com a facilidade de um São João Gualberto, e, para ele, viver com um euro devia ser tão dramático como viver com um milhão, a confiar nas voltas que deu à vida, que foram muitas, algumas delas dramáticas, depois de me pedir opinião e ter feito o contrário daquilo que eu lhe aconselhava.

Não tenho, certamente, uma pequena parte dos valores humanos que o João tinha, mas também, tal como ele, aguento as consequências do meu feitio, das minhas opções de vida, e como não tenho nem faço amigos com a facilidade que ele fazia, sigo em frente com o pensamento em Santo Agostinho: “O mundo é um livro, e quem fica sentado em casa lê somente uma página”.

É difícil falar/escrever sobre a morte de um irmão quando ele era, na realidade, o único que restava da minha família mais próxima, depois da morte de pais, avós e tios. Entretanto construímos as nossas famílias, mas isso já é para outra crónica, ou então parte da tal biografia que um dia alguém há-de escrever, quem sabe alguém que ainda está a aprender a ler, e nem sabe nem sonha o que Santo Agostinho teve que viver para ser Santo Agostinho. JAE.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A floresta portuguesa e as máfias que nos escrevem em nome do Governo

Portugal não tem uma política para a floresta e a que tem é desastrosa. O que está a acontecer com o negócio da cortiça e os roubos é de bradar aos céus.

O MIRANTE está a publicar até Setembro um extenso dossier sobre a floresta portuguesa, a eucaliptização e a problemática dos fogos. Pela primeira vez assumimos um trabalho editorial que ultrapassa a nossa área de influência. Nesta edição publicamos uma notícia sobre a venda da cortiça da Companhia das Lezírias que dá que pensar, e, por mais incrível que pareça, ultrapassa todos os problemas da nossa floresta que ao longo dos últimos dois meses temos esmiuçado com autarcas e várias autoridades. A baixa de preços de que se queixa a Companhia das Lezírias é quase a falência da gestão da floresta, e merece da parte do Governo uma atenção especial que não tem sido dada na generalidade à floresta no seu todo. Para complementar, esta semana publicamos na edição online uma entrevista com o presidente da Câmara do Gavião, que diz que os roubos de cortiça são uma tragédia para o montado de sobro, porque a forma como os gatunos fazem a extracção mata os sobreiros. E quando os gatunos são apanhados em flagrante, o que é raro, “as molduras penais são brandas”, o que nos leva a tirar a seguinte conclusão: ainda é possível neste país de incendiários e ladrões de cortiça salvar alguma coisa sem andarmos acompanhados com agentes da GNR, como é o caso dos deputados e governantes deste nosso torrãozinho de terra?

A edição impressa de jornais está para o serviço público como o regime democrático está para a prática de políticas de ajuda aos mais desfavorecidos. Serve a nota para dar conta que o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) está a servir a uma Máfia para cobrar verbas avultadas a todas as pessoas que têm pedidos pendentes nesta instituição. A empresa editora de O MIRANTE também entra nesta novela porque recebeu exactamente o mesmo ofício que está a ser enviado às pessoas e entidades com pedidos de registo em análise ou em situação de deferimento. Os responsáveis avisam no sítio da INPI que devemos ter cuidado e que o correio que recebemos é falso. Mas quem é que pede um registo no sítio da INPI e depois vai lá saber notícias sobre a actividade do organismo? E sabendo que há vítimas, os responsáveis não têm a obrigação de avisar directamente todos os que têm pedidos pendentes em vez de desafiarem os utentes a recorrerem à Polícia Judiciária, quando são eles que o deveriam fazer usando toda a informação que já têm em seu poder? Os ladrões usam um IBAN de uma conta bancária na Polónia, país que pertence à União Europeia desde 2004. Não é estranho as polícias não se entenderem no ataque à bandidagem?



Trago aqui este exemplo porque acredito que muita gente caiu no engano. Estou habituado a receber diariamente emails falsos e cairia neste logro se não tivesse assessoria à altura. A imagem que ilustra este texto é significativa do engenho dos pedidos fraudulentos de pagamento de taxas em nome do INPI. O Governo português e os seus organismos têm obrigação de usar a comunicação social para alertar a população. E comunicar pagando é uma forma de contribuir para uma democracia mais forte e musculada como se pode provar nos países mais desenvolvidos da Europa, como é o caso da vizinha Espanha. No dia em que recebi este correio manhoso recebi também a informação de que o Governo da Catalunha fez um investimento recorde de publicidade nas empresas de comunicação que chegou aos 50 milhões de euros, quase 9% mais do que no ano transacto. O valor gasto pelo Governo regional está muito perto do total gasto pelo Governo do país que terá gasto na ordem dos 88 milhões de euros, ou seja, enquanto o governo catalão atinge os 6,2 euros por habitante, o governo nacional gastou apenas 1,8 euros. JAE.