quinta-feira, 30 de julho de 2026

Futebol, caciques, dança, mulheres livres e as saudades do Alexei Bueno

As mulheres dão dez a zero aos homens na disponibilidade e gosto para dançar; os jogos de futebol já não são pirateados; os partidos que eram a referência da democracia em Portugal estão nas lonas.


O tempo passa a correr mas deixa marcas e muitas vezes das boas. Um dia conheci o Alexei Bueno que me foi apresentado, de boca quase fechada, porque eu tinha que ter cuidado durante o serão literário para não me pôr a jeito de ser desconsiderado. Ao contrário, nessa noite nasceu uma amizade que durou um quarto de século e acabou no dia 26 de Junho, data em que Alexei morreu da doença da moda, logo ele que era sempre do contra, e modas nem as da roupa quanto mais as das ideias.

Com 63 anos de vida Alexei Bueno levou para o caixão o ensinamento de muitas bibliotecas, de muitos livros que escreveu, que prefaciou, que apresentou, que leu com a mesma paixão com que fumava charutos e bebia que nem um desalmado.

É dele, mas eu julgo que ele não inventou nada, a frase dita num início de um congresso onde tinha umas contas a ajustar com um dos congressistas. Vestido com roupa de índio, de rosto pintado para a guerra, com as lanças e as espadas a verem-se para lá das paredes do palácio do congresso, Alexei Bueno disse para um camarada de armas que se preparava para começar a debitar discurso: “Comece a falar, diga alguma coisa para eu ser contra”. Começo a ter saudades do Alexei.


Escrevo este texto num país vizinho de Portugal e acabo de saber que alguém que manda no Sistema acabou com as transmissões piratas de jogos de futebol. As que sobram são todas pagas e obrigam a demorados registos. A eficiência dos tribunais administrativos e fiscais em Portugal piorou, com destaque para o aumento do tempo médio de decisão, segundo dados da Comissão Europeia divulgados ainda neste mês de Julho de 2026. A justiça que faz funcionar o país e garante a democracia deste regime quase podre, vai piorando, piorando, mas os operadores privados de TV têm a polícia do seu lado a caçar os operadores piratas. Nada contra. Deixo aqui a nota porque acho que estamos cada vez mais nas mãos de grandes sacanas que sonharam ser ricos, e vão conseguir concretizar os seus sonhos, à custa de um país que os militares lhes ofereceram. E não estamos em África... é bom lembrar.


O Bloco de Esquerda acabou, como vai acabar o PCP e o CDS, e daqui a uns tempos o PS e o PSD. Se não acabarem tornam-se insignificantes como já acontece aos três primeiros desta lista: existem mas já não contam para o totobola. O que dói é perceber que nos dois partidos que dividem o poder em Portugal milita a fina flor do entulho, junto com algumas pessoas sérias que não vão para a política para se governarem, mas para prestarem serviço público, devolvendo ao país aquilo que o país já fez por eles e pelos seus amigos e familiares. E porque fecham os olhos aos camaradinhas que boicotam isto tudo e baixam a fasquia ao nível do seu analfabetismo, do clientelismo que, regra geral, começa nos pequenos empresários e vai até aos líderes das famílias mais ricas?

Não há explicação para que ainda haja tantos caciques ao serviço de esquemas que saltam à vista, que de vez em quando abrem noticiários de televisão, quando a própria comunicação social resolve fazer as suas excepções. Sim, a crise também já chegou à comunicação social. Somos tão poucos que quando os maiores se calam relativamente a um caso, o assunto pode desaparecer e tornar-se invisível. Há caciques que aprenderam a lidar com a comunicação social como aprenderam noutros tempos a lidar com a máquina do Estado, que é gigante e ninguém controla verdadeiramente, onde circula muito dinheiro e interesses inconfessáveis. 


Para corresponder ao tempo de Verão em que vivemos, vou tratar aqui um assunto “político” pouco comum: Os homens estão cada vez mais arredados da arte da dança. Embora seja moda abrir escolas de danças latinas, de tango e Lind Hope, as mulheres dão dez a zero aos homens. O problema é quando a dança é a par; as mulheres fazem fila entre pares para conseguirem dançar com os poucos homens que aparecem na escola ou nas oficinas que se vão realizando por aí e são os novos pontos de encontro onde se mistura a arte da dança com o convívio social. Nada que não tenha pergaminhos nas discotecas, que se enchem de gente ao fim-de-semana na grande Lisboa e no grande Porto, onde se concentra mais de metade da população portuguesa. O que me leva a escrever sobre o assunto é a emancipação do chamado sexo fraco. Hoje as mulheres estão mais livres para viajarem que os homens, divorciam-se com muito mais facilidade do que aturam duas brigas seguidas, depois saem de casa e vão dançar e fazer novos amigos. O chamado sexo forte já era: ainda é parte importante da relação, como será sempre, mas as mulheres ganharam estatuto e estão uns pontos à frente dos homens na dança, na liberdade de escolha em certas áreas da vida moderna que inclui a ida regular ao cinema e ao teatro. JAE.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

As câmaras municipais são as casas do povo

Os votos de pesar do executivo de Vila Franca de Xira, que foram notícia esta semana, deram-me pretexto para informar que, na Chamusca, Fernando Vidal já se reformou; e recordar Lourdes Conde e Lourdes Silva, que foram igualmente figuras importantes dos serviços da autarquia.

A notícia das mortes recentes de gente ilustre do concelho de Vila Franca de Xira originou um lamento público da autarquia que já foi notícia na edição online e volta a ser nesta edição impressa. Entre eles está um voto de pesar pelo desaparecimento de Vítor Manuel Jesus, de 67 anos, trabalhador dos SMAS de Vila Franca de Xira, falecido recentemente. Foi por esse gesto de reconhecimento que surgiu a ideia para esta crónica.

Começa a ser hábito em alguns concelhos os políticos residentes nos Paços do Concelho desprezarem os munícipes contratando seguranças não para acudirem a desacatos ou informarem sobre serviços da instituição, mas apenas para impedirem a entrada no edifício se o cidadão quiser apenas espreitar, por exemplo, o salão nobre da Câmara Municipal. Nada contra a existência de segurança, visceralmente contra a sua presença intimidatória que faz dos Paços do Concelho um edifício onde se escondem centenas de funcionários, políticos e administrativos que mais não são que os nossos representantes pagos, em muitos casos mal pagos, mas mesmo assim sustentados com o dinheiro do povo e eleitos com os votos desses mesmos contribuintes e munícipes.

Devia ser norma uma visita pública guiada ao edifício, pelo menos uma vez por ano, para não esquecermos que o Poder Local é uma das maiores conquistas da Revolução do 25 de Abril de 1974. Os Paços do Concelho são também a casa dos munícipes, onde não se entra apenas para pagar impostos, mas também para respirar, ou respirar cada vez melhor, o cheirinho a cravos da democracia.

Tive notícia, recentemente, da ida para a reforma de Fernando Vidal, um quadro da Câmara da Chamusca, o mais antigo dos trabalhadores da autarquia. Sempre me lembro do Fernando Vidal como o homem que abria e fechava as portas do município, às vezes pela noite dentro, o funcionário em que toda a gente confiava a gestão, mas se fosse preciso também a carteira. A sua saída não mereceu uma palavrinha do anterior executivo. Os mais de cinquenta anos que Fernando Vidal dedicou ao trabalho e organização dos serviços da autarquia acabaram no dia em que ficou em casa já com o estatuto de reformado. Como não tenho memória curta, e sou do tempo em que entrávamos nos Paços do Concelho da Chamusca de botins, a cantar a Internacional ou a dar vivas à democracia, nunca esqueci os dias da morte de Lourdes Conde e Lourdes Silva, duas funcionárias de topo da autarquia, tal como Fernando Vidal, que mereceram igual silêncio dos políticos em exercício nas datas em que faleceram. Conheci bem as duas figuras, com quem Fernando Vidal deve ter aprendido muito, e posso testemunhar o empenho, a dedicação, a facilidade que qualquer chamusquense tinha para as abordar na rua, na loja ou na farmácia, e lhes pedir uma informação. JAE.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique”

Esta semana O MIRANTE conta como a Nersant voltou a levar sopa do tribunal e recuperamos, de duas edições passadas, uma notícia que actualiza a negociata entre o executivo da câmara da Chamusca e uma empresa do antigo presidente da assembleia municipal.


“Jornalismo é publicar o que alguém não quer que seja publicado: todo o resto é publicidade”. A frase é de George Orwell e o jornal El País usa-a no final das suas comunicações com os leitores que subscrevem a maior parte das suas newsletters (circulares). Milhões de leitores, como é o meu caso, assinam e recebem de forma gratuita as mais variadas matérias do jornal, que podem ser lidas apenas pela metade, uma vez que fomentam o interesse pelo jornal e convidam à formalização da assinatura. Recentemente, o El País reorientou sua estratégia de negócios de venda de assinaturas a preço de saldo (baixo custo), mesmo sendo um jornal com mais de meio milhão de assinaturas online e com uma política de abrir muitos conteúdos à maioria dos seus leitores.

Em Portugal os media estão numa crise profunda. A culpa, segundo Carlos Rodrigues, da empresa Media Livre, que me parece acertada, é mais da gestão que do jornalismo. Comparando o que se faz em Espanha com o que vemos em Portugal, bem podemos voltar aos tempos em que o governante do Partido Socialista, Alberto Arons de Carvalho, obrigou os jornais locais e regionais a praticarem um preço mínimo de assinatura entre outras maldades que só não estão enterradas porque ainda hoje condicionam todo o sector. Vinte anos depois, Arons de Carvalho briga em tribunal com o actual Governo porque acabou recentemente de sair, contrariado, do cargo de presidente do Conselho Geral Independente da RTP. Arons de Carvalho é ainda descrito como um especialista a comentar o futuro e a gestão da televisão pública. Para bom entendedor meia palavra basta. Em Portugal não se usam as coroas reais como em Inglaterra, mas em muitas situações somos uma verdadeira monarquia.

Trago o assunto aqui porque O MIRANTE, desde a sua fundação, sempre orientou o preço da assinatura para preços de baixo custo, já que sempre defendemos que quem tem que ajudar a pagar o jornal são mais os anunciantes e menos os leitores.

Volto à frase com que comecei esta crónica. Esta semana a Nersant volta a ser notícia porque o ex-presidente, António Pedroso Leal, que ficou a meio do caminho do seu mandato, queria batatinhas de um juiz do tribunal porque se considera ofendido por notícias do jornal. Levou sopa. Tanta sopa como a sopa que deu aos associados da Nersant a quem prometeu mundos e fundos para acabar a sair antes do tempo e depois de vender o património que outros dirigentes construíram. E ainda teve o descaramento de prometer publicamente dois milhões de euros para financiar a imprensa regional. Acabou por gastar zero dos dois milhões prometidos e teve que vender património para pagar ordenados e dívidas.

O mesmo com as negociatas entre a câmara da Chamusca e a empresa Garrido Artes Gráficas. Joaquim Garrido foi adversário político, e depois amigo de Paulo Queimado. Editou um livro de luxo em condições escandalosas que mereceram escrutínio. Só esperamos que a aparente ingenuidade que as duas maiores figuras da política autárquica da altura na Chamusca não se fiquem a rir das instituições que escrutinam este tipo de negócios. Como todos sabemos, há gente que nasceu com o cu virado para a lua e acha que toda a tolice merece o colo do perdão. “A ver vamos”, como diz o ditado popular. JAE.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Santarém vai ter um parque temático em que o futebol é rei

O executivo de João Leite está a surpreender tudo e todos. Depois do falhanço na conquista do aeroporto, eis que pode ter saído a lotaria a um território que se livrou da poluição dos aviões para conquistar outros projectos mais amigos do ambiente e igualmente prometedores para o ataque à desertificação do interior. 


A campanha falhada do aeroporto internacional de Lisboa para Santarém deixou marcas. Sei isso desde há muito tempo e pude confirmá-lo nestes últimos dias depois da sessão de apresentação pública de um projecto para um parque temático dedicado ao futebol. Amigos e meia dúzia de conhecidos trocaram mensagens comigo perguntando qual a minha opinião sobre o projecto, e se eu acredito que pode ir em frente. Não é normal receber tantas mensagens, mas compreendo que os números divulgados façam desconfiar todos os que ainda não esqueceram a derrota do aeroporto.

É claro que estamos a escrever sobre realidades bem diferentes; um parque temático ao nível do que se anunciou agora para Santarém existe por todo o mundo. Só em Espanha há vários, e alguns muito frequentados por portugueses. Eu próprio já visitei alguns quando tinha vagar para ser pai e os meus filhos ainda precisavam de mim para se divertirem. No caso do parque temático Viva Mundo, tudo leva a crer que o projecto só ficará pelo caminho se houver alguma pandemia. Há muito tempo que não se juntava uma plateia tão ilustre na velha cidade onde viveu e morreu Pedro Álvares Cabral. Não só as personalidades da cidade como gente ligada aos negócios, nomeadamente a este tipo de actividade económica. Quem esteve na apresentação, como foi o meu caso, não ficou com dúvidas; o projecto é aparentemente muito sério, envolve gente com dinheiro e é orientado por quem não está habituado a fazer má figura.

João Leite, o anfitrião, tem vivido um ano de mandato que ultrapassa a milhas tudo aquilo que eram os grandes momentos dos últimos trinta anos vividos em comunidade na cidade a que Almeida Garret chamou “um livro de pedra”.

Não lhe fazemos favor nenhum escrevendo que será o político deste século na gestão da autarquia escalabitana. O número de figuras públicas que reuniu no Convento de S. Francisco faz acreditar que tem a cidade e o concelho com ele.

Até hoje, depois de Ladislau Teles Botas e José Miguel Noras, a capital do distrito tem vivido mais do foguetório que do bodo da festa. João Leite está a fazer aquilo que todos acham que tinha que ser feito, mas ninguém até agora teve músculo e cérebro para fazer. O aeroporto nos terrenos do Campo de Tiro de Benavente pode ter sido uma bênção para Santarém e para todo o Ribatejo. Veremos se há males que vêm por bem, e se nos livraram da poluição dos aviões para nos ajudarem a manter um território com projectos alternativos amigos do ambiente, e nem por isso menos importantes no ataque à desertificação do interior do território.

Ainda a tempo: respondi a todas as mensagens que me enviaram que acredito no projecto que está a ser anunciado para Santarém, embora à boca pequena tenha ouvido Carlos Carreiras admitir que se não se correr contra o tempo muita coisa pode correr mal e obrigar a esforços redobrados com as devidas consequências. Mas sinais de pessimismo foi coisa que não vi ou ouvi em nenhum dos protagonistas deste evento. JAE.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Somos um desastre a viver em comunidade: o caso de Alenquer

O que se está a passar em algumas localidades de Alenquer é a prova provada do desastre que somos a viver em comunidade. Mas o caso de Passinha e Casais Novos é só um exemplo: há outros muito recentes que também já fizeram capa neste jornal.


Ainda ontem começou o mês de Junho e eu já comi figos e ameixas das árvores que plantei há cerca de vinte anos, na semana precisa em que colhi as últimas laranjas tardias que nem imagino como chegaram maduras ao início do mês mais bonito do calendário. O que a Natureza nos oferece é o milagre diário que alimenta as nossas vidas, e viver diariamente dedicando algum tempo a sujar as mãos na terra, ou a cuidar da mente lendo um livro, é o melhor que nos pode acontecer. Deixo aqui este pequeno apontamento escrito no início de uma semana cheia de compromissos com os outros, todos aqueles que me empurraram para esta vida de jornalista e editor, e o mais a que sou obrigado, uns por bem, outros por mal, o que vai dar ao mesmo; já que tenho que trabalhar para justificar o pão que como, então que seja sempre por uma boa causa, que é trabalhar para a comunidade, como trabalho para os pardais que são sempre os primeiros a provarem a fruta madura.

Portugal é um país de gente boa; posso comprovar isso quase todos os dias em que comunico com pessoas que não conheço, algumas que me escrevem ou telefonam indefesas pedindo ajuda, outras 

chamando-me os nomes que nem o diabo sabe que existem. Num e noutro caso aceito tudo, ou quase tudo, de forma pacífica. Mas não deixo de fazer o meu juízo sobre o país e a região onde nasci e vivo a maior parte dos meus dias: somos um desastre como comunidade. Aqui no Ribatejo e no Algarve. Em Leiria, em Évora e no Porto, que de Lisboa nem se fala.

O que se está a passar em algumas localidades de Alenquer é a prova provada do desastre que somos a viver em comunidade. Mas o caso de Passinha e Casais Novos é só um exemplo: há outros muito recentes que também já fizeram capa neste jornal e que não vou desenterrar para não me dispersar. Cabe na cabeça de alguém que uma empresa de transportes mude de instalações para um lugar onde não há estradas em condições, e em mais de cinco anos a comunidade não se tenha unido o suficiente para obrigar os políticos a pagarem pelos erros dos que decidem o planeamento do território? Que comunidade é que querem os autarcas nos seus concelhos se eles próprios se demitem das suas responsabilidades? Há perdão para os políticos que se deixam enganar pelos engenheiros dos gabinetes dos municípios, e os tribunais não sejam lestos a fazer justiça quando o que está em causa é a saúde pública de dezenas de moradores que tiveram o azar de construírem a sua casa de família para onde, surpreendentemente, se terá mudado o diabo e a sua família?

Alenquer é um concelho com prestígio; a proximidade a Lisboa tem feito crescer o concelho a olhos vistos; com a área metropolitana de Lisboa cada vez mais entupida, mais gente a trabalhar na capital compra casa no concelho de Alenquer. Se o aumento da população e o investimento na qualidade de vida no concelho não são suficientes para que os políticos dêem a cara pelos interesses da comunidade, o que é que podemos esperar para o futuro? Não é justo que os interesses de uma empresa estejam acima dos de uma população. E não se aceitam desculpas, pelo menos neste caso, quando todos sabemos que o erro foi detectado muito a tempo de ser remediado. JAE.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Guerra civil em Vila Franca de Xira por causa do estacionamento pago

Se há concelho do Ribatejo que não está em crise de população e habitacional é Vila Franca de Xira. No entanto, vem aí uma proposta para implementar o estacionamento pago em urbanizações onde nada foi planeado. Os moradores podem ter um calvário pela frente.

O concelho de Abrantes é conhecido por ser um bastião socialista, e em certos mandatos por erros de gestão que vão ficar na História. O caso mais grave foi o negócio com o “Barão Vermelho” que devia ser estudado nas universidades e, acima de tudo, nas formações que os partidos fazem com as juventudes partidárias. O que se passou em Abrantes, no tempo de Nelson Carvalho, não lembrava ao diabo, e dessas políticas irresponsáveis, que não foram devidamente penalizadas, nem são ainda hoje, é que nasceu e cresceu esta onda de revolta que alimenta o partido Chega. Veremos se os partidos tradicionais têm capacidade para se renovarem e impedirem este crescimento do Chega que, embora tenha alguns dirigentes bem-intencionados, e competentes, é no geral um ninho de ressabiados que saíram dos partidos tradicionais, de onde foram corridos.

Fui a Abrantes para dar o exemplo da política da cidade para a questão do estacionamento. Das cidades com Centro Histórico importante, Abrantes parece-me 

a que tem a política mais acertada na questão do estacionamento. Trago o assunto a este espaço porque há quase uma guerra civil em Vila Franca de Xira sobre a possibilidade de o concelho se tornar um inferno para os moradores. A autarquia prepara-se para implementar parquímetros em zonas super urbanizadas, onde não foram construídos silos para estacionamento automóvel e onde os moradores, para poderem fazer a sua vida, têm mesmo que usar carro próprio.

Não é normal que num concelho onde a habitação cresce em altura a um ritmo frenético, como acontece na Quinta da Piedade, por exemplo, a gestão não se faça também ao nível do estacionamento. Se vierem só os parquímetros, como parece inevitável, e não surgirem os silos e bolsas de estacionamento a preços simbólicos para residentes, vai haver muita gente a sentir-se enganada e a perguntar para que servem os gabinetes de planeamento das autarquias, e que interesses é que defendem os técnicos ao serviço de algumas câmaras municipais. É um assunto que merece uma discussão ampla e urgente. E não estamos só a falar da Póvoa de Santa Iria, os erros do passado estendem-se a Alverca e outras localidades do concelho onde o betão cresceu muito e não houve planeamento.  

Vejamos também o caso de Santarém. O parque de estacionamento que surgiu das obras no Jardim da Liberdade foi uma negociata que hoje, passados 20 anos, está no seguinte ponto: quem for jantar a um restaurante da cidade e se descuidar para lá das 22 horas, já não consegue recuperar o carro senão no outro dia pela manhã. Ora isto faz algum sentido? Faz. Pelas piores razões. Mas não sou eu que vou explicar.

Na Chamusca fez-se recentemente uma reabilitação urbana que deixa muito a desejar, mas a vila é pequena e os erros ali são como os erros graves dos médicos: a terra fá-los desaparecer e esquecer com o tempo. No Cartaxo já não é assim; a regeneração urbana feita há mais de duas décadas deixou marcas profundas na cidade, e ainda hoje se pagam caros alguns erros dessas opções. O parque de estacionamento no centro da cidade esteve duas décadas sem poder ser tarifado por não cumprir algumas imposições legais necessárias. O que se está a passar com a circular urbana dá pano para mangas.

Volto a Vila Franca de Xira: se não houver bom senso admito que a guerra civil possa ser feita com armas de papelão e balas de papel, mas há muitas razões para pensar que o número de pessoas que vão sofrer este constrangimento pode reflectir-se nos votos das próximas eleições. JAE .

quinta-feira, 14 de maio de 2026

João Joaquim Isidro dos Reis: um breve retrato do bisneto do benemérito que deu nome e ajudou a construir a Ponte da Chamusca

“Sinto os ombros pesados, Joaquim António”, confessa com familiaridade João Joaquim Isidro dos Reis, tratando o jornalista como sempre tratou desde que nos conhecemos; “Detesto quando não estou à altura das coisas”. Uma entrevista publicada no interior desta edição, com um ribatejano que tem uma ganadaria, faz a gestão de uma quinta centenária que já conheceu melhores dias, e que não esconde o orgulho de ter dois filhos que estão prontos a fazer melhor do que ele fez da herança que lhe coube em sorte. Depois do que sobrou da entrevista, não tinha melhor escolha para o tema desta crónica que coincide com a semana da Ascensão, que marca a vida comunitária de meio Ribatejo.

João Joaquim Isidro dos Reis é o patriarca de quinta geração de uma família que faz parte importante da História da Chamusca. Faz 69 anos nos próximos dias de Junho, tem dois filhos de quem se orgulha, e uma história de vida muito diferente do seu bisavô, de quem herdou o nome, que é o grande responsável pela construção da centenária Ponte da Chamusca. O MIRANTE marcou encontro na sua quinta no Pinheiro Grande, que perdeu a beleza de outros tempos, mas mantém o essencial, ou seja, a casa de família, os cerca de trezentos hectares onde se criam touros bravos, e um espírito que é próprio dos lugares que muitas vezes só sabemos que existem pelos livros. E nada mais fácil de provar o que se escreve se tivéssemos espaço, ou a finalidade deste texto fosse fazer a heráldica da família: nas paredes da casa estão todos os retratos de todos os homens e mulheres que atravessaram os últimos séculos, assim como outros retratos, ou réplicas, que contam em imagens o que terá sido a vida antes da fundação da República, já que o pretexto para esta conversa é a Ponte da Chamusca, inaugurada um ano antes da queda da Monarquia. Talvez por isso nunca foi inaugurada oficialmente, já que o rei D. Manuel II, “O Desventurado”, foi o último e provavelmente o rei mais infeliz da monarquia portuguesa.

João Joaquim Isidro dos Reis fala do seu passado com orgulho mas sem soberba ou tiques de marialvismo. João não se lembra do pai em casa, e a sua mãe, Maria Aurora Isidro dos Reis, viveu 91 anos. Faleceu em 2011 e era uma senhora acarinhada pela população da Chamusca como muitas poucas figuras da burguesia terão sido ao longo de todos os séculos, até aos nossos dias. Mesmo com a ajuda do marido, de quem se separou quando o João tinha quatro anos, governou a sua casa agrícola. Grande parte da conversa com João Joaquim Isidro dos Reis foi sobre a vida de trabalho e o peso da herança de uma família que era das mais respeitadas devido aos créditos deixados pelo bisavô, de quem João herdou o nome.

A certa altura da conversa João Joaquim Isidro dos Reis pede-me que resuma a conversa ao feito do seu bisavô, diz que tem pena de não ter tanto êxito na vida como tiveram os seus descendentes, mas antes disso já tínhamos conversado sobre alguns episódios que aconteceram depois da revolução do 25 de Abril, que não deixaram boas recordações. O maior exemplo, e que merece maior destaque, são as tragédias dos fogos. Antes a família tirava cerca de 19 mil arrobas de cortiça da propriedade, hoje tira cerca de 3 mil. Mesmo assim é uma receita importante. Imagine-se o que seria se os fogos, a grande parte de origem criminosa, não estivessem a destruir o país, como todos sabemos e reconhecemos embora ninguém ligue à desgraça. “Sinto os ombros pesados, Joaquim António”, confessa com familiaridade tratando o jornalista como sempre tratou desde que nos conhecemos, “detesto quando não estou à altura das coisas”.  

A Chamusca foi outro dos temas mais falados. João diz que ama a Chamusca, que gostava de ter feito mais pela terra, que tem pena que a Chamusca tenha regredido tanto, que, como comunidade, a terra está muito mais pobre. Mas a conversa não foi nunca lastimosa: “O que nos une a todos da minha família, e são muitos, é o amor pela Chamusca. Eu posso dizer que sou um Chamusquenho, tenho o coração mais na charneca que no campo”.

Um dos maiores orgulhos do bisneto de João Joaquim Isidro dos Reis, que herdou o seu nome, é a ganadaria que refundou e registou em 2011, mais por amor à terra que por bairrismo, confessa, deixando para trás questões de invejas e incómodos que sempre existiram e vão existir enquanto houver pessoas tristes e malformadas.

Importante nesta conversa: João Joaquim Isidro dos Reis não falou de um único nome de quem tivesse que dizer mal ou sequer criticar. Agora que revejo as notas, e que releio a desgravação da conversa, confirmo e não deixo de registar: João Joaquim Isidro dos Reis é mesmo um ser humano incomum, apesar da vida nem sempre lhe ter corrido bem, de a desgraça dos fogos lhe ter roubado uma boa parte da herança, de algumas maldades que lhe fizeram, este bisneto do fundador da velha Ponte da Chamusca afirma com convicção que já lhe faltou menos tempo para acabar com as despesas dos juros nos bancos, e tirar do prego algumas das jóias de família que servem para equilibrar as contas e sonhar com uma vida mais desafogada financeiramente. JAE.