quinta-feira, 30 de abril de 2026

António José Ganhão: “Não há machado que corte a raiz ao pensamento”

Uma crónica sobre os 52 anos de Abril, à boleia da homenagem a António José Ganhão, um autarca que fez história tal como os melhores autarcas comunistas que, entretanto, quase desapareceram da vida política local.

As comemorações do 25 de Abril na região não tiveram discursos à altura de se escreverem manchetes, e isso é apenas a normalidade a funcionar. A nível nacional é notícia o descontentamento de Vasco Lourenço por o actual governo ter abandonado o projecto de cedência de instalações no Terreiro do Paço, em Lisboa, para um museu sobre o 25 de Abril e, como é habitual, quem escreveu sobre o assunto nem sequer dedicou uma linha ao também adiado museu de Abril, em Santarém, que sofre as mesmas vicissitudes do de Lisboa.

Uma boa maioria dos actuais decisores da nossa economia e da política não têm ideia do que se viveu nesses dias conturbados da revolução, e muito menos do que se passou no coração daqueles que, mesmo pouco politizados, sentiam na pele e na alma a pobreza desses tempos. Daí que as comemorações vivam de discursos e não de iniciativas, de palavras e não de acções. Era bom que trocássemos umas ideias sobre este assunto para não cairmos nas conversas fascistas dos partidos de direita que gozam com as festividades de Abril, como gozam com os herdeiros do poder democrático que são apanhados a receber dinheiro em envelopes ou, como foi o caso recente do chefe de gabinete de António Costa, apanhado com dinheiro vivo aos milhares escondido em envelopes no gabinete de trabalho. O anúncio do IKEA sobre este episódio grotesco teve como consequência a ida de um ex-primeiro-ministro para um dos cargos mais importantes da União Europeia. Não admira que tenha deixado o país na miséria ao nível das reformas da saúde, do ensino, das polícias, da Justiça, em suma, das principais áreas em que o país precisa de reformas, como precisa de um bom ambiente para não morrermos a respirar dióxido de carbono.

O acto que mais deu nas vistas nos festejos dos 52 anos da Revolução foi a homenagem, em Benavente, a António José Ganhão, proposta pela actual liderança da câmara, que meio século depois do 25 de Abril passou do PCP para o PSD. Não é de somenos importância realçar esta decisão política do eleitorado do concelho de Benavente, que nas últimas eleições se distribuiu de tal maneira pelos cinco partidos concorrentes que o PSD conseguiu a presidência da câmara, elegendo apenas dois vereadores. A iniciativa da actual presidente em homenagear o autarca vivo que teve mais influência no poder local também me parece boa ideia. António José Ganhão foi um verdadeiro comunista no poder, nunca deu nas vistas a não ser quando o obrigaram, por assuntos de tribunal. Tinha uma postura institucional que, espremida, não dava sumo, mas aparentemente também tinha tudo controlado na sua cabeça: servir as populações ao nível dos bens essenciais como água, esgotos, habitação e, como não podia deixar de ser, tinha a sua política para a recolha do lixo, o apoio às associações e uma cassete que usava para falar ao estilo do PCP.

Apesar de trabalhar muitos anos no concelho, nunca falei ao telemóvel com António José Ganhão, e a única vez que lhe liguei foi o motorista que atendeu e disse-me que o senhor presidente não podia atender. Mas Ganhão tem uma história com O MIRANTE que não deixo passar sem deixar testemunho. Em muitas décadas de trabalho foi o único político que “vetou” a contratação de um jornalista para a redacção. Como foi num tempo em que não dormia, só trabalhava, tive tempo para juntar os três (o jornalista tinha sido seu delfim, mas entretanto, tinha-o apunhalado pelas costas) e consegui proporcionar, numa conversa de cerca de uma hora, a cerimónia do cachimbo da paz. E o jornalista lá ganhou o emprego. Foi a única vez que me sentei com Ganhão a uma mesa e a única vez que percebi que dirigir um jornal também é meter a cabeça num cepo quando é preciso. Esse jornalista mais tarde fez-me a mim e a quem trabalhava comigo o mesmo que tinha feito anteriormente a Ganhão, só que de maneira mais refinada e cobarde.

Sérgio Carrinho, António Mendes e António José Ganhão foram os autarcas comunistas mais influentes que fizeram a história do PCP no Ribatejo. Ganhão era o mais silencioso deles todos e o menos afectuoso. Teve a sorte de trabalhar num concelho perto da Área Metropolitana de Lisboa, o que até lhe proporcionou autorizar condomínios de luxo no seu concelho, o que pode parecer um paradoxo, mas não é; na vida política, tal como na vida de qualquer cidadão, “do porco se faz presunto”.

Não pretendo com este texto dizer mais do que já escrevi, mas falta o essencial: Ganhão foi um autarca sério, tal como Carrinho e Mendes; era, e ainda é, uma boa pessoa, embora tivesse aquele ar autoritário que muitas vezes esconde mais as fraquezas que as forças. Não dava muitas confianças, como era norma nos dirigentes comunistas de verdade, que, entretanto, também por isso desapareceram do mapa. Pessoalmente tenho pena de não o ter conhecido e convivido com ele como com outros autarcas e deputados do seu tempo. Mas não deixo de me associar à sua homenagem, sem esquecer que ele teve um substituto à altura chamado Carlos Coutinho, um político que acabou por pagar caro os ódios de estimação que sobraram de António José Ganhão (e não foram poucos), os problemas mal resolvidos da sua gestão, que foi silenciosa, mas teve muitos grãos na engrenagem. Dificilmente escreveria sobre o trabalho autárquico de Ganhão e a homenagem merecida que recebeu sem falar do seu braço direito durante 15 anos, que depois ainda teve tempo para fazer três mandatos, ganhando eleições, tentando continuar o trabalho que, na sombra, já fazia como vice de Ganhão. JAE

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O jornalismo como tema para manter a chama

Nas últimas semanas falhei as minhas crónicas neste espaço e não morreu ninguém. O MIRANTE sempre foi e será um jornal de notícias, reportagens e entrevistas e nunca de opinião.

O MIRANTE recebe diariamente proposta de trabalho editorial que ultrapassa a nossa área de influência que são os 25 concelhos do Ribatejo, onde incluímos Arruda dos Vinhos e Alenquer, por terem uma grande proximidade com Vila Franca de Xira, concelho onde O MIRANTE é o jornal da terra, por sinal a de maior área, mais população e de onde recebemos mais mensagens sobre a importância do nosso trabalho.

Tomo nota deste assunto no final de uma manhã na sala de entrada de um hotel já depois de fazer o check-out. Oficialmente estou reformado. Até há pouco tempo fingi que não percebia a minha nova condição de vida, mas a realidade, comigo, ultrapassou a ficção em que muitos de nós pairamos, julgando podermos viver eternamente como no cinema ou nas séries de televisão. Mas, tal como no ditado popular que diz que o trabalho do menino é pouco, mas quem não o aproveita é louco, também devia haver um ditado para sinalizar que o trabalho do velho é chato, mas quem não o aproveita é parvo.

Vem o assunto a propósito do encaminhamento de um assunto que chegou pelo correio para as chefias da redacção: para além do tema que sugere uma boa reportagem, há matéria na mensagem que me sugeriu mais outra, que adveio do facto de conhecer as pessoas envolvidas e o seu passado que foi, e ainda é no presente, paralelo ao meu.

Nas últimas semanas falhei as minhas crónicas neste espaço e não morreu ninguém. O MIRANTE sempre foi e será um jornal de notícias, reportagens e entrevistas e nunca de opinião. Não fechamos as páginas a alguns colaboradores e graças à edição online ainda podemos abrir mais o leque, mas são as notícias e as reportagens e as entrevistas que pagam a estrutura que montamos que, a nível local e regional, não tem paralelo em mais nenhuma empresa de comunicação social. Mesmo a nível nacional temos mais tiragem, mais leitores e mais facturação que alguns jornais nacionais; e só trabalhamos em 25 concelhos; e não pertencemos a nenhum grupo económico, vivemos do trabalho de uma pequena equipa de cerca de três dezenas de pessoas que não deixa de se agigantar quando toca a correr atrás do prejuízo, o que raramente acontece já que na grande maioria das vezes temos o trabalho em dia.

Esta crónica é quase um anúncio de despedida embalado por 31 dias de ausência por andar a testar a minha capacidade de mudar de vida. Fiz uma longa viagem e regressei mais cansado do que quando parti. A lição a tirar é fácil: o cansaço depende da forma como gerimos as nossas energias. Se não aproveitamos bem o tempo de que dispomos, quando chega o final do dia em vez de somarmos mais um tempo de vida, diminuímos o tempo à vida que ainda nos resta. Este texto não é uma despedida, mas é o anúncio de uma decisão: vou viver mais tempo a minha vida que a vida deste jornal. Não tenho qualquer dúvida que tudo o que eu fazia já está bem entregue há muito tempo, e, conhecendo-me, sei que vou andar por aí, como se diz no meio político.

Há dias o Expresso noticiava em manchete que o Governo andava a boicotar o museu 25 de Abril, ou seja, a criação de um centro interpretativo que já tinha espaço reservado no Terreiro do Paço. O texto é fraco e a manchete é exagerada. Há duas décadas, quando Francisco Pinto Balsemão dava conversa entre reuniões de trabalho ou congressos da nossa associação, falava com ele sobre a tendência dos jornais em abusarem das manchetes sobre política que apenas servem para mexer com os governantes ou, noutros casos, com os políticos da oposição. Todos os jornalistas sabem que os assuntos de sociedade é que vendem jornais, não são os políticos, nem os interesses dos políticos, ainda que os assuntos sejam pertinentes. Francisco Pinto Balsemão concordava e lá me dizia como tentava resolver o problema, uma vez que nessa altura já não ajudava a fechar a edição. Este exemplo serve para avisar que a minha ligação a este jornal e à organização da empresa pode ser tão intermitente como as vitórias do Sporting, mas todas as semanas estarei no sítio certo e à hora certa para ajudar a fazer as três capas que reflectem o orgulho do nosso trabalho semanal. No dia em que os leitores começarem a ver muitas manchetes sobre a vida política, já sabem: desapareci em combate. JAE.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Universidade do Ribatejo e o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa

Interessa-me muito mais o anúncio da criação da Universidade do Ribatejo que o debate sobre o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa. Mas não escondo a surpresa de perceber que toda a gente se calou sobre um assunto que nos pode arruinar para mais meio século de vida colectiva. 

A escolha da localização para o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa continua a conquistar espaço na imprensa embora com uma regularidade muito abaixo do que se esperava.  O último texto de Luís Janeiro, no jornal Observador, é só mais um motivado pela militância de técnicos e cidadãos empenhados numa solução razoável, do que na concretização da escolha do Campo de Tiro para um projecto megalómano, difícil de concretizar, embora não impossível, porque os dinheiros públicos para obras faraónicas não conhecem limites embora vivamos actualmente no início de uma terceira guerra mundial, com os governantes dos países mais poderosos como EUA e Rússia liderados por homens de outra estratosfera.

No último mês viajei por várias cidades e frequentei muitos aeroportos. Mais do que espaços onde circulam aviões de passageiros, os aeroportos são as novas cidades do futuro, onde se pode dormir, trabalhar, fazer compras de luxo, combinar encontros ao mais alto nível, seja entre chefes de Estado ou chefes do crime organizado, realidade cada vez mais presente nas nossas democracias. O turismo está a atingir os máximos nas principais cidades do mundo, incluindo Lisboa, embora o número de hotéis em construção pareça indicar que a terra de Santo António ainda tem mais uma dúzia de ruas Augusta para encher de restaurantes e esplanadas, lojas de pastéis de nata, de bacalhau e de lembranças que chegam da China a preços para todos os bolsos.

 Escrevo sobre o assunto porque acho inacreditável que o debate sobre o futuro aeroporto esteja resumido à intervenção de duas ou três personalidades da nossa vida pública, mesmo assim com espaço de opinião procurado por eles e não por iniciativa de quem tinha obrigação de manter o debate vivo e aceso, porque é claro que se o aeroporto for mesmo para Benavente, a coisa vai demorar, vamos continuar a aumentar o atraso civilizacional em comparação com os outros países da Europa, e quando chegar a hora H ainda corremos o risco de preferir aterrar em Madrid e regressar a casa apanhando o comboio de alta velocidade. Resumindo: eu pagava do meu bolso para ler o que é que o antigo ministro dos aeroportos, o antigo (e futuro?) líder do PS, Pedro Nuno Santos, tem para nos confessar das suas actuais conversas com as bruxas de serviço ao seu partido. 

O anúncio da criação da Universidade do Ribatejo interessa-me mais, pessoalmente, que o destino que estão a traçar para o futuro aeroporto de Lisboa. Sou testemunha privilegiada dos desabafos do historiador e homem de cultura, Joaquim Veríssimo Serrão, cujas palavras e desafios nunca foram ouvidos pela classe política. Nos últimos anos tive a ousadia de desafiar pessoalmente alguns dirigentes a darem esse passo em frente, mas nunca falei com pessoas destemidas e corajosas. Não vou citar nomes, mas um deles deu-me uma resposta que não vou esconder: “estou velho para lutas dessas, estou quase no tempo de ter paz e sossego”.

A chegada de João Leite ao poder pode não agradar a muita gente, o que é normal, mas ele veio desassossegar o meio escalabitano. Não é pelo simbolismo das medalhas de ouro da cidade que está a entregar a grandes figuras e a pequenas figurinhas, é pela dinâmica que tem imprimido no concelho, pela coragem com que assume desafios como a ligação da cidade ao rio Tejo, que Moita Flores falhou redondamente e era um dos seus primeiros objectivos; pela forma como encostou os socialistas às cordas e silenciou mais uma vez essas almas penadas que já mandaram no burgo e deixaram tudo pior do que no tempo em que D. Afonso Henriques conquistou as muralhas aos mouros. Se João Leite tiver sorte e não descurar o trabalho de equipa, não fizer cedências aos Barreiros desta vida que dão com uma mão e recebem com a outra, Santarém poderá estar irreconhecível no final dos seus dois mandatos, sim, escrevo dois porque como a cidade e o concelho estão, oito anos é tempo suficiente para virar isto tudo do avesso. JAE.

quinta-feira, 12 de março de 2026

As terras da Lezíria ribatejana deviam ser Património Mundial da Humanidade

O Alentejo é hoje um território quase deserto e o Ribatejo para lá caminha se não houver coragem política para mudarmos de rumo.

Fui testemunha dos estragos que as cheias fizeram nos campos da Lezíria, e nem imagino, ou imagino e não quero armar-me em justiceiro, os prejuízos que a grande maioria dos agricultores sofreram com as descargas à bruta das barragens. Dantes, quando as galinhas tinham dentes, as cheias eram notícia não pelo espectáculo que proporcionavam, mas pelos prejuízos que causavam. Desta vez, com o que se passou e ainda passa com o desastre causado pelas tempestades, os problemas do assoreamento do Tejo, a falta de vigilância das marachas e tudo o que falta ao nível do ordenamento do território, vai fazer com que os prejuízos causados pelas descargas mal medidas das barragens fiquem por conta de quem ousa trabalhar a terra, insistir na ilusão de que os campos do Ribatejo são mesmo património da Humanidade, tal como as igrejas e os conventos e outros monumentos de pedras milenares. O assoreamento do Tejo é um problema que vem do antes do 25 de Abril de 1974. Daí para cá, com as alterações na floresta, a eucaliptizacão dos territórios, o nível de assoreamento aumentou de forma que ninguém quer saber, muito menos quem devia cuidar do que é seu e está organizado em cooperativas e associações.  Os agricultores são cada vez menos e cada um trabalha para sobreviver. Não há tempo para organizar e muito menos militância para protestar. Já não é o fascismo que nos impede de cairmos na desgraça, agora é o comodismo e a falta de líderes locais e regionais. As organizações de agricultores estão de mãos atadas porque muitos que as lideram têm rabos de palha e também têm que defender os seus interesses. Estamos a bater no fundo porque os velhos desistiram de lutar e os novos rendem-se às evidências. Os espanhóis vêm aí com as suas estufas porque o Alentejo já deu o que tinha a dar. O Alentejo é hoje um território quase deserto e o Ribatejo para lá caminha se não houver coragem política para mudarmos de rumo.


Há muitas décadas, muito mais de meio século, ouvi dizer pela primeira vez que o cemitério está cheio de pessoas insubstituíveis. A frase acompanha-me desde essa altura e nunca a esqueci como outras mais leves (quem não viaja não tem ilusões) que guardo para um dia tatuar num braço, provavelmente quando já não tiver pernas para viajar.

Lembrei-me de escrever sobre o assunto porque estou a quase 7 mil quilómetros de Santarém, e passei a manhã no computador a fazer o que qualquer pessoa podia fazer por mim, que era ler o meu correio e despachar só os assuntos mais importantes. Com esta mania de que tenho que controlar tudo como há meio século, hoje vou chegar atrasado ao centro da cidade, onde me esperam assuntos urgentes como procurar três livros num alfarrabista, comprar uma viagem cheia de complicações por causa de um destino que não tem voos directos, participar numa master class sobre como escrever um romance histórico, dado por uma amiga que é só uma das escritoras vivas mais importantes da literatura em língua portuguesa, e entre tantas outras tarefas importantes comprar um adaptador para o cabo do computador e entregar o que estou a usar que me foi emprestado na portaria do hotel. É mais que certo que por causa da manhã de trabalho ao computador não vou ter tempo de dar o mergulho da praxe no mar azul onde quase vejo a minha sombra da janela do hotel onde escrevo esta crónica.

Antes de sair para o sol abrasador que me obriga a proteger a pele para não ficar da cor do tomate maduro, dou uma volta pelo trabalho que acabei de fazer e sinto a missão cumprida. Não fiz nada de jeito, comparado com quem trabalha na redacção a paginar e a escrever os textos que quinta-feira chegam à caixa do correio no papel de jornal. Estou ainda à vontade para dizer que aquela frase das pessoas insubstituíveis fez o seu caminho, e hoje estou muito mais capaz de aceitar a morte e deixar de trabalhar, do que naquela altura em que achava que para chegar à idade que tenho hoje era preciso que Deus descesse à terra. JAE.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Os gestores públicos que acabaram com a Excelência do Hospital Vila Franca de Xira

Cinco anos depois de adoptar o modelo de Entidade Pública Empresarial, deixando para trás oito anos de gestão público privada, o Hospital Vila Franca de Xira está sem serviços que já foram considerados os melhores do país. Os últimos anos de gestão foram um desastre que ninguém assume para vergonha dos nossos políticos e da nossa gestão pública.


Não podemos sacrificar na cruz um gestor por ele ser incompetente e não saber. Mesmo que seja um gestor incompetente, e tenha a noção da sua incompetência, ninguém o obriga a dar a mão à palmatória se quem o escolheu e nomeou gestor não o convidar a abandonar o cargo. O MIRANTE acompanhou de perto a gestão do Hospital Vila Franca de Xira desde a sua inauguração, e na altura própria, quando o hospital foi considerado um exemplo, premiámos os seus gestores e reconhecemos o seu trabalho. Quando a Parceria Público Privada acabou, e a gestão passou para o Estado, não deixámos de continuar a fazer o trabalho de escrutínio do hospital dando voz a quem sofreu na pele a incompetência dos gestores públicos que foram substituir os privados. Não é altura para recordar as infelicidades de quem teve o azar de cair nas malhas dessa gestão incompetente do Hospital Vila Franca de Xira, mas também não seria justo que calássemos as críticas, que não recordássemos o nosso trabalho editorial, agora que o hospital passa por uma situação que ninguém previa, que é o fim de serviços hospitalares essenciais para um verdadeiro Serviço Nacional de Saúde (ver página 16 desta edição).

Neste meio tempo, entre a saída do anterior gestor público e a entrada de um outro, soubemos, quase em segredo, e o quase não é apenas uma figura de estilo, como a gestão do Hospital VFX bateu no fundo, dando origem às tragédias que aqui contámos ao longo destes últimos anos, e a muitas outras que terão acontecido e ficaram entre quatro paredes. Por mais que se exija de um jornal que conte as verdades, e desmascare as incompetências, há linhas que não se podem ultrapassar, ou corremos o risco de ficarmos presos nas armadilhas que nós próprios quisemos desmontar.

Se o Governo não acudir ao Hospital Vila Franca de Xira, que haja alguém que dê o rosto pelo falhanço da sua gestão depois do hospital ter sido considerado durante vários anos um exemplo nas práticas dos seus profissionais, como aconteceu em 2018 quando recebeu o prémio mundial pela redução do consumo de antibióticos, e no início de 2020 quando foi classificado como “o Hospital mais bem gerido do país”, avaliado por um conjunto de mais de cem instituições, como o único hospital público que obteve a classificação máxima de Excelência Clínica (três estrelas) em seis áreas clínicas, nomeadamente, Cirurgia de Ambulatório; Unidade de Cuidados Intensivos; Cuidados Transversais (Avaliação da Dor Aguda); Neurologia (Acidente Vascular Cerebral); Obstetrícia (Partos e Cuidados Neonatais) e Pediatria (Cuidados Neonatais).

Estamos a escrever só uma pequena parte da história de sucesso que foi o Hospital Vila Franca de Xira até ao dia 1 de Junho de 2021, quando a instituição passou oficialmente para a esfera da gestão pública, adoptando o modelo de Entidade Pública Empresarial, terminando a parceria com o grupo José de Mello Saúde.

Não sabemos se estas palavras fazem doer a alguém que está do nosso lado, e que lamenta tanto como nós a gestão incompetente dos gestores públicos; se estamos a acender uma fogueira que pode ser considerada pelos mais puristas como uma forma de combustível da antiga inquisição; é muito provável que sim, não é fácil lidar com as derrotas dos gestores do Estado, que conquistámos com o 25 de Abril de 1974, e ainda menos com a liberdade que temos de escrever aquilo que nos vai na alma e não é só o que agora está à vista de todos: O Hospital Vila Franca de Xira esteve entregue nos últimos quatro anos a quem não o soube gerir, e quem paga as favas somos todos nós que precisamos do Serviço Nacional de Saúde como de pão para a boca. JAE.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Tanto trabalho só para um concerto!?

Mais de quarenta anos depois de realizar programas numa rádio pirata, de ter feito a minha escola a realizar entrevistas e a escrever e relatar crónicas de reuniões políticas e associativas, depois de tantos anos passados, e mesmo agora que já toco piano, ainda me sinto o rapaz que faz a festa, atira os foguetes para o ar e depois vai apanhar as canas.


Confesso a minha paixão pela rádio que vem do tempo em que começaram a surgir as rádios locais. Não quero saber onde param as entrevistas e as crónicas que editei, e a que dei voz, quando ajudei a fundar umas dessas rádios; imagino que ia ter vergonha de me ouvir e de me reconhecer um verdadeiro “aprendiz de feiticeiro”. A prova de que a vergonha nunca me impediu de continuar a aprendizagem está aqui nesta confissão que me saltou ao caminho, numa viagem de carro, a ouvir a Antena 2. O jornalista de serviço entrevistava um músico que falava de um concerto que estava a preparar, e a certa altura, já quase no final da conversa, saiu-lhe este comentário em jeito de pergunta: “tanto trabalho só para um concerto!?” Não tomei nota da resposta porque viajei para uma outra conversa, horas antes, que ainda mexia comigo às 10 da noite, depois de sair a correr do jornal e de ter ouvido algo parecido de alguém que não é maestro nem músico, mas também organiza concertos em papel de jornal de 55 gramas: “já não há mais espaço no jornal, nem para notícias nem para publicidade”. Na manhã desse mesmo dia a azáfama em todos os sectores do jornal ainda se ouvia na rua, o telefone tocava e eu ia perguntando de hora a hora se íamos conseguir cumprir os horários combinados com a gráfica. Este “tanto trabalho para um concerto” foi a questão que respondeu à interrogação que fazia a mim próprio pelo caminho, cansado mas feliz por deixar o jornal sem um único espaço para preencher uma hora antes de seguir via digital para um armazém, que podia ser um palco, onde as máquinas, que podiam ser instrumentos musicais, imprimem, dobram, espalham tinta de várias cores, ensacam, fazem etiquetagem, e depois transportam o produto para carrinhas que se fazem à estrada para, horas depois, como por magia, os carteiros entregarem de casa em casa, nas cidades mas também nas mais pequenas vilas e aldeias e lugares da região ribatejana. Aí chegados, responde-se finalmente à pergunta “tanto trabalho só para um concerto?”, quero dizer, “tanto trabalho só para editar um jornal com 72 páginas”, que dias depois já está a embrulhar bananas ou a limpar vidros, como a música de duas horas de concerto, que demorou uma eternidade a montar, já anda a viajar no espaço animando e dando mais luz à vida das estrelas.

Mais de quarenta anos depois de realizar programas numa rádio pirata, de ter feito a minha escola a realizar entrevistas e a escrever e relatar crónicas de reuniões políticas e associativas, depois de tantos anos passados, e mesmo agora que já toco piano, ainda me sinto o rapaz que faz a festa, atira os foguetes para o ar e depois vai apanhar as canas.

Na véspera de mais uma edição da entrega dos prémios Personalidades do Ano de O MIRANTE, a homens e mulheres que ajudam a fazer a História do nosso país e da nossa região, pela excelência do seu trabalho, o tema desta crónica não me deixa mentir: ainda tenho de roubar muitas horas ao sono para aprender com o canto dos rouxinóis como se aprende a assobiar enquanto se toca flauta. JAE.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O CHEGA em Salvaterra de Magos, a falta de vergonha na Chamusca, e ainda o elevador da Glória

Se falarmos da vida política local, o descontentamento da população não é inferior ao das grandes urbes. É nos territórios mais desfavorecidos que André Ventura colhe mais votos e mais simpatias. A sua força política nunca se traduzirá em poder nos próximos anos porque André Ventura é um homem sozinho.

Os resultados para as eleições presidenciais em Salvaterra de Magos, e em muitas cidades, vilas e aldeias do Alentejo, são a prova provada de que André Ventura não é o líder da direita em Portugal e muito menos o líder de qualquer ideia ou ideologia política. André Ventura colhe os frutos de 50 anos de governo dos partidos tradicionais, que em meio século raramente se entenderam para implementar medidas de governo que acabem com a corrupção, a desigualdade, a falta de apoio social e os privilégios políticos que minam a democracia. Em resumo: a grande maioria dos políticos das novas gerações não aprenderam nada com as democracias mais avançadas dos países mais desenvolvidos, e uma boa maioria dos simpatizantes do CHEGA sempre votaram nos partidos de esquerda, de que Salvaterra de Magos é apenas um bom exemplo. O título de líder da direita em Portugal é só mais uma das suas habilidades, que não são poucas, que já mudaram e vão continuar a mudar a forma de fazer política à portuguesa.

Se falarmos da vida política local, o descontentamento da população não é inferior ao das grandes urbes. É nos territórios mais desfavorecidos que André Ventura colhe mais votos e mais simpatias. A sua força política nunca se traduzirá em poder nos próximos anos porque André Ventura é um homem sozinho. No máximo manterá o apoio parlamentar até que a maioria dos seus deputados se deixem manipular pelo sistema que eles próprios criticam. Veja-se o caso da Câmara de Lisboa, onde uma vereadora do Chega acaba de se aliar a Carlos Moedas, dando-lhe tranquilidade para a governação.

Não me esqueço que escrevi aqui que Carlos Moedas perdia as eleições para a Câmara de Lisboa com a queda do elevador da Glória, um desastre que correu mundo e que foi rapidamente esquecido. Há provas das deficiências na manutenção do elevador, muitas dúvidas sobre quase tudo, mas as 16 mortes e as duas dezenas de feridos não foram suficientes para que os lisboetas castigassem nas urnas o líder da câmara responsável pela empresa municipal Carris. Um dia Carlos Moedas não vai ser conhecido por ter sido presidente da Câmara de Lisboa, mas por não se ter responsabilizado pela manutenção de um equipamento que era uma das maiores atracções turísticas de Lisboa que foi alvo de uma tragédia que chocou o mundo.   

Há cerca de dois meses O MIRANTE publicou uma entrevista com um candidato do PSD à Câmara da Chamusca que fez acusações graves a Rui Martinho, que também era candidato por um grupo independente. O tempo passou e as acusações que deveriam ter merecido uma posição pública do agora vereador foram ignoradas. Rui Martinho é da família do PSD, e só se desvinculou porque não o quiseram como líder à câmara. Vai daí usou todos os argumentos que lhe pudessem dar uma vitória, já que o PS estava fragilizado pela gestão de dois morcões que saíram da política com o rabo pelo chão, embora o novo candidato do PS fosse um jovem quadro sem provas dadas. Convencido que tinha a vitória no papo, Martinho usou todas as artimanhas que tinha à mão para comprar o apoio daquele que lhe poderia tirar o tapete, como aliás veio a acontecer. Repito: as acusações de Tiago Prestes deveriam fazer corar de vergonha o vereador Rui Martinho, e depois de serem públicas não lhe restava outra hipótese que pedir a renúncia e dar o lugar ao quem se segue na lista. Debalde. Se Tiago Prestes tivesse carregado mais na linguagem, tivesse espaço para contar mais como Rui Martinho passou a fronteira da decência, certamente que as consequências seriam as mesmas; Rui Martinho ia continuar como até aqui a especializar-se em actualizar a sua página social no facebook, onde prova quase diariamente a sua miséria humana, a misógenia, certamente convencido de que o facto da Chamusca ser conhecida como “terra de gente fusca” lhe dá o poder da invisibilidade, que lhe permite ser por uma vez um político atilado e, por outro, um sócia de André Ventura. JAE.