Tenho vergonha de ter sonhado tanto morar numa propriedade murada, ter uma piscina ou uma sauna só para mim, ganhar tanto dinheiro que me permitisse apenas viajar pelo mundo, depois de tanto que já trabalhei.
Quando era mais novo, e mais ingénuo, perguntava-me muitas vezes porque é que os ricos regra geral moravam em casas muradas; o mesmo quanto ao facto de terem piscinas só para eles, comprarem iates para darem os seus passeios no mar, trabalharem em gabinetes onde só entra o vento dos ares condicionados para suportarem o calor do Verão ou o frio do Inverno.
Com o tempo fui percebendo como o mundo funciona, e como é difícil a uma pessoa que tem telhados de vidro frequentar uma piscina pública, ter a porta de casa virada para a rua, onde qualquer pessoa pode bater e pedir para entrar, frequentar uma praia onde a maioria dos veraneantes levam rádio, fumam para cima dos vizinhos e falam mais alto que as ondas do mar. Ainda não percebi essa coisa de comprarem iates de luxo, mas um dia quem sabe consiga compreender quando estiver a chegar ao fim da lição que é toda uma vida de muitas aprendizagens.
Nos últimos tempos tenho viajado mais para a zona do Médio Tejo, e reconheço que o território por ali não é como eu pensava. Num dia de chuva, numa aldeia como São José das Matas, podemos perfeitamente imaginar que estamos no início de um novo mundo, o cenário é dos filmes ingleses de espionagem do século XX, e as casas de alguns moradores parecem verdadeiros celeiros onde não faltam cestas de ovos, muitos frascos de mel, garrafões de azeite e cestos cheios de fruta e legumes. Recentemente, ao passar a meio da noite a pé por aquelas estradas onde não entra um carro, tive saudades da minha máquina fotográfica, que já não uso há muitos anos e que substitui pelo telemóvel. Mesmo com o telemóvel, as fotos que fiz numa noite de muita chuva, deixaram uma vontade de as imprimir em papel, de tal forma o cenário me fez ver tanta beleza onde, certamente, também há muita pobreza e sofrimento.
É evidente que nem todas as casas têm a fartura que eu aqui descrevo, mas quem mora por lá e trabalha desde quando o dia nasce até que o sol se põe, a realidade é mesmo essa.
A falta de mão-de-obra nas pequenas aldeias faz com que os moradores que tenham um tractor, ou uma carrinha de caixa aberta, saibam fazer um pouco de tudo, são tão úteis ou ainda mais que o médico de família. Apesar da crise no SNS, já é mais fácil conseguir uma consulta no Centro de Saúde do que encontrar um pedreiro, um carpinteiro ou um electricista disponível, muito menos quem suba acima de um telhado, ou saiba concertar um fogão ou um radiador, sequer trocar os fusíveis de uma instalação eléctrica que tenha dado o berro.
Tenho vergonha de ter sonhado tanto morar numa propriedade murada, ter uma piscina ou uma sauna só para mim, ganhar tanto dinheiro que me permitisse apenas viajar pelo mundo, depois de tanto que já trabalhei. O fim do mundo e a beleza da aurora boreal nos céus da Noruega, das praias desertas na América Latina, dos rios com casas flutuantes, dos ambientes das cidades como Miami ou Paris, Barcelona ou Santiago do Chile, entre muitas outras, são certamente menos atractivas que algumas cidades portuguesas, que algumas cascatas da região do Médio Tejo, ou algumas das suas praias fluviais.
Um dia li uma entrevista com uma artista americana que comprou uma caravana para viver o resto da sua vida, onde não tinha água nem luz, e o próprio chão era um baldio. Dizia ela que não queria ser uma fonte de receita das empresas ou do Estado, e recusava-se a renovar o cartão de cidadão porque argumentava que ninguém tinha direito a controlar a sua vida. Perdi-lhe o rasto. Já deve ter morrido. Comprei uma caravana recentemente e lembrei-me dela. Estou à espera de inspiração para me meter ao caminho sem o tempo contado e viajar sem destino. Por enquanto sou só mais um sacana que escreve crónicas e tira água à nora. JAE