quinta-feira, 4 de junho de 2026

Somos um desastre a viver em comunidade: o caso de Alenquer

O que se está a passar em algumas localidades de Alenquer é a prova provada do desastre que somos a viver em comunidade. Mas o caso de Passinha e Casais Novos é só um exemplo: há outros muito recentes que também já fizeram capa neste jornal.


Ainda ontem começou o mês de Junho e eu já comi figos e ameixas das árvores que plantei há cerca de vinte anos, na semana precisa em que colhi as últimas laranjas tardias que nem imagino como chegaram maduras ao início do mês mais bonito do calendário. O que a Natureza nos oferece é o milagre diário que alimenta as nossas vidas, e viver diariamente dedicando algum tempo a sujar as mãos na terra, ou a cuidar da mente lendo um livro, é o melhor que nos pode acontecer. Deixo aqui este pequeno apontamento escrito no início de uma semana cheia de compromissos com os outros, todos aqueles que me empurraram para esta vida de jornalista e editor, e o mais a que sou obrigado, uns por bem, outros por mal, o que vai dar ao mesmo; já que tenho que trabalhar para justificar o pão que como, então que seja sempre por uma boa causa, que é trabalhar para a comunidade, como trabalho para os pardais que são sempre os primeiros a provarem a fruta madura.

Portugal é um país de gente boa; posso comprovar isso quase todos os dias em que comunico com pessoas que não conheço, algumas que me escrevem ou telefonam indefesas pedindo ajuda, outras 

chamando-me os nomes que nem o diabo sabe que existem. Num e noutro caso aceito tudo, ou quase tudo, de forma pacífica. Mas não deixo de fazer o meu juízo sobre o país e a região onde nasci e vivo a maior parte dos meus dias: somos um desastre como comunidade. Aqui no Ribatejo e no Algarve. Em Leiria, em Évora e no Porto, que de Lisboa nem se fala.

O que se está a passar em algumas localidades de Alenquer é a prova provada do desastre que somos a viver em comunidade. Mas o caso de Passinha e Casais Novos é só um exemplo: há outros muito recentes que também já fizeram capa neste jornal e que não vou desenterrar para não me dispersar. Cabe na cabeça de alguém que uma empresa de transportes mude de instalações para um lugar onde não há estradas em condições, e em mais de cinco anos a comunidade não se tenha unido o suficiente para obrigar os políticos a pagarem pelos erros dos que decidem o planeamento do território? Que comunidade é que querem os autarcas nos seus concelhos se eles próprios se demitem das suas responsabilidades? Há perdão para os políticos que se deixam enganar pelos engenheiros dos gabinetes dos municípios, e os tribunais não sejam lestos a fazer justiça quando o que está em causa é a saúde pública de dezenas de moradores que tiveram o azar de construírem a sua casa de família para onde, surpreendentemente, se terá mudado o diabo e a sua família?

Alenquer é um concelho com prestígio; a proximidade a Lisboa tem feito crescer o concelho a olhos vistos; com a área metropolitana de Lisboa cada vez mais entupida, mais gente a trabalhar na capital compra casa no concelho de Alenquer. Se o aumento da população e o investimento na qualidade de vida no concelho não são suficientes para que os políticos dêem a cara pelos interesses da comunidade, o que é que podemos esperar para o futuro? Não é justo que os interesses de uma empresa estejam acima dos de uma população. E não se aceitam desculpas, pelo menos neste caso, quando todos sabemos que o erro foi detectado muito a tempo de ser remediado. JAE.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Guerra civil em Vila Franca de Xira por causa do estacionamento pago

Se há concelho do Ribatejo que não está em crise de população e habitacional é Vila Franca de Xira. No entanto, vem aí uma proposta para implementar o estacionamento pago em urbanizações onde nada foi planeado. Os moradores podem ter um calvário pela frente.

O concelho de Abrantes é conhecido por ser um bastião socialista, e em certos mandatos por erros de gestão que vão ficar na História. O caso mais grave foi o negócio com o “Barão Vermelho” que devia ser estudado nas universidades e, acima de tudo, nas formações que os partidos fazem com as juventudes partidárias. O que se passou em Abrantes, no tempo de Nelson Carvalho, não lembrava ao diabo, e dessas políticas irresponsáveis, que não foram devidamente penalizadas, nem são ainda hoje, é que nasceu e cresceu esta onda de revolta que alimenta o partido Chega. Veremos se os partidos tradicionais têm capacidade para se renovarem e impedirem este crescimento do Chega que, embora tenha alguns dirigentes bem-intencionados, e competentes, é no geral um ninho de ressabiados que saíram dos partidos tradicionais, de onde foram corridos.

Fui a Abrantes para dar o exemplo da política da cidade para a questão do estacionamento. Das cidades com Centro Histórico importante, Abrantes parece-me 

a que tem a política mais acertada na questão do estacionamento. Trago o assunto a este espaço porque há quase uma guerra civil em Vila Franca de Xira sobre a possibilidade de o concelho se tornar um inferno para os moradores. A autarquia prepara-se para implementar parquímetros em zonas super urbanizadas, onde não foram construídos silos para estacionamento automóvel e onde os moradores, para poderem fazer a sua vida, têm mesmo que usar carro próprio.

Não é normal que num concelho onde a habitação cresce em altura a um ritmo frenético, como acontece na Quinta da Piedade, por exemplo, a gestão não se faça também ao nível do estacionamento. Se vierem só os parquímetros, como parece inevitável, e não surgirem os silos e bolsas de estacionamento a preços simbólicos para residentes, vai haver muita gente a sentir-se enganada e a perguntar para que servem os gabinetes de planeamento das autarquias, e que interesses é que defendem os técnicos ao serviço de algumas câmaras municipais. É um assunto que merece uma discussão ampla e urgente. E não estamos só a falar da Póvoa de Santa Iria, os erros do passado estendem-se a Alverca e outras localidades do concelho onde o betão cresceu muito e não houve planeamento.  

Vejamos também o caso de Santarém. O parque de estacionamento que surgiu das obras no Jardim da Liberdade foi uma negociata que hoje, passados 20 anos, está no seguinte ponto: quem for jantar a um restaurante da cidade e se descuidar para lá das 22 horas, já não consegue recuperar o carro senão no outro dia pela manhã. Ora isto faz algum sentido? Faz. Pelas piores razões. Mas não sou eu que vou explicar.

Na Chamusca fez-se recentemente uma reabilitação urbana que deixa muito a desejar, mas a vila é pequena e os erros ali são como os erros graves dos médicos: a terra fá-los desaparecer e esquecer com o tempo. No Cartaxo já não é assim; a regeneração urbana feita há mais de duas décadas deixou marcas profundas na cidade, e ainda hoje se pagam caros alguns erros dessas opções. O parque de estacionamento no centro da cidade esteve duas décadas sem poder ser tarifado por não cumprir algumas imposições legais necessárias. O que se está a passar com a circular urbana dá pano para mangas.

Volto a Vila Franca de Xira: se não houver bom senso admito que a guerra civil possa ser feita com armas de papelão e balas de papel, mas há muitas razões para pensar que o número de pessoas que vão sofrer este constrangimento pode reflectir-se nos votos das próximas eleições. JAE .

quinta-feira, 14 de maio de 2026

João Joaquim Isidro dos Reis: um breve retrato do bisneto do benemérito que deu nome e ajudou a construir a Ponte da Chamusca

“Sinto os ombros pesados, Joaquim António”, confessa com familiaridade João Joaquim Isidro dos Reis, tratando o jornalista como sempre tratou desde que nos conhecemos; “Detesto quando não estou à altura das coisas”. Uma entrevista publicada no interior desta edição, com um ribatejano que tem uma ganadaria, faz a gestão de uma quinta centenária que já conheceu melhores dias, e que não esconde o orgulho de ter dois filhos que estão prontos a fazer melhor do que ele fez da herança que lhe coube em sorte. Depois do que sobrou da entrevista, não tinha melhor escolha para o tema desta crónica que coincide com a semana da Ascensão, que marca a vida comunitária de meio Ribatejo.

João Joaquim Isidro dos Reis é o patriarca de quinta geração de uma família que faz parte importante da História da Chamusca. Faz 69 anos nos próximos dias de Junho, tem dois filhos de quem se orgulha, e uma história de vida muito diferente do seu bisavô, de quem herdou o nome, que é o grande responsável pela construção da centenária Ponte da Chamusca. O MIRANTE marcou encontro na sua quinta no Pinheiro Grande, que perdeu a beleza de outros tempos, mas mantém o essencial, ou seja, a casa de família, os cerca de trezentos hectares onde se criam touros bravos, e um espírito que é próprio dos lugares que muitas vezes só sabemos que existem pelos livros. E nada mais fácil de provar o que se escreve se tivéssemos espaço, ou a finalidade deste texto fosse fazer a heráldica da família: nas paredes da casa estão todos os retratos de todos os homens e mulheres que atravessaram os últimos séculos, assim como outros retratos, ou réplicas, que contam em imagens o que terá sido a vida antes da fundação da República, já que o pretexto para esta conversa é a Ponte da Chamusca, inaugurada um ano antes da queda da Monarquia. Talvez por isso nunca foi inaugurada oficialmente, já que o rei D. Manuel II, “O Desventurado”, foi o último e provavelmente o rei mais infeliz da monarquia portuguesa.

João Joaquim Isidro dos Reis fala do seu passado com orgulho mas sem soberba ou tiques de marialvismo. João não se lembra do pai em casa, e a sua mãe, Maria Aurora Isidro dos Reis, viveu 91 anos. Faleceu em 2011 e era uma senhora acarinhada pela população da Chamusca como muitas poucas figuras da burguesia terão sido ao longo de todos os séculos, até aos nossos dias. Mesmo com a ajuda do marido, de quem se separou quando o João tinha quatro anos, governou a sua casa agrícola. Grande parte da conversa com João Joaquim Isidro dos Reis foi sobre a vida de trabalho e o peso da herança de uma família que era das mais respeitadas devido aos créditos deixados pelo bisavô, de quem João herdou o nome.

A certa altura da conversa João Joaquim Isidro dos Reis pede-me que resuma a conversa ao feito do seu bisavô, diz que tem pena de não ter tanto êxito na vida como tiveram os seus descendentes, mas antes disso já tínhamos conversado sobre alguns episódios que aconteceram depois da revolução do 25 de Abril, que não deixaram boas recordações. O maior exemplo, e que merece maior destaque, são as tragédias dos fogos. Antes a família tirava cerca de 19 mil arrobas de cortiça da propriedade, hoje tira cerca de 3 mil. Mesmo assim é uma receita importante. Imagine-se o que seria se os fogos, a grande parte de origem criminosa, não estivessem a destruir o país, como todos sabemos e reconhecemos embora ninguém ligue à desgraça. “Sinto os ombros pesados, Joaquim António”, confessa com familiaridade tratando o jornalista como sempre tratou desde que nos conhecemos, “detesto quando não estou à altura das coisas”.  

A Chamusca foi outro dos temas mais falados. João diz que ama a Chamusca, que gostava de ter feito mais pela terra, que tem pena que a Chamusca tenha regredido tanto, que, como comunidade, a terra está muito mais pobre. Mas a conversa não foi nunca lastimosa: “O que nos une a todos da minha família, e são muitos, é o amor pela Chamusca. Eu posso dizer que sou um Chamusquenho, tenho o coração mais na charneca que no campo”.

Um dos maiores orgulhos do bisneto de João Joaquim Isidro dos Reis, que herdou o seu nome, é a ganadaria que refundou e registou em 2011, mais por amor à terra que por bairrismo, confessa, deixando para trás questões de invejas e incómodos que sempre existiram e vão existir enquanto houver pessoas tristes e malformadas.

Importante nesta conversa: João Joaquim Isidro dos Reis não falou de um único nome de quem tivesse que dizer mal ou sequer criticar. Agora que revejo as notas, e que releio a desgravação da conversa, confirmo e não deixo de registar: João Joaquim Isidro dos Reis é mesmo um ser humano incomum, apesar da vida nem sempre lhe ter corrido bem, de a desgraça dos fogos lhe ter roubado uma boa parte da herança, de algumas maldades que lhe fizeram, este bisneto do fundador da velha Ponte da Chamusca afirma com convicção que já lhe faltou menos tempo para acabar com as despesas dos juros nos bancos, e tirar do prego algumas das jóias de família que servem para equilibrar as contas e sonhar com uma vida mais desafogada financeiramente. JAE.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Quem não viaja não tem ilusões

“O mundo não seria o mesmo sem o desejo de viajar”. Há menos de duas horas viajava na cadeira onde me sento quase todos os dias da semana, solitário, em frente ao computador, mas no meio de uma sala com muita gente onde a palavra é prata e o silêncio é ouro. Hoje viajei sentado, mas ainda sinto no corpo e no espírito o reencontro com Ítaca que me ficou da última viagem em que cruzei oceanos e mergulhei nas suas águas.

“O mundo não seria o mesmo sem o desejo de viajar”. Roubo esta frase de um livro que tenho sempre à mão que se intitula “Teoria da Viagem” e que me serve hoje de apoio para me entusiasmar a escrever mais uma crónica. Há menos de duas horas viajava na cadeira onde me sento quase todos os dias da semana, solitário, em frente ao computador, mas no meio de uma sala com muita gente onde a palavra é prata e o silêncio é ouro.

Hoje viajei sentado, mas ainda sinto no corpo e no espírito o reencontro com Ítaca que me ficou da última viagem em que cruzei oceanos e mergulhei nas suas águas.

Lembro-me de me preparar para a partida como o viajante que faz o exercício de se tornar nómada para cultivar a errância e a vadiagem. Não era a primeira vez que me preparava com o mesmo espírito, e certamente não será a última. Regresso sempre com a certeza que até os verdadeiros nómadas recorrem a uma espécie de sedentarismo, aprendendo a orientar-se pelas estrelas, linhas e trilhos traçados pelos animais, regressando muitas vezes a lugares que encontram pelo caminho para praticarem os seus hábitos e rituais na arte de ocupar territórios.

Desta vez cheguei doente, os dois últimos dias de viagem foram penosos, por isso experimentei, como nunca, a satisfação de regressar à toca, à segurança de um tecto, um domicílio, depositando armas e bagagens onde sei que não correm perigo; aqui voltei a ter a minha biblioteca, os meus papéis de arquivo, o lar com o fogo aceso onde me defendo do planeta em guerra, e me permitiu reencontrar o estado de espírito das pessoas que dantes voltavam às cavernas depois de se terem aventurado no meio de uma natureza imprevisível que, em muitos casos, representa vários perigos.

A leitura de Michel Onfray consola-me nos primeiros dias em que me interrogo sobre as melhores e piores recordações da viagem, os encontros amargos e doces, a tensão sensual da viagem, mas também a hora do vómito, acima de tudo a urgência que sempre sentimos em responder a todas as questões que se instalaram no corpo e na alma. Escreve o autor que todos os grandes viajantes regressam ao porto, ao ancoradouro, depois das aventuras, e dá o exemplo dos vikings e de viajantes famosos e impenitentes como Bruce Chatwin, entre muitos outros. Voltar é decidir não permanecer, quando chegamos, as nossas raízes voltam a ter significado, nesses dias a seguir à chegada encontramos o equilíbrio da árvore, que no meu caso é o sobreiro.

Dos livros que levei para a viagem não abri nenhum. Li outros que comprei pelo caminho. E o computador é um milagre para quem gosta de trocar a orientação que se procura nas estrelas pelas mil diferentes alternativas que o computador nos oferece. Mas memorizei o que tinha lido nas vésperas da viagem num livro de João Bigotte Chorão, que na sua “Galeria de Retratos” tem um texto sobre Camões escrito como hoje já não se escreve em português nem sobre os heróis portugueses. E outro sobre o Padre António Vieira, que é um desafio para os grandes escritores, como a brasileira Ana Miranda, a autora de “Boca do Inferno” e “Musa Praguejadora”, dois livros únicos na literatura em língua portuguesa, em falta em Portugal, porque os novos escritores preferem aprender a escrever com os autores ingleses e americanos; é mais fácil copiá-los e imitá-los até à náusea sem que a anemia literária seja tão evidente.

Recorde-se, para quem não quer ter o trabalho de consultar a IA, que o Padre António Vieira nos idos de mil seiscentos e troca o passo já viajava para o centro do mundo, em Roma, mas não conhecia menos o Sertão e os rios brasileiros, assim como o oceano Atlântico que tantas vezes atravessou com risco de assaltos, tempestades e naufrágios.

João Bigotte Chorão, num desses retratos, a que volto muitas vezes, desafia mesmo um escritor de génio a escrever sobre o Padre António Vieira, igualmente genial e a merecer que o ressuscitem como personagem de um romance simultaneamente realista e fantástico, enquadrado na sua época e projectado para o futuro, homem do seu tempo e de todas as idades. JAE  

quinta-feira, 30 de abril de 2026

António José Ganhão: “Não há machado que corte a raiz ao pensamento”

Uma crónica sobre os 52 anos de Abril, à boleia da homenagem a António José Ganhão, um autarca que fez história tal como os melhores autarcas comunistas que, entretanto, quase desapareceram da vida política local.

As comemorações do 25 de Abril na região não tiveram discursos à altura de se escreverem manchetes, e isso é apenas a normalidade a funcionar. A nível nacional é notícia o descontentamento de Vasco Lourenço por o actual governo ter abandonado o projecto de cedência de instalações no Terreiro do Paço, em Lisboa, para um museu sobre o 25 de Abril e, como é habitual, quem escreveu sobre o assunto nem sequer dedicou uma linha ao também adiado museu de Abril, em Santarém, que sofre as mesmas vicissitudes do de Lisboa.

Uma boa maioria dos actuais decisores da nossa economia e da política não têm ideia do que se viveu nesses dias conturbados da revolução, e muito menos do que se passou no coração daqueles que, mesmo pouco politizados, sentiam na pele e na alma a pobreza desses tempos. Daí que as comemorações vivam de discursos e não de iniciativas, de palavras e não de acções. Era bom que trocássemos umas ideias sobre este assunto para não cairmos nas conversas fascistas dos partidos de direita que gozam com as festividades de Abril, como gozam com os herdeiros do poder democrático que são apanhados a receber dinheiro em envelopes ou, como foi o caso recente do chefe de gabinete de António Costa, apanhado com dinheiro vivo aos milhares escondido em envelopes no gabinete de trabalho. O anúncio do IKEA sobre este episódio grotesco teve como consequência a ida de um ex-primeiro-ministro para um dos cargos mais importantes da União Europeia. Não admira que tenha deixado o país na miséria ao nível das reformas da saúde, do ensino, das polícias, da Justiça, em suma, das principais áreas em que o país precisa de reformas, como precisa de um bom ambiente para não morrermos a respirar dióxido de carbono.

O acto que mais deu nas vistas nos festejos dos 52 anos da Revolução foi a homenagem, em Benavente, a António José Ganhão, proposta pela actual liderança da câmara, que meio século depois do 25 de Abril passou do PCP para o PSD. Não é de somenos importância realçar esta decisão política do eleitorado do concelho de Benavente, que nas últimas eleições se distribuiu de tal maneira pelos cinco partidos concorrentes que o PSD conseguiu a presidência da câmara, elegendo apenas dois vereadores. A iniciativa da actual presidente em homenagear o autarca vivo que teve mais influência no poder local também me parece boa ideia. António José Ganhão foi um verdadeiro comunista no poder, nunca deu nas vistas a não ser quando o obrigaram, por assuntos de tribunal. Tinha uma postura institucional que, espremida, não dava sumo, mas aparentemente também tinha tudo controlado na sua cabeça: servir as populações ao nível dos bens essenciais como água, esgotos, habitação e, como não podia deixar de ser, tinha a sua política para a recolha do lixo, o apoio às associações e uma cassete que usava para falar ao estilo do PCP.

Apesar de trabalhar muitos anos no concelho, nunca falei ao telemóvel com António José Ganhão, e a única vez que lhe liguei foi o motorista que atendeu e disse-me que o senhor presidente não podia atender. Mas Ganhão tem uma história com O MIRANTE que não deixo passar sem deixar testemunho. Em muitas décadas de trabalho foi o único político que “vetou” a contratação de um jornalista para a redacção. Como foi num tempo em que não dormia, só trabalhava, tive tempo para juntar os três (o jornalista tinha sido seu delfim, mas entretanto, tinha-o apunhalado pelas costas) e consegui proporcionar, numa conversa de cerca de uma hora, a cerimónia do cachimbo da paz. E o jornalista lá ganhou o emprego. Foi a única vez que me sentei com Ganhão a uma mesa e a única vez que percebi que dirigir um jornal também é meter a cabeça num cepo quando é preciso. Esse jornalista mais tarde fez-me a mim e a quem trabalhava comigo o mesmo que tinha feito anteriormente a Ganhão, só que de maneira mais refinada e cobarde.

Sérgio Carrinho, António Mendes e António José Ganhão foram os autarcas comunistas mais influentes que fizeram a história do PCP no Ribatejo. Ganhão era o mais silencioso deles todos e o menos afectuoso. Teve a sorte de trabalhar num concelho perto da Área Metropolitana de Lisboa, o que até lhe proporcionou autorizar condomínios de luxo no seu concelho, o que pode parecer um paradoxo, mas não é; na vida política, tal como na vida de qualquer cidadão, “do porco se faz presunto”.

Não pretendo com este texto dizer mais do que já escrevi, mas falta o essencial: Ganhão foi um autarca sério, tal como Carrinho e Mendes; era, e ainda é, uma boa pessoa, embora tivesse aquele ar autoritário que muitas vezes esconde mais as fraquezas que as forças. Não dava muitas confianças, como era norma nos dirigentes comunistas de verdade, que, entretanto, também por isso desapareceram do mapa. Pessoalmente tenho pena de não o ter conhecido e convivido com ele como com outros autarcas e deputados do seu tempo. Mas não deixo de me associar à sua homenagem, sem esquecer que ele teve um substituto à altura chamado Carlos Coutinho, um político que acabou por pagar caro os ódios de estimação que sobraram de António José Ganhão (e não foram poucos), os problemas mal resolvidos da sua gestão, que foi silenciosa, mas teve muitos grãos na engrenagem. Dificilmente escreveria sobre o trabalho autárquico de Ganhão e a homenagem merecida que recebeu sem falar do seu braço direito durante 15 anos, que depois ainda teve tempo para fazer três mandatos, ganhando eleições, tentando continuar o trabalho que, na sombra, já fazia como vice de Ganhão. JAE

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O jornalismo como tema para manter a chama

Nas últimas semanas falhei as minhas crónicas neste espaço e não morreu ninguém. O MIRANTE sempre foi e será um jornal de notícias, reportagens e entrevistas e nunca de opinião.

O MIRANTE recebe diariamente proposta de trabalho editorial que ultrapassa a nossa área de influência que são os 25 concelhos do Ribatejo, onde incluímos Arruda dos Vinhos e Alenquer, por terem uma grande proximidade com Vila Franca de Xira, concelho onde O MIRANTE é o jornal da terra, por sinal a de maior área, mais população e de onde recebemos mais mensagens sobre a importância do nosso trabalho.

Tomo nota deste assunto no final de uma manhã na sala de entrada de um hotel já depois de fazer o check-out. Oficialmente estou reformado. Até há pouco tempo fingi que não percebia a minha nova condição de vida, mas a realidade, comigo, ultrapassou a ficção em que muitos de nós pairamos, julgando podermos viver eternamente como no cinema ou nas séries de televisão. Mas, tal como no ditado popular que diz que o trabalho do menino é pouco, mas quem não o aproveita é louco, também devia haver um ditado para sinalizar que o trabalho do velho é chato, mas quem não o aproveita é parvo.

Vem o assunto a propósito do encaminhamento de um assunto que chegou pelo correio para as chefias da redacção: para além do tema que sugere uma boa reportagem, há matéria na mensagem que me sugeriu mais outra, que adveio do facto de conhecer as pessoas envolvidas e o seu passado que foi, e ainda é no presente, paralelo ao meu.

Nas últimas semanas falhei as minhas crónicas neste espaço e não morreu ninguém. O MIRANTE sempre foi e será um jornal de notícias, reportagens e entrevistas e nunca de opinião. Não fechamos as páginas a alguns colaboradores e graças à edição online ainda podemos abrir mais o leque, mas são as notícias e as reportagens e as entrevistas que pagam a estrutura que montamos que, a nível local e regional, não tem paralelo em mais nenhuma empresa de comunicação social. Mesmo a nível nacional temos mais tiragem, mais leitores e mais facturação que alguns jornais nacionais; e só trabalhamos em 25 concelhos; e não pertencemos a nenhum grupo económico, vivemos do trabalho de uma pequena equipa de cerca de três dezenas de pessoas que não deixa de se agigantar quando toca a correr atrás do prejuízo, o que raramente acontece já que na grande maioria das vezes temos o trabalho em dia.

Esta crónica é quase um anúncio de despedida embalado por 31 dias de ausência por andar a testar a minha capacidade de mudar de vida. Fiz uma longa viagem e regressei mais cansado do que quando parti. A lição a tirar é fácil: o cansaço depende da forma como gerimos as nossas energias. Se não aproveitamos bem o tempo de que dispomos, quando chega o final do dia em vez de somarmos mais um tempo de vida, diminuímos o tempo à vida que ainda nos resta. Este texto não é uma despedida, mas é o anúncio de uma decisão: vou viver mais tempo a minha vida que a vida deste jornal. Não tenho qualquer dúvida que tudo o que eu fazia já está bem entregue há muito tempo, e, conhecendo-me, sei que vou andar por aí, como se diz no meio político.

Há dias o Expresso noticiava em manchete que o Governo andava a boicotar o museu 25 de Abril, ou seja, a criação de um centro interpretativo que já tinha espaço reservado no Terreiro do Paço. O texto é fraco e a manchete é exagerada. Há duas décadas, quando Francisco Pinto Balsemão dava conversa entre reuniões de trabalho ou congressos da nossa associação, falava com ele sobre a tendência dos jornais em abusarem das manchetes sobre política que apenas servem para mexer com os governantes ou, noutros casos, com os políticos da oposição. Todos os jornalistas sabem que os assuntos de sociedade é que vendem jornais, não são os políticos, nem os interesses dos políticos, ainda que os assuntos sejam pertinentes. Francisco Pinto Balsemão concordava e lá me dizia como tentava resolver o problema, uma vez que nessa altura já não ajudava a fechar a edição. Este exemplo serve para avisar que a minha ligação a este jornal e à organização da empresa pode ser tão intermitente como as vitórias do Sporting, mas todas as semanas estarei no sítio certo e à hora certa para ajudar a fazer as três capas que reflectem o orgulho do nosso trabalho semanal. No dia em que os leitores começarem a ver muitas manchetes sobre a vida política, já sabem: desapareci em combate. JAE.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Universidade do Ribatejo e o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa

Interessa-me muito mais o anúncio da criação da Universidade do Ribatejo que o debate sobre o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa. Mas não escondo a surpresa de perceber que toda a gente se calou sobre um assunto que nos pode arruinar para mais meio século de vida colectiva. 

A escolha da localização para o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa continua a conquistar espaço na imprensa embora com uma regularidade muito abaixo do que se esperava.  O último texto de Luís Janeiro, no jornal Observador, é só mais um motivado pela militância de técnicos e cidadãos empenhados numa solução razoável, do que na concretização da escolha do Campo de Tiro para um projecto megalómano, difícil de concretizar, embora não impossível, porque os dinheiros públicos para obras faraónicas não conhecem limites embora vivamos actualmente no início de uma terceira guerra mundial, com os governantes dos países mais poderosos como EUA e Rússia liderados por homens de outra estratosfera.

No último mês viajei por várias cidades e frequentei muitos aeroportos. Mais do que espaços onde circulam aviões de passageiros, os aeroportos são as novas cidades do futuro, onde se pode dormir, trabalhar, fazer compras de luxo, combinar encontros ao mais alto nível, seja entre chefes de Estado ou chefes do crime organizado, realidade cada vez mais presente nas nossas democracias. O turismo está a atingir os máximos nas principais cidades do mundo, incluindo Lisboa, embora o número de hotéis em construção pareça indicar que a terra de Santo António ainda tem mais uma dúzia de ruas Augusta para encher de restaurantes e esplanadas, lojas de pastéis de nata, de bacalhau e de lembranças que chegam da China a preços para todos os bolsos.

 Escrevo sobre o assunto porque acho inacreditável que o debate sobre o futuro aeroporto esteja resumido à intervenção de duas ou três personalidades da nossa vida pública, mesmo assim com espaço de opinião procurado por eles e não por iniciativa de quem tinha obrigação de manter o debate vivo e aceso, porque é claro que se o aeroporto for mesmo para Benavente, a coisa vai demorar, vamos continuar a aumentar o atraso civilizacional em comparação com os outros países da Europa, e quando chegar a hora H ainda corremos o risco de preferir aterrar em Madrid e regressar a casa apanhando o comboio de alta velocidade. Resumindo: eu pagava do meu bolso para ler o que é que o antigo ministro dos aeroportos, o antigo (e futuro?) líder do PS, Pedro Nuno Santos, tem para nos confessar das suas actuais conversas com as bruxas de serviço ao seu partido. 

O anúncio da criação da Universidade do Ribatejo interessa-me mais, pessoalmente, que o destino que estão a traçar para o futuro aeroporto de Lisboa. Sou testemunha privilegiada dos desabafos do historiador e homem de cultura, Joaquim Veríssimo Serrão, cujas palavras e desafios nunca foram ouvidos pela classe política. Nos últimos anos tive a ousadia de desafiar pessoalmente alguns dirigentes a darem esse passo em frente, mas nunca falei com pessoas destemidas e corajosas. Não vou citar nomes, mas um deles deu-me uma resposta que não vou esconder: “estou velho para lutas dessas, estou quase no tempo de ter paz e sossego”.

A chegada de João Leite ao poder pode não agradar a muita gente, o que é normal, mas ele veio desassossegar o meio escalabitano. Não é pelo simbolismo das medalhas de ouro da cidade que está a entregar a grandes figuras e a pequenas figurinhas, é pela dinâmica que tem imprimido no concelho, pela coragem com que assume desafios como a ligação da cidade ao rio Tejo, que Moita Flores falhou redondamente e era um dos seus primeiros objectivos; pela forma como encostou os socialistas às cordas e silenciou mais uma vez essas almas penadas que já mandaram no burgo e deixaram tudo pior do que no tempo em que D. Afonso Henriques conquistou as muralhas aos mouros. Se João Leite tiver sorte e não descurar o trabalho de equipa, não fizer cedências aos Barreiros desta vida que dão com uma mão e recebem com a outra, Santarém poderá estar irreconhecível no final dos seus dois mandatos, sim, escrevo dois porque como a cidade e o concelho estão, oito anos é tempo suficiente para virar isto tudo do avesso. JAE.

quinta-feira, 12 de março de 2026

As terras da Lezíria ribatejana deviam ser Património Mundial da Humanidade

O Alentejo é hoje um território quase deserto e o Ribatejo para lá caminha se não houver coragem política para mudarmos de rumo.

Fui testemunha dos estragos que as cheias fizeram nos campos da Lezíria, e nem imagino, ou imagino e não quero armar-me em justiceiro, os prejuízos que a grande maioria dos agricultores sofreram com as descargas à bruta das barragens. Dantes, quando as galinhas tinham dentes, as cheias eram notícia não pelo espectáculo que proporcionavam, mas pelos prejuízos que causavam. Desta vez, com o que se passou e ainda passa com o desastre causado pelas tempestades, os problemas do assoreamento do Tejo, a falta de vigilância das marachas e tudo o que falta ao nível do ordenamento do território, vai fazer com que os prejuízos causados pelas descargas mal medidas das barragens fiquem por conta de quem ousa trabalhar a terra, insistir na ilusão de que os campos do Ribatejo são mesmo património da Humanidade, tal como as igrejas e os conventos e outros monumentos de pedras milenares. O assoreamento do Tejo é um problema que vem do antes do 25 de Abril de 1974. Daí para cá, com as alterações na floresta, a eucaliptizacão dos territórios, o nível de assoreamento aumentou de forma que ninguém quer saber, muito menos quem devia cuidar do que é seu e está organizado em cooperativas e associações.  Os agricultores são cada vez menos e cada um trabalha para sobreviver. Não há tempo para organizar e muito menos militância para protestar. Já não é o fascismo que nos impede de cairmos na desgraça, agora é o comodismo e a falta de líderes locais e regionais. As organizações de agricultores estão de mãos atadas porque muitos que as lideram têm rabos de palha e também têm que defender os seus interesses. Estamos a bater no fundo porque os velhos desistiram de lutar e os novos rendem-se às evidências. Os espanhóis vêm aí com as suas estufas porque o Alentejo já deu o que tinha a dar. O Alentejo é hoje um território quase deserto e o Ribatejo para lá caminha se não houver coragem política para mudarmos de rumo.


Há muitas décadas, muito mais de meio século, ouvi dizer pela primeira vez que o cemitério está cheio de pessoas insubstituíveis. A frase acompanha-me desde essa altura e nunca a esqueci como outras mais leves (quem não viaja não tem ilusões) que guardo para um dia tatuar num braço, provavelmente quando já não tiver pernas para viajar.

Lembrei-me de escrever sobre o assunto porque estou a quase 7 mil quilómetros de Santarém, e passei a manhã no computador a fazer o que qualquer pessoa podia fazer por mim, que era ler o meu correio e despachar só os assuntos mais importantes. Com esta mania de que tenho que controlar tudo como há meio século, hoje vou chegar atrasado ao centro da cidade, onde me esperam assuntos urgentes como procurar três livros num alfarrabista, comprar uma viagem cheia de complicações por causa de um destino que não tem voos directos, participar numa master class sobre como escrever um romance histórico, dado por uma amiga que é só uma das escritoras vivas mais importantes da literatura em língua portuguesa, e entre tantas outras tarefas importantes comprar um adaptador para o cabo do computador e entregar o que estou a usar que me foi emprestado na portaria do hotel. É mais que certo que por causa da manhã de trabalho ao computador não vou ter tempo de dar o mergulho da praxe no mar azul onde quase vejo a minha sombra da janela do hotel onde escrevo esta crónica.

Antes de sair para o sol abrasador que me obriga a proteger a pele para não ficar da cor do tomate maduro, dou uma volta pelo trabalho que acabei de fazer e sinto a missão cumprida. Não fiz nada de jeito, comparado com quem trabalha na redacção a paginar e a escrever os textos que quinta-feira chegam à caixa do correio no papel de jornal. Estou ainda à vontade para dizer que aquela frase das pessoas insubstituíveis fez o seu caminho, e hoje estou muito mais capaz de aceitar a morte e deixar de trabalhar, do que naquela altura em que achava que para chegar à idade que tenho hoje era preciso que Deus descesse à terra. JAE.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Os gestores públicos que acabaram com a Excelência do Hospital Vila Franca de Xira

Cinco anos depois de adoptar o modelo de Entidade Pública Empresarial, deixando para trás oito anos de gestão público privada, o Hospital Vila Franca de Xira está sem serviços que já foram considerados os melhores do país. Os últimos anos de gestão foram um desastre que ninguém assume para vergonha dos nossos políticos e da nossa gestão pública.


Não podemos sacrificar na cruz um gestor por ele ser incompetente e não saber. Mesmo que seja um gestor incompetente, e tenha a noção da sua incompetência, ninguém o obriga a dar a mão à palmatória se quem o escolheu e nomeou gestor não o convidar a abandonar o cargo. O MIRANTE acompanhou de perto a gestão do Hospital Vila Franca de Xira desde a sua inauguração, e na altura própria, quando o hospital foi considerado um exemplo, premiámos os seus gestores e reconhecemos o seu trabalho. Quando a Parceria Público Privada acabou, e a gestão passou para o Estado, não deixámos de continuar a fazer o trabalho de escrutínio do hospital dando voz a quem sofreu na pele a incompetência dos gestores públicos que foram substituir os privados. Não é altura para recordar as infelicidades de quem teve o azar de cair nas malhas dessa gestão incompetente do Hospital Vila Franca de Xira, mas também não seria justo que calássemos as críticas, que não recordássemos o nosso trabalho editorial, agora que o hospital passa por uma situação que ninguém previa, que é o fim de serviços hospitalares essenciais para um verdadeiro Serviço Nacional de Saúde (ver página 16 desta edição).

Neste meio tempo, entre a saída do anterior gestor público e a entrada de um outro, soubemos, quase em segredo, e o quase não é apenas uma figura de estilo, como a gestão do Hospital VFX bateu no fundo, dando origem às tragédias que aqui contámos ao longo destes últimos anos, e a muitas outras que terão acontecido e ficaram entre quatro paredes. Por mais que se exija de um jornal que conte as verdades, e desmascare as incompetências, há linhas que não se podem ultrapassar, ou corremos o risco de ficarmos presos nas armadilhas que nós próprios quisemos desmontar.

Se o Governo não acudir ao Hospital Vila Franca de Xira, que haja alguém que dê o rosto pelo falhanço da sua gestão depois do hospital ter sido considerado durante vários anos um exemplo nas práticas dos seus profissionais, como aconteceu em 2018 quando recebeu o prémio mundial pela redução do consumo de antibióticos, e no início de 2020 quando foi classificado como “o Hospital mais bem gerido do país”, avaliado por um conjunto de mais de cem instituições, como o único hospital público que obteve a classificação máxima de Excelência Clínica (três estrelas) em seis áreas clínicas, nomeadamente, Cirurgia de Ambulatório; Unidade de Cuidados Intensivos; Cuidados Transversais (Avaliação da Dor Aguda); Neurologia (Acidente Vascular Cerebral); Obstetrícia (Partos e Cuidados Neonatais) e Pediatria (Cuidados Neonatais).

Estamos a escrever só uma pequena parte da história de sucesso que foi o Hospital Vila Franca de Xira até ao dia 1 de Junho de 2021, quando a instituição passou oficialmente para a esfera da gestão pública, adoptando o modelo de Entidade Pública Empresarial, terminando a parceria com o grupo José de Mello Saúde.

Não sabemos se estas palavras fazem doer a alguém que está do nosso lado, e que lamenta tanto como nós a gestão incompetente dos gestores públicos; se estamos a acender uma fogueira que pode ser considerada pelos mais puristas como uma forma de combustível da antiga inquisição; é muito provável que sim, não é fácil lidar com as derrotas dos gestores do Estado, que conquistámos com o 25 de Abril de 1974, e ainda menos com a liberdade que temos de escrever aquilo que nos vai na alma e não é só o que agora está à vista de todos: O Hospital Vila Franca de Xira esteve entregue nos últimos quatro anos a quem não o soube gerir, e quem paga as favas somos todos nós que precisamos do Serviço Nacional de Saúde como de pão para a boca. JAE.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Tanto trabalho só para um concerto!?

Mais de quarenta anos depois de realizar programas numa rádio pirata, de ter feito a minha escola a realizar entrevistas e a escrever e relatar crónicas de reuniões políticas e associativas, depois de tantos anos passados, e mesmo agora que já toco piano, ainda me sinto o rapaz que faz a festa, atira os foguetes para o ar e depois vai apanhar as canas.


Confesso a minha paixão pela rádio que vem do tempo em que começaram a surgir as rádios locais. Não quero saber onde param as entrevistas e as crónicas que editei, e a que dei voz, quando ajudei a fundar umas dessas rádios; imagino que ia ter vergonha de me ouvir e de me reconhecer um verdadeiro “aprendiz de feiticeiro”. A prova de que a vergonha nunca me impediu de continuar a aprendizagem está aqui nesta confissão que me saltou ao caminho, numa viagem de carro, a ouvir a Antena 2. O jornalista de serviço entrevistava um músico que falava de um concerto que estava a preparar, e a certa altura, já quase no final da conversa, saiu-lhe este comentário em jeito de pergunta: “tanto trabalho só para um concerto!?” Não tomei nota da resposta porque viajei para uma outra conversa, horas antes, que ainda mexia comigo às 10 da noite, depois de sair a correr do jornal e de ter ouvido algo parecido de alguém que não é maestro nem músico, mas também organiza concertos em papel de jornal de 55 gramas: “já não há mais espaço no jornal, nem para notícias nem para publicidade”. Na manhã desse mesmo dia a azáfama em todos os sectores do jornal ainda se ouvia na rua, o telefone tocava e eu ia perguntando de hora a hora se íamos conseguir cumprir os horários combinados com a gráfica. Este “tanto trabalho para um concerto” foi a questão que respondeu à interrogação que fazia a mim próprio pelo caminho, cansado mas feliz por deixar o jornal sem um único espaço para preencher uma hora antes de seguir via digital para um armazém, que podia ser um palco, onde as máquinas, que podiam ser instrumentos musicais, imprimem, dobram, espalham tinta de várias cores, ensacam, fazem etiquetagem, e depois transportam o produto para carrinhas que se fazem à estrada para, horas depois, como por magia, os carteiros entregarem de casa em casa, nas cidades mas também nas mais pequenas vilas e aldeias e lugares da região ribatejana. Aí chegados, responde-se finalmente à pergunta “tanto trabalho só para um concerto?”, quero dizer, “tanto trabalho só para editar um jornal com 72 páginas”, que dias depois já está a embrulhar bananas ou a limpar vidros, como a música de duas horas de concerto, que demorou uma eternidade a montar, já anda a viajar no espaço animando e dando mais luz à vida das estrelas.

Mais de quarenta anos depois de realizar programas numa rádio pirata, de ter feito a minha escola a realizar entrevistas e a escrever e relatar crónicas de reuniões políticas e associativas, depois de tantos anos passados, e mesmo agora que já toco piano, ainda me sinto o rapaz que faz a festa, atira os foguetes para o ar e depois vai apanhar as canas.

Na véspera de mais uma edição da entrega dos prémios Personalidades do Ano de O MIRANTE, a homens e mulheres que ajudam a fazer a História do nosso país e da nossa região, pela excelência do seu trabalho, o tema desta crónica não me deixa mentir: ainda tenho de roubar muitas horas ao sono para aprender com o canto dos rouxinóis como se aprende a assobiar enquanto se toca flauta. JAE.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O CHEGA em Salvaterra de Magos, a falta de vergonha na Chamusca, e ainda o elevador da Glória

Se falarmos da vida política local, o descontentamento da população não é inferior ao das grandes urbes. É nos territórios mais desfavorecidos que André Ventura colhe mais votos e mais simpatias. A sua força política nunca se traduzirá em poder nos próximos anos porque André Ventura é um homem sozinho.

Os resultados para as eleições presidenciais em Salvaterra de Magos, e em muitas cidades, vilas e aldeias do Alentejo, são a prova provada de que André Ventura não é o líder da direita em Portugal e muito menos o líder de qualquer ideia ou ideologia política. André Ventura colhe os frutos de 50 anos de governo dos partidos tradicionais, que em meio século raramente se entenderam para implementar medidas de governo que acabem com a corrupção, a desigualdade, a falta de apoio social e os privilégios políticos que minam a democracia. Em resumo: a grande maioria dos políticos das novas gerações não aprenderam nada com as democracias mais avançadas dos países mais desenvolvidos, e uma boa maioria dos simpatizantes do CHEGA sempre votaram nos partidos de esquerda, de que Salvaterra de Magos é apenas um bom exemplo. O título de líder da direita em Portugal é só mais uma das suas habilidades, que não são poucas, que já mudaram e vão continuar a mudar a forma de fazer política à portuguesa.

Se falarmos da vida política local, o descontentamento da população não é inferior ao das grandes urbes. É nos territórios mais desfavorecidos que André Ventura colhe mais votos e mais simpatias. A sua força política nunca se traduzirá em poder nos próximos anos porque André Ventura é um homem sozinho. No máximo manterá o apoio parlamentar até que a maioria dos seus deputados se deixem manipular pelo sistema que eles próprios criticam. Veja-se o caso da Câmara de Lisboa, onde uma vereadora do Chega acaba de se aliar a Carlos Moedas, dando-lhe tranquilidade para a governação.

Não me esqueço que escrevi aqui que Carlos Moedas perdia as eleições para a Câmara de Lisboa com a queda do elevador da Glória, um desastre que correu mundo e que foi rapidamente esquecido. Há provas das deficiências na manutenção do elevador, muitas dúvidas sobre quase tudo, mas as 16 mortes e as duas dezenas de feridos não foram suficientes para que os lisboetas castigassem nas urnas o líder da câmara responsável pela empresa municipal Carris. Um dia Carlos Moedas não vai ser conhecido por ter sido presidente da Câmara de Lisboa, mas por não se ter responsabilizado pela manutenção de um equipamento que era uma das maiores atracções turísticas de Lisboa que foi alvo de uma tragédia que chocou o mundo.   

Há cerca de dois meses O MIRANTE publicou uma entrevista com um candidato do PSD à Câmara da Chamusca que fez acusações graves a Rui Martinho, que também era candidato por um grupo independente. O tempo passou e as acusações que deveriam ter merecido uma posição pública do agora vereador foram ignoradas. Rui Martinho é da família do PSD, e só se desvinculou porque não o quiseram como líder à câmara. Vai daí usou todos os argumentos que lhe pudessem dar uma vitória, já que o PS estava fragilizado pela gestão de dois morcões que saíram da política com o rabo pelo chão, embora o novo candidato do PS fosse um jovem quadro sem provas dadas. Convencido que tinha a vitória no papo, Martinho usou todas as artimanhas que tinha à mão para comprar o apoio daquele que lhe poderia tirar o tapete, como aliás veio a acontecer. Repito: as acusações de Tiago Prestes deveriam fazer corar de vergonha o vereador Rui Martinho, e depois de serem públicas não lhe restava outra hipótese que pedir a renúncia e dar o lugar ao quem se segue na lista. Debalde. Se Tiago Prestes tivesse carregado mais na linguagem, tivesse espaço para contar mais como Rui Martinho passou a fronteira da decência, certamente que as consequências seriam as mesmas; Rui Martinho ia continuar como até aqui a especializar-se em actualizar a sua página social no facebook, onde prova quase diariamente a sua miséria humana, a misógenia, certamente convencido de que o facto da Chamusca ser conhecida como “terra de gente fusca” lhe dá o poder da invisibilidade, que lhe permite ser por uma vez um político atilado e, por outro, um sócia de André Ventura. JAE.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Uma viagem pelo Médio-Tejo em tempo de Inverno

Tenho vergonha de ter sonhado tanto morar numa propriedade murada, ter uma piscina ou uma sauna só para mim, ganhar tanto dinheiro que me permitisse apenas viajar pelo mundo, depois de tanto que já trabalhei.

Quando era mais novo, e mais ingénuo, perguntava-me muitas vezes porque é que os ricos regra geral moravam em casas muradas; o mesmo quanto ao facto de terem piscinas só para eles, comprarem iates para darem os seus passeios no mar, trabalharem em gabinetes onde só entra o vento dos ares condicionados para suportarem o calor do Verão ou o frio do Inverno.

Com o tempo fui percebendo como o mundo funciona, e como é difícil a uma pessoa que tem telhados de vidro frequentar uma piscina pública, ter a porta de casa virada para a rua, onde qualquer pessoa pode bater e pedir para entrar, frequentar uma praia onde a maioria dos veraneantes levam rádio, fumam para cima dos vizinhos e falam mais alto que as ondas do mar. Ainda não percebi essa coisa de comprarem iates de luxo, mas um dia quem sabe consiga compreender quando estiver a chegar ao fim da lição que é toda uma vida de muitas aprendizagens.

Nos últimos tempos tenho viajado mais para a zona do Médio Tejo, e reconheço que o território por ali não é como eu pensava. Num dia de chuva, numa aldeia como São José das Matas, podemos perfeitamente imaginar que estamos no início de um novo mundo, o cenário é dos filmes ingleses de espionagem do século XX, e as casas de alguns moradores parecem verdadeiros celeiros onde não faltam cestas de ovos, muitos frascos de mel, garrafões de azeite e cestos cheios de fruta e legumes. Recentemente, ao passar a meio da noite a pé por aquelas estradas onde não entra um carro, tive saudades da minha máquina fotográfica, que já não uso há muitos anos e que substitui pelo telemóvel. Mesmo com o telemóvel, as fotos que fiz numa noite de muita chuva, deixaram uma vontade de as imprimir em papel, de tal forma o cenário me fez ver tanta beleza onde, certamente, também há muita pobreza e sofrimento.

É evidente que nem todas as casas têm a fartura que eu aqui descrevo, mas quem mora por lá e trabalha desde quando o dia nasce até que o sol se põe, a realidade é mesmo essa.

A falta de mão-de-obra nas pequenas aldeias faz com que os moradores que tenham um tractor, ou uma carrinha de caixa aberta, saibam fazer um pouco de tudo, são tão úteis ou ainda mais que o médico de família. Apesar da crise no SNS, já é mais fácil conseguir uma consulta no Centro de Saúde do que encontrar um pedreiro, um carpinteiro ou um electricista disponível, muito menos quem suba acima de um telhado, ou saiba concertar um fogão ou um radiador, sequer trocar os fusíveis de uma instalação eléctrica que tenha dado o berro.

Tenho vergonha de ter sonhado tanto morar numa propriedade murada, ter uma piscina ou uma sauna só para mim, ganhar tanto dinheiro que me permitisse apenas viajar pelo mundo, depois de tanto que já trabalhei. O fim do mundo e a beleza da aurora boreal nos céus da Noruega, das praias desertas na América Latina, dos rios com casas flutuantes, dos ambientes das cidades como Miami ou Paris, Barcelona ou Santiago do Chile, entre muitas outras, são certamente menos atractivas que algumas cidades portuguesas, que algumas cascatas da região do Médio Tejo, ou algumas das suas praias fluviais.

Um dia li uma entrevista com uma artista americana que comprou uma caravana para viver o resto da sua vida, onde não tinha água nem luz, e o próprio chão era um baldio. Dizia ela que não queria ser uma fonte de receita das empresas ou do Estado, e recusava-se a renovar o cartão de cidadão porque argumentava que ninguém tinha direito a controlar a sua vida. Perdi-lhe o rasto. Já deve ter morrido. Comprei uma caravana recentemente e lembrei-me dela. Estou à espera de inspiração para me meter ao caminho sem o tempo contado e viajar sem destino. Por enquanto sou só mais um sacana que escreve crónicas e tira água à nora. JAE

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Leiria não existe

“Leiria não existe” segundo a publicidade, mas Ourém também não. Luís Albuquerque chorou frente às televisões, mas as suas lágrimas tiveram menos impacto que as palavras duras de Santana Lopes na Figueira da Foz.


Leiria não existe: esta é a frase principal de uma campanha de publicidade outdoor paga pela câmara municipal que vai servir para introduzir nesta página, humor negro, que é um género raro talvez por falta de inspiração do cronista.

No distrito de Leiria a tempestade Kristin levou coberturas de prédios no valor de milhões de euros, alguns moradores endinheirados salvaram-se escondendo-se em grupo nas casas de banho, grande parte das empresas com coberturas e montras de vidro e alumínio foram destruídas, e tudo o que lá estava dentro desapareceu ou ficou inoperacional. Habitações familiares de gente pobre e rica foram tratadas de forma cruel por uma ventania que soprou a mais de 200 quilómetros por hora, que a chuva engrossou, originando prejuízos e infortúnios sem escolher classes sociais ou a idade das vítimas. Leiria quase desapareceu do mapa. Há centenas de empresas que vão ter dificuldades em voltar à normalidade, e centenas ou milhares de casas que, no dia em que escrevemos esta crónica, ainda não têm telhado. Se toda esta desgraça fosse em Lisboa, as televisões tinham tempo de antena para duas semanas, e os membros do governo e comentadores tinham que trabalhar horas a mais. Certamente que de Espanha tinham vindo telhas que dariam para tapar todos os telhados de Lisboa. Como foi em Leiria, as notícias foram muitas, mas a qualidade da informação foi escassa, tanto quanto a da ajuda. As filmagens dos prejuízos e as reportagens nos locais começaram quando o próprio presidente da câmara se mostrou incrédulo por não ter do seu lado, e da sua população, todos os meios necessários para fazer frente a uma catástrofe sem igual em Portugal. Vale escrever outra vez que Leiria não existe mesmo no mapa dos grandes interesses nacionais. Santarém também não. Coimbra idem idem, aspas aspas. Mas Leiria teve a ousadia de fazer uma campanha de publicidade dizendo o óbvio, embora a campanha seja considerada um êxito, o que a realidade veio desmentir.

Estamos nas mãos dos capitalistas da distribuição, dos bancos e das energias. Eles mandam, e os governos e os que se alimentam do Sistema obedecem. Mesmo que alguns de nós mijemos fora do penico, depressa levamos com o nosso mijo na cara e temos que ficar de boca calada. Leiria não existe. É altura da câmara municipal dizer quanto pagou por esta publicidade que só serviu para provar que a água não tem cor.

Ourém também não existe, como todos sabemos, mesmo tendo no concelho o Santuário de Fátima, que é conhecido em todo o mundo e é a maior atracção turística do país. Luís Albuquerque chorou frente às televisões, mas as suas lágrimas tiveram menos impacto que as palavras duras de Santana Lopes na Figueira da Foz, que depois de mostrar desagrado pela falta de solidariedade das instituições governamentais recebeu quase de imediato a visita do Presidente da República.

O concelho de Santarém, Tomar e Abrantes, que reúnem um maior número de habitantes, ainda sofrem com a falta de luz, internet e telhas em algumas casas das freguesias. Mas a comparação com o que se passou e está a passar no distrito de Leiria não tem sentido devido ao tamanho e dimensão dos prejuízos patrimoniais e humanos. JAE.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Orlando Raimundo e “A Linguagem dos Jornalistas”

Morreu o jornalista e escritor Orlando Raimundo. Este texto é de homenagem à sua memória, e uma forma de dar a conhecer um dos seus primeiros livros quando exercia a profissão e era mobilizado para dar formação aos novos jornalistas.


Orlando Raimundo (77 anos) é notícia nesta edição por ter falecido na passada semana. Pouco tempo depois de O MIRANTE começar a circular tivemos a sorte de o encontrar pelo caminho. A relação de amizade durou até aos dias de hoje, 38 anos depois, e com ele trabalhámos o suficiente para que o recordemos já com saudade. Guardo religiosamente a primeira e única edição do livro “A Linguagem dos Jornalistas - Manual de Escrita Jornalística”, que é uma edição de 1991 que, segundo sabemos, nunca foi reeditada embora seja um livro de leitura obrigatória principalmente para quem se inicia na profissão. Como todos somos, ou sentimos que somos, um pouco jornalistas, transcrevo alguns dos parágrafos do livro que sublinhamos, e que ainda hoje nenhuma inteligência artificial consegue substituir na aprendizagem obrigatória para quem exerce a profissão.

• Acossada durante meio século pela censura imposta pelo Estado Novo, sem liberdade para existir em voz alta, a imprensa portuguesa revela ainda preocupantes sinais de imaturidade (:) Os jornais portugueses são ainda tristes e pessimistas. A maioria dos homens que os fazem parecem tristes e pessimistas”.

• Para que um jornal seja independente, duas condições terão de se reunir: é preciso que aqueles que o fazem desejem essa independência e estejam prontos a pagar o preço; e é preciso que essa vontade se traduza em actos (citação de Beuve-Méry).

• A ideia de que a indústria cultural só se assume plenamente quando segue, e respeita as modernas regras do modo de produção capitalista é, por outro lado, indesmentível. O desprezo por este pressuposto tem mantido na pobreza envergonhada a maior parte dos órgãos de informação regionais. Incapazes de apostar no profissionalismo e declarar morte ao amadorismo ao improviso e ao biscate, muitos desses jornais vivem uma morte às arrecuas”.

• Poucos são hoje os leitores dispostos a contribuir com o seu dinheiro e a sua atenção para a existência de empresas que produzem jornais desinteressantes. (:) O público olha a liberdade de imprensa como um valor que obriga a relatar verdades “sem papas na língua”, não querendo saber das dificuldades em lá chegar. Que é como quem diz: quem não tiver unhas que largue a guitarra.

• Em Portugal não há sondagens sobre o nível de compreensão dos textos pelos leitores. Mas em diversos países as sondagens deixam sempre os jornalistas perplexos: a capacidade de entendimento das pessoas fica sempre aquém das suas perspectivas.

• “O que não foi noticiado não aconteceu”, dizia o ditador Salazar, justificando deste modo, entre os seus apoiantes, a existência da censura.  

• O leitor deve ser olhado pelos jornalistas como o cliente de uma loja: alguém que tem sempre razão, fazê-lo feliz, para que volte mais vezes, passa por dar-lhe condições para que seja capaz de ver, ler, reter e compreender.

• O tempo já não é só de palavras claras e linguagem simples, como sugeria Ernest Hemingway. Os compradores de jornais, outrora fiéis e pachorrentos devoradores de “sonhos de papel”, são hoje cidadãos apressados, com um sentido bem mais prático da utilidade da informação (:) Entre um candidato a jornalista que domine as técnicas e escreva depressa, embora com erros, e outro que desconheça os pequenos segredos dos novos processos, apesar de escrever prosas poéticas, nenhum editor hesitará hoje em dia em contratar o primeiro.

• Os profissionais da informação são, assim, parte importante de uma “tribo” muito especial. Entre eles se encontram, muito provavelmente, os únicos homens que alguma vez na vida experimentaram uma dor semelhante à do parto: os repórteres. Marginais de elite, segundo o senso comum, são gente que está na vida de uma maneira profundamente diferente da dos outros cidadãos. JAE.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A política é veneno puro e duro

Avelino Ferreira morreu num incêndio de 2017 depois da máquina de rastos ter capotado. O governo de António Costa fez vista grossa e recusou a indemnização que nesse ano deu a outras vítimas dos incêndios. A actual ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, fez o milagre que é raro na vida política, muitas vezes feita de solidariedades cruéis entre gente que esqueceu os valores conquistados com a Revolução do 25 de Abril. 

Esta semana a pequena grande notícia devia ter sido a grande manchete; o governo português acabou com um conflito em tribunal que já durava há quase nove anos e que se conta em poucas palavras: Avelino Ferreira, um funcionário da Câmara Municipal de Oleiros, morreu durante um incêndio a 7 de Outubro de 2017, na sequência do capotamento da máquina de rastos que operava no apoio ao combate a um fogo florestal na freguesia do Estreito.  Avelino Ferreira, então com 50 anos, deixou mulher e dois filhos menores.  Ao contrário das demais vítimas dos incêndios de 2017, a família de Avelino Ferreira foi excluída do “mecanismo extrajudicial” criado pelo Governo para indemnizar quem perdeu familiares nos fogos desse ano. O programa abrangia apenas os períodos de 17 a 24 de Junho, referente ao incêndio de Pedrógão Grande, e de 15 a 16 de Outubro, nos grandes incêndios da zona Centro. Apesar de ter morrido em circunstâncias semelhantes, a data da morte não se enquadrava no período abrangido. O Estado negou o apoio à família. Desde o início, a Câmara de Oleiros reclamou, sem sucesso, junto do Ministério da Justiça e do Ministério da Administração Interna que a família do funcionário fosse incluída.  Após vários pedidos de apoio sem resposta, a família avançou em 2019 com um processo contra o Estado português e a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. O processo chegou agora ao fim com um acordo que fixa em 150 mil euros o valor de indemnização que o Estado vai pagar à família.

Como é evidente, António Costa, o chefe do Governo que não quis fazer justiça a Avelino Ferreira e à sua família, não deve saber nada disto, nem tão pouco terá tempo e paciência para ler as pequenas notícias do país que representa na presidência do Conselho Europeu. Nem lhe interessa saber que a actual ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, do governo de Luís Montenegro, fez um daqueles milagres que é muito raro acontecerem na vida política.

Esta é também daquelas notícias que não abre noticiários, não faz manchetes e não serve os interesses dos comentaristas. Mas é disto que se alimenta o Sistema. Portugal é um país de injustiças, que se alimenta de um monstro que é a burocracia, de um pequeno grupo de interesses instalados que corta a direito quando sente que o adversário é poderoso, mas é carniceiro quando briga com o cidadão tinhoso.

O Reconquista, que é o jornal local e regional, acompanhou o assunto desde o dia da tragédia, mas agora publicou a notícia da indemnização com uma chamadinha de primeira página. Avelino Ferreira e a família mereciam manchete e fotografia. Os jornais locais e regionais são os únicos que podem defender o país real e mudar os hábitos e costumes de quanto mais longe da vista mais longe do coração. JAE.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Um homem encostado à parede

Um país onde a educação não é prioridade não tem futuro. Um país onde os professores têm que viver em quartos alugados a centenas de quilómetros da sua casa de família é um país adiado.

O ano novo mal começou e já sabemos que vai passar a correr e daqui a pouco tempo já estamos um ano mais velhos. Entretanto somam-se os projectos novos aos projectos velhos, as ninharias do dia-a-dia aos grandes sonhos por cumprir, e não passamos da cepa torta quando falta a saúde, quando queremos livrar-nos do trabalho e ele nos persegue, quando os nossos familiares nos perguntam porque não tiramos os olhos dos livros, porque precisamos de ver tantos filmes, porque temos que ficar a escrever até tão tarde, porque não deixamos de fumar mesmo que seja só o cigarro nocturno, quando é que vamos outra vez para o caminho, entre tantas outras perguntas a que muitas vezes já respondemos sem entusiasmo, ou seja, sem o vigor que merecem todas as explicações das nossas grandes decisões e convicções.

Este parágrafo parece que foi para encher chouriços mas há uma razão para não ir directo ao assunto; uma professora com 30 anos de aulas disse-me que já desistiu dos seus alunos, o trabalho de professor não compensa, tem uma vida profissional sem vínculo desde que se conhece, todos os anos fica à espera de poder concorrer para uma escola perto de casa, e paga a ousadia com a angústia de um dia destes ficar sem trabalho e ter que viver só das explicações que dá em casa. O problema de me sentir encostado à parede, que está espelhado no primeiro parágrafo do texto, não é sequer comparado à situação desta professora, que se sente derrotada e afirma que já desistiu dos seus alunos, que o mesmo é dizer já trabalha por obrigação e faz os mínimos dos mínimos que é o que o Estado também faz por ela.

Um país onde a educação não é prioridade não tem futuro. Um país onde os professores têm que viver em quartos alugados a centenas de quilómetros da sua casa de família é um país adiado. A cada dia que passa tenho menos esperança nos políticos que nos governam, embora de vez em quando parece que se acende uma luz ao fundo do túnel, porque há sempre alguém que faz a diferença, que nos dá provas de que vale a pena lutar e não desistirmos dos nossos ideais, como aliás aconteceu na passada semana com um ministro do governo de Luís Montenegro, que nos deu uma prova de que "as portas que Abril abriu" ninguém as consegue fechar. 

Deixo esta história roubada das redes sociais como exemplo daquilo que os políticos deviam saber mais que os jornalistas e os cidadãos que exercem a sua cidadania.


Num tribunal

O juiz encarou o homem que acabara de disparar contra o presidente egípcio Anwar Sadat e perguntou, em tom sereno:

Por que você o matou? — Porque ele era seglar. O silêncio que se instalou foi mais pesado que qualquer sentença. O que significa “seglar”? — insistiu o juiz. O homem hesitou, engoliu em seco.— Não sei.

Num outro tribunal, outro réu. Desta vez, acusado de tentar assassinar o escritor Naguib Mahfouz. Por que o esfaqueou? — Porque ele escreveu um romance contra a religião. Você leu o livro? — Não.

Numa terceira sala, mais um julgamento. O acusado tinha matado o intelectual Farag Fouda.

Por que você o matou? — Porque ele não tinha fé. Como você sabe? — Está nos livros dele. Em qual livro? Silêncio absoluto.— Eu não sei. Nunca li. Porque nunca leu? O homem baixou a cabeça, como quem admite aquilo que todos já compreendem. — Não sei ler nem escrever.

Três julgamentos. Três mortes o mesmo padrão.

Matava-se por ideias que não se entendiam. Condenava-se por palavras que jamais foram lidas. Odiavam-se conceitos que nem sequer se sabem definir. Não era convicção. Era repetição. Não era fé. Era eco. Não era certeza. Era obediência cega. A violência não nasceu do pensamento. Nasceu da ausência dele. O ódio não se espalha pelo conhecimento. Floresce onde o conhecimento não chega. E toda a vez que uma sociedade abdica de educar, não produz apenas ignorância. Produz armas humanas: pessoas que não sabem por que atacam, mas estão dispostas a fazê-lo. Esse é o custo invisível da ignorância. E, quase sempre, quem paga por ele é alguém que nada fez para merecer. JAE.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Boas Festas para os CTT - Correios de Portugal

Os CTT - Correios de Portugal prestam um serviço importante na sociedade portuguesa. Embora sejam hoje uma empresa privada, cumprem um serviço público que os obriga a qualidade de serviço e bom atendimento, assim como ao cumprimento de prazos de entregas. 

O autor destas linhas recebeu no dia 30 de Dezembro na sua caixa do correio de uma casa em Lisboa um aviso para levantar uma encomenda na estação dos CTT na rua Pascoal de Melo. No dia 2 de Janeiro, ao balcão da referida estação, fui informado que só podia levantar a encomenda às 11 horas desse dia. Espantado pela informação perguntei à funcionária se agora havia horas para levantar encomendas. Neste meio tempo mandou-me ler o postal e as indicações. De facto estava escrito à mão que a encomenda só podia ser levantada 24 horas depois de recebimento do aviso e a partir das 11 horas. Tinham passado 48 horas, mas pelo meio houve um feriado. Estupefacto olhei para o relógio e eram 10h49. Depois de ter dado dois passos atrás, voltei a aproximar-me e perguntei à funcionária se os 11 minutos que faltavam para as 11 horas eram impeditivos de me entregar a encomenda. Respondeu que tinha que esperar pela hora. Como tinha o carro mal-estacionado, uma vez que a Rua Pascoal de Melo não é a rua 25 de Abril em Benavente, não tive outro remédio que aceitar as regras.

Este caso não envolve nenhuma instituição do Estado nem os mangas de alpaca daqueles que trabalham no Ministério da Agricultura e que não têm “ponta de corno” para fazer, a não ser tratarem da sua vidinha nas empresas que gerem em nome das esposas e dos filhos; também não é um caso de urgência de hospital onde se morre nas macas, ou de um tribunal administrativo onde o Estado se defende com unhas e dentes atrás de uma lei que permite que uma contenda possa demorar 20 anos; também não é sobre a companhia de Seguros Vitória, que já me tratou abaixo de cão; Não, não é um pontapé no cu que me estão a dar há muito mais de um ano nos serviços do IMT por falta de pessoal, segundo informam. Resumindo: são os CTT, a empresa com quem mais trabalhamos no nosso dia-a-dia, a empresa parceira da empresa onde trabalho e sou administrador, que me manda um carteiro a casa para deixar um aviso para levantar uma encomenda e que depois me impõe dias e horários que tenho que cumprir ao segundo. Tenho nos CTT os maiores exemplos da minha luta como gestor ao longo destes últimos 40 anos. A minha medalha de mérito empresarial (de lata, apesar de tudo) foi-me dada numa reunião em que consegui juntar a uma mesa de trabalho uma dúzia de quadros importantes da empresa numa altura em que O MIRANTE era um cliente semanal de 30 mil pacotes postais, porventura o maior cliente português. Conheço, e admiro como pessoa, um dos actuais administradores dos CTT, mas não posso ligar-lhe ou escrever-lhe a contar este caso porque só de pensar nisso sinto-me ridículo. Certamente que a minha indignação vai sair por um qualquer fumeiro e perder-se no nevoeiro. Mas ninguém pode acusar-me de começar o ano com paninhos quentes mesmo tratando de assuntos que fazem doer e que mexem com a nossa vida cheia de compromissos, muitas vezes na defesa da causa comum.

O ano de 2026 começou com a notícia de que a Dinamarca é o primeiro país do mundo a encerrar o serviço tradicional de entrega de cartas, devido à digitalização e queda drástica no uso de correspondência física, com o serviço estatal PostNord focado agora exclusivamente em encomendas e e-commerce, enquanto o correio físico dependerá de empresas especializadas. Em Portugal parece que ainda estamos longe desta realidade, mas lá chegaremos. Entretanto dou nota da chegada ao jornal, por correio normal, de uma carta de uma assinante com o nome de Sandra, a desejar Boas Festas, e com a mesma letra a escrever a frase: "o vosso trabalho alegra a minha vida". Um cartão simples, com uma frase curta escrita à mão, quando hoje a maioria de nós envia mensagens de Boas Festas numa simples imagem pelo computador, ou telemóvel, muitas vezes com a ajuda da IA, julgando que estamos a fazer uma grande figura.

Longa vida aos CTT - Correios de Portugal e, já agora, aos seus funcionários que ainda percebem que prestam um serviço a clientes que muitas vezes têm que faltar ao trabalho para ir aos balcões da empresa, quando não é o caso de terem que alugar um táxi, de terem que pagar quem os substitua em certos compromissos, entre outros casos. JAE.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

100 anos de solidão e outros tantos de boas leituras

Joaquim Veríssimo Serrão, Luís Pacheco e Rubem Fonseca são grandes personagens da cultura em língua portuguesa que em 2025 foram homenageados com a comemoração dos centenários de nascimento. Haverá outros, mas estes fazem parte da minha história de vida; por isso os recordo e deixo o convite para descobrirem as Obras.

2025 foi o ano do centenário de nascimento de Joaquim Veríssimo Serrão que escreveu um livro que devia ser matéria de estudo nas universidades, principalmente nos politécnicos da região, acima de tudo naquele que ajudou a fundar em Santarém. Não é a História de Portugal em vários volumes, é um livro que nos situa no tempo do 25 de Abril de 1974, que é uma lição sobre o que é a censura em tempo de liberdade, até onde é que um homem é capaz de dar o peito às balas mesmo sabendo que pode morrer dos ferimentos, a lição de vida de um homem que teve a coragem de escrever aquilo que também teve coragem para viver. O centenário do nascimento de Joaquim Veríssimo Serrão podia ter sido uma boa oportunidade para falarmos de políticas culturais, mas também de ética, de civismo, e desta desgraça que vivemos actualmente que é termos uma direita pífia a ocupar um terço das cadeiras da casa da democracia. Veríssimo Serrão era um Historiador, mas quis o destino que deixasse escrito um dos mais significativos testemunhos de quem esteve de um lado ainda não suficientemente estudado dos tempos da Revolução dos Cravos. Santarém falhou esta missão, mas outras oportunidades surgirão a seu tempo já que ninguém apaga a História que está em letra de forma. E Santarém um dia vai ter a importância que lhe atribuiu José Saramago em alguns dos seus livros, ou Almeida Garrett quando apelidou Santarém como “um livro de pedra”, ou Joaquim Veríssimo Serrão que deixou vasta bibliografia e testemunho sobre o amor à sua terra natal.


Não sou grande admirador da Obra de Luís Pacheco, embora lhe reconheça interesse. O denominado escritor maldito, comparado a Henry Miller ou Charles Bukowski, não me convence. O facto de ter rejeitado as normas literárias e sociais, vivendo muitas vezes na pobreza extrema, escrevendo uma prosa libertina, não fizeram dele um grande escritor, nem pouco mais ou menos. E depois de ouvir contar da boca de um familiar como era Luís Pacheco na intimidade, ainda fiquei a gostar menos. Mesmo assim deixou marcas na literatura e é adorado por muito boa gente. O MIRANTE fez-lhe duas entrevistas que republicamos neste ano de centenário de nascimento, o que demonstra que estivemos atentos apesar das diferenças de opinião. Reli recentemente “O Libertino Passeia por Braga”, é um dos seus livros mais famosos; para mim não passa de um livrinho, um livrinho que nasceu da necessidade de escrever sobre uma vidinha de m*rda que prova que nem tudo o que é libertino em livro é boa literatura. Tive ainda a sorte de ser amigo de um seu camarada de percurso literário, e de vida, o que fez aumentar a minha curiosidade biográfica e diminuir a admiração intelectual. Mas fica aqui o registo do seu centenário de nascimento, por ser uma figura incontornável  do meio literário, atestado por duas biografias recentes, que são dois verdadeiros calhamaços, assinados por dois prestigiados biógrafos, um poeta e um critico literário.


2025 também foi o ano do centenário de nascimento de Rubem Fonseca, um escritor brasileiro, filho de portugueses transmontanos, emigrados para o Brasil. Descobri os seus livros há muitos anos e guardo recordações de muitos dos seus personagens que ainda hoje me perseguem quando vivencio, ou sou simples testemunha, de realidades kafkianas. Ainda o conheci no Rio de Janeiro, mas não cheguei à conversa com ele devido ao número de pessoas que o rodeavam e esperavam pela oportunidade de um autógrafo e de uma foto. São de sua autoria alguns livros que levava para o deserto se tivesse que viver como um exilado. Os seus livros retratam, num estilo seco e directo, a luxúria e a violência urbana, num mundo onde marginais, assassinos, prostitutas, miseráveis e delegados de polícia se misturam. A história através da ficção é também uma marca de Rubem Fonseca. Para protagonizar alguns de seus contos e romances criou um personagem antológico: o advogado Mandrake, mulherengo, cínico e imoral, além de profundo conhecedor do submundo carioca. Em 2003 ganhou o Prémio Camões. Como não era homem de vaidades não compareceu à entrega do Prémio na Biblioteca do Rio de Janeiro, mas veio a Portugal meses depois para receber a medalha de mérito municipal da cidade de Lisboa, e aproveitou para conhecer a terra dos seus pais. Ana Miranda escreveu um dos seus grandes romances inspirada na leitura de um poema de Rubem Fonseca sobre a vida amorosa do poeta Gonçalves Dias, e confessou em entrevista que “Rubem Fonseca acompanhou de certa maneira a feitura do livro “Boca do Inferno”, editado em 1989, o livro que lhe deu fama, “dando apoio, dizendo sempre, “É assim mesmo! Trabalho, trabalho e trabalho!”. Talvez graças a ele eu nunca tenha desistido do livro, porque foi um processo longo, foram dez anos de tentativas e encontros e desencontros, e desesperos e angústias. Ele mesmo dizia, “O primeiro livro é escrito com sangue”. JAE.