quinta-feira, 14 de maio de 2026

João Joaquim Isidro dos Reis: um breve retrato do bisneto do benemérito que deu nome e ajudou a construir a Ponte da Chamusca

“Sinto os ombros pesados, Joaquim António”, confessa com familiaridade João Joaquim Isidro dos Reis, tratando o jornalista como sempre tratou desde que nos conhecemos; “Detesto quando não estou à altura das coisas”. Uma entrevista publicada no interior desta edição, com um ribatejano que tem uma ganadaria, faz a gestão de uma quinta centenária que já conheceu melhores dias, e que não esconde o orgulho de ter dois filhos que estão prontos a fazer melhor do que ele fez da herança que lhe coube em sorte. Depois do que sobrou da entrevista, não tinha melhor escolha para o tema desta crónica que coincide com a semana da Ascensão, que marca a vida comunitária de meio Ribatejo.

João Joaquim Isidro dos Reis é o patriarca de quinta geração de uma família que faz parte importante da História da Chamusca. Faz 69 anos nos próximos dias de Junho, tem dois filhos de quem se orgulha, e uma história de vida muito diferente do seu bisavô, de quem herdou o nome, que é o grande responsável pela construção da centenária Ponte da Chamusca. O MIRANTE marcou encontro na sua quinta no Pinheiro Grande, que perdeu a beleza de outros tempos, mas mantém o essencial, ou seja, a casa de família, os cerca de trezentos hectares onde se criam touros bravos, e um espírito que é próprio dos lugares que muitas vezes só sabemos que existem pelos livros. E nada mais fácil de provar o que se escreve se tivéssemos espaço, ou a finalidade deste texto fosse fazer a heráldica da família: nas paredes da casa estão todos os retratos de todos os homens e mulheres que atravessaram os últimos séculos, assim como outros retratos, ou réplicas, que contam em imagens o que terá sido a vida antes da fundação da República, já que o pretexto para esta conversa é a Ponte da Chamusca, inaugurada um ano antes da queda da Monarquia. Talvez por isso nunca foi inaugurada oficialmente, já que o rei D. Manuel II, “O Desventurado”, foi o último e provavelmente o rei mais infeliz da monarquia portuguesa.

João Joaquim Isidro dos Reis fala do seu passado com orgulho mas sem soberba ou tiques de marialvismo. João não se lembra do pai em casa, e a sua mãe, Maria Aurora Isidro dos Reis, viveu 91 anos. Faleceu em 2011 e era uma senhora acarinhada pela população da Chamusca como muitas poucas figuras da burguesia terão sido ao longo de todos os séculos, até aos nossos dias. Mesmo com a ajuda do marido, de quem se separou quando o João tinha quatro anos, governou a sua casa agrícola. Grande parte da conversa com João Joaquim Isidro dos Reis foi sobre a vida de trabalho e o peso da herança de uma família que era das mais respeitadas devido aos créditos deixados pelo bisavô, de quem João herdou o nome.

A certa altura da conversa João Joaquim Isidro dos Reis pede-me que resuma a conversa ao feito do seu bisavô, diz que tem pena de não ter tanto êxito na vida como tiveram os seus descendentes, mas antes disso já tínhamos conversado sobre alguns episódios que aconteceram depois da revolução do 25 de Abril, que não deixaram boas recordações. O maior exemplo, e que merece maior destaque, são as tragédias dos fogos. Antes a família tirava cerca de 19 mil arrobas de cortiça da propriedade, hoje tira cerca de 3 mil. Mesmo assim é uma receita importante. Imagine-se o que seria se os fogos, a grande parte de origem criminosa, não estivessem a destruir o país, como todos sabemos e reconhecemos embora ninguém ligue à desgraça. “Sinto os ombros pesados, Joaquim António”, confessa com familiaridade tratando o jornalista como sempre tratou desde que nos conhecemos, “detesto quando não estou à altura das coisas”.  

A Chamusca foi outro dos temas mais falados. João diz que ama a Chamusca, que gostava de ter feito mais pela terra, que tem pena que a Chamusca tenha regredido tanto, que, como comunidade, a terra está muito mais pobre. Mas a conversa não foi nunca lastimosa: “O que nos une a todos da minha família, e são muitos, é o amor pela Chamusca. Eu posso dizer que sou um Chamusquenho, tenho o coração mais na charneca que no campo”.

Um dos maiores orgulhos do bisneto de João Joaquim Isidro dos Reis, que herdou o seu nome, é a ganadaria que refundou e registou em 2011, mais por amor à terra que por bairrismo, confessa, deixando para trás questões de invejas e incómodos que sempre existiram e vão existir enquanto houver pessoas tristes e malformadas.

Importante nesta conversa: João Joaquim Isidro dos Reis não falou de um único nome de quem tivesse que dizer mal ou sequer criticar. Agora que revejo as notas, e que releio a desgravação da conversa, confirmo e não deixo de registar: João Joaquim Isidro dos Reis é mesmo um ser humano incomum, apesar da vida nem sempre lhe ter corrido bem, de a desgraça dos fogos lhe ter roubado uma boa parte da herança, de algumas maldades que lhe fizeram, este bisneto do fundador da velha Ponte da Chamusca afirma com convicção que já lhe faltou menos tempo para acabar com as despesas dos juros nos bancos, e tirar do prego algumas das jóias de família que servem para equilibrar as contas e sonhar com uma vida mais desafogada financeiramente. JAE.

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