quinta-feira, 30 de abril de 2026

António José Ganhão: “Não há machado que corte a raiz ao pensamento”

Uma crónica sobre os 52 anos de Abril, à boleia da homenagem a António José Ganhão, um autarca que fez história tal como os melhores autarcas comunistas que, entretanto, quase desapareceram da vida política local.

As comemorações do 25 de Abril na região não tiveram discursos à altura de se escreverem manchetes, e isso é apenas a normalidade a funcionar. A nível nacional é notícia o descontentamento de Vasco Lourenço por o actual governo ter abandonado o projecto de cedência de instalações no Terreiro do Paço, em Lisboa, para um museu sobre o 25 de Abril e, como é habitual, quem escreveu sobre o assunto nem sequer dedicou uma linha ao também adiado museu de Abril, em Santarém, que sofre as mesmas vicissitudes do de Lisboa.

Uma boa maioria dos actuais decisores da nossa economia e da política não têm ideia do que se viveu nesses dias conturbados da revolução, e muito menos do que se passou no coração daqueles que, mesmo pouco politizados, sentiam na pele e na alma a pobreza desses tempos. Daí que as comemorações vivam de discursos e não de iniciativas, de palavras e não de acções. Era bom que trocássemos umas ideias sobre este assunto para não cairmos nas conversas fascistas dos partidos de direita que gozam com as festividades de Abril, como gozam com os herdeiros do poder democrático que são apanhados a receber dinheiro em envelopes ou, como foi o caso recente do chefe de gabinete de António Costa, apanhado com dinheiro vivo aos milhares escondido em envelopes no gabinete de trabalho. O anúncio do IKEA sobre este episódio grotesco teve como consequência a ida de um ex-primeiro-ministro para um dos cargos mais importantes da União Europeia. Não admira que tenha deixado o país na miséria ao nível das reformas da saúde, do ensino, das polícias, da Justiça, em suma, das principais áreas em que o país precisa de reformas, como precisa de um bom ambiente para não morrermos a respirar dióxido de carbono.

O acto que mais deu nas vistas nos festejos dos 52 anos da Revolução foi a homenagem, em Benavente, a António José Ganhão, proposta pela actual liderança da câmara, que meio século depois do 25 de Abril passou do PCP para o PSD. Não é de somenos importância realçar esta decisão política do eleitorado do concelho de Benavente, que nas últimas eleições se distribuiu de tal maneira pelos cinco partidos concorrentes que o PSD conseguiu a presidência da câmara, elegendo apenas dois vereadores. A iniciativa da actual presidente em homenagear o autarca vivo que teve mais influência no poder local também me parece boa ideia. António José Ganhão foi um verdadeiro comunista no poder, nunca deu nas vistas a não ser quando o obrigaram, por assuntos de tribunal. Tinha uma postura institucional que, espremida, não dava sumo, mas aparentemente também tinha tudo controlado na sua cabeça: servir as populações ao nível dos bens essenciais como água, esgotos, habitação e, como não podia deixar de ser, tinha a sua política para a recolha do lixo, o apoio às associações e uma cassete que usava para falar ao estilo do PCP.

Apesar de trabalhar muitos anos no concelho, nunca falei ao telemóvel com António José Ganhão, e a única vez que lhe liguei foi o motorista que atendeu e disse-me que o senhor presidente não podia atender. Mas Ganhão tem uma história com O MIRANTE que não deixo passar sem deixar testemunho. Em muitas décadas de trabalho foi o único político que “vetou” a contratação de um jornalista para a redacção. Como foi num tempo em que não dormia, só trabalhava, tive tempo para juntar os três (o jornalista tinha sido seu delfim, mas entretanto, tinha-o apunhalado pelas costas) e consegui proporcionar, numa conversa de cerca de uma hora, a cerimónia do cachimbo da paz. E o jornalista lá ganhou o emprego. Foi a única vez que me sentei com Ganhão a uma mesa e a única vez que percebi que dirigir um jornal também é meter a cabeça num cepo quando é preciso. Esse jornalista mais tarde fez-me a mim e a quem trabalhava comigo o mesmo que tinha feito anteriormente a Ganhão, só que de maneira mais refinada e cobarde.

Sérgio Carrinho, António Mendes e António José Ganhão foram os autarcas comunistas mais influentes que fizeram a história do PCP no Ribatejo. Ganhão era o mais silencioso deles todos e o menos afectuoso. Teve a sorte de trabalhar num concelho perto da Área Metropolitana de Lisboa, o que até lhe proporcionou autorizar condomínios de luxo no seu concelho, o que pode parecer um paradoxo, mas não é; na vida política, tal como na vida de qualquer cidadão, “do porco se faz presunto”.

Não pretendo com este texto dizer mais do que já escrevi, mas falta o essencial: Ganhão foi um autarca sério, tal como Carrinho e Mendes; era, e ainda é, uma boa pessoa, embora tivesse aquele ar autoritário que muitas vezes esconde mais as fraquezas que as forças. Não dava muitas confianças, como era norma nos dirigentes comunistas de verdade, que, entretanto, também por isso desapareceram do mapa. Pessoalmente tenho pena de não o ter conhecido e convivido com ele como com outros autarcas e deputados do seu tempo. Mas não deixo de me associar à sua homenagem, sem esquecer que ele teve um substituto à altura chamado Carlos Coutinho, um político que acabou por pagar caro os ódios de estimação que sobraram de António José Ganhão (e não foram poucos), os problemas mal resolvidos da sua gestão, que foi silenciosa, mas teve muitos grãos na engrenagem. Dificilmente escreveria sobre o trabalho autárquico de Ganhão e a homenagem merecida que recebeu sem falar do seu braço direito durante 15 anos, que depois ainda teve tempo para fazer três mandatos, ganhando eleições, tentando continuar o trabalho que, na sombra, já fazia como vice de Ganhão. JAE

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O jornalismo como tema para manter a chama

Nas últimas semanas falhei as minhas crónicas neste espaço e não morreu ninguém. O MIRANTE sempre foi e será um jornal de notícias, reportagens e entrevistas e nunca de opinião.

O MIRANTE recebe diariamente proposta de trabalho editorial que ultrapassa a nossa área de influência que são os 25 concelhos do Ribatejo, onde incluímos Arruda dos Vinhos e Alenquer, por terem uma grande proximidade com Vila Franca de Xira, concelho onde O MIRANTE é o jornal da terra, por sinal a de maior área, mais população e de onde recebemos mais mensagens sobre a importância do nosso trabalho.

Tomo nota deste assunto no final de uma manhã na sala de entrada de um hotel já depois de fazer o check-out. Oficialmente estou reformado. Até há pouco tempo fingi que não percebia a minha nova condição de vida, mas a realidade, comigo, ultrapassou a ficção em que muitos de nós pairamos, julgando podermos viver eternamente como no cinema ou nas séries de televisão. Mas, tal como no ditado popular que diz que o trabalho do menino é pouco, mas quem não o aproveita é louco, também devia haver um ditado para sinalizar que o trabalho do velho é chato, mas quem não o aproveita é parvo.

Vem o assunto a propósito do encaminhamento de um assunto que chegou pelo correio para as chefias da redacção: para além do tema que sugere uma boa reportagem, há matéria na mensagem que me sugeriu mais outra, que adveio do facto de conhecer as pessoas envolvidas e o seu passado que foi, e ainda é no presente, paralelo ao meu.

Nas últimas semanas falhei as minhas crónicas neste espaço e não morreu ninguém. O MIRANTE sempre foi e será um jornal de notícias, reportagens e entrevistas e nunca de opinião. Não fechamos as páginas a alguns colaboradores e graças à edição online ainda podemos abrir mais o leque, mas são as notícias e as reportagens e as entrevistas que pagam a estrutura que montamos que, a nível local e regional, não tem paralelo em mais nenhuma empresa de comunicação social. Mesmo a nível nacional temos mais tiragem, mais leitores e mais facturação que alguns jornais nacionais; e só trabalhamos em 25 concelhos; e não pertencemos a nenhum grupo económico, vivemos do trabalho de uma pequena equipa de cerca de três dezenas de pessoas que não deixa de se agigantar quando toca a correr atrás do prejuízo, o que raramente acontece já que na grande maioria das vezes temos o trabalho em dia.

Esta crónica é quase um anúncio de despedida embalado por 31 dias de ausência por andar a testar a minha capacidade de mudar de vida. Fiz uma longa viagem e regressei mais cansado do que quando parti. A lição a tirar é fácil: o cansaço depende da forma como gerimos as nossas energias. Se não aproveitamos bem o tempo de que dispomos, quando chega o final do dia em vez de somarmos mais um tempo de vida, diminuímos o tempo à vida que ainda nos resta. Este texto não é uma despedida, mas é o anúncio de uma decisão: vou viver mais tempo a minha vida que a vida deste jornal. Não tenho qualquer dúvida que tudo o que eu fazia já está bem entregue há muito tempo, e, conhecendo-me, sei que vou andar por aí, como se diz no meio político.

Há dias o Expresso noticiava em manchete que o Governo andava a boicotar o museu 25 de Abril, ou seja, a criação de um centro interpretativo que já tinha espaço reservado no Terreiro do Paço. O texto é fraco e a manchete é exagerada. Há duas décadas, quando Francisco Pinto Balsemão dava conversa entre reuniões de trabalho ou congressos da nossa associação, falava com ele sobre a tendência dos jornais em abusarem das manchetes sobre política que apenas servem para mexer com os governantes ou, noutros casos, com os políticos da oposição. Todos os jornalistas sabem que os assuntos de sociedade é que vendem jornais, não são os políticos, nem os interesses dos políticos, ainda que os assuntos sejam pertinentes. Francisco Pinto Balsemão concordava e lá me dizia como tentava resolver o problema, uma vez que nessa altura já não ajudava a fechar a edição. Este exemplo serve para avisar que a minha ligação a este jornal e à organização da empresa pode ser tão intermitente como as vitórias do Sporting, mas todas as semanas estarei no sítio certo e à hora certa para ajudar a fazer as três capas que reflectem o orgulho do nosso trabalho semanal. No dia em que os leitores começarem a ver muitas manchetes sobre a vida política, já sabem: desapareci em combate. JAE.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Universidade do Ribatejo e o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa

Interessa-me muito mais o anúncio da criação da Universidade do Ribatejo que o debate sobre o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa. Mas não escondo a surpresa de perceber que toda a gente se calou sobre um assunto que nos pode arruinar para mais meio século de vida colectiva. 

A escolha da localização para o futuro Aeroporto Internacional de Lisboa continua a conquistar espaço na imprensa embora com uma regularidade muito abaixo do que se esperava.  O último texto de Luís Janeiro, no jornal Observador, é só mais um motivado pela militância de técnicos e cidadãos empenhados numa solução razoável, do que na concretização da escolha do Campo de Tiro para um projecto megalómano, difícil de concretizar, embora não impossível, porque os dinheiros públicos para obras faraónicas não conhecem limites embora vivamos actualmente no início de uma terceira guerra mundial, com os governantes dos países mais poderosos como EUA e Rússia liderados por homens de outra estratosfera.

No último mês viajei por várias cidades e frequentei muitos aeroportos. Mais do que espaços onde circulam aviões de passageiros, os aeroportos são as novas cidades do futuro, onde se pode dormir, trabalhar, fazer compras de luxo, combinar encontros ao mais alto nível, seja entre chefes de Estado ou chefes do crime organizado, realidade cada vez mais presente nas nossas democracias. O turismo está a atingir os máximos nas principais cidades do mundo, incluindo Lisboa, embora o número de hotéis em construção pareça indicar que a terra de Santo António ainda tem mais uma dúzia de ruas Augusta para encher de restaurantes e esplanadas, lojas de pastéis de nata, de bacalhau e de lembranças que chegam da China a preços para todos os bolsos.

 Escrevo sobre o assunto porque acho inacreditável que o debate sobre o futuro aeroporto esteja resumido à intervenção de duas ou três personalidades da nossa vida pública, mesmo assim com espaço de opinião procurado por eles e não por iniciativa de quem tinha obrigação de manter o debate vivo e aceso, porque é claro que se o aeroporto for mesmo para Benavente, a coisa vai demorar, vamos continuar a aumentar o atraso civilizacional em comparação com os outros países da Europa, e quando chegar a hora H ainda corremos o risco de preferir aterrar em Madrid e regressar a casa apanhando o comboio de alta velocidade. Resumindo: eu pagava do meu bolso para ler o que é que o antigo ministro dos aeroportos, o antigo (e futuro?) líder do PS, Pedro Nuno Santos, tem para nos confessar das suas actuais conversas com as bruxas de serviço ao seu partido. 

O anúncio da criação da Universidade do Ribatejo interessa-me mais, pessoalmente, que o destino que estão a traçar para o futuro aeroporto de Lisboa. Sou testemunha privilegiada dos desabafos do historiador e homem de cultura, Joaquim Veríssimo Serrão, cujas palavras e desafios nunca foram ouvidos pela classe política. Nos últimos anos tive a ousadia de desafiar pessoalmente alguns dirigentes a darem esse passo em frente, mas nunca falei com pessoas destemidas e corajosas. Não vou citar nomes, mas um deles deu-me uma resposta que não vou esconder: “estou velho para lutas dessas, estou quase no tempo de ter paz e sossego”.

A chegada de João Leite ao poder pode não agradar a muita gente, o que é normal, mas ele veio desassossegar o meio escalabitano. Não é pelo simbolismo das medalhas de ouro da cidade que está a entregar a grandes figuras e a pequenas figurinhas, é pela dinâmica que tem imprimido no concelho, pela coragem com que assume desafios como a ligação da cidade ao rio Tejo, que Moita Flores falhou redondamente e era um dos seus primeiros objectivos; pela forma como encostou os socialistas às cordas e silenciou mais uma vez essas almas penadas que já mandaram no burgo e deixaram tudo pior do que no tempo em que D. Afonso Henriques conquistou as muralhas aos mouros. Se João Leite tiver sorte e não descurar o trabalho de equipa, não fizer cedências aos Barreiros desta vida que dão com uma mão e recebem com a outra, Santarém poderá estar irreconhecível no final dos seus dois mandatos, sim, escrevo dois porque como a cidade e o concelho estão, oito anos é tempo suficiente para virar isto tudo do avesso. JAE.