quinta-feira, 7 de maio de 2026

Quem não viaja não tem ilusões

“O mundo não seria o mesmo sem o desejo de viajar”. Há menos de duas horas viajava na cadeira onde me sento quase todos os dias da semana, solitário, em frente ao computador, mas no meio de uma sala com muita gente onde a palavra é prata e o silêncio é ouro. Hoje viajei sentado, mas ainda sinto no corpo e no espírito o reencontro com Ítaca que me ficou da última viagem em que cruzei oceanos e mergulhei nas suas águas.

“O mundo não seria o mesmo sem o desejo de viajar”. Roubo esta frase de um livro que tenho sempre à mão que se intitula “Teoria da Viagem” e que me serve hoje de apoio para me entusiasmar a escrever mais uma crónica. Há menos de duas horas viajava na cadeira onde me sento quase todos os dias da semana, solitário, em frente ao computador, mas no meio de uma sala com muita gente onde a palavra é prata e o silêncio é ouro.

Hoje viajei sentado, mas ainda sinto no corpo e no espírito o reencontro com Ítaca que me ficou da última viagem em que cruzei oceanos e mergulhei nas suas águas.

Lembro-me de me preparar para a partida como o viajante que faz o exercício de se tornar nómada para cultivar a errância e a vadiagem. Não era a primeira vez que me preparava com o mesmo espírito, e certamente não será a última. Regresso sempre com a certeza que até os verdadeiros nómadas recorrem a uma espécie de sedentarismo, aprendendo a orientar-se pelas estrelas, linhas e trilhos traçados pelos animais, regressando muitas vezes a lugares que encontram pelo caminho para praticarem os seus hábitos e rituais na arte de ocupar territórios.

Desta vez cheguei doente, os dois últimos dias de viagem foram penosos, por isso experimentei, como nunca, a satisfação de regressar à toca, à segurança de um tecto, um domicílio, depositando armas e bagagens onde sei que não correm perigo; aqui voltei a ter a minha biblioteca, os meus papéis de arquivo, o lar com o fogo aceso onde me defendo do planeta em guerra, e me permitiu reencontrar o estado de espírito das pessoas que dantes voltavam às cavernas depois de se terem aventurado no meio de uma natureza imprevisível que, em muitos casos, representa vários perigos.

A leitura de Michel Onfray consola-me nos primeiros dias em que me interrogo sobre as melhores e piores recordações da viagem, os encontros amargos e doces, a tensão sensual da viagem, mas também a hora do vómito, acima de tudo a urgência que sempre sentimos em responder a todas as questões que se instalaram no corpo e na alma. Escreve o autor que todos os grandes viajantes regressam ao porto, ao ancoradouro, depois das aventuras, e dá o exemplo dos vikings e de viajantes famosos e impenitentes como Bruce Chatwin, entre muitos outros. Voltar é decidir não permanecer, quando chegamos, as nossas raízes voltam a ter significado, nesses dias a seguir à chegada encontramos o equilíbrio da árvore, que no meu caso é o sobreiro.

Dos livros que levei para a viagem não abri nenhum. Li outros que comprei pelo caminho. E o computador é um milagre para quem gosta de trocar a orientação que se procura nas estrelas pelas mil diferentes alternativas que o computador nos oferece. Mas memorizei o que tinha lido nas vésperas da viagem num livro de João Bigotte Chorão, que na sua “Galeria de Retratos” tem um texto sobre Camões escrito como hoje já não se escreve em português nem sobre os heróis portugueses. E outro sobre o Padre António Vieira, que é um desafio para os grandes escritores, como a brasileira Ana Miranda, a autora de “Boca do Inferno” e “Musa Praguejadora”, dois livros únicos na literatura em língua portuguesa, em falta em Portugal, porque os novos escritores preferem aprender a escrever com os autores ingleses e americanos; é mais fácil copiá-los e imitá-los até à náusea sem que a anemia literária seja tão evidente.

Recorde-se, para quem não quer ter o trabalho de consultar a IA, que o Padre António Vieira nos idos de mil seiscentos e troca o passo já viajava para o centro do mundo, em Roma, mas não conhecia menos o Sertão e os rios brasileiros, assim como o oceano Atlântico que tantas vezes atravessou com risco de assaltos, tempestades e naufrágios.

João Bigotte Chorão, num desses retratos, a que volto muitas vezes, desafia mesmo um escritor de génio a escrever sobre o Padre António Vieira, igualmente genial e a merecer que o ressuscitem como personagem de um romance simultaneamente realista e fantástico, enquadrado na sua época e projectado para o futuro, homem do seu tempo e de todas as idades. JAE  

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