quinta-feira, 30 de julho de 2026

Futebol, caciques, dança, mulheres livres e as saudades do Alexei Bueno

As mulheres dão dez a zero aos homens na disponibilidade e gosto para dançar; os jogos de futebol já não são pirateados; os partidos que eram a referência da democracia em Portugal estão nas lonas.


O tempo passa a correr mas deixa marcas e muitas vezes das boas. Um dia conheci o Alexei Bueno que me foi apresentado, de boca quase fechada, porque eu tinha que ter cuidado durante o serão literário para não me pôr a jeito de ser desconsiderado. Ao contrário, nessa noite nasceu uma amizade que durou um quarto de século e acabou no dia 26 de Junho, data em que Alexei morreu da doença da moda, logo ele que era sempre do contra, e modas nem as da roupa quanto mais as das ideias.

Com 63 anos de vida Alexei Bueno levou para o caixão o ensinamento de muitas bibliotecas, de muitos livros que escreveu, que prefaciou, que apresentou, que leu com a mesma paixão com que fumava charutos e bebia que nem um desalmado.

É dele, mas eu julgo que ele não inventou nada, a frase dita num início de um congresso onde tinha umas contas a ajustar com um dos congressistas. Vestido com roupa de índio, de rosto pintado para a guerra, com as lanças e as espadas a verem-se para lá das paredes do palácio do congresso, Alexei Bueno disse para um camarada de armas que se preparava para começar a debitar discurso: “Comece a falar, diga alguma coisa para eu ser contra”. Começo a ter saudades do Alexei.


Escrevo este texto num país vizinho de Portugal e acabo de saber que alguém que manda no Sistema acabou com as transmissões piratas de jogos de futebol. As que sobram são todas pagas e obrigam a demorados registos. A eficiência dos tribunais administrativos e fiscais em Portugal piorou, com destaque para o aumento do tempo médio de decisão, segundo dados da Comissão Europeia divulgados ainda neste mês de Julho de 2026. A justiça que faz funcionar o país e garante a democracia deste regime quase podre, vai piorando, piorando, mas os operadores privados de TV têm a polícia do seu lado a caçar os operadores piratas. Nada contra. Deixo aqui a nota porque acho que estamos cada vez mais nas mãos de grandes sacanas que sonharam ser ricos, e vão conseguir concretizar os seus sonhos, à custa de um país que os militares lhes ofereceram. E não estamos em África... é bom lembrar.


O Bloco de Esquerda acabou, como vai acabar o PCP e o CDS, e daqui a uns tempos o PS e o PSD. Se não acabarem tornam-se insignificantes como já acontece aos três primeiros desta lista: existem mas já não contam para o totobola. O que dói é perceber que nos dois partidos que dividem o poder em Portugal milita a fina flor do entulho, junto com algumas pessoas sérias que não vão para a política para se governarem, mas para prestarem serviço público, devolvendo ao país aquilo que o país já fez por eles e pelos seus amigos e familiares. E porque fecham os olhos aos camaradinhas que boicotam isto tudo e baixam a fasquia ao nível do seu analfabetismo, do clientelismo que, regra geral, começa nos pequenos empresários e vai até aos líderes das famílias mais ricas?

Não há explicação para que ainda haja tantos caciques ao serviço de esquemas que saltam à vista, que de vez em quando abrem noticiários de televisão, quando a própria comunicação social resolve fazer as suas excepções. Sim, a crise também já chegou à comunicação social. Somos tão poucos que quando os maiores se calam relativamente a um caso, o assunto pode desaparecer e tornar-se invisível. Há caciques que aprenderam a lidar com a comunicação social como aprenderam noutros tempos a lidar com a máquina do Estado, que é gigante e ninguém controla verdadeiramente, onde circula muito dinheiro e interesses inconfessáveis. 


Para corresponder ao tempo de Verão em que vivemos, vou tratar aqui um assunto “político” pouco comum: Os homens estão cada vez mais arredados da arte da dança. Embora seja moda abrir escolas de danças latinas, de tango e Lind Hope, as mulheres dão dez a zero aos homens. O problema é quando a dança é a par; as mulheres fazem fila entre pares para conseguirem dançar com os poucos homens que aparecem na escola ou nas oficinas que se vão realizando por aí e são os novos pontos de encontro onde se mistura a arte da dança com o convívio social. Nada que não tenha pergaminhos nas discotecas, que se enchem de gente ao fim-de-semana na grande Lisboa e no grande Porto, onde se concentra mais de metade da população portuguesa. O que me leva a escrever sobre o assunto é a emancipação do chamado sexo fraco. Hoje as mulheres estão mais livres para viajarem que os homens, divorciam-se com muito mais facilidade do que aturam duas brigas seguidas, depois saem de casa e vão dançar e fazer novos amigos. O chamado sexo forte já era: ainda é parte importante da relação, como será sempre, mas as mulheres ganharam estatuto e estão uns pontos à frente dos homens na dança, na liberdade de escolha em certas áreas da vida moderna que inclui a ida regular ao cinema e ao teatro. JAE.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

As câmaras municipais são as casas do povo

Os votos de pesar do executivo de Vila Franca de Xira, que foram notícia esta semana, deram-me pretexto para informar que, na Chamusca, Fernando Vidal já se reformou; e recordar Lourdes Conde e Lourdes Silva, que foram igualmente figuras importantes dos serviços da autarquia.

A notícia das mortes recentes de gente ilustre do concelho de Vila Franca de Xira originou um lamento público da autarquia que já foi notícia na edição online e volta a ser nesta edição impressa. Entre eles está um voto de pesar pelo desaparecimento de Vítor Manuel Jesus, de 67 anos, trabalhador dos SMAS de Vila Franca de Xira, falecido recentemente. Foi por esse gesto de reconhecimento que surgiu a ideia para esta crónica.

Começa a ser hábito em alguns concelhos os políticos residentes nos Paços do Concelho desprezarem os munícipes contratando seguranças não para acudirem a desacatos ou informarem sobre serviços da instituição, mas apenas para impedirem a entrada no edifício se o cidadão quiser apenas espreitar, por exemplo, o salão nobre da Câmara Municipal. Nada contra a existência de segurança, visceralmente contra a sua presença intimidatória que faz dos Paços do Concelho um edifício onde se escondem centenas de funcionários, políticos e administrativos que mais não são que os nossos representantes pagos, em muitos casos mal pagos, mas mesmo assim sustentados com o dinheiro do povo e eleitos com os votos desses mesmos contribuintes e munícipes.

Devia ser norma uma visita pública guiada ao edifício, pelo menos uma vez por ano, para não esquecermos que o Poder Local é uma das maiores conquistas da Revolução do 25 de Abril de 1974. Os Paços do Concelho são também a casa dos munícipes, onde não se entra apenas para pagar impostos, mas também para respirar, ou respirar cada vez melhor, o cheirinho a cravos da democracia.

Tive notícia, recentemente, da ida para a reforma de Fernando Vidal, um quadro da Câmara da Chamusca, o mais antigo dos trabalhadores da autarquia. Sempre me lembro do Fernando Vidal como o homem que abria e fechava as portas do município, às vezes pela noite dentro, o funcionário em que toda a gente confiava a gestão, mas se fosse preciso também a carteira. A sua saída não mereceu uma palavrinha do anterior executivo. Os mais de cinquenta anos que Fernando Vidal dedicou ao trabalho e organização dos serviços da autarquia acabaram no dia em que ficou em casa já com o estatuto de reformado. Como não tenho memória curta, e sou do tempo em que entrávamos nos Paços do Concelho da Chamusca de botins, a cantar a Internacional ou a dar vivas à democracia, nunca esqueci os dias da morte de Lourdes Conde e Lourdes Silva, duas funcionárias de topo da autarquia, tal como Fernando Vidal, que mereceram igual silêncio dos políticos em exercício nas datas em que faleceram. Conheci bem as duas figuras, com quem Fernando Vidal deve ter aprendido muito, e posso testemunhar o empenho, a dedicação, a facilidade que qualquer chamusquense tinha para as abordar na rua, na loja ou na farmácia, e lhes pedir uma informação. JAE.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique”

Esta semana O MIRANTE conta como a Nersant voltou a levar sopa do tribunal e recuperamos, de duas edições passadas, uma notícia que actualiza a negociata entre o executivo da câmara da Chamusca e uma empresa do antigo presidente da assembleia municipal.


“Jornalismo é publicar o que alguém não quer que seja publicado: todo o resto é publicidade”. A frase é de George Orwell e o jornal El País usa-a no final das suas comunicações com os leitores que subscrevem a maior parte das suas newsletters (circulares). Milhões de leitores, como é o meu caso, assinam e recebem de forma gratuita as mais variadas matérias do jornal, que podem ser lidas apenas pela metade, uma vez que fomentam o interesse pelo jornal e convidam à formalização da assinatura. Recentemente, o El País reorientou sua estratégia de negócios de venda de assinaturas a preço de saldo (baixo custo), mesmo sendo um jornal com mais de meio milhão de assinaturas online e com uma política de abrir muitos conteúdos à maioria dos seus leitores.

Em Portugal os media estão numa crise profunda. A culpa, segundo Carlos Rodrigues, da empresa Media Livre, que me parece acertada, é mais da gestão que do jornalismo. Comparando o que se faz em Espanha com o que vemos em Portugal, bem podemos voltar aos tempos em que o governante do Partido Socialista, Alberto Arons de Carvalho, obrigou os jornais locais e regionais a praticarem um preço mínimo de assinatura entre outras maldades que só não estão enterradas porque ainda hoje condicionam todo o sector. Vinte anos depois, Arons de Carvalho briga em tribunal com o actual Governo porque acabou recentemente de sair, contrariado, do cargo de presidente do Conselho Geral Independente da RTP. Arons de Carvalho é ainda descrito como um especialista a comentar o futuro e a gestão da televisão pública. Para bom entendedor meia palavra basta. Em Portugal não se usam as coroas reais como em Inglaterra, mas em muitas situações somos uma verdadeira monarquia.

Trago o assunto aqui porque O MIRANTE, desde a sua fundação, sempre orientou o preço da assinatura para preços de baixo custo, já que sempre defendemos que quem tem que ajudar a pagar o jornal são mais os anunciantes e menos os leitores.

Volto à frase com que comecei esta crónica. Esta semana a Nersant volta a ser notícia porque o ex-presidente, António Pedroso Leal, que ficou a meio do caminho do seu mandato, queria batatinhas de um juiz do tribunal porque se considera ofendido por notícias do jornal. Levou sopa. Tanta sopa como a sopa que deu aos associados da Nersant a quem prometeu mundos e fundos para acabar a sair antes do tempo e depois de vender o património que outros dirigentes construíram. E ainda teve o descaramento de prometer publicamente dois milhões de euros para financiar a imprensa regional. Acabou por gastar zero dos dois milhões prometidos e teve que vender património para pagar ordenados e dívidas.

O mesmo com as negociatas entre a câmara da Chamusca e a empresa Garrido Artes Gráficas. Joaquim Garrido foi adversário político, e depois amigo de Paulo Queimado. Editou um livro de luxo em condições escandalosas que mereceram escrutínio. Só esperamos que a aparente ingenuidade que as duas maiores figuras da política autárquica da altura na Chamusca não se fiquem a rir das instituições que escrutinam este tipo de negócios. Como todos sabemos, há gente que nasceu com o cu virado para a lua e acha que toda a tolice merece o colo do perdão. “A ver vamos”, como diz o ditado popular. JAE.