quarta-feira, 12 de setembro de 2007

A mania da calotice e tudo o que veio a propósito


A Câmara de Santarém é apenas um caso. Mas é emblemático. E não pode ser esquecido. Principalmente quando temos na nossa região uma das autarquias do país que mais respeita os prazos de pagamento a fornecedores, como é o caso da Câmara de Vila Franca de Xira presidida pela socialista Maria da Luz Rosinha*.Conheço muitos empresários que acham que a melhor forma de financiarem as suas empresas é com o dinheiro dos seus fornecedores. Quanto mais tempo demorarem a pagar uma factura mais barata vai ficando a mercadoria. E menos têm que recorrer ao crédito bancário. Conheço políticos que afinam pela mesma bitola. Há câmaras que acumulam dívidas a pequenos fornecedores durante anos a fio. Nalguns casos, numa e noutra situação, conheço ainda mais pequenos e médios empresários que viveram, ou ainda vivem, histórias dramáticas por causa da mania da calotice que afecta a mentalidade de tanta gente.
É verdade que estas práticas não são de hoje. Mas os tempos mudaram caramba. Para as novas gerações, que tomaram conta da nossa economia e da nossa política, já não serve a desculpa da educação salazarista. Salazar tem as costas largas. Mas não exageremos. Conheço algumas empresas que nos últimos seis anos ganharam vários processos em tribunal contra a Câmara de Santarém por esta se recusar a pagar o que devia. Pouca gente guarda memória do anterior executivo. Excepto os que ainda estão a arder com o seu dinheirinho e todos aqueles que tiveram coragem de afrontar o Poder e ganharam, com juros, na justiça.
Portugal era um país falido se fosse governado por alguns artolas do mundo empresarial e político da nossa região que não têm que trabalhar todos os dias com as apertadas regras de mercado. JAE

* Ora aqui está uma boa base de trabalho para o Secretário Geral do PS, José Sócrates, que nas últimas eleições autárquicas também apostou no homem errado para Santarém e acabou a perder uma das mais emblemáticas câmaras do país para o PSD, um partido que estava tão longe do Poder autárquico escalabitano como Portugal está, em termos de qualidade de vida, dos principais países da Europa.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Uma questão de desamor ao povo


O filme deve ser visto para percebermos a evolução da nossa sociedade. Para percebermos, apesar das injustiças que ainda vivemos, o que nos separa, passados trinta e três anos, desse estado miserável de obscurantismo e pobreza em que vivíamos.Anda por aí um filme, Torre Bela (ver texto sobre o filme nesta edição), que os portugueses deviam ver obrigatoriamente. Os mais novos para perceberem o que foi a Revolução do 25 de Abril e os mais velhos para lavarem a memória. A primeira vez que vi estas imagens ia caindo para o lado de espanto.
Fico magoado sempre que oiço alguém clamar por Salazar e pedir o “ó tempo volta para trás”. Não é que não tenha respeito pela memória de alguns homens desse tempo. É porque tenho memória que não compreendo como é possível eleger Salazar como um dos nossos melhores.
Fui testemunha privilegiada da revolução do 25 de Abril. Antes já ouvia conspirar e, depois, pude assistir a algumas acções que marcaram aqueles tempos. Passados todos estes anos recordo de memória alguns homens e mulheres desse tempo e rio-me do ridículo de algumas situações que vivi e de muitas outras que apenas presenciei. O filme Torre Bela é um documento que fala por todos nós. É um filme que ressuscita a nossa história recente. É um documento filmado no Ribatejo que todos os ribatejanos deviam ter em casa para mostrarem aos filhos.
Se há coisas a que sou fiel é à memória que guardo dos meus avós que me ajudaram a criar e a educar. Enquanto a minha avó ganhava para a sopa ripando camisas, eu fazia recados, nos intervalos em que não brincava na rua, descalço, com a roda de uma bicicleta. Sempre por perto. Não que alguém tivesse medo que eu desaparecesse mas porque “o trabalho do menino é pouco mas quem não o sabe aproveitar é louco”.
Não sei quem é que me ensinou, aos dez anos, a perceber que o mundo era injusto para com os meus. Por isso já nessa altura eu entregava à minha avó o que ganhava dos recados que fazia. E perguntava-me como era possível a minha avó ser uma pessoa tão boa, honesta e trabalhadora e ser assim tão pobre apesar de trabalhar como uma escrava.
Salazar foi o político português mais injusto da nossa História. Tudo o que fizeram à herdade e ao Palácio do Duque de Lafões, que este filme retrata de uma forma comovente de tão real e dramática, é culpa de Salazar, da sua avareza e do seu desamor ao povo português.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Elogio a um homem de carácter


Como a desgraça não está sempre atrás da porta finalmente a sorte protegeu-o e as receitas antecipadas da EDP vão permitir que ele mostre aos escalabitanos obra feita para, se quiser, ganhar um segundo mandato desta vez com maioria absoluta.Diz o povo que a maioria dos nossos melhores amigos são, ou foram, aqueles de quem mais desdenhamos. Eu não acredito nesta máxima embora não tenha por hábito desvalorizar os ditados populares. Pelo que me conheço nunca foi assim comigo. Sou capaz de tentar encostar um amigo à parede se tiver razões muito fortes para isso. Mas se ele se encosta está tramado: ter amigos fracos não é o meu forte.
Toda esta conversa porque, ultimamente, tenho reparado com mais atenção que o meu amigo Francisco Moita Flores tem passado dias difíceis à frente do executivo da Câmara de Santarém.
É público que apoiei pessoalmente a sua candidatura e que sou seu amigo.Ter inimigos fortes e empenhados em nos destruir, como foi o caso do anterior presidente da Câmara de Santarém, pode ser uma boa oportunidade para fazermos novos e melhores amigos. Este é o meu melhor exemplo.
Graças ao uso abusivo do poder, à ignorância do político que o PS escolheu para governar os destinos da autarquia escalabitana, tive oportunidade de conhecer melhor Francisco Moita Flores, um homem que faz da política um exercício de cidadania, para além de um ser humano de excepcionais qualidades.
Não sei o suficiente, porque julgo que nem ele saberá, se Moita Flores se recandidata a um novo mandato. Nesta altura, como sou seu amigo, isso é o que menos me interessa. Nem estou preocupado por não saber quem vai ser o próximo timoneiro da Câmara de Santarém, já com as vantagens adquiridas com a aprovação, para breve, da nova lei eleitoral que vai dar grandes vantagens a quem ganhar as eleições nem que seja por um voto a mais.
Se o PS ou o PSD, ou outro qualquer partido, conseguirem mobilizar alguém com a elevação de carácter, inteligência e sabedoria que quase todos reconhecemos em Francisco Moita Flores, Santarém nunca mais voltará ao tempo da apagada e vil tristeza dos anteriores executivos socialistas.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Os livros, a festa brava e o futebol

A ligação entre a literatura e a festa brava está bem documentada nos romances de Ernest Hemingway, nas telas e textos poéticos de Picasso, entre muitos outros. Mas não é só ao nível dos grandes artistas que estas duas artes se fundem. No seio de uma família dita normal, como é a minha, também se pode sentir a forte ligação entre o mundo das touradas e a literatura. Eu explico. Um dia destes participei numa tertúlia literária com escritores e jornalistas da moda. Durante duas horas entretive a minha fraca vaidade no meio de uma trintena de assistentes, entre os quais se encontravam meia dúzia de manequins que foram dar um brilho diferente à apresentação dos livros para este Verão.
O mundo à volta dos livros é verdadeiramente cinematográfico. Os escritores na sua grande maioria são tipos esquisitos. Os críticos têm um buraquinho ao fundo das costas por onde regra geral não cabe uma agulha. E os jornalistas de serviço à cultura são verdadeiros peralvilhos. Os grandes editores não têm rosto e quando têm é de cera. Os distribuidores de livros são, regra geral, uns falidos. Só para as livrarias e os leitores é que me faltam adjectivos. Ou por outra: deixem-me poupar palavras.
Tinha a memória ainda fresca deste fim de tarde passado no centro do mundo quando, à noite, em casa, depois de ter partilhado esta experiência, um dos meus filhos começou a fazer o relato entusiasmado de uma viagem a Badajoz para ver uma corrida de toiros. Desta vez foi ela que foi parca em palavras. Mas deu para perceber o encanto que lhe tinha despertado aquele mundo dos toiros e dos homens que, não sendo toureiros, nem cavaleiros nem forcados, são tudo isso e mais um par de chocas, tal é orgulho que sentem por pertencerem a um mundo verdadeiramente fantástico que tudo deve à arte e à fantasia. Tudo como na boa literatura.
Em tempos que já lá vão também viajei nestas nuvens. E nem imaginam como eu me entregava ao sonho. Ainda hoje sou capaz de me perder de amores pela festa brava, principalmente se vejo um jovem toureiro a usar o capote como as mulheres usam os olhos para conquistarem os homens. Mas, deixem que vos diga: o mundo da festa brava ao nível das relações humanas é igual, ou pior, ao ambiente dentro de campo nos jogos do campeonato do INATEL do meu tempo de jogador de futebol.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Em Setembro teremos novidades


Em pleno Agosto, quando o país fecha para férias, tenho a agenda cheia de apontamentos e de assuntos para agarrar com as duas mãos. Mas não é isso que me impede de comparecer a uma segunda-feira a meio da tarde numa consulta médica de rotina. O médico atrasou-se duas horas. Nesse tempo consultei mais de uma dúzia de revistas e recolhi apontamentos para não perder de vista assuntos que também podem ser abordados no nosso jornal de uma forma a interessarem os leitores da nossa região. Pelo telefone ajudei a acabar um texto e a finalizar dois ou três contactos. Atendi algumas chamadas de rotina e acompanhei os últimos desenvolvimentos da nossa conturbada relação com a gráfica.Às nove horas da noite, quando estou a sair do edifício do jornal, vou à sala dos comerciais e vejo um colega de trabalho a receber uma chamada. Do outro lado do telefone contam-se histórias de vida que parecem retiradas de um filme. Não sei se vamos contar a história tal é o dramatismo da situação e os problemas que estão por detrás da jovem que resolveu ligar-nos. O Marco Rodrigues não é jornalista nem nunca quis ser. Mas enquanto mantém um diálogo com a jovem faz um trabalho que me surpreende e faz pensar: ser jornalista não é só uma profissão: é um privilégio.
Escrevo estas linhas na véspera da saída da última edição de O MIRANTE em pleno labor para que o fecho do jornal decorra sem falhas e com o interesse que cada edição de O MIRANTE merece ter. Como sempre as questões da política preenchem uma boa parte do nosso quotidiano. Mas os jornalistas da Redacção sabem que não podem sustentar o seu trabalho apenas no que vão ouvir às reuniões de câmara e muito menos no interesse que os políticos julgam ter quando nos convocam para conferências de imprensa onde repetem o óbvio e o habitual.
Já não sei o que fiz ao papel onde tomei alguma notas para dar à Joana que anda a escrever a sua tese de licenciatura. Mas não perdi as duas folhas que rasguei de uma revista, praticando uma maldade que tanto condeno aos outros. Eram duas histórias que eu tinha que trazer no bolso para mostrar o quanto andamos distraídos no nosso próprio quintal e deixamos por conta dos outros o trabalho que nos pertence.
Se tivesse mais espaço contava com mais pimenta o que me aconteceu neste dia e me fez voltar a escrever para o umbigo. Em Setembro vamos dar uma vida nova ao nosso projecto mostrando que não andamos cá só para ver andar os outros.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

O jogo das damas e a água no vinho


Foi graças ao jogo das damas que conheci pessoas importantes na minha aprendizagem da vida como foi o caso do poeta almeirinense Francisco Henriques (um dos maiores estudiosos portugueses do jogo das damas), e um Senhor de apelido Santos, um retornado das ex-colónias cuja memória já desapareceu da terra para onde veio viver os últimos anos da sua vida.Um tipo chamado Jonathan Schaeffer, natural do Canadá, desenvolveu um software que pratica o jogo das damas na perfeição. Quer isto dizer que uma partida de damas entre dois jogadores, que tenham acesso àquela inteligência artificial, acabará sempre empatada.
Fiquei a saber, por causa desta notícia, que há 500 triliões de posições possíveis das 24 peças do tabuleiro, entre outras curiosidades que não interessa falar agora.
Foi com este último adversário do jogo que, ainda bem jovem, aprendi a perder. É verdade. Nem eu, nessa altura, sabia o que era isso de aprender a perder. Foi com a experiência que ficava de cada partida que jogava com ele que aprendi a perder. Depois de me ter ensinado a jogar tudo o que tinha para ensinar comecei a ganhar-lhe. Como as nossas disputas eram sempre observadas como uma luta de galos, ele ficava tão envergonhado com as derrotas que queria sempre jogar mais um jogo. Como era um prático a cabeça dele aguentava jogar toda a tarde. Eu, mais jogador de estudo e táctica, a partir do décimo jogo já só fazia asneiras. Nem por isso, quando aprendi a perder, eu me negava a jogar mais um jogo, e depois mais outro, logo a seguir ao pequeno campeonato do qual saia vencedor. Como é evidente o crédito que angariava na assistência por lhe ganhar a partida, depois já não chegava quando começava a cometer asneira da grossa e ele ganhava quase todos os jogos que disputávamos a seguir.
Foi quando venci essa vergonha de ser gozado pela assistência, numa situação que eu próprio deixava criar, para que o meu mestre não saísse sempre humilhado da contenda, que percebi o quanto é valioso este sentimento de entregar a vitória ao nosso adversário se com isso não perdemos nada de relevante.
Esta lição é dos meus 18 anos quando a maioria dos meus colegas de escola já estudava na universidade ou trabalhava numa qualquer profissão. Nessa altura eu ainda trabalhava para a família e pouco mais sabia de um ofício que misturar água no vinho.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A imprensa vive dias complicados


Também não gosto deste poder socialista que impõe regras sem olhar a meios. Por isso deixo aqui o meu protesto. Sem esquecer de lembrar que muitos do que estão agora a bramar não tiveram coragem para contrariar as medidas estalinistas do ex-governante do PS Arons de Carvalho. E, é bom lembrar, alguns até se puseram a jeito convencidos que estavam a contribuir para matarem a concorrência. É vê-los, agora, a gritar que o rei vai nu.Está escrito na testa dos socialistas, quando chegam ao Poder, que a imprensa deve ser livre mas a liberdade pode ser um bocadinho mais reduzida enquanto eles forem membros do Governo e tiverem o poder de legislar. Não é preciso recuar muitos anos para confirmar a falta de jeitinho dos socialistas para lidarem com a imprensa e com os jornalistas. No tempo de Arons de Carvalho o Governo resolveu moralizar os subsídios para a comunicação social regional. Vai daí impôs um preço mínimo de assinatura e o pagamento à cabeça. Ora aí está. Dentro de dois anos os apoios acabam. E o que fez Arons de Carvalho num tempo em que as empresas precisavam de liberdade para se adaptarem às novas regras de mercado que vêm aí? Em vez de acabar com os subsídios para aqueles que nunca criaram emprego, ou exigir a devolução do dinheiro entregue a empresas que não cumpriram, prejudicou os melhores empresários do sector que, de um dia para o outro, tiveram que adaptar o seu negócio a regras apertadíssimas.
Augusto Santos Silva chegou há dois anos ao Poder e já conseguiu uma verdadeira revolução no sector. Desta vez os mais atacados são os jornalistas e os grandes patrões da Imprensa. Questões como a Regulação e a Concentração dividem tudo e todos. De um lado o Governo e uma denominada ERC a clamarem por mais responsabilização das empresas e dos jornalistas. Do outro os empresários e os jornalistas a dizerem que a liberdade de imprensa não se coaduna com legislação para impor regras próprias de Governos antidemocráticos. “É flagrante a constante insistência governamental em proibir, travar, limitar, burocratizar. A competitividade de um sector tão crucial como o dos media não é minimamente importante para este Governo. O que interessa é espartilhar, controlar, cortando cerce as aspirações de convergência multimédia, de crescimento, de internacionalização que qualquer empresa de media deve ter, num mundo em acelerada mutação, em especial as privadas que não vivem do dinheiro dos contribuintes”, diz Francisco Pinto Balsemão o mais conhecido e combativo patrão dos media nacionais.