Há meia dúzia de semanas, no caminho de casa para o trabalho, vi um objecto estranho no meio da estrada que me despertou a atenção. Parei o carro e fui ver. Olhei à minha volta e não vi pessoas, nem valados, nem árvores ou arbustos onde alguém pudesse estar escondido a vigiar-me. Aproximei-me do objecto e apanhei do chão uma arma de caça, aberta, com dois cartuxos vermelhos à vista. Demorei alguns segundos a tomar uma decisão. Levo ou deixo ficar. Optei por meter a arma na caixa do carro e segui caminho. Cheguei ao meu posto de trabalho e envolvi-me em tantos assuntos que esqueci a arma. A meio da tarde fez-se luz. Partilhei o achado com um colega de trabalho que é caçador. Ouvi o que mais temia. Cuidado com armas de caça Joaquim Emídio. Pode ser uma armadilha. O melhor é desfazer-se dela e esquecer o assunto. Ouvi e sosseguei. Ainda faltavam algumas horas para o fim do dia.
Quando voltei ao carro para fazer o caminho de regresso a casa já tinha tomado uma decisão. Vou deixá-la algures no mesmo lugar onde a encontrei. Enquanto fazia o caminho mudei de ideias. Vou ao posto da GNR mais próximo e entrego a arma. Quem a perdeu vai ouvir das boas e aprender a lição. Não se perde assim uma arma como quem perde o juízo, pensei. Afastei as más lembranças que tenho de caçadores que atiram a tudo o que mexe à sua volta, sem respeito pelos animais e pelas pessoas que circulam nas propriedades, e resolvi parar o carro apenas quando chegasse ao destino.
Entrei no posto e dirigi-me ao agente de serviço. Contei o que se tinha passado e pedi-lhe para ser ele a vir buscar a arma ao porta bagagens. Depois de uma identificação que demorou cinco minutos em mais cinco cheguei a casa.
No dia seguinte recebi um recado a meio da tarde. Tinha ligado um senhor que se identificou como o dono da caçadeira. E agradeceu tanto ao telefone que se largou a chorar. Contou que não tinha dormido nada na noite anterior e que só imaginava a arma nas mãos de alguém que assaltasse ou matasse. Voltou a ligar no dia seguinte e falou comigo. A conversa repetiu-se. Ouvi contar o seu drama com atenção. Comovi-me ao ouvi-lo dizer que era um caçador apaixonado, que fazia da caça um desporto. Por fim lá contou como perdeu a arma e até quase que acertou no metro da estrada onde eu a encontrei.
Convidou-me para almoçar com amigos caçadores. Disse-me que queria dar-me a conhecer para falar da minha atitude. Não sei nada sobre caça, nem sobre épocas de caça, e só me lembro de matar pardais à pedrada quando era criança. Mas imagino que o convite deve estar a chegar. Precisava de contar esta história para desabafar. A arma só não está no fundo do Tejo porque ao longo dos anos tenho vindo a perder o medo de viver. Não sei se é bom se é mau. Mas esta é a verdade. Nem o agente da GNR me assustou quando disse que a arma podia ter sido usada num assalto que, agora, era uma questão de eu esperar para saber. O resto que ouvi não conto porque já seria conversa a mais.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Nascer no Ribatejo
As cheias do Tejo estão aí outra vez para nos moerem o juízo e para prejudicarem a vida daqueles que vivem da terra e precisam de preparar as terras para as próximas sementeiras. Por outro lado esta água é uma bênção; alimenta os aquíferos, limpa os valados e as marachas, aduba a terra como nenhum outro fertilizante comprado nas lojas da especialidade.
De verão quando vou ao Tejo mergulhar, ou de inverno quando me aproximo para ouvir o canto das águas a dialogarem com as margens, o rio é sempre o lugar que me identifica ao longo de todos os anos de vida.
Desde que me conheço como gente que me identifico pelo nome e pelo lugar onde nasci, que fica entre a charneca e a lezíria, com o Tejo pelo meio e um aglomerado de casas a colorirem a paisagem.
Quem nunca viu tirar a cortiça de um sobreiro, ou nunca observou um grupo de homens ou mulheres a podarem uma vinha, não pode olhar para a rolha de uma garrafa ou provar do seu vinho como olham, e provam, aqueles que tiveram a sorte de nascer no Ribatejo.
Há quem diga que o pastor é eterno porque tem o espírito preso à terra e tudo o que aprende é renunciando. Por estas alturas das cheias do Tejo, com a memória ainda fresca dos mergulhos no rio durante o verão, sinto a magnificência de quem renuncia de uma forma continua e inexorável. E faço-me ladrão de sentimentos para me sentir também magnifico a oferecer a mim próprio a derrota do espírito.
Há meses ofereci a um jovem escritor “Cartas a um jovem poeta” de Rilke. Algum tempo depois um outro jovem escritor aconselhou-me a leitura do livro. Sinto-me a ir com as cheias pelo rio abaixo e também me sinto a viver a alegria de construir jangadas como nos tempos da infância. Nunca soube usar tinta e pincel para retratar o meu mundo imaginário numa tela. Sempre senti, no entanto, em todas as idades, que tinha uma trincha nas pestanas para traçar riscos ilimitados nos meus horizontes.
Há hora a que me lêem, se forem horas de trabalho, há milhões de burocratas, políticos, lobistas, gente macabra que vigia os nossos passos e as nossas carteiras, a rirem-se da poesia das nossas palavras. Nós, os sonhadores, sabemos que por cada descoberta da cura de uma doença há outras tantas que vão aparecendo das quais ninguém fala para nos ajudarem a aguentar o caminho até à recta final.
Os dois livros destas últimas duas semanas são o relato de duas viagens à Grécia contadas com as emoções de quem visita os deuses nos altares: O Colosso de Maroussi de Henri Miller e Um Adeus aos Deuses de Ruben A. Há muito tempo que não era tão feliz a descobrir que “a rendição para ser perfeita tem que ser absoluta”.
De verão quando vou ao Tejo mergulhar, ou de inverno quando me aproximo para ouvir o canto das águas a dialogarem com as margens, o rio é sempre o lugar que me identifica ao longo de todos os anos de vida.
Desde que me conheço como gente que me identifico pelo nome e pelo lugar onde nasci, que fica entre a charneca e a lezíria, com o Tejo pelo meio e um aglomerado de casas a colorirem a paisagem.
Quem nunca viu tirar a cortiça de um sobreiro, ou nunca observou um grupo de homens ou mulheres a podarem uma vinha, não pode olhar para a rolha de uma garrafa ou provar do seu vinho como olham, e provam, aqueles que tiveram a sorte de nascer no Ribatejo.
Há quem diga que o pastor é eterno porque tem o espírito preso à terra e tudo o que aprende é renunciando. Por estas alturas das cheias do Tejo, com a memória ainda fresca dos mergulhos no rio durante o verão, sinto a magnificência de quem renuncia de uma forma continua e inexorável. E faço-me ladrão de sentimentos para me sentir também magnifico a oferecer a mim próprio a derrota do espírito.
Há meses ofereci a um jovem escritor “Cartas a um jovem poeta” de Rilke. Algum tempo depois um outro jovem escritor aconselhou-me a leitura do livro. Sinto-me a ir com as cheias pelo rio abaixo e também me sinto a viver a alegria de construir jangadas como nos tempos da infância. Nunca soube usar tinta e pincel para retratar o meu mundo imaginário numa tela. Sempre senti, no entanto, em todas as idades, que tinha uma trincha nas pestanas para traçar riscos ilimitados nos meus horizontes.
Há hora a que me lêem, se forem horas de trabalho, há milhões de burocratas, políticos, lobistas, gente macabra que vigia os nossos passos e as nossas carteiras, a rirem-se da poesia das nossas palavras. Nós, os sonhadores, sabemos que por cada descoberta da cura de uma doença há outras tantas que vão aparecendo das quais ninguém fala para nos ajudarem a aguentar o caminho até à recta final.
Os dois livros destas últimas duas semanas são o relato de duas viagens à Grécia contadas com as emoções de quem visita os deuses nos altares: O Colosso de Maroussi de Henri Miller e Um Adeus aos Deuses de Ruben A. Há muito tempo que não era tão feliz a descobrir que “a rendição para ser perfeita tem que ser absoluta”.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Generosidades
Não confio em pessoas generosas, nem em gente com muitos atributos; nem em pessoas que falam muito do que fazem, do que valem e do que têm. Desconfio dos admiráveis contos de fadas com que me enchem os ouvidos.
Acabei o ano a reconhecer que a escrita é um ofício dos diabos; que vale mais morrer de fome que escrever por obrigação. Mas cá estou no meu posto a escrever os meus textos e a editar os textos dos outros como sempre fiz.
Para não variar comecei o ano a escrever. Três cartas para outros tantos amigos com quem estava em falta. A um deles chamei “inteligente” numa das minhas crónicas mais recentes. Só mais tarde, ao reler-me, percebi que não se diz de um homem de oitenta anos cheios de energia e vida vivida que ele é inteligente. Era sábio que eu queria dizer/escrever. Mas as palavras são traiçoeiras. Claro que não recebi recados. Os sábios não falam; ouvem e ajuízam. Tenho algum receio de ter ficado mal na fotografia. Mas agora que o mal está feito, e a escrita pode matar, segundo aprendi nos livros, olho os papéis que restam em cima da minha secretária do ano velho e encontro uma carta que me pode ajudar a salvar da morte certa.
Na altura não contei mas o amigo a quem chamei inteligente facultou-me uma carta que recebeu da Universidade Nova de Lisboa, do Departamento de Anatomia, a informar o seguinte: Temos a honra de acusar que recebemos a sua carta com declaração de doação de cadáver, devidamente assinada, e que ficará arquivada neste Departamento ( : ). Aproveito para expressar os nossos sentimentos mais sinceros de respeito e agradecimento pelo gesto altruísta de Vª. Exª. E lá vem a assinatura do director do Departamento de Anatomia da Universidade, que tem sempre falta de cadáveres humanos para os estudantes de medicina e os médicos estudarem as novas e velhas doenças.
Na altura sentia que estava também disposto a este gesto de generosidade. A verdade é que o tempo passou e faltou-me coragem para escrever a carta a oferecer o meu futuro cadáver. Pergunto-me se sou generoso, e acho que não, que não sou assim tanto como pensava. Mas se ando a pedir para ser cremado depois de morto que diferença faz oferecer o corpo para estudo como fez este meu amigo ? Passaram quatro dias depois do Ano Novo e do reencontro com a carta que devia servir-me de lembrança para o tal acto de generosidade. Desta é que vai, penso. Será esta semana que vou escrever a carta de doação, falo alto.
Passei do ano velho para o ano novo a magicar na possibilidade de acabar os meus dias num país tropical, vivendo numa cabana à beira da praia, fazendo vida de surfista como alguns amigos que conheço que nunca fizeram a ponta de um corno nesta vida. Se vou viver para um país quente não estou cá para que se possa cumprir o meu desejo de servir, depois de morto, para matéria de estudo. Mas isto faz-se? Isto são lá coisas que se pensem? E é legítimo falar disto numa crónica mostrando com todas as letras que sou muito menos generoso do que faço parecer? Parece que sim. Devia ter mandado a crónica para os anjinhos na noite em que a escrevi. Passados três dias ainda resistia no computador. E há hora do fecho da edição não havia mais nada escrito para preencher este espaço. E é assim que se conhecem os fracos; os que acham que as palavras matam mas passam a vida a sobreviver das palavras.
Acabei o ano a reconhecer que a escrita é um ofício dos diabos; que vale mais morrer de fome que escrever por obrigação. Mas cá estou no meu posto a escrever os meus textos e a editar os textos dos outros como sempre fiz.
Para não variar comecei o ano a escrever. Três cartas para outros tantos amigos com quem estava em falta. A um deles chamei “inteligente” numa das minhas crónicas mais recentes. Só mais tarde, ao reler-me, percebi que não se diz de um homem de oitenta anos cheios de energia e vida vivida que ele é inteligente. Era sábio que eu queria dizer/escrever. Mas as palavras são traiçoeiras. Claro que não recebi recados. Os sábios não falam; ouvem e ajuízam. Tenho algum receio de ter ficado mal na fotografia. Mas agora que o mal está feito, e a escrita pode matar, segundo aprendi nos livros, olho os papéis que restam em cima da minha secretária do ano velho e encontro uma carta que me pode ajudar a salvar da morte certa.
Na altura não contei mas o amigo a quem chamei inteligente facultou-me uma carta que recebeu da Universidade Nova de Lisboa, do Departamento de Anatomia, a informar o seguinte: Temos a honra de acusar que recebemos a sua carta com declaração de doação de cadáver, devidamente assinada, e que ficará arquivada neste Departamento ( : ). Aproveito para expressar os nossos sentimentos mais sinceros de respeito e agradecimento pelo gesto altruísta de Vª. Exª. E lá vem a assinatura do director do Departamento de Anatomia da Universidade, que tem sempre falta de cadáveres humanos para os estudantes de medicina e os médicos estudarem as novas e velhas doenças.
Na altura sentia que estava também disposto a este gesto de generosidade. A verdade é que o tempo passou e faltou-me coragem para escrever a carta a oferecer o meu futuro cadáver. Pergunto-me se sou generoso, e acho que não, que não sou assim tanto como pensava. Mas se ando a pedir para ser cremado depois de morto que diferença faz oferecer o corpo para estudo como fez este meu amigo ? Passaram quatro dias depois do Ano Novo e do reencontro com a carta que devia servir-me de lembrança para o tal acto de generosidade. Desta é que vai, penso. Será esta semana que vou escrever a carta de doação, falo alto.
Passei do ano velho para o ano novo a magicar na possibilidade de acabar os meus dias num país tropical, vivendo numa cabana à beira da praia, fazendo vida de surfista como alguns amigos que conheço que nunca fizeram a ponta de um corno nesta vida. Se vou viver para um país quente não estou cá para que se possa cumprir o meu desejo de servir, depois de morto, para matéria de estudo. Mas isto faz-se? Isto são lá coisas que se pensem? E é legítimo falar disto numa crónica mostrando com todas as letras que sou muito menos generoso do que faço parecer? Parece que sim. Devia ter mandado a crónica para os anjinhos na noite em que a escrevi. Passados três dias ainda resistia no computador. E há hora do fecho da edição não havia mais nada escrito para preencher este espaço. E é assim que se conhecem os fracos; os que acham que as palavras matam mas passam a vida a sobreviver das palavras.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
O patife sem importância
Desejo a todos os meus amigos e leitores desta coluna um Feliz Ano Novo. Como sei que tenho amigos especiais aqui vai, escrita, a mensagem de Ano Novo que escrevi propositadamente, e dedicadamente, para eles.
O patife é o camarada que nos elogia com palavras admiráveis e, nas nossas costas, chama-nos os nomes mais feios do dicionário. O patife regra geral acha-se o nosso melhor amigo mas logo que pode salta-nos para as costas e não nos larga a aba do casaco e lá vai disto que é amizade.
Patife é o gajo que dá para os dois lados, e gosta de jogar nos dois tabuleiros, mas quando se zanga com a vida chama maricas a toda a gente. O patife vai à nossa casa na véspera de Natal para nos dar um presunto e aproveita para espreitar em que lugar da casa se guarda o ouro. O patife é solitário mas também sabe conviver em grupo como os peixes na água. Todo o patife é mentiroso; só Deus sabe quantas vezes ele fala verdade a mentir. O patife não gosta de fazer má figura mas é figurão todos os dias. O patife é democrata, socialista quase sempre, mas na hora de mostrar o que vale até a mulher dele é castigada por pensar de forma diferente; e, no caso de ter filhos, ai deles que cresçam acima daquilo que o patife sonhou para o seu futuro.
O patife pode ser alto ou baixo, magro ou gordo, não há como reconhecer um patife pela altura do esqueleto ou o peso das banhas; verdadeiramente ele sente-se um anão quando inveja os outros e vê-se ao espelho como um gigante quando o dia lhe corre bem em matéria de privilégios. Apesar das misérias que vivem com ele, e dentro dele, o patife é o mais satisfeito dos homens consigo próprio. O patife nunca foi um aprendiz, já nasceu ensinado, por isso ele arrota sentenças sobre o seu trabalho, a sua família de patifes, o seu grupo de amigos patifes que, tal como ele, são todos patifes que se governam bem.
O patife diz que gosta de trabalhar e faz tudo o que está ao seu alcance para mostrar trabalho e, no entanto, à primeira oportunidade o patife descansa em cima do trabalho dos outros; copia os outros, assenta em cima da casa dos outros a sua própria e única casa que é a moradia da vergonha.
O patife nunca se zanga e raramente usa palavras ofensivas; ele é especialista em mandar recados; enviar mensagens de Natal, oferecer caixas de chocolates e garrafas de vinho, dobrar-se e babar-se cada vez que passa pela nossa frente e precisa de esconder o cheiro da sua boca.
É escusado pedir a um patife que se reconheça neste texto ou em qualquer outro que o retrate; ele morre de medo de olhar para si próprio e tem o maior cagaço de um dia ser reconhecido na sua rua como um patife sem importância.
O patife é o camarada que nos elogia com palavras admiráveis e, nas nossas costas, chama-nos os nomes mais feios do dicionário. O patife regra geral acha-se o nosso melhor amigo mas logo que pode salta-nos para as costas e não nos larga a aba do casaco e lá vai disto que é amizade.
Patife é o gajo que dá para os dois lados, e gosta de jogar nos dois tabuleiros, mas quando se zanga com a vida chama maricas a toda a gente. O patife vai à nossa casa na véspera de Natal para nos dar um presunto e aproveita para espreitar em que lugar da casa se guarda o ouro. O patife é solitário mas também sabe conviver em grupo como os peixes na água. Todo o patife é mentiroso; só Deus sabe quantas vezes ele fala verdade a mentir. O patife não gosta de fazer má figura mas é figurão todos os dias. O patife é democrata, socialista quase sempre, mas na hora de mostrar o que vale até a mulher dele é castigada por pensar de forma diferente; e, no caso de ter filhos, ai deles que cresçam acima daquilo que o patife sonhou para o seu futuro.
O patife pode ser alto ou baixo, magro ou gordo, não há como reconhecer um patife pela altura do esqueleto ou o peso das banhas; verdadeiramente ele sente-se um anão quando inveja os outros e vê-se ao espelho como um gigante quando o dia lhe corre bem em matéria de privilégios. Apesar das misérias que vivem com ele, e dentro dele, o patife é o mais satisfeito dos homens consigo próprio. O patife nunca foi um aprendiz, já nasceu ensinado, por isso ele arrota sentenças sobre o seu trabalho, a sua família de patifes, o seu grupo de amigos patifes que, tal como ele, são todos patifes que se governam bem.
O patife diz que gosta de trabalhar e faz tudo o que está ao seu alcance para mostrar trabalho e, no entanto, à primeira oportunidade o patife descansa em cima do trabalho dos outros; copia os outros, assenta em cima da casa dos outros a sua própria e única casa que é a moradia da vergonha.
O patife nunca se zanga e raramente usa palavras ofensivas; ele é especialista em mandar recados; enviar mensagens de Natal, oferecer caixas de chocolates e garrafas de vinho, dobrar-se e babar-se cada vez que passa pela nossa frente e precisa de esconder o cheiro da sua boca.
É escusado pedir a um patife que se reconheça neste texto ou em qualquer outro que o retrate; ele morre de medo de olhar para si próprio e tem o maior cagaço de um dia ser reconhecido na sua rua como um patife sem importância.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Gente modesta
O MIRANTE publica nesta edição duas entrevistas que fazem a diferença. Mira Amaral e Augusto Mateus trabalham em Lisboa, pertencem à elite que governou e governa o país, mas são duas pessoas que conhecem bem a realidade ribatejana e têm opiniões que nos interessam.
Não é fácil promover o debate na região sobre as reformas das nossas instituições. Quem vive e trabalha por cá acomoda-se, governa-se, açafata-se e, seja no governo civil, seja nos institutos politécnicos, nas associações de municípios, ou na governação de algumas autarquias, os dirigentes não têm queda para o debate nem para pensarem em conjunto aquilo que nos ajudaria a fazer a diferença em relação a Lisboa e ao Porto.
É público e notório a falta de coragem na discussão dos nossos problemas. O nosso grau de cidadania também não ajuda. Somos muitos a fazer barulho nas discussões caseiras mas quando é para dar a cara o anonimato é o nosso forte.
De vez em quando há quem faça a diferença. Na segunda-feira, enquanto fechávamos a edição desta semana, caiu um telefonema na redacção a alertar para o fecho do balcão da Segurança Social de Santarém. O comunicado dos serviços, que alguém pendurou na porta é um bom exemplo do país em que vivemos e dos serviços públicos que nos servem. A nossa notícia não resolve o problema de quem ficou com o nariz colado na porta.
Pode, no entanto, ser uma forma de pressão sobre aquele organismo que obrigue, em situações futuras, os seus responsáveis a serem mais cautelosos na forma de exercerem o serviço público a que estão obrigados.
A Siemens anunciou a contratação de 100 novos colaboradores a breve prazo. Para os encontrar no mercado de trabalho pagou publicidade que anda a ser publicada em vários jornais. Dizem os seus responsáveis que procuram novos talentos “que gostem de aprender, que tenham a humildade de perguntar quando não sabem e que sejam pessoas abertas o suficiente para trabalharem com diferentes culturas”. Como é público e notório já não lhes interessam só os crânios que saem das universidades. Cada vez mais os empresários percebem que o ensino universitário é um embuste tendo em conta as novas necessidades das empresas. E os crânios não são muitos e os melhores preferem emigrar.
A região tem dois politécnicos onde estudam cerca de oito mil alunos. O Politécnico de Santarém está de tal forma organizado que o maior adversário do presidente da instituição pode ser o presidente de uma das escolas. Só quem não quer é que não sabe que a Escola Superior de Gestão é presidida por um senhor que na sombra afronta como bem quer, e pode, a liderança, fraquíssima, até agora, do professor Jorge Justino, que voltou a um lugar onde não tinha deixado muitas saudades. No Politécnico de Tomar e de Santarém há alunos que dizem que alguns professores não passavam num exame do décimo segundo ano. Em Santarém e em Tomar as criticas à falta de qualidade do ensino e à organização das instituições faz as delícias dos velhos do Restelo.
O debate sobre o país que somos e queremos ser devia começar nas instituições de ensino universitário e deviam ser os jovens, ajudados pelos professores, a contribuírem para o avanço da nossa modesta importância no mundo. Infelizmente, até para aprendermos com as grandes instituições de ensino universitário da Europa, parece que somos modestos demais.
Não é fácil promover o debate na região sobre as reformas das nossas instituições. Quem vive e trabalha por cá acomoda-se, governa-se, açafata-se e, seja no governo civil, seja nos institutos politécnicos, nas associações de municípios, ou na governação de algumas autarquias, os dirigentes não têm queda para o debate nem para pensarem em conjunto aquilo que nos ajudaria a fazer a diferença em relação a Lisboa e ao Porto.
É público e notório a falta de coragem na discussão dos nossos problemas. O nosso grau de cidadania também não ajuda. Somos muitos a fazer barulho nas discussões caseiras mas quando é para dar a cara o anonimato é o nosso forte.
De vez em quando há quem faça a diferença. Na segunda-feira, enquanto fechávamos a edição desta semana, caiu um telefonema na redacção a alertar para o fecho do balcão da Segurança Social de Santarém. O comunicado dos serviços, que alguém pendurou na porta é um bom exemplo do país em que vivemos e dos serviços públicos que nos servem. A nossa notícia não resolve o problema de quem ficou com o nariz colado na porta.
Pode, no entanto, ser uma forma de pressão sobre aquele organismo que obrigue, em situações futuras, os seus responsáveis a serem mais cautelosos na forma de exercerem o serviço público a que estão obrigados.
A Siemens anunciou a contratação de 100 novos colaboradores a breve prazo. Para os encontrar no mercado de trabalho pagou publicidade que anda a ser publicada em vários jornais. Dizem os seus responsáveis que procuram novos talentos “que gostem de aprender, que tenham a humildade de perguntar quando não sabem e que sejam pessoas abertas o suficiente para trabalharem com diferentes culturas”. Como é público e notório já não lhes interessam só os crânios que saem das universidades. Cada vez mais os empresários percebem que o ensino universitário é um embuste tendo em conta as novas necessidades das empresas. E os crânios não são muitos e os melhores preferem emigrar.
A região tem dois politécnicos onde estudam cerca de oito mil alunos. O Politécnico de Santarém está de tal forma organizado que o maior adversário do presidente da instituição pode ser o presidente de uma das escolas. Só quem não quer é que não sabe que a Escola Superior de Gestão é presidida por um senhor que na sombra afronta como bem quer, e pode, a liderança, fraquíssima, até agora, do professor Jorge Justino, que voltou a um lugar onde não tinha deixado muitas saudades. No Politécnico de Tomar e de Santarém há alunos que dizem que alguns professores não passavam num exame do décimo segundo ano. Em Santarém e em Tomar as criticas à falta de qualidade do ensino e à organização das instituições faz as delícias dos velhos do Restelo.
O debate sobre o país que somos e queremos ser devia começar nas instituições de ensino universitário e deviam ser os jovens, ajudados pelos professores, a contribuírem para o avanço da nossa modesta importância no mundo. Infelizmente, até para aprendermos com as grandes instituições de ensino universitário da Europa, parece que somos modestos demais.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Perguntas estúpidas
Há uns anos O MIRANTE editou um livro de poesia de António Ramos Rosa. O poeta veio a Santarém com a mulher Agripina e com o nosso comum amigo João Rui de Sousa, igualmente publicado na colecção Alma Nova, título da referida colecção de poesia de O MIRANTE.
O meu último encontro com o poeta foi nesse dia do lançamento do livro em Santarém, depois de o ter visitado duas vezes na sua casa de Lisboa antes da publicação do livro. Foi num estacionamento de um restaurante da Portela das Padeiras que o esperei e ajudei a sair do carro para nos dirigirmos à mesa do restaurante. Depois de receber o poeta, que saiu do carro ajudado pela mulher, dei-lhe o braço e cumprimentei-o com uma saudação do género, “como é que vai isso mestre”. Já pendurado nos meus ombros, caminhando devagar e falando sem olhar para mim, descascou um ralhete que me deixou literalmente encavacado, embora tranquilo já que estávamos quase em família.
“Que mania a das pessoas cumprimentarem-se com saudações banais. “Como é que vai isso não é uma boa forma de cumprimentar um amigo”, ralhou o poeta com a sua voz pausada, que eu já tinha ouvido e apreciado algumas vezes mas a falar de livros, de mulheres, de amor e de “liberdade livre”.
Esta semana fui a Salvaterra de Magos e reuni-me à porta da Caixa Agrícola com um grupo de pessoas que foi participar numa iniciativa de solidariedade para com Marília Batista e os seus filhos.
Quando cheguei ao local, depois dos cumprimentos habituais a quem chegou primeiro, pus a mão por cima do ombro da Tatiana, de 13 anos, a filha mais velha da Marília, e para fazer conversa perguntei-lhe “como vai a escola”. “A escola não vai, está mesmo ali ao virar da esquina”, respondeu-me ela com um sorriso maroto e uma voz traquina mas de forma tão espontânea que eu emendei a saudação logo de seguida e nem lhe dei tempo para pensar.
Estes dois episódios têm oito anos a separá-los. Têm em comum o facto de ter sido eu a criar condições para os viver. E de, apesar das perguntas estúpidas, nunca me ter sentido estúpido a ser solidário. Quase todos os dias me lembro do poeta António Ramos Rosa e do silêncio ensurdecedor feito à volta da sua Obra, provavelmente porque o poeta ainda não morreu. É, de certo, o poeta português vivo mais importante destas últimas décadas e um dos maiores de sempre. No entanto a sua Obra, inexplicavelmente, está ausente das livrarias. Numa altura em que estará muito perto dos 90 anos, com uma saúde muito precária, os editores precisam do seu cadáver para poderem vender os seus livros. Não encontro outra explicação.
A Marília tem três filhos que foram levados da sua casa de madrugada a meio do sono por um batalhão da GNR a mando de uma organização que se diz protectora de crianças. Depois da indignação pública e da solidariedade, todos os responsáveis lavaram as mãos desta afronta. A família hoje já não existe como antigamente e ninguém sabe até que ponto estes incidentes ajudaram a criar esta infelicidade.
As crianças continuam a abraçar-nos como se fossemos da família deles e nos víssemos todos os dias. Talvez porque até ao dia de hoje ninguém deu a cara pedindo desculpas pelas maldades que lhes fizeram. E eles sabem que nós, mesmo longe, somos a garantia de que já ninguém os arranca da cama, de madrugada, só porque a mãe é pobre e indefesa.
O meu último encontro com o poeta foi nesse dia do lançamento do livro em Santarém, depois de o ter visitado duas vezes na sua casa de Lisboa antes da publicação do livro. Foi num estacionamento de um restaurante da Portela das Padeiras que o esperei e ajudei a sair do carro para nos dirigirmos à mesa do restaurante. Depois de receber o poeta, que saiu do carro ajudado pela mulher, dei-lhe o braço e cumprimentei-o com uma saudação do género, “como é que vai isso mestre”. Já pendurado nos meus ombros, caminhando devagar e falando sem olhar para mim, descascou um ralhete que me deixou literalmente encavacado, embora tranquilo já que estávamos quase em família.
“Que mania a das pessoas cumprimentarem-se com saudações banais. “Como é que vai isso não é uma boa forma de cumprimentar um amigo”, ralhou o poeta com a sua voz pausada, que eu já tinha ouvido e apreciado algumas vezes mas a falar de livros, de mulheres, de amor e de “liberdade livre”.
Esta semana fui a Salvaterra de Magos e reuni-me à porta da Caixa Agrícola com um grupo de pessoas que foi participar numa iniciativa de solidariedade para com Marília Batista e os seus filhos.
Quando cheguei ao local, depois dos cumprimentos habituais a quem chegou primeiro, pus a mão por cima do ombro da Tatiana, de 13 anos, a filha mais velha da Marília, e para fazer conversa perguntei-lhe “como vai a escola”. “A escola não vai, está mesmo ali ao virar da esquina”, respondeu-me ela com um sorriso maroto e uma voz traquina mas de forma tão espontânea que eu emendei a saudação logo de seguida e nem lhe dei tempo para pensar.
Estes dois episódios têm oito anos a separá-los. Têm em comum o facto de ter sido eu a criar condições para os viver. E de, apesar das perguntas estúpidas, nunca me ter sentido estúpido a ser solidário. Quase todos os dias me lembro do poeta António Ramos Rosa e do silêncio ensurdecedor feito à volta da sua Obra, provavelmente porque o poeta ainda não morreu. É, de certo, o poeta português vivo mais importante destas últimas décadas e um dos maiores de sempre. No entanto a sua Obra, inexplicavelmente, está ausente das livrarias. Numa altura em que estará muito perto dos 90 anos, com uma saúde muito precária, os editores precisam do seu cadáver para poderem vender os seus livros. Não encontro outra explicação.
A Marília tem três filhos que foram levados da sua casa de madrugada a meio do sono por um batalhão da GNR a mando de uma organização que se diz protectora de crianças. Depois da indignação pública e da solidariedade, todos os responsáveis lavaram as mãos desta afronta. A família hoje já não existe como antigamente e ninguém sabe até que ponto estes incidentes ajudaram a criar esta infelicidade.
As crianças continuam a abraçar-nos como se fossemos da família deles e nos víssemos todos os dias. Talvez porque até ao dia de hoje ninguém deu a cara pedindo desculpas pelas maldades que lhes fizeram. E eles sabem que nós, mesmo longe, somos a garantia de que já ninguém os arranca da cama, de madrugada, só porque a mãe é pobre e indefesa.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Santos da terra
Há quem defenda que santos da terra não fazem milagres. Em boa verdade nem sempre é assim. Em Santarém o Instituto Bernardo Santareno já premiou por duas vezes um homem da terra chamado Vicente Batalha que é, ao mesmo tempo, presidente do Instituto com o mesmo nome do prémio e co-organizador da referida iniciativa em conjunto com a Câmara Municipal de Santarém.
Não ponho em causa a justiça dos prémios e os méritos da atribuição. O que me espanta é ver Vicente Batalha, presidente do Instituto Bernardo Santareno, aceitar por duas vezes, em cinco edições, os referidos prémios; e espanta-me mais ainda o descaramento de quem decidiu atribuí-los, sabendo que esta atitude é condenável com todas as letras em qualquer lugar do mundo.
Há uma falta de humildade, e de noção do ridículo, em certa gente que apregoa a prática de bons costumes e depois só faz asneiras. Se os prémios são para terem valor e serem reconhecidos não podem ser atribuídos aos da casa. Principalmente aos que dão a cara pela organização dos prémios como é o caso de Vicente Batalha. Dizer ou escrever mais sobre o assunto já é “bater no ceguinho”.
Uma senhora da aldeia resolveu construir um forno de cozer pão ao fundo do seu quintal. O fumo que saía do forno incomodava o vizinho mas nada a fazer. Rendido aos argumentos de que o fumo vai para onde manda o vento, o vizinho resolveu voltar a fazer queixa ao presidente da câmara argumentando, desta vez que, com o calor do forno, o muro que dividia as propriedades começava a ceder.
O presidente da câmara chamou a senhora e tentou sensibilizá-la para o problema. A senhora perguntou muito educadamente; ó senhor presidente a gente não pode fazer o que quer naquilo que é nosso? Ao que o presidente respondeu; poder pode mas há limites para tudo conforme sabe da experiência que tem da vida. Está bem, vou pensar, respondeu a senhora para o presidente da câmara, deixando-o a matutar na maneira tão serena como lhe virou as costas e prometeu meditar.
Três meses depois a senhora já tinha construído um novo forno a meio do quintal e continuou a cozer o seu pão todas as semanas. O vizinho, inconformado, continuava a bater à porta do presidente da câmara fazendo queixa que o forno ainda lá estava de pedra e cal encostado ao muro do seu quintal.
Um dia a senhora apareceu à frente do presidente da câmara e deu-lhe conta que o problema do forno estava resolvido pois já tinha construído um novo a meio do quintal. O presidente mostrou-se espantado e retorquiu: muito me conta, então construiu um novo e não deitou o outro abaixo? Ao que ela lhe respondeu: não, meu caro, deixe-o estar que o tijolo e o cimento foram pagos na hora, e se o deito abaixo fico com o pé do vizinho no meu pescoço até morrer.
Não ponho em causa a justiça dos prémios e os méritos da atribuição. O que me espanta é ver Vicente Batalha, presidente do Instituto Bernardo Santareno, aceitar por duas vezes, em cinco edições, os referidos prémios; e espanta-me mais ainda o descaramento de quem decidiu atribuí-los, sabendo que esta atitude é condenável com todas as letras em qualquer lugar do mundo.
Há uma falta de humildade, e de noção do ridículo, em certa gente que apregoa a prática de bons costumes e depois só faz asneiras. Se os prémios são para terem valor e serem reconhecidos não podem ser atribuídos aos da casa. Principalmente aos que dão a cara pela organização dos prémios como é o caso de Vicente Batalha. Dizer ou escrever mais sobre o assunto já é “bater no ceguinho”.
Uma senhora da aldeia resolveu construir um forno de cozer pão ao fundo do seu quintal. O fumo que saía do forno incomodava o vizinho mas nada a fazer. Rendido aos argumentos de que o fumo vai para onde manda o vento, o vizinho resolveu voltar a fazer queixa ao presidente da câmara argumentando, desta vez que, com o calor do forno, o muro que dividia as propriedades começava a ceder.
O presidente da câmara chamou a senhora e tentou sensibilizá-la para o problema. A senhora perguntou muito educadamente; ó senhor presidente a gente não pode fazer o que quer naquilo que é nosso? Ao que o presidente respondeu; poder pode mas há limites para tudo conforme sabe da experiência que tem da vida. Está bem, vou pensar, respondeu a senhora para o presidente da câmara, deixando-o a matutar na maneira tão serena como lhe virou as costas e prometeu meditar.
Três meses depois a senhora já tinha construído um novo forno a meio do quintal e continuou a cozer o seu pão todas as semanas. O vizinho, inconformado, continuava a bater à porta do presidente da câmara fazendo queixa que o forno ainda lá estava de pedra e cal encostado ao muro do seu quintal.
Um dia a senhora apareceu à frente do presidente da câmara e deu-lhe conta que o problema do forno estava resolvido pois já tinha construído um novo a meio do quintal. O presidente mostrou-se espantado e retorquiu: muito me conta, então construiu um novo e não deitou o outro abaixo? Ao que ela lhe respondeu: não, meu caro, deixe-o estar que o tijolo e o cimento foram pagos na hora, e se o deito abaixo fico com o pé do vizinho no meu pescoço até morrer.
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