quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Maria José Morgado é uma mulher admirável

Maria José Morgado pediu para que “libertem Portugal da corrupção” depois de receber uma distinção em que reconheceu sentir-se embaraçada “na medida em que a luta pela integridade, pela ética, é como o ar que respiro”, afirmou.

Sou admirador de Maria José Morgado que conheço há muitos anos mas com quem nunca falei. Leio o seu artigo semanal no Expresso, às vezes com semanas de atraso, mas leio sempre. Não há na sociedade portuguesa quem, melhor do que ela, publicamente, escreva e pense a Justiça e as questões do sector.

Há muitos anos que moramos no mesmo bairro e nos encontramos regularmente à saída do supermercado ou do ginásio. Maria José Morgado é uma figura admirável da sociedade portuguesa mas passa despercebida com facilidade nos locais por onde se movimenta. A sua figura discreta, singela, pequena mas elegante, também ajuda. Maria José Morgado tem um ar aparentemente impenetrável, mas só aparentemente; na realidade é uma pessoa de trato fácil, simples e directa, com essa qualidade humana, hoje quase fora de moda, de não se exibir nem ter comportamentos de figura mediática. O facto de nunca a ter abordado joga a seu favor: como não tenho nada de importante para lhe dizer, a não ser fazer-lhe o elogio que todos lhe devemos, limito-me a partilhar com ela o espaço público onde nos movimentamos e cada um procura ser feliz e sentir-se em liberdade.

Maria José Morgado acabou de ser premiada pelo seu trabalho no combate à corrupção numa cerimónia realizada na Fundação Champalimaud, em Lisboa, a magistrada recebeu o prémio “Tágides 2021”, promovido pela “All 4 Integrity”, o primeiro galardão anticorrupção atribuído em Portugal e que tem como finalidade e objectivo reconhecer o trabalho de pessoas activas no combate à corrupção. A magistrada do Ministério Público foi agraciada com dois prémios nas categorias “Iniciativa Política” e “Investigação” e dedicou a distinção “à sociedade civil anónima, sofredora, combativa”, que quer “lutar pela igualdade com critérios de ética e transparência”. A frase que marcou a cerimónia, e que foi notícia na grande maioria dos órgãos de comunicação social, espelha bem o seu carácter e a sua personalidade. “Libertem o meu país da corrupção”, pediu, depois de se reconhecer “embaraçada” por receber um prémio que lhe pareceu despropositado, “na medida em que a luta pela integridade, pela ética, é como o ar que respiro”, afirmou.

Entre os vencedores estão também Joana Marques Vidal, Procuradora-Geral da República entre 2012 e 2018, vencedora na categoria “Sociedade Civil”, Manuel Rui Nabeiro, na categoria “Iniciativa Empresarial”, e o informador Rui Pinto, que recebeu uma menção honrosa na categoria “Iniciativa Jovem”. JAE.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

O que fazemos da vida que não seja só ler e escrever

Os sobreiros, que permitiam uma biodiversidade e uma geografia única do território ribatejano, estão a desaparecer lentamente e vão desaparecer definitivamente porque os nossos governantes não têm ideia de como se governa um país e os interesses das populações.

“Se surgir algum momento de plenitude, conclua sempre com a consciência de que o tempo o corrompe, assim como tudo corrompe”. Gozo o prazer de viver num hotel durante quase um mês a ler e reler os escritores da minha vida, alguns deles que também viveram em hotéis como se fossem o prolongamento dos personagens dos seus livros. A frase que inicia esta crónica é roubada de mil páginas de livros, jornais e revistas que abro diariamente no computador, e que me chegam de mãos que exercem o jornalismo mas também a crítica literária, o ensaio e a opinião, cada vez mais em todas as línguas porque o Google melhorou substancialmente a sua ferramenta de tradução.

É sobre isso que penso enquanto revejo o meu plano para replantar as minhas árvores à beira do Tejo, quando nesta altura durmo à beira do Guaíba. A informação que me é oferecida todos os dias e todas as semanas chega e sobra para ficar minimamente informado sobre o que se passa no mundo. Claro que é o mundo dos outros; nunca encontro nas pesquisas dos motores de busca os fenómenos do Entroncamento ou os problemas com as barreiras de Santarém ou a transformação da charneca ribatejana num território árido ou o assoreamento perigoso do Tejo devido à erosão dos territórios que são cada vez mais eucaliptais a perder de vista. Os sobreiros, que permitiam uma biodiversidade e uma geografia única do território ribatejano, estão a desaparecer lentamente e vão desaparecer definitivamente porque os nossos governantes não têm nenhuma ideia de como se governa um país e os interesses da população. E um dia destes a água do Tejo vai saltar do leito devido ao assoreamento do rio como a água sai da banheira lá de casa quando nos esquecemos da torneira aberta. O que se passa no Alentejo, e começa a ser notícia em todo o mundo, para nossa vergonha, devia servir de exemplo aos políticos da região ribatejana que deviam unir-se para termos uma região pensada, e um território organizado e governado segundo os nossos interesses e não os interesses do dinheiro sem rosto.

Enquanto leio as notícias actualizadas de O MIRANTE logo pela manhã, leio também as manchetes do Expresso e do El País e de outros jornais, depois de já ter lido no correio meia dúzia de resumos do que se publica pelo mundo e que era tão importante aprofundar se eu tivesse o dom de fazer parar o tempo.

Quando viajamos, e saímos da nossa zona de conforto, tudo se torna mais claro: a vida só vale a pena se não ficarmos parados no tempo a somar histórias de diminuir. Falo da vidinha a tratar dos assuntos que nos consomem os neurónios e são sempre os mesmos: gerir as poupanças, a beira no telhado, os amores filiais, enfim, aquilo que nos faz tropeçar embora não nos faça cair e partir o nariz.

Era aqui que queria chegar quando iniciei a escrita desta crónica; estou a preparar-me para partir o nariz quando regressar de novo ao trabalho; já tinha prometido que ia esperar que o Tejo saltasse as margens ou o Nabão virasse uma linha de esgoto, mas acho que não vou esperar nem que comecem a cair as chuvas do Inverno. Vou começar a sonhar tudo de novo para contrariar a ideia de que todos os momentos de plenitude, um dia, serão corrompidos. E para começar como iniciei, roubo do El País uma frase de um longo texto que me dá a conhecer os 50 melhores livros do ano, que fala do trabalho do escritor Luis Landero que, durante a escrita do seu novo livro, “Jardim de Emerson” “dá a impressão de não saber para onde vai, mas que volta, uma e outra vez, para nos contar sobre o mais importante: o complexo, emocionante, cansado e absurdo que é o trabalho de viver”. JAE.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

A opinião também tem um preço

Estamos a mil à hora para as eleições legislativas e com pressa de despacharmos as listas dos deputados que vão gerir os lobys instalados. Aparentemente vai mudar tudo de alto a baixo; na realidade vai ficar tudo na mesma; esta é só mais uma contribuição para discutirmos a região e os interesses instalados nos partidos, onde faltam líderes locais carismáticos e sobram artistas e mágicos dos negócios.

Cada vez que se realizam eleições temos oportunidade de olhar melhor para dentro das organizações partidárias e perceber a evolução da democracia no nosso país. Não é preciso morar em Lisboa, no Largo do Rato, sede do PS, ou na Rua de S. Caetano, sede do PSD, para sabermos o estado da Nação: os partidos mantêm uma máquina dirigente que se eterniza porque estão endividados, falidos e não podem entregar as suas contas nas mãos de pessoas que não as percebem nem querem perceber. E é perigoso tirar o poder num partido a um dirigente que usou todas as estratégias possíveis e imaginárias, à margem da lei, para financiar campanhas e ter dinheiro para as empresas que ajudam a ganhar eleições e a promover as imagens dos líderes.

A nível local e regional a escolha de deputados para as listas é outra oportunidade para vermos e avaliarmos o que representa ser deputado nos dias de hoje; nada evoluiu nas últimas décadas; a Assembleia da República é como um clube de futebol rico. O plantel principal tem meia centena de jogadores mas só 11 é que jogam. No máximo o treinador conta com 20 jogadores. Os outros 30 foram negociados para alimentarem os agentes, para pagar favores a outros clubes, para manterem uma estrutura pesada e pouco dinâmica e assim os dirigentes terem margem de manobra para as suas manigâncias.

Já sabemos que a CDU vai ter o António Filipe como cabeça-de-lista, um jovem promissor que certamente vai ajudar a lançar muitos novos dirigentes locais e regionais em defesa das regiões e contra o centralismo. Estou a fazer humor, como é evidente: António Filipe é mais do mesmo; em vez de estar a passar a pasta para gente mais jovem, e envolver novos dirigentes, está agarrado ao poder como uma lapa: nada que não conheçamos dos outros partidos.

O PSD distrital tem uma malapata contra o deputado Duarte Marques, de Mação, que é de longe, nos últimos anos, um dos melhores deputados da região independentemente dos partidos. É um deputado com opinião, que não foge às polémicas, que é detestado por alguns dirigentes dos partidos adversários que vêem nele um tipo que mete o dedo na ferida e sabe usar os seus conhecimentos para fazer sangue. Nunca convivi com Duarte Marques, nem me sentei à mesa com ele, mas não sou cego; ele é o político da região que faz abanar o sistema, que se põe do lado dos opositores, que sabe tratar os assuntos que alguns deputados nem sabem que existem. Sei do que falo: Duarte Marques já levou à Assembleia da República questões relacionadas com a lei da publicidade e a falta de cumprimento do Governo que envergonha a democracia e os governantes socialistas. Por isso é que ele é detestado pelos socialistas, e dirigentes do seu próprio partido; os socialistas acham que ele é terrorista; os seus camaradas acham que ele é tão bom a fazer política que é um perigo para a sobrevivência da espécie daqueles que são deputados como poderiam ser carne para canhão.

O Bloco de Esquerda, que nas eleições locais não consegue fazer campanha de jeito, como aconteceu no Entroncamento, onde o PSD renasceu das cinzas embora com a mesma bruxa de sempre, e o BE perdeu o seu vereador, também volta a apostar na divisão contra o centralismo do partido a partir de Lisboa. Mas o Bloco é um caso à parte. O partido ainda é metade UDP e outra metade melancia com presunto, para usar um termo que ouvi ontem numa palestra sobre José Saramago, o escritor da Azinhaga, essa terra desconhecida, de uma região que não está no mapa. JAE.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Exercer a cidadania é ganhar batalhas para um dia vencermos a guerra

Está instalada na classe política, principalmente nos políticos do arco do poder, a ideia e a convicção de que a cidadania é ter as pessoas a meterem o nariz onde não devem. Nada mais errado.


O MIRANTE entregou os prémios Galardão Empresa do Ano e Personalidades do Ano com uma presença muito significativa de convidados apesar de ainda estarmos em pandemia. O êxito da nossa iniciativa está firmado. A prova foram as intervenções e o nível dos premiados.

O Galardão Empresa do Ano teve pela primeira vez um novo formato e a abrangência a toda a nossa área de influência. Não tivemos ministros na cerimónia, mas tivemos as pessoas importantes que trabalham no nosso território. A entrega dos prémios Galardão Empresa do Ano nunca foi uma cerimónia para lançar balões, trinchar carne à mesa ou fazer conversa de babete ao peito. Se alguma vez aconteceu não fomos nós que pagamos o jantar.

Apesar de sermos uma região onde trabalham grandes empresas, como é o caso da OGMA, que foi uma das premiadas, temos que reconhecer que somos uma grande maioria de pequenos e médios empresários que fazemos girar o país criando emprego e pagando impostos. É assim desde o 25 de Abril. Portugal não cresceu porque a SONAE e a Jerónimo Martins começaram a comprar aos produtores borregos e vitelos para engorda antes de os enviarem para o matadouro e a carne chegar aos talhos das suas lojas. Portugal não cresceu porque os chineses compraram a EDP e os bancos estão quase todos nas mãos de capital estrangeiro. Portugal cresceu porque os pequenos e médios empresários portugueses são gente de raça e têm ainda sangue celta nas veias. Não chega. Temos gente muito medíocre no Governo a tratar dos nossos assuntos nomeadamente no sector económico. Basta ver o que tem acontecido à região ribatejana antes e depois da pandemia. Temos aldeias desertificadas a 50 quilómetros de Lisboa. O concelho de Sintra continua a crescer exponencialmente e as freguesias de Azambuja, Cartaxo, Santarém, Alpiarça e Chamusca, só para citar algumas que ficam mais perto, estão a cair na pobreza confrangedora de falta de população e de serviços essenciais.

Anda muita gente inábil e distraída por aí, a representar-nos como dirigentes associativos, sem perceberem que não há, nem haverá,  empresas nem empresários de sucesso, onde não há poder de compra, e muito menos onde não há pessoas a viverem para sustentarem a mão-de-obra de que as empresas precisam. Quem são os dirigentes empresariais que têm coragem para se unirem e exigirem ao Governo que apoie os municípios a construírem habitação social para atraímos população, darmos vida às vilas e aldeias, revitalizarmos o país que nasceu com o 25 de Abril e está a ficar outra vez com os vícios dos tempos que cheirava a mofo?

Os empresários não são organizações do pontapé na bola; o que nos une é a luta contra o centralismo do Estado, os burocratas e os lobistas instalados no IEFP, no IAPMEI, em TODOS os organismos do Estado que seria fastidioso enumerar. Não esqueço o IEFP que é talvez o verdadeiro Ministério das Finanças dos organismos do Estado e que tem mais dinheiro para distribuir que, em certos anos, a Casa da Moeda. Infelizmente o IEFP é gerido por gente incompetente e funcionários pouco zelosos a confiar no que vamos sabendo.

Não tenho dúvida de que se os pequenos e médios empresários, que são a grande maioria da força empresarial em Portugal, estivessem melhor organizados em associação, outro galo cantaria nas repartições dos organismos públicos e, quem sabe, nos ministérios onde os chefes sem rosto mandam mais que os ministros. Os pequenos e médios empresários sempre foram e vão continuar a ser o farol da nossa economia; são eles que dão corpo às instituições de proximidade, que dão emprego, que proporcionam que o Governo não fuja com os médicos, com os centros de saúde, com o serviço público a que está obrigado, nas áreas que referi mas também nos transportes, no apoio ao ensino e à prática da cidadania. Está instalada na classe política, principalmente nos políticos do arco do poder, a ideia e a convicção de que a cidadania é ter as pessoas a meterem o nariz onde não devem.

A nossa missão como jornalistas, e cidadãos que têm o privilégio de acompanhar a vida pública, é demonstrar o contrário: trabalhar sem amarras e sem cedências àqueles que ficaram parados no tempo e não querem que os perturbemos na sua santa ignorância. JAE

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

A pedra com que David matou Golias

De manhã tenho uma energia que sou capaz de combinar encontros e marcar trabalhos que enchem a agenda de uma semana. O problema depois é cumprir tudo o que agendei, combinei e imaginei que era capaz de realizar.

Um amigo de longa data, empresário de antiguidades (não sei bem se o ofendo chamando-lhe comerciante porque ele faz negócios vendendo desde quadros dos pintores mais famosos aos objectos mais raros em ouro e prata), contou-me que há muitos anos vendeu a um milionário, dono de umas termas, a pedra com que David matou Golias. As outras histórias, que lhe ouvi ao longo dos anos, fazem crer que esta é mais uma das suas invenções para me fazer passar a mensagem de que ainda está em idade de me ensinar muitas coisas como quando o conheci e aprendi com ele lições preciosas para o meu novo trabalho da altura. No dia da nossa conversa andei de volta das edições online do Público e do El País,  leituras em atraso que me levaram três horas da noite da véspera de terça-feira que é geralmente o dia em que tenho mais trabalho e o tempo não chega para um mergulho na piscina que é a minha bênção do dia.

Vai daí, depois de ter lido cinco edições do Ípsilon, o melhor suplemento literário dos jornais portugueses, e duas edições do Babélia, embora ainda ficassem outras tantas para ler, senti uma vontade de tirar de cima de mim o seirão com os problemas normais de um jornalista operário que passou a noite em branco à procura do nome de um mago, santo ou bruxo, que me pudesse ajudar a combater o vício do trabalho. Não dormi e, para castigo, na terça-feira, o dia a seguir a esta noite em branco, tive um dos dias mais trabalhosos da minha vida. Estávamos em vésperas da organização das cerimónias do Galardão Empresa do Ano e da entrega dos prémios às nossas Personalidades e alguém tinha que escrever os textos e, desta vez, mais uma vez, calhou-me a mim. 

Escrevo ao correr da pena, antes de dormir na tal noite de segunda-feira que, por acaso, é a última deste ano que passo o dia e a noite a trabalhar. Vou cruzar o Atlântico para gozar umas férias grandes e nos primeiros dias não andar a bater com a cabeça nas paredes sem saber muito bem como é que vou passar os dias sem atender o telefone, ajudar a organizar a agenda dos camaradas mais novos, ou mais novinhos, que adoram fingir que não acontece nada se não se sentirem apertados num sítio que só eu sei.

Fico por aqui neste texto que põe a nu o jornalista que sou cada vez menos e o operário em construção que sou cada vez mais, agora que entrei no mês em que posso pedir a reforma por limite de idade (tinha que deixar aqui esta informação para não pensarem que falo de boca cheia e que ainda tenho uma vida eterna pela frente).

De verdade, sem falsas juras, é o que sinto todos os dias. De manhã tenho uma energia que sou capaz de combinar encontros e marcar trabalhos que enchem a agenda de uma semana. O problema depois é cumprir tudo o que agendei, combinei e imaginei que era capaz de realizar.

Não acabo a crónica roubada ao sono sem dar conta que no dia do fecho desta edição, e no dia seguinte, em que o jornal chega a todos os leitores, vamos voltar a premiar os melhores empresários da região ribatejana e as personalidades do ano. Vai ser uma festa como sempre. E vamos mostrar que, embora sejamos boicotados por vivermos e trabalharmos longe dos poderes de Lisboa, conseguimos dar provas que Portugal resiste apesar dos Vieiras, dos Sócrates, dos Salgados e dos Rendeiros, para não falar daqueles seus apaniguados que formam um exército de libertação dos dinheiros dos impostos para os paraísos fiscais, que depois faltam no SNS e na Justiça, para haver juízes e funcionários suficientes que façam funcionar o Sistema.

Ainda a tempo; acabei a crónica sem satisfazer a curiosidade dos leitores que adoram conhecer lugares de férias maravilhosos. Infelizmente não posso desvendar o meu destino de férias porque o lugar não tem luz eléctrica e vou ter que pescar todos os dias para não morrer de fome. Quem me invejar que morda a língua que é o menor mal que sou capaz de desejar aos invejosos. JAE.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Vai sair cara a resistência

Esta edição de O MIRANTE tem dois cadernos e comemora 34 anos de publicação ininterrupta sob o lema que nos inspira desde o primeiro número: “caminhante não há caminho, o caminho faz-se a andar”.

Quem ler esta edição de O MIRANTE, distribuída por dois cadernos, vai sentir o peso da leitura por mais que o seu espírito esteja folgado. Apesar da crise é a maior edição de aniversário de sempre e aquela que reúne mais investimento. 2021 tem sido um ano desafiante. Enquanto os jornais ditos nacionais vão caindo, alguns para tiragens insignificantes, O MIRANTE mantém os seus números na edição impressa e é lido na internet por mais de metade da população portuguesa. Certamente com a grande ajuda dos portugueses residentes no estrangeiro, e com o interesse dos seus familiares, mas não é isso que nos rouba a importância e o interesse que despertamos no mercado.

Vivemos um tempo de monopólio da informação; pior que isso: sofremos a concorrência de empresas e indivíduos que roubam a informação dos jornais como quem apanha amoras silvestres à beira da estrada. Começa nos facebooks e acaba no cidadão comum que distribui diariamente, em mensagens de telemóvel, dezenas de títulos de jornais roubados dos programas de assinaturas das editoras.

O sector da comunicação social vai resistir a tudo e a todas as contrariedades, inclusive aos governos que vêem o trabalho editorial das redacções por um canudo: querem os jornalistas e os jornais a fazerem serviço público mas depois fogem com a publicidade obrigatória e os deveres da transparência que uma boa governação exige. Vai sair cara a resistência. As bancas de venda de jornais são cada vez menos.  No mercado nacional só há uma distribuidora de jornais; e as dificuldades também apertam para quem vê as receitas diminuirem devido à quebra das vendas. Dos grandes jornais de referência O MIRANTE é dos poucos que aposta nas assinaturas da edição impressa. Os CTT vão cumprindo a sua missão embora em alguns pontos do país com problemas na distribuição. O papel aumentou 47 % nos últimos três meses assim como grande parte das matérias-primas associadas à impressão. As cativações e a lei da contratação pública, leis peregrinas que visam apenas dificultar a vida aos pequenos empresários, são aberrações do regime social-democrata em que vivemos, que privilegia descaradamente as grandes empresas e os grandes empresários que se escondem atrás de fundações e de offshores.

A pandemia, graças ao avanço da ciência, é uma brincadeira comparada com a desgraça que vai por aí no clima, com o drama dos refugiados, o avanço da China nos mercados internacioais com produtos a preços ridículos graças a tudo o que sabemos e, por fim, sem esgotar todas as grandes lutas das novas gerações, a falta de cultura democrática na administração dos organismos do Estado e, muitas vezes, nos gabinetes dos próprios governantes.

O MIRANTE comemora 34 anos de publicação ininterrupta. Chegamos aqui devido ao trabalho de uma equipa que nunca se dividiu, que criou raízes, que tem sabido adaptar-se aos novos tempos. Um dos grandes desafios de O MIRANTE é trabalhar em 23 concelhos onde as sensibilidades políticas e pessoais são variadas. Temos muitos mais parceiros que adversários; muitos mais aliados que inimigos; desde o primeiro número de O MIRANTE que trabalhamos em nome de um projecto editorial e nunca em favor de um projecto político, pessoal ou empresarial. E é assim que vamos continuar sob o lema que nos inspira desde o primeiro número: “caminhante não há caminho, o caminho faz-se a andar”. JAE.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Um jornal para os vizinhos

Na última década extinguiram-se centenas de títulos de jornais locais e regionais. Em Portugal vive-se uma realidade que, por incrível que pareça, é antagónica à realidade do resto da Europa.

 

“Os verdadeiros meios de comunicação líderes são os jornais regionais”. O título é de um artigo de jornal que sintetiza um congresso sobre jornalismo realizado em Valladolid, que serviu ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine como ponto de partida para analisar o estado da imprensa espanhola e onde é citado o chefe de redação do La Voz de Galicia, Xosé Luís Vilela, que afirma que “Nós fazemos o jornal para os vizinhos”.

Gosto da citação para substituir “jornalismo de proximidade” que costumamos usar nas campanhas de O MIRANTE para angariar leitores. Tenho que reconhecer, no entanto, que a realidade espanhola é substancialmente diferente da portuguesa. Há mais de três décadas que acompanho a evolução da imprensa em Portugal e os jornais regionais perderam importância em contra-ciclo com o resto da Europa. Na última década extinguiram-se centenas de títulos de jornais locais e regionais. Em Portugal vive-se uma realidade que, por incrível que pareça, é antagónica à realidade do resto da Europa. Em terras lusas tenta vender-se a ideia que temos o maior número de jornais centenários e alguns iluminados falam mesmo em candidatá-los a Património Imaterial da Humanidade. Nada contra se os jornais cumprissem a sua função, o que não é o caso na grande maioria, ou por falta de jornalistas ou por estarem a ser dirigidas por pessoas que estão a viver ainda nos anos de chumbo. É dificil olhar para um jornal que não tenha uma política editorial que faça com regularidade o escrutínio das instituições e dos seus protagonistas; que não dê prioridade aos assuntos de sociedade e não esteja do lado dos mais desvaforecidos da comunidade.

A falta de auto-critica e a subserviência das instituições do sector ao poder instituído, assim como a falta de interesse pelo associativismo da classe, faz de Portugal um país de caciques e de pobres diabos que continuam a fazer do jornalismo local e regional uma actividade para asilados. Entretanto as tiragens dos quatro jornais de referência em Portugal caíram para menos de metade nos últimos anos. A publicidade tradicional desapareceu e as consequências são o emagrecimento das redacções e, consequentemente, a falta de tempo para os jornalistas trabalharem na rua. Hoje, como ontem, a grande maioria dos profissionais das televisões e dos jornais de referência são poucos para acompanharem a classe política em Lisboa ou quando passeiam pelo país. 

90 por cento dos jornalistas que saem das universidades querem serem pivot de televisão; por isso passam anos sentados às secretárias a fazerem trabalho de escriturários, na maioria das vezes sem qualquer influência na qualidade da informação publicada. O resultado dessa ideia de que jornalismo é apresentar telejornais, mais tarde ou mais cedo, faz de jovens licenciados em comunicação maus caixas de supermercados, maus vendedores de imóveis e automóveis, etc, sendo que uma boa maioria deles acaba a trabalhar, em frente a um computador, para o Facebook, o Tik Tok a Google e a Amazon, as grandes empresas que já dominam o mundo através da internet.

Portugal é dos países da Europa desenvolvida o que menos se preocupa com o futuro dos seus jovens trabalhadores, sejam eles jornalistas, médicos, engenheiros, arquitectos, pedreiros ou mecânicos.

A bagunça na distribuição do dinheiro do orçamento do Estado favorece a especulação e a pobreza que se instalou na sociedade. A grande maioria das empresas que não depende de trabalho especializado tem que recorrer à emigração. A geração rasca, de que falava Vicente Jorge Silva, ainda não se extinguiu; pelo contrário, continua uma imensa maioria incentivada por um ensino universitário sem qualidade e sem ligação à realidade do mundo do trabalho.

Parafraseando a nossa (ainda) ministra da Agricultura, a pandemia ainda pode ser uma boa oportunidade para Portugal. A China já controla a luz eléctrica que nos ilumina as casas e faz trabalhar as fábricas; as barragens já foram vendidas à Engie; os bancos já são quase todos estrangeiros, e os que não são se-lo-ão a breve prazo; o Alentejo já é Marrocos aqui mais perto. Um dia destes vamos ter cientistas no Ribatejo a posicionarem-se para serem os primeiros a dissecarem os cadáveres dos antigos comunistas de Alpiarça, dos avós de José Saramago e, quem sabe, o de Ricardo Salgado, um antigo correeiro da Chamusca que tinha um nome famoso mas era, se fosse vivo, o honrado bisavô da Mafalda, que é minha neta e ainda não sabe ler. JAE.