quarta-feira, 25 de abril de 2007

A Caixa Geral de Depósitos


Segundo notícia do “DN” os dirigentes do PS e PSD de Leiria mandaram as estruturas nacionais às ortigas e reuniram-se para concertarem estratégias e discutirem em conjunto “os grandes projectos nacionais com interesse para a região” entre os quais, como é evidente, se inclui o novo aeroporto. Por cá a situação é de bradar aos céus. O PS distrital está entregue ao Rodrigues e o PSD está tão longe de se sentar à mesa com os dirigentes do PS como nós estamos da lua.Sou um adepto da regionalização. Não tenho modelos para apresentar nem acho que existam modelos ideais. Contentava-me com a regionalização do país segundo as actuais divisões administrativas. Creio, no entanto, que o país ainda vai demorar muito anos a encontrar o caminho que nos vai levar à regionalização. Conheço o perigo dos governos regionais de que Alberto João Jardim é um bom exemplo. Há formas de caciquismo mais violentos que o fascismo. Em Espanha já se realizaram manifestações com palavras de ordem do género: “no tempo de Franco era mais fácil lutar.” Mas também conheço bem este nosso velho país governado, muitos vezes, ao sabor de interesses inconfessáveis.
Os episódios à volta do novo aeroporto da Ota vieram reforçar a minha veia regionalista. O PSD, que deu o primeiro passo para a OTA, agora é contra esta solução porque já não está no poder. Sócrates já prometeu que não volta atrás. E eu confio nele. Mas os principais dirigentes do PSD ainda nos tentam fazer crer que este país tem que ser governado de forma irresponsável, com estudos em cima de estudos, como se Portugal fosse uma Caixa Geral de Depósitos. Não é. E todos sabemos isso. Sabemos mais ainda quando vivemos e trabalhamos fora dos grandes centros e sentimos o peso da interioridade como os mortos sentem o peso do caixão.
Não batas mais no ceguinho, dirão alguns dos nossos leitores mais avisados. Mas será que merecemos políticos tão deprimentes? Ora aí está uma boa pergunta para a qual gostava de ter uma resposta.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

A honestidade e carácter


Foi uma viagem de táxi que durou pouco mais de meia hora. O tempo suficiente para que ADL contasse meia dúzia de histórias da sua vida que me comoveram. Contando episódios da sua longa jornada o velho comunista não fez mais do que falar de política e do trabalho político que foi toda a sua vida de militante comunista.Nunca militei num partido político mas em jovem pertenci a uma força política ligada ao PCP. Durante oito anos ( se bem me lembro) tarimbei convivendo com algumas pessoas que me abriram os olhos à medida dos seus. Alguns, não sendo figuras de ficção, eram no entanto muito parecidos com personagens dos meus livros de cabeceira. Um dia, numa reunião preparatória de uma assembleia municipal, assisti a uma provocação de um jovem da minha idade que convidou para brigar na rua, a meio de uma discussão, o homem na altura mais prestigiado do PCP que se sentava ao meu lado. Quase que o arrastou para fora da sala, puxando-o por um braço, exaltadíssimo, ao contrário do outro que soube aguentar com serenidade as provocações do seu camarada de partido, fingindo que aquilo não era nada com ele (um já morreu e o outro é, hoje, funcionário do PCP).
Uma das últimas vezes em que meditei sobre este episódio, e nas lutas intestinas que se travam dentro dos partidos, com prejuízo para a saúde mental de cada um de nós, foi há cerca de quatro anos quando dei boleia no "meu" táxi ao velho António Dias Lourenço (ADL). Encontramo-nos já a noite ia adiantada num lugar sem transportes públicos, depois da sessão de lançamento de um novo livro de António Lobo Antunes, em que ADL tinha sido convidado especial por ser amigo do escritor de Os Cus de Judas.
Nesse dia voltei a ser simpatizante do PCP. Foi graças a homens como António Dias Lourenço que o PCP conseguiu mobilizar para as suas coligações políticas pessoas que, como eu, nunca militaram em partidos mas sempre acreditaram nos ideias de justiça e fraternidade.
A entrevista que ADL deu à Ana Santiago, que foi publicada numa das últimas edições de O MIRANTE, mexeu outra vez com os meus sentimentos. Embora vivamos, cada vez mais, num tempo em que toda a gente é funcionário cansado, e não sabe, nem sonha, que loucura é essa de ainda acreditarmos que a nossa maior riqueza é a honestidade e a firmeza do carácter.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

A azáfama socialista

Tudo leva a crer que o ex-presidente da Câmara de Santarém vai conseguir sentar no banco dos réus alguns jornalistas de O MIRANTE entre os quais me incluo. Será uma honra para mim, devo confessar, uma vez que as queixas de Rui Barreiro sobre o nosso trabalho incluem quase tudo o que escrevemos sobre ele nos quatro anos de mandato como presidente da autarquia. Tanta vez o homem juntou os textos publicados no jornal que um dia conseguiu que o Ministério Público acompanhasse a queixa. E lá vamos nós para a frente de um Juiz explicar o que é que quisemos dizer do presidente da Câmara de Santarém sempre que lhe enxertámos um nariz de pinóquio, ou quando brincámos com os seus suspensórios. Nunca escrevemos sobre ele mais do que devíamos ter escrito na sua condição de presidente da câmara, socialista e homem público. E bem o podíamos ter feito já que, entre muitas outras razões, o homem é dotado de tantas fraquezas que até enjoa. É também por causa disso que não lhe queria estar na pele quando, um dia, Francisco Moita Flores, o escritor, resolver escrever sobre a anedota política que hoje lhe faz oposição.
Foi ao ler uma entrevista do poeta António Ramos Rosa, onde ele fala do tempo em que escreveu o célebre poema “O Funcionário Cansado” ( a noite trocou-me os sonhos e as mãos/ dispersou-me os amigos/ tenho o coração confundido e a rua é estreita…), que resolvi pegar na caneta e escrever esta crónica.
Às vezes chego à porta do jornal e, em dias grandes de muito sol, apetece-me voltar para trás e regressar à vida no campo, ou na cidade, e não continuar a desperdiçar o resto da puta da vida entre paredes a remar contra a maré. Mas a vida não teria sentido se meia dúzia de cretinos nos fizessem desistir de combater contra um monstro que é esta velha mania portuguesa de premiarmos os incompetentes e obrigarmos a emigrar os que se recusam a vender a alma ao diabo.
Soube, numa conversa entre amigos, que há uma grande azáfama entre socialistas instalados no poder de Lisboa, preocupados com o facto de Rui Barreiro ainda não ocupar um “tacho” à altura da sua última derrota eleitoral. E de repente fiquei outra vez renovado. Se há coisas porque vale a pena lutar é contra a maré. Mesmo que as ondas do mar sejam traiçoeiras.

A minha homenagem a Samouco da Fonseca


Se houver nome de rua, como tudo indica, atrevo-me a deixar aqui uma sugestão à autarquia: que lhe dêem uma rua larga e comprida para se ajustar verdadeiramente ao ilustre nome de baptismo.Não fomos convidados para a festa de homenagem ao ilustre chamusquense João Samouco da Fonseca. Mas fomos contactados por algumas pessoas ilustres que nos perguntaram o que deveriam fazer ao convite que lhes chegou. Ironias do destino, alguns convidados conhecem o homenageado superficialmente, ao contrário de nós que o conhecemos de jingeira ( o termo, como todos sabem, é bem ribatejano e não tem nada de depreciativo). Perguntas que nos foram feitas e que não ficaram sem resposta. O Senhor Fonseca é uma pessoa humilde que se mistura com as pessoas da terra e convive com elas normalmente? Vai ao café ou à colectividade como todas as pessoas normais e fica a dar dois dedos de conversa com o comum dos cidadãos? É um homem de verdadeiros afectos? Quando sai à rua levanta a cabeça e cumprimenta quem passa com educação e de igual para igual? Não é rancoroso e sabe perdoar aos outros como ele próprio gosta de ser perdoado quando é fraco e humano? Mesmos os seus maiores amigos têm por ele uma admiração profunda? É uma pessoa que sabe estar no mundo social? Ele não é, pois não, daquele género de homens feios que, ao falarem, ficam formosos? Nesta homenagem vão estar ao seu lado o Victor Hugo e o Francisco Brás, talvez os dois homens ( vivos) que mais o amaram como encenador e escritor de teatro de revista?
Já lá vai o tempo em que tínhamos tempo para nos dedicarmos à escrita e realizarmos entrevistas como aquela que é recordada nas páginas online deste jornal, que pode ver emwww.omirante.pt, e que foi publicada em 15 de Julho de 1991(http://www.terrabranca.com/entrevista.pdf). Em boa hora a realizamos. As quatro páginas de entrevista e as doze fotografias que a acompanham são a melhor homenagem que ainda hoje lhe podemos prestar.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Figuras (fracas) públicas



O que me espantou no meu companheiro de almoço, e que me fez pegar na caneta ainda na tarde desse dia, foi a postura e o respeito da relação comigo. Para lá e para cá, à entrada e à saída do restaurante, não faltaram salamaleques e pescoços curvados, uma ou outra saudação em voz alta, um levantar de braços e sorrisos de orelha a orelha, tudo na tentativa de agarrar o homem pelo caminho e, com mais ou menos cuspo, lamberem-lhe ali as mãos. Imperturbável, com o passo acertado, sem deixar de ser simpático, o meu companheiro de almoço conseguiu cumprimentar toda a gente (até parece que os abraçou a todos) mas nunca desacertou o seu passo do meu e, assim como entramos, saímos do restaurante a conversar normalmente.Na passada semana fui almoçar com uma figura pública a um restaurante onde já almocei outras vezes com outras figuras públicas. O restaurante é grande e está quase sempre bem composto de clientes. Gente da classe média (na nossa região não há classe alta) profissionais liberais, alguns empresários e pessoas que normalmente têm dinheiro para um almoço a rondar os 15 euros.
Se eu entrar num restaurante de Santarém, Vila Franca ou Tomar, ninguém me conhece. Passo despercebido que é uma beleza. E não fico admirado. Eu sou uma fraca figura e um simples operário da escrita. Dirijo uma empresa de comunicação social, é verdade, mas não publico escândalos nem vou atrás dos problemas pessoais dos protagonistas das nossas notícias. Logo, estou no lugar certo e tenho, exactamente, a visibilidade que quero para mim e para quem trabalha comigo.
Escrever uma crónica sobre a atitude de alguém que é figura pública, que nos convida para almoçar num restaurante no meio de uma cidade, e que depois não nos deixa pendurado, demorando tanto tempo a cumprimentar as pessoas e a limpar a baba dos outros como demorou o tempo do almoço, parece coisa de cronista sem assunto. Mas não é. Conheço muito boa gente, de comendadores a doutores da mula ruça, que já me fizeram isso muitas vezes. E eu, que às vezes até não sou deste mundo, nem quero ser, fico de boca aberta com a falta de educação de certa gente que chega a figura pública mas nunca passará de um esqueleto com uma cabeça cheia de caca mole.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Um coração do meu tempo


Eu gosto da minha terra. E não consigo perceber aquelas pessoas que dizem mal de tudo menos delas próprias. Sei que algumas das minhas terras pararam no tempo. Teimam em ser pequenas ilhas onde cada um cuida do seu aquário. Mas não é isso que me amolece o coração. Eu ainda tenho um coração do tempo dos meus avós.Eu gosto da terra onde nasci (Chamusca) e da terra onde trabalho, e das terras que visito quase diariamente no meu ofício de operário de uma empresa de comunicação social. Não trocava a minha terra por Lisboa durante uma semana (embora goste de Lisboa, todas as semanas, em certos dias), nem por Paris, Rio de Janeiro, Amesterdão ou Madrid, quatro cidades que também conheço bem e onde gostava de ter mais tempo para estragar um par de sapatos. Se tenho que dizer mal da minha terra fico triste. Eu gosto da minha terra como gosto da minha casa e do meu quintal e dos caminhos que me levam à lezíria, à charneca ou ao bairro. Posso orgulhar-me de ser vizinho da terra onde nasceu Saramago, de ser amigo do Sérgio Carrinho, do Moita Flores, de contar entre os meus melhores amigos as pessoas mais simples deste mundo, que me fazem lembrar todos os dias o lugar de onde vim e para onde vou. E não me importo de conviver diariamente nas minhas terras com gente medíocre ou reaccionária, que se pudesse dava-me um tiro ou apertava-me as goelas, e fazia-me pagar cara as noites de insónia que lhe causei no desempenho do meu trabalho. Fazendo minhas as palavras de um editor (Cruz Santos) as minhas paixões são sempre a favor. Não tenho nada contra. E quando tenho não chega ao coração. Fica a meio caminho e num dia de sol perde-se numa curva da estrada.
Eu gosto de parar no meio da rua e conversar com os velhos da minha terra. Gosto de comer sardinhas assadas com a mão. Gosto de ir ao campo roubar laranjas para comer na altura. Gosto de alimentar a ideia de ainda conseguir construir uma barraca no meio do campo para poder voltar, um dia, a sentir o desconforto que fez os nossos ossos mais rijos. Ainda gosto de agarrar numa colher de pedreiro, num serrote, numa enxada, e fingir que sei do oficio. Gosto de subir os choupos, como na idade em que criei uma ovelha e depois vendi-a porque me recusei a comer a sua carne.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Deitar mãos à obra


Não sei nem quero saber quem vão ser os empresários da construção civil que vão enriquecer à custa do betão armado que vai nascer naquele espaço. Não sei nem quero saber quem é que tem dinheiro (eu não sou) para comprar ali uma casa para viver. Não gosto é de ouvir os mesmos de sempre a clamarem por socorro porque vem aí a desgraça, o monstro, a mão capitalista que transforma metros quadrados de terra em milhões de euros. Para os arautos da desgraça, Santarém até pode continuar a crescer graças à construção desenfreada nos subúrbios da cidade. Não interessa como nem em que condições. No Campo Emílio Infante da Câmara é que a obra tem que cair do céu.O Campo Emílio Infante da Câmara, em Santarém, é quase um território de ninguém. A gente espanta-se com o número de pessoas que ao longo dos últimos anos debitaram discursos, fizeram projectos, alimentaram ilusões e não fizeram a ponta de um corno para que o antigo campo da feira se reconvertesse no espaço que todos desejam: o novo centro da cidade. A La Defense de Santarém, a cidade do futuro.
Uma dúzia de anos depois, sem a feira do Ribatejo a impedir a reconversão daquele espaço, a discussão sobre o campo Emílio Infante da Câmara volta a estar ao rubro porque finalmente alguém decidiu (a Misericórdia de Santarém) deitar mãos à obra e iniciar o que até agora ninguém teve a coragem de assumir.
Não somos mestre-de-obras, nem temos amigos engenheiros ou arquitectos, mas também não devemos nada aos arautos da desgraça que acham que tudo o que mexe na cidade de Santarém tem que levar um tiro na cabeça. Se a Misericórdia de Santarém conseguiu finalmente um projecto com pés e cabeça para parte daquele espaço, esperamos que a obra seja feliz e que a cidade das Portas do Sol comece a ganhar finalmente um novo centro. Quem andou nestes últimos anos a fazer projectos na areia que fale mas com conhecimento de causa. Por amor à cidade e não para defender interesses pouco claros. Santarém não é um feudo de meia dúzia de empresários que falam alto e de políticos que não fazem… nem saem de cima. Haja alguém que ajude a dar o pontapé na crise e pegue os bois de caras. Mesmo que a praça de toiros venha baixo.