quinta-feira, 29 de maio de 2025

O dia de Quinta-feira de Ascensão ainda é como era dantes

A Quinta-feira de Ascensão marca os feriados municipais em 12 concelhos da região, mas só a Chamusca e Alenquer fazem da data um dia festivo. Alcanena, Almeirim, Golegã, Torres Novas, Azambuja, Benavente, Cartaxo, Salvaterra de Magos, Arruda dos Vinhos e Vila Franca de Xira comemoram a data mas apenas como celebração e consagração da Primavera.

Vivemos tempos de Ascensão que, curiosamente, incluem um dia em que é feriado em 12 concelhos da região (Alcanena, Almeirim, Golegã, Torres Novas, Azambuja, Benavente, Cartaxo, Chamusca, Salvaterra, Arruda dos Vinhos, Alenquer e Vila Franca de Xira). Só a Chamusca e Alenquer festejam o dia de Quinta-feira de Ascensão, ou Dia da Espiga, como também é conhecido, por ser o dia em que se comemora a consagração da Primavera. Apesar do feriado estar enraizado nas tradições locais, o dia feriado não é dia de festa a não ser na Chamusca e Alenquer. Em Maio de 2013 O MIRANTE publicou um texto, no seguimento de uma conversa com a maioria dos autarcas, onde o feriado é assumido apenas como dia de descanso, e todos concordaram que era assim que ia ficar, já que há outras datas para organizar festas locais. Aceito, mas não concordo. O dia do concelho devia ser festejado com iniciativas que dessem dignidade à data. Embora conceda que não sou um farol de exemplos, acho que os feriados municipais deviam ser mais valorizados. De verdade nunca festejo ou festejei o meu dia de aniversário, e quando os outros festejam a passagem do ano, ou outras datas importantes do nosso calendário, eu fico em casa a ver um filme ou a ler um livro. Mas uma coisa são os gostos pessoais, outra é a vida em comunidade.

Nos últimos anos, com a experiência da vida, só compareço a algumas iniciativas quando me apetece. Faço a gestão da minha agenda de forma a não desaparecer do mapa, mas também a não me obrigar a ser escravo do trabalho, de obrigações morais, gostos bairristas, entre outros.

Escrevo depois de ter decidido que este ano a Quinta-feira de Ascensão será um bom pretexto para uma manhã no campo a apanhar as laranjas doces que ainda restam nas laranjeiras, molhar os pés no rio, caminhar na areia durante meia hora e depois regressar a casa por caminhos da charneca, tentando olhar para o lado as vezes suficientes para não me esquecer que a paisagem mudou muito nos últimos anos, assim como mudámos muitos de nós que já não têm cu para as bebedeiras, as noitadas de picarias, os convívios pela noite fora para fortalecer amizades e reforçar o círculo de amigos.

Ainda num tempo e numa idade em que me apetece escrever/falar da sobrevivência da alma, importa lembrar que “a imortalidade não se queda apenas nas pessoas que deixam rastro luminoso da sua existência, pois também se junta ao património mental que deixam para a posteridade”. Roubei estas palavras a um livro onde o Historiador Joaquim Veríssimo Serrão escreve e deixa a sua marca, um livro que fala de homenagens, mas também serve de testemunho, para não esquecermos que somos “animais de trabalho”, mas também Homens com sentimentos, alegrias e dores que vão transformando a nossa maneira de ver e viver o mundo em que estamos mergulhados de corpo e alma.

Do livro de onde retirei esta frase está uma citação que não resisto a deixar aqui: “os homens de letras necessitam de 10 palavras para dizer o mesmo que um jurista faz em 5 páginas”. A citação justifica-se porque quero aproveitar o tempo de Ascensão para voltar a deixar aqui mais uma memória sobre o centenário do nascimento de Joaquim Veríssimo Serrão, que se comemora a 8 de Julho, e a que voltaremos mais vezes, aqui nesta coluna ou nas páginas do corpo deste jornal. JAE.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Joaquim Veríssimo Serrão: um homem comprometido com políticas de direita mas com um coração de esquerda

Joaquim Veríssimo Serrão era, para as plateias, um homem de grandes formalidades; entre amigos era uma pessoa normal que contava anedotas, desdenhava dos cretinos e dos lambe-botas, dizia o que tinha de dizer dos filhos e dos amigos, sabendo que a conversa não passava de boca em boca; era ainda uma pessoa muito pouco tolerante com os que, intelectualmente, andavam habitualmente muito bem vestidos mas traziam sempre as cuecas cagadas de muitos dias de uso.

Não posso dizer que fui amigo de Joaquim Veríssimo Serrão mas fui quase. Só o facto de a História não ser uma das disciplinas que mais cultivo não fizeram maior a nossa convivência e amizade. Joaquim Veríssimo Serrão fazia amigos com facilidade e era visceralmente um homem que gostava de ser útil aos outros. Conhecia todas as regras de um diplomata, cavalheiro e bom samaritano, não por ser um genial Historiador e Professor, mas por ser, acima de tudo, uma pessoa boa. 

O centenário do seu nascimento, que se comemora a 8 de Julho, vai ser aparentemente assinalado com a prata da casa, o que será muito pouco para o que ele merece e Santarém lhe deve. A já anunciada cerimónia incluiu gente bem intencionada, nada nos faz duvidar disso, mas é só mais uma iniciativa à boa maneira local:  convidam-se os professores doutores do costume, assim como os doutourandos, e está garantido o sucesso da iniciativa. Santarém tem lepra quando é preciso mostrar grandeza e orgulho. Parece que o 25 de Abril não mudou mentalidades em certos sectores da sociedade. Não escrevo mais sobre este problema escalabitano, que tem raízes noutros concelhos, porque seria bater no ceguinho se trouxesse aqui o que penso da instituição que foi fundada para valorizar o trabalho de Joaquim Veríssimo Serrão, o seu nome e a sua obra.

Joaquim Veríssimo Serrão era, para as plateias, um homem de grandes formalidades; entre amigos era uma pessoa normal que contava anedotas, desdenhava dos cretinos e dos lambe-botas, dizia o que tinha de dizer dos filhos e dos amigos, sabendo que a conversa não passava de boca em boca; era ainda uma pessoa muito pouco tolerante com os que, intelectualmente, andavam habitualmente muito bem vestidos mas traziam sempre as cuecas cagadas de muitos dias de uso.  

Num país culto e politicamente evoluído, que não o nosso, aprisionado por interesses inconfessáveis daqueles que continuam a governar sem cultura democrática, os livros que cito neste texto  eram de leitura obrigatória nas universidades e em todos os fóruns onde se discute o futuro do mundo e dos homens, a injustiça e a solidariedade entre os povos.

O livro "Correspondência com Marcelo Caetano 1974-1980", tem uma história que merece outro livro. Algumas cartas antes de serem entregues ao remetente foram lidas num acto de censura que não se justificava no período que já se tinha vivido em democracia e, segundo sabemos, algumas dessas cartas ficaram inéditas. Escrevo de cor, do que ouvi a pessoas amigas, não tenho qualquer relação com a família ou com o Centro de Investigação com o seu nome, embora receba com regularidade os convites para as sessões, mas não preciso de ajuda para considerar este livro de republicação obrigatória no centenário do seu autor, ainda por cima numa altura em que a revolução de Abril já completou meio século. Sim, o livro é sobre amizade, confiança, solidariedade e revolução, e sobre censura e falta de respeito pelos valores e direitos humanos que nenhum 25 de Abril consegue implantar definitivamente para todas as pessoas, sem excepção, ontem como hoje.

Compreendo os que ainda têm medo de se colarem à memória do ilustre Historiador, principalmente pelo que ele escreveu em “Confissões no Exílio”. O que lá está escrito ninguém poderá ignorar, sequer rasgar, de forma a fazer desaparecer as opiniões do autor sobre Salazar e Marcelo Caetano.  Nada disso envergonha ou deve limitar a palavra ou a admiração pelo Homem, o Historiador e o escalabitano ferrenho. Joaquim Veríssimo Serrão era um homem assumidamente de direita, devido às suas amizades e à fidelidade canina que gostava de exibir, muitas vezes até de forma exagerada. De coração era um esquerdista. Quem conseguisse chegar à fala com ele podia contar com o que precisasse se estivesse ao seu alcance. 

Temo que as novas gerações não venham a conhecer, principalmente nas escolas e universidades, um homem brilhante, que dedicou toda a sua vida a escrever a História de Portugal e a lutar pelos seus ideais, pelos seus amigos e pelo seu país, na grande maioria das vezes escrevendo para dar testemunho.

Santarém não pode confiar a Obra e a memória de Joaquim Veríssimo Serrão só a quem se sente herdeiro do seu legado. A sua herança ainda incomoda e condiciona muita gente que ficou presa ao passado recente. Por isso é preciso ver mais longe, sentir mais de perto, julgar sem sentenciar, homenagear sem sentimentalismos bacocos. 

Santarém já não é só "um livro de pedra" como lhe chamou Almeida Garret. Santarém de hoje é, também, uma pedra no sapato de muita gente que tenta varrer a importância da cidade e das suas gentes para os buracos das muralhas milenares. Joaquim Veríssimo Serrão não ganhou o prémio Nobel como José Saramago, mas estão os dois por aí, mais perto ou mais longe, a contribuírem para que a História se vá  reescrevendo, e a darem o exemplo que não pode nem deve ser desperdiçado pelas novas gerações; também porque é cada vez mais raro encontrar gente com coluna vertebral, que não se verga a interesses mesquinhos, que não vive de joelhos nem renega os seus ideais por mais que isso lhe custe os olhos da cara. JAE.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Um elogio ao ministro Pedro Duarte e uma boa razão para dormir na casa do cão

O governo caiu a menos de um ano de trabalho mas o ministro Pedro Duarte não deixou de cumprir o prometido à imprensa regional. Pelo menos 200 dos cerca de 308 concelhos de Portugal não têm uma livraria. Não faltará muito tempo para que também não tenham uma papelaria ou um local ou se vendam jornais.

O governo de Luís Montenegro caiu mas vai ficar na memória de muitos empresários e jornalistas que trabalham na imprensa local e regional. O ministro Pedro Duarte cumpriu uma das suas promessas de ajudar a imprensa local e regional, e corrigiu um erro crasso de um antigo governante do Partido Socialista, que há mais de duas dezenas de anos mandou cortar ao meio no incentivo à leitura com a mesma facilidade com que bebia água quando tinha sede. Já nessa altura Portugal era dos poucos países da Europa que não tinha  políticas públicas de avaliação como havia na maioria dos países desenvolvidos. Mais de vinte anos passados nada mudou de substancial ao nível dessas avaliações, mas o ministro da tutela não saiu sem cumprir a promessa de ajudar a imprensa regional e local, e aumentou a comparticipação do Estado para 85% do valor total pago aos CTT. 

Na última década fecharam mais de metade dos jornais que se editavam em Portugal. Pelo menos 200 dos cerca de 308 concelhos de Portugal não têm uma livraria. Não faltará muito tempo para que também não tenham uma papelaria ou um local ou se vendam jornais. O cerco aperta-se para a comunicação social de proximidade, e as empresas mais fracas, antes de começarem a poupar na tiragem, começam a trabalhar sem jornalistas que assegurem uma informação independente e de qualidade, limitando-se a republicarem textos sem qualquer validade para a cultura local, a grande maioria textos de opinião e de informação institucional.

O Congresso Mundial de Jornalistas atribuiu no passado dia 4 de Maio a Caneta de Ouro da Liberdade à Associação de Editores de Imprensa Regional da Ucrânia. Oleksii Pogorelov, presidente da Associação de Negócios de Mídia da Ucrânia, ressaltou na hora dos agradecimentos a motivação que inspira a imprensa independente a continuar seu trabalho. “Na Ucrânia, o jornalismo não é apenas uma profissão. É uma forma de sobreviver, uma forma de preservar a memória e uma forma de resistir”, disse, acrescentando que, “quando os jornalistas se calam, os ocupantes falam em seu lugar. Não escrevemos porque somos corajosos. Escrevemos porque o silêncio não é uma opção. O jornalismo independente não é um luxo, é a infraestrutura da liberdade”.

Escrevo esta crónica a poucos dias das eleições e depois de ter visto na televisão, em diferido,  o debate entre os dois principais candidatos dos dois partidos mais representativos da democracia portuguesa. Juntei-me aos cerca de quase três milhões de portugueses que assistiram à contenda em directo e na hora da briga. Não sinto o orgulho de outros tempos por se aproximar a hora de votar mais uma vez. E não sinto qualquer remorso por me recusar a ver os debates organizados pelas televisões que, desde há muitos anos, se transformaram num lavar de roupa suja que nos deixa nervosos e sem sono, sabendo que o que está em causa para o nosso futuro nunca será discutido nem conversado de forma a que tenhamos esperança num pacto de regime para as políticas da saúde da educação, da justiça, dos transportes e da habitação; o objectivo principal parece o mesmo dos tempos do PREC (Plano Revolucionário em Curso) em que as palavras de ordem eram dividir para reinar.

Por último: há quase quarenta anos que em certos dias acordo a meio da noite para corrigir uma frase, ou apenas uma palavra, de um texto que no outro dia vai sair em letra de forma, no meio de uma notícia ou de uma reportagem, depois do jornal chegar à máquina de impressão. As palavras são traiçoeiras e às vezes escrevemos barbaridades pensando que estamos a escrever um texto inspirado em Fernão Mendes Pinto ou Gabriel Garcia Marquez. Ainda hoje é assim, embora sinta menos o peso da responsabilidade. O JL (Jornal de Letras) saiu um dia destes para as bancas com um número dedicado a Camilo Castelo Branco publicando na capa, a toda a largura e altura, a foto (uma famosa pintura de João Abel Manta) de Eça de Queirós. Juro que, se um dia for responsável por um erro destes, vou dormir no quintal, na casa do cão, no mínimo durante um ano. E conto isto só para dizer que em quase quarenta anos nunca uma capa de O MIRANTE foi para a máquina de  impressão sem que eu lhe tivesse posto os olhos em cima. JAE.

quinta-feira, 1 de maio de 2025

O 25 de Abril e o apagão

O PCP deixou de ser no Ribatejo um partido mobilizador, os homens que lhe davam força foram morrendo no verdadeiro sentido da palavra, e outros foram morrendo para a ideia de que ainda podemos acreditar nos amanhãs que cantam.


A democracia portuguesa perdeu qualidades, 51 anos depois do 25 de Abril de 1974. O povo que saiu à rua já não é o mesmo que hoje vai ao arraial, embora a luta por um mundo melhor continue a ser uma boa razão para desfilar, ou simplesmente sair à rua, com o cravo vermelho ao peito.

Ouvi algumas comunicações/discursos sobre o 25 de Abril e corei de vergonha. Discursos pobres, sem conteúdos, a fugirem à realidade nua e crua, autarcas acomodados que, para não se incomodarem, escreveram e leram textos merdosos para tentarem escapar entre os pingos da chuva. Mas houve excepções, e desta vez Rio Maior foi a maior de todas, assim como a de Constância que aproveitou para recordar, pelos nomes próprios, os militares do concelho que morreram na guerra. Deixo mais informações para quem gosta de explorar a internet e as gravações das assembleias municipais onde alguns políticos locais fizeram figuras de bichos do mato com gravata.

Desde Abril de 1974 que conheço e tenho relação de amizade/proximidade com um homem que foi membro do Comité Central do PCP, deputado na Assembleia da República, dirigente e militante fervoroso. Nos últimos 30 anos comecei a vê-lo chegar do campo ao fim do dia com o seu tractor e no seu fato de trabalho. Para ele o dia 25 de Abril começou a ser comemorado no meio da Lezíria, onde ainda hoje ganha a vida todos os dias. Nos primeiros anos ficava indignado. Pensava cá com os meus botões: como é que alguém perde as suas convicções ao ponto de ir trabalhar todo o dia na data em que se comemora uma das revoluções mais bonitas que aconteceram no mundo, em que caiu uma ditadura quase sem um pingo de sangue. E ainda por cima foi um dos que mais saiu à rua e discursou das varandas.

Nunca lhe falei do assunto. Às vezes encontrava-o e falávamos de política, mas ele nunca disse mais do que aquilo que eu já sabia. Habituei-me, depois, a ver outros camaradas a fazerem exactamente o mesmo: a aproveitarem o feriado para trabalharem nas suas propriedades. O PCP deixou de ser no Ribatejo um partido mobilizador, os homens que lhe davam força foram morrendo no verdadeiro sentido da palavra, e outros foram morrendo para a ideia de que ainda podemos acreditar nos amanhãs que cantam. Hoje sou eu que escolho todos os feriados, incluindo o do dia 25 de Abril, para sujar as botas de terra do campo e cuidar da meia dúzia de árvores de fruto que vou partilhando com os pássaros. Vou ficando ligado às comemorações porque tenho essa obrigação, mas fico triste por ver como alguns autarcas maltratam a data, esquecendo que têm 50 anos de memórias para poderem trabalhar na data festiva, e um mundo virado do avesso como não tínhamos há 50 anos.

Meio século depois do 25 de Abril, e já que a regionalização está a ser feita de cu para o ar, paulatinamente, os municípios podiam aproveitar para realizar acções conjuntas de sensibilização das populações para minorarem os bairrismos doentios, as fronteiras que ainda existem entre vilas, aldeias e lugares, como se vivêssemos ainda numa monarquia.


O apagão do dia 28 de Abril foi uma espécie de revolução. Em algumas terras do Ribatejo parecia um dia feriado com a particularidade de haver mais gente na rua e nos parques, muito mais que aos domingos. Em Lisboa foi o caos. Mas só visto. Do aeroporto ao Martim Moniz havia centenas de pessoas a puxarem pelas malas a caminho dos hóteis onde iam dormir. E na cidade como nas vilas e aldeias muita gente de garrafões e sacos de comida preparavam-se para o pior que, felizmente, não aconteceu. JAE.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

O Papa Francisco e Jorge O Mourão

Esta crónica dormia num computador e renasceu no dia da morte do Papa Francisco. É dedicada ao cineasta Jorge O Mourão a quem fiquei a dever uma homenagem em vida. Esta crónica, sem o uso de aspas aspas, é uma forma de homenagear um homem que nunca ficou em casa a dar comida aos pombos; tal como o Papa Francisco que resolveu aceitar ser Papa para tentar acabar com o fanatismo no seio da Igreja.

Esta crónica começa com uma mensagem de voz no telemóvel. “Ok Joaquim estou a caminho do boteco na rua Francisco Serrador. O boteco chama-se “Escadinhas” por razões óbvias. Te espero”. 

Jorge O Mourão é um cineasta de 78 anos com cerca de meia centena de curtas e documentários que fazem parte da história do cinema brasileiro.  O privilégio de nos conhecermos deveu-se ao encontro no Bairro da Glória, a um sábado, à hora do almoço, em dia de feira de rua, num encontro que durou até ao cair da tarde, quando os corpos quase nus começaram a desaparecer na paisagem, e o Carnaval já estava na rua. Dia 5 de Fevereiro de 2024.

 O poeta Alexei Bueno pediu a meio do convívio para ser fotografado, de charuto ao canto da boca, ao lado daquele que para ele é o Godard brasileiro. O Mourão estava na nossa companhia graças ao André Seffrin, que o conhece desde que chegou ao Rio de Janeiro há quarenta anos. O Mourão era amigo do Walmir Ayala, jornalista, crítico de artes e escritor, com quem André Seffrin trabalhou, e que ficou para sempre ligado à sua vida.

O reencontro, dois dias depois, foi para receber um livrinho da autoria do cineasta que é um marco na sua vida. O livro deixa testemunho da vida de um artista que tem seis filhos de cinco mulheres, que sempre perseguiu um objectivo de vida que era ter um filho de 10 em 10 anos e fazer um filme de 5 em 5. Ficou por cumprir na íntegra porque, um dia, em Trancoso, apareceu-lhe pela frente uma alemã, “que parecia um anjo, branquinha como a neve”. Ao chegar perto dele desatou o cabelo e quase voou atrás dele ao abanar o pescoço, para que o cabelo caísse até quase à sua bunda. “O namorado estava com ela, mas era um hippie em início de vida”. Facilmente o cineasta percebeu que ia dormir pela primeira vez com um anjo. E dormiu. E tudo acabou em poucos dias. Um ano depois a alemã voltou a Trancoso e trazia uma criança nos braços. Hoje esse filho do Jorge tem 32 anos, e ele foi conhecê-lo há pouco tempo, em território alemão, e só não morreu lá quase por milagre.

Jorge O Mourão foi recentemente tema de capa do jornal “Folha de S. Paulo”, que lhe dedicou três páginas no caderno de cultura. Está lá contada uma boa parte da história de vida do autor que fugiu da ditadura brasileira para Nova Iorque, e fez-se traficante de cocaína para sobreviver. Conviveu com os grandes vultos da cultura americana dessa época, e disso dá conta no seu livro. Miles Davis pediu-lhe para ele “comer” a sua mulher; o músico John Lennon e o poeta Allen Ginsberg, entre outros famosos da altura, assinaram petições que o Jorge organizava para combater a ditadura brasileira. 

Na conversa na esplanada da rua Francisco Serrador, Jorge O Mourão explicou a presença no Rio de Janeiro do seu filho caçula, que está a ajudá-lo a organizar milhares de papéis, fotos e outras memórias de uma longa vida de activismo ligado ao cinema, ao jornalismo, à literatura, à política e à representação.

“Sempre fui um fazedor compulsivo, mas não um organizador. O meu grande sonho era voltar a Vale de Remígio, terra do meu avô, e morrer por lá a beber vinho do Porto e a comer queijo Serra da Estrela. Ainda tenho esse sonho. Quando fui ao Algarve fazer um filme fiquei uns dias numa pensão em Lisboa. A moça portuguesa que me acompanhava queria que eu dissesse quando voltava para o Brasil. Respondi-lhe que toda a minha vida viajei sem bilhete de volta. Nunca marquei datas de regresso. O importante é partir, voltar é sempre quando dá jeito ou chegamos ao fim de um caminho”. Conseguir a dupla nacionalidade é outro dos seus objectivos.  “Mas eu tenho um problema cujas iniciais são parecidas com um problema que afecta as mulheres todos os meses: Sofro de DPM, ou seja, tenho a doença da dispersão, preguiça e modéstia”. “Há quatro anos um moço australiano andou à minha procura no Rio de Janeiro. Acabou por me encontrar e fui convidado para ir a Nova Iorque para uma mostra de cinema internacional. Estive lá e fui recebido como uma vedeta. Foi nessa altura que ia morrendo quando aproveitei para viajar para a Alemanha e conhecer o meu filho”.

O espaço não chega para continuar a citar mais frases do Jorge e algumas partes do trabalho editorial da Folha de S. Paulo. Quem estiver a ler este texto não julgue que a conversa foi só ao ritmo de novela. Nos dois encontros, o cheiro a churrasco no bairro da Glória, e o cheiro a bafio da rua Francisco Serrador, podiam ser matéria importante para um romance ou uma biografia de O Mourão. O autor deste texto estava de férias e perdeu a oportunidade de meter o nariz no anexo alugado onde Jorge O Mourão guarda o seu espólio.

Este texto dormia no computador e renasceu no dia da morte do Papa Francisco. Jorge O Mourão também morreu, entretanto, e os seus 60 filmes ficaram para contar a história de um artista subversivo, que conheci já em final de vida, e que recordo como um Papa Francisco, com uma voz doce, um desejo imenso de me ouvir falar da região de Trás os Montes, de Lisboa, das raízes portuguesas que pareciam sair do seu peito cabeludo e do seu corpo magro, mas ainda cheio de energia. Abençoado Papa Francisco, abençoado cineasta Jorge O Mourão. JAE.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

O bullying no jornalismo

Quem conhece um pouco da história deste meio século de liberdade tem na vida dos jornais, das revistas e das televisões, mas principalmente nos jornais, um retrato do país. E não é nada de que nos possamos orgulhar. Isto está mau para a liberdade de imprensa, qualquer bardamerda que acha que os jornalistas têm as costas largas vai apresentar uma queixa por difamação. De verdade, o que eles querem é condicionar, meter medo, chatear, roubar tempo, obrigar o jornalista a perder a paciência, a pensar se não é melhor mudar de ofício.


Guardo da minha infância um recado dos mais velhos, que começava na voz autoritária do meu pai e acabava nos conselhos que nem sempre procurava dos homens mais velhos com quem aprendi a viver: “Não te queixes rapaz, se não puderes arreia, mas não te queixes que se tiveres que arrear vai custar-te o dobro”.

Às vezes olho por mim abaixo e pergunto-me como cheguei até aqui, como é que fiz todo este caminho e nem dei pelos anos passarem. Lembro-me de ser um rapaz soberbo, convencido que quando se tem vinte anos de idade a eternidade está assegurada. Hoje estou quase no fim da linha e nem acredito. Só sei que continuo a ser o rapaz de antigamente porque continuo a ser incapaz de me queixar que não seja ao médico. E mesmo nas consultas esqueço-me sempre de algo importante. Falo com os médicos do Sporting, do trabalho, dos livros, das viagens, e só quando chego à rua é que me lembro que deixei a consulta a meio.

Já fui a tribunal uma centena de vezes e tenho aprendido a lidar com a Justiça sem me queixar. Fui constituído arguido centenas de vezes sempre sem medo de ser condenado. Confesso que perdi o conto às vezes em que fui à PSP e ao Procurador do Tribunal prestar declarações. Um dos advogados que actualmente me assiste disse-me recentemente, numa conversa de preparação de um julgamento, que eu tenho a mania que qualquer dia também aprendo a fazer a revisão do meu carro. Disse-lhe que tinha ido prestar declarações numa acusação com mais de trinta páginas e ele, com a mão na cara, foi perguntando, “e falou?”, e eu disse que sim, e ele ainda tapou mais o rosto e gozou comigo por eu ter a mania da facilitar e pensar que a verdade é como o azeite.

É claro que ainda não é hoje que me vou queixar, mas isto está mau para a liberdade de imprensa, qualquer bardamerda que acha que os jornalistas têm as costas largas vai apresentar uma queixa por difamação. De verdade, o que eles querem é condicionar, meter medo, chatear, roubar tempo, obrigar o jornalista a perder a paciência, a pensar se não é melhor mudar de ofício, ou a fazer como muitos falsos jornalistas que vêm para a profissão para um dia chegarem a assessores de imprensa e ficarem perto dos gajos que são donos disto tudo. Quem conhece um pouco da história deste meio século de liberdade tem na vida dos jornais, das revistas e das televisões, mas principalmente nos jornais, um retrato do país. E não é nada de que nos possamos orgulhar. E em muitos casos até nos devia envergonhar. Mas o saldo é positivo, continua a ser a favor da classe. O problema desta vida é que há pessoas que nunca estão satisfeitas com o seu trabalho, sobretudo os jornalistas, talvez a profissão mais bela do mundo mas igualmente a mais ingrata e trabalhosa.

Muita gente sabe o que é o bullying nas escolas, na vida dos adolescentes, mas poucos conhecem o termo na profissão de jornalista. Lido com o problema há muitos anos e por variadas razões , todas relacionadas com pessoas que se sentem poderosas, que engoliram o globo terrestre e que acham que o dinheiro e as influências os ajudam a falar e a pensar. Nunca me queixei, ou me senti vítima, sempre encarei o bullying como uma consequência do meu trabalho, hoje mais do meu dever do que do meu trabalho. Mas denunciar estas práticas, que são criminosas, é o dever de qualquer jornalista que sabe que tem leitores interessados no seu trabalho.

Esta semana passei pelas caixas automáticas dos supermercados Continente para me despachar mais rapidamente. E não consegui a factura dos dois artigos. Fiquei danado. Na loja logo ao lado (estava num centro comercial) ouvi esta conversa que parecia ser para mim: “não uses aquelas caixas; estás a contribuir para quem quer diminuir postos de trabalho”. Sem qualquer justificação lembrei-me que esta semana a Benedita, que só tem 9 meses, andava pelo chão da redacção do jornal, enquanto a mãe e o pai não iam para casa. Quando escrevo, no início do texto, sobre os tempos em que pensava que era eterno, não sabia que a eternidade se conquistava deixando o que temos aos nossos filhos e netos para eles continuarem o nosso legado. Mas nada disto se diz, escreve e pensa, sem um certo receio: esta vida de jornalista e editor é a melhor herança que se pode deixar aos filhos e aos netos? Acredito que sim. E acredito convencido que eles vão ser bem melhores do que eu fui, no trabalho e na gestão, e muito mais inteligentes para não trabalharem tanto e até tão tarde na vida. JAE.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Ordens profissionais estão sempre a ver as pilinhas uns dos outros e assim o SNS não passa da cepa torta

As ordens profissionais estão sempre a ver as pilinhas uns dos outros; de reunião em reunião parece que isto vai, mas depois nunca vai. Nestes últimos tempos os serviços de obstetrícia não funcionam regularmente porque não há médicos, mas os serviços estão cheios de enfermeiros e enfermeiras de braços cruzados sem trabalho. Como a classe não trabalha sem médicos, então não trabalha ninguém.

A idade de um colunista de imprensa tem muito a ver com o seu estilo. Regra geral os velhos jornalistas são mais amargos a escreverem, enquanto os mais novos trazem para o debate questões mais leves, divertidas e muitas vezes felizes. Faço sempre este exercício quando escrevo, e tento moderar-me para não contribuir para o azedume que estraga grande parte dos nossos dias, mesmo antes de chegarmos a casa e vermos os noticiários miseráveis que as televisões nos oferecem.

Num dos últimos fins-de-semana fui fazer um retiro de yoga onde pratiquei pela primeira vez na água. Mais uma vez era um homem entre mulheres. Nada que não me tenha já acontecido noutros retiros, e noutros cursos que frequento com regularidade. Desta vez encontrei uma enfermeira que trabalha com grávidas e faz parte de um grupo de profissionais que defendem com unhas e dentes o parto na água. Claro que a grande maioria dos hospitais não têm condições para a prática do parto na água, e mesmo quando têm os médicos torcem o nariz porque dá mais trabalho e exige mais tempo. Mas as histórias que ouvi ao longo de dois dias são de arrepiar numa área da saúde que deveria ser a primeira em qualquer hospital do mundo.

Como todos sabemos os serviços de obstetrícia da grande maioria dos hospitais do país estão em grandes dificuldades, sem urgências ao fim-de-semana, sem médicos durante muitos dias, num caos que certamente está a fazer aumentar a mortalidade infantil e o sofrimento às mulheres que, quase sem excepção, quando estão grávidas vivem momentos de grande angústia, não só com as dores mas, acima de tudo, com medo de perderem os filhos ou de nascerem com problemas de saúde.

O que mais ouvi, e me deixou perplexo, foi a frase chave que a enfermeira costuma transmitir às grávidas a quem reconhece capacidade de gerir o seu estado físico e espiritual: “do outro lado não está o inimigo, mas tu mulher tens que fazer o teu trabalho, não te podes entregar e calar a tudo o que te dizem e mandam fazer, se não fizeres a tua parte vai correr mal, tens que saber quais são os teus direitos”. Resumindo, para não estar aqui a escrever o óbvio e a bater no ceguinho, voltando a citar a enfermeira Inês: “as ordens profissionais estão sempre a ver as pilinhas uns dos outros; de reunião em reunião parece que isto vai, mas depois nunca vai”. Nestes últimos tempos os serviços de obstetrícia não funcionam regularmente porque não há médicos, mas os serviços estão cheios de enfermeiros e enfermeiras de braços cruzados sem trabalho. Como a classe não trabalha sem médicos, então não trabalha ninguém. E se chegar uma grávida à urgência que não conseguiu marcar a sua consulta, mesmo que vá a gritar com dores, vai ter que voltar pelo mesmo caminho de onde veio. Concluindo: a maternidade e o apoio à maternidade, que devia ser um trabalho único no Serviço Nacional de Saúde, é uma desgraça ao nível daquilo que se passa em qualquer pocilga ou estalagem no meio do nada, onde os políticos que nos governam facturam à fartazana, para depois receberem os dividendos em envelopes ou das contas bancárias dos seus testas de ferro.

Há quatro dezenas de anos, quando vivi estes problemas na pele, pagava a uma enfermeira para ter a certeza que nem os meus filhos nem a mãe deles ficavam à porta da maternidade ou atrasavam o parto porque os serviços estavam em greve ou não havia médicos suficientes. Hoje ouço, vejo e leio o que se passa nas maternidades e no SNS, e pergunto: quando é que as Ordens Profissionais vão deixar de andar a contar pilinhas, e os políticos que governam o país ganham vergonha quando começam a receber informações de que a mortalidade infantil está a aumentar devido a gravidezes mal vigiadas e acesso desigual a cuidados de saúde. JAE.