“Leiria não existe” segundo a publicidade, mas Ourém também não. Luís Albuquerque chorou frente às televisões, mas as suas lágrimas tiveram menos impacto que as palavras duras de Santana Lopes na Figueira da Foz.
Leiria não existe: esta é a frase principal de uma campanha de publicidade outdoor paga pela câmara municipal que vai servir para introduzir nesta página, humor negro, que é um género raro talvez por falta de inspiração do cronista.
No distrito de Leiria a tempestade Kristin levou coberturas de prédios no valor de milhões de euros, alguns moradores endinheirados salvaram-se escondendo-se em grupo nas casas de banho, grande parte das empresas com coberturas e montras de vidro e alumínio foram destruídas, e tudo o que lá estava dentro desapareceu ou ficou inoperacional. Habitações familiares de gente pobre e rica foram tratadas de forma cruel por uma ventania que soprou a mais de 200 quilómetros por hora, que a chuva engrossou, originando prejuízos e infortúnios sem escolher classes sociais ou a idade das vítimas. Leiria quase desapareceu do mapa. Há centenas de empresas que vão ter dificuldades em voltar à normalidade, e centenas ou milhares de casas que, no dia em que escrevemos esta crónica, ainda não têm telhado. Se toda esta desgraça fosse em Lisboa, as televisões tinham tempo de antena para duas semanas, e os membros do governo e comentadores tinham que trabalhar horas a mais. Certamente que de Espanha tinham vindo telhas que dariam para tapar todos os telhados de Lisboa. Como foi em Leiria, as notícias foram muitas, mas a qualidade da informação foi escassa, tanto quanto a da ajuda. As filmagens dos prejuízos e as reportagens nos locais começaram quando o próprio presidente da câmara se mostrou incrédulo por não ter do seu lado, e da sua população, todos os meios necessários para fazer frente a uma catástrofe sem igual em Portugal. Vale escrever outra vez que Leiria não existe mesmo no mapa dos grandes interesses nacionais. Santarém também não. Coimbra idem idem, aspas aspas. Mas Leiria teve a ousadia de fazer uma campanha de publicidade dizendo o óbvio, embora a campanha seja considerada um êxito, o que a realidade veio desmentir.
Estamos nas mãos dos capitalistas da distribuição, dos bancos e das energias. Eles mandam, e os governos e os que se alimentam do Sistema obedecem. Mesmo que alguns de nós mijemos fora do penico, depressa levamos com o nosso mijo na cara e temos que ficar de boca calada. Leiria não existe. É altura da câmara municipal dizer quanto pagou por esta publicidade que só serviu para provar que a água não tem cor.
Ourém também não existe, como todos sabemos, mesmo tendo no concelho o Santuário de Fátima, que é conhecido em todo o mundo e é a maior atracção turística do país. Luís Albuquerque chorou frente às televisões, mas as suas lágrimas tiveram menos impacto que as palavras duras de Santana Lopes na Figueira da Foz, que depois de mostrar desagrado pela falta de solidariedade das instituições governamentais recebeu quase de imediato a visita do Presidente da República.
O concelho de Santarém, Tomar e Abrantes, que reúnem um maior número de habitantes, ainda sofrem com a falta de luz, internet e telhas em algumas casas das freguesias. Mas a comparação com o que se passou e está a passar no distrito de Leiria não tem sentido devido ao tamanho e dimensão dos prejuízos patrimoniais e humanos. JAE.