quarta-feira, 22 de maio de 2013

A mão de Deus

Há um forno comunitário para cozer pão na aldeia da Pereira; corre uma ribeira na charneca entre o Arripiado e Constância que nos leva a paraísos que só costumamos ver nos livros e nas revistas que falam de viagens a lugares inesquecíveis; no “Outeiro Alto”, que é uma quintinha mesmo junto ao Parque Ambiental de Santa Margarida, vive o “Vento”, um cavalo de respeito que se deixa montar por qualquer sopro de vida; em Constância, junto ao Tejo, o “Pezinhos no Rio” tem uma cozinha espectacular com a sopa de peixe e a sopa da pedra a vulgarizarem (no bom sentido, é claro) os chefes de cozinha dos restaurantes típicos de Almeirim; a Ponto Aventura é gerida por um senhor chamado Carlos Silvério que tem uma excelente vocação para a direcção e para a organização de desportos radicais; a praia fluvial da Aldeia do Mato não é para os lados da Nazaré; é mesmo aqui, ali onde se chega de moto ou de bicicleta para os mais desportistas; e na aldeia podem comprar-se amendoins e tremoços avulso em quantidades e a preços que já não se usam.
 Quem é que não sonha ser dono de um pedaço de terra para construir uma casa, um charco, e no meio do quintal uma vedação para criar ovelhas, cabras, pavões e galinhas? Ali, a dois passos do Parque Ambiental de Santa Margarida, em todos aqueles conjuntos de casas que dão nome a aldeias de que sempre ouvimos falar, vive- se verdadeiramente o espírito comunitário do século passado mas percebe-se que estamos no primeiro mundo, e que só a pobreza do chão, dos telhados das casas e das ervas dos caminhos, é verdadeiramente franciscana; o resto é território espiritual para qualquer pessoa explorar até se sentir dona do mundo.
A Nersant, com a organização do Challenger, proporciona uma das iniciativas mais brilhantes de serviço à região ribatejana e à sua beleza natural. Esta prova devia ser filmada todos os anos e mostrada no Centro Cultural de Belém, aos domingos, em ecrã gigante, aos meninos e às meninas que julgam que o Tejo nasce em Cascais e depois sobe até Vila Velha de Rodão; que galinhas, ovelhas e raposas são todas aquelas criaturas que as mães dizem para eles evitarem enquanto mudam do jardim do Príncipe Real para a Avenida da Liberdade, do Largo do Carmo para o Rossio ou da Praça do Comércio para o Parque Eduardo VII.
Não jogamos a partida de bilhar nem abri o computador. Neste último fim-de-semana não escrevi uma linha nem abri um livro. Mas não me livrei, no domingo à noite, de ver no cinema o recém estreado “Assalto à Casa Branca”, pura propaganda à política dos americanos que sempre acham que os europeus, alguns europeus, são estúpidos por aceitarem viver em aldeias encantadas como a Pereira, onde as armas nucleares são os excrementos dos animais que fazem crescer uma couve mais depressa que a mão abonada de Deus. JAE

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O maior aldrabão é político


Às vezes pergunto-me sobre o que me move! Que razões tenho para continuar a fazer as mesmas coisas de há vinte anos e a cair nas mãos de passarões e passaronas que me usam como quem usa sabão azul. O que é que eu ganhei em ter passado tantas noites sem dormir a queimar as pestanas, trabalhando no duro durante o dia, para agora me entregar a um projecto que tem apenas como missão fazer serviço público?
Só tenho uma resposta: como gosto da política mas não suporto a vida política, o jornalismo permite-me a mesma intervenção pública e preocupada sobre o colectivo em que estou inserido. Também eu penso que se a sociedade falhar eu também falharei como homem e como cidadão. Não consigo ainda pensar que chegou a hora de viver dos rendimentos que é coisa que muita gente faz, até antes de ter rendimentos, vivendo, é claro, dos rendimentos dos outros. Tenho projectos de vida fantásticos e excelentes condições para os concretizar mas isso obriga-me a afastar-me do meu trabalho dos últimos anos. Todos os dias penso no assunto. Todas as manhãs salto da cama e digo: é hoje que dou a estocada final no toiro que sou eu próprio e deixo que a espada ensanguente o meu cachaço.
O maior mentiroso que encontrei na minha já longa vida disse-me, muito antes de eu perceber que ele era um aldabrão, que ia candidatar-se a um cargo público porque estava na hora de devolver ao país aquilo que o país lhe tinha dado. Vim a saber mais tarde que afinal ele foi para a política porque precisava de safar a vidinha que estava pelas ruas da amargura. Nunca mais saiu; troca de amigos como quem troca de camisa: e só falta que um dia destes caia na fossa que é o que acontece a todos os que só mexem em esterco.
Uma última nota: a Câmara de Santarém, de Francisco Moita Flores, agora de Ricardo Gonçalves, está numa classificação vergonhosa relativamente às que pagam mais tarde aos seus fornecedores. Para ganhar a câmara há quase oito anos uma das bandeiras políticas de Moita Flores foram as dívidas dos seus antecessores. Alguém tem dúvidas que a palavra desta gente já não vale para nada?

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A vergonha do Tribunal de Almeirim


A situação do Tribunal de Almeirim é a maior prova da vergonha nacional em que se encontra a nossa justiça e o exercício político dos autarcas com responsabilidades na qualidade da nossa vida. O tribunal não funciona pura e simplesmente. Neste caso tem juízes mas só tem uma sala para as muitas audiências em espera. Confrontado com esta situação, Joaquim Sousa Gomes disse a O MIRANTE que já tinha feito o que estava ao seu alcance, que era trazer o tribunal para a cidade. Segundo ele, o resto, que é tudo, já não é da sua competência. Enfim, Sousa Gomes conquista um tribunal para a sua cidade e depois dão-lhe um presente envenenado e ele diz que não é visto nem achado no assunto.
Só para termos uma ideia do escândalo, já ouvi advogados dizerem a quem tem processos naquela Comarca que lhes mande rezar por alma. Se conseguir um acordo, mesmo mau, não pense duas vezes, pois os processos naquele tribunal vão apodrecer nas prateleiras, dizem todos os advogados com quem já falei, sejam de Lisboa, Porto ou Santarém.
É assim que funciona o país; temos cidadãos de primeira e de segunda; os de segunda são aqueles que se deixam enganar pelo governo da nação e pelo governo local. O Tribunal de Almeirim deve ser caso único no mundo: tem dois juízes mas só tem uma sala de audiência. Não acham que o assunto revolta para quem tem lá os seus processos desde que o tribunal abriu as portas? Não dá vontade de perguntar ao presidente da câmara e aos seus vereadores se não têm dois dedos de testa para devolver ao Governo o presente envenenado que prejudica os seus munícipes muito mais que a estrada por alcatroar ou até o saneamento básico? Cagar para uma fossa no quintal, beber água em casa de um quartão de barro ou alumiar a casa de noite com uma lamparina de azeite é mais à frente que ter um tribunal ao pé da porta que em vez de fazer justiça deixa que a justiça se faça com o tempo, ou seja, que as pessoas morram e outras desistam e se conformem com os interesses instalados e com a injustiça.
O MIRANTE noticiou na edição da passada semana que há um juiz de círculo cível a fazer “o jeito ao diabo” e a recuperar os processos mais antigos com julgamentos em Santarém. Deus o abençoe. Ainda há gente boa na Magistratura. Gente que não se acomoda. O que se diz é que estarão lá mais de 12 mil processos. Oficialmente dizem que é metade. Mas a gente sabe como são os números oficiais. Nem daqui a uma eternidade teremos justiça em Almeirim num tribunal com juízes mas sem salas para realizar audiências. É uma vergonha e remete-nos para os tempos de antanho quando se fazia justiça pelas próprias mãos. JAE

terça-feira, 30 de abril de 2013

Eu amo o 25 de Abril


Eu amo o 25 de Abril. Estou condenado em tribunal, por enquanto, por ter escrito que um político, no exercício das suas funções de político, era o maior idiota político que conhecia; e tenho em cima das costas um pedido de execução do tribunal no valor de 3 milhões de euros, só para contar dois casos que me obrigam a ser jornalista, a medo, em certas ocasiões. Mesmo assim, sabendo que Portugal é um país cada vez mais perigoso para o exercício da cidadania, eu amo o 25 de Abril.
Se um dia me espetarem um punhal nas costas e não morrer da punhalada continuarei a amar o 25 de Abril por tudo o que a Revolução dos Cravos significou para os homens da minha geração que, nessa altura, tinham 18 anos e não frequentavam o liceu e, alguns deles, nem saíam da escola com a 4ª classe.
O Mundo que vivemos hoje é mil vezes mais interessante que o de há 39 anos. Mas há realidades que parecem recuperadas de há meio século. O desemprego cresce a um ritmo galopante mas a maioria dos desempregados prefer morrer à fome que aceitar trabalho que não possa ser feito com luvas de pelica; há gente bem empregada que de um dia para o outro cavalga as costas do patrão como se ele fosse o palerma de serviço à economia portuguesa quando não à economia familiar de cada um dos seus colaboradores; há pessoas que ganham o ordenado mínimo e têm vários cartões de crédito daqueles a quem os banqueiros aplicam taxas de juros de 40%; há milhares de jovens desempregados que não sabem abrir a boca para se apresentarem numa entrevista de emprego.
Eu amo o 25 de Abril mas reconheço que faz falta gente mais bem preparada para governar o país. Esta gente da política, salvo raras e honrosas excepções, não só é idiota como fazem de nós estúpidos e cavalgaduras ao comerem tudo e não deixarem nada como diz o refrão da cantiga do Zeca Afonso. Concordo em boa parte com os pessimistas do regime: esta gente é má demais para levar isto a bom porto. Não falo só dos políticos; falo de todos nós, incluindo a classe jornalística que não sabe criar empregos, quando a forma de comunicar é cada vez mais barata e está ao alcance de todos.
O nosso futuro em liberdade está em risco e os homens livres já têm, neste momento, as mãos atadas embora ainda possam gritar por socorro. Vivemos um tempo que não é para os poetas nem para a poesia. Por isso vou mais uma vez à manifestação do 1º de Maio à Avenida da Liberdade em Lisboa. Vou só ver. Não tenho vocação para desfilar seja em que situação for. Mas sou homem de andar na rua com o punho erguido e não tenho vergonha de confessar que nasci comunista e arrisco-me a morrer anarca.

terça-feira, 23 de abril de 2013

As cheias do Tejo e Rafael Duque o Ministro de Salazar


“Chegou a hora dos postes mijarem nos cachorros”. O ditado foi ouvido do outro lado do Atlântico e cada um que faça a sua leitura. Na net não há entradas para o provérbio. Provavelmente ainda não chegou à mesa de trabalho dos estudiosos da sabedoria popular.
Algumas terras do campo de Alpiarça estão ainda literalmente alagadas pelas águas da chuva e das cheias do Rio Tejo. São terras que nos últimos anos foram mexidas pelos seus proprietários de forma a ganharem o terreno que dantes servia para valados e valas. Dificilmente vai haver sol suficiente para secar tanta água represada. Em algumas daquelas terras as culturas deste ano estão comprometidas. Este é o preço da ganância? O preço da irresponsabilidade? O preço a pagar por ter deixado de existir uma autoridade que fiscalize e seja boa conselheira ao mesmo tempo? O Vale do Tejo é a região de onde sai a grande fatia da produção agrícola nacional. Não se percebe a falta de ordenamento e de regras. O assoreamento do Tejo vê-se pelos buracos que a água fez nas terras confinantes com o rio; e a água só correu desalmadamente durante umas horas; imagine-se uma cheia como as de antigamente. Metade da areia que o Tejo tem a mais um dia vem parar ao meio do campo. Ai vem vem. Entretanto vamos encolhendo os ombros e assobiando para o lado como se o problema fosse com os espanhóis.
O jornal “Público” publicou no dia 13 de Abril um artigo de opinião de Miguel Motta, professor catedrático jubilado, que tratava fundamentalmente do tema agricultura e da diferença entre a capacidade da produção holandesa e portuguesa. Diz ele, para acentuar o atraso dos portugueses que ao longo de um século o único ministro da Agricultura que compreendeu a importância da ciência na agricultura, e fez a única reforma que deu um enorme avanço a este sector foi o dr. Rafael Duque, com a sua excelente legislação de 1936 (:). Estamos conversados? Parece que sim. Não li nada, a contrapor esta opinião, por parte dos grandes defensores das ovelhas do rebanho abrilista a que me orgulho de pertencer.
JAE

quarta-feira, 17 de abril de 2013

João de Matos Filipe


Trancanis da proa/braços/ cavernas/ traste/ cágado do remo/ chama/ costado/ tábua das bufas/ buraco do trapeiro/ leito/ entre pares/ chumaceira/ draga/ vertedouro/ fiéis/ proa.
Parece um poema surrealista mas não é. São descrições de algumas das peças e espaços de um barco picareto identificado no livro “Cultura e Artes da Pesca Tradicional em Ortiga-Mação”, da autoria de João de Matos Filipe. O livro tem sido pretexto para o autor divulgar a sua paixão pelo Rio Tejo e dar testemunho das muitas horas de estudo sobre os 8 Km de rio que bordejam o território da Ortiga, as tradições e a azáfama dos pescadores. Luís Mota Figueira, Professor Coordenador do Politécnico de Tomar, diz na apresentação do livro que João de Matos Filipe “ iluminou uma parcela muito significativa das artes da pesca tradicional, porque integra as provas, os testemunhos, as evidências e a sua reflexão profissional, como que elaborando um fresco sobre as artes do rio, cuja composição e estética acabam por resultar da naturalidade com que esboça, pinta e nos explica a realidade interpretada”.
O livro é ainda uma homenagem ao povo da Ortiga e ao mesmo tempo um preito ao rio da nossa infância que, para muitos de nós, é sinónimo de lazer, trabalho e prosperidade. Quem cruza o rio Tejo todos os dias, como é o nosso caso, e aproveita os tempos livres para fruir do seu leito e das suas margens, só pode estar agradecido ao historiador local que nos devolve em conhecimento e sabedoria o nosso “Rio de Emoções” parafraseando Carlos Cupeto que assina o prefácio.
JAE

sexta-feira, 1 de março de 2013

O único jornal de referência que não pertence a um grande grupo económico*

A forma como nos organizamos, em termos jornalísticos e comerciais, o conceito de empresa jornalística que criamos ao longo dos anos não tem paralelo em nenhum órgão de comunicação social nacional ou regional. Nestes 25 anos de existência já nos viraram do avesso algumas vezes.

Cumprimento especialmente a nossa anfitriã, Maria do Céu Albuquerque. Este momento é único, porque é a primeira vez que Abrantes acolhe uma das nossas iniciativas que não estão relacionadas com publicação de livros ou outras iniciativas culturais.

Cumprimento todos os restantes amigos e convidados, algumas de quem sou também amigo e admirador, num amplo abraço já que para nós não sois público mas convidados especiais, aliás, muito especiais, tal foi o cuidado que a Joana e a equipa de O MIRANTE procuraram ter na organização da iniciativa e no convite a todas as pessoas que estão hoje aqui presentes, nomeadamente os amigo e familiares das personalidades que os jornalistas de O MIRANTE elegeram.

Aproveito a ocasião para deixar aqui um testemunho que eu acho que não nos fica mal recordar. Noutros tempos, quando éramos mais jovens e mais pobres de espírito e, logicamente, mais sedentos de vida, caminhamos para Abrantes centenas de vezes fazendo o caminho da estrada nacional que é muito difícil mas muito bonito para quem gosta da paisagem e tem amor ao rio.

O médico José Vasco, que era uma figura desta terra, faz parte das minhas principais memórias. E, embora por razões bem tristes, hei-de viver até à eternidade e jamais esquecerei os tempos em que entrava no seu consultório ou ficava cá fora a conviver com os inúmeros doentes que vinham a Abrantes de todas as terras à volta.
Já lá vão mais de trinta anos mas parece que foi ontem. E a figura do medico amigo jamais me sairá do pensamento embora não fosse eu o seu doente.
Fica aqui a homenagem a um homem que eu sei que muita gente ainda lembra como se ainda ontem se tivesse cruzado com ele ou visitado no seu consultório.

Como é do vosso conhecimento O MIRANTE comemorou 25 anos em Novembro. É uma data que nos enche de orgulho embora saibamos que temos muito para fazer. Passo a passo, com mil cuidados umas vezes, arriscando quase tudo muitas outras, fizemos de O MIRANTE um jornal de referência para uma região, um jornal de referência como não há outro na nossa área de influência. Parece fácil manter a qualidade editorial e crescer todos os anos de forma a cumprirmos a nossa missão. Parece mas não é. O MIRANTE foi quase sempre um jornal de referência também pelo volume de publicidade que manteve e que mantém nas suas páginas e em todas as edições. Somos em Portugal o único jornal de referência que não pertence a um grande grupo económico. O único não me canso de repetir. Dito assim parece uma banalidade. Quem sabe o que custa viver e sobreviver num mercado dominado por uma concorrência desleal, num mercado onde a comunicação social é dominada por patrões que ganham dinheiro noutros negócios para perderam nos seus jornais e televisões, quem sabe isto, percebe melhor e entende melhor o significado que atribuo ao facto de sermos um jornal independente, que pode praticar um jornalismo de proximidade sem a canga de um patrão ou de um investidor que precisa do jornal para servir os seus interesses pessoais ou os das suas empresas.

Não há em Portugal outro jornal que tenha um caderno de classificados como O MIRANTE. Não há em Portugal outro jornal, muito menos um jornal regional, que abranja tantos concelhos e tantas freguesias como o nosso. Não há em Portugal outro jornal' rádio ou televisão regional, que tenha no terreno uma equipa de profissionais que trabalhe tão próximo das populações, que alimente tanto as redacções de outros órgãos de informação cujos profissionais estão sentados à secretária praticando o chamado jornalismo de influência, sem levantarem o rabo das suas cadeiras almofadadas.

Não conheço outro jornal em Portugal que dê tanto espaço aos leitores. E mais daríamos se vivêssemos numa região, num país, onde a sociedade civil fosse mais exigente e consciente do seu papel na conquista dos direitos de cidadania.

Não conheço outro jornal que tenha tantos processos em tribunal como O MIRANTE. Caso para dizer que nesta altura temos a cabeça no cepo; e se a justiça ou o sistema de justiça se for degradando como tem sido público e notório de certo que não teremos hipóteses de sobreviver. Não morremos do mal, não cairemos nas muitas batalhas que travamos todos os dias, mas podemos morrer no campo de batalha traídos pela falta de justiça que tanto defendemos a tentamos respeitar no nosso trabalho diário.

Nada de queixinhas. Mas as liberdades conquistadas com o 25 de Abril já não são o que eram. Principalmente para os que teimam em lutar com as armas do trabalho, da independência e assumem a rebeldia na defesa de causas que são tão velhas como a honestidade, sem olharmos aos riscos de vivermos numa sociedade e numa época de lobistas, sindicatos e sindicalistas manhosos.

A forma como nos organizamos, em termos jornalísticos e comerciais, o conceito de empresa jornalística que criamos ao longo dos anos não tem paralelo em nenhum órgão de comunicação social nacional ou regional. Nestes 25 anos de existência já nos viraram do avesso algumas vezes. Uma delas alterando as regras do PP. Só num país de velhos do Restelo que não saem de Lisboa e quando viagem para o estrangeiro não passam de Badajoz. Mais recentemente cortando toda a publicidade que facturávamos junto de entidades concelhias que eram e deveriam continuar a ser uma fonte de receita que ajudasse a pagar o serviço público que prestamos á comunidade. Este último caso só não nos derrubou ainda porque temos bons alicerces Porque estamos sempre preparados para o pior. Porque nunca embandeiramos em arco nem dormimos na forma. Mas seria injusto não referir a traiçãozinha deste Governo em que fomos o alvo principal. O Governo da nação mandou cortar toda a publicidade obrigatória de certos actos públicos, que ajudavam à transparência da coisa publica, e nós, que ao longo dos anos fomos semeando e conquistando a posição que achamos que deve ter um jornal regional, de um dia para o outro ficamos a chuchar no dedo.

Infelizmente não estamos sozinhos. Para mal do país as pessoas também estão a perder uma boa parte das suas reformas. E muita dessa gente só se reformou depois de uma vida de trabalho e de descontos chorudos para o sistema. Ao contrario de outros que se reformaram com 40 e poucos anos e esses sim merecem ser penalizados se é que alguém merece que o Estado falte com aquilo que prometeu seja lá ele quem for e tenha lá a idade que tiver já que as leis são para cumprir e não para que os políticos façam delas gato sapato.

É um grande desafio editar um jornal como O MIRANTE, semanalmente no papel e todos os dias na Internet É com muito orgulho que mantemos a qualidade editorial do nosso jornal e continuamos a conquistar os anunciantes da nossa região.

Para nós não chega sermos um exemplo a nível nacional e um projecto jornalístico cheios de desafios que atrai muitos daquelas que acham que a solução para as más notícias está na capacidade e no poder para matar o mensageiro.

Quem lê o nosso jornal todas as semanas e o recebe a um preço literalmente abaixo do seu custo, acha normal e esfrega as mãos de contentamento. E nós agradecemos. É para isso que trabalhamos todos os dias. Corremos por nossa conta e assumimos os riscos por inteiro. quando não chegarem os 7 dias de trabalho, as 12 horas por dia começamos a trabalhar de noite como os morcegos. E se houver alguém que conheça outra forma de resolver um problema de uma empresa que não seja com mais trabalho e com mais suor e inspiração então temos que repensar toda a nossa vida porque os deuses devem estar loucos e quanto a nós não deverá ser caso para menos.

Os números da marktest que atestam a influência dos jornais junto dos leitores, não nos deixam mentir. O MIRANTE é o primeiro jornal entre todos na sua área de influência ao nível da fidelidade e da afinidade. Nem o os jornais mais populares, por mais sangue que deitem das suas páginas ou ao contrário, por mais gente influente que escreva nas suas colunas, conseguem roubar-nos a liderança nos 23 concelhos onde somos e queremos continuar a ser o jornal da terra.

Por isso é que estamos aqui. Por isso é que temos a independência e a autoridade para premiarmos pessoas como o Senhor José Bioucas, ou o Senhor Joaquim Santana só para falar agora dos mais antigos e dos mais vividos dos premiados deste ano.

Um dia já distante o Bispo de Santarém, depois de ser entrevistado por dois jornalistas de O MIRANTE, perguntou-lhes, para fazer conversa, o que é que eles iam fazer a seguir. Quando lhe disseram que iam trabalhar para a redacção ao lado de outros camaradas jornalistas o Bispo abriu a boca de espanto e perguntou se era mesmo verdade que eles trabalhavam a tempo inteiro no jornal.

Há dias uma colega foi facturar a uma empresa aqui bem perto de Abrantes . O cliente, rendido à simpatia e ao profissionalismo da colega, perguntou-lhe com o dedo apontado quanto é que o patrão lhe pagava porque ele dobrava a parada.

Só precisava que ela soubesse mexer bem num computador e que lhe desse banho porque ele já tinha caído já duas vezes na banheira.

Um dia alguém mandou parar o carro de um nosso colega, também lá onde nem o diabo se lembra que vive gente, e desabafou com ele pendurado na janela da viatura; Vocês por aqui, é pá é uma alegria ver um carro de O MIRANTE . O vosso jornal é leitura de toda a gente deste lugar onde nem os políticos vêm em tempo de campanha eleitoral.

Temos mil histórias para contar desta vida de andarilhos e de escrita pela noite dentro. Não temos tantos quilómetros nas pernas como os músicos dos Quinta do Bill, nem tantas horas de olho fino como o Nené a ver para que lado marram os toiros, Nem sabemos tanto de politica como a deputada Carina Oliveira, que tem a escola da Assembleia da Republica, Jamais conseguiremos ser jornalistas de proximidade como o Dionísio Mendes é presidente de câmara; Nunca chegaremos aos calcanhares do Mário André a deitar a mãe a uma dificuldade, por muito anos que vivamos nunca mais conseguiremos apanhar o passado antifascista e cheio de referências culturais, nos tempos difíceis que vêm de outros séculos da Euterpe Alhandrense, e por muita música que possamos ouvir e instrumentos que aprendamos a tocar ficaremos sempre de boca aberta a ver como se organizam em termos empresariais e associativos o Conservatório de música de Ourém e Fátima e o Sport Clube Operário de Cem Soldos. Por último: o Juventude Amizade e Convívio é um caso raro de êxito no desporto, principalmente feminino, e nós somos todos uns trambolhos se nos tirarem o ofício da escrita ou, noutros casos, a capacidade de ajudarmos a duplicar negócios com a publicidade que vendemos para o nosso jornal.
O jornalismo de proximidade obriga-nos a viver o ofício com paixão, e a trabalhar os textos e as imagens de forma aprofundada, tentando fugir ás rasteiras das nossas fontes, procurando e aprendendo sozinhos a cumprirmos as mais elementares regras da nossa profissão, sabendo que todos os dias nos cruzamos, na rua, ou por aí, com as pessoas que são alvo das nossa notícias ou que, de uma maneira ou de outra, estão retratadas no nosso trabalho.

Os prémios Personalidade do Ano, a par do Galardão Empresa do Ano que organizamos em conjunto com a NERSANT, são a nossa aposta e o nosso compromisso com a região onde vivemos e trabalhamos, e com as pessoas que ajudam a transformar a região e a fazermos o caminho do progresso, seja lá isso o que for, e demore lá os anos que demorar a fazer-se sentir nas nossa vidas e nas vidas dos nossos filhos e netos.

* Discurso lido na cerimónia de entrega dos prémios Personalidade do Ano realizada no Cine Teatro S. Pedro em Abrantes no dia 21 de Fevereiro de 2013