quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Última página: O nosso interior de Abrantes a Santarém

Há um problema grave com o passa-peixe no açude de Abrantes mais ou menos parecido com o da praia fluvial de Santarém

Um dos maiores dramas da nossa democracia é o abandono do interior do país. O caso recente do aumento das vagas nos Politécnicos é uma medida sem nexo que em nada vai alterar as assimetrias que se agravam a cada ano.Trazer mais jovens para os concelhos desertificados, ou em processo de desertificação, exige medidas que não sejam servidas avulso. Qual é o papel dos autarcas na política de descentralização para os seus próprios concelhos? Onde é que está o Governo do país a impor ou a propor políticas conjuntas entre autarcas e associações de municípios? Que vozes do interior é que se fazem ouvir na Assembleia da República na defesa dessas estratégias que envolvam os autarcas das várias forças políticas? Quantos deputados da região é que têm para apresentar textos ou vídeos de intervenções a chamarem os bois pelos nomes apontando o dedo também aos camaradas ineptos politicamente e confortavelmente sentados nas cadeiras do poder? Quantos Senadores da política nacional e local é que são capazes de aparecerem num debate na televisão, ou nos jornais, a empertigarem-se contra a demagogia dos governos e dos governantes preguiçosos e acomodados? Vê-se a força das concelhias locais dos partidos na luta pelo fecho dos balcões dos bancos e dos correios? É só isto que sabemos fazer diariamente pelo interesses dos concelhos e da região em que vivemos?
Podemos dar-nos ao luxo de organizar debates sobre o problema da interioridade, como aconteceu recentemente em Abrantes, com os principais intervenientes a discursarem à pressa porque tinham as agendas cheias? Que gente é esta que gosta de molhar o pão na sopa mas foge a sete pés da conversa responsável à mesa e em família alargada? Os melhores autarcas do Médio Tejo ainda dizem à socapa que o melhor de Abrantes é o caminho para Coimbra? E os da Lezíria do Tejo que o melhor do território são as estradas para Lisboa? Se não dizem ainda pensam e é como se o dissessem para todos nós que damos o escalpe pelo nosso território?
Há um problema grave com o passa-peixe no açude de Abrantes mais ou menos parecido com o da praia fluvial de Santarém que foi por água abaixo. Não falo das responsabilidades políticas e criminais que deveriam ser assacadas a quem de direito; falo da incapacidade para resolverem os problemas; da falta de vergonha para nos andarem a apertar todos os dias com abraços de urso. Mação vai conseguir justiça do Governo no apoio à calamidade dos incêndios se os autarcas da região não forem solidários e não marcharem (de fato e gravata, claro) para a Assembleia da República ou para o Terreiro do Paço?
“A Revolução é um momento. O revolucionário todos os momentos”. Alguém quer saber, hoje, do espírito da revolução dos cravos que fez de nós, por alguns anos, o povo mais feliz do mundo? Ainda há gente por aqui que acredita no seu interior? JAE

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Abaixo as touradas. Vivam as touradas.

A corrida de O MIRANTE no Campo Pequeno foi um espectáculo que deu gosto ver. Confesso a minha paixão pela festa brava que é mais devida à emoção que à razão. O facto de ter militado durante um tempo nos forcados, ainda que curto, deixou marcas. Na última quinta-feira, com a realização de algumas pegas, entre elas a dos dois forcados do Grupo da Chamusca (Bernardo Borges e Francisco Borges), que silenciaram a praça, percebi melhor as razões que levam, em certos casos, as minhas emoções a sobreporem-se às minhas razões.
Os forcados, que são os parentes pobres da festa, valeram o dinheiro do bilhete. O ganadeiro Joaquim Alves de Andrade, que já tinha assumido em entrevista a O MIRANTE que não é só criador de bois, foi ao centro da praça duas vezes, o que diz bem da qualidade do curro de touros que levou para Lisboa.
O público, como por magia, de vez em quando começava a bater palmas, de forma cadenciada e quase musical, a puxar pelos artistas, como se fizesse parte de uma plateia paga para animar o espectáculo. Nem parecia que estávamos numa corrida de toiros em Portugal. Até o tempo da corrida foi quase perfeito. E os toureiros que não brilharam também não foram receber as flores e os aplausos a favor.
A noite de quinta-feira, 19 de Julho, parecia uma noite como outra qualquer, mas no Campo Pequeno os homens da festa brava, artistas e organização, contribuíam para o futuro do espectáculo como há muito tempo não éramos testemunhas.
Não sei se este exemplo é para continuar ou se serve de alguma coisa para a preservação em Portugal dos espectáculos taurinos e das muitas tradições associadas à tauromaquia. Acredito que sim. Por isso escrevo e dou conta das emoções independentemente das razões.
Uma última nota para os militantes anti-taurinos que se concentram habitualmente a poucos metros da praça do Campo Pequeno em dia de espectáculos. Na noite de quinta-feira fui junto do grupo e sentei-me por perto a fazer número enquanto eles e elas dançavam e se divertiam exibindo pequenos cartazes na mão. Tudo muito civilizado, ao contrário de tempos ainda muito recentes em que berravam e faziam figuras que não se ajustam a pessoas que se consideram intelectualmente evoluídas, quanto mais civilizadas. Deixo aqui o meu apreço pela luta dos que defendem as suas emoções independentemente das razões. Eu também acho que as corridas de toiros podem ser melhor regulamentadas. Falo do regulamento que proíba a interdição do espectáculo a crianças até uma certa idade, a extinção das bandarilhas com arpões e, para ser sucinto, a contratação de veterinários que não sejam afectos à organização para que assegurem uma embola sem corrente eléctrica e outras barbaridades que, em muitas praças, ainda são facilmente praticáveis sem a justa condenação. JAE

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Os jornais que ficam pelo caminho e o Hospital de Santarém

O nosso tempo de vida nunca devia ultrapassar o tempo de muita saúde, física e mental. Nunca deveríamos viver para além dos nossos limites físicos e intelectuais. Andar por aí em hospitais, centros de saúde e lares de idosos é pior que ser crucificado. Quem não acredita que espere para ver. Cristo foi um sortudo: morreu na cruz cheio de fé e não na cama de um hospital ou de um lar de idosos, vítima de uma bactéria hospitalar ou de um medicamento receitado por engano ou erro no diagnóstico. Por mim não tenho dúvidas que vale mais morrer cheio de chagas, lutando por um ideal, que num hospital vítima de uma bactéria, de um erro médico ou da falência dos órgãos vitais.
O que se passa actualmente no Hospital de Santarém, e tem vindo a ser notícia em O MIRANTE, só é possível porque a sua administração foi  incompetente para lutar pelos interesses da instituição e dos doentes. Saúdam-se os membros da nova administração e espera-se uma nova postura na relação com as forças vivas da região. Está na cara que a falta de solução política para o Hospital de Santarém só é possível por falta de uma voz forte que nos proteja e defenda dos chacais da política que nos tratam como números.

Anda por aí um frenesim de angústias por causa da crise dos jornais em papel. Os tempos são de mudanças e quem sempre viveu à sombra da bananeira certamente que vai ficar pelo caminho, caindo hoje aqui, amanhã acolá, até ao dia do trambolhão final.
A imprensa nacional, local e regional, caiu a pique na última década. Vai ser caso de estudo daqui a muitos anos quando estiver completa esta fase de conflito entre o digital e o papel. Os leitores que vão desprezando os jornais em papel fazem-no não pela ascensão das redes sociais mas pelo facto de já não haver no papel nada que os motive a comprar o jornal.
Não se pode enganar o mercado uma vida inteira. As empresas editoras, como todas as empresas importantes no mercado, têm que ter um modelo de negócio, o produto tem que ter qualidade, é preciso conhecer as preocupações e necessidades dos consumidores, não se pode continuar a massificar um produto sabendo que ele não interessa às massas mas sim a um público específico e devidamente referenciado.
Há duas décadas algumas notícias de O MIRANTE, importantes em certas comunidades, eram fotocopiadas e coladas nas árvores. Os padres falavam de certas notícias na missa respondendo às dúvidas dos paroquianos que não sabiam interpretar algumas informações. Só passaram alguns anos mas com o advento das redes sociais já tudo se discute e informa online. Parece que falamos de questões do tempo das cavernas mas de verdade falamos dos nossos tempos.
Prestar serviço público e lutar por um jornalismo de qualidade não depende só dos jornalistas; depende muito das equipas que lhes dão a responsabilidade de apresentarem trabalho que vá ao encontro das necessidades da audiência do jornal, que não sejam entrevistas, reportagens e notícias sem conteúdo critico, que vendam gato por lebre.
Esta discussão dá pano para mangas e segue dentro de momentos, aqui ou numa qualquer página das redes sociais. O jornalismo de verdade só nas Redacções onde trabalham bons e experientes profissionais. JAE

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A Chamusca governada de chinelos

A sirene tocou recentemente na Chamusca porque havia mato a arder. Como o concelho da Chamusca está sinalizado pelas autoridades, caíram em Ulme, local do fogo, uma dezena de corporações. Durou pouco tempo e queimou uma área insignificante. Este Verão atípico é uma bênção para todos os portugueses. Acima de tudo para os bombeiros e para os proprietários florestais. O fogo começou à beira de uma estrada camarária que a autarquia não limpou como estava obrigada. 
A presidência da Câmara da Chamusca está entregue a um político do PS inábil e irresponsável. Entre os seus camaradas reina a maior contestação; alguns já o avisaram que não o querem mais nas reuniões com a vice-presidente ao lado. Outros ameaçam por ele nunca atender o telefone. A voz colectiva é que ele não sabe o que anda a fazer e comporta-se como a avestruz: mete a cabeça na areia para não ser confrontado com a dura realidade: o concelho da Chamusca não tem líder político e quando tem é para desfilar nas marchas, discursar nas festas e pouco mais.
Paulo Queimado é o personagem que há quase quatros anos, a um domingo, foi de chinelos e calções a uma homenagem ao saudoso e querido médico Artur Barbosa. E passou metade do seu discurso a justificar-se pelo que levava vestido. Na altura quase toda a gente se riu da desfaçatez. E desvalorizaram. Acharam que ele era um menino a dar os primeiros passos na vida pública e que ia ganhar estatuto. Não era nem é nos dias de hoje. Na data da homenagem a Artur Barbosa, Paulo Queimado já tinha anos de trabalho como presidente de câmara, e muitos anos como vereador da oposição.
Politicamente ele é mesmo um tipo que faz a administração do concelho calçando chinelos; e a impressão que passa é que anda de calções todos os dias da semana de trabalho. 
A Terra Branca está entregue a dois socialistas, Paulo Queimado e Cláudia Moreira, que fazem da presidência da autarquia um festival de folclore 365 dias por ano, com bar aberto, muito fogo de artificio, entradas grátis e música sempre muito alta como na Ascensão. 
Por último: os poucos comerciantes da vila e das freguesias do concelho, que ainda são a alma do desenvolvimento local, fazem de apuro num ano tanto como há 20 anos faziam no mês do Natal. Se a autarquia não ganhar gestores que saibam captar investimento, que tenham cu para se sentarem nos gabinetes de Lisboa com os políticos do Governo que decidem para onde vai o dinheiro do Orçamento de Estado, estamos feitos ao bife.   JAE

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Um poeta que não acreditava na inspiração

(conversa com João Cabral de Melo Neto quatro dias antes da sua morte)

Foi a poeta Suzana Vargas que me levou a um palacete da praia do Flamengo onde vivia o poeta João Cabral de Melo Neto. Por mais incrível que possa parecer a porta estava no trinco, embora fossemos guiados já dentro de casa por uma empregada. Eu fiquei no salão à espera; a Suzana foi à procura do poeta por entre salas.
O que tínhamos previsto aconteceu; Marly Oliveira, a poeta e também mulher de JCML, não apareceu nem para nos cumprimentar nem mais tarde para se despedir: Susana, que a conhecia bem, já tinha avisado; ela gostava era que viéssemos cá a casa para a entrevistar.
Passaram quase vinte anos deste encontro; o que melhor guardo são as palavras iniciais de desânimo; a morte, que o visitou passados quatro dias, já andava por ali na luz dos seus olhos; mesmo assim o poeta fez revelações que me deixaram rendido; uma delas teve a ver com Miró. JCML contou que o visitava muitas vezes no seu atelier, em Barcelona, e que não conseguia falar com ele de poesia porque o pintor tinha muito pouco interesse pela literatura.
Da sua estadia em Portugal (Porto) como Cônsul Geral (1984-1987), pouco antes da sua reforma, o poeta tinha poucas recordações; o que nos contou foram acidentes de percurso; e não conseguimos roubar-lhe uma palavra elogiosa sobre amigos com quem tenha convivido ou relacionado na cidade Invicta.
JCML repetiu várias vezes que não acreditava na inspiração e que o verdadeiro artista tem que viver obsessivamente a sua Obra. No dia em que conversámos com ele, enterrado no sofá de um salão de época, o poeta queria falar sobre quase tudo menos de literatura; a cegueira, e "uma angústia que não tinha cura", juntamente com uma medicação muito forte era, para o autor de A Educação pela Pedra, "assim como uma bala enterrada no corpo".

Na passada terça-feira, dia 5, por volta das seis da tarde, subimos ao sétimo andar de um prédio situado na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, para visitar o poeta, João Cabral de Melo Neto. Apesar da saúde já muito frágil, o poeta, recebeu-nos com cordialidade e manteve uma conversa de quase uma hora para falar um pouco da sua vida, da sua obra e do drama de viver cego e com "uma angústia que não tinha cura". Quatro dias depois soubemos da sua morte pelos jornais. O autor de Morte e Vida Severina, A Educação pela Pedra e Museu de Tudo foi traído pelo coração aos 79 anos. A literatura de língua portuguesa perdeu um dos seus maiores representantes, Prémio Camões e Rainha Sofia pelo conjunto da sua obra.
João Cabral de Melo Neto era um dos maiores poetas de língua portuguesa. Autor de uma obra que é considerada das mais representativas e originais do século, o seu nome foi várias vezes apontado como candidato ao Nobel da Literatura e, entre muitos prémios que ganhou, os de maior destaque foram o prémio Camões e Rainha Sofia para o conjunto da obra publicada.
Autor de Morte e Vida Severina, um auto de Natal escrito por encomenda que era considerado uma das suas obras mais importantes, embora o poeta dissesse que era "a coisa mais relaxada que já escrevi", João Cabral lançou a polémica no meio literário quando confessou que não acreditava na inspiração e que "gostaria de criar como um matemático, sempre a partir de elementos racionais".
Reconhecendo dever uma boa parte da sua aprendizagem da arte a Le Corbusier, um arquitecto famoso que era muito citado por amigos seus do mesmo oficio, quando as suas vidas decorriam com normalidade na cidade natal de Recife, João Cabral de Melo Neto confessava que aprendeu com ele "a fazer arte não com o mórbido mas com o são, não com o espontâneo mas com o construído". Diplomata de carreira, João Cabral viveu os últimos anos da sua vida profissional no Porto, onde deixou muitos amigos e leu Mensagem de Fernando Pessoa, a poesia de Sofia, Eugénio de Andrade e Herberto Helder, os poetas portugueses que mais apreciava. Sobre a poesia de Camões reconheceu que nunca aprendeu a admirar verdadeiramente o poeta porque "na escola ele era muito mal ensinado" e isso pesou para sempre na suas opções de leitura.
"O meu trabalho em Portugal nunca me deu muito tempo para conviver com escritores. As relações entre Brasil e Portugal sempre foram muito difíceis e isso deixou-me pouco tempo para conviver com os amigos", recordou, acentuando no entanto que o longo período de doença da sua primeira mulher também ajudou, pela negativa, a marcar esse tempo.
Depois de recordar bons e maus momentos da vida e da sua carreira literária, de explicar como "a escrita era um verdadeiro sofrimento, é muito melhor ler do que escrever", João Cabral confessou, numa voz que parecia apagar-se a cada palavra que pronunciava, que a sua vida de escritor tinha terminado. "Estou cego e não sou capaz de ditar. Para mim a forma visual do poema é muito importante", adiantou, depois de confessar também que não aceitava que lhe lessem livros porque lhe faltava a paciência e a angústia que sentia era mais forte do que tudo. "De resto não sinto nenhuma necessidade de escrever. Os medicamentos que tomo para a depressão tomam conta de mim. Para quem passou a vida lendo e escrevendo a situação é dramática mas eu tenho sabido habituar-me a esta realidade", disse.
Numa sala ampla de um sétimo andar de um apartamento da Praia do Flamengo, o poeta de A Educação pela pedra ia procurando manter acesa uma conversa de amigos, das poucas que tinha aceitado nos últimos tempos. "Telefonam muito a pedir entrevistas mas eu já não atendo ninguém. Também já não recebo muitas visitas. As pessoas procuram-me mas eu depressa as desincentivo ou mando alguém fazê-lo por mim. Quem eu mais recebo são escritores a pedirem o meu voto para a Academia", acabou por confessar com um sorriso, talvez o primeiro dessa tarde, que durou muito pouco tempo depois de confrontado com o recente apoio a Roberto Campos, um intelectual de direita que substituiu Dias Gomes, um escritor de esquerda falecido em acidente de viação, na cada vez mais desacreditada Academia Brasileira de Letras.
Das suas passagens por Espanha, onde exerceu a carreira de diplomata durante mais tempo e com maior sucesso, João Cabral recordou as relações de amizade com Miró e outros pintores famosos da época. Das relações com Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, dois dos mais famosos escritores seus contemporâneos, falou como de irmãos se tratassem, "embora nada exista para testemunhar a não ser a memória do que foi vivido. Eu não escrevia cartas a ninguém. Devo ter sido o único escritor que não recebeu uma carta de Bandeira", confessou, adiantando no entanto que as relações com Drummond foram muitos especiais porque "foi ele que me convenceu que eu também poderia ser poeta".
Para o autor de Uma faca só lâmina, Cão com plumas e A escola das facas, "uma pessoa para criar tem que saber viver com uma obsessão. Não importa qual, pode ser o amor de uma mulher, uma ideia política, na certeza de que assim o artista toma-se uma pessoa mais lúcida".
Foi com estas palavras repetidas de uma entrevista entretanto publicada num livro de António Carlos Secchin, um dos maiores estudiosos da obra cabralina, que João Cabral começou a pôr um ponto final na conversa da tarde da passada terça-feira, dia 5, no amplo salão da sua casa na Praia do Flamengo.
Momentos antes da porta do 701 se fechar, depois de uma última despedida, o poeta falou da morte e do consolo que sentia por ter aproveitado tão bem os seus quase oitenta anos de vida. Pelo que contam os jornais, o poeta morreu vitimado por um poema que lhe atingiu o coração.

Quaderna agradece a Joaquimm António Emídio
e ao jonal O Mirante a cedência de publicação.

Inn Quaderna literatura y arte

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Para que servem os partidos políticos?

A possibilidade de metade dos infectados com legionella poder ficar de fora das indemnizações, que o Estado deve pagar às vítimas, é um assunto que deveria mobilizar todos os partidos políticos com representação nas autarquias de Vila Franca de Xira.
Se é verdade que metade das vítimas não teve o apoio que devia ter tido, para chegar à justiça, num caso de saúde pública que já é digno de figurar nos anais da história como um dos mais graves, para que é que servem os partidos políticos na nossa democracia?
Estamos à beira de eleições autárquicas; a sociedade civil devia mobilizar-se e ajudar as vítimas; e obrigar os partidos políticos e os seus representantes a assumirem as suas responsabilidades na defesa dos mais fracos e desprotegidos; daqueles que estão nas mãos dos banqueiros e dos grandes empresários que dominam os interesses instalados e são eles próprios os donos disto tudo.
Vila Franca de Xira devia começar a pensar num monumento, ainda que simbólico, ou não, de homenagem às vítimas, para que também servisse de pressão contra o Estado e todos aqueles que se demitiram, e ainda se demitem, das suas responsabilidades.
Um monumento aos cidadãos desprotegidos que pagaram com a vida o facto de terem escolhido o concelho de Vila Franca de Xira para nascerem e viverem; um monumento para que todos os dias e todas as semanas, e para sempre, possamos mostrar ao mundo que fazer Justiça não é só prender políticos e polícias corruptos; assassinos e gatunos.
Em Vila Franca de Xira, como em muitas terras do mundo civilizado, é proibido atravessar a estrada fora das passadeiras; é o Estado a determinar o que deve fazer pela nossa segurança; como é que podemos admitir que nestes tempos em que o Estado tem todos os serviços de saúde grátis, não tenha mão pesada para todos aqueles que nos matam com mão invisível? JAE

Opinião ao artigo: Judiciária aponta falta de medidas preventivas no caso legionella

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O Tejo e as jogadas políticas

Esta crónica saltou da caneta para o papel a uma sexta-feira por volta da meia-noite. O dia começou cedo depois de um salto da cama e o início dos preparativos para uma viagem de trabalho à Guarda. Já de volta almocei sável frito num restaurante de Tancos e às 15h30 já estava numa entrevista com a direcção da Agrotejo na Golegã. Cerca das dezoito horas um médico fisiatra de uma clínica de Santarém tentou explicar-me que a rutura completa do tendão distal do bicípite branquial do braço esquerdo não se cura com paninhos quentes. Uma vez que recusei a cirurgia vou ter que fazer muita fisioterapia.
Com algum desconforto, mas sabendo que tenho um corpo jovem que se regenera com muita facilidade, fui a correr para a secretária com os olhos bem abertos para abrir o correio e despachar os assuntos mais urgentes.
Uma hora depois estava a trabalhar em viagem até chegar à piscina onde dei umas braçadas e abri o caderno para actualizar as minhas notas. Lanchei duas maçãs no banho turco e, depois de um banho de água fria, meti-me ao caminho para o cinema onde assisti ao filme das 21h30, numa sala gigantesca para meia dúzia de almas solitárias como eu.
Escrevo à meia-noite numa sala minúscula para a grandiosidade daquilo que os meus braços gostavam de alcançar apesar da rotura completa do meu tendão.
Enquanto as palavras saltam da caneta para o papel vou relembrando os passos que dei durante o dia; doi-me a cabeça por não ter devolvido três telefonemas que estão registados no meu telemóvel; por não ter tratado de assuntos que na quinta-feira apontei no meu caderno com a indicação de urgentes; um deles é o trabalho final da capa de um livro.
Quando a minha mão direita pegou na caneta para escrever esta crónica a ideia era contar o que penso do trabalho dos nossos deputados que no início desta semana fizeram uma viagem de reconhecimento Tejo abaixo por causa dos problemas da poluição. Vai para o lixo tudo o que escrevi a seguir ao último ponto final deste texto. A maior parte dos deputados da Nação são filhos de gente que já foi pobre; alguns deles são netos de gente que vivia da pesca ou da agricultura. Hoje são pessoas importantes; militam no Bloco de Esquerda, no Partido Socialista ou até no Partido Comunista. Nestes últimos dias andaram a ver a poluição do Tejo sem saberem que um rio não é só um curso de água mais ou menos poluída pelo mau funcionamento das ETAR´s e pelas descargas poluentes de algumas indústrias. Depois desta visita vão escrever um relatório que entregarão ao primeiro-ministro onde darão conta daquilo que foram as principais questões que os mantiveram acordados entre tantos afazeres como cuidar dos telefonemas dos camaradas e dos interesses que ficaram em banho maria nos seus gabinetes da Assembleia da República. Depois volta tudo ao normal. Daqui a uns anos restam as fotografias de grupo e as recordações das almoçaradas e das jogadas políticas. JAE