quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Morreu o “Quim” Machado e o povo da Chamusca voltou a chorar


Uma crónica que também é notícia sobre a vida e a morte de Joaquim Ricardo Banha Machado.

Morreu com 62 anos, na Chamusca, Joaquim Ricardo Banha Machado, farmacêutico de profissão, considerado um profissional de corpo inteiro e um homem de bom coração. 
Com a morte de Joaquim Cabeça, o médico dos pobres, na altura em que ter médico de família era um luxo (já caminhamos para lá outra vez), Joaquim Machado ocupou  o seu lugar no coração do povo da Chamusca  e, por mérito próprio, tornou-se o amigo e conselheiro de meio mundo acudindo a pobres e a ricos, a doenças e a simples conselhos, como se a sua vida estivesse predestinada a servir a vida dos outros. 
Há meses que se sabia da grave doença de que padecia. Há semanas que os ouvidos mais atentos das pessoas mais amigas temiam ouvir os sinos da igreja e o seu toque a finados. Cada vez que tocavam era quase natural perguntarem  em surdina quem tinha morrido sempre com o medo de ouvirem dizer que tinha sido o Machado da farmácia.
Desde que se soube do seu último internamento que se esperava o pior. “Ele ajudou tanta gente e agora ninguém o pode ajudar a ele”. “Está condenado, dizem os médicos”, ouvia-se por toda  a Chamusca ainda há dias na boca de pessoas que, para lhe prestarem homenagem antecipada, contavam antigas conversas, memórias de há trinta anos mas também de há poucos dias. Nalguns casos, como podemos testemunhar, a saudade já se manifestava por simples palavras roubadas a propósito do avio de uma receita ou de um sorriso maroto arrancado à custa do seu superior pessimismo sobre o estado actual do seu Sporting. 
“Pagou receitas do bolso dele a muita gente pobre; trabalhou fora de horas e só Deus sabe o que é que ele fez por tanta gente”; foi isto que ouvimos e testemunhamos ao longo dos últimos dias; mas nada disto é segredo ou conversa fiada; o Quim Machado era verdadeiramente uma alma boa e um ser humano solidário sem precisar que lhe chorassem no colo ou lhe beijassem as mãos. Fazia o que tinha a fazer por dever de ofício e porque parece que Deus tem sempre alguém na terra para ajudar naquilo que Ele não pode ajudar por ser Deus e ter muito trabalho com as divindades.
No passado domingo, por volta das 13 horas, recebemos a notícia da sua morte. Tinha acabado de fechar os olhos e o coração tinha estourado finalmente. Foi antes de almoço. Foi antes de misturarmos na boca o vinho  com o pão ainda quente do forno a lenha. Ficamos durante alguns minutos à espera de ouvir tocar os sinos. Depois esperamos uma hora; depois esquecemos o tempo e acabamos também por esquecer os sinos da igreja da Chamusca que, segundo nos contaram, tocaram às  quatro da tarde.
Eram mais ou menos 17 horas de segunda-feira quando as pessoas que enchiam a igreja matriz da Chamusca começaram a sair da missa de corpo presente pela alma do Joaquim Ricardo Banha Machado, com as olheiras bem fundas, os olhos cheios de água e os semblantes carregados até ao sobrolho. Na rua havia mais gente do que aquela que cabia na igreja. O padre, que é novo na terra, e não chegou a conhecer o Senhor Machado, lembrou os presentes que lhe chegou aos ouvidos que o defunto “era pessoa de bem de alma”, frase que repetiu no cemitério antes do corpo descer à terra para avisar que fazer o bem tem os seus segredos e que o Joaquim fez o bem a muita gente que ninguém sabe quem, nem o quê, e é nisso que está a grandeza do Homem.
Quando a urna desceu os degraus da igreja os ricos, os pobres e os remediados choravam todos as mesmas lágrimas de água e sal que se afogavam no lenço ou caíam simplesmente pela cara abaixo. O carro funerário deslizou e logo se percebeu que ia passar em frente da farmácia S. Pedro onde o Quim trabalhava. Breve paragem no local para se ouvirem outra vez os choros baixinhos dos que não têm vergonha de chorar mas têm medo de incomodar com o barulho do choro. E para trás ficava a farmácia e o lugar onde o corpo foi velado, embora por pouco tempo, e onde se deslocaram muitas pessoas idosas de bengala e de andarilho. Gente que já não pode com o corpo mas que mesmo assim quis prestar homenagem ao  amigo das horas difíceis que é quando a carne dói e a alma não aguenta.
Fez-se um cortejo como já não é hábito acontecer em funerais. O trânsito não circulou durante o trajecto do Largo da Misericórdia até à curva da rua estreita que dá acesso ao cemitério da Chamusca. Junto ao carro só se murmurava. Cá atrás tocavam telemóveis, as pessoas cumprimentavam-se, os automobilistas iam interagindo com as pessoas que conheciam, o senhor José Ferreira empurrava a bicicleta e puxava pelos sapatos como se fossem uns chinelos; o Senhor Manuel puxava pelas pernas tortas e balançava o corpo como quem faz exercício na água; muita gente de braço dado, especialmente as mulheres, mas também muitos homens sozinhos, de cabeça baixa e mãos nos bolsos a contarem até cinco. Reconhecemos gente que já não víamos há anos e que nos pareceram muito mais velhas; reconhecemos outros que vieram de longe e que pareceram mais novos. Ia no funeral gente de todos os extractos sociais; os mais humildes dão sempre mais nas vistas porque vestem o fato novo; não usam telemóvel nos funerais; espelham melhor a dor dos outros porque a sentem como desgraça própria. Beiço grande e ombros caídos nos homens mais velhos; sinal de luto mas também de resignação nos homens de meia idade; costas curvadas e corpo balançado para a frente de forma a vencer o longo caminho era como andavam os mais velhos a quem o Quim Machado certamente fará mais falta com esta despedida tão apressada para quem tinha só 62 anos e gostava tanto do seu trabalho, da família e dos amigos.
Quando o caixão desceu à terra era quase noite. Já havia no céu uma lua em quarto crescente que desenhava um rosto de criança a sorrir. A Susana, filha única do Joaquim Machado, terá ouvido certamente algumas pessoas  darem-lhe os pêsames dizendo que ela devia estar orgulhosa do pai que tinha. A mãe do Quim, debruçada sobre o caixão, parecia chorar na voz baixinha do padre que encomendava o seu filho a Deus pela última vez ao cimo da terra. Depois de se ouvirem as primeiras pazadas de terra  a caírem em cima do caixão foi-se o murmurinho que ficou de duas avé marias cantadas como num coro de igreja; e começaram a ouvir-se pessoas a tossir, gente a desmobilizar que quase não faziam peso ao chão mas geravam um som que parecia vir de um vespeiro, de uma frase de Leibniz que diz que “quando canta para si, Deus canta álgebra”.
George Steiner diz que “morrer é deixar de conversar” no seu mais recente livro editado pela Relógio D’ Água, “A poesia do Pensamento”. Há mil razões para continuarmos a procurar na literatura uma resposta para a perda. O próprio Steiner cita Holderlin neste seu livro para concluir que “ser só e sem deuses é a morte. Nem o próprio ser humano que mais amamos pode pensar connosco”.
Este texto é uma tentativa de ouvirmos ainda a voz do Joaquim Machado a dar troco ao José “Prior” e aos outros amigos com quem fazia tertúlia e comentava os últimos desaires do seu Sporting; uma tentativa de libertar o espírito da agitação e da angústia, pois, como dizia Lucrécio, “a morte não pode ser vivida”, “situa-se inofensiva fora da existência” (Steiner).

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Um livro que conta a história de um rio*

Quase toda a gente tem a mania de dizer que vivemos num mundo global; que viver em Tóquio ou Londres é como viver em Mação ou Abrantes. Os extremos tocam-se. Pode ser assim na teoria; na prática é diferente. Ninguém é de lugar nenhum do mundo se um dia não for da sua própria terra; cidadão da Ortiga ou de qualquer outra cidade ou aldeia do mundo.
João Filipe, o neto do “Ti Zé Povinho”, não quis deixar morrer as memórias que formaram o Homem e o cidadão. E, aproveitando a paciência, a arte de escrever e de contar que Deus lhe deu, exercendo uma actividade cultural no verdadeiro sentido da palavra, que é transmitir conhecimentos dos valores e dos comportamentos que se aprendem de geração em geração, prestou uma singular homenagem ao povo de Ortiga escrevendo um livro que é uma homenagem ao seu povo e à sua História, sendo ao mesmo tempo uma homenagem ao rio da nossa infância que é sinónimo de lazer, trabalho e prosperidade.
Ser ortiguense, para alguns, é muito mais importante que ser lisboeta, parisiense ou londrino. Sabem isso os que nasceram numa terra e têm orgulho, não só do lugar onde nasceram como do lugar onde nasceram os seus avós e os seus pais que testemunham esse amor à terra e às tradições e os valores culturais que, esses sim, são tão importantes localmente que ganham o estatuto de património na Ortiga ou em Lisboa.
Ao lermos o livro de João de Matos Filipe podemos recuar a 1583 e ficamos a saber pela pena do autor sobre a história da fundação da aldeia da Ortiga mas também sobre a história do Caneiro de Abrantes que não deixa de ser significativa para compreendermos os homens de hoje tão entretidos com a política do betão e dos interesses milionários das companhias aéreas.
Ao ler a carta de João Antonelli ao Rei Filipe II, para que o Caneiro de Abrantes deixasse de ser um empecilho ao desenvolvimento do Rio, recuei três dezenas de anos e lembrei-me das promessas mais recentes dos nossos políticos que organizam “casamentos e baptizados” em nome da regularização do leito do rio e, que eu saiba, tudo não passa de politiquice na sua mais amanhada forma de se evidenciar.
Este livro pode ser lido pelos ortiguenses que, por ele, podem encher o peito de orgulho mas também pode ser lido pela generalidade dos portugueses que se interessam pelos problemas do país e, especialmente, pela sua história de ontem e de hoje.
O Caneiro de Abrantes faz-me lembrar, salvo as devidas distâncias e o contexto, a política de extracção de areia que está implementada no leito do rio Tejo e a forma como as autoridades vigiam as marachas e os usurpadores do espaço tão importante para manter a segurança de pessoas e bens. E ao tomar consciência da realidade do rio de há 500 anos, lendo o livro de João de Matos Filipe, não pude deixar de sorrir com a leviandade com que hoje aceitamos a forma como o rio é cuidado e preservado; como muitos de nós vão fazer vida para Lisboa e quando regressam às suas terras, seja na Ortiga ou na Chamusca, não sabem fazer mais nada do que chegar ali abaixo e “mijarem para o Tejo para ver se ele cresce”.
JAE

Texto lido na apresentação do livro de João Filipe na Ortiga.

Comentário à noticía: http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=581&id=88386&idSeccao=9906&Action=noticia

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Director Geral de O MIRANTE desafia Governo a enterrar o defunto Porte Pago


No Dia da Imprensa que se realizou ontem, dia 11, em Palmela, Joaquim António Emídio, diretor geral de O MIRANTE, desafiou o Ministro Miguel Relvas a fazer o funeral ao Porte Pago para a Imprensa depois do Governo socialista, do tempo de Arons de Carvalho, lhe ter começado a fazer o funeral.


O Dia da Imprensa em Portugal está marcado para sempre na vida de O MIRANTE.


Há dois anos, quando o dia da Imprensa se comemorava em Santarém, a 50 metros da nossa redacção principal, fomos visitados à hora em que as ilustres personalidades discursavam, por um juiz, um delegado do ministério público, dois inspectores da polícia judiciária, uma administrativa do tribunal de Santarém, e o presidente do sindicato dos jornalistas. Finalidade: um advogado da nossa praça, ofendido por um artigo em que era personalidade visada, pôs a justiça a trabalhar num processo sem pés nem cabeça que não deu em nada mas que deve ter custado uns milhares de euros aos cofres do Estado e teve esse mérito especial de nos assustar e confirmar que vivemos num país de muitos equívocos (para ser brando nas palavras).

Tinha que contar este episódio por que nem o facto de termos o Dia da Imprensa a decorrer ali ao nosso lado, e de a notícia ter sido espalhada logo depois, gerou o mais pequeno interesse na classe dos jornalistas.
Imagine senhor Ministro Miguel Relvas que não me conhece de lado nenhum; esqueça que de há 25 anos a esta parte sabemos quase tanto um do outro como os beirais das casas sabem da chuva; o Senhor porque fez quase toda sua vida política na região de abrangência do nosso jornal; nós porque somos jornalistas e sabemos fazer o nosso trabalho.

Esqueça que nos ajudou a abrir caminho para a Assembleia da República onde fomos algumas vezes chamar os bois pelos nomes na hora de reivindicarmos mais justiça para a comunicação social regional. Esqueça que sabe como funciona a maioria dos jornais locais e sabe, da experiência e da observação e do trabalho político, como se constrói uma empresa de comunicação social como aquela em que trabalhamos, que é única no país.
Deixe que lhe dê um exemplo. No concelho de Palmela, onde estamos hoje, O MIRANTE é líder entre todos os jornais nacionais em Fidelidade e Afinidade segundo o bareme imprensa da Marktest no estudo realizado na zona centro e sul. A difusão de O MIRANTE é de tal forma grande e substantiva nos concelhos onde trabalhamos do outro lado do Tejo que conseguimos ser líderes no concelho de Palmela e de Setúbal embora tenhamos aqui poucos leitores

O senhor Ministro deve saber que há uma lei que obriga o estado a publicar 15% da publicidade institucional nos jornais regionais e que nunca foi cumprida nem em 1%.; o senhor Ministro deve saber que ao acabarem com a obrigatoriedade da publicação dos editais e publicações de várias instituições do Estado os jornais de proximidade perderam uma das suas receitas mais importantes e o Estado perdeu transparência na relação com os cidadãos; o Senhor Ministro deve saber que o preço mínimo de assinatura e o pagamento à cabeça foi uma invenção de tal modo surrealista que já passaram “paletes” de governantes por esta pasta e ninguém conseguiu, até hoje, corrigir uma lei que nem lembrava ao diabo que parece ser mais inteligente que o dirigente socialista que também esteve na origem da redução do Porte pago para 40%.
Senhor Ministro Miguel Relvas: a imprensa regional e local merece mais do que a atenção que os últimos secretários de Estado lhe têm dedicado. Os milhares de jornalistas que se licenciaram para trabalharem no mercado mereciam melhores governantes e governos mais justos e atentos ao país real.
Todos sabemos que o Senhor tem várias batatas quentes na mão a começar na privatização da RTP e a acabar no problema com o segredo de Justiça. Mas isso não é desculpa para não fazer justiça às empresas de comunicação social que criam emprego e são a voz da cidadania no país real que o Senhor conhece muito bem.
Pergunte aos empresários que trabalham no país real se eles estão contentes com o sistema do Porte Pago (PP) e com o trabalho de distribuição dos correios que nos levam coiro e cabelo.
Se o Senhor não tem tempo ponha alguém a trabalhar para ver se consegue perceber de que vale ter um subsídio de PP de 40 % sobre preços que nós não podemos negociar com os correios por estarmos de mãos e pés atados pela forma como este sector sempre foi gerido e, de certo modo, manobrado pelos vários interesses instalados.
O Gabinete de Meios serve para quê? A secretaria de Estado que o seu ministério tutela serve que interesses? De que forma é que o Estado vai compensar os jornais que estão a migrar para o digital? De que forma é que o Estado vai apoiar os projetos regionais que tentam sobreviver fora dos grandes centros e à margem dos grandes interesses económicos?
Se começaram o funeral do PP porque é que não enterram o morto? Se desafiaram as empresas a sobreviveram com as regras do mercado porque é que o Governo continua a financiar os CTT e não obriga a sua administração a entender-se com as empresas do setor que são tratadas como se tratam órfãos de pai?

O Senhor acredita na regionalização e não acredita que há gente valorosa por esse país fora que também sabe gerir uma televisão e fazer jornalismo de qualidade que não sirva apenas morangos com açúcar e intrigas ao jantar?
Joaquim António Emídio

*Texto lido em Palmela no almoço que reuniu todos os participantes no Dia da Imprensa comemorado a 11 de Dezembro em Palmela.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A magia da vida dos pequenos empresários *

Uma palavra de elogio aos empresários e empresas premiadas nesta edição do Galardão Empresa do Ano. Uma palavra de apreço pelo trabalho que a NERSANT continua a fazer na nossa região junto da classe empresarial. A NERSANT é, sem dúvida, a maior instituição da região e aquela que melhor nos representa e nos pode ajudar nos piores e nos melhores momentos.
Estou aqui a representar um jornal com 25 anos sempre a crescer que considero, embora escreva e fale em causa própria, um fenómeno de resistência e de vida em Portugal. Não conheço outro exemplo neste país sempre em crise e cheio de gente esperta que se reforma aos 40/50 anos.
Há 13 anos que iniciamos esta parceria com a NERSANT e há 12 anos que premiamos empresas e empresários sempre com a melhor das intenções e quanto mais não seja para dizermos ao mundo que existimos e que temos cultura e uma economia que não é assim tão desprezível como parece face àquilo que temos em Lisboa, entre São Bento e o Terreiro do Paço.
Às vezes olho para trás e arrepio-me. Não é grande coisa o que temos como referência. Não podem culpar O MIRANTE nem a NERSANT. Mas há casos de grande mérito. Infelizmente não são assim tantos que me levem a dizer, hoje e aqui, que podemos dá-los como exemplos de grandes parceiros e de grandes companheiros de caminhada. Mas é trabalho e parceria de que nos orgulhamos apesar das vicissitudes. E embora os tempos estejam difíceis…….. há gente que faz a diferença.

O trabalho para mim é uma paixão. Quando me desapaixono por um trabalho prefiro morrer à fome que continuar a trabalhar num ofício do qual deixei de gostar. Foi num desses momentos de grande paixão por este trabalho de dirigir e editar um jornal que me lembrei de propor o Galardão Empresa do Ano à NERSANT. E ainda me lembro da ideia original que me fez fazer a proposta. Sempre que volto atrás nos anos, e regresso ao tempo da minha meninice, não encontro pelo caminho o homem do talho, o homem da mercearia, o homem da oficina, os homens dos muitos ofícios que fazem crescer uma comunidade e estão por detrás de toda a alma de uma terra.
Aprendi muito cedo a perceber que o sistema capitalista serve-se dos pequenos empresários como o magarefe se serve da faca para matar os animais que lhe chegam ao matadouro.
Lembro-me como se fosse hoje de perguntar como era possível a um pequeno empresário andar sempre a caminho dos bancos para pedir dinheiro para trocar de carro, para pintar a frontaria da casa, para fazer obras na loja. E estamos a falar de pessoas que trabalhavam, e algumas ainda trabalham, 16 horas por dia, sete dias por semana.
Há qualquer coisa de mágico na vida de todos os pequenos empresários das nossas vilas e aldeias. Mágico no sentido em que a vida deles passa tão depressa e é tão assoberbada que eles nem dão pelo facto de envelhecerem sem nunca terem molhado o cu na água do  mar, ou conhecerem a verdadeira Europa do Euro, e serem nos tempos modernos os verdadeiros servos da gleba do sistema.
Eu trabalhei dos onze ao 22 anos atrás de um balcão, de dois balcões para ser mais exacto, e foi lá que eu aprendi tudo o que sei hoje. Tudo. Na altura os camponeses conviviam bem com os homens dos ofícios tradicionais, os escriturários, os bancários, os pequenos burgueses que viviam apenas dos rendimentos. Era um mundo totalmente diferente do mundo de hoje mas tinha esta particularidade que eu chamo mágica porque me galvaniza e não me deixa tranquilo como eu gostava de viver; o sistema capitalista está de tal modo montado que, com mais ou menos evolução, com mais ou menos tecnologia, com mais ou menos ensino superior, com mais ou menos justiça, os pequenos são sempre os escravos dos grandes. E tudo o que ganham, e amealham, vai servir apenas para pagar o caixão na hora da verdade….. Vem uma tempestade e lá têm eles que começar tudo de novo. E quase tudo acaba sempre com um trespasse, quando não é com a falência do negócio, ou com a insolvência, como agora é moda.

Quando nasceu a ideia deste Galardão já o mundo não era assim tão a preto e branco. Mas olhando para trás alguns dos premiados já caíram que nem tordos. E não foi por serem maus gestores ou por não saberem gerir; foi porque vivemos numa economia governada por inábeis, por gente que só sabe fazer política e nunca trabalhou, nunca soube o que era aceitar uma letra, empenhar-se por um projecto empresarial para criar emprego, nunca sentiu a responsabilidade de pagar Segurança Social, ordenados diferenciados, nunca sentiu vergonha de ficar encostado ao balcão de uma entidade bancária a pedir emprestado aquilo que, às vezes, um gerente reles não é capaz de dar nem de confiar tão entretido que está com o seu pescoço de girafa e o seu casaco de camurça.

A ideia deste Galardão nasceu dessa necessidade de homenagear os empresários que prestam serviços à comunidade e ajudam a dar visibilidade à nossa região que é uma das mais ricas do país.
A ideia é gerar amigos, solidariedades, dar valor a quem investe e criar riqueza para não irmos todos de mala aviada para Lisboa, ou para Sintra, ou em última instância para o Litoral seja lá a terra que for, ou aldeia, onde encontremos uma casa barata para viver que não seja onde deixa de haver trabalho e os cogumelos selvagens já não crescem debaixo dos sobreiros ou o rosmaninho debaixo dos pinheiros.
Estamos aqui para premiar empresários e empresas e são eles que devem ocupar este lugar no púlpito. Eles é que são os protagonistas da noite. As escolhas foram feitas com os critérios de sempre e não tenho dúvidas que são os melhores e os mais justos.
Quem nos vê não nos julgue pela aparência. Somos pessoas felizes, persistentes, corajosas e solidárias. Cultivamos o pensamento crítico mas não somos pessimistas, somos realistas. José Saramago disse numa entrevista, pouco antes de morrer, que “ser socialista era uma actividade de espírito”. Ser empresário é uma actividade cívica. Não encontro melhores palavras para homenagear os empresários e as empresas que recebem hoje o Galardão Empresa do Ano.
JAE

*Texto lido na entrega dos prémios Galardão Empresa do Ano realizado no dia 29 de Novembro de 2012 em Alcanena

Um jornal sempre do lado dos mais fracos *

Sou, todos os dias, um jornalista preocupado com a qualidade editorial de O MIRANTE e sempre à procura de uma boa história.
Para alguns o nosso sucesso editorial é uma desgraça. Para outros é uma alegria. Para alguns as nossas histórias são de esfregar as mãos; para outros são histórias que tiram o sono.
Não há vidas perfeitas, não se pode servir a Deus e ao Diabo; quando trabalhamos de forma séria e responsável e temos orgulho no que fazemos só paramos no Samouco, como é costume dizer-se na minha terra.
Os 25 anos que vêm contados na edição de aniversário de O MIRANTE, textos que o Alberto Bastos escreveu, com pessoas que eu conheço desde menino, algumas delas até mais novas do que eu, são a parte mais bonita da história. As histórias que ficaram por contar são bem mais dolorosas e provavelmente nunca serão contadas. Algumas delas vão e vêm à memória e nem sequer são já matéria que valha a pena aproveitar para fazer caminho.
Assim como nunca sonhei que podia vir a ser ourives, como fui durante alguns anos, ourives de trabalhar à banca como se me tivessem nascido os dentes na profissão, também nunca sonhei ter uma carteira profissional de jornalista como é o caso desde há quase duas dezenas de anos, embora nunca tivesse frequentado uma universidade nem sequer um simples curso do CENJOR ou de outra qualquer organização ligada a esta profissão.
Já estou numa idade em que se pode dizer tudo. Mas quando se chega a esta idade aprendemos muito rapidamente que é muito mais fácil calar certas coisas que andar com elas na ponta da língua como se tivéssemos urgência em demonstrar que nunca deixamos de ser parvos.
( : )
Já disse e repito que o maior gozo deste projecto é a possibilidade de fazer jornalismo de qualidade fora de Lisboa para uma das regiões mais ricas do país. Mas nem isso devemos só a nós próprios. Tivéssemos à nossa volta uma sociedade civil bem organizada que não precisasse de nós e O MIRANTE nunca teria crescido o que cresceu. Tivéssemos jornais editorialmente fortes e com jornalistas competentes a fazerem a sua missão e O MIRANTE nunca teria passado da Chamusca. O problema é que não tínhamos. A imprensa regional e o local sempre esteve ao nível do correio da paróquia, com todo o respeito pelos paroquianos. Até posso ser o maior filho da mãe para certos camaradas da profissão que não gostam da forma como trabalhamos e como fazemos jornalismo. Mas a verdade é que eles andam há 25 anos a editar o mesmo jornal com as mesmas ferramentas e sempre com os seus rabos pelo chão a pedirem publicidade de joelhos para pagarem as despesas e os vencimentos sempre atrasados.
Não falo em nomes pois seria uma vergonha e uma desconsideração e até uma falta de respeito para com a nossa própria equipa. Mas já tenho idade e estatuto e temos trabalho feito e demonstramos que, afinal, é possível haver jornais de referência fora da Grande Lisboa e que as pessoas de Santarém, de Vila Franca de Xira, da Chamusca e da Golegã orgulham-se de ouvir falar do jornal da sua terra e do prestígio que o jornal ganhou junto das populações e daqueles que falam de nós noutros lugares distantes e até para lá do outro lado do Atlântico.
Esta é a parte que me dá mais gozo embora me custe a maior parte das rugas. Sempre que ajudo a fechar uma edição sinto-me cansado, não como jornalista mas como empresário. Sempre que o Mário Cotovio envia o jornal para a gráfica sinto-me exausto não por ter exercido o ofício de jornalista e um pouco de editor mas por ter que começar logo no minuto seguinte a preparar as coisas com uma equipa muito maior do que a dos jornalistas para que nesse mesmo dia, e no outro, e no outro, o jornal volte a ter outra vez dimensão para acolher as notícias que muitas vezes chegam frescas outras vezes refrescadas por novos episódios.
Não é por acaso que nesta sala há mais empresários que políticos. Não é por acaso que eu e quem trabalha comigo sempre tivemos muito mais próximos dos empresários do que dos políticos. Não é por acaso que é muito raro ver um empresário maltratado nas nossas notícias. O MIRANTE procura ser um jornal com notícias felizes. Quando não conseguimos vamos entrevistar pessoas que são felizes e que ajudam a esconder as notícias amargas. Mas empresários maltratados, como alguns políticos, jamais encontrarão no nosso jornal. Não é só uma questão de linha editorial: é uma questão de princípio, uma questão de defesa de valores, de defesa até da nossa própria pele e da nossa própria identidade.
Os melhores parceiros deste jornal sempre foram os empresários; os pequenos e os médios empresários acima de tudo. ( : )
É como jornalista que gostava que os meus filhos me lessem um dia que precisassem de referências para se guiarem na vida. Mas é como gestor que eu trabalho todos os dias e dou de mim o sangue e o mijo que vai no meu sangue quando tenho que dar a cara e a veia e as costas para lutar com os tipos dos bancos, com as gráficas, com o infortúnio dos acidentes com os carros, com o uso imoderado dos telemóveis e do gasóleo, entre outros; tudo aquilo que um gestor conhece bem, sente na pele todos os dias e muitas vezes mais do que na pele sente no coração quando ele dá o estoiro e lá se vão os dedos e ficam os anéis para quem não os merece.

Por último, duas ou três coisas que sei que vos interessam ou julgo saber que interessa a alguns.
O MIRANTE é um projecto editorial que pretende estar do lado dos mais fracos. Não me vejo a fazer jornalismo defendendo os banqueiros ou os empresários reaccionários. Há uma luz vermelha imaginária na redacção que se acende quando os jornalistas escrevem muitos textos sobre política. Todos a conhecem embora nem todos a respeitem. Mas esse é o nosso desígnio.
Fazer um jornalismo comprometido com as classes mais desfavorecidas. Trabalhar para os leitores que valorizam as notícias da sua terra e da sua rua. Não é por acaso que incentivamos as páginas dos leitores; não é por acaso que mais de metade das nossas histórias chegam à redacção através do telefone. Temos essa sorte ou esse mérito de termos conquistado ao longo dos anos o respeito dos leitores que sabem que na nossa redacção não existem gavetas onde se escondam histórias por serem inconvenientes ou desagradarem a este ou aquele.
JAE


*Texto lido no jantar do 25º aniversário de O MIRANTE que se realizou na Quinta da Feteira em Fazendas de Almeirim, na noite do dia 16 de Novembro 2012.

No dia dos 25 anos de O MIRANTE*

Faz hoje 25 anos que editarmos na Chamusca o primeiro número de O MIRANTE. 25 anos depois temos um jornal que nada tem a ver com aquela que escrevemos pela noite dentro e com todo o tempo do mundo para gozar o prazer da escrita e o efeito que as notícias causavam na comunidade.
Nestes últimos 25 anos o mundo mudou quase radicalmente em muitas áreas nomeadamente na comunicação social. O MIRANTE era um jornal a preto e branco impresso numa rotativa manhosa e montado numa banca de forma artesanal. Hoje, e de há uns anos a esta parte, faz-se um jornal em poucas horas e em segundos, através das linhas telefónicas, está a imprimir numa rotativa a centenas de quilómetros do lugar onde foi escrito e desenhado.
Somos o jornal com a assinatura mais baixa do mercado. Somos o único jornal regional que faz parte do Bareme nacional da Marketest por sermos o único com referências para isso; trabalhamos numa região com 23 concelhos e, com uma ou outra fragilidade editorial a norte do distrito, somos o jornal das oito cidades e das mil aldeias.
Os nossos jornalistas sempre trabalharam em exclusividade. Nunca fomos os jornalistas de O MIRANTE e os correspondentes do Diário XPTO.
Cada um de nós foi recrutado para a equipa tendo em conta o concelho e os concelhos onde queremos trabalhar e mostrar trabalho. Há concelhos onde somos desejados e bem tratados como profissionais da comunicação. Há outros onde temos que nos impor todos os dias ainda hoje para ganharmos o nosso espaço.
Temos uma equipa de trinta pessoas divididas em três sectores cada um mais importante do que o outro nesta luta entre fazer jornalismo descomprometido e facturar junto dos anunciantes apenas graças à força editorial de O MIRANTE.

Samuel Wagner, um célebre jornalista e editor brasileiro, escreveu num livro que é um grande testemunho de vida confessando que para aguentar o jornal que editava na altura chegou a namorar com algumas filhas de alguns anunciantes importantes para não perder os contratos de publicidade.
Os tempos não estão para aventureiros nem para levar muito a sério testemunhos importantes de figuras importantes que, no entanto, viveram noutros tempos quando os poetas já iam à lua mas os astronautas ainda treinavam em terra como haveriam de lá chegar.
O MIRANTE chega a Abrantes, Vila Franca de Xira e a todas as grandes cidades da região ribatejana. Mas também chega ao Pego da Curva, Pé de Cão, Toucinhos, a mil e um lugares escondidos da civilização onde apesar de tudo encontramos o melhor que ainda somos como portugueses e ribatejanos.
A grande festa dos 25 anos de O MIRANTE é o momento da chegada do nosso jornal à caixa de correio de todas essas pessoas que o agarram e sentem orgulho por fazerem parte também eles de uma grande família e de uma grande região que nós temos ajudado a unir e  a tornar ainda maior e mais rica.
Sem a colaboração dos leitores não seriamos o que somos hoje. E sem o crédito que eles nos concedem ao lerem o jornal e ao mostrarem orgulho em serem assinantes, ou simplesmente leitores atentos, nunca teríamos chegado aos 25 anos com a força editorial que podemos comprovar nas duas edições que, entretanto, estão a chegar a todas as caixas de correio.
JAE

*Texto publicado em vídeo em O MIRANTE TV

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Rui Barreiro e a coisa pública


A notícia que publicamos nesta página parece-me de interesse público. Aos jornais e aos jornalistas compete escrever a verdade e só a verdade independentemente das pessoas e dos interesses em causa. Neste caso os leitores de O MIRANTE merecem ser informados que a publicação desta notícia fica a dever-se ao facto de vivermos ainda numa democracia e de os responsáveis editoriais de O MIRANTE ainda confiarem nas instituições democráticas. O último comentário publicado sobre este assunto levou Rui Barreiro pela enésima vez a apresentar queixa em tribunal contra jornalistas deste jornal.
A intenção é amedrontar, limitar, cercear o direito à liberdade de imprensa. Com a Justiça que temos é ainda mais fácil complicar a vida a quem vive do oficio do jornalismo; quem não tem dinheiro nem vagar para caminhar para os tribunais; para influenciar o que é influenciável nesta máquina poderosa que é a justiça portuguesa actual que merece as maiores criticas das forças vivas da nossa sociedade.
Rui Barreiro é uma figura pública com imensas responsabilidades no caos a que o país chegou. Fez mais mal a Santarém que os temporais que deitaram abaixo as barreiras que sustentam o planalto escalabitano. Nem imagino o quanto terá gerido mal como secretário de Estado mas palpito, a confiar na sua falta de jeito para gerir a coisa pública.
No último processo que entrou em tribunal estão lá os do costume como testemunhas: João Machado, o patrão do CNEMA, Joaquim Rosa do Céu, o príncipe de Alpiarça, Manuel Afonso, o cacique perfeito. JAE

Comentário à noticia: http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=573&id=87010&idSeccao=9727&Action=noticia