quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

O pau com que batem é o mesmo com que levam nos cornos

A chegada de um novo ano é o melhor pretexto para falarmos de livros e de leituras. Com a pandemia, o ano que agora acaba tornou-se o pior ano das nossas vidas; mas que ninguém espere melhor mesmo com a chegada da vacina. Não podemos dar tréguas aos políticos nem aos seus secretários.

A chegada do Ano Novo é sempre um bom pretexto para olharmos por nós abaixo e encontrarmos aquilo que ao longo do ano não vimos por causa do movimento acelerado das nossas vidas pessoais e profissionais. Na noite de Natal reparei que os meus dedos estavam feridos por causa de alguns dias na banca de ourives a brincar com as ferramentas. Mesmo a brincar o trabalho magoa o corpo e, às vezes, o espírito. Na manhã do dia 26 descobri que este ano li mais livros que nos dois últimos dois. A mudança de aldeia obrigou-me a escolher da biblioteca os meus quinhentos livros preferidos para levar para a nova casa; e isso deu-me alento para ler e reler livros que me avivaram a memória: “nem sempre se pode ver de olhos abertos”.

Ainda não foi desta que reli a Odisseia e a Eneida, mas reli, ou li pela primeira vez, vários romances de Ana Miranda, Paul Theroux, Aquilino Ribeiro, Mário de Carvalho, Baptista Bastos, Marguerite Yourcenar, Rosa Montero; Agustina Bessa Luís, e muitos poetas que estão sempre presentes nas minhas leituras diárias como Kavafis, Pierre Louis, Raul de Carvalho, Virgílio Alberto Vieira, Paul Éluard, Rui Bello e João Rui de Sousa; muitas biografias, de que destaco as sobre Picasso, e dois livros marcantes que foram “Diarios 1984-1989” de Sándor Márai, numa edição em espanhol, e “Camilo Intimo”, que me mostraram a crueldade da vida e a força da literatura. Os meus livros do ano foram as releituras da obra de George Steiner, que morreu no dia 3 de Fevereiro de 2020, e todos os livros de Claúdio Magris, que nasceu e vive em Trieste, uma das minhas cidades de eleição, também por ter sido morada de Rainer Maria Rilke.

Os livros são o melhor pretexto para falarmos da escravidão do trabalho e dos sentimentos. Há quem nasça e morra agarrado ao mesmo pau; é com ele que batem e é com ele que levam nos cornos desde que nascem até que morrem. Este ano dei por mim a fazer uma listagem de pessoas que viveram, à minha frente, situações que a mim me fariam despir a pele e oferece-la aos cães, e que, para eles, não passaram de simples episódios da vida.

Não estou a falar dos políticos, nem dos parasitas que vivem nos gabinetes dos políticos, que por cheirarem os seus peidos acham que são íntimos ou ainda mais íntimos que os respectivos cônjuges ; estou a falar dos gaudérios que vivem aqui ao nosso lado, controlando organismos públicos com as suas manhas de carneiros mal mortos; os activistas culturais que se acham no direito de viverem à custa do erário público por saberem disfarçar-se, em cima de um palco, com uma simples barba postiça; os directores e assessores de vários organismos do Estado e da municipalidade que, mal pensam em usar a boca para dizerem em público aquilo que pensam, levam nas orelhas porque foram contratados para ficarem calados e serem apenas a voz do dono: os “cães” que nunca são vacinados contra a raiva porque precisam do vírus activo para sobreviverem.

O ano de 2020 ainda não terminou mas basta estar atento a algumas alterações que aconteceram em algumas instituições da região e do país para concluirmos que o problema da pandemia provocado pelo coronavírus é uma pequena desgraça comparado com o mal do analfabetismo que nos vai levar ao descrédito e à inacção, ao desprezo e, principalmente, à insignificância. A pandemia matará ainda muitos de nós mas a ignorância de certa gente, que faz a gestão da coisa pública, fará muitas mais vítimas a curto e médio prazo, com menos dor mas de certeza com mais sofrimento. E é certo que também, a curto prazo, vamos todos ficar livres da pandemia com a vacina que já começou a ser distribuída. Para o mal da ignorância e da prepotência dos governantes e dos seus acólitos jamais os cientistas descobrirão vacinas eficazes JAE .

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Os velhos que paguem a crise ou a vida em pandemia

 Em Santarém há uma instituição que merece o nosso reconhecimento principalmente em tempo de festividade natalícia. Chama-se Fundação Luiza Andaluz e destina-se a receber/acolher meninas que vivam em situações familiares de risco como violência, abusos ou abandono.



Nos últimos dias recebi algumas mensagens de amigos a sugerirem que festeje o Natal a contribuir financeiramente para casas de acolhimento para bebés, crianças e jovens vítimas de abandono e maus tratos. Não há forma de ignorar que o Estado português não tem dinheiro nem organização suficiente para financiar as instituições que apoiam os mais desprotegidos da sociedade. Falo de crianças mas, nesta altura, o que mais me faz doer o coração são os velhos que devido à pandemia têm caído como tordos nos lares de acolhimento onde deviam ter a protecção e o seguro de vida garantido. Não é isso que acontece na maioria dos lares; e o que a pandemia veio por a nu foi a existência de centenas de casas ilegais que funcionam como lares, sem condições, à margem da lei, pondo em causa a vida humana e os direitos consagrados na Constituição da República, tão proclamados diariamente pelos políticos nas suas lutas verbais nas televisões e nos debates, onde discutem apenas o sexo dos anjos e ignoram os verdadeiros problemas do país.

A democracia em Portugal, como na maioria dos países democráticos, ficou mais frágil com a pandemia; estamos nas mãos de gente impreparada para situações de emergência social, para acudirem aqueles que não beneficiam do sistema, não têm médico de família nem tão pouco renumeração suficiente para pagarem à farmácia juntamente com a conta da água e da luz. Não devemos nem podemos ignorar o que se está a passar com a empresa intermunicipal Águas do Ribatejo. As facturas estão a sair para os consumidores com números exorbitantes, e nem os autarcas dão a cara pelo prejuízo, nem os responsáveis pelos serviços cumprem com as suas obrigações, embora sejam pagos a preço de ouro para gerirem os interesses dos munícipes em nome dos políticos que elegemos.

Volto ao início do texto. Em Santarém há uma instituição que merece o nosso reconhecimento principalmente em tempo de festividade natalícia. Chama-se Fundação Luiza Andaluz e destina-se a receber/acolher meninas até aos dezassete anos que vivam em situações familiares de risco como violência, abusos ou abandono. Para quem quiser ser solidário fica aqui o apelo para que batam à porta da instituição e não se façam rogados. Desde brinquedos até palavras de conforto e solidariedade, o que for doado com amor será recebido com o mesmo sentimento. A foto que acompanha esta crónica é de Catarina Rodrigues com duas crianças gémeas ao colo e foi publicada na edição de O MIRANTE de 7 de Abril de 2011. JAE .

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Valadas da Silva, Francisco Madelino e Luís Patrão: o PS no seu melhor

Um crime no aeroporto de Lisboa está a colocar Portugal ao nível dos países que vivem em ditadura. Oportunidade para lembrarmos também que vivemos cada vez mais ao ritmo dos interesses partidários e de grupo que se sobrepôem aos interesses do país e dos portugueses.


I

Graças ao sentido ético de um médico legista, vários polícias do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) estão acusados do crime de matarem um cidadão ucraniano no aeroporto de Lisboa. A morte já aconteceu em Março, mas o assunto continua a dominar a actualidade de tal forma foram violadas as regras mais elementares de um país com uma democracia consolidada. O crime de que os polícias estão a ser acusados teve solidariedade da justiça portuguesa: a família teve que esperar 80 dias por uma resposta judicial para se constituir como assistente no processo quando o normal são mais ou menos trinta dias. Com esta demora a família pode ter perdido algumas oportunidades de ver a justiça a funcionar na morte de Ihor Homenyuk. A forma como a notícia apareceu na comunicação social indica que o cidadão ucraniano terá sido morto como se mata uma barata. Nesta altura tudo indica que ninguém escapará das suas responsabilidades e que a verdade será apurada em tribunal.

II

O Estado pode transformar-se num monstro quando os seus representantes servem os interesses pessoais, ou de grupo, em detrimento dos interesses do povo e do país. Encontrei para início desta crónica um caso de polícia, grave, que põe em causa mais do que uma instituição, a democracia de um país; oportunidade para chamar também a atenção para os funcionários/militantes dos partidos que à frente das instituições do Estado, devidamente empossados pelo chefe do Governo, não usam bastões para nos eliminarem mas é como se usassem. Quem não for do partido do Governo jamais vai conseguir ter a atenção do presidente do Instituto do Emprego e Formação Profissional, António Valadas da Silva; quem não for do Partido Socialista jamais vai perceber como é que um reputado economista, chamado Francisco Madelino, vai para presidente da Fundação Inatel que é uma organização destinada a organizar o turismo sénior; quem não for militante do Partido Socialista jamais vai compreender como é que Luís Patrão continua a trabalhar no Largo do Rato, em Lisboa, como secretário nacional para a administração do PS, quando todos sabemos que o partido precisa de sangue novo e de se reformar da velha gente que ia levando o país à ruína, com tanto descrédito da sua classe política.

António Valadas da Silva, Francisco Madelino e Luís Patrão são apenas três figuras do PS que retratam bem a situação a que chegamos a nível político. O trabalho deles é continuarem o que Abril nos deu; com uma diferença; eles são abrilistas como dantes se era salazarista; não largam o tacho nem que tenham que rapar o fundo; não entregam o poder nem que para isso tenham que morder um corno; embora vivamos numa República eles são os monárquicos do regime; eles e muitas centenas de outros que vivem daquilo que faz eterno Salgueiro Maia, a quem Cavaco Silva negou uma pensão “por serviços excepcionais e relevantes”, na mesma altura em que concedeu pensão a dois inspectores da extinta PIDE/DGS.

III

Há políticos a usarem bastões como polícias. Vemos isso todos os dias nas políticas dos governos dos últimos anos. Basta estarmos atentos ao que se passa com os fundos comunitários e os apoios do Estado às empresas. Nalguns casos a maioria dos fundos de apoio comunitário não são usados e o dinheiro não sai de Bruxelas. Se ouvirmos os portugueses em inquéritos, como aconteceu recentemente, a maioria não acredita na capacidade do país em aproveitar bem o dinheiro. Quem é que na oposição ao Governo de António Costa se preocupa com estas questões da injustiça e do clientelismo político? Vamos ter que nos render todos aos discursos populistas que começam a minar ainda mais a democracia e afastam os eleitores das urnas de voto? Aparentemente não temos alternativas. JAE.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A morte na A1 está sempre à espreita

Crónica sobre a circulação com chuva na A1, no troço entre Santarém e Lisboa, assinada por quem, ontem ao final da tarde, presenciou o acidente que acabou em tragédia.


Fui um dos condutores que no final da tarde de ontem, 5 de Dezembro, poucos quilómetros depois de entrar na A1 em direcção a Lisboa, esperou mais de duas horas para seguir caminho. Cheguei ao local do acidente poucos minutos depois do despiste. Parei ao sinal do funcionário da Brisa atrás de meia dúzia de carros que minutos antes circulavam à minha frente. Saí e fui ver o que se passava. A cerca de 50 metros vi um carro que era um amontoado de destroços e recuei. Comentei com o funcionário da Brisa o aparato do acidente que já deixava adivinhar uma tragédia. “Parece impossível, mas não é, infelizmente”, comentou, de cara fechada, enquanto continuava a espalhar os pinos para controlar melhor os automóveis que iam chegando.

Tinha trabalho no carro. Sentei-me a rever provas de um livro e vi chegar a primeira ambulância, depois a segunda, a terceira e por aí fora. Quando vi chegar os Bombeiros de Santarém voltei a sair do carro e aproximei-me. Um deles perguntou a um colega; “há alguém vivo?” Voltei para dentro do carro depois de ter espreitado mais uma vez os destroços do primeiro carro envolvido no acidente.

A chegada de mais ambulâncias obrigava alguns carros a recuarem quase para junto do meu. Durante mais de duas horas, enquanto via passar carros da polícia e ambulâncias, as luzes vermelhas ali a poucos metros anunciavam os sinais da tragédia.

Quando chegou a ordem para avançarmos, e eu fui dos primeiros, fomos mais de uma centena de metros a ouvir debaixo dos carros o barulho dos destroços dos veículos acidentados. Devagar, diziam os bombeiros para os condutores, que usavam apenas uma faixa de rodagem da A1 durante os cem metros de estrada em que tudo aconteceu.

Cheguei a casa pouco mais de meia hora depois. Comi uma sopa e fui ver a RTP 2 que transmitia um bailado. Perto da meia noite, quando ia começar um dos filmes portugueses mais premiados dos últimos anos, Zeus, ligaram-me a perguntar se podiam actualizar a notícia do acidente já que a morte que eu tinha anunciado pelo telefone, com a ajuda da informação dos bombeiros, era uma figura conhecida.

Mudei de canal e percebi que o assunto já era conhecido em todo o país.

Há poucos anos, num final de tarde de chuva como o do passado sábado, também estive envolvido num acidente do género na A1, a poucos quilómetros do local onde estava, mas fui a única vítima. O que mais recordo foi a conversa do taxista de Aveiras de Cima que me levou para casa enquanto a polícia, que passou por acaso, e sorte minha, ficou a guardar o carro enquanto não chegava o reboque: “Assim que começa a chover parecem tordos a cair”. Depois contou-me os pontos fracos da A1 onde acontecem mais acidentes.


Esta crónica serve para contar que ainda há poucos dias tentei pela enésima vez saber quantos pontos fracos tem a A1 desde Santarém até Lisboa? Quantos acidentes se dão por dia quando chove? Porque razão as autoridades não sinalizam os locais onde a circulação com chuva deve ser mais cuidadosa por causa do aquaplaning ? Por que não há campanhas nacionais de prevenção de acidentes nos dias de chuva, em que a grande maioria das estradas, incluindo a A1, é uma ratoeira para os condutores irresponsáveis, e também para os responsáveis que se deixam levar pela pressa de chegarem ao seu destino, ignorando os avisos de que com chuva a velocidade tem que ser reduzida ?


Todos os dias utilizo a A1, e todos os dias, mesmo sem chuva, lembro-me do taxista de Aveiras de Cima que me disse que há automobilistas que “caiem como tordos”. Como eu caí um dia, sem mal maior que perder o carro, mas com a sorte, que ás vezes nos protege, de não circularem carros atrás do meu, o que fez com que não tivesse causado a desgraçado à vida de outros.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O rio Tejo a Património Mundial da Humanidade

 Os rios falam; umas vezes inconformados (...) outras vezes quando se tornam lágrimas. Por isso os rios deviam ser Património Mundial da Humanidade, por razões muito mais urgentes que os monumentos de pedras seculares.

Anda por aí um burburinho, que eu aplaudo, sobre a forma de salvar o rio Tejo e a água poder servir melhor os interesses dos agricultores e das populações ribeirinhas. Gostava de ver este assunto discutido com unhas e dentes, com gente que se interessa verdadeiramente pelo ambiente e não está a pensar só no valor do rio para a economia, mas também na defesa do ambiente e na preservação da natureza.

O rio Tejo só continua igual ao rio das nossas aldeias para alguns de nós que vivem abaixo do território de Abrantes, só para citar um exemplo da agressão ao leito do rio. Quem vive para cima sabe que o Governo de José Sócrates autorizou a construção de um açude que se tornou numa verdadeira aberração, que prova o quanto a política é a arte da mentira e do engano, neste caso com custos iniciais de mais de 10 milhões de euros, para além dos prejuízos que há mais de 15 anos se vão somando e acumulando. Para nada. Para nada de importante. Aparentemente só para que Abrantes tenha o maior espelho de água urbano de Portugal. Tudo à vista dos políticos e ambientalistas que, também aparentemente, são pessoas em quem devemos continuar a confiar os destinos do país e das instituições.

Os afluentes do Tejo, desde Castelo Branco até Santarém, que são os que conheço melhor, têm uma história triste a cada ano que passa apesar das promessas políticas de defesa da qualidade da água e das suas margens. Não vou contar desgraças neste texto. Vou deixar aqui uma mensagem para todos os que gostam dos rios, e bebem água da torneira, sem se questionarem sobre o futuro do planeta.

Devíamos desafiar os autarcas a promoveram o rio Tejo a Património Mundial da Humanidade. Não estamos a falar de muralhas, nem de castelos, nem de conventos e muito menos de palácios construídos de pedras seculares e representativos de uma História com mais de 800 anos. Estamos a falar da sobrevivência das espécies e do futuro do nosso planeta que tem milhões de anos.

Já ninguém consegue recuperar os ribeiros onde as nossas mães lavavam a roupa, nem os riachos onde mergulhámos em crianças, nem os rios navegáveis que atravessavam os territórios da charneca e do bairro; mas é urgente amar os rios, criar um projecto que envolva as escolas e os professores, falarmos dos lugares onde nascem, do seu percurso, da sua flora e dos danos que sofrem da nascente até à foz. Têm que ser projectos locais para depois se tornarem nacionais.

Os rios falam; umas vezes inconformados, que é quando as águas saltam as margens e destroem tudo à sua volta, outras vezes quando se tornam lágrimas, como acontece cada vez mais com o rio Tejo e com a grande maioria dos seus afluentes. Por isso os rios deviam ser Património Mundial da Humanidade, por razões muito mais urgentes que os monumentos de pedras seculares; porque não teremos vida sem os rios; porque quase toda a água do planeta é salgada, pouca é a água doce; e porque os rios são seres fabulosos que não podemos perder por causa dos interesses dos produtores agrícolas e dos industriais que ignoram as práticas ecológicas e só pensam nos lucros imediatos dos seus negócios. JAE.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

As palavras dos outros: António Valdemar, Alberto Dines, Fernando Lemos, Ana Miranda e Baptista-Bastos

 Esta edição de O MIRANTE inclui uma entrevista que tem o meu dedo. Oportunidade para recordar que uma vida não chega para fazermos tudo o que gostamos e a profissão exige.

O MIRANTE publica nesta edição uma entrevista com o jornalista António Valdemar que tem o meu dedo. Foi fruto de um encontro para partilharmos livros e pormos a conversa em dia. Gosto da entrevista como género maior do jornalismo. Mas a vida não me deixa fazer só o que quero e, muitas vezes, só faço o que menos gosto. Quando a conversa com António Valdemar já ia adiantada, o jornalista perguntou-me: “o que você quer é uma entrevista não é?” E eu respondi com a cabeça já com a máquina fotográfica ligada, a tomar notas sempre que ouvia matéria de interesse. Por causa dessa mania de usar a caneta e o caderno enquanto converso, ouvi uma dúzia de vezes ao longo da tarde: “olhe para mim”, quando Valdemar queria dizer coisas importantes que achava que eu também tinha que ouvir com os olhos. Esta entrevista com António Valdemar fez-me voltar atrás no tempo quando falhei entrevistas com Alberto Dines, que morreu com 86 anos, e que é uma das figuras maiores do jornalismo em língua portuguesa. Tenho o mesmo sentimento em relação a Fernando Lemos, outra figura maior que desapareceu também recentemente com 93 anos, embora com esse tenha partilhado momentos que me deixaram de alma cheia. Alberto Dines deixou um legado no Brasil que não vai desaparecer tão depressa. Para além de ter sido o fundador do “Observatório de Imprensa” era um estudioso da obra de Stefan Zweig cuja casa museu ajudou a fundar, para além de ter escrito uma biografia que é uma obra monumental sobre a vida de uma personalidade fascinante da literatura mundial. O meu desencontro com ele foi só presencial; de resto fui um seguidor da sua obra e do seu exemplo como jornalista e como homem.

Fernando Lemos deixa um rasto inconfundível quando há mais de sessenta anos deixou Portugal para ir morar em São Paulo. O que começou por nos ligar foi a obra de Jorge de Sena, num congresso no Rio de Janeiro, onde fomos ambos conferencistas convidados, graças à Gilda Santos que era nossa amiga comum e uma das maiores divulgadoras da obra do autor de “Sinais de Fogo”.

Fernando Lemos tem uma obra também monumental ao nível da fotografia e das artes plásticas. Não há outro artista da sua geração, e há muitos e famosos, que tivesse deixado uma obra tão diversificada e valorosa. Como pessoa era um homem de uma afectividade e de uma bondade extraordinária.

António Valdemar é diferente destas duas figuras que me conquistaram a estima e o coração. São as tais diferenças que tornam tudo semelhante quando “há um espinho que as anima”, para citar Augusto dos Anjos em a “Última Quimera”, um dos melhores romances da escritora maior da nossa língua, chamada Ana Miranda.

António Valdemar tem uma ligação muito afectiva ao Ribatejo e a muitas personalidades ribatejanas, matéria que não entrou na conversa mas que um dia destes talvez consigamos actualizar noutro encontro.

Uma última nota para quem gosta de jornalistas e de jornais e dos segredos da profissão: Armando Baptista-Bastos foi, sem espinhas, um dos melhores jornalistas de sempre na arte da entrevista. Conheça a maioria das suas grandes entrevistas e alguns dos seus entrevistados que, ou o elogiavam ou lhe chamavam os piores nomes, sempre por causa do seu génio e da arte do seu trabalho. Esta conversa com António Valdemar não é uma peça à Baptista-Bastos nem nada que se pareça. Mas é fruto do mesmo prazer pela profissão e pelo gosto de dar a conhecer “As palavras dos outros”, um dos seus livros que reúne algumas das suas melhores entrevistas. JAE.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Raios partam aqueles que só estão bem com o mal dos outros

A história de O MIRANTE é a história de uma terra, de uma região e de um povo; com muitas e variadas leituras, com muitas e variadas cores, com grandes e extensas lacunas, omissões, erros, falhanços, mas também alegrias, missões impossíveis, lições de vida, serviço público e dever cumprido.

O MIRANTE comemorou 33 anos a 16 de Novembro; deve parecer uma eternidade para quem tem 18 anos; talvez um sopro do vento para quem já passou dos 70 ou dos 80 anos; para alguns de nós pode ser apenas um número se olharmos os anos que passam como simples elementos da nossa vida.

“Não podendo fundir totalmente a sua vida com a existência das coisas, o poeta cria um objecto em que as coisas lhe parecem transformadas em existência sua.

Não podendo fundir-se com o mar e com o vento, cria um poema onde as palavras são simultaneamente palavras, mar e vento.

A finalidade do poeta não é acrescentar objectos à natureza. O mundo não precisa nem de retratos que o repitam nem de ornamentos que o enfeitem.

O poema aparece porque é necessário à existência do poeta. É por isso que Rilke diz que o único julgamento duma obra de arte está na sua origem.

Nenhum sistema de filosofia, nenhum tratado de estética, pode ensinar a distinguir um poema verdadeiro dum falso poema. Sabemos da poesia que ela é uma necessidade mas que não é uma necessidade geral. Como necessidade, sabemos que ela é uma necessidade elementar e não uma necessidade secundária.

De facto, um homem que precisa de poesia precisa dela, não para ornamentar a sua vida, mas sim para viver. Precisa dela como precisa de comer ou de beber. Precisa dela como condição de vida, sem a qual tudo é apenas marginal e cinza morta”.

Recorro às palavras de Sophia de Mello Breyner, retiradas de um texto publicado em 1960, para marcar a crónica que coincide com a data de mais um aniversário do jornal.

Assim como um poema é noventa por cento de labor e dez por cento de inspiração, mais coisa menos coisa, uma ideia, um trabalho, ou lá o que fazemos todos os dias, o que nos liga ao mundo é sempre o selo da aliança com as coisas.

A história de O MIRANTE é a história de uma terra, de uma região e de um povo; com muitas e variadas leituras, com muitas e variadas cores, com grandes e extensas lacunas, omissões, erros, falhanços, mas também alegrias, missões impossíveis, lições de vida, serviço público e dever cumprido.

Nunca seremos mais do que aquilo que os leitores e os anunciantes quiserem que sejamos. Em 33 anos sempre acrescentamos valor ao valor; basta conferir a edição que temos na mão, uma das mais participadas de sempre a nível editorial e comercial.

Só os governos do país, e os apaniguados dos governantes que se escondem como ratos nos gabinetes de Lisboa, desconhecem que há uma força e uma urgência no interior do território que eles nunca conseguirão extinguir; nem vencer pelo boicote e pelo desprezo com que nos tratam. E é certo que um dia vão ter que ceder; é certo que um dia vão ter que ser mais justos para quem vive longe do Terreiro do Paço, da linha de Sintra, dos corredores do Poder, onde se distribuem as prebendas e quase todos são filhos de Deus; e os que não são depressa aprendem a viver debaixo das saias do Senhor.

Raios partam aqueles que só estão bem com o mal dos outros. JAE.