A chegada de um novo ano é o melhor pretexto para falarmos de livros e de leituras. Com a pandemia, o ano que agora acaba tornou-se o pior ano das nossas vidas; mas que ninguém espere melhor mesmo com a chegada da vacina. Não podemos dar tréguas aos políticos nem aos seus secretários.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
O pau com que batem é o mesmo com que levam nos cornos
quinta-feira, 24 de dezembro de 2020
Os velhos que paguem a crise ou a vida em pandemia
Em Santarém há uma instituição que merece o nosso reconhecimento principalmente em tempo de festividade natalícia. Chama-se Fundação Luiza Andaluz e destina-se a receber/acolher meninas que vivam em situações familiares de risco como violência, abusos ou abandono.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2020
Valadas da Silva, Francisco Madelino e Luís Patrão: o PS no seu melhor
Um crime no aeroporto de Lisboa está a colocar Portugal ao nível dos países que vivem em ditadura. Oportunidade para lembrarmos também que vivemos cada vez mais ao ritmo dos interesses partidários e de grupo que se sobrepôem aos interesses do país e dos portugueses.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
A morte na A1 está sempre à espreita
Crónica sobre a circulação com chuva na A1, no troço entre Santarém e Lisboa, assinada por quem, ontem ao final da tarde, presenciou o acidente que acabou em tragédia.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2020
O rio Tejo a Património Mundial da Humanidade
Os rios falam; umas vezes inconformados (...) outras vezes quando se tornam lágrimas. Por isso os rios deviam ser Património Mundial da Humanidade, por razões muito mais urgentes que os monumentos de pedras seculares.
Anda por aí um burburinho, que eu aplaudo, sobre a forma de salvar o rio Tejo e a água poder servir melhor os interesses dos agricultores e das populações ribeirinhas. Gostava de ver este assunto discutido com unhas e dentes, com gente que se interessa verdadeiramente pelo ambiente e não está a pensar só no valor do rio para a economia, mas também na defesa do ambiente e na preservação da natureza.
O rio Tejo só continua igual ao rio das nossas aldeias para alguns de nós que vivem abaixo do território de Abrantes, só para citar um exemplo da agressão ao leito do rio. Quem vive para cima sabe que o Governo de José Sócrates autorizou a construção de um açude que se tornou numa verdadeira aberração, que prova o quanto a política é a arte da mentira e do engano, neste caso com custos iniciais de mais de 10 milhões de euros, para além dos prejuízos que há mais de 15 anos se vão somando e acumulando. Para nada. Para nada de importante. Aparentemente só para que Abrantes tenha o maior espelho de água urbano de Portugal. Tudo à vista dos políticos e ambientalistas que, também aparentemente, são pessoas em quem devemos continuar a confiar os destinos do país e das instituições.
Os afluentes do Tejo, desde Castelo Branco até Santarém, que são os que conheço melhor, têm uma história triste a cada ano que passa apesar das promessas políticas de defesa da qualidade da água e das suas margens. Não vou contar desgraças neste texto. Vou deixar aqui uma mensagem para todos os que gostam dos rios, e bebem água da torneira, sem se questionarem sobre o futuro do planeta.
Devíamos desafiar os autarcas a promoveram o rio Tejo a Património Mundial da Humanidade. Não estamos a falar de muralhas, nem de castelos, nem de conventos e muito menos de palácios construídos de pedras seculares e representativos de uma História com mais de 800 anos. Estamos a falar da sobrevivência das espécies e do futuro do nosso planeta que tem milhões de anos.
Já ninguém consegue recuperar os ribeiros onde as nossas mães lavavam a roupa, nem os riachos onde mergulhámos em crianças, nem os rios navegáveis que atravessavam os territórios da charneca e do bairro; mas é urgente amar os rios, criar um projecto que envolva as escolas e os professores, falarmos dos lugares onde nascem, do seu percurso, da sua flora e dos danos que sofrem da nascente até à foz. Têm que ser projectos locais para depois se tornarem nacionais.
Os rios falam; umas vezes inconformados, que é quando as águas saltam as margens e destroem tudo à sua volta, outras vezes quando se tornam lágrimas, como acontece cada vez mais com o rio Tejo e com a grande maioria dos seus afluentes. Por isso os rios deviam ser Património Mundial da Humanidade, por razões muito mais urgentes que os monumentos de pedras seculares; porque não teremos vida sem os rios; porque quase toda a água do planeta é salgada, pouca é a água doce; e porque os rios são seres fabulosos que não podemos perder por causa dos interesses dos produtores agrícolas e dos industriais que ignoram as práticas ecológicas e só pensam nos lucros imediatos dos seus negócios. JAE.
quinta-feira, 26 de novembro de 2020
As palavras dos outros: António Valdemar, Alberto Dines, Fernando Lemos, Ana Miranda e Baptista-Bastos
Esta edição de O MIRANTE inclui uma entrevista que tem o meu dedo. Oportunidade para recordar que uma vida não chega para fazermos tudo o que gostamos e a profissão exige.
O MIRANTE publica nesta edição uma entrevista com o jornalista António Valdemar que tem o meu dedo. Foi fruto de um encontro para partilharmos livros e pormos a conversa em dia. Gosto da entrevista como género maior do jornalismo. Mas a vida não me deixa fazer só o que quero e, muitas vezes, só faço o que menos gosto. Quando a conversa com António Valdemar já ia adiantada, o jornalista perguntou-me: “o que você quer é uma entrevista não é?” E eu respondi com a cabeça já com a máquina fotográfica ligada, a tomar notas sempre que ouvia matéria de interesse. Por causa dessa mania de usar a caneta e o caderno enquanto converso, ouvi uma dúzia de vezes ao longo da tarde: “olhe para mim”, quando Valdemar queria dizer coisas importantes que achava que eu também tinha que ouvir com os olhos. Esta entrevista com António Valdemar fez-me voltar atrás no tempo quando falhei entrevistas com Alberto Dines, que morreu com 86 anos, e que é uma das figuras maiores do jornalismo em língua portuguesa. Tenho o mesmo sentimento em relação a Fernando Lemos, outra figura maior que desapareceu também recentemente com 93 anos, embora com esse tenha partilhado momentos que me deixaram de alma cheia. Alberto Dines deixou um legado no Brasil que não vai desaparecer tão depressa. Para além de ter sido o fundador do “Observatório de Imprensa” era um estudioso da obra de Stefan Zweig cuja casa museu ajudou a fundar, para além de ter escrito uma biografia que é uma obra monumental sobre a vida de uma personalidade fascinante da literatura mundial. O meu desencontro com ele foi só presencial; de resto fui um seguidor da sua obra e do seu exemplo como jornalista e como homem.
Fernando Lemos deixa um rasto inconfundível quando há mais de sessenta anos deixou Portugal para ir morar em São Paulo. O que começou por nos ligar foi a obra de Jorge de Sena, num congresso no Rio de Janeiro, onde fomos ambos conferencistas convidados, graças à Gilda Santos que era nossa amiga comum e uma das maiores divulgadoras da obra do autor de “Sinais de Fogo”.
Fernando Lemos tem uma obra também monumental ao nível da fotografia e das artes plásticas. Não há outro artista da sua geração, e há muitos e famosos, que tivesse deixado uma obra tão diversificada e valorosa. Como pessoa era um homem de uma afectividade e de uma bondade extraordinária.
António Valdemar é diferente destas duas figuras que me conquistaram a estima e o coração. São as tais diferenças que tornam tudo semelhante quando “há um espinho que as anima”, para citar Augusto dos Anjos em a “Última Quimera”, um dos melhores romances da escritora maior da nossa língua, chamada Ana Miranda.
António Valdemar tem uma ligação muito afectiva ao Ribatejo e a muitas personalidades ribatejanas, matéria que não entrou na conversa mas que um dia destes talvez consigamos actualizar noutro encontro.
Uma última nota para quem gosta de jornalistas e de jornais e dos segredos da profissão: Armando Baptista-Bastos foi, sem espinhas, um dos melhores jornalistas de sempre na arte da entrevista. Conheça a maioria das suas grandes entrevistas e alguns dos seus entrevistados que, ou o elogiavam ou lhe chamavam os piores nomes, sempre por causa do seu génio e da arte do seu trabalho. Esta conversa com António Valdemar não é uma peça à Baptista-Bastos nem nada que se pareça. Mas é fruto do mesmo prazer pela profissão e pelo gosto de dar a conhecer “As palavras dos outros”, um dos seus livros que reúne algumas das suas melhores entrevistas. JAE.
quinta-feira, 19 de novembro de 2020
Raios partam aqueles que só estão bem com o mal dos outros
A história de O MIRANTE é a história de uma terra, de uma região e de um povo; com muitas e variadas leituras, com muitas e variadas cores, com grandes e extensas lacunas, omissões, erros, falhanços, mas também alegrias, missões impossíveis, lições de vida, serviço público e dever cumprido.
O MIRANTE comemorou 33 anos a 16 de Novembro; deve parecer uma eternidade para quem tem 18 anos; talvez um sopro do vento para quem já passou dos 70 ou dos 80 anos; para alguns de nós pode ser apenas um número se olharmos os anos que passam como simples elementos da nossa vida.
“Não podendo fundir totalmente a sua vida com a existência das coisas, o poeta cria um objecto em que as coisas lhe parecem transformadas em existência sua.
Não podendo fundir-se com o mar e com o vento, cria um poema onde as palavras são simultaneamente palavras, mar e vento.
A finalidade do poeta não é acrescentar objectos à natureza. O mundo não precisa nem de retratos que o repitam nem de ornamentos que o enfeitem.
O poema aparece porque é necessário à existência do poeta. É por isso que Rilke diz que o único julgamento duma obra de arte está na sua origem.
Nenhum sistema de filosofia, nenhum tratado de estética, pode ensinar a distinguir um poema verdadeiro dum falso poema. Sabemos da poesia que ela é uma necessidade mas que não é uma necessidade geral. Como necessidade, sabemos que ela é uma necessidade elementar e não uma necessidade secundária.
De facto, um homem que precisa de poesia precisa dela, não para ornamentar a sua vida, mas sim para viver. Precisa dela como precisa de comer ou de beber. Precisa dela como condição de vida, sem a qual tudo é apenas marginal e cinza morta”.
Recorro às palavras de Sophia de Mello Breyner, retiradas de um texto publicado em 1960, para marcar a crónica que coincide com a data de mais um aniversário do jornal.
Assim como um poema é noventa por cento de labor e dez por cento de inspiração, mais coisa menos coisa, uma ideia, um trabalho, ou lá o que fazemos todos os dias, o que nos liga ao mundo é sempre o selo da aliança com as coisas.
A história de O MIRANTE é a história de uma terra, de uma região e de um povo; com muitas e variadas leituras, com muitas e variadas cores, com grandes e extensas lacunas, omissões, erros, falhanços, mas também alegrias, missões impossíveis, lições de vida, serviço público e dever cumprido.
Nunca seremos mais do que aquilo que os leitores e os anunciantes quiserem que sejamos. Em 33 anos sempre acrescentamos valor ao valor; basta conferir a edição que temos na mão, uma das mais participadas de sempre a nível editorial e comercial.
Só os governos do país, e os apaniguados dos governantes que se escondem como ratos nos gabinetes de Lisboa, desconhecem que há uma força e uma urgência no interior do território que eles nunca conseguirão extinguir; nem vencer pelo boicote e pelo desprezo com que nos tratam. E é certo que um dia vão ter que ceder; é certo que um dia vão ter que ser mais justos para quem vive longe do Terreiro do Paço, da linha de Sintra, dos corredores do Poder, onde se distribuem as prebendas e quase todos são filhos de Deus; e os que não são depressa aprendem a viver debaixo das saias do Senhor.
Raios partam aqueles que só estão bem com o mal dos outros. JAE.