quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Quando o Verão chega ao fim e o cronista ficou a ver navios

Este Verão faltei vezes demais nas praias onde a leitura de meia dúzia de livros durante uns dias de férias me fazem acreditar que ainda tenho energia para voltar a reler as Viagens de Gulliver.


O Verão está a chegar ao fim e o meu tempo de praia foi insignificante para o quanto eu gosto de nadar e mergulhar e, mais ainda, de ficar de papo para o ar a ler um livro.

É na praia e durante as longas viagens que consigo mais tempo para ler. Nada me entusiasma mais o gosto pela leitura que sair do meu ambiente de todos os dias, e viajar nem que seja para debaixo de uma moita ou nas asas de um avião.

Este Verão faltei vezes demais nas praias onde a leitura de meia dúzia de livros durante uns dias de férias me fazem acreditar que ainda tenho energia para voltar a reler as Viagens de Gulliver, só para citar um conjunto de livros que devem ter sido os primeiros a darem-me a conhecer a riqueza de um mundo ficcionado.

Tenho alguns milhares de livros comprados um a um em livrarias e feiras. Quanto mais os anos passam, mais livros vou juntando àqueles que li e assinalei para um dia voltar a ler. Nada me impede de sonhar alto, de continuar a viver na ilusão de que sou eterno. Quando leio um livro e não deixo a minha marca nas suas páginas é certo que não nos merecemos um ao outro.

Escrevo embalado pela leitura sem interrupções de um livro sobre bibliófilos, colecionadores, livrarias, leilões e um manancial de informações que servem para confirmar que também sou uma ave rara. É quando viajo que tudo de bom me acontece, mas regra geral enjoo na viagem, coisa que me acontece desde criança. E enjoar numa viagem às vezes dá vontade de morrer pelo caminho. Diz o autor do livro que é muito maior do que julgamos a quantidade de pessoas para quem acumular livros é muito mais importante que lê-los. Como não tenho espírito de coleccionador fico parvo a ler como funciona o mercado dos livros raros, como se fixam os preços e como uma boa parte dos bibliófilos são pessoas que sofrem de paixão como se os livros tivessem alma.

Eu apaixono-me pelos autores e fico cego de admiração quando um livro me enche as medidas, mas tempos depois é uma fonte de conhecimento, uma boa recordação, nada me prende a um livro que não seja a tentativa de lhe roubar a alma que ele não tem.

Sempre pensei que numa folga do meu trabalho de jornalista e editor, um dia fundava uma livraria; para vender alguns dos meus livros, mas também para passar pela experiência de exercer uma profissão cada vez mais rara: a maior parte dos livreiros podiam estar a vender tremoços ou camisas de seda.

Não é desses que guardo recordações no tempo em que despertei para a leitura, e depois a escrita literária, como forma de prolongar a experiência do encantamento. Ainda conheci livreiros que me aconselharam a leitura de certos livros, ajudando-me a descobrir os temas que mais me interessavam.

Quanto à livraria o Diabo que me ouça e me castigue nas horas em que ainda penso nisso e em mais mil coisas que gostava de fazer e já não posso porque não tenho pernas e pesa-me a cabeça.

Oito horas de viagem a ler sem fechar olho é o que faz de mim uma ave rara, não o suficiente para ficar orgulhoso. A minha grande vaidade vai ser, um dia, quando for velhinho, poder dizer que adormeci enquanto lia um livro. JAE.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A gastronomia ribatejana a dar que falar

Almeirim está para a sopa da pedra como a tourada para os aficionados. Depois do festival que decorreu recentemente, os restaurantes fecharam durante vários dias. Passámos por lá algumas vezes e as filas metiam medo ao susto. Um elogio à gastronomia ribatejana que beneficia do facto de o Ribatejo ficar a meio caminho de quase tudo, para o bem e para o mal.

“Até aos 7 faz-se, a partir dos 7 anos lembra-se”. A frase é do reportório do banho turco que na última semana pratiquei em horários mais diversificados do que o habitual, daí que tenha ficado mais sensível às conversas quando a ideia é mesmo desligar.

Almeirim está para a sopa da pedra como a tourada para os aficionados. Depois do festival que decorreu recentemente, os restaurantes fecharam durante vários dias. Passámos por lá algumas vezes e as filas metiam medo ao susto. Não há nada na região que seja tão lucrativo e que atraia tanta gente de fora do concelho e do distrito. A gastronomia é bandeira de muitos concelhos do país, de norte a sul. Nós temos vantagem porque ficamos a meio caminho. Não admira, por isso, que recentemente, ao almoçarmos num restaurante às portas de Santarém, tivéssemos encontrado a comitiva dos Xutos & Pontapés, que iam actuar nesse dia a Viseu, e a equipa completa dos Resistência que também iam a actuar a norte no concelho de Freamunde.

Ficamos ainda a saber que alguns deles, quando chegam, já dão beijinhos a quem os recebe, o que prova que a fama já vem de longe e conta a favor da hospitalidade que ajuda a preservar tradições.

Sou um amante das coisas doces. Adoro tigeladas e gostava de ver os pasteleiros do doce mais famoso de Abrantes rendidos à ideia das miniaturas, como já se usa nos pastéis de nata e nos pampilhos. Aquela mão cheia de ovos e açúcar e canela era o doce preferido da minha mãe. Nos últimos anos de vida oferecia-lhe, como mimo, uma tigelada por semana para não agravar a diabetes. Agora sou eu que não resisto nem que seja cortada ao meio. Fica aqui o apelo aos fabricantes para que o consumo seja mais apelativo.

Uma das minhas escritoras favoritas é Almudena Grandes (Madrid 1960 - Novembro 2021). Morreu com 61 anos mas deixou uma obra que vai perdurar. Curiosamente, o seu primeiro êxito literário é de 1989 com “As Idades de Lulu”, um livro erótico para todas as idades. Foi o primeiro e o último. Alguns dos seus romances posteriores têm o génio da sua escrita, mas nunca mais publicou um romance erótico que, apesar das várias reedições, é muito raro encontrar em alfarrabistas. Leila Slimani é de outro país e de outra geração, mas é igualmente uma romancista genial. Curiosamente, o seu primeiro sucesso editorial também foi um romance erótico (“No Jardim do Ogre”) publicado em França em 2014 e em Portugal mais recentemente onde já vai na sexta edição. Depois deste já saíram vários romances, na sua grande maioria premiados e elogiados pela crítica. “Canção Doce” é um dos romances que melhor retrata a crueldade do mundo em que vivemos, onde o trabalho e o êxito social fazem com que a generalidade das pessoas bem-sucedidas esqueçam, ou ignorem, os valores sagrados da vida.

Não é de somenos importância o erotismo na escrita de grandes nomes da literatura. A inclassificável Agustina Bessa Luís publicou em 1960 “Ternos Guerreiros”, que não sendo um livro erótico contém uma escrita de grande sensualidade que nunca desapareceu da sua obra de uma centena de livros. “Ternos Guerreiros” está neste momento a ser adaptado para cinema, o que diz bem da sua importância na obra da autora, na altura em início de carreira.

A Região de Turismo do Alentejo e Ribatejo prometeu fazer da região ribatejana a capital da literatura, aparentemente à boleia de José Saramago, o nosso Nobel, que nasceu na Azinhaga, mas tem na sua Obra marcas de uma longa vivência em toda a região. Depois de uma primeira iniciativa o projecto parece ter borregado. É pena. Mas começa a ser sina. O Ribatejo tem a fama e os outros têm o proveito. Não aproveitar o êxito e a fama de José Saramago e do Nobel, que é único, é a mesma coisa que deixar passar a água do Tejo a caminho do mar da palha e não a aproveitar para regar os campos e fomentar as hortas nos campos da Lezíria. JAE.