Três vezes, ao longo da minha vida, não estendi a mão a outras tantas pessoas recusando um cumprimento. Confesso que não senti prazer, ou tive sentimentos de vingança, em qualquer dos casos. Pelo que me lembro devo ter ficado mais magoado do que as pessoas que viram recusado o meu cumprimento. Na vida só encontro outro exemplo, que também vivi muitas vezes, que se assemelha em termos práticos e psicológicos, que é pedir a alguém que pague aquilo que nos deve e perceber que é maior a vergonha que se sente ao pedir que a vergonha de quem não pagou a tempo e horas o que pediu emprestado.
Leio O MIRANTE à distância nos ciber-cafés por onde passo em viagem e tomo notas da falta de vergonha das grandes promessas políticas da nossa praça. Recuso-me a citar nomes como recusei em tempos estender a mão a certas pessoas.
Há uma classe dirigente que está aí nos gabinetes do poder, ou na calha para ocupar certos lugares importantes na vida pública, que têm tanta vergonha na cara como aqueles que pedem emprestado e já sabem que é para não pagar. É gente que se considera superior, a maior parte deles com muitos anos de estudo oficial, mas a generalidade vive em rebanho e como animais de rebanho têm sempre as mesmas necessidades, as mesmas ânsias, os mesmos desejos, sempre a mesma fácil voracidade pelo Poder.
“Os dias felizes estão entre as árvores, como os pássaros”. “A felicidade é a única coisa que se pode dar sem ter”. “Os verdadeiros poetas não lêem os outros poetas; os verdadeiros poetas lêem os pequenos anúncios de jornal”; “O importante é usar as mãos. Às vezes com certa dificuldade, mas sempre com a alegria, se temos paciência de ir até ao fim”. “No entanto, também os animais têm medo. E se os animais têm medo, já perderam, como os homens, a inocência. Porque a inocência seria confiar em Deus, cegamente, e deixar que tudo acontecesse. Os animais não podem mudar o rumo das coisas, nem os homens”.
No final de cada dia, lendo os meus autores preferidos, devorando livros como quem precisa de reaprender as lições que pareciam definitivas, passo pelo cibercafé e leio O MIRANTE carregando no link de cada notícia como quem abre cartas de amor que chegam da sua terra distante. O jornal, todo o jornal que nos oferece as notícias de proximidade, tem esse lado mágico de nos devolver a cada leitura o amor e a beleza do mundo que habitamos. Mesmo as notícias que são dramáticas, como a daquela jovem promessa da política que recorreu ao subsídio de desemprego para poder sobreviver com dignidade, aproveitando, afinal, aquilo a que tem direito e não é vergonha nenhuma reconhecer publicamente quando se tem humildade e grandeza moral, mesmo essas notícias, escritas por homens que não usam as palavras como balas, fazem de nós pessoas mais tolerantes e receptivas ao que é humano.
quinta-feira, 18 de março de 2010
quinta-feira, 11 de março de 2010
As cheias do Tejo
Tenho recordações espectaculares das cheias do Tejo nos campos da Lezíria. Em criança andava de jangada nas águas da cheia; atávamos com arame de fardo três molhos de canas de valado e fazíamos uma jangada com a qual experimentávamos o prazer de navegar nas águas onde a corrente não nos parecia perigosa.
Por razões de saúde de um familiar atravessei de barco desde a ponta da Chamusca até à vizinha Golegã a maior cheia de que tenho memória. Francisco Salter Cid, que na altura era o meu chefe de trabalho, registou por acaso em fotografia essa aventura que o barqueiro resolveu também assumir num gesto de solidariedade.
Viver em tempos de cheia no campo é para mim uma emoção; saber que o rio saltou as margens e que a água derrubou os arbustos; que atravessou a maracha pela cintura; que derrubou valados e não respeitou as extremas das propriedades.
Quando a água do Tejo salta as margens e inunda os campos da Lezíria o meu sono volta a ser de criança sobressaltada que só quer dormir depressa para no outro dia poder saber tudo sobre como o tractor foi salvar a tempo as ovelhas ou os porcos; como os bombeiros resgataram as últimas pessoas e animais; quem é que andou com água pela cintura por se ter metido à estrada de forma irresponsável; É impossível saber quantos animais sobem as árvores para não morrerem afogados; mas do ponto mais alto da minha terra, de onde se avista a Lezíria como em mais nenhum lugar do Ribatejo, lembro-me de olhar os campos alagados ouvindo as mulheres do campo rogarem a Deus para que fosse misericordioso para com os homens e os animais e acalmasse as águas de forma a que a terra do milho e do trigo voltasse a sorrir depois da cara lavada.
Há um lado de tragédia associado às cheias do rio Tejo que está longe de corresponder à realidade. O que não quer dizer que não conheça bem o desconforto e as situações difíceis que vivem as famílias que moram à beira do Tejo.
Por boas razões ando por outras paragens a ver outras cheias de outros rios noutras aldeias e cidades. E quase sinto remorsos por não poder ser testemunha das alegrias da água do meu rio quando salta as margens.
Por razões de saúde de um familiar atravessei de barco desde a ponta da Chamusca até à vizinha Golegã a maior cheia de que tenho memória. Francisco Salter Cid, que na altura era o meu chefe de trabalho, registou por acaso em fotografia essa aventura que o barqueiro resolveu também assumir num gesto de solidariedade.
Viver em tempos de cheia no campo é para mim uma emoção; saber que o rio saltou as margens e que a água derrubou os arbustos; que atravessou a maracha pela cintura; que derrubou valados e não respeitou as extremas das propriedades.
Quando a água do Tejo salta as margens e inunda os campos da Lezíria o meu sono volta a ser de criança sobressaltada que só quer dormir depressa para no outro dia poder saber tudo sobre como o tractor foi salvar a tempo as ovelhas ou os porcos; como os bombeiros resgataram as últimas pessoas e animais; quem é que andou com água pela cintura por se ter metido à estrada de forma irresponsável; É impossível saber quantos animais sobem as árvores para não morrerem afogados; mas do ponto mais alto da minha terra, de onde se avista a Lezíria como em mais nenhum lugar do Ribatejo, lembro-me de olhar os campos alagados ouvindo as mulheres do campo rogarem a Deus para que fosse misericordioso para com os homens e os animais e acalmasse as águas de forma a que a terra do milho e do trigo voltasse a sorrir depois da cara lavada.
Há um lado de tragédia associado às cheias do rio Tejo que está longe de corresponder à realidade. O que não quer dizer que não conheça bem o desconforto e as situações difíceis que vivem as famílias que moram à beira do Tejo.
Por boas razões ando por outras paragens a ver outras cheias de outros rios noutras aldeias e cidades. E quase sinto remorsos por não poder ser testemunha das alegrias da água do meu rio quando salta as margens.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Viva a República!
Tenho dois ou três amigos que são figuras públicas que a qualquer momento, se eu precisar, me põem a falar com as pessoas mais importantes e influentes do país. Enquanto desempenhar uma profissão que me dá algum poder posso contar com eles. Se um dia me calarem a boca, ou deixar de ter um espaço para escrever, ou eu próprio optar por mudar de vida, nesse dia alguns dos meus amigos influentes estarão preocupados em dar atenção a outras pessoas de quem também são amigos por terem interesses comuns. E eu serei, aos olhos deles, mais uma alma como tantas outras que foram luminosas e depois ficaram simples pirilampos.
Há dez anos viajei para Porto Alegre, no sul do Brasil, para ver como funcionava uma feira do livro a céu aberto. Tinha a ilusão de que era capaz de organizar uma feira do género em Santarém e por influência de um amigo estive metido por três dias na organização do evento que se realiza desde 1955. Foi tudo pura ilusão. Santarém não precisava nem precisa de feiras do livro melhor do que aquelas que já tem e está muito bem entregue às velhas raposas que fazem da actividade política e cultural a sua vidinha.
O MIRANTE continua a ser o único órgão de comunicação social a denunciar a possível incompatibilidade de Rosa do Céu e David Catarino à frente das regiões de Turismo de Lisboa e Vale do Tejo e Leiria / Fátima. A prova de que eles não dormem em serviço foi-me lida da caixa de mensagens do telemóvel de um outro político surpreendido com a falta de vergonha de Rosa do Céu: “Meu caro. Em nome dos ideais da República, e para o caso de ser contactado pelo jornal O MIRANTE por causa da minha nomeação para a região de Turismo, lembro que...”, etc etc. Não há dúvida de que esta gente da política acredita mesmo nos ideais da República. Pudera!
Os meninos de Foros de Salvaterra ainda não regressaram a casa. E os responsáveis continuam sem dar a cara e as explicações que são mais do que justificadas depois dos episódios dramáticos, e alguns deles também caricatos, à volta deste caso. Há uma Idália Moniz e uma Clara Carregado em cada sistema injusto que continua a tratar mal as crianças deste país. JAE
Há dez anos viajei para Porto Alegre, no sul do Brasil, para ver como funcionava uma feira do livro a céu aberto. Tinha a ilusão de que era capaz de organizar uma feira do género em Santarém e por influência de um amigo estive metido por três dias na organização do evento que se realiza desde 1955. Foi tudo pura ilusão. Santarém não precisava nem precisa de feiras do livro melhor do que aquelas que já tem e está muito bem entregue às velhas raposas que fazem da actividade política e cultural a sua vidinha.
O MIRANTE continua a ser o único órgão de comunicação social a denunciar a possível incompatibilidade de Rosa do Céu e David Catarino à frente das regiões de Turismo de Lisboa e Vale do Tejo e Leiria / Fátima. A prova de que eles não dormem em serviço foi-me lida da caixa de mensagens do telemóvel de um outro político surpreendido com a falta de vergonha de Rosa do Céu: “Meu caro. Em nome dos ideais da República, e para o caso de ser contactado pelo jornal O MIRANTE por causa da minha nomeação para a região de Turismo, lembro que...”, etc etc. Não há dúvida de que esta gente da política acredita mesmo nos ideais da República. Pudera!
Os meninos de Foros de Salvaterra ainda não regressaram a casa. E os responsáveis continuam sem dar a cara e as explicações que são mais do que justificadas depois dos episódios dramáticos, e alguns deles também caricatos, à volta deste caso. Há uma Idália Moniz e uma Clara Carregado em cada sistema injusto que continua a tratar mal as crianças deste país. JAE
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Contra o Porte Pago marchar marchar *
O MIRANTE está a dar passos muito significativos para sair do sistema do Porte Pago. Nos últimos 2 meses mais de 90% da nossa tiragem foi feita sem os recursos aos apoios do Estado.
Com as alterações que ao longo dos últimos anos foram introduzidas nos apoios aos jornais, criou-se um clima que não dá descanso a quem gosta de investir numa empresa de comunicação social. As regras apertadas no conjunto de certas obrigações retiram margem de manobra à gestão de um jornal que vive das assinaturas e de uma prática empresarial que não tem paralelo em mais nenhuma actividade de negócio.
Com a descida da comparticipação do Estado no apoio ao Porte Pago justificam-se por parte dos empresários que fazem uma gestão dinâmica dos seus títulos a procura de meios de distribuição que não dependam só dos Correios e, acima de tudo, que não estejam presos às obrigações impostas por um incentivo que em vez de ser uma ajuda se tornou numa ameaça.
Vender com êxito jornais regionais por assinatura é um negócio para empresários com experiência; vender jornais por assinatura exige práticas comerciais agressivas ao nível dos descontos e das ofertas; exige práticas comerciais muito mais exigentes que a venda de outro qualquer produto dos milhares que circulam no mercado.
Um jornal é um produto cultural único no mundo. Renovar anualmente a assinatura de um produto cultural junto dos seus consumidores exige um grande investimento em meios humanos e tecnológicos.
Num país onde a divisão administrativa é o que todos sabemos, é uma grande aventura editar um jornal para uma região.
É fácil, ou pode ser fácil, editar mil, dois ou três mil jornais para um concelho e manter as assinaturas ao longo de várias gerações aproveitando a boleia das ajudas, ainda que mitigadas, do Estado. Para um jornal que procura furar o cerco, que se quer afirmar todos os dias ou todas as semanas como um jornal regional, procurando o nível dos jornais de referência da Europa, o empreendimento ultrapassa tudo aquilo que ainda é norma na mentalidade dos nossos governantes e também, infelizmente, na mentalidade de uma boa parte dos empresários do meio.
Trabalhar a renovação de uma assinatura de um jornal regional é cem vezes mais difícil do que trabalhar a renovação de assinatura de um jornal local.
Sobreviver no actual regime de obrigações do Porte Pago é vida apenas para os jornais parados no tempo que não investem na procura de novos públicos, que se contentam com os velhos hábitos que ainda minam a imprensa local e regional, nomeadamente a satisfação de clientelas políticas ou lobbies empresariais assim como muitas vezes o puro exercício do caciquismo travestido de jornalismo.
Ignorar as voltas que o mundo da informação deu nos últimos 20 anos, apoiar da mesma forma os empresários da imprensa regional que editam três mil jornais ou 30 mil, que empregam três pessoas ou 30, é esconder a cabeça na areia e, politicamente, fingir que estamos condenados à miséria franciscana.
Por último: renovar uma assinatura de um jornal regional ou de uma revista como a Exame, a Sábado ou a Visão, implica em muitos casos um gasto muito superior ao valor cobrado da assinatura.
Para se perceber porque é que é lucrativo fazer novas assinaturas, ou renovar velhas assinaturas com prejuízo, é preciso conhecer e perceber o mundo em que vivemos; em que o papel da comunicação social é cada vez mais importante mas também mais frágil e controlado pelo poder económico. JAE
*A propósito da proposta de modelo de avaliação da política de Incentivo à Leitura (ex-Porte Pago) apresentado pelo Governo no passado dia 19 de Fevereiro
Com as alterações que ao longo dos últimos anos foram introduzidas nos apoios aos jornais, criou-se um clima que não dá descanso a quem gosta de investir numa empresa de comunicação social. As regras apertadas no conjunto de certas obrigações retiram margem de manobra à gestão de um jornal que vive das assinaturas e de uma prática empresarial que não tem paralelo em mais nenhuma actividade de negócio.
Com a descida da comparticipação do Estado no apoio ao Porte Pago justificam-se por parte dos empresários que fazem uma gestão dinâmica dos seus títulos a procura de meios de distribuição que não dependam só dos Correios e, acima de tudo, que não estejam presos às obrigações impostas por um incentivo que em vez de ser uma ajuda se tornou numa ameaça.
Vender com êxito jornais regionais por assinatura é um negócio para empresários com experiência; vender jornais por assinatura exige práticas comerciais agressivas ao nível dos descontos e das ofertas; exige práticas comerciais muito mais exigentes que a venda de outro qualquer produto dos milhares que circulam no mercado.
Um jornal é um produto cultural único no mundo. Renovar anualmente a assinatura de um produto cultural junto dos seus consumidores exige um grande investimento em meios humanos e tecnológicos.
Num país onde a divisão administrativa é o que todos sabemos, é uma grande aventura editar um jornal para uma região.
É fácil, ou pode ser fácil, editar mil, dois ou três mil jornais para um concelho e manter as assinaturas ao longo de várias gerações aproveitando a boleia das ajudas, ainda que mitigadas, do Estado. Para um jornal que procura furar o cerco, que se quer afirmar todos os dias ou todas as semanas como um jornal regional, procurando o nível dos jornais de referência da Europa, o empreendimento ultrapassa tudo aquilo que ainda é norma na mentalidade dos nossos governantes e também, infelizmente, na mentalidade de uma boa parte dos empresários do meio.
Trabalhar a renovação de uma assinatura de um jornal regional é cem vezes mais difícil do que trabalhar a renovação de assinatura de um jornal local.
Sobreviver no actual regime de obrigações do Porte Pago é vida apenas para os jornais parados no tempo que não investem na procura de novos públicos, que se contentam com os velhos hábitos que ainda minam a imprensa local e regional, nomeadamente a satisfação de clientelas políticas ou lobbies empresariais assim como muitas vezes o puro exercício do caciquismo travestido de jornalismo.
Ignorar as voltas que o mundo da informação deu nos últimos 20 anos, apoiar da mesma forma os empresários da imprensa regional que editam três mil jornais ou 30 mil, que empregam três pessoas ou 30, é esconder a cabeça na areia e, politicamente, fingir que estamos condenados à miséria franciscana.
Por último: renovar uma assinatura de um jornal regional ou de uma revista como a Exame, a Sábado ou a Visão, implica em muitos casos um gasto muito superior ao valor cobrado da assinatura.
Para se perceber porque é que é lucrativo fazer novas assinaturas, ou renovar velhas assinaturas com prejuízo, é preciso conhecer e perceber o mundo em que vivemos; em que o papel da comunicação social é cada vez mais importante mas também mais frágil e controlado pelo poder económico. JAE
*A propósito da proposta de modelo de avaliação da política de Incentivo à Leitura (ex-Porte Pago) apresentado pelo Governo no passado dia 19 de Fevereiro
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Em defesa de José Sócrates
O MIRANTE foi recentemente proibido por um tribunal de publicar notícias sobre um determinado assunto. Uma providência cautelar interposta por uma entidade que se diz prejudicada pelas nossas notícias teve o bom acolhimento de um tribunal e fomos proibidos de publicar assim como fomos obrigados a retirar as notícias que já tínhamos publicado na internet. É claro que recorremos da decisão e aguardamos uma última decisão do tribunal da relação.
O que me importa salientar é o barulho que por aí vai sobre asfixia democrática e o apertanço de que os jornalistas se dizem vítimas. José Sócrates não é flor que se cheire na relação com a comunicação social. É sabido que tem várias queixas em tribunal contra jornalistas por não aceitar críticas que na sua opinião lhe feriram a imagem. Está no seu direito. Saber que os jornalistas choram lágrimas de crocodilo por terem um primeiro-ministro que não diz por trás o que os jornalistas lhe dizem pela frente deveria ser uma honra para a nossa democracia. Quem não se sente não é filho de boa gente. Se Sócrates gosta de ir à luta com os jornalistas que mal é que isso tem. Paga caro o preço desse desafio mas o problema é dele.
Claro que Sócrates tem maus amigos que em vez de o ajudarem ainda lhe fazem a folha. Mas isso continua a ser problema dele.
Quem anda a cuspir para o ar e leva com o cuspo em cima é a classe jornalística. Dou-vos um exemplo; um único exemplo só para justificar esta crónica. Com a decisão do tribunal em nos proibir a publicação de notícias sobre um determinado assunto ouvi a alguns ilustres jornalistas da nossa praça o comentário de que O MIRANTE estava a ser vítima de uma medida anticonstitucional. “Não há desde o 25 de Abril medida tão discriminatória praticada contra um órgão de comunicação social como esta relacionada com o assunto que esteve na origem da tal providência cautelar”, disseram-me alguns jornalistas com grandes responsabilidades em redacções de jornais ditos de referência. Sabem quantos jornais já falaram no assunto? Quantos jornalistas de vários jornais já meteram este assunto na gaveta? Quantos colunistas da nossa praça já se indignaram com a mordaça que calou a redacção de O MIRANTE? Não digo porque tenho vergonha de pertencer a esta classe de jornalistas portugueses que andam por aí a fazer figuras de primas donas como se vivessem numa redoma. Na generalidade, e falo só dos que têm nome na nossa praça, são piores que José Sócrates no trato e muito piores no que respeita ao que é essencial; o carácter e a solidariedade. Para eles o mundo começa à entrada da porta da redacção dos jornais onde trabalham e acaba na defesa dos seus interesses e dos patrões que lhes pagam o vencimento. O resto é matilha. O resto é esterco. Pouco importa que no país real os jornalistas ardam em lume brando se na patusca Lisboa comem todos do mesmo tacho ainda que a comida azede de vez em quando. JAE
O que me importa salientar é o barulho que por aí vai sobre asfixia democrática e o apertanço de que os jornalistas se dizem vítimas. José Sócrates não é flor que se cheire na relação com a comunicação social. É sabido que tem várias queixas em tribunal contra jornalistas por não aceitar críticas que na sua opinião lhe feriram a imagem. Está no seu direito. Saber que os jornalistas choram lágrimas de crocodilo por terem um primeiro-ministro que não diz por trás o que os jornalistas lhe dizem pela frente deveria ser uma honra para a nossa democracia. Quem não se sente não é filho de boa gente. Se Sócrates gosta de ir à luta com os jornalistas que mal é que isso tem. Paga caro o preço desse desafio mas o problema é dele.
Claro que Sócrates tem maus amigos que em vez de o ajudarem ainda lhe fazem a folha. Mas isso continua a ser problema dele.
Quem anda a cuspir para o ar e leva com o cuspo em cima é a classe jornalística. Dou-vos um exemplo; um único exemplo só para justificar esta crónica. Com a decisão do tribunal em nos proibir a publicação de notícias sobre um determinado assunto ouvi a alguns ilustres jornalistas da nossa praça o comentário de que O MIRANTE estava a ser vítima de uma medida anticonstitucional. “Não há desde o 25 de Abril medida tão discriminatória praticada contra um órgão de comunicação social como esta relacionada com o assunto que esteve na origem da tal providência cautelar”, disseram-me alguns jornalistas com grandes responsabilidades em redacções de jornais ditos de referência. Sabem quantos jornais já falaram no assunto? Quantos jornalistas de vários jornais já meteram este assunto na gaveta? Quantos colunistas da nossa praça já se indignaram com a mordaça que calou a redacção de O MIRANTE? Não digo porque tenho vergonha de pertencer a esta classe de jornalistas portugueses que andam por aí a fazer figuras de primas donas como se vivessem numa redoma. Na generalidade, e falo só dos que têm nome na nossa praça, são piores que José Sócrates no trato e muito piores no que respeita ao que é essencial; o carácter e a solidariedade. Para eles o mundo começa à entrada da porta da redacção dos jornais onde trabalham e acaba na defesa dos seus interesses e dos patrões que lhes pagam o vencimento. O resto é matilha. O resto é esterco. Pouco importa que no país real os jornalistas ardam em lume brando se na patusca Lisboa comem todos do mesmo tacho ainda que a comida azede de vez em quando. JAE
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
De Vila Franca de Xira a Nurenberga na Alemanha
Há um pequeno restaurante no centro comercial de Vila Franca de Xira onde vou, quando posso, comer uma sopa e um bitoque. As batatas fritas são as melhores do mundo. Não há restaurante de luxo ali por perto que consiga pôr-me no prato umas batatas fritas tão saborosas.
O senhor que atende na mesa é simpático e a comida não é cara. Há uns tempos disse-lhe que precisava de comprar espaço publicitário num jornal da terra e perguntei-lhe em que jornal é que ele me aconselhava a investir.
Resposta quase pronta: no Vida Ribatejana. Dei uma volta à conversa, falamos sobre outros jornais, e como ele não se descosia a falar de O MIRANTE fui directo ao assunto. Também já me aconselharam O MIRANTE.
O que é que acha?
Bom, é um grande jornal mas é mais dedicado aos concelhos vizinhos de Azambuja e Benavente, rematou.
Depois desta conversa já voltei à mesa do pequeno restaurante mais duas vezes.
As batatas fritas continuam saborosas e o atendimento excepcional. A toalha de mesa é de papel pardo, as mesas e as cadeiras são de plástico e o lugar do restaurante onde gosto de me sentar é de passagem. Por causa das batatas fritas continuo a achar que aquele é o melhor lugar do mundo para comer uma refeição rápida. Na última vez que lá me sentei vi passar duas pessoas com O MIRANTE debaixo do braço. E disse para comigo: o pessoal de Azambuja e de Benavente anda muito por Vila Franca de Xira.
Tenho um primo chamado João Emídio que é um dos melhores, senão o melhor, da família paterna. Um dia destes estive a ouvir contar sobre as suas razões que já têm sessenta anos e quatro bypass. Aventuras de vida que o levaram a correr mundo depois de se despedir da fábrica de tomate da Chamusca que, dantes, dava emprego a meia vila.
O João tem um neto quase com a idade do meu filho. Conta ele que o miúdo vive perto de Nuremberga, na Alemanha, com os pais, e anda numa escola pública das melhores. O currículo escolar este ano já incluiu uma semana como “professor” de alunos do ensino básico, uma semana como “cozinheiro” num restaurante da cidade e outra como “guarda-florestal” do parque ambiental da região.
O meu filho Bernardo está “parado” este ano a repetir uma disciplina do 12º ano embora o ano passado tenha sido um aluno com média de quinze. Se Portugal tem um ensino público e os professores são uns santinhos e não sabem nada disto então eu sou um marciano. E se estes tipos que nos governam, e os outros que nos governaram, viajam tanto e não vêem mais do que auto-estradas, e não visitam mais que bordéis e casinos das cidades dos países da Europa por onde viajam, então eu quero sair deste filme o mais rápido possível. Quem sabe ainda a tempo de emigrar.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Orlando Raimundo
O livro que fotocopiei mais vezes ao longo da minha vida é da autoria de Alberto Dines e tem o título de “O Papel de Jornal”. Não está publicado em Portugal. Tem uma dúzia de páginas sobre as regras básicas da profissão de jornalista, em jeito de conselhos, que fazem do livro um verdadeiro tratado sobre a profissão.
O livro que li mais vezes tem como título “Cidade do Homem: New York” e é de um poeta espanhol chamado José Maria Fonollosa. Interessa-me aquela poesia sempre a renovar-se a cada leitura. E a ideia de que o escritor viveu um pouco daquela vida maldita que transpira nas suas palavras ajuda a fazer deste livro um dos meus preferidos e o que levaria para uma ilha deserta.
O livro mais barato que comprei até hoje foi um título de Baptista-Bastos numa edição da Asa. Baptista-Bastos é um dos meus escritores preferidos. Leio-o sempre como um clássico. Um escritor que eu já encontrei na minha adolescência e sempre imaginei como um dos descobridores da língua portuguesa. Os seus livros, que são muitos, usam as palavras que toda a gente usa para amar, para comunicar o que se vive e o que se sente, mas de uma forma admirável, que exige um leitor culto, inteligente, capaz de apreciar a sobriedade que parece excesso, a rendição serena e inteligente perante o universo e a condição humana. “As Bicicletas em Setembro” é o seu último romance. “Para onde vão os pássaros quando morrem”, “tínhamos-lhe perguntado” (: ) “Vão para onde morre o mar”, respondeu”. Este é um daqueles livros que se devia oferecer a todas as pessoas que ainda fazem anos e merecem uma boa lembrança.
O livro que ofereci mais vezes é da autoria do jornalista Orlando Raimundo e é um dos livros obrigatórios para todos aqueles que escolhem a profissão de jornalista. Há mais de 20 anos convidei Orlando Raimundo para um jantar de aniversário de O MIRANTE na altura em que ele era uma das maiores referências da ficha técnica do semanário “Expresso”. A uma carta simples e simpática que lhe escrevemos a pedir a sua comparência respondeu com um telefonema a dizer que podíamos contar com ele.
Ao longo destas últimas duas décadas encontramo-nos por aí uma dúzia de vezes. Sempre em trabalho e com o tempo contado.
Orlando Raimundo reformou-se do jornalismo profissional e agora dedica-se ao ensino e a uma pequena empresa que criou com alguns jovens jornalistas.
No passado dia 15 de Janeiro fui apresentar na Bolsa de Turismo de Lisboa um livro da sua autoria editado pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Foi a minha oportunidade de retribuir com tempo, admiração e estima aquilo que Orlando Raimundo nos deu há vinte anos e que lhe pagamos na altura com um simples obrigado.
Não há justiça no mundo para os meninos de Foros de Salvaterra que continuam a pagar a factura de viverem num país que não sabe estimar as suas crianças. O verniz das unhas da senhora secretária de Estado Idália Moniz é vermelho da cor das lágrimas das crianças desprotegidas.
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