No passado sábado recebi pela manhã a notícia da morte do meu irmão. Era um dos dias em que íamos estar juntos por causa de uma festa em família. Segundo a sua companheira Adelaide, morreu com um sorriso nos lábios, a dormir, quando o coração, já com problemas, resolveu avariar de vez.
Quem tem o vício de escrever morre um pouco todos os dias nas palavras que ficam gravadas, no papel ou na memória do computador. Daí que muitas vezes fiquemos pelo caminho porque achamos que já escrevemos tudo o que de mais importante tínhamos para escrever. Sei alguma coisa do assunto porque o meu passatempo favorito é ler biografias e ver documentários. Também gosto de escrever, mas tenho rejeitado alguns convites para esse trabalho fácil, mas só aparentemente, pelo menos para quem não gosta de vender gato por lebre e tem que esturrar as pestanas. Uma crónica é diferente: não exige pormenores, é uma encomenda do espírito que despachamos com as impressões que ficam das memórias recentes que podem até ser as que vivemos há mais tempo, mas as que mais duram. No passado sábado recebi pela manhã a notícia da morte do meu irmão. Era um dos dias em que íamos estar juntos por causa de uma festa em família. Segundo a sua companheira Adelaide, morreu com um sorriso nos lábios, a dormir, quando o coração, já com problemas, resolveu avariar de vez. Somos os dois herdeiros da calvície dos nossos avós, dos problemas com o coração do nosso pai, entre outras heranças, mas tão diferentes um do outro como o chão da lezíria do chão da charneca.
Eu fui muito mais privilegiado que ele porque quase tudo o que ele aceitava do nosso pai eu rejeitava. Nunca era coisa boa, e, por isso, o João, que tinha sete anos de diferença de mim, aceitou aprender o ofício de pedreiro que o meu pai também queria para mim. Não tinha como ajudá-lo nessa altura. Ajudei mais tarde quando me procurou e trazia uma solução para mudar de vida, que aprovei de imediato e à qual dei a ajuda fundamental para que fosse em frente. Nada disso o impediu de viver uma vida com altos e baixos, como todos nós que somos gente. Os nossos sete anos de diferença foram a bênção que Deus me deu, se é que há Deus e ele tem alguma influência no nosso destino; para a minha mãe poder cuidar do João, o Joaquim foi viver para a casa da avó Ilda, que me ensinou tudo, tudo, e que é, ainda hoje, muitas décadas depois de a encontrar morta na beira da cama, a pessoa que mais influenciou a minha vida espiritual, e a que mantenho como referência, sem excepções, em tudo o que faço. Curiosamente, o João era todo a cara e o espírito da família da minha avó materna, enquanto eu sou mais a do meu avô paterno. Mas aqui o destino provou que não controlamos tudo. A minha avó era a única da família materna que escrevia diariamente capítulos da Odisseia, sem que alguém desse por isso, enquanto a família do meu avô paterno inspirava-se diariamente no brilho das espadas dos primeiros reis de Portugal, coisa que dura até hoje.
Que me lembre nunca me zanguei com o meu irmão. Ele tratava-me carinhosamente por mano, mas eu nunca consegui ir além do trato pelo nome próprio. Sem dúvida superioridade do irmão mais velho que sabia ser a referência do irmão mais novo. O João tinha tudo aquilo que sempre é valorizado em sociedade; era alegre, brincalhão, atirava os foguetes e ia apanhar as canas, não era desconfiado, perdoava com a facilidade de um São João Gualberto, e, para ele, viver com um euro devia ser tão dramático como viver com um milhão, a confiar nas voltas que deu à vida, que foram muitas, algumas delas dramáticas, depois de me pedir opinião e ter feito o contrário daquilo que eu lhe aconselhava.
Não tenho, certamente, uma pequena parte dos valores humanos que o João tinha, mas também, tal como ele, aguento as consequências do meu feitio, das minhas opções de vida, e como não tenho nem faço amigos com a facilidade que ele fazia, sigo em frente com o pensamento em Santo Agostinho: “O mundo é um livro, e quem fica sentado em casa lê somente uma página”.
É difícil falar/escrever sobre a morte de um irmão quando ele era, na realidade, o único que restava da minha família mais próxima, depois da morte de pais, avós e tios. Entretanto construímos as nossas famílias, mas isso já é para outra crónica, ou então parte da tal biografia que um dia alguém há-de escrever, quem sabe alguém que ainda está a aprender a ler, e nem sabe nem sonha o que Santo Agostinho teve que viver para ser Santo Agostinho. JAE.
Sem comentários:
Enviar um comentário