Este espaço é para escrever sobre a nossa região e a nossa gente; sobre os nossos problemas e as nossas histórias. Nem sempre é possível cumprir o prometido. Não somos um verbo-de-encher no meio do rectângulo e a verdade é que o país parece uma mentira monumental. Há muito tempo que José Sócrates deixou de ser o tipo teso e esclarecido que convenceu o povo português com a sua autoridade e o seu olhar de antes quebrar que torcer. Pelo andar da carruagem um dia destes continuamos muito orgulhosos do nosso primeiro-ministro, que continua teso que nem um pau de virar-tripas, mas nem sequer temos força para o fixarmos olhos nos olhos de tal forma que ele e os seus dilectos ministros e secretários de Estado vão empobrecendo a nossa gente.
É difícil perceber como é que em tempo de vacas magras os gabinetes dos governantes vão gastar este ano mais dinheiro em deslocações, mais carros de luxo, mais milhões na aquisição de bens e serviços, mais euros para suas excelências os ministros e secretários de Estado se passearem a 200 à hora com os batedores da GNR a fazerem o alarido do costume quando deviam era andar a trabalhar no combate ao crime.
Que nos tratem como venezuelanos ou colombianos até se compreende pois somos um povo ainda muito salazarista e/ou gonçalvista (ou somos tudo ou nada), e bem merecemos os chefes que nos governam. Mas daí até fazerem de nós marcianos vai uma grande distância. Sócrates sabe muito bem que tem os dias contados como primeiro-ministro e que jamais recuperará a credibilidade que ganhou noutros tempos. Fazia um grande serviço ao país se entregasse o poder a um dos seus camaradas de partido, desde que não fossem as idálias moniz e os ruis barreiros desta governação, esses sim, o espelho do país miserável em que nos estamos a tornar.
Dou um exemplo para se perceber melhor quanto somos uns saloios ao tirarmos o chapéu a estes políticos manhosos que nos calharam em sorte. Em Inglaterra, o ministro das Finanças, num dos anúncios de combate à crise, anunciou que os ministros vão começar a andar a pé ou de transportes públicos. Não é brincadeira não senhor. Só parece mentira aos que, como nós, nos comovemos com o coração aos pulos quando assistimos à chegada a uma festa dos nossos ministros e secretários de Estado: as sirenes dos batedores da polícia, e a pompa e circunstância que acompanha um palerma de um governante português, em Inglaterra já não se usam nem nas cerimónias de todos os dias onde participa a Rainha. Por cá ainda vivemos no país do faz de conta, como aliás se vive nos países do terceiro mundo onde o negócio do petróleo, dos diamantes, das armas e da droga, faz toda a diferença.
terça-feira, 1 de junho de 2010
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Um novo romance
O mercado editorial português conta desde há cerca de um mês com um novo romance de Francisco Moita Flores. “Mataram o Sidónio” é um romance que nos remete para o início do século XX, o tempo da pneumónica, a época em que se realizava trabalho pioneiro na área da investigação forense; o romance constrói-se à volta da tragédia e dos mistérios que rodearam o assassinato de Sidónio Pais mas Moita Flores aproveita para visitar todos os dramas políticos, sociais e humanos da época e, pelo meio, conta-nos a história de vida de Asdrúbal D’ Aguiar, o médico legista que foi responsável pela autópsia ao corpo de Sidónio Pais ( assassinado na Estação do Rossio em Dezembro de 1918). Moita Flores é um dos nossos melhores escritores na criação de personagens e volta a surpreender com a recriação da figura de Asdrúbal D’ Aguiar.
Com a autoridade que se lhe reconhece no domínio da investigação criminal e das ciências forenses e o conhecimento que adquiriu estudando, trabalhando e ensinando sobre as muitas matérias ligadas a estas áreas, Moita Flores constrói um romance comovente principalmente pela forma como faz emergir na sua escrita os protagonistas que, muitas vezes, parecem convocados de figuras que povoam a vida pública portuguesa destes últimos anos.
Deixo a crítica literária para os especialistas. O que me interessa partilhar com os leitores desta Última Página é o sentimento de que o livro é um belo romance, no seguimento daquilo que o autor já nos habituou noutros livros como é o caso do mais recente “A Fúria das Vinhas” ou de alguns dos mais antigos como “Filhos do Vento” ou “Polícias sem História”. ”Mataram o Sidónio” já vai na segunda edição e tem lançamento público marcado para o próximo dia 1 de Junho. Deixo aqui algumas das muitas passagens do livro que assinalei numa primeira leitura:
“Não tenha dúvidas meu caro. Cada passo que damos nesta sala, cada descoberta na nossa Repartição da Polícia Científica, cada conclusão toxicológica do nosso laboratório, são tiros certos contra o coração da prova judiciária assente na tortura e no testemunho”.
“Odeio a presunção. Não suporto aqueles que têm o dever de saber e não sabem. Aqueles que se acomodam quietos sem olhar para o que os rodeia, ou se olham, não conseguem outra coisa que ficar quietos. Odeio o oportunismo, Asdrúbal ( ... ). Não ouves um único protesto por não respeitarem o dever de saber”.
“Por cada homem sábio que surgir, aparecerão cem ignorantes voluntários para desfazer e usurpar-lhe o lugar a que tem direito por saber. Por estudar, por trabalhar.”
Aquilo não é um governo civil é uma banca de venda de notícias. Já disse isso ao governador civil. Você não tem uma Polícia, tem uma casa de putas onde cada uma quer mostrar aos clientes que é melhor do que a outra.”
“Mas não sei se sou capaz de amar outra vez. A vida ensinou-me que o amor tem a morte dentro de si.”
“Não mereces. És demasiado certinho para tratar com essa corja de aldrabões, ratos da mesma ninhada. Políticos e polícias nasceram da mesma barriga.”
“Ninguém é feliz no egoísmo. Ninguém ama uma só pessoa, uma só paisagem, uma só árvore. É grande o espaço que sobra para o sofrimento que, mais cedo ou mais tarde, afoga amantes e não amantes.”
Com a autoridade que se lhe reconhece no domínio da investigação criminal e das ciências forenses e o conhecimento que adquiriu estudando, trabalhando e ensinando sobre as muitas matérias ligadas a estas áreas, Moita Flores constrói um romance comovente principalmente pela forma como faz emergir na sua escrita os protagonistas que, muitas vezes, parecem convocados de figuras que povoam a vida pública portuguesa destes últimos anos.
Deixo a crítica literária para os especialistas. O que me interessa partilhar com os leitores desta Última Página é o sentimento de que o livro é um belo romance, no seguimento daquilo que o autor já nos habituou noutros livros como é o caso do mais recente “A Fúria das Vinhas” ou de alguns dos mais antigos como “Filhos do Vento” ou “Polícias sem História”. ”Mataram o Sidónio” já vai na segunda edição e tem lançamento público marcado para o próximo dia 1 de Junho. Deixo aqui algumas das muitas passagens do livro que assinalei numa primeira leitura:
“Não tenha dúvidas meu caro. Cada passo que damos nesta sala, cada descoberta na nossa Repartição da Polícia Científica, cada conclusão toxicológica do nosso laboratório, são tiros certos contra o coração da prova judiciária assente na tortura e no testemunho”.
“Odeio a presunção. Não suporto aqueles que têm o dever de saber e não sabem. Aqueles que se acomodam quietos sem olhar para o que os rodeia, ou se olham, não conseguem outra coisa que ficar quietos. Odeio o oportunismo, Asdrúbal ( ... ). Não ouves um único protesto por não respeitarem o dever de saber”.
“Por cada homem sábio que surgir, aparecerão cem ignorantes voluntários para desfazer e usurpar-lhe o lugar a que tem direito por saber. Por estudar, por trabalhar.”
Aquilo não é um governo civil é uma banca de venda de notícias. Já disse isso ao governador civil. Você não tem uma Polícia, tem uma casa de putas onde cada uma quer mostrar aos clientes que é melhor do que a outra.”
“Mas não sei se sou capaz de amar outra vez. A vida ensinou-me que o amor tem a morte dentro de si.”
“Não mereces. És demasiado certinho para tratar com essa corja de aldrabões, ratos da mesma ninhada. Políticos e polícias nasceram da mesma barriga.”
“Ninguém é feliz no egoísmo. Ninguém ama uma só pessoa, uma só paisagem, uma só árvore. É grande o espaço que sobra para o sofrimento que, mais cedo ou mais tarde, afoga amantes e não amantes.”
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Excitações políticas
Não tenho paciência para escrever sobre o que penso do Governo de Sócrates. Mas, falando com os meus botões, sempre me apetece perguntar como é que certa gente que vive em excitação permanente em frente das câmaras de televisão e das máquinas fotográficas, consegue dormir ou fazer amor com o/a parceiro lá de casa quando têm algumas horas livres para sujarem os lençóis do enxoval. Dizem os grandes pensadores que os poetas e romancistas criam mais e melhor a partir da falta. Não tenho a certeza que os nossos políticos, depois de diariamente tanto se excitarem perante as plateias e as câmaras de televisão, consigam ter uma vida afectiva e amorosa que os salve da miséria humana em que se transformaram, dizendo hoje uma coisa e fazendo outra no dia a seguir, a pretexto de que só assim salvam o país e a democracia. Como…. se nem a reputação de homens públicos conseguem salvar?
A indiferença é o pior dos males de uma sociedade. Por isso não fico indiferente à nota pública do Provedor da Misericórdia de Santarém que, a pretexto dos apelos dos irmãos, vem pedir contas ao vereador Vítor Gaspar da Câmara de Santarém por este ter sugerido em afirmações públicas que a Praça Celestino Graça é “propriedade” da autarquia. Toda a gente sabe que não é. Mas, pelos vistos, o vereador tem as costas largas e toca de malhar em ferro frio. A Câmara de Santarém já fez mais pela praça de toiros em cinco anos que a Mesa fez nos últimos 30. Quem é que tem andado nestes últimos anos a gastar do orçamento para encher a praça durante a época taurina e dar vida àquele espaço que, para muita gente, até há bem pouco tempo, só merecia o camartelo?
A Chamusca inaugurou a sua nova biblioteca. Não fico indiferente à inauguração mas tenho a certeza que com a falta de verbas e a falta de vontade vamos ter uma biblioteca virada para as escolas (nada contra) mas de costas voltadas para a população. É assim com as piscinas municipais. Quem quiser fazer piscina na Chamusca tem que voltar aos tempos de escola. As associações e câmara não se entendem nem têm força de vontade para criarem hábitos que permitam a abertura da piscina em horários compatíveis com quem trabalha. A desculpa é que não há pessoas suficientes para rentabilizar o equipamento nos horários que mais interessam à população. Ora bolas!.
A indiferença é o pior dos males de uma sociedade. Por isso não fico indiferente à nota pública do Provedor da Misericórdia de Santarém que, a pretexto dos apelos dos irmãos, vem pedir contas ao vereador Vítor Gaspar da Câmara de Santarém por este ter sugerido em afirmações públicas que a Praça Celestino Graça é “propriedade” da autarquia. Toda a gente sabe que não é. Mas, pelos vistos, o vereador tem as costas largas e toca de malhar em ferro frio. A Câmara de Santarém já fez mais pela praça de toiros em cinco anos que a Mesa fez nos últimos 30. Quem é que tem andado nestes últimos anos a gastar do orçamento para encher a praça durante a época taurina e dar vida àquele espaço que, para muita gente, até há bem pouco tempo, só merecia o camartelo?
A Chamusca inaugurou a sua nova biblioteca. Não fico indiferente à inauguração mas tenho a certeza que com a falta de verbas e a falta de vontade vamos ter uma biblioteca virada para as escolas (nada contra) mas de costas voltadas para a população. É assim com as piscinas municipais. Quem quiser fazer piscina na Chamusca tem que voltar aos tempos de escola. As associações e câmara não se entendem nem têm força de vontade para criarem hábitos que permitam a abertura da piscina em horários compatíveis com quem trabalha. A desculpa é que não há pessoas suficientes para rentabilizar o equipamento nos horários que mais interessam à população. Ora bolas!.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Ganhar sem trabalhar
A Fundação José Relvas continua a pagar vencimentos a funcionários que passam o dia “a olhar para o boneco” enquanto não resolve o diferendo com a Câmara de Alpiarça relativamente a uma candidatura a um projecto. Neste, como noutros casos, Rosa do Céu deixou contratualizado aquilo que ele próprio não sabia se ia gerir; deixou ainda a presidência da câmara dinamitada o suficiente para complicar a vida a quem viesse a seguir, já que outros interesses o esperavam na Entidade Regional de Turismo para onde foi ganhar a vidinha. Está provado, com o endividamento da autarquia, que Rosa do Céu defraudou as expectativas dos eleitores que nele confiaram. Como se não bastasse o “fartar vilanagem” que parece ter sido o seu último mandato, Rosa do Céu está agora a braços com uma mais que evidente incompatibilidade à frente da Entidade Regional de Turismo. Mas aos bons costumes e aos ideais da República Rosa do Céu e o Partido Socialista respondem com silêncio e arrogância. O secretário de Estado do Turismo disse esta semana a O MIRANTE que não conhece o assunto nem nunca ouviu falar. E assim vamos vivendo no reino da Dinamarca. No entanto a tolice triunfante destes governantes faz mossa e quezílias à nossa gente mas, por muito que nos arrelie, que se há-de fazer? Os tolos nunca saberão que são tolos senão no outro mundo, e é neste que todos queremos barafustar e pedir justiça, mais vergonha e decência.
A organização da última expo-criança em Santarém é um bom exemplo de como vivemos no melhor dos mundos. Toda a gente se ri da forma como se faz a gestão do espaço do Cnema mas ainda não há Sociedade Civil, nem haverá nos próximos tempos (pelo andar da carruagem), que assuste os xicos-espertos que vivem à custa do orçamento.
A Câmara de Santarém, segunda maior accionista do Cnema, devia tomar medidas urgentes para sair daquela empresa. Uma vez que a sociedade civil não funciona, compete à Câmara de Santarém dar o exemplo, já que também tem a mão na massa, e é responsável, ainda que indirectamente, pela forma como nos tiram, ao nível do desenvolvimento, o pão da boca como se nos tivessem presos à manjedoura. Organizar uma expo-criança sem incentivar a presença das crianças só pode ser brincadeira de Carnaval. Cobrar à entrada e depois voltar a cobrar no recinto para assistir a determinados espectáculos nem na Disney em Paris.
Estamos a falar de uma feira para crianças com entradas pagas ao preço de uma refeição, mais caras que um bilhete de cinema ou de teatro. Ainda por cima com a presença de expositores que vão lá para venderem os seus produtos. Repito: a Câmara de Santarém não pode ser conivente com o circo que está montado no Cnema. Ninguém leva a sério uma região que tem um Cnema gerido desta forma. A câmara e todas as instituições de bem ligadas à administração devem uma satisfação à opinião pública pela má gestão daquele espaço que custou muito dinheiro aos cofres do Estado.
A organização da última expo-criança em Santarém é um bom exemplo de como vivemos no melhor dos mundos. Toda a gente se ri da forma como se faz a gestão do espaço do Cnema mas ainda não há Sociedade Civil, nem haverá nos próximos tempos (pelo andar da carruagem), que assuste os xicos-espertos que vivem à custa do orçamento.
A Câmara de Santarém, segunda maior accionista do Cnema, devia tomar medidas urgentes para sair daquela empresa. Uma vez que a sociedade civil não funciona, compete à Câmara de Santarém dar o exemplo, já que também tem a mão na massa, e é responsável, ainda que indirectamente, pela forma como nos tiram, ao nível do desenvolvimento, o pão da boca como se nos tivessem presos à manjedoura. Organizar uma expo-criança sem incentivar a presença das crianças só pode ser brincadeira de Carnaval. Cobrar à entrada e depois voltar a cobrar no recinto para assistir a determinados espectáculos nem na Disney em Paris.
Estamos a falar de uma feira para crianças com entradas pagas ao preço de uma refeição, mais caras que um bilhete de cinema ou de teatro. Ainda por cima com a presença de expositores que vão lá para venderem os seus produtos. Repito: a Câmara de Santarém não pode ser conivente com o circo que está montado no Cnema. Ninguém leva a sério uma região que tem um Cnema gerido desta forma. A câmara e todas as instituições de bem ligadas à administração devem uma satisfação à opinião pública pela má gestão daquele espaço que custou muito dinheiro aos cofres do Estado.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Portugal é uma azinhaga
O jornal diário “i”, do Grupo Lena, caiu recentemente que nem uma casa de cimento construída em cima de terra movediça. Ninguém tem dúvidas que o jornal foi uma encomenda para fazer frente no mercado aos jornais que são assumidamente contra-poder. Só que o Grupo, gerido por homens que sabem muito de construção civil e obras públicas e quase nada de comunicação social, entregaram o projecto a um jornalista que, pelo nome e pelo currículo, jamais aceitaria editar um jornal à medida de certos interesses. António Barroca e companhia, quando se meteram nesta aventura, só tinham a experiência de gestão de jornais locais e regionais. E aí, nesse terreno, é o que todos sabemos; compram jornais como quem compra lotes de terreno e depois investem apenas o suficiente para que o título não morra. Uma miséria de negócio e de produto que empobrece as comunidades, que deixa mal o país da Europa em que vivemos, que é de caras uma espécie de investimento encomendado em troca das obras de alcatrão e cimento. E é, ainda, uma heresia se compararmos com o grau da exigência do Grupo Lena a outros níveis. Comprar jornais locais e regionais para que eles não morram e depois fazer deles folhas de couve, geridas por curiosos ou por jornalistas que são obrigados a terem dois empregos, é obra de empresários tacanhos e com vistas curtas. E, pelo que sabemos, não é essa a realidade na administração do Grupo Lena na generalidade dos seus negócios. Nos jornais locais e regionais, e agora no “i”, está provada a incompetência. Resta saber se a administração do Grupo, onde pontifica António Barroca, tem coragem para mudar para o sector da construção civil os trolhas que tem a gerir o sector da comunicação social.
Portugal é uma azinhaga para algumas pessoas que enriqueceram facilmente à custa do Estado. Não vale a pena explicar as razões sem ser com bons exemplos. Este caso do insucesso do “i” e o facto do Grupo Lena dizer à boca cheia que é líder na imprensa regional é um bom exemplo; todos os jornais que o Grupo comprou em Portugal nos últimos anos foram oferecidos a meio mundo antes deles os comprarem. E, depois da compra, quase todos ficaram editorialmente ainda mais pobres do que já eram. A diferença é que passaram a ter quem os sustente. É preciso explicar mais e melhor como é que tudo isto ainda funciona no nosso país que alguns continuam a entender que não passa de uma azinhaga?
Portugal é uma azinhaga para algumas pessoas que enriqueceram facilmente à custa do Estado. Não vale a pena explicar as razões sem ser com bons exemplos. Este caso do insucesso do “i” e o facto do Grupo Lena dizer à boca cheia que é líder na imprensa regional é um bom exemplo; todos os jornais que o Grupo comprou em Portugal nos últimos anos foram oferecidos a meio mundo antes deles os comprarem. E, depois da compra, quase todos ficaram editorialmente ainda mais pobres do que já eram. A diferença é que passaram a ter quem os sustente. É preciso explicar mais e melhor como é que tudo isto ainda funciona no nosso país que alguns continuam a entender que não passa de uma azinhaga?
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Esmifrar o Estado
Há mais de 25 anos dei cama e mesa a um escritor muito conhecido da nossa praça. Na hora de falarmos de literatura dei-lhe a saber que era amigo e admirador de um jornalista e escritor que trabalhava na altura no Diário de Lisboa. O comentário dele envenenou a conversa. Esse tipo é conhecido no meio jornalístico como o boi sentado. Ainda hoje o sentimento de despeito por um colega de ofício me serve de lição quando uso a má-língua, uma prática que, não sendo o meu desporto favorito, também sei usar nos melhores momentos de tertúlia.
Na passada semana, no final de uma palestra, cruzei-me com o jornalista José Carlos de Vasconcelos, um dos melhores e mais influentes jornalistas portugueses, e acabamos num café da avenida de Berna a confraternizar. Há muitos anos ouvi da boca de um outro escritor famoso as piores coisas que se podem dizer de um camarada de ofício. Ouvi e calei. Quem sou eu para me meter no meio da má-língua que sempre povoou o mundo dos intelectuais!
Sou amigo de um político que há 20 anos confessava-me que o seu grande objectivo, enquanto homem público, era ser cônsul de Portugal no Rio de Janeiro.
A vida pregou-lhe algumas partidas e nestes últimos anos fez parte de dois governos. Pela forma como se tem mantido na crista da onda é bem provável que volte em breve a ocupar cargos ministeriáveis.
Meio a brincar meio a sério eu retorquia que jamais queria ser figura pública e que o meu grande sonho era chegar aos 50 e começar a viajar, a ler e a escrever, concretizando tudo o que tenho vindo a adiar cada vez que sonho mais um projecto de trabalho, cada vez que coloco à frente dos interesses da minha profissão os meus grandes sonhos de juventude. Numa coisa sempre estivemos de acordo: nenhum de nós pensa na reforma ou imagina, um dia pedir, a reforma antecipada.
Já ultrapassei os cinquenta e estou longe dos meus objectivos quanto a viajar e a ganhar tempo para ler e escrever. Mas mantenho intactos todos os meus projectos de vida e todas as minhas convicções são fortalecidas a cada dia que passa.
Concentro-me numa delas para sair desta crónica intimista que já enjoa. Se não perder o juízo trabalharei até ao fim dos meus dias de vida nem que seja à cabeceira de uma cama. E nunca pedirei a reforma. Já decidi que não quero morrer reformado e pensionista da Segurança Social.
É crime o que muito boa gente com responsabilidades públicas anda a fazer com os dinheiros da Segurança Social. Pedem a reforma por antecipação aos cinquenta anos e depois candidatam-se a cargos públicos para ganharem ordenados chorudos em cima das pensões de reforma que resolveram chular à segurança social.
Se um tipo pede a reforma por antecipação é porque resolveu mudar de vida. Não devia poder, depois de se reformar, voltar a ocupar cargos públicos ganhando um vencimento como é devido a quem faz da vida profissional um manual de bons costumes. Pedir a reforma por antecipação para esmifrar o Estado e depois continuar na vida activa ocupando lugares públicos, auferindo ordenados chorudos, é uma atitude que envergonha os ideais do 25 de Abril. E o Partido Socialista é, neste momento, o que mais culpas tem no cartório.
Na passada semana, no final de uma palestra, cruzei-me com o jornalista José Carlos de Vasconcelos, um dos melhores e mais influentes jornalistas portugueses, e acabamos num café da avenida de Berna a confraternizar. Há muitos anos ouvi da boca de um outro escritor famoso as piores coisas que se podem dizer de um camarada de ofício. Ouvi e calei. Quem sou eu para me meter no meio da má-língua que sempre povoou o mundo dos intelectuais!
Sou amigo de um político que há 20 anos confessava-me que o seu grande objectivo, enquanto homem público, era ser cônsul de Portugal no Rio de Janeiro.
A vida pregou-lhe algumas partidas e nestes últimos anos fez parte de dois governos. Pela forma como se tem mantido na crista da onda é bem provável que volte em breve a ocupar cargos ministeriáveis.
Meio a brincar meio a sério eu retorquia que jamais queria ser figura pública e que o meu grande sonho era chegar aos 50 e começar a viajar, a ler e a escrever, concretizando tudo o que tenho vindo a adiar cada vez que sonho mais um projecto de trabalho, cada vez que coloco à frente dos interesses da minha profissão os meus grandes sonhos de juventude. Numa coisa sempre estivemos de acordo: nenhum de nós pensa na reforma ou imagina, um dia pedir, a reforma antecipada.
Já ultrapassei os cinquenta e estou longe dos meus objectivos quanto a viajar e a ganhar tempo para ler e escrever. Mas mantenho intactos todos os meus projectos de vida e todas as minhas convicções são fortalecidas a cada dia que passa.
Concentro-me numa delas para sair desta crónica intimista que já enjoa. Se não perder o juízo trabalharei até ao fim dos meus dias de vida nem que seja à cabeceira de uma cama. E nunca pedirei a reforma. Já decidi que não quero morrer reformado e pensionista da Segurança Social.
É crime o que muito boa gente com responsabilidades públicas anda a fazer com os dinheiros da Segurança Social. Pedem a reforma por antecipação aos cinquenta anos e depois candidatam-se a cargos públicos para ganharem ordenados chorudos em cima das pensões de reforma que resolveram chular à segurança social.
Se um tipo pede a reforma por antecipação é porque resolveu mudar de vida. Não devia poder, depois de se reformar, voltar a ocupar cargos públicos ganhando um vencimento como é devido a quem faz da vida profissional um manual de bons costumes. Pedir a reforma por antecipação para esmifrar o Estado e depois continuar na vida activa ocupando lugares públicos, auferindo ordenados chorudos, é uma atitude que envergonha os ideais do 25 de Abril. E o Partido Socialista é, neste momento, o que mais culpas tem no cartório.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
A eternidade de Saramago
A Fundação José Saramago convidou o poeta Juan Gelman para visitar Portugal. Estive em duas sessões que se realizaram em Lisboa. Na primeira fui até ao fim. Na segunda saí da sala quando iam começar os discursos oficiais. Pratico esta liberdade de sair de uma sala onde me querem encher os ouvidos com a mesma satisfação que fico em casa a ler ou a ver um filme em vez de comparecer a iniciativas que prevejo sejam chatas graças aos eternos frequentadores.
Na nossa terra usa-se e abusa-se desta mania. Certa gente, quase sempre os mesmos, só gostam de se ouvir a si próprios. Em vez de darem a palavra aos oradores e convidados, que muitas vezes viajam de tão longe para falarem apenas 20 minutos, são eles que ocupam o tempo para contarem histórias pessoais e para colocarem questões que não são perguntas mas sim tentativas mal educadas de se mostrarem também como “especialistas na matéria”. Em Portugal não há uma cultura de respeito pelos intelectuais que começa exactamente nas cadeiras da assistência quando alguns marmanjos se sentem no direito de terem os seus 15 minutos de fama custe isso o que custar aos seus camaradas mais humildes da cadeira do lado, aos oradores e organizadores.
José Saramago fez 86 anos em Novembro. Apesar da doença Saramago resiste como um leão. Na passada semana os médicos descobriram finalmente o vírus que se alojou nos pulmões e que o derruba literalmente quando toma antibióticos.
Estava a ouvir o presidente da Fundação José Saramago a explicar o milagre do trabalho dos médicos, que devem ser pagos a preço de ouro, e a lembrar-me do meu avô paterno que caiu na cama de um hospital de onde saiu directamente para a cova. O médico de serviço tratou logo do milagre de o despachar para o inferno encharcando-o de medicamentos. Foi há mais de 25 anos mas lembro-me como se fosse acontecimento de hoje. Ia vê-lo todos os dias e a cada dia que passava ele ficava mais moribundo. Foi internado por ter caído e partido um osso mas depressa levou com uma dose de cavalo de medicamentos que o levaram desta para melhor. Para além do catarro e das dores nas articulações nunca conheci o meu avô doente. No dia em que caiu na cama do hospital foi como se tivesse entrado numa câmara de gás. Durou só mais uma semana.
Ouvi Saramago a dirigir-se à plateia através de um vídeo, quase a comer as palavras e com uma cara ainda marcada pela presença do vírus nos pulmões, e percebi que por ter ganho o prémio Nobel conquistou um direito de viver que não está ao alcance de todos. Não fosse ele quem é, por mérito próprio, e o vírus já lhe tinha feito a cama, como os médicos fizeram a mortalha ao meu avô.
Nota: Encontrei o velho Juan Gelman à entrada do auditório e perguntei-lhe se não tinha pena de ser pouco traduzido e conhecido em Portugal. Respondeu-me à Saramago: e o que é isso comparado com aquilo que o povo sofre? Para além de grande poeta Gelman tem uma história de vida que é comum a muitas famílias que viveram e ainda vivem as ditaduras na América Latina. Só que a grande maioria não pode contá-las como Gelman.
Em 1976 foram sequestrados os seus filhos Nora Eva, e Marcelo Ariel, de 20 anos, com a sua nora María Claudia, de 19, que se encontrava grávida de 7 meses. Desapareceram para sempre. Em 1978 Gelman soube através da Igreja que a sua nora tinha dado à luz sem poder precisar onde nem o sexo da criança. 14 anos depois, em 1990, foram identificados os restos mortais de Marcelo, encontrados num rio dentro de um contentor de gordura cheio de cimento. Em 1998 Gelman descobriu que sua a nora tinha sido enviada para o Uruguai através do Plano Condor. Só veio a descobrir e a identificar a neta em 2000, 23 anos depois. Do cadáver da nora ainda não se sabe nada.
Na nossa terra usa-se e abusa-se desta mania. Certa gente, quase sempre os mesmos, só gostam de se ouvir a si próprios. Em vez de darem a palavra aos oradores e convidados, que muitas vezes viajam de tão longe para falarem apenas 20 minutos, são eles que ocupam o tempo para contarem histórias pessoais e para colocarem questões que não são perguntas mas sim tentativas mal educadas de se mostrarem também como “especialistas na matéria”. Em Portugal não há uma cultura de respeito pelos intelectuais que começa exactamente nas cadeiras da assistência quando alguns marmanjos se sentem no direito de terem os seus 15 minutos de fama custe isso o que custar aos seus camaradas mais humildes da cadeira do lado, aos oradores e organizadores.
José Saramago fez 86 anos em Novembro. Apesar da doença Saramago resiste como um leão. Na passada semana os médicos descobriram finalmente o vírus que se alojou nos pulmões e que o derruba literalmente quando toma antibióticos.
Estava a ouvir o presidente da Fundação José Saramago a explicar o milagre do trabalho dos médicos, que devem ser pagos a preço de ouro, e a lembrar-me do meu avô paterno que caiu na cama de um hospital de onde saiu directamente para a cova. O médico de serviço tratou logo do milagre de o despachar para o inferno encharcando-o de medicamentos. Foi há mais de 25 anos mas lembro-me como se fosse acontecimento de hoje. Ia vê-lo todos os dias e a cada dia que passava ele ficava mais moribundo. Foi internado por ter caído e partido um osso mas depressa levou com uma dose de cavalo de medicamentos que o levaram desta para melhor. Para além do catarro e das dores nas articulações nunca conheci o meu avô doente. No dia em que caiu na cama do hospital foi como se tivesse entrado numa câmara de gás. Durou só mais uma semana.
Ouvi Saramago a dirigir-se à plateia através de um vídeo, quase a comer as palavras e com uma cara ainda marcada pela presença do vírus nos pulmões, e percebi que por ter ganho o prémio Nobel conquistou um direito de viver que não está ao alcance de todos. Não fosse ele quem é, por mérito próprio, e o vírus já lhe tinha feito a cama, como os médicos fizeram a mortalha ao meu avô.
Nota: Encontrei o velho Juan Gelman à entrada do auditório e perguntei-lhe se não tinha pena de ser pouco traduzido e conhecido em Portugal. Respondeu-me à Saramago: e o que é isso comparado com aquilo que o povo sofre? Para além de grande poeta Gelman tem uma história de vida que é comum a muitas famílias que viveram e ainda vivem as ditaduras na América Latina. Só que a grande maioria não pode contá-las como Gelman.
Em 1976 foram sequestrados os seus filhos Nora Eva, e Marcelo Ariel, de 20 anos, com a sua nora María Claudia, de 19, que se encontrava grávida de 7 meses. Desapareceram para sempre. Em 1978 Gelman soube através da Igreja que a sua nora tinha dado à luz sem poder precisar onde nem o sexo da criança. 14 anos depois, em 1990, foram identificados os restos mortais de Marcelo, encontrados num rio dentro de um contentor de gordura cheio de cimento. Em 1998 Gelman descobriu que sua a nora tinha sido enviada para o Uruguai através do Plano Condor. Só veio a descobrir e a identificar a neta em 2000, 23 anos depois. Do cadáver da nora ainda não se sabe nada.
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