quinta-feira, 25 de novembro de 2021

A pedra com que David matou Golias

De manhã tenho uma energia que sou capaz de combinar encontros e marcar trabalhos que enchem a agenda de uma semana. O problema depois é cumprir tudo o que agendei, combinei e imaginei que era capaz de realizar.

Um amigo de longa data, empresário de antiguidades (não sei bem se o ofendo chamando-lhe comerciante porque ele faz negócios vendendo desde quadros dos pintores mais famosos aos objectos mais raros em ouro e prata), contou-me que há muitos anos vendeu a um milionário, dono de umas termas, a pedra com que David matou Golias. As outras histórias, que lhe ouvi ao longo dos anos, fazem crer que esta é mais uma das suas invenções para me fazer passar a mensagem de que ainda está em idade de me ensinar muitas coisas como quando o conheci e aprendi com ele lições preciosas para o meu novo trabalho da altura. No dia da nossa conversa andei de volta das edições online do Público e do El País,  leituras em atraso que me levaram três horas da noite da véspera de terça-feira que é geralmente o dia em que tenho mais trabalho e o tempo não chega para um mergulho na piscina que é a minha bênção do dia.

Vai daí, depois de ter lido cinco edições do Ípsilon, o melhor suplemento literário dos jornais portugueses, e duas edições do Babélia, embora ainda ficassem outras tantas para ler, senti uma vontade de tirar de cima de mim o seirão com os problemas normais de um jornalista operário que passou a noite em branco à procura do nome de um mago, santo ou bruxo, que me pudesse ajudar a combater o vício do trabalho. Não dormi e, para castigo, na terça-feira, o dia a seguir a esta noite em branco, tive um dos dias mais trabalhosos da minha vida. Estávamos em vésperas da organização das cerimónias do Galardão Empresa do Ano e da entrega dos prémios às nossas Personalidades e alguém tinha que escrever os textos e, desta vez, mais uma vez, calhou-me a mim. 

Escrevo ao correr da pena, antes de dormir na tal noite de segunda-feira que, por acaso, é a última deste ano que passo o dia e a noite a trabalhar. Vou cruzar o Atlântico para gozar umas férias grandes e nos primeiros dias não andar a bater com a cabeça nas paredes sem saber muito bem como é que vou passar os dias sem atender o telefone, ajudar a organizar a agenda dos camaradas mais novos, ou mais novinhos, que adoram fingir que não acontece nada se não se sentirem apertados num sítio que só eu sei.

Fico por aqui neste texto que põe a nu o jornalista que sou cada vez menos e o operário em construção que sou cada vez mais, agora que entrei no mês em que posso pedir a reforma por limite de idade (tinha que deixar aqui esta informação para não pensarem que falo de boca cheia e que ainda tenho uma vida eterna pela frente).

De verdade, sem falsas juras, é o que sinto todos os dias. De manhã tenho uma energia que sou capaz de combinar encontros e marcar trabalhos que enchem a agenda de uma semana. O problema depois é cumprir tudo o que agendei, combinei e imaginei que era capaz de realizar.

Não acabo a crónica roubada ao sono sem dar conta que no dia do fecho desta edição, e no dia seguinte, em que o jornal chega a todos os leitores, vamos voltar a premiar os melhores empresários da região ribatejana e as personalidades do ano. Vai ser uma festa como sempre. E vamos mostrar que, embora sejamos boicotados por vivermos e trabalharmos longe dos poderes de Lisboa, conseguimos dar provas que Portugal resiste apesar dos Vieiras, dos Sócrates, dos Salgados e dos Rendeiros, para não falar daqueles seus apaniguados que formam um exército de libertação dos dinheiros dos impostos para os paraísos fiscais, que depois faltam no SNS e na Justiça, para haver juízes e funcionários suficientes que façam funcionar o Sistema.

Ainda a tempo; acabei a crónica sem satisfazer a curiosidade dos leitores que adoram conhecer lugares de férias maravilhosos. Infelizmente não posso desvendar o meu destino de férias porque o lugar não tem luz eléctrica e vou ter que pescar todos os dias para não morrer de fome. Quem me invejar que morda a língua que é o menor mal que sou capaz de desejar aos invejosos. JAE.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Vai sair cara a resistência

Esta edição de O MIRANTE tem dois cadernos e comemora 34 anos de publicação ininterrupta sob o lema que nos inspira desde o primeiro número: “caminhante não há caminho, o caminho faz-se a andar”.

Quem ler esta edição de O MIRANTE, distribuída por dois cadernos, vai sentir o peso da leitura por mais que o seu espírito esteja folgado. Apesar da crise é a maior edição de aniversário de sempre e aquela que reúne mais investimento. 2021 tem sido um ano desafiante. Enquanto os jornais ditos nacionais vão caindo, alguns para tiragens insignificantes, O MIRANTE mantém os seus números na edição impressa e é lido na internet por mais de metade da população portuguesa. Certamente com a grande ajuda dos portugueses residentes no estrangeiro, e com o interesse dos seus familiares, mas não é isso que nos rouba a importância e o interesse que despertamos no mercado.

Vivemos um tempo de monopólio da informação; pior que isso: sofremos a concorrência de empresas e indivíduos que roubam a informação dos jornais como quem apanha amoras silvestres à beira da estrada. Começa nos facebooks e acaba no cidadão comum que distribui diariamente, em mensagens de telemóvel, dezenas de títulos de jornais roubados dos programas de assinaturas das editoras.

O sector da comunicação social vai resistir a tudo e a todas as contrariedades, inclusive aos governos que vêem o trabalho editorial das redacções por um canudo: querem os jornalistas e os jornais a fazerem serviço público mas depois fogem com a publicidade obrigatória e os deveres da transparência que uma boa governação exige. Vai sair cara a resistência. As bancas de venda de jornais são cada vez menos.  No mercado nacional só há uma distribuidora de jornais; e as dificuldades também apertam para quem vê as receitas diminuirem devido à quebra das vendas. Dos grandes jornais de referência O MIRANTE é dos poucos que aposta nas assinaturas da edição impressa. Os CTT vão cumprindo a sua missão embora em alguns pontos do país com problemas na distribuição. O papel aumentou 47 % nos últimos três meses assim como grande parte das matérias-primas associadas à impressão. As cativações e a lei da contratação pública, leis peregrinas que visam apenas dificultar a vida aos pequenos empresários, são aberrações do regime social-democrata em que vivemos, que privilegia descaradamente as grandes empresas e os grandes empresários que se escondem atrás de fundações e de offshores.

A pandemia, graças ao avanço da ciência, é uma brincadeira comparada com a desgraça que vai por aí no clima, com o drama dos refugiados, o avanço da China nos mercados internacioais com produtos a preços ridículos graças a tudo o que sabemos e, por fim, sem esgotar todas as grandes lutas das novas gerações, a falta de cultura democrática na administração dos organismos do Estado e, muitas vezes, nos gabinetes dos próprios governantes.

O MIRANTE comemora 34 anos de publicação ininterrupta. Chegamos aqui devido ao trabalho de uma equipa que nunca se dividiu, que criou raízes, que tem sabido adaptar-se aos novos tempos. Um dos grandes desafios de O MIRANTE é trabalhar em 23 concelhos onde as sensibilidades políticas e pessoais são variadas. Temos muitos mais parceiros que adversários; muitos mais aliados que inimigos; desde o primeiro número de O MIRANTE que trabalhamos em nome de um projecto editorial e nunca em favor de um projecto político, pessoal ou empresarial. E é assim que vamos continuar sob o lema que nos inspira desde o primeiro número: “caminhante não há caminho, o caminho faz-se a andar”. JAE.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Um jornal para os vizinhos

Na última década extinguiram-se centenas de títulos de jornais locais e regionais. Em Portugal vive-se uma realidade que, por incrível que pareça, é antagónica à realidade do resto da Europa.

 

“Os verdadeiros meios de comunicação líderes são os jornais regionais”. O título é de um artigo de jornal que sintetiza um congresso sobre jornalismo realizado em Valladolid, que serviu ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine como ponto de partida para analisar o estado da imprensa espanhola e onde é citado o chefe de redação do La Voz de Galicia, Xosé Luís Vilela, que afirma que “Nós fazemos o jornal para os vizinhos”.

Gosto da citação para substituir “jornalismo de proximidade” que costumamos usar nas campanhas de O MIRANTE para angariar leitores. Tenho que reconhecer, no entanto, que a realidade espanhola é substancialmente diferente da portuguesa. Há mais de três décadas que acompanho a evolução da imprensa em Portugal e os jornais regionais perderam importância em contra-ciclo com o resto da Europa. Na última década extinguiram-se centenas de títulos de jornais locais e regionais. Em Portugal vive-se uma realidade que, por incrível que pareça, é antagónica à realidade do resto da Europa. Em terras lusas tenta vender-se a ideia que temos o maior número de jornais centenários e alguns iluminados falam mesmo em candidatá-los a Património Imaterial da Humanidade. Nada contra se os jornais cumprissem a sua função, o que não é o caso na grande maioria, ou por falta de jornalistas ou por estarem a ser dirigidas por pessoas que estão a viver ainda nos anos de chumbo. É dificil olhar para um jornal que não tenha uma política editorial que faça com regularidade o escrutínio das instituições e dos seus protagonistas; que não dê prioridade aos assuntos de sociedade e não esteja do lado dos mais desvaforecidos da comunidade.

A falta de auto-critica e a subserviência das instituições do sector ao poder instituído, assim como a falta de interesse pelo associativismo da classe, faz de Portugal um país de caciques e de pobres diabos que continuam a fazer do jornalismo local e regional uma actividade para asilados. Entretanto as tiragens dos quatro jornais de referência em Portugal caíram para menos de metade nos últimos anos. A publicidade tradicional desapareceu e as consequências são o emagrecimento das redacções e, consequentemente, a falta de tempo para os jornalistas trabalharem na rua. Hoje, como ontem, a grande maioria dos profissionais das televisões e dos jornais de referência são poucos para acompanharem a classe política em Lisboa ou quando passeiam pelo país. 

90 por cento dos jornalistas que saem das universidades querem serem pivot de televisão; por isso passam anos sentados às secretárias a fazerem trabalho de escriturários, na maioria das vezes sem qualquer influência na qualidade da informação publicada. O resultado dessa ideia de que jornalismo é apresentar telejornais, mais tarde ou mais cedo, faz de jovens licenciados em comunicação maus caixas de supermercados, maus vendedores de imóveis e automóveis, etc, sendo que uma boa maioria deles acaba a trabalhar, em frente a um computador, para o Facebook, o Tik Tok a Google e a Amazon, as grandes empresas que já dominam o mundo através da internet.

Portugal é dos países da Europa desenvolvida o que menos se preocupa com o futuro dos seus jovens trabalhadores, sejam eles jornalistas, médicos, engenheiros, arquitectos, pedreiros ou mecânicos.

A bagunça na distribuição do dinheiro do orçamento do Estado favorece a especulação e a pobreza que se instalou na sociedade. A grande maioria das empresas que não depende de trabalho especializado tem que recorrer à emigração. A geração rasca, de que falava Vicente Jorge Silva, ainda não se extinguiu; pelo contrário, continua uma imensa maioria incentivada por um ensino universitário sem qualidade e sem ligação à realidade do mundo do trabalho.

Parafraseando a nossa (ainda) ministra da Agricultura, a pandemia ainda pode ser uma boa oportunidade para Portugal. A China já controla a luz eléctrica que nos ilumina as casas e faz trabalhar as fábricas; as barragens já foram vendidas à Engie; os bancos já são quase todos estrangeiros, e os que não são se-lo-ão a breve prazo; o Alentejo já é Marrocos aqui mais perto. Um dia destes vamos ter cientistas no Ribatejo a posicionarem-se para serem os primeiros a dissecarem os cadáveres dos antigos comunistas de Alpiarça, dos avós de José Saramago e, quem sabe, o de Ricardo Salgado, um antigo correeiro da Chamusca que tinha um nome famoso mas era, se fosse vivo, o honrado bisavô da Mafalda, que é minha neta e ainda não sabe ler. JAE.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A Ponte da Chamusca é o maior exemplo do Portugal dos pequeninos

 O Instituto de Estradas mandou construir separadores na Ponte da Chamusca para salvaguardar a estrutura de ferro que foi inaugurada em 1909. Daí para cá a vida das pessoas que precisam daquele tabuleiro de ferro tornou-se um inferno. Os políticos locais comem e calam e assim contribuem para o país desigual em que vivemos.

A travessia da Ponte da Chamusca, baptizada com o nome de João Joaquim Isidro dos Reis, continua a ser um problema quase diário para centenas de pessoas que atravessam o Tejo nas mais variadas situações, certamente que uma boa parte delas por compromissos laborais. Na passada semana o telefone da redacção de O MIRANTE voltou a tocar; do outro lado voltamos a ouvir vozes inconformadas a pedirem que escrevêssemos sobre o assunto porque a travessia da ponte não pode ser um problema que estrague a vida às pessoas que compraram casa do lado errado do rio, ou que, por qualquer outra razão, dependem daquele caminho-de-ferro. A notícia acabou por não ser publicada, nem sequer na edição online, porque nem sempre os jornalistas estão atrás de um computador e o assunto é grave demais para escrevermos sobre ele do jeito em que se vai batendo no ceguinho, o que não é o caso, como todos sabemos.

Por causa da falta desse texto na edição online chegou-me também pelo telefone uma história desse dia que é exemplar e que merece ser contada. Um funcionário da Rodoviária do Tejo (RT), que mora na Golegã, saiu de casa 30 minutos antes de entrar ao serviço, na Chamusca, onde deveria conduzir o autocarro da manhã com destino a Lisboa. A distância entre a Golegã e a Chamusca são cinco quilómetros; se a ponte da Chamusca estiver interrompida por causa dos mesmos problemas de sempre pode demorar duas horas. Ao perceber que era isso que lhe ia acontecer na manhã desse dia o personagem desta história deu meiavolta com o carro, voltou a casa, pegou na moto e fez-se novamente ao caminho de forma a chegar a tempo e horas de cumprir os seus horários de trabalho e não deixar pendurados os passageiros da Rodoviária do Tejo.

Conto esta história para valorizar o acto de vestir a camisola deste funcionário da RT que bem podia escrever ao seu administrador a pedir-lhe que fizesse queixa ao Camões por ele não conseguir chegar a horas ao seu trabalho. Certamente que há outros exemplos a merecerem elogios; e haverá situações bem mais dramáticas de pessoas que faltam ao trabalho, e a outros compromissos importantes, por causa dos impedimentos no trânsito na ponte de ferro inaugurada em 1909, a quem foi dado o nome de João Joaquim Isidro dos Reis, que fez da sua construção uma das principais batalhas da sua vida.

Os autarcas da Chamusca acham que os problemas da Ponte da Chamusca se vão resolver por obra e graça do Espírito Santo. Imagino o presidente da câmara, Paulo Queimado, a ligar ao Padre Borga, prior da freguesia, para lhe meter uma cunha

Nenhum sacana que governa a autarquia tem coragem para marchar até Lisboa e meter pelos olhos dentro dos responsáveis do Instituto de Estradas que não se mexe na vida das pessoas como se vivêssemos numa anarquia. Não havendo alternativa aos separadores o IE tem que ter os semáforos a funcionar; se estão avariados os tribunais podem repor a legalidade; os cidadãos não são verbos de encher; os políticos de proximidade não podem ser bonecos ao serviço dos partidos em vez de ao serviço dos interesses dos seus munícipes. Está na hora do reeleito presidente da câmara, e seus vereadores, se amarrarem aos ferros da ponte, já que politicamente são invisíveis e ninguém lhes liga. JAE

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Cavaco Silva: falar e escrever para o boneco

Aníbal Cavaco Silva é o exemplo do país de manhosos em que vivemos. Cavaco diz que vivemos num país com uma “democracia amordaçada”, mas não fala dos “Pandora Papers”, das Fundações, dos políticos que usaram a banca para traficar influências e muito menos fala do seu falhanço como primeiro-ministro durante 10 anos. Curiosamente, um dos maiores actos de censura foi durante um dos seus governos e calhou a José Saramago. E ninguém esquecerá jamais a recusa da pensão a Salgueiro Maia, o herói do 25 de Abril.

A opinião de Cavaco Silva sobre o estado do país foi notícia a nível nacional. O artigo de opinião do ex-primeiro ministro e ex-Presidente da República, que marcou uma época em Portugal, ocupou uma página do jornal Expresso da passada semana e está cheia de opiniões mesquinhas que são o espelho da sua personalidade como político.

Cavaco Silva queixa-se de vivermos num país com uma “democracia amordaçada” onde o “controlo do aparelho de estado e a subserviência da comunicação social” contribuem para o “silenciamento e o empobrecimento” do país. Mas foi num Governo de Cavaco Silva que José Saramago conheceu a censura que o impediu de concorrer a um prémio literário. 

Quem viveu para contar o tempo em que Cavaco Silva dirigiu três governos durante uma década, e falhou redondamente a reforma administrativa do país, não pode ficar calado com tamanha pornografia opinativa. Miguel Cadilhe,  que dirigiu o ministério das finanças durante cinco anos, acusou publicamente o seu líder de ser o pai do “monstro”, ou seja, do défice, um dos epítetos pelos quais ficou conhecida a dimensão da ruptura das contas públicas portuguesas. Segundo Miguel Cadilhe, foi durante o Governo de Cavaco Silva que a Administração Pública portuguesa se transformou na terceira mais cara da Europa. Curiosamente, foi também o Expresso a publicar as declarações de Cadilhe que só podem ficar na História para quem acompanha a vida política das marionetas portuguesas. O facto de Cavaco Silva ainda hoje fazer opinião, ainda que ao nível de um Comendador, e de Miguel Cadilhe se ter eclipsado da vida pública e política, só abona a favor deste último, já que Cavaco Silva governou Portugal durante uma década (1985 a 1995) e só deixou alcatrão, algum dele pouco utilizado, que custa os olhos da cara ao Estado português, que tem que pagar às concessionárias a falta de receitas do tráfego automóvel. Faltam os estudos para sabermos quantos milhares de milhões é que ainda custam estes investimentos que apagaram do mapa as políticas de aposta nos caminhos-de-ferro e na navegabilidade dos rios como acontece na maior parte dos países bem governados.

Mais grave ainda; pouco antes da falência do BES Cavaco Silva fez declarações que são uma vergonha para um país onde a justiça ainda não cumpriu o seu papel para com os lesados dos bancos que foram enganados por funcionários ao serviço de uma “máfia”. Cavaco Silva podia e devia usar as páginas dos jornais para criticar os capitalistas associados às notícias dos “Pandora Papers”, ou de outros processos que fazem de Portugal um país de terceiro mundo, onde a responsabilidade política no governo de instituições bancárias, como a Caixa Geral de Depósitos, foi durante anos a fio um instrumento do tráfico de influências políticas, o lugar onde o Estado português se deixou manobrar em nome de uma rede de privilegiados sem honra ou sentimentos de dever público.

É verdade que a imprensa portuguesa está moribunda e aprisionada; falta-lhe o investimento publicitário e, pior que tudo, leitores. Cada dia que morre um velho é menos um jornal que se vende. E, como sabemos, todos os dias morrem velhos. Cavaco Silva sabe que a Google, o Facebook, a Amazon e a Apple tomaram conta do mercado que ninguém regula nem tem ferramentas para regular. Por último: Cavaco Silva não fica na História só por ter deixado censurar uma obra literária do nosso Nobel da Literatura; fica acima de tudo por ter negado uma pensão ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, quando pouco tempo depois não negou o mesmo pedido a dois antigos inspectores da extinta PIDE. 20 anos depois, Cavaco Silva redimiu-se com uma homenagem ao homem que partiu de Santarem com as suas tropas para libertar Portugal de um regime fascista mas foi pior a emenda que o soneto: Salgueiro Maia já tinha morrido. JAE.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Tomar é a cidade mais bonita da nossa região

Tomar é a cidade mais bela e bem frequentada da nossa região. Passei lá uma boa parte do dia de domingo a trabalhar e a viver as emoções da noite eleitoral.


No dia das últimas eleições autárquicas escolhi Tomar para acompanhar os resultados das eleições autárquicas. Fui a meio da tarde para ir aos figos e para visitar, ainda com a luz do dia a fazer o pino, a cidade e os seus recantos.

Tomar é a cidade onde todos gostávamos de viver ou de ter uma casa. Não é só a cidade que tem um encanto templário: à volta de Tomar há uma albufeira que faz toda a diferença com mil lugares de veraneio, de lazer e de excelência para passar o dia, o fim-de-semana ou até o resto da vida.

Tomar é a única cidade da região onde os restaurantes de qualidade se espalham pelas ruas da cidade, com as suas esplanadas, e os turistas, que não são os mesmos do Santuário de Fátima, se sentam com os olhos brilhantes de quem vê em cada estrela um milagre.

Já almocei e jantei na grande maioria dos restaurantes mas no domingo entrei pela primeira vez no espaço da sede da Nabantina onde o serviço foi demorado mas atencioso. Embora na cidade houvesse muitos restaurantes abertos, apesar de ser domingo, vi entrar e sair muitos clientes que não tiveram lugar apesar do espaço ter quatro salas, algumas delas bem espaçosas.

Sou de uma terra com metade das casas a cair, de costas voltadas para o Tejo, quase sem restaurantes, onde vivem cada vez menos almas e o que sobra são igrejas embora estejam quase sempre de portas fechadas como acontece com a mais bonita de todos situada no miradoiro de Igreja de Nossa Senhora do Pranto. Tomar tem mais vida na Rua da Corredoura, a um domingo ao fim da tarde, que a Chamusca durante toda a semana em todas as ruas.

Nos últimos anos tenho vivido mais em Lisboa e em Santarém do que na Chamusca ou em Tomar ou em Alhandra, onde também gosto de sentir a vida a passar. No domingo percebi melhor a importância de morarmos numa cidade com identidade, que não a grande Lisboa, onde nos perdemos; nem a Chamusca ou Santarém, onde todos olham para os nossos sapatos e vêem as solas rotas quando não se dá o caso de as verem forradas a ouro.

Há muito tempo que não ajudava a coordenar um trabalho em noite de eleições; há muito tempo que não saía à rua em trabalho, com o fato de repórter, e escrevia em cima do joelho e directamente no telemóvel, que é hoje a grande ferramenta de um jornalista. Não esqueci, entretanto, como se trabalha na rua, mas percebi melhor que agora é muito mais fácil mostrar trabalho do que antigamente. Tudo acontece muito mais rapidamente e à frente do nosso nariz. No domingo consegui trabalhar até às três da manhã em toda a área de abrangência de O MIRANTE, a partir de Tomar e de Abrantes, sabendo que éramos duas dezenas de profissionais a fazerem o melhor que sabem, que é o jornalismo de proximidade.

Este texto tem alguns dias no computador, quase tantos como os que já lá vão depois das eleições. A esta distância vale a pena acrescentar à crónica que soube de muitas candidaturas, de todos os partidos, que não saíram à rua para fazerem campanha eleitoral. Há pessoas em que os partidos confiam que acham que ganham eleições sem baterem às portas, sem saírem da sua rua ou da sua cidade ou aldeia. Percebe-se pelos resultados que houve candidatos que acharam que ganhavam eleições pelos seus lindos olhos; Daí as muitas surpresas destas eleições. Daqui a quatro anos veremos quem tem obra para mostrar e quem já começou a construir alternativas na oposição. JAE.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A tirania das eleições

O PCP não liga aos seus quadros, nem aos novos nem aos velhos, nem procura mobilizar pessoas que não gostem do Partido Comunista Chinês ou do chefe do Governo venezuelano Nicolás Maduro.

As eleições autárquicas de domingo foram tiranas para o PCP e o Bloco de Esquerda. Se quanto a este último partido não há culpas para apontar, porque o BE é literalmente um partido de Lisboa e do Porto, que vive de meia dúzia de estrelas do firmamento da esquerda caviar (com raras excepções), já quanto ao PCP a coisa pia mais fino. Os comunistas coligados com os Verdes, que só existem graças ao PCP, têm uma tradição de poder nas autarquias que vai ficar na História deste último meio século. Infelizmente para o partido, e para a democracia, o PCP está a deixar-se morrer por culpa daquilo que era a sua grande mais valia: a proximidade dos dirigentes com as populações e com os seus interesses mais importantes e mais imediatos. Quase meio século depois do 25 de Abril os dirigentes nacionais do PCP aburguesaram-se e entregaram o partido no interior do país aos profissionais dos sindicatos, que são incapazes de organizar uma lista de compras de supermercado quanto mais uma força política para concorrer às autarquias.

No Ribatejo o PCP já só tem a Câmara de Benavente e, provavelmente, só até 2025. A história que ficou para trás com a reforma de Sérgio Carrinho, António Mendes e agora Carlos Coutinho (tão comunistas como eu (não) sou), é fácil de explicar. O PCP não liga aos seus quadros, nem aos novos nem aos velhos, nem procura mobilizar pessoas que não gostem do Partido Comunista Chinês ou do chefe do Governo venezuelano Nicolás Maduro. Na Chamusca e em Constância, para dar dois exemplos que citei, o PCP não soube renovar-se, os comunistas ou os simpatizantes do partido não mexem uma palha para recuperarem o prestígio ganho e acumulado ao longo dos anos de trabalho em favor das populações. Os gajos em que o PCP confia a tarefa de organizar as tropas vivem literalmente na clandestinidade nas suas próprias terras e, regra geral, são pessoas que não mostram os dentes nem trabalham em favor das associações ou colectividades, como sempre foi tradição nos militantes comunistas. Os que resistem parecem personagens de cinema: uns cheios de raiva e desesperados por lutarem contra moinhos de vento e os outros, os que andam com a foice e o martelo na testa, escondidos em casa onde montaram oficinas de recuperar imagens de Che Guevara, Fidel Castro e Catarina Eufémia.

Jerónimo de Sousa e António Filipe, para falar de dois dirigentes nacionais que estão a contribuir para levar o PCP à condição de partido insignificante a nível autárquico, são dois personagens de televisão como eram os bonecos do Contra Informação da RTP. Eles estão em todos os noticiários e programas de entrevista e de entretenimento das televisões, mas nunca estão no terreno; nem eles nem os camaradas do Comité Central que, segundo dizem os números, têm uma fortuna para gerir; o PCP é o partido mais rico do mundo em património e em dinheiro a prazo nos bancos; no resto está quase apagado do mapa pelo Chega e companhia; no Ribatejo mas também no Alentejo. Só no concelho de Lisboa, tal como o BE, o PCP ainda tem uma força que faz dele um partido respeitável. Álvaro Cunhal deve estar a mexer-se no túmulo.



Escolho Jorge Faria, que ganhou o Entroncamento por 62 votos, para deixar aqui um exemplo de um autarca que governa com os punhos e dialoga com a população com os cotovelos. Um político que faz dois mandatos numa cidade, que tem tudo para dar certo, e ao fim de oito anos só fica no poder graças a 62 eleitores e a Nossa Senhora de Fátima, ou vai acabar os quatro anos de poder a caminhar para o psicólogo ou é certo que vamos ter eleições antecipadas na cidade dos comboios. JAE.