quinta-feira, 16 de junho de 2022

Uma homenagem ao fotojornalista Henrique de Carvalho Dias

Texto de homenagem à arte do fotojornalista Henrique de Carvalho Dias no dia em que inaugurou em Santarém uma exposição de fotos do seu livro sobre os 35 anos de alternativa do cavaleiro Luís Rouxinol.


Identifico-me muito com a pessoa que é o Henrique de Carvalho Dias assim como com o fotojornalista que conheci há muitas décadas quando ele era fotojornalista e eu era apenas um jovem forcado. A memória dele sobre mim é bem mais recente mas, mesmo assim, há aqui muita gente que não era nascida quando nos voltamos a cruzar, ele ainda como fotojornalista e eu já como jornalista. Estamos a falar, num primeiro caso, de há meio século, e no segundo de há 35 anos, mais um menos um.

Houve uma altura em que O MIRANTE ainda crescia a olhos vistos, coisa que agora ainda acontece mas mais devagarinho e discretamente, em que publicávamos regularmente fotos da festa da autoria do Henrique, daquelas que só se conseguem quando se dispara muito e se está no sítio certo à hora certa. Essa colaboração acabou, nem me lembro porquê, mas a amizade manteve-se até hoje e a colaboração entretanto também voltou e a política editorial de O MIRANTE relativamente às corridas de toiros deve-se inteiramente à colaboração do Henrique de Carvalho Dias.

Ao longo deste meio século mudei mais do que o Henrique no amor pela festa brava. Embora ainda tenha o bichinho dos toiros, já não estou apaixonado, aliás, nem sequer vivo um amor quanto mais uma paixão. Mesmo assim sinto-me muito mais emocionado quando me sento numa praça de toiros do que nas bancadas do estádio de Alvalade a ver jogar o meu Sporting. O meu problema com o futebol é civilizacional e cultural. Com a festa brava é cultural e civilizacional. Para mim a festa ainda é uma manifestação cultural, e lúdica também, que as fotos do Henrique de Carvalho Dias dão, aliás, um bom testemunho. Mas o Henrique representa hoje como fotojornalista um pouco daquilo que é o meu desencanto com a festa e com os seus protagonistas. Nos últimos anos o Henrique sofreu na pele situações de discriminação e de falta de respeito; inclusive, se bem me lembro, aqui mesmo nesta praça em Santarém. Felizmente que está aqui e que outras pessoas mais dignas e respeitadas também o reconhecem e respeitam como ele merece.

Nada que me surpreenda quanto ao passado recente. A vida de um fotojornalista não é diferente da vida de um toureiro ou de um escritor, de um cientista ou de um artista plástico. Chega uma altura em que ou somos donos do nosso nariz, do nosso negócio, ou há mil pessoas à nossa volta a quererem ocupar o nosso lugar nem que para isso tenham que passar por cima das nossas bochechas. É a lei da vida. Se se dá o caso de falarmos em armas apontadas ao peito, ou matas ou morres; se se dá o caso de as armas serem máquinas fotográficas, ou canetas que escrevem notícias ou artigos de opinião, ou és muito bom e muito resistente e sobrevives ou se deixas de ter onde publicar de nada te vale seres o melhor de todos.

Há muitos anos que aprendi isso. Os melhores jornalistas ou fotojornalistas são os melhores também porque trabalham nos melhores órgãos de comunicação social. Ontem à noite, a RTP 2 transmitiu um documentário sobre Paulo Cunha e Silva, que conseguiu levar para a Fundação de Serralves uns objectos que pertenceram ao histologista Abel Salazar. Diz ele, nesse documentário, que quem conseguir levar um objecto para um museu o transforma em obra de arte. Nada mais verdadeiro há 20 anos quando se realizou essa exposição e também nos dias de hoje em que se realiza esta mostra da autoria do Henrique de Carvalho Dias.

Curiosamente a festa dos touros está a perder cada vez mais esse estatuto de manifestação cultural porque são cada vez menos os Henriques de Carvalho Dias a defenderem as touradas como uma arte e não apenas como um espectáculo lúdico.

Acho que a festa deve ao fotojornalista Henrique de Carvalho Dias essa homenagem. Um dia que alguém consiga trabalhar em favor de um museu da tauromaquia, que bem podia ser em Santarém, e neste espaço que, como todos sabemos, está sub-aproveitado, muito sub-aproveitado, para falarmos verdade e sem receio e misericórdia. E a homenagem ao Henrique deve-se não só por ser um dos mestres da arte da fotografia taurina mas pelo amor à festa, à paixão que ainda mantém pelos toiros e a admiração pelos toureiros, pelos forcados e pela generalidade das pessoas ligadas às tradições da festa.

Óscar Lopes, um dos críticos mais conhecidos no meio literário dos últimos 100 anos, escreveu um dia que um escritor só se deve considerar escritor depois de 20 anos a escrever ininterruptamente. Acho que se ele falasse de fotojornalistas não diria nada de diferente. O Henrique é um mestre da fotografia e já leva uns bons pares de vinte anos a mostrar o que vale.

Por último; alguém escreveu um dia, não me lembro quem, que a fotografia, a arte da fotografia, precisava de encontrar um Picasso pelo caminho. Gosto de pensar no assunto mas se me perguntassem agora se estou de acordo diria que não. Pelo menos em parte. As fotografias de Henrique de Carvalho Dias são únicas como são as de Eduardo Gageiro, de quem também sou amigo e admirador.

Agora sim, por último: se as touradas não fossem um parente pobre das nossas cada vez mais pobres tradições; se Portugal não fosse um país de invejosos, Henrique de Carvalho Dias já teria direito a uma exposição numa das galerias portuguesas de prestígio, a publicação dos seus livrinhos de forma artesanal já teriam dado lugar a um livro de capa dura e papel couché. Infelizmente para ele e para a festa dos toiros não se adivinham melhores dias. Nada melhor, por agora, que o termos entre nós a trabalhar como só ele sabe, com a paixão que só ele domina e sabe conduzir.

Há um valor humano e uma qualidade estética nas fotografias de Henrique de Carvalho Dias que nenhum jornalista, por mais experimentado e culto que seja, consegue explicar por palavras.

Para mim o Henrique de Carvalho Dias é um ícone dos fotógrafos taurinos.

Longa vida ao Henrique e, já agora, desejos de melhor sorte com os amigos, onde me incluo, onde nos incluímos, para que a sua Obra nunca seja esquecida e possa ser valorizada como merece.

Citando uma frase do trabalho do multifacetado artista, político e fundamentalmente agitador cultural que foi Paulo Cunha e Silva, "o futuro começa agora ou não começará nunca".


NOTA

Um elemento da organização e gestão da "Celestino Graça", cinco minutos depois da leitura do texto, aproveitando um momento a sós, ameaçou o autor com palavras impróprias para reproduzir aqui com o argumento de que o texto é provocador e ofensivo; com os dentes serrados e a cuspir impropérios só faltou usar comigo um ferro daqueles que os toureiros usam nas suas lides. Fica o registo para memória futura. 

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Fruta com pesticidas perigosos não preocupam a ministra da Agricultura

Em Maio deste ano um estudo de uma organização internacional anunciou que a Europa, e Portugal em especial, continuam a aumentar a utilização de pesticidas perigosos nos pomares, nomeadamente de pêras, maçãs, cerejas e pêssegos. A ministra da Agricultura disse que era tudo uma grande surpresa e que desmontava a trama em poucos dias. Foi até hoje.


Andamos todos a comer fruta com pesticidas proibidos, ou que deviam ser proibidos, mas entretanto a Feira Nacional de Agricultura dá-nos exactamente aquilo que nos dá a Festa da Ascensão na Chamusca: música e touradas para esquecermos que vivemos à sombra de dirigentes políticos e associativos especialistas em beijinhos na boca e toma lá que já almoçaste.

Não me resigno. Apesar das associações de produtores criticarem a comunicação social por dar mais importância aos estudos internacionais que ao esforço dos agricultores que abastecem o mercado de fruta portuguesa, estou do lado da comida saudável.

Um estudo apresentado recentemente pela rede de organizações não governamentais PAN Europa, diz, claramente, que andamos a comer pêras, maçãs, pêssegos e cerejas com pesticidas que já não deviam ser usados na Europa e que em vez de o seu uso ter diminuído ainda aumentou nos últimos nove anos. Com base na análise de mais de 97 mil amostras de fruta fresca cultivada na Europa, e em dados oficiais dos 27 Estados-membros, o estudo – “Forbidden Fruit” – revela que, em 2019, cerca de um terço da fruta continuava a revelar resíduos de pelo menos um dos 32 piores químicos ainda autorizados na União Europeia, que estudos científicos apontam como sendo desreguladores endócrinos, substâncias persistentes, bioacumuláveis e tóxicas, associados a problemas de fertilidade ou cancerígenos. Entre estes constam o fungicida “Ziram” (associado a disrupções endócrinas); o insecticida “Pirimicarb” (suspeito de efeitos carcinogénicos), o fungicida “Metconazole” (potenciais efeitos no sistema reprodutor humano). A PAN Europa quer que sejam banidos do mercado rapidamente e para isso está agora a iniciar uma nova campanha contra os produtos perigosos na agricultura.

O estudo da PAN Europa está em quase toda a imprensa portuguesa. As más notícias vêm acompanhadas da recordação de um programa denominado “Do Prado ao Prato” que faz parte de um Pacto Ecológico Europeu de reduzir em 50%, até 2030, o uso de pesticidas na agricultura. Ao contrário do que era esperado várias substâncias químicas usadas em pesticidas, herbicidas, insecticidas e fungicidas, que já deveriam ter sido substituídas, continuam a ser usadas na fruta e vegetais que consumimos diariamente.

O que podemos concluir deste estudo é que o risco de comermos fruta contaminada com pesticidas aumentou dramaticamente, o que contraria tudo aquilo que esperávamos dos produtores e das autoridades que têm obrigação de vigiar a utilização de produtos perigosos na agricultura. 

Uma nota final e um aviso que deixo para eu próprio também não me esquecer: não comer fruta com casca e recorrer cada vez mais à produção biológica.


PS. A ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, foi confrontada pela agência Lusa a 25 de Maio, em Bruxelas, onde se encontrava numa reunião de ministros da agricultura, e a sua resposta foi peremptória; não conheço nem acredito nesse estudo. Quando chegar a Portugal vou esclarecer tudo. Foi até hoje. A imprensa nunca mais falou no assunto e a ministra Antunes finge que o estudo nunca existiu nem voltará a ser notícia até saltar para outro qualquer lugar de (i)responsabilidade governativa. 

JAE.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Jornalistas dormem embrulhados em lençóis de papel

Embora escreva às três da matina, e tenha que me levantar bem cedo, ainda vou fumar um cigarro ao quintal para ficar meio bêbado e depois cair na cama com a sensação de que me vou embrulhar em lençóis de papel de jornal.

Não sinto qualquer pressão para alimentar esta coluna semanalmente. Poucas vezes sofri para escrever o texto da praxe. Nem me sinto obrigado a falar de assuntos de proximidade embora seja cauteloso a falar de assuntos pessoais que não sejam a partilha de livros e filmes ou assuntos banais que muitas vezes só servem para encher chouriços. Não me considero obrigado a escrever todas as semanas e também não me sinto figura pública, embora tenha que dar a cara por causas públicas que, isso sim, me impele a escrever quando sinto que mais ninguém o fará por mim ou com a visibilidade que posso dar aos assuntos. É por isso que não conto aqui a aventura recente que me levou a comprar uma caravana vintage, que tardei em comprar e que não evitou que me metesse numa camisa de sete varas; o caso é para rir, embora eu ainda acredite que me vou tornar a médio prazo num autocaravanista de referência.

Enquanto escrevo este texto, trabalhando em três documentos do Word sobre assuntos diversos, dou notas a um jornalista sobre a assembleia-geral da Nersant onde participei ao final da tarde e de onde saí com a sensação que devia emigrar o mais rápido possível. 

Acabei de editar dois artigos de opinião de dois colaboradores regulares da edição online. Em breve vamos publicar um verdadeiro folhetim que vai dar brado a nível nacional e internacional graças à colaboração e ao empenho de um ex-deputado que vai contar a sua história recente nos inquéritos parlamentares que fizeram história e vão ficar para a História. Ajudei a direcção editorial a escolher as duas dezenas de textos que esta semana ficam de fora devido ao fluxo de publicidade e de artigos de economia que enchem mais de metade da edição. Não precisamos de pavilhões na Feira do Ribatejo para vivermos a festa e trabalharmos editorialmente e comercialmente como mais ninguém jamais conseguiu trabalhar com os empresários do sector.

Estamos com um sector comercial reforçado. Vamos mudar de chefias a nível editorial e estamos a contratar jornalistas. Vamos continuar a apostar na edição de outras publicações dirigidas a um público de proximidade.

Mais de metade dos nossos assuntos de sociedade chegam pelo telefone e são de leitores que confiam no nosso trabalho de serviço público. Os números de leitores online continuam a aumentar como se pode confirmar no texto ao lado desta coluna. Em termos de assinaturas da edição em papel estamos a ser mais cautelosos mas depois da crise eis que começamos a aproximarmo-nos das tiragens de outros tempos. Para acabar: não frequento festas nem aceito convites para casamentos. Mas a verdade é que desta vez vou mesmo estrear um fato para ajudar a apadrinhar um casamento de dois jornalistas da equipa editorial. Com a minha idade é mais que certo que será o último. Embora escreva às três da matina, e tenha que me levantar bem cedo, ainda vou fumar um cigarro ao quintal para ficar meio bêbado e depois cair na cama com a sensação de que vou gostar de me embrulhar em lençóis de papel de jornal. JAE. 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

The Economist e Financial Times andam a gritar pelo socialismo

Ousemos pensar, ler, criticar e escrever, num tempo em que não há treino possível para prepararmos os nossos filhos para o futuro.


No último fim-de-semana fui fazer uma caminhada que julgava de oito quilómetros. No final soube que tinha andado mais do dobro. Andei metade do tempo a subir e a descer arribas e, no final, regressei ao ponto de partida pelo vasto areal de uma praia em hora de maré baixa. Pelo caminho fiz algumas fotos e abri o sítio de O MIRANTE para saber as últimas notícias. Enquanto aprendia a dar nome a plantas que me habituei a ver na paisagem percebi o que vale andar e viver informado. Embora desligado do mundo, aproveitei o tempo em que me isolei do grupo para actualizar a agenda, apagando mais de metade dos assuntos, alguns cumpridos outros adiados para a eternidade.


Há quem defenda que o planeta Terra está numa fase adiantada da sexta extinção em massa. Durante o século XX foram extintos cerca de 600 animais vertebrados terrestres e de 1970 até hoje as populações de espécies de vertebrados diminuíram em média 68%. O maior evento de extinção ocorreu há cerca de 250 milhões de anos e dizimou 96% da vida marinha e 70% da terrestre. O último terá sido o da extinção dos dinossauros e ter-se-á devido a uma actividade vulcânica sem precedentes que dizimou mais de 80% das espécies.

Enquanto escrevo sobre dados históricos que estão nos motores de busca da internet, revejo de uma pasta do meu telemóvel os apontamentos que ainda sobrevivem do que fui ouvir da boca de alguns pensadores da actualidade, entre os quais se encontrava a cientista Maria do Carmo Fonseca, a professora Maria Inácia Rezola e o agora ministro da Economia António Costa e Silva. O pretexto foi o lançamento de um livro de Eduardo Paz Ferreira.

“Não há treino possível para prepararmos os nossos filhos para o futuro. O que temos pela frente é muito difícil de imaginar. O que vai mudar as nossas vidas é a tecnologia, não é a ciência. Quanto mais o tempo passa mais aumenta o cinismo. O The Economist e o Financial Times, só para citar dois jornais de grande opinião, lidos em todo o mundo, andam a gritar pelo socialismo. É importante resgatar o discurso de outros tempos; Hoje, quem diz que tem colaboradores está a dizer que tem despedimentos pela frente a curto prazo. Há uma terraplanagem social em curso na maior parte dos países do mundo. A segurança da vida deve ser a grande preocupação da classe política. A saúde para todos é uma falácia. A Europa é uma grande organização, mas fica claro para todos que as políticas não resolvem os nossos problemas e muito menos as políticas económicas. 70% das pessoas em todo o mundo dizem que querem um mundo diferente daquele em que vivemos e defendem que as pessoas deveriam estar no centro das grandes decisões. Ousemos pensar, ler, criticar e escrever”.


O editor da secção de tecnologia do “El País” dá-me de borla um resumo do que escreveu e pesquisou sobre as actividades dos hackeres  nestes últimos tempos e penso no que aconteceu a O MIRANTE: há cinco meses que não temos acesso aos nossos arquivos e trabalhamos em cima de um sítio provisório. Mesmo assim os números de leitores crescem todos os dias. É claro e evidente que os leitores querem notícias frescas e bem escritas; aparentemente o que foi notícia já não faz farinha.


Uma caminhada de 16 quilómetros, a preencher uma longa manhã de domingo, pode fazer mais pela saúde mental que umas férias grandes, desde que o corpo ainda responda às exigências do espírito. Não há matarruano que seja capaz de nos tirar do sério. JAE.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

A vida a cortar mato, Stefan Sweig, Manuel Emídio e Jean Jacques Annaud

Numa altura em que parece já ter começado a Terceira Guerra Mundial, e os dirigentes políticos continuam a comportar-se como artistas de circo, ler Stefan Sweig é obrigatório para nos confortarmos e aceitarmos a dura realidade.

A revista do jornal "Expresso" publicou recentemente uma entrevista de mão cheia com Jean Jacques Annaud, realizador de filmes como “Sete Anos no Tibete”,” O Amante”, “O Nome da Rosa e “O Urso”, entre outros. Levei a revista em viagem até Atenas. Numa manhã de preguiça fiquei a pôr a leitura em dia. Quando saí do hotel ia cheio de ideias e a rir-me sozinho como os tontos. Tresli duas frases fortes da entrevista, ou seja, li aquilo que me interessava em duas respostas do cineasta entrevistado à distância pela jornalista Cristina Margato.

Quando saí à rua ia literalmente com vontade de trabalhar. Como não podia trabalhar na minha actual profissão, fui para uma outra bem mais antiga: andei a ver preços e condições de exportação de jóias com design bisantino. Saí de uma entrevista sobre a vida de um artista e intelectual refinado para um mundo de artistas do negócio. O meu inglês é fraquinho mas no mundo dos negócios falam-se todas as línguas. Acho que só quis passar tempo. Já tenho idade para dormir mais vezes à beira da praia. Mas esta energia que recebo de uma peça editorial é para mim o segredo da vida.

Lembro-me de ter cinco anos e o meu avô Manuel Emídio me levar em cima do burro para o meio da charneca onde passava o dia a cortar mato recebendo à paveia (ia com ele ao escritório da casa Amaral Netto receber o dinheiro da semana e admirava-me como confiavam nele, e no número de paveias que ele apresentava escritos num papel pardo). O que me marcava mais era eu ir montado no burro e ele a coxear ao lado do animal.  Se não fosse eu, o burro só servia para levar o seirão com a comida, a gadanha, o machado e o serrote (quase sempre também o ferro de apanhar raposas que o meu avô armava bem longe do local de trabalho e que, ao final do dia, no regresso a casa, podia ser a cereja em cima do bolo). A verdade é que do alto dos meus cinco ou seis anos sentia-me culpado por ir montado e o meu avô a pé. Lembro-me de pensar, ou então inventei ao longo dos anos de tanto reconstruir algumas memórias, que o burro tinha uma pelagem clara o que lhe dava, para mim, o estatuto de cavalo.


Em Atenas viajei perto da praia num Porche 911. Há 20 anos queria comprar um carro destes. Nunca comprei nem vou comprar. Mas guardei dessa ilusão um conhecimento que me serve para a vida. Conheci e soube de dezenas de pessoas que têm um Porche na garagem e não saem para a estrada com ele. Não conheço melhor exemplo das heranças do regime em que a maioria dos homens da minha idade nasceu: morrem de vergonha e desgosto de terem chegado a uma idade em que já perderam a vontade e a energia para gozar o prazer de viajar e vadiar. As razões são mais que muitas e, na maioria dos casos, é o trabalho que continua a mil à hora, sem tempo sequer para gozarem os favores do dinheiro que ganharam.

 

O Bernardo enviou-me mensagem a avisar que há novo documentário sobre Henry Miller na Netflix. Já vi, respondi-lhe, embora ultimamente tenha trocado o lixo da Netflix pelos filmes e documentários da Filmin. Para quem cresceu a ler “Sexus” “Plexus” e “Nexus”, entre muitos outros títulos, como o “Colosso de Marroussi”, que é a viagem pela Grécia que eu nunca vou conseguir fazer, qualquer documentário sobre Henry Miller só pode ser bom, embora para a juventude de hoje alguns livros já estejam datados.

Nunca soube quantos títulos é que o Bernardo leu do escritor americano que, na altura, teve os seus livros proibidos nos EUA. Que consegui meter-lhe o vício no corpo, disso não tenho dúvidas. 

O recado é pretexto para deixar aqui a alegria que é ler e reler Stefan Zweig, o homem e o intectual que melhor nos conta o que foi a Europa e o mundo antes e depois das duas guerras mundiais. A terceira já começou e ninguém parece interessado em saber o que é viver em guerra e o que é que vai acontecer às nossas vidas e às dos nossos filhos. Depois de reler a sua autobiografia estou a acabar a biografia da autoria de Dominique Bonna que se lê como um romance. JAE.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

O aumento do preço do ouro e a regionalização

Numa altura em que se fala na realização de um novo referendo para a regionalização confirma-se que o processo de descentralização de muitos serviços para as autarquias está a ser um falhanço.

O processo sobre o Cartel da banca em que estão envolvidos onze das maiores entidades bancárias a operar em Portugal pode prescrever. O julgamento está suspenso depois do tribunal da Concorrência, em Santarém, ter dado os factos como provados. As coimas ascendem a mais de 220 milhões de euros.

Na passada semana reuniram-se cerca de três dezenas de especialistas em Floresta e ordenamento do território. A conversa foi proveitosa, mas as soluções que têm de ser implementadas no terreno demoram muitos anos, mesmo que comecem já amanhã. O Governo anuncia que vai começar uma política de arrendamento forçado a quem não cuida das suas propriedades, mas da ameaça até à concretização muita floresta ainda vai arder; pior que isso; a fileira florestal diminui a um ritmo nunca visto e os preços da matéria-prima aumentaram mais de cinquenta por cento nos últimos anos. Entretanto os terrenos ao abandono, resultado dos últimos grandes fogos, aguardam políticas concretas do Governo.

O preço do ouro em barra subiu para os 56 euros o grama; sempre que a economia treme o ouro é o grande refúgio dos investidores. Como o mundo não pára, e os países que fabricam armas de guerra não são empresários inocentes, começa a ser normal encontrar nos jornais e nas televisões notícias do género: “Bitcoin é melhor investimento do que o ouro”. A maioria de nós não sabe o que é uma Bitcoin mas o mundo novo está aí para nos virar de cabeça para baixo e ensinar a andar com a testa no chão.

José Sócrates pode refazer a sua vida no Brasil se Lula da Silva ganhar as eleições; Quem sabe acaba por lá também a sua licenciatura em engenharia; todos os bancários que durante anos andaram a enganar os clientes do BES, por ordem de Ricardo Salgado, certamente que dormem tranquilos e têm sonhos azuis. A TAP não vai ser vendida sem o Governo largar mais uns biliões de euros, e Portugal vai continuar a ter os combustíveis mais caros da Europa, os impostos mais pesados, a Justiça mais lenta do mundo se não contarmos com a Venezuela, o Brasil e os países de partido único.


Numa altura em que se fala, quase com toda a certeza, na realização de um novo referendo para a regionalização, confirma-se que o processo de descentralização de muitos serviços para as autarquias está a ser um falhanço. Uma Nação onde os governantes do país não se entendem, regra geral, com os governantes das câmaras municipais, vai ser regionalizado para que efeito e com que intenções? Vamos todos finalmente cuidar das margens do Tejo e do assoreamento do rio, contratar Guarda-Rios e fiscalização para o uso abusivo de químicos e o excesso de consumo da água na agricultura e o combate ao Siluro? Será que quem não é capaz de governar um rio em conjunto é capaz de governar, em equipa, os interesses de uma região? Olhando à volta, vendo como se governa em muitas autarquias, tenho dúvidas, e não ponho as mãos no fogo conhecendo, como conheço, alguns dos autarcas mais preguiçosos das novas gerações. JAE.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

A Ucrânia aqui tão perto e o Tejo visto das Portas do Sol

António Costa boicotou o desvio do caminho de ferro das barreiras de Santarém; Guterres foi recebido em Moscovo como um dirigente do futebol; e a polaca Esmeralda vive no Algarve há 20 anos e nunca visitou Lisboa.

Conheci Esmeralda no Algarve na piscina do hotel. É polaca e vive há 20 anos em Portugal. Fala muito mal o português e nunca visitou Lisboa; nem tem muita curiosidade. Trabalhou nos barcos de cruzeiro, onde o marido ainda trabalha, sem férias e dias de descanso, até que ficou em casa a cuidar das filhas. Todos os dias fala duas vezes com a mãe, que vive na Polónia. Quis saber como é que o seu povo aceita a “invasão” de ucranianos que fogem da guerra. A resposta não se fez esperar; “agora a minha mãe não tem médico de família e as televisões mostram em rodapé o nome da Ucrânia em caixa alta e o da Polónia nem se vê”. A conversa começou assim e só não acabou neste registo porque mudei o bico ao prego e perguntei como estava Varsóvia, em que hotel devo ficar depois da guerra acabar, onde ficam as livrarias mais interessantes, etc. No dia em que escrevo esta crónica temos encontro marcado ao fim da tarde na praia, no bar do João, onde ela promete aparecer com meia dúzia de amigas que também vivem no Algarve há muitos anos. E eu que sou um pinguim a falar inglês.


António Guterres é um homem sério e cheio de boas intenções. Por isso chegou a Secretário-Geral das Nações Unidas e já foi reconduzido no cargo. Putin invadiu a Ucrânia e está a fazer daquele território de 40 milhões de pessoas uma verdadeira ruína. António Guterres foi a casa dele pedir paz e o fim da chacina da população. Foi recebido como o presidente de uma associação de clubes de futebol. Aquela mesa onde foram filmados é a cara de todos os dirigentes mundiais que pensem desafiar Putin. António Guterres é boa pessoa e um homem sério, mas a política precisa de líderes fortes, que não se limitem a trabalhar para a fotografia. Foi o caso. Ou muito me engano ou estamos nas mãos do Diabo.


Por muito que nos custe reconhecer não há cidadania activa na maior parte do território português. Há excepções em Lisboa e no Porto. É pouco para um país cheio de recursos naturais com uma população que desde há muitos anos começou a migrar para o litoral.

O segundo Governo de António Costa acabou com o sonho de Santarém poder vir a ter na próxima década uma ligação ao rio Tejo, como já deveria ter há pelo menos meio século. É incrível a desfaçatez dos políticos que falam, falam do rio como o símbolo maior da região e depois não constroem um cais para prender um barco, não se candidatam a fundos comunitários para terem de borla uma piscina no meio do rio, não têm uma escada rolante ou um simples elevador que facilite o acesso a pé da cidade até ao rio. Todo o viajante que passa pelas principais cidades de Itália e França, só para citar as minhas preferidas, sabe do que falo. Se os autarcas de Santarém não morrem de amores por António Costa não pode ser por ele ter inviabilizado o desvio da linha de caminho-de-ferro. Estava escrito nas estrelas que ia ser assim logo que o PS perdeu a câmara. Não percebo é por que temos que depender de António Costa e dos seus ministros para fazermos o que nos compete e é nossa obrigação. JAE.