quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Estamos entregues a gente má e analfabeta

Há pessoas com doenças cancerosas que não conseguem receitas para aviar os medicamentos que lhes fazem falta para terem uma vida digna e justa. As receitas electrónicas são desconhecidas na maior parte dos centros de saúde; os doentes são obrigados a permanecerem dias inteiros para conseguirem uma receita que podiam receber em casa no telemóvel.


A crônica desta semana é azeda mas eu não tenho culpa. Esta semana publicamos mais um texto sobre a falta de médicos, neste caso no concelho da Chamusca. A posição do presidente da câmara local sobre este problema é uma vergonha, própria de um sujeito que não sabe quem é que lhe fez as orelhas. Sou da terra e converso com muita gente que acha que ainda tem que se curvar perante a importância dos médicos, dos presidentes e dos generais que comandam os interesses instalados, seja nas autarquias, nos Centro de Saúde e por aí fora. Não temos. Vivemos uma época em que os poderes e os seus protagonistas têm que dar conta do serviço público que prestam. Infelizmente a Chamusca é um caso triste de subserviência de uma parte  da sua população a um executivo de políticos abalfabetos, bem na vida, mas que fazem a vida negra aos outros.


Há pessoas com doenças cancerosas que não conseguem receitas para aviar os medicamentos que lhes fazem falta para terem um fim de vida digno e justo. Há bem pouco tempo ouvi de viva voz uma vizinha a contar que por causa da falta dos medicamentos teve que ser assistida no hospital de Santarém onde esteve três dias internada para recuperar. A história é longa e não tem sentido contá-la aqui. O que quero denunciar são estes sacanas dos políticos e dos médicos que sabem que o problema desta gente se resolve com uma receita eletrónica mas não fazem nada para agilizarem os serviços de forma a minorar o sofrimento das pessoas e não as obrigarem a sofrer como cães.

Qualquer serviço de saúde bem organizado consegue dos médicos as receitas que são precisas para as pessoas incapacitadas, cancerosas ou com outras doenças crônicas, ou até que não têm como se deslocarem ao Centro de Saúde. A Câmara Municipal tem dezenas de funcionários que não fazem um corno durante um dia de trabalho. A autarquia, em situação limite como é agora o caso, podia ter um serviço de apoio à sua população, e o presidente da câmara tem que ter capacidade para falar com os responsáveis da saúde para implementarem um serviço de receitas que é comum até em países do terceiro mundo.


Sei que estou a bater no ceguinho; sei que para alguns daqueles que me lêem estou a ser injusto com os rapazolas da política que gerem a autarquia da Chamusca. Mas que se lixe. Tenho idade para dizer o que me vai na alma e estatuto para levar umas ripadas se com isso ajudar aqueles que não têm quem lhes acuda.


Nesta edição damos conta de uma situação que só prova que não podemos dar confiança aos políticos preguiçosos e irresponsáveis. Em julho passado registaram-se em Portugal 1716 mortes em excesso relativamente às últimas décadas e os especialistas alertam para os efeitos socioeconómicos sobretudo entre idosos. A mortalidade em 2022 está a ser comparada à de 1923, a seguir ao surto da gripe espanhola. Especialistas ouvidos pelo jornal Expresso não têm dúvidas que as mortes se devem a razões sócio económicas e falta de cuidados médicos. JAE.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

A chegada da Mercadona e o burburinho que causou em Santarém

A chegada da Mercadona a Santarém obrigou algumas das maiores superfícies comerciais, já instaladas na cidade, a realizar obras e grandes campanhas de desconto, que só favorecem o consumidor.

A chegada da Mercadona a Santarém criou uma pequena revolução no comércio local que merece reflexão. Como todos sabemos, algumas das grandes superfícies instalaram-se em Santarém de uma forma pornográfica, algumas delas quase ocupando a estrada nacional e anunciando a sua presença com publicidade às marcas de uma forma que é um atentado à paisagem, numa cidade que tem orgulho dos seus pergaminhos históricos. Não falo em nomes, pois, cada um que tire as suas conclusões. O que acho digno de notícia, esquecendo por agora os autarcas idiotas que permitiram tal desgoverno na construção desses edifícios, foram as obras que decorreram nos últimos tempos em algumas empresas concorrentes da Mercadona, assim como as campanhas de desconto que começaram, e ainda decorrem, nas maiores superfícies, como a quererem fixar os seus clientes numa estratégia comercial que só beneficia os consumidores.

A ideia de que negócio gera negócio fica provado com o investimento em obras e em descontos ao consumidor que a chegada da Mercadona veio provocar na concorrência. Não sei, nem perguntei, se as obras de renovação dos espaços pagaram licenças como pagam os pobres cidadãos comuns; não sei nem perguntei se o tempo de espera das licenças para as grandes empresas, que representam as grandes marcas foi o mesmo que costuma ser para os munícipes e os pequenos lojistas. Dou de barato essas questões por agora pois o que nos interessa destacar é a chegada a Almeirim e a Santarém de mais uma grande empresa que vem para acrescentar valor e chegou com uma postura de colaboração e proximidade que não é normal nos grandes grupos instalados.


Santarém perdeu nas últimas décadas muito do seu pequeno comércio. O centro histórico, que é a alma da cidade se não é tem que voltar a ser precisa do apoio financeiro que a autarquia tem que cobrar às grandes superfícies que se instalam à beira da estrada. Mais ainda: as grandes superfícies que pintam as suas paredes com as cores e os símbolos das suas marcas deviam pagar taxas de publicidade milionárias de acordo com a poluição visual que causam, já que os estragos na paisagem não têm preço nem podem ser só avaliados em euros. JAE.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Em defesa da política e dos políticos de Mação

A carta anónima que circula em Mação sujando o nome de Vasco Estrela e António Louro, dois autarcas de peso da região, é uma afronta que merece a solidariedade de quem vive e trabalha no território.

 

Em tempo de guerra não se limpam as espingardas. O ditado não se ajusta aos tempos de hoje porque estamos verdadeiramente em tempo de guerra mas as espingardas já são de outro tempo; agora as armas mais banais de destruição e morte são os mísseis. O que virá a seguir ninguém arrisca dizer, ou escrever, mas o comportamento dos líderes políticos europeus deixa muito a desejar para não temermos o pior. 

A forma como os países mais ricos da Europa estão dependentes da Rússia é uma situação que envergonha os nossos líderes políticos e faz tremer a nossa convicção europeísta, embora não abale os nossos propósitos de luta. A outro nível, mas igualmente um retrato desta Europa a várias velocidades, escrevo esta semana sobre o que se passa em Mação onde os autarcas estão a ser vítimas daquilo a que se deve chamar, com todas as letras, uma filha da putice; alguém enraivecido, chateado, eventualmente ressabiado com alguma questão pessoal com um dos dois autarcas mais conhecidos de Mação, resolveu espalhar um documento anónimo, que inclui as fotos dos políticos, molestando a honra e a dignidade de quem trabalha e desempenha um serviço público, embora remunerado, o que não lhe retira valor. Sabendo que o que está em causa é a o ordenamento do território, e Mação é, porventura, o território do país mais castigado pelos fogos, apetece dizer que vozes de burro não chegam ao céu; e antes mais um terrorista a escrever e a distribuir cartas anónimas do que um incendiário a tentar queimar a floresta que ainda resta no concelho de Mação e territórios vizinhos.

Faço da carta anónima amplamente copiada e divulgada assunto de crónica porque reconheço na grande maioria dos autarcas um trabalho hercúleo para cumprirem a sua missão e ainda terem vida pessoal e familiar. Nunca tive jeito para a política e não me vejo a exercer qualquer cargo simplesmente porque não tenho vocação e seria incapaz de cumprir as exigências que um cargo de dirigente político me obrigaria. Sei reconhecer nos dois autarcas de Mação competência e sentido de missão que enobrece a classe política, mas acima de tudo o trabalho que desenvolvem no concelho mais "negro" do país, onde ardeu nos últimos anos mais de 95% do território de floresta. Se tivermos em conta que o concelho tinha um plano inovador de combate a incêndios, que foi considerado exemplar na altura em que foi implementado, está tudo dito sobre as estratégias adoptadas em Portugal para o combate aos incêndios. Isso mesmo pode ser lido nesta edição, numa entrevista ao vice-presidente da câmara, que foi publicado em 25 de Junho de 2020 em O MIRANTE e que republicamos nesta edição na mesma página onde damos publicidade ao terrorista que resolveu incendiar os ânimos locais com a distribuição da carta anónima.

Se há autarcas que exercem o poder pelo poder, desprovido de qualquer objectivo concreto, sem a intenção de cumprirem um ideal político e prestarem um bom serviço à comunidade, esses não são certamente os dois experientes autarcas de Mação que têm trabalho feito e provas dadas. Não sou amigo de nenhum nem tenho com qualquer um deles uma relação próxima ou de proximidade; no entanto sei e vejo o suficiente para os defender desta amargura que estão a viver por serem líderes de uma comunidade que servem com a melhor da suas energias e competências. 

Acabo voltando à guerra que ainda nos vai deixar descalços; o facto de vermos a China e a India, os dois países mais populosos do mundo, a larga distância de todos os outros, a substituírem os países europeus como clientes do gás russo, era um bom pretexto para que os líderes europeus dessem a mão à palmatória e arrepiassem caminho nesta Europa governada à deriva. Infelizmente o que vemos é exactamente o contrário. Em Paris, como em Mação, podemos viver num território literalmente arrasado pelo fogo e quase sem valor comercial, ou num outro onde uma casa de habitação com 25 metros quadrados pode custar meio milhão de euros. JAE.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

O meu herói é o presidente da ANACOM

O trabalho que João Cadete de Matos tem dado aos donos das operadoras de comunicações é digno de registo e não tem paralelo noutras instituições do Estado que fazem o escrutínio das empresas que têm a obrigação de tratar os contribuintes com justiça e equidade. 

Um homem quando chega a velho fica mais sensível à coragem daqueles que enfrentam os interesses instalados de peito aberto sem medo de represálias. O que diferencia os homens uns dos outros pela positiva é exactamente a coragem de tomar decisões e de não dormirem na forma em nome dos interesses daqueles que não têm como defender-se da sociedade capitalista que domina o sistema, dos políticos preguiçosos, analfabetos, muitas vezes trouxas e corruptos.

O trabalho que João Cadete de Matos tem dado aos donos das operadoras de comunicações é digno de registo e não tem paralelo, que eu saiba, noutras instituições do Estado que fazem o escrutínio das empresas que têm a obrigação de tratar os contribuintes com justiça e equidade. Como consumidor de telecomunicações sei bem os abusos de que sou vítima cada vez que tenho de fazer uma assinatura de um serviço ou preciso de alterar as condições do meu contrato. Cada vez que preciso de apoio sei bem as dificuldades que tenho de ultrapassar até as operadoras cumprirem a sua obrigação.

As pressões políticas e empresariais que João Cadete de Matos sofre desde que resolveu enfrentar os interesses instalados das empresas de comunicações está bem patente nos estudos agora divulgados que mostram um país com várias realidades ao nível da prestação de serviços. Desde que a guerra começou que os presidentes das empresas líderes de mercado deram entrevistas atrás de entrevistas, clamaram pela demissão de Cadete de Matos, argumentaram até à exaustão que Portugal era um país da cauda da Europa e que com este tipo de escrutínio do Regulador o país ia ficar pelo caminho ao nível das comunicações dos novos tempos.

Com o apoio do Governo, nomeadamente do primeiro-ministro António Costa, João Cadete de Matos tem-se mantido firme e sereno ao leme da ANACOM e, com o passar do tempo, tudo indica que vai conseguir os seus objectivos: fazer com que os clientes das operadoras, que somos todos nós, não voltemos a ser vítimas de abuso comercial, do controle de mercado, dos preços combinados entre operadoras. Mais importante que tudo, João Cadete de Matos está a contribuir para que os portugueses do Sardoal ou de Abrantes, de Coruche ou da Sertã, não sejam de segunda em comparação com aqueles que vivem em Lisboa ou na Linha de Sintra.

Até há bem pouco tempo os reguladores da banca governavam o Sistema recebendo e acreditando naquilo que os banqueiros lhes transmitiam. Foi por isso que José Sócrates nacionalizou o BPN, com as consequências que todos conhecemos, e mais tarde o BES se tornou aquilo que todos conhecemos: o maior escândalo financeiro do século que envolveu a nata política e financeira do país.

Portugal precisa de mais administradores da coisa pública com a fibra de um Cadete de Matos. Para mim é um herói. Num país em que os deputados da Nação têm vários empregos, são donos em nome das mulheres e dos filhos de empresas que fazem negócios com o Estado e com as autarquias, João Cadete de Matos é um nome que todos devemos conhecer e respeitar. JAE.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

O êxito popular da festa do Colete Encarnado

Vila Franca de Xira organiza a festa maior do Colete Encarnado que este ano teve uma das maiores participações populares de sempre.


A cidade de Vila Franca de Xira viveu nos últimos dias a festa do Colete Encarnado com uma participação popular que ultrapassou todas as previsões. A cidade foi roubada aos carros e as ruas encheram-se de gente criando uma verdadeira multidão que, em algumas ruas, chegou a parecer exagerada para a dimensão do espaço. Quem viveu a festa mais de perto, e todos os dias, diz que nunca tinha visto tanta gente nas ruas.

O Colete Encarnado é certamente a maior festa do país com os toiros na rua. Com ou sem anti-taurinos o Colete Encarnado será sempre uma festa do povo e para o povo independentemente de quem estiver no Governo, na oposição ao Governo ou no exercício de uma militância política ou cidadã contra as touradas que, verdade seja dita e escrita, já conheceu melhores dias. Nenhum político, por mais influente que seja a nível nacional, vai conseguir acabar com a festa dos toiros se os líderes autárquicos continuarem a organizar as festas populares recorrendo à festa brava e às suas melhores tradições. É assim de uma forma incomum em Vila Franca de Xira mas também em Azambuja, Benavente e Chamusca, só para citar os casos mais emblemáticos e participados pela população.

Mas a realidade da festa dos toiros na rua não é a mesma da festa dos toiros nas praças. Esta semana a cavaleira Ana Rita, natural de Vila Franca de Xira e criada em Aveiras de Cima, de 33 anos de idade, deu uma entrevista à revista Flash onde aponta o dedo aos empresários e diz que em Portugal há colegas de profissão que pagam para tourear e ainda escolhem os toiros. A cavaleira arrasa os empresários e reconhece que se não fossem as corridas em Espanha já tinha desistido da sua profissão.

Recentemente, num espectáculo na Benedita, a directora de corrida fechou os olhos a um grupo de forcados que pegou um toiro com cerca de 14 forcados dentro da praça quando a regra são apenas oito. Em algumas praças do país, como na Chamusca, segundo consta, porque a câmara municipal não divulga as suas despesas com a festa, a câmara paga a corrida e as despesas da corrida de forma integral e o empresário limita-se a organizar como se vivêssemos no reino da Dinamarca.

Em Santarém, onde existe a maior praça do país, o taurodromo só é utilizado duas vezes por ano. O Provedor da Misericórdia, Hermínio Martinho, já disse publicamente que aquele espaço tem de ser rentabilizado e que vai anunciar medidas a curto prazo. Esperemos que não fique pelas palavras e que a praça de Santarém seja um espaço multiusos e não apenas um espaço para tourear; a cidade bem merece. Finalmente: já este ano, em Abril, o cavaleiro Luís Rouxinol abandonou a praça de Serpa horas antes da corrida por não concordar com a forma como o empresário da praça fez a gestão do sorteio das toiros que cada artista ia tourear.  

Volto ao Colete Encarnado: Vila Franca de Xira é um exemplo para todas as cidades taurinas: não só pelo público que consegue mobilizar como pela forma como respeita os toureiros, como mantém viva a festa e as suas tradições, como consegue organizar a cada ano, e sempre com êxito, a festa do Colete Encarnado, que é orgulho das gentes de Vila Franca de Xira e talvez a única festa do concelho que faz esquecer os bairrismos balofos e promovidos por líderes locais que trabalham mais na promoção pessoal que nos interesses das suas terras e das suas gentes. JAE.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Um recado para a ERC e os seus 4 reguladores de serviço

ERC arquiva queixa de António Valadas da Silva, dá razão a O MIRANTE, mas os quatro reguladores citados neste artigo não deixaram de dar um “caldinho” aos jornalistas como se vivêssemos no tempo do “respeitinho é muito bonito” e “toma lá que já almoçaste”.


O Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social emitiu um parecer com 15 páginas em cima de uma queixa do antigo director do IEFP, António Valadas da Silva, que deita por terra qualquer pretensão do dirigente do Estado em condenar O MIRANTE pelo abuso de liberdade de imprensa. Mesmo assim, os quatros membros da ERC pedem aos jornalistas de O MIRANTE que sejam cautelosos no uso de alguns termos. 

O desplante de Sebastião Póvoas, Francisco Azevedo e Silva, João Pedro Figueiredo e Fátima Resende, os quatro membros do conselho regulador da ERC que assinam o documento, são, no mínimo, caricatos já que ao longo das 15 páginas do parecer fica provado aquilo que um juiz do Tribunal de Santarém decidiu em favor de O MIRANTE. Os membros da ERC até podiam citar as declarações da advogada do IEFP durante o julgamento, que denegriram a imagem de uma instituição do Estado, e de uma empresa que confiou na sua direcção e nos seus funcionários; os membros da ERC podiam até analisar o comportamento de um dirigente de um organismo do Estado que fez terrorismo contra a administração de O MIRANTE, valendo-se das prerrogativas de quem trabalha para o Estado e sabe que tem “a faca e o queijo na mão”. A verdade é que o jurista da ERC só se preocupou em tentar descortinar uma falha dos jornalistas de O MIRANTE, escrutinando da qualidade e da oportunidade do nosso trabalho editorial; e não ficaram dúvidas, acompanhadas pela opinião de ilustres constitucionalistas que o jurista da ERC citou ao longo do texto como Jónatas Machado, Gomes Canotilho, Vital Moreira, Costa Andrade entre outros, de que os jornalistas de O MIRANTE cumpriram a sua missão.



Está no texto, claramente, que O MIRANTE foi vítima das funcionárias do IEFP dirigido pelo bonacheirão do António Valadas da Silva, que durante nove anos se recusou a pagar o que devia, o que obrigou a empresa editora de O MIRANTE a recorrer ao tribunal e a chamar como testemunhas dois anteriores presidentes do IEFP. Para os quatro reguladores, os jornalistas têm razão, mas deveriam ser mais moderados nas palavras que escreveram para evitarem o “sensacionalismo”.

Ficam aqui algumas perguntas para os quatro membros da ERC que assinaram este relatório que deve ter custado uma pipa de massa à instituição: e se elaborassem uma lista de termos a que os jornalistas podem recorrer quando um tipo que domina o maior instituto público do país resolve fazer terrorismo de Estado? E se enviassem uma lista de procedimentos a todos os jornalistas que têm obrigação de escrutinar o poder político com termos que condenem claramente os dirigentes que tratem a generalidade dos cidadãos como ovelhas estúpidas? E se fossem dar uma voltinha aos arquivos da PIDE que censuraram durante meio século da mesma forma que agora nos querem censurar os termos usados nos nossos artigos embora sejam no limite da liberdade de Imprensa? Foi para nos meterem medo Senhores Reguladores? Não há jornalistas por mais injustiçados que sejam que não mereçam um caldinho, é isso? JAE 


Nota: os leitores podem encontrar o texto da decisão no sítio de O MIRANTE onde este artigo também vai ser publicado na quinta-feira, dia em que o jornal vai para a banca e para os assinantes.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Um elogio ao poeta João Rui de Sousa

Morreu João Rui de Sousa, um dos poetas mais importantes da poesia portuguesa das últimas gerações, um ensaísta de excepção e um amigo que publicou em O MIRANTE um dos seus melhores livros de poesia, “Obstinação do Corpo”.

Estava em cima de um telhado quando o telefone tocou a anunciar a morte de um amigo, poeta daqueles que nunca usam o termo da boca para fora se não for a falar dos outros. João Rui de Sousa morreu no passado sábado enquanto eu fazia aquilo que ele mais apreciava, que era sujar as mãos de terra e depois lavá-las na água corrente do rio. Era isso que tinha acabado de fazer horas antes de subir ao telhado para fazer as limpezas de Verão nas árvores do vizinho que caem para cima de um dos meus telhados e as folhas entopem os algerozes. 

Quando liguei de volta, uma vez que não é fácil atender um telemóvel ao primeiro toque em cimo de um telhado, tinha uma voz conhecida lá do outro lado a avisar-me que o corpo morto de João Rui de Sousa ia dar entrada no outro dia numa igreja de Lisboa, onde seria velado até ao dia seguinte. Liguei a um dos seus filhos e ele confirmou com uma voz triste e pesarosa.

Desci o telhado e fui escrever uma notícia. O Fábio foi ao arquivo do jornal e encontrou uma foto que não resisti a publicar; João Rui veio ao meu encontro várias vezes a Santarém mas naquele dia estávamos com o Luís de Miranda Rocha e o Pedro da Silveira, o escritor que me deu a oportunidade de conhecer o homem com o pior génio do mundo; no entanto era amigo do João Rui de Sousa, que era a melhor pessoa do mundo e, regra geral, não mostrava o seu mau gênio embora também o tivesse.

Não me lembrava da foto, e no entanto lembro-me de ouvir João Rui de Sousa à beira Tejo, quase por baixo da Ponte D. Luís, a mergulhar as mãos na água corrente dizendo que a poesia muitas vezes está mais nos pequenos gestos do que nos inspirados versos dos poetas.  Não juro que a frase tenha sido exatamente assim: o que sei é que ele me fez um elogio que na altura me encheu a alma. João Rui de Sousa era um poeta premiado, admirado, justamente reconhecido pelos seus pares como um dos maiores e melhores poetas portugueses. O facto de sermos amigos jogava sempre a meu favor. Era eu que aprendia sempre no convívio com ele. João Rui de Sousa era de poucos sorrisos mas era um poeta e um homem que não pedia licença para ser verdadeiro, bom conversador mas de poucas palavras; sempre ia directo ao assunto como só ele sabia, pouco de elogios e muito de abanar a cabeça como quem diz “é isso mesmo”.

Nasci quando ele tinha 27 anos e fundou uma revista literária que lhe havia de dar fama e proveito. Quando nos conhecemos a diferença de idades era menos visível. Editamos em O MIRANTE, em 1996, um dos seus melhores livros e talvez o mais inspirado chamado Obstinação do Corpo. É um livro que entretanto teve continuidade, mas por culpa minha já não foi O MIRANTE que editou. Foi graças a ele que o Pedro da Silveira organizou, também para a colecção de poesia Alma Nova de O MIRANTE, uma antologia do Valadares Gamboa e do Guilherme de Azevedo. Luís de Miranda Rocha era também um amigo dos velhos tempos do “Diário de Lisboa”, onde trabalhou até o jornal fechar. Carrancundo, homem pesado no verdadeiro sentido da palavra, mas um jornalista cultural dos velhos tempos. Nesta foto podia estar também o António Ramos Rosa ou o José do Carmo Francisco que, na altura, também participaram na Alma Nova ou foram testemunhas da partilha e da amizade que a colecção gerou entre muitos de nós. Quanto mais velhos ficamos mais dificuldade temos em fazer amigos; perdê-los, como foi o caso de João Rui de Sousa, é que o custa mais. JAE.