quinta-feira, 16 de maio de 2024

Os políticos a provarem do seu próprio veneno e a queixa arquivada do empresário Joaquim Rosa Tomaz

Em Portugal, os tribunais e o Ministério Público em particular são literalmente boicotados pelos políticos que não lhes dão condições de trabalho nomeadamente pessoal suficiente para o normal funcionalmente das instituições. E não é difícil encontrar na acção governativa acções e intenções que parecem competir com os tempos do anterior regime em que se misturava política e justiça e se fazia pão-de-ló da liberdade dos cidadãos.

Na passada semana a redacção de O MIRANTE recebeu um ofício do Ministério Público a anunciar o arquivamento de uma queixa do empresário de Santarém, Joaquim Rosa Tomaz, que tem com a cidade uma dívida que aparentemente jamais será paga. E não percebemos como é que não há um movimento de defesa do centro histórico da cidade que faça pressão sobre o empresário, e sobre os políticos que o podem entalar, para que haja vergonha, já que a vergonha alheia que alguns de nós sentimos não vale de nada. A carta do Ministério Público a arquivar a queixa do empresário contra os jornalistas de O MIRANTE trouxe uma alegria que é pouco habitual e gerou comentários na equipa que também nem sempre vêm a propósito. Os jornalistas de O MIRANTE não fizeram mais do que levar a carta a Garcia, noticiando o óbvio, o que está à vista de todos e não pode ser negado. A verdade é que levar para tribunal jornais e jornalistas, que se limitam a fazer o seu trabalho, é sempre mais fácil que mudar de mentalidade, aprender a ver o mundo com outros olhos. Um dia destes voltaremos ao assunto nestas páginas porque a cidade de Santarém não merece o desprezo nem a ignorância de pessoas que se servem das suas instituições e depois cospem-lhes em cima ou para cima. Um empresário, aparentemente zangado com a cidade de Santarém, com a sua história e os seus valores,  não quer ser notícia e achou que podia chatear os jornalistas com processos em tribunal. Enganou-se. O Ministério Público já não vai em cantigas, e é cada vez mais difícil calar a voz dos jornalistas porque quantos menos somos mais forças temos.

Em Portugal, os tribunais e o Ministério Público em particular são literalmente boicotados pelos políticos que não lhes dão condições de trabalho nomeadamente pessoal suficiente para o normal funcionamento das instituições. Há tribunais como o de Vila Franca de Xira (VFX) que são uma vergonha em termos de instalações, falta de funcionários à parte. Mas VFX só merece citação porque é uma grande comarca, e faz parte da área de influência de O MIRANTE, e será talvez o mais escandalosamente ignorado e injustiçado pelas promessas dos políticos do Governo da Nação, que muitas vezes parecem querer competir com os tempos do anterior regime em que se misturava política e justiça e se fazia pão-de-ló da liberdade dos cidadãos.

A notícia do arquivamento referido desde o início da crónica vem numa boa altura para deixarmos aqui a nossa opinião sobre o tumulto que vai por aí sobre um manifesto assinado por meia centena de personalidades da vida pública a pedirem ao Governo e ao Presidente da República uma intervenção urgente no sistema judicial, nomeadamente no Ministério Público. O pretexto foi a queda do Governo de António Costa e a intervenção na Madeira que deu em nada e também fez tremer os interesses instalados.

António Costa está há cinco meses à espera de ser “absolvido”. Como o caso demora mais do que os interesses instalados, os influentes do regime reúnem-se à centena num manifesto e pedem justiça para a Justiça. António Costa foi primeiro-ministro durante oito anos, já antes teve experiência governativa como ministro da Justiça, e deixou o sistema judicial à míngua, pior do que o encontrou, com os tribunais sem funcionários e os portugueses nas mãos do diabo porque onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. Se o sistema judicial é tão importante para a democracia, e disso ninguém tem dúvidas, por que é que António Costa permitiu durante o seu reinado que a falta de mão-de-obra impedisse os tribunais de fazerem justiça a tempo e horas? Depois de conhecer o sistema por dentro, quando foi ministro da Justiça, não podia em oito anos de Poder virar a Justiça do avesso e fazer dela um modelo de virtudes, seja lá isso o que for ? Podia. Mas não quis. Preferiu uma Justiça ainda mais pobre, ainda com menos funcionários, ainda mais demorada, ainda mais injusta para quem depende dos melhores tribunais e dos juízes mais sábios. JAE.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

A greve dos vigilantes da natureza e o país das financeiras e da Caixa Geral de Depósitos

A greve dos 150 vigilantes da natureza que nem têm direito a fardamento, o assédio das financeiras que voltam ao ataque, contando com a ajuda dos tribunais, e a Caixa Geral de Depósitos que é o banco campeão das reclamações.


Emprestar dinheiro é o negócio da moda. Queres comprar carro em 60 meses?  É só assinares os papéis da financeira que trabalha com a marca do carro. Os exemplos são muitos e não quero estar aqui a fazer publicidade a produtos. Mas não vou deixar de contar o que acho desta forma de ganhar dinheiro das empresas que facilitam o crédito cada vez mais, com cada vez mais facilidades, sabendo que os tribunais não têm limites para as queixas e que, no fundo, também vivem disso como se a Justiça fosse um negócio como outro qualquer. Os juros das financeiras estão três vezes acima daquilo que os bancos emprestam às empresas. Mas também aqui temos que fazer uma ressalva. Quem tiver dinheiro a prazo e tenha uma vida financeira sem problemas paga metade daquilo que pagam os que não oferecem essas garantias.

O que me leva a escrever esta crónica sobre este tema é vivermos num mundo sem rei nem roque, sem autoridades a sério que sejam reguladoras do mercado, e que não deixem que volte a acontecer o que todos sabemos que aconteceu com o império do BES, em que perdeu o país e perderam os clientes que confiaram nos banqueiros e nos seus homens de mão que jamais serão responsabilizados. Em Portugal não há entidades fiscalizadoras para estas financeiras, cada um faz o que quer e como quer, aproveitando a iliteracia do consumidor. A democracia portuguesa não tem uma autoridade que impeça a chantagem, o assédio e muitas vezes a extorsão.

O Governo está a preparar-se para enfrentar uma greve dos Vigilantes da Natureza, cerca de 150 profissionais a nível nacional que querem o mínimo dos mínimos do Governo como, por exemplo, fardamento e material para poderem trabalhar. Parece anedota mas não é. Os vigilantes da natureza vão fazer greve embora sejam só 150 almas que nem têm direito a antena televisiva porque é como se não existissem, e o Governo de Portugal não saiba que tem a responsabilidade de fiscalizar os crimes ambientais.

Quem é que diz que viver dos envelopes com dinheiro do motorista de serviço é uma coisa anormal na vida de um primeiro-ministro em Portugal? Quem é que acredita que António Costa quer ir para o Parlamento Europeu e quer a Justiça só a trabalhar para ele a velocidade de cruzeiro, depois de ter contratado um chefe de gabinete que foi apanhado com 80 mil euros escondidos nas prateleiras do seu gabinete, onde se resolviam os assuntos mais importantes do país? Em algum país do mundo um político sobrevivia a uma publicidade do Ikea, que o devia ter deixado na merda, e aparentemente ainda lhe deu mais razões para querer ir fazer política ao lado dos políticos europeus que se demitem e voltam para as suas profissões só por lhes ter caído um cabelo na sopa?


Uma nota de rodapé para registar que segundo o Portal da Queixa a Caixa Geral de Depósitos, o banco do Estado, foi o campeão das reclamações em Portugal durante o primeiro trimestre deste ano. Das 1800 reclamações recebidas e relacionadas com o sector da banca 27,8% são direccionadas à Caixa Geral de Depósitos. Se isto não é notícia nos 50 anos do 25 de Abril em desfavor dos democratas do PSD e do PS que nos governam desde há meio século, a que porta é que devemos bater para que o Estado dê o exemplo e não seja o cão de fila da matilha? JAE.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

A minha primeira vez...e a última

Dentro da sede do Partido Comunista Português (PCP) o gajo, o sindicalista, o príapo, o lambe cus, o que nunca trabalhou a não ser por conta dos sindicatos e das avenças da autarquia, não se atrevia a bater mas ameaçava o camarada com quantos caninos tinha na boca suja de lamber cigarros.


A minha primeira vez foi num edifício perto da minha casa de família, onde os sábios se reuniam trimestralmente para discutirem quem fazia amor com quem,  ou, ao contrário, quem eram os sacrificados no meio da luta fratricida do amor. O tipo que tinha uma foice na mão e um martelo na cabeça, era sempre o centro das atenções quando lhe interessava. O encontro tinha sempre poucas mulheres, o amor entre os homens estava ainda na moda, embora as mulheres começassem entretanto a disputar o seu lugar na vida e na organização de vida dos filhos de Eva. A minha primeira vez foi quando o gajo discutia o sexo dos anjos com outro camarada e, de repente, embora a diferença de idades fosse significativa, talvez uma diferença igual à de pai para filho, o sebento trocou a discussão sobre uma matéria de que já não me lembro (mas não era de certeza se a melhor posição para o sexo é por cima, por baixo ou por trás), e começou aos gritos, gesticulando de pé no meio da sala que cheirava a perfume barato (ou era a mofo? já não me lembro) mas não era um prostíbulo, era a sede de um partido político. Aos gritinhos de garganta afinada, esteve uns bons cinco minutos aos berros: "anda lá para fora que eu dou-te um murro nos cornos, vá anda, se é assim que queres resolver as coisas porque não te levantas seu merdas". O camarada que estava a ser desafiado pornograficamente por dá cá aquela palha, e que era para mim um exemplo como homem, pai de família e político, nem levantava os olhos do chão como se o soalho da casa fosse a página de um livro de remissões. Dentro da sede do Partido Comunista Português (PCP) o gajo, o sindicalista, o príapo, o lambe cus, o que nunca trabalhou a não ser por conta dos sindicatos e das avenças da autarquia, não se atrevia a bater mas ameaçava o camarada com quantos caninos tinha na boca suja de lamber cigarros. Foi nesse dia que deixei de comparecer às reuniões dos camaradas que me tinham conquistado pelo coração, pela acção, pelo exemplo e por tudo aquilo que sempre achei e acho que eram os valores mais altos da democracia, embora aqui a palavra humanidade talvez se ajustasse melhor. Daquela reunião de preparação de uma sessão de assembleia municipal parecia que ia sair a decisão de mandar abaixo a Igreja do Senhor do Bonfim ou da Nossa Senhora do Pranto. Nada disso; era um assunto do género; isto não tem muita importância mas ou é a minha opinião que vale ou então põe-te no teu lugar, e se não pões tens que te pôr de cócoras e calares o bico ou vamos lá fora resolver as coisas ao murro.

Foi a primeira vez que tive a certeza que nunca ia militar num partido político. O PCP tinha, e ainda tem, a fama de ser um partido de grandes homens, de grandes lutas e de grandes liberdades. Mentira. Vê-se pelo destino que leva. Tirando as honrosas excepções, sempre foi um partido de um homem só, como é hoje o Chega, que sabia organizar festas e comissões e copiava da Igreja a forma de atrair fiéis que era expor a Cruz e nunca falar da realidade que levou a que aquela imagem seja a mais conhecida do reino dos fiéis.

Esta edição de O MIRANTE é maioritariamente dedicada aos 50 anos do 25 de Abril, como já foi em boa parte a edição anterior. Fomos todos para a rua no dia 25 de Abril e não gozámos o feriado para agora podermos escrever e publicar as fotos do dia que assinala o meio centenário da Revolução dos Cravos. Só O MIRANTE podia ser a voz das populações que homenagearam e valorizaram as conquistas do 25 de Abril neste meio século de democracia. A política local já não é o que era dantes, mas ainda há muita gente que faz a diferença. Diabos como aquele comunista que me abriu os olhos para me mostrar como os partidos políticos são por dentro é o que continua a não faltar por aí. Estejamos atentos e militantes porque lutar pela liberdade e pelos direitos humanos só é possível longe dos políticos de carreira, bem longe daqueles que nunca fizeram nada na vida mas sabem onde é que o sistema democrático falha e disso se aproveitam para viverem como monarcas, embora já tenham nascido numa República. JAE

quinta-feira, 25 de abril de 2024

A liberdade dá trabalho

Ainda hoje sou um pouco esquerdista, tenho aquele sentimento do homem de trabalho que sabe que, sem luta, não há um capitalista endinheirado que salve um pobre de morrer à fome, seja de comida ou conhecimento.


Esta edição de O MIRANTE vai para as bancas e os assinantes no dia em que comemoramos os 50 anos do 25 de Abril. Tinha 18 anos quando se deu a Revolução dos Cravos; era um dos muitos homens que tinha chegado à idade adulta sem nunca ter sido menino; na altura a norma era aproveitar o trabalho infantil seguindo a regra de que “o trabalho da criança é pouco, mas quem não o aproveita é louco”. Tinha sete anos e já fazia as campanhas de tomate na Spalil, as campanhas da cortiça nas fábricas do José Martins e do José “Prior”, e quando não tinha escola nem trabalho, acompanhava o meu avô materno que roçava mato nas propriedades da casa Amaral Neto, e muitas vezes fui com a minha avó materna ao rabisco da azeitona, do milho e das uvas, com tanta alegria por poder ajudar no orçamento familiar como hoje sinto alegria por ter onde escrever esta crónica.

Não posso queixar-me de nada, nem por ser um desastrado e andar sempre com os dedos dos pés em sangue das topadas nas pedras da calçada. Embora não tenha crescido com os livros debaixo do braço, na idade em que os meus colegas da escola tiveram esse privilégio mais tarde nas universidades, fiz-me homem como eles; e se não estudei pelos livros deles, muito sinceramente acho que estudei por outros que me deram o dobro do conhecimento e da experiência de vida.

No dia 25 de Abril de 1974 era um rapaz de 18 anos, meio politizado, que frequentava a sede do MDP/CDE, que ouvia pessoas em grupo a conspirarem contra o regime, que me indignava por ver o presidente da câmara da minha terra a mandar cortar o cabelo à força a pessoas que queriam ser diferentes e não podiam, que chorava de raiva por me sentir escravo, aliás, escravizado, que é como agora se diz, até no seio da minha própria família que se aproveitou de mim até eu dar o litro.

Tenho uma dívida enorme para com os militares que fizeram o 25 de Abril e ajudaram a construir uma democracia em Portugal. Ainda hoje sou um pouco esquerdista, tenho aquele sentimento do homem de trabalho que sabe que, sem luta, não há um capitalista endinheirado que salve um pobre de morrer à fome, seja de comida ou conhecimento. Apesar de hoje uma lata de sardinha, ou de atum, custar menos de um euro, e um pão apenas alguns cêntimos, o conhecimento e a educação custam fortunas e não estão acessíveis a toda a gente. Aliás, há muita gente que acha que já nasceu politizada, que viver à custa dos pais é que é ter uma boa profissão, que escarrar para o chão é um direito, que levar o cão para cagar no jardim é um acto de cidadania, que ficar a dever aos comerciantes onde ainda conseguem comprar fiado é uma acto revolucionário.

Tenho muita sorte em ter nascido num tempo em que eu próprio fui um dos actores; primeiro por conspirar, embora sem saber ler nem escrever, depois por ter feito parte de uma sociedade que começou a usar a liberdade e a cidadania sabendo desde o princípio que a liberdade dá trabalho; “nada é tão maravilhoso que a arte de ser livre, mas nada é mais difícil de aprender a usar do que a liberdade”. Se não morrer senil vou morrer a chorar de penas e saudades por não poder ajudar mais as pessoas que não tiveram a sorte que eu tive. JAE.

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Santarém mete Óbidos a um canto em termos de património e importância histórica

Santarém mete Óbidos a um canto em termos de história, de património e de interesse turístico para quem viaja do Brasil ou de outro qualquer país do mundo. A verdade é que Óbidos teve autarcas visionários que fizeram de uma muralha e de um pequeníssimo centro histórico uma verdadeira atracção turística.

O Museu Passos Canavarro é uma jóia da coroa de Santarém. Revisitei o museu com alguns amigos que estiveram na semana passada em Santarém, para o lançamento da biografia de Estácio de Sá e de Musa Praguejadora de Ana Miranda, e mesmo conhecendo o espaço voltei a acender a fascinação pelo lugar de cultura e de memórias que é a antiga casa de Passos Manuel, “um parlamentar brilhante e um democrata ardente”, como se pode ler na sua biografia. A casa de Passos Manuel ficou imortalizada na História também por ter sido durante alguns dias a casa de Almeida Garret, no final de uma viagem especial pelo Ribatejo, que está na origem do livro “Viagens na Minha Terra”. Pedro Canavarro juntou as heranças com as recordações de uma longa vida de político, professor, diplomata e amigo de escritores, pintores e homens de cultura, para abrir ao público um espaço que é um dos melhores cartões de visita da cidade.

Já disse milhares de vezes que considero Óbidos um lugar mágico com uma afluência de turistas que me desafia a imaginação. Sempre que posso desvio amigos e conhecidos para Santarém, e afasto-os, nem que seja por um dia, dos roteiros no litoral para os roteiros do centro que inclui Tomar e a linha do Tejo até Abrantes. Quando posso mostro-lhes por dentro uma capela da Chamusca com azulejos do século XVII, que desta vez entusiasmou tanto um dos meus amigos que prometeu escrever um livro sobre a capela e o que ela representa. Sempre ouço a mesma conversa quando visitamos o castelo de Almourol, Constância, a Igreja do Senhor do Bonfim na Chamusca, que está desprezada, como se a Chamusca fosse uma terra de pastores pobres, o castelo de Torres Novas e por aí fora. E o que é que eles dizem: que lindo Joaquim, e depois começam a contar aquilo que todos nós sabemos que não inclui a sopa da pedra, a visita às Portas do Sol, a tigelada de Abrantes e o passeio nas margens iluminadas do Nabão, e muito menos a visita a um castelo no meio de um rio. A verdade é que é difícil contrariar por muito tempo a vontade dos amigos que depois não querem regressar a casa sem passar pela vergonha de dizerem no regresso a casa que não tiveram tempo de visitar Óbidos, Mafra e Nazaré.

Desta vez a viagem com o meu grupo de amigos era mais especial e nem falámos em Óbidos, como seria normal, porque fomos até ao Porto dormir duas noites onde também havia lançamento de livro e homenagem à grande escritora Ana Miranda de quem publicamos por estes dias “Musa Praguejadora - A vida de Gregório de Matos”, que é um livro fascinante sobre uma figura única da cultura luso brasileira do século XVII. Aproveito o pretexto para deixar aqui testemunho daquilo que vou dizendo há décadas: Santarém mete Óbidos a um canto em termos de história, de património e de interesse turístico para quem viaja do Brasil ou de outro qualquer país do mundo. A verdade é que Óbidos teve autarcas visionários que fizeram de uma muralha e de um pequeníssimo centro histórico uma verdadeira atracção turística. E Santarém falhou até agora todos os esforços que, verdade seja escrita, alguns ainda tentaram mas falharam redondamente. Ricardo Gonçalves e o seu executivo já deram um passo significativo mantendo os monumentos abertos fora de horas, todos os dias da semana, mas vai deixar para o seu sucessor muito do que está prometido há décadas. E nada contra Óbidos. Escrevo mais para valorizar Óbidos, e o que a vila representa para o turismo português, do que para desvalorizar quem não conseguiu fazer por Santarém o que parece tão fácil, pelo seu património e pela economia da cidade e da região. JAE.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Trabalhar até de madrugada e ter sempre tudo por fazer

Uma crónica que podia ter ficado por escrever onde se conta da vidinha do autor que nem sempre é um mar de rosas mas para lá caminha.


Esta semana não há crónica, dizia eu para mim mesmo no último sábado à noite depois de andar meia dúzia de dias a deitar-me de madrugada para conseguir ter dois livros prontos para serem apresentados no Porto e em Santarém, a planear viagens, hospedagens, almoços e encontros culturais com os amigos e conhecidos que envolvi nesta aventura, que nunca foi tão ousada para o autor destas linhas. De repente, depois de despachar um longo texto sobre a minha leitura de “Musa Praguejadora, a vida de Gregório de Matos por Ana Miranda”, usando o programa de voz da Google, disse para comigo: quem faz um cesto faz um cento. E assim comecei a passar a limpo os meus textos literários dos últimos meses, recomecei a procurar reforços para a equipa comercial do jornal, organizei o meu arquivo de textos literários para um novo livro que vive de adiamentos sucessivos, tenho quase no prelo o melhor livro de Lêdo Ivo, que comemora o centenário em 2024, e mais umas miudezas de um trabalho que só dá trabalho e prazer, que é aquilo que nos mantém vivos desde que haja dinheiro para pagar as despesas e, quem sabe, ainda trocar de carro antes de não me renovarem a carta e ter que viajar de comboio ou de autocarro.

A meio destas notas lembrei-me que tenho duas motas que também não vou poder usar porque a carta que serve para o carro não serve para as motas de alta cilindrada. Nesse meio tempo recebi um telefonema da oficina de um amigo a informar-me que a Zundap da minha adolescência estava recuperada e pronta a ir para a estrada; e cresci meio palmo e voltei a pensar que tenho futuro, mesmo que envelheça depressa e deixe de poder continuar a trabalhar até de madrugada, embora não resista a contar que, quando posso, durmo uma sesta a meio da tarde para a cabeça não dar o estouro a meio da noite.

Faço tudo isto, que é trabalhar até dar o berro, porque tenho duas casas vazias na terrinha, onde ainda quero dormir muitas noites de Verão e de Inverno, e ainda tenho por empréstimo cinco hectares de terra à beira Tejo que são o meu orgulho enquanto não alugo um cabana à beira-mar. É exactamente por ainda me sentir dividido entre a aldeia e a cidade, entre a beira do rio e a beira do mar, que me meto em trabalhos arriscados com a energia que tinha aos trinta anos, embora agora com mais calma e produzindo o dobro do que produzia dantes. A diferença, a grande diferença, é que dantes queria ganhar dinheiro, e agora o dinheiro já me serve para pouca coisa, que não para comprar a comida para a mesa, o que não é nada por aí além, porque, entretanto, sagrei-me vegetariano. Ou quase. Mas não posso deixar de negociar preços de livros, jornais, gasóleo, carros de trabalho, comunicações, avenças com dezenas de empresas de serviços e tantas coisas mais que só um verdadeiro capitalista sabe avaliar, por que só os capitalistas sabem dar valor aos cêntimos e à diferença que fazem em certos orçamentos.


Como gosto de ser verdadeiro com os leitores devo confessar, já em jeito de nota de rodapé, que tinha uma crónica pensada e anotada que não foi em frente. Tinha pouca matéria para preencher o espaço. Rezava assim: o deputado João Moura foi premiado com uma secretaria de Estado no novo Governo do país porque nos partidos políticos o costume é premiar-se a incompetência, ou seja, agarram-se pelo rabo os animais políticos que não têm cabeça; e secretariar os ministros do Governo do país em determinadas pastas é tão importante que qualquer negociante de gado dá conta do recado e ainda ganha uns trocos.


Agora, mesmo para acabar: ainda tenho que viver muitos anos para me habituar a trabalhar menos e a viver mais à Agostinho da Silva. JAE.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

As “milícias” e as “falsas razões ambientais” de Oliveira e Sousa

A coligação AD que ganhou as eleições legislativas, e que acaba de formar Governo, escolheu como cabeça-de-lista por Santarém um homem conservador até aos cabelos, um senhor monárquico de coração e estilo, um homem que nos últimos anos governou o CNEMA sem alma, sem autoridade, sem ter mudado uma palha ao desastre que é para Santarém ter um espaço tão mal aproveitado como o CNEMA.

A coligação AD que ganhou as eleições legislativas, e que acaba de formar Governo, escolheu como cabeça-de-lista por Santarém um homem conservador até aos cabelos, um senhor monárquico de coração e estilo, um homem que nos últimos anos governou o CNEMA sem alma, sem autoridade, sem ter mudado uma palha ao desastre que é para Santarém ter um espaço como o CNEMA que serve uma vez por ano para a realização da Feira do Ribatejo.

Numa altura em que Portugal está cada vez mais na cauda da Europa em termos de política ambiental, de casos de corrupção, greves que podem tornar o país ingovernável, Oliveira e Sousa fez campanha política falando aos gritos em “milícias nos campos” e “falsas razões climáticas”. Só uma região pobre de gente com massa cinzenta escolhia Oliveira e Sousa para nos representar na casa da democracia que é o Parlamento. Mas o PSD não se ficou pela pobreza das escolhas nas listas. João Moura vai voltar ao Parlamento para continuar, aos 52 anos, a viver do orçamento de Estado numa cadeira dourada que lhe permite somar contactos e ter tempo para fazer lóbi para os negócios da família e dos amigos. João Moura leva 52 anos de boa vida, que se saiba nunca trabalhou que não fosse a fazer política, os seus dentes de leite da política ainda não caíram, e, aparentemente, vai morrer com eles. O seu grande objectivo de vida é aprender a jogar golfe, ter uma casa rica com muitos cavalos no largo da Feira de São Martinho, viver e mostrar que tem uma vida endinheirada e que poderá ser o primeiro homem do mundo a levar para a cova a sua vaidade e arrogância. Para sermos justos com João Moura devemos reconhecer que em bons tempos defendeu com unhas e dentes um aeroporto civil em Tancos. Mas a sua importância política nunca lhe granjeou uma única solidariedade, nem dentro do seu partido nem fora dele. Um cobrador de imposto é como alguns amigos do próprio PSD gostam de lhe chamar embora todos saibamos que ele vive é dos impostos que manda cobrar na sua missão de deputado.  

João Moura é tão importante politicamente para a região junto dos poderes de Lisboa que teve a coragem de se solidarizar com um antigo deputado do PS, seu conterrâneo e amigo, que foi obrigado a afastar-se da política por suspeitas de corrupção; se lhe dessem importância alguém do PSD tinha encomendado uma forca para lhe oferecer. Como o seu estatuto é o do pobre diabo endinheirado, ninguém dá por ele e quem paga é a região, os empresários e as instituições que não têm quem as defenda.

Oliveira e Sousa recuperou com o discurso das “milícias” e as “falsas razões ambientais” o tempo da Moca de Rio Maior. Com uma diferença: a Moca tornou-se popular e ainda hoje existe como recordação para levar da cidade do desporto. É quase certo que o discurso de Oliveira e Sousa, e os trabalhos dos seus colegas deputados no próximo Parlamento, prometem ser a tábua de cima do caixão que vai levar os agricultores, os policias, os professores, os médicos, e tantos outros portugueses a fugirem para o estrangeiro, ou para o litoral do país, que é onde ainda se consegue viver da brisa do mar e manter a esperança de que nunca ficaremos em terra com esta gente a governar os nossos destinos.

Poupo neste artigo a deputada Isaura Morais, que foi a terceira eleita pelo partido, não por achar que faz a diferença política no conjunto dos três deputados, mas por lhe dar o direito à dúvida, embora já comece a ser tarde para a ouvir dar um gemido, um gritinho político em defesa da região sem ser naqueles artigos sem conteúdo que vai publicando só para se ver na fotografia. O Ribatejo ainda é uma terra de marialvas e pobretanas que pegam toiros, mas o tempo do Nuno Salvação Barreto remonta ao ano de 1950 e o António Melo Correia já cantou “o selim e a mulher” nos anos sessenta. Não está na altura do PSD mudar a agulha e deitar o olho aos jovens que João Moura e Oliveira e Sousa acham que fazem bem em emigrar?


Nota: Num artigo recente as minhas previsões de que o PSD ia desaparecer bateram na trave. Quem perdeu quase metade dos votos em relação às eleições anteriores foi o PS. Com a AD o PSD teve um ligeiro aumento, mas com a eleição de três deputados o Chega deu um bigode ao PS e ao PSD. Só não tira conclusões quem é burro, monárquico ou anda na política para se servir. JAE.