quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Os rios também correm para a morte

Durante três horas andei cerca de três quilómetros ao lado de um aqueduto secular que em tempos levava a água da nascente do Alviela para matar a sede à população de Lisboa; e vi à luz do luar como no rio Alviela corre uma água cristalina, embora seja fácil concluir que os rios também correm para a morte.

Sou jornalista mas não sou parvo. Por isso procuro, em função da minha vontade de viver mais uns anos com alguma qualidade de vida, empenhar-me no meu trabalho sem fazer futurologia. Em vez de ficar a ler todos os jornais e revistas e textos literários e de viagens que me chegam de todos os endereços do mundo, vou caminhar, nadar, andar de bicicleta ou de mota, ver cinema e teatro, visitar livrarias como se visita, ou visitava, a casa da avó.

Esta semana fui caminhar de noite por caminhos do Alviela à procura de ver a chuva de estrelas, mas de verdade só vi mesmo as estrelas no céu e viajei enquanto durou a caminhada e a meia hora em que estive deitado na terra a admirar a beleza do firmamento. Como para ver não é preciso estar de boca fechada, troquei conversa com pessoas que vivem na minha aldeia global e fiquei a saber que Casével, no concelho de Santarém, deve ser a única aldeia no mundo que antes de ter um projecto para a instalação de saneamento básico tem um projecto para um aeroporto internacional; e que ali bem pertinho as casas de São Vicente do Paul não têm número de porta mas os carteiros conseguem distribuir, sem problemas, o correio entre uma população que deve chegar às mil pessoas. 

Durante três horas andei cerca de três quilómetros ao lado de um aqueduto secular que em tempos levava a água da nascente do Alviela para matar a sede à população de Lisboa; e vi à luz do luar como no rio Alviela corre uma água cristalina até chegar ao território onde as fábricas e as indústrias usam e abusam das virtudes da mãe natureza. Caso para dizer que os rios também correm para a morte.

Os Olhos de D`água na Louriceira, Alcanena, são um pequeno paraíso para quem sabe, da experiência da vida vivida, notar as diferenças entre viver nas cidades atulhadas de carros e de poluição, e num território onde partilhamos os caminhos com os pastores e os rebanhos, podemos dormir ou simplesmente ficar a noite ao relento, deixar o carro à porta de casa, parar no meio da rua para ver o nascer ou o pôr do sol, mas também a chuva de estrelas mesmo que só vejamos as luzes dos aviões que tomaram conta das estradas do céu.

Escrever é como correr. Não é como mijar.

O verão é sempre boa altura para recomendar livros novos. Miguel Esteves Cardoso acabou de lançar um livro para quem gosta de escrever e não sabe como alimentar o fogo da escrita. "Como Escrever" é uma viagem com o autor como nunca foi possível nos seus livros anteriores, nem tão pouco nas suas crónicas diárias no jornal Público. O livro não é recomendado para quem não acha, como Miguel Esteves Cardoso, que "escrever é o nosso melhor meio de expressão". Também não se recomenda a pessoas que não entendem porque é que "escrever é um falar melhorado. Um falar em que temos tempo para pensar. E tempo para procurar as palavras apropriadas. E tempo para organizá-las de forma a dizer melhor o que têm para dizer". "Escrever é indiscutivelmente a melhor forma de expressão. E a mais respeitada e, logo, a que mais resultados obtém". "Corte o mal pela raíz: aprenda a escrever". Ora aqui está um livro surpreendente, escrito por alguém que é, talvez,  o melhor de todos nós a escrever, embora seja também aquele que mais deve conhecer os defeitos de quem faz tudo para alimentar a preguiça de escrever. "Escrever é como correr. Não é como mijar. E, no entanto, os principiantes escrevem como mijam: quando lhes apetece. Esperam que a vontade de escrever se torne avassaladora e depois escrevem, pressionados pela pressa de desabafar. Confundem a inspiração com a pressão da bexiga". Um livro imperdível para quem gosta do MEC e não quer morrer estúpido. JAE .

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

As curandeiras, bruxas e aprendizes de feiticeiros

O mal de inveja é um dos trabalhos mais solicitados nas consultas das bruxas; elas têm que acudir a mulheres que são traídas, cornudos mansos, gente endividada e clientes que sofrem de mau olhado.

Confesso que tenho simpatia pelas bruxas e curandeiras embora por motivos diferentes. Mas há um que é comum às duas artes que faz com que tenha interesse e goste de ir sabendo novas e mandadas do demónio: falo do jeito que bruxas e curandeiras têm para adivinhar que parte do nosso corpo é mais doente que fraco é o nosso cérebro. Jamais as bruxas governavam a vida se os nossos cérebros não estivessem, em muitos casos, em estágio na idade média. São, no entanto, as doenças mais modernas, que nos trazem a morte lenta, que alimentam a arte do demónio que bruxas e curandeiras tão bem sabem desempenhar.

O mal de inveja é um dos trabalhos mais solicitados nas consultas das bruxas; elas têm que acudir a mulheres que são traídas, cornudos mansos, gente endividada, clientes que sofrem de mau olhado, tudo problemas reais que as personalidades fracas, que não conseguem olhar o sol de frente, acham que conseguem resolver consultando as feiticeiras que, na maioria dos casos, só sabem contar dinheiro. Também há casos irreversíveis de pessoas que já nasceram com a massa cerebral grossa demais, e em vez de irem nadar no Tejo ou correr para o meio dos sobreiros para amaciarem a coisa, resolvem brigar com os pais, filhos, amigos, namorados, companheiros de trabalho, vizinhos, etc etc, e assim envenenarem a sua vida e a dos que lhe estão próximos. Nada do que escrevi até agora justifica o que deu origem a esta crónica que é o quanto gosto das bruxas. A minha última experiência foi numa feira medieval a ver uma bruxa transmitir oralmente o que designava cada runa que os clientes tiravam de um caldeirão. Dizem que a prática tem mais de três mil anos e foi retomada na idade média. Durante três horas em que vadiei por uma feira cujo recinto tinha mais de vinte mil pessoas, a fila para a Curandeira tinha sempre entre três a quatro dezenas de pessoas. Ouvi algumas gargalhadas sonoras e vi alguns rostos incrédulos. Mas tudo aquilo me fascinou porque é um artista a brincar com as palavras e com a fé dos outros, um artista devidamente caracterizado num palco a fazer jus a uma frase de Fernando Pessoa que bem pode ser adaptada a este caso: a bruxaria existe porque a vida não chega.

Para não pensarem que falo de cor... também fui à bruxa duas vezes; daquelas visitas a sério em que temos que temer pela nossa saúde mental, ou então a consulta não merece o preço que pagamos. Os resultados foram diferentes, mas podem ser explicados numa frase curta; se a bruxa te convenceu... tens que lá voltar até ficares curado do teu fraco entendimento da vida.

Conheço muita gente que atribui os seus azares às pragas, ao mau olhado, às armadilhas da inveja, aos agouros, e não posso terminar esta crónica sem dizer que ouço estas queixas desde a minha infância, na altura às mulheres que ripavam camisas de milho no palheiro do José Pedro Guilherme, na Chamusca, e algumas choravam porque na noite anterior o diabo do marido tinha levado para casa o demónio em forma de barril de vinho. Também já me rogaram pragas, enviaram cartas anónimas com pozinhos de perlimpimpim, trouxeram recados de consultas partilhadas levando o meu nome e data de nascimento; já me leram a mão e deitaram as cartas e, na maioria dos casos, quase que me deixei apaixonar pelo prazer de falarem de mim sem saberem quem eu era e sou.

Fica aqui um texto que guardo no computador que roubei das redes sociais a uma bruxa que vive como uma bruxa e que conheci por ser gerente de um alojamento local. E é o texto que me faz gostar de bruxas, coisa que dificilmente conseguiria explicar por palavras minhas.


ENCONTRA UMA BRUXA. Bruxas são mulheres sensuais, que não têm medo de demonstrar os seus sentimentos, não seguram a sua gargalhada, nem as suas lágrimas. Sentem 100% tudo ao seu redor, por isso são confusas e consideradas muitas vezes doidinhas. Elas demonstram no seu cabelo a sua liberdade, expressam a sua magia nos seus colares de pedras e cristais, amuletos especiais e tatuagens.

Podes encontrar uma Bruxa no supermercado, no corredor dos temperos, experimentando ervas soltas, mas também no corredor dos chocolates. Podes encontrar uma Bruxa na rua, distraída com o céu, a tirar uma foto do Sol, a tocar numa árvore com gentileza, conversando com um cão ou gato e até simplesmente respirando fundo. Podes encontrar uma Bruxa no shopping, toda arrumada e de preto, com os seus acessórios diferentes, com a sua cara séria, mas que sorri com facilidade. Distraída na loja do ocultismo ou mesmo na livraria.

Podes vê-la quando estás com amigos, em alguma festa, na escola quando vais buscar os teus filhos, e até mesmo no jardim quando vais passear o teu cão. Podem vestir farda e até terem um emprego super normal, mas existe algo nos olhos delas que as denunciam. A maneira como falam, como olham, como mexem no cabelo e até mesmo como sorriem. Encontra uma bruxa e encontrarás uma amiga. É muito fácil reconhecê-las, andam muitas por aí, disso podes ter a certeza. JAE.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Uma crónica para comunistas e activistas ambientais de Vila Franca de Xira que remete para um artigo de opinião

Macacos me mordam se estou só a escrever para comunistas de cabeça empedernida e activistas que são contra as touradas mas não sabem nem querem saber que em Portugal há um milhão de cães na rua abandonados pelos donos. 


A almofada da cama e a areia da praia são os melhores suportes para pousar a cabeça e ler um livro. Roubando tempo ao sono diário e mergulhos no mar, já que tenho o privilégio de ter cama e praia todos os dias do ano, ou quase, leio e percebo cada vez mais que há coisas na vida que só entram pelos olhos dentro quando se atinge uma certa idade.

Com a autoridade de leitor que pode adiar a leitura de um livro até ao último dia de vida, só agora estou a ler Vale Abraão, um dos melhores livros de Agustina Bessa-Luís que já deu filme, realizado por Manoel de Oliveira, que é bem menos interessante que o livro, como é normalíssimo nas adaptações para cinema de grandes e bons textos literários. Estou rendido e só posso comparar a emoção da leitura ao entusiasmo que sentia ao ouvir o meu avô Manuel Emídio a contar-me as histórias do cancioneiro popular. Hoje sei que esta energia que fica da leitura de um bom livro já me serve para pouca coisa que não seja o deleite da leitura. Dantes brigava com os autores e as personagens dos livros, apontava tudo o que me interessava num caderno, depois de sublinhar os livros como ainda faço hoje de forma exagerada, ou talvez não; de verdade acho que cheguei a um estágio da vida em que me sirvo da leitura dos livros como os ricos se servem do dinheiro: basta-me acumular conhecimento, como os ricos acumulam fortuna, que o resto vai-se resolvendo com o deve e haver do dia-a-dia.

O MIRANTE publica todos os dias matéria editorial que daria pano para mangas quando escrevo para este espaço. Embora a opinião seja importante num jornal, O MIRANTE é mais um jornal de grande informação que procura na notícia, na reportagem e na entrevista cumprir a sua função de serviço público. Mas esta semana não vou deixar passar o artigo de opinião de José Furtado, nesta edição, sobre o futuro aeroporto e a desgraça que vai ser para muitos munícipes do concelho de Vila Franca de Xira, e para o próprio concelho, a quadruplicação da linha ferroviária. Só quem se fingir morto pode ficar quieto e calado ao ler o artigo de José Furtado que bate numa tecla já gasta, mas nem por isso deixa de mostrar à sociedade que a solução de Alverca não pode ser ignorada e desprezada, tendo em conta o desastre que vai ser a quadruplicação da linha e a incógnita do futuro aeroporto de Lisboa em termos de financiamento e de crescimento do fluxo turístico que, a crescer desmesuradamente como todos os agentes turísticos querem, fará Lisboa rebentar pelas costuras.

Desde que o assunto entrou na agenda que O MIRANTE dá espaço aos projectos que estiveram a ser discutidos e analisados, e até a alguns como o de Alverca que ficaram pelo caminho. Por isso mesmo, ao publicarmos o artigo desta semana, gostava de aproveitar para apelar aos autarcas em geral, e aos cidadãos organizados em particular, que não virem a cara para o lado quando é preciso arrepiar caminho. Macacos me mordam se estou só a falar para comunistas de cabeça empedernida e activistas que são contra as touradas mas não sabem nem querem saber que em Portugal há um milhão de cães na rua abandonados pelos donos. JAE.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

O Healing Dance e o poder das energias alternativas

Em tempo de férias duas recordações da juventude e uma boa publicidade para quem gosta de energias alternativas e tem vergonha de pedir ajuda preferindo encharcar-se de medicamentos.

Quando ainda era jovem, muito jovem, entreguei um conjunto de poemas a um editor conhecido para publicar numa revista. Esperei mais de um ano pela publicação e, nesse meio tempo, de muita impaciência da minha parte, numa de poucas conversas que tivemos, perguntou-me porque é que eu escrevia poesia. Não me lembro da resposta, mas lembro-me de um dos seus comentários logo a seguir à pergunta já que a minha resposta deve ter sido muito vaga. “Eu só escreveria poesia se soubesse que ia escrever melhor que o Fernando Pessoa”. Se não ficou por aqui o mais que disse foi com a expressão do rosto; se ele tivesse continuado certamente que me lembrava. Devo ter fugido da conversa como o diabo da cruz, coisa que lhe deve ter agradado depois de quase me ter deixado com os cabelos em pé. 

Nessa altura era um jogador de damas que participava em campeonatos nacionais nomeadamente de problemas. E como jogador cheguei a dirigir simultâneas contra dezenas de jogadores como se costuma ver nos filmes.
Um dia ouvi de um outro amigo da onça, muito mais velho do que eu, intelectual ainda no activo, o seguinte comentário: “porque é que jogas damas se o xadrez é que é o verdadeiro jogo de tabuleiro? Fraca opção meu amigo”, disse-me ele como se estivéssemos a falar da escolha entre comer uma ameixa ou um pêssego na hora de decidir que caroço é que precisamos para depois enterrar num vaso. De verdade, o jogo das damas foi uma escolha tão natural como a língua que falo, e tão importante na minha vida que me ensinou muito mais do que aprendi na escola e, em muitos casos, na vida familiar. Ainda hoje não sei jogar xadrez, e tenho pena de me ter metido no mundo da edição e do jornalismo que me roubaram o tempo que preciso, que qualquer jogador precisa, para ganhar motivação e não desistir de jogar regularmente, como já acontece comigo há muitos anos, embora vá jogando contra o computador para não deixar enferrujar o cérebro.
Estas duas histórias são as duas lições que mais recordo dos meus tempos de formação. Os dois mestres em causa eram pessoas influentes, mas cedo percebi que não ia ser aluno das suas oficinas.

Há cerca de duas dezenas de anos iniciei-me numa terapia chamada Watsu, que, entretanto, evolui para Healing Dance, que me fez despertar para uma realidade que estava longe de pensar experimentar. O Watsu pode ser dado e recebido pelas pessoas mais saudáveis do mundo, mas é a terapia ideal para pessoas com problemas mentais e físicos, pequenos ou grandes, mais ou menos graves. A terapia tem que ser realizada num tanque, ou numa piscina com a água à temperatura do corpo; o facilitador tem que ter códigos de conduta que só sabe quem imagina o que é ter um corpo nos braços dentro de água. A água termal é a ideal para esta prática. Não pratico com muita regularidade, mas este Verão já fui a dois encontros e venho sempre para casa mais jovem e animado. Confesso que a minha primeira experiência e prova de fogo foi dar terapia a um homem corpulento, mais de cem quilos, e mais peludo que o meu avô. No entanto, como estava no início e ele já era praticante, ao longo da sessão foi-me ensinando a corrigir algumas técnicas. Foi sorte de principiante, porque aprendi uma grande lição: não interessa o corpo a quem fazes terapia, interessa é a pessoa que esse corpo transporta.
Falo desta experiência de vida porque quando tenho oportunidade de praticar sinto-me de igual para igual com terapeutas que trabalham em hospitais públicos, e que vão ali buscar experiência e informação para poderem resolver problemas a alguns dos seus doentes, e deles próprios, cheios de marcas do trabalho difícil que é carregar corpos e espíritos enfermos.
Curiosamente há muito pouca adesão à terapia. Talvez o facto de ter que ser ministrada na água a 35 graus, e de haver poucos terapeutas e facilitadores, seja razão suficiente para explicar o fenómeno. As pessoas gastam raízes de dinheiro em psiquiatras, psicólogos e medicamentos, e infelizmente não procuram as energias alternativas para terem vida social e recuperarem a saúde mental e física que se tem em criança quando nada nos afecta que seja humano.
Deixo uma dica: O Rui Granja vive no Porto e tem um espaço na Rua Formosa, 349, onde realiza sessões de uma hora; o Paulo Fonte dá sessões nas Termas do Estoril todos os dias da semana, ambos por marcação. JAE.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

O dia do adeus a Joaquim Botas Castanho

Joaquim Botas Castanho soube sair a tempo da vida política; por isso deixou uma imagem de estadista que sempre lhe assentou bem, mesmo quando era apenas vereador e mais tarde vice-presidente da Câmara de Santarém.


Morreu Joaquim Botas Castanho. Soube da sua morte por uma mensagem da Joana enquanto descia a escadaria que dá acesso à praia de Cancela Velha um dos lugares mais bonitos do mundo para viver perto do mar. A minha primeira lembrança foi recordar Joaquim Botas Castanho a pescar, coisa que nunca fiz, mas ainda quero fazer quando me faltarem as pernas para descer escadas ou vencer distâncias.

Não preciso de consultar enciclopédias nem livros de frases feitas para elogiar a pessoa amiga e o político que foi Joaquim Botas Castanho. Há pessoas que nos marcam pelo exemplo, mesmo que nunca tenhamos sido amigos ou partilhado mais do que uma boa relação pessoal e respeito mútuo. Foi o caso. É impossível não referir que Joaquim Botas Castanho era um homem do PS, partido que em Santarém foi casota dos maiores sacanas que já conheci. Mas onde é que não há mosquitos se houver estábulos onde se faz criação de coelhos?

Lá para onde foi, e se me estiver a ler, Joaquim Botas Castanho não vai achar muita graça a esta crónica. No tempo em que nos conhecemos os relógios já estavam acertados pelo horário dos tempos de hoje. Uma boa parte da nossa vida política está nos antípodas daquilo que sonhamos. Quando lembrou, em entrevista a O MIRANTE, em Março de 2008, o assalto ao poder no PS escalabitano, que levou à queda do então presidente da câmara Miguel Noras e à ascensão de Rui Barreiro, já todos percebíamos que a reforma do Estado também ia ficar para as calendas gregas, e adivinhávamos o clima de greves absurdas que estão aí para confirmar o estado da Nação: greves dos funcionários da Justiça, dos guarda-rios, ASAE, polícias, guardas, professores, funcionários dos consulados, e mais do que desgraça as opções políticas na escolha de velhos do Restelo para dirigirem as nossas instituições. Joaquim Botas Castanho soube sair a tempo da vida política; por isso deixou uma imagem de estadista que sempre lhe assentou bem, mesmo quando era apenas vereador e mais tarde vice-presidente da Câmara de Santarém.

A última vez que nos vimos foi, muito recentemente, na Casa do Brasil onde lançámos dois livros. Esquecendo o tempo em que cimentámos a nossa relação pessoal, recordo com carinho a sua ajuda para organizarmos na sede do jornal um debate a pretexto da comemoração dos 500 anos do Brasil e do lançamento do livro "Carta de Pero Vaz de Caminha", numa edição da Guerra & Paz, que O MIRANTE patrocinou e que foi pretexto para uma conversa na nossa redacção com o jornalista do Expresso Henrique Monteiro, o embaixador Francisco Seixas da Costa e Manuel S. Fonseca, o editor.

Entre o tempo em que escrevi esta crónica e a data da sua publicação, o meu mergulho na praia e na paisagem marítima de Cancela Velha, e a morte de Joaquim Botas Castanho, passaram seis dias. Não alterei uma linha no texto que escrevi debaixo de um chapéu de sol com inveja de quem tem cu para ficar o dia inteiro na praia. Apaguei alguns lugares-comuns que sempre aparecem nos textos quando se escreve poesia com sentimento, mas só me lembro disso porque o compromisso com a escrita é não ser leviano nas críticas nem demasiado louvaminheiro nos elogios.

Volto à memória de Joaquim Botas Castanho quando falávamos do prazer da arte da pesca que obriga a um estilo de vida que não está ao alcance de toda a gente.

No regresso da praia encontrei o “Esmeralda” e o “Já estou aqui”, amarrados perto da margem. O sol ainda ia alto e eu tinha mais que fazer que ficar na praia preso ao adeus a Joaquim Botas Castanho. Levava um livro que não li, o cachimbo que não me apeteceu acender, e dois mergulhos na água meio choca quase que me adormeceram os miolos. Para não dizer mal da vida nem fazer a vontade ao sentimento de tristeza, que depois também vi espelhado nos barcos parados na margem, fui jantar a Vilamoura. O resto é o que quase todos já sabem, principalmente os que já viveram a noite nas Las Vegas portuguesa. JAE.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

A ocupação do espaço público com publicidade e a selvajaria do costume

As rotundas são perigosas sem cartazes gigantescos quando mais entrincheiradas. As entradas das cidades deviam ser o seu cartão de visita, mas não são: estão cheias de cartazes dos políticos, alguns muito mentirosos, a venderem o peixe estragado que somos obrigados a consumir.

As perguntas em Tomar, em jeito de protesto, pela ocupação do espaço público com cartazes, gigantes, grandes e pequenos, é tão pertinente nos dias de hoje como discutir saúde pública e a poluição do rio Nabão. Os carros inteligentes em circulação apagam a luz do ecrã quando passam por lugares mal iluminados para não prejudicarem a condução. Em certas cidades já há cartazes dez vezes mais luminosos que a luz da rua. Cada vez que levo com um desses em cima assusto-me. Por enquanto não chegaram a Tomar. Mas estão lá os outros todos que contrariam a política contra a poluição ambiental e visual, a arquitectura das casas, a cor e a beleza da paisagem e dos seus edifícios, a classificação histórica da cidade e dos seus monumentos. Não falo só dos cartazes, falo também da publicidade pirata colada de forma criminosa nos equipamentos públicos, degradando-os e provando que a selvajaria compensa. Se alguém pode colar um cartaz num equipamento público porque é que esse alguém não pode mijar também para um cantinho da parede ou deitar para o chão a beata do cigarro?

Há partidos políticos que fazem campanhas soberbas com ideias espectaculares, mas não está provado que a mensagem ganha votos. Os cartazes do PAN, do LIVRE e da Iniciativa Liberal são um bom exemplo. Se o crescimento eleitoral fosse à medida da criatividade e do número de cartazes estávamos a ser governados por outra gente. Os cartazes do PS e do PSD são grandes charutos, mas levamos com eles em cima como se os partidos políticos fossem donos da paisagem com direitos adquiridos sobre os nossos horizontes. Tudo isto à porta da nossa casa, e no coração das cidades, fazendo das rotundas praças de touros em que os cartazes são as trincheiras.

Há uma indústria poderosa por trás deste negócio da publicidade exterior. Algumas empresas sustentam-se nos milhões que facturam com os partidos políticos do nosso regime democrático que recebem dinheiro fácil proporcionado pelo número de votantes. Não é por acaso que têm o descaramento de cometerem os crimes contra a paisagem e de ultrapassarem todas as regras do bom senso, da educação cidadã, das boas práticas na relação com os 10 milhões de portugueses.

Há um dado importante com que gostava de fechar esta crónica. António Costa cativou o dinheiro do Estado e dos organismos que dependem do Estado e não deixou que nos últimos anos os vitivinicultores fizessem promoção paga aos vinhos portugueses.  Este é só um exemplo de como o rei vai nu. O governo cativou os dinheiros dos pequenos produtores de uma economia que sustenta, na sua maioria, pequenos produtores, e, entretanto, vende as barragens aos chineses, ou seja, vende o ouro ao bandido e ainda recebe como prémio um emprego na capital da Europa como se fosse o nosso Nelson Mandela.

Portugal é um filme de terror se tivermos em conta as más políticas de proximidade que fazem toda a diferença na qualidade de vida dos cidadãos. Menos política e mais cidadania… precisam-se. Chega de nos tratarem como jumentos.

É evidente que as autarquias têm um papel fundamental no governo do espaço público. As rotundas são perigosas sem cartazes gigantescos quando mais entrincheiradas. As entradas das cidades deviam ser o seu cartão de visita, mas não são: estão cheias de cartazes dos políticos, alguns muito mentirosos, a venderem o peixe estragado que somos obrigados a consumir. JAE.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

O diabo que nos trouxe a visita do Papa e o Estado corrupto que nos destrata

À sombra da visita do Papa, que veio a Portugal fazer a Igreja facturar 200 milhões de lucro, o Estado português amnistia criminosos condenados em tribunal com uma fita métrica que o Diabo usa para se rir da Justiça de Deus.


Um dos maiores dilemas da vida de um homem perfeccionista, no trabalho, é conseguir conjugar a sua capacidade de realização com as expectativas que criou nas pessoas que o rodeiam. Confesso que sou perfeccionista, embora moderado (que sei eu!), e tenho como defeito essa dúvida, que chega a ser tormento em certas alturas, sobre se estou a dar e a fazer o melhor que sei no meu trabalho. Com esta forma de ser, que acho que vem desde os meus 14 anos, quando me lembro de falar alto para não me esquecer do que prometia a mim mesmo, com esta mania de ser perfeccionista sou também muitas vezes escravo de trabalhos e de funções que bem poderia delegar já que, com mais ou menos jeitinho, o trabalho apareceria feito.

O problema é que ninguém nasce como gostaria de ser e os que nascem mais tarde ou mais cedo mudam de ideias e querem ser outra coisa diferente daquilo que são, e muitas vezes chegam à loucura que a fronteira entre o transtorno mental e a sanidade é mais pequena que a fita de medir o tamanho do nosso nariz.

Esta semana que passou foi das que senti mais essa sensação de que ando a trabalhar pouco para o que devia. Mas o problema é que o corpo já não aguenta os serões como dantes, quando metade das coisas importantes que tinha para resolver ficavam alinhavadas roubando duas horas ao sono de uma noite. Com o avançar da idade a coisa pia mais fino.

A Alice foi multada pelo Estado em 30 mil euros por estar a trabalhar sem licença, embora tivesse tudo tratado no sítio certo; só que os burocratas encontram sempre um defeito para prolongarem a sua importância na vida de quem precisa deles. Com a multa fecharam-lhe o negócio. A vida dela nunca mais foi a mesma. Perguntei-lhe se não tinha sido amnistiada com a visita do Papa e a resposta foi à ribatejana; o ca*alho é que fui. Foram os políticos que fizeram e fazem fortunas aproveitando a sua situação de privilégio por trabalharem para o Estado e para as suas próprias empresas, valendo-se da importância que têm no sistema; foram os pequenos criminosos que roubaram por esticão, que andaram bêbados na estrada, que desviaram dinheiro.

Recentemente o jornal Público trouxe para o debate a opinião do vice-presidente do Tribunal Constitucional que considera inválida a amnistia concedida com a vinda do Papa; e a razão mete-se pelos olhos dentro: viola o princípio da igualdade entre os cidadãos inscrito na lei fundamental. Era aqui que eu queria chegar; um pequeno empresário sofreu na pele a burocracia de um Estado corrupto e cheio de burocratas que nunca lhe facilitaram a vida para legalizar o seu negócio; ao fim de sete anos, quando precisaram de facturar para o Orçamento de Estado, os inspectores foram lá, aplicaram a multa, mataram o negócio e deram cabo da vida do empresário que hoje trabalha como assalariado para poder sobreviver aos 65 anos.

Entretanto, à sombra da vinda do Papa, que veio a Portugal fazer a Igreja facturar 200 milhões de lucro, o Estado português amnistia criminosos condenados em tribunal com uma fita métrica que o Diabo usa para se rir da Justiça de Deus. Quem está a pagar uma multa ao Estado não é amnistiado, mas quem roubou, usou esquemas fraudulentos para fazer fortuna, enganou o cidadão incauto, deu cabo da vida na estrada a não sei quantas centenas de pessoas, esses tiveram direito ao perdão divino do Estado governado por políticos que se protegem como lobos famintos no meio da estepe.

Ficava bem aqui uma conclusão, mas o texto vai longo. Que me desculpem a introdução mas precisava de desabafar. É uma chatice não ter quatro braços, o dia não ter 48 horas e, pior que tudo, saber que muitos dos livros que comprei e li jamais conseguirei reler e escrever sobre eles como gostava. O resto resolve-se: é a trabalhar que conseguimos realizar o impossível. JAE.