quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Para uma História da Imprensa Local e Regional

Ainda hoje, devido à nossa experiência no terreno, servimos de interlocutores a muita gente que já não tem como se orientar num negócio que perdeu referências, foi alvo de assalto por parte dos políticos durante as últimas décadas, e cuja existência como sempre o conhecemos está em fase terminal. Falar em associações do sector e ao serviço do sector é o mesmo que falar do triste destino que teve a protagonista do fado da Casa da Mariquinhas.

Para uma história da imprensa local e regional pode dar um livro ou pode nem sequer passar de meia dúzia de artigos para não deixar esquecer aquilo que tenho obrigação de dar testemunho.

Começo por um assunto que não merece discussão: cada vez que escrevo um texto ou dou o coiro para contar uma história que escrutina os poderes instituídos, fico sempre com a sensação de que poderia fazer melhor; que podia ir mais longe, que não devia ter sido tão meigo a escrever. A minha condição de jornalista por conta própria, e a experiência adquirida nos 37 anos que já levo nesta profissão, deram-me uma vida de grandes desafios, mas também de grandes experiências. Cedo, muito cedo, participei no movimento associativo e empresarial e tive contacto com os grandes do jornalismo e das direcções editoriais dos principais jornais. Não fiquei no meu cantinho a entrevistar os priores das freguesias, a dirimir guerras de alecrim e manjerona, fui ao encontro, desafiei ministros e secretários de estado para defender o meu jornal quando atingimos tiragens recordes e vivíamos o tempo das vacas gordas. Uma vez consegui reunir à volta de uma mesa, na sede dos CTT, em Lisboa, oito administradores, directores e chefes só para discutirem a melhor forma de não falharem a entrega semanal à quinta-feira dos 25 mil exemplares de O MIRANTE. E só precisei de me indignar, de falar alto dos meus direitos como cliente, de fazer aquilo que ainda hoje faço embora agora já tenha quem me substitua e seja muito melhor do que eu a tratar destes assuntos.

Ao longo de mais de três dezenas de anos não falhei um congresso de jornalistas no tempo em que todos os anos discutíamos o sexo dos anjos, mas discutíamos. Hoje não há discussões, embora o sexo e os anjos continuem a ser uma boa razão para discutirmos, certamente agora mais do que nunca. Conheci e fui recebido pela maior parte dos membros do governo que tiveram a pasta da comunicação social. Fui sempre aos seus gabinetes protestar, nunca baixar a cerviz. De alguns tornei-me confidente e falei de assuntos da caserna que frequentava, mas depressa percebi que estava a ser usado. Só quem não conhece os políticos profissionais é que confia neles. Aprendi a tempo (estultícia minha porque a política está sempre presente no nosso trabalho e é difícil garantir que não estamos a ser usados quando as nossas fontes são também os nossos principais interlocutores).

Nunca quis ser accionista da agência de notícias do Estado embora tenha sido convidado e desafiado. Nunca negociei as dezenas de projectos de rádios e de jornais que me foram oferecidos ao longo destes últimos 30 anos. As minhas respostas ainda hoje são iguais às de antigamente: só quero ser jornalista de um jornal e não me interessa o futuro da concorrência se o assunto é falta de dinheiro e de bons profissionais. Fizemos duas ou três parcerias ao longo destes anos, mas sempre ao nível da distribuição para cumprirmos o desígnio de chegarmos ao máximo de leitores na região onde trabalhamos. É uma missão que nunca está terminada se o jornal for bem dirigido.

Não tenho medalhas nem quero ter; jamais aceitarei homenagens seja de quem for, e muito menos daqueles para quem trabalhei por dever de camaradagem neste sector tão difícil da comunicação social de proximidade. Ainda hoje, devido à nossa experiência no terreno, servimos de interlocutores a muita gente que já não tem como se orientar num negócio que perdeu referências, foi alvo de assalto por parte dos políticos durante as últimas décadas, e cuja existência como sempre o conhecemos está em fase terminal. Falar em associações do sector e ao serviço do sector é o mesmo que falar do triste destino que teve a protagonista do fado da Casa da Mariquinhas.

Recordo que a distribuição está nesta altura nas mãos de duas empresas distintas, mas que vivem igualmente de outros negócios muito, mas muito mais rentáveis, e que basta que uma delas tenha uma constipação para que a grande maioria dos jornais não saiam da gráfica depois de impressos. Das máquinas de impressão de jornais estamos conversados: uma boa parte de nós está a imprimir em Espanha, o que diz bem do estado a que chegámos.


Nota: Na passada semana, no dia em que comecei a escrever esta crónica, fui dar um abraço ao Sérgio Carrinho que no outro dia comemorava 76 anos. Perguntei-lhe em jeito de brincadeira se ele ainda se lembrava das vezes em que o tirávamos do sério com alguns textos. A resposta foi uma grande gargalhada, depois os olhos húmidos, e depois um “grande cabrão”, quem sabe nome o nome mais carinhoso que eu merecia ser chamado, e que ele poderá esquecer a curto prazo porque a saúde começa a faltar-lhe e um dia destes também lhe faltarão, a ele e a nós, as palavras certas no momento certo. JAE.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Começou a campanha eleitoral para as eleições autárquicas e O MIRANTE vai reforçar a equipa

Os jornalistas de O MIRANTE vão ter muito trabalho pela frente se quiserem continuar a fazer a diferença. Uma coisa é a notícia do momento, aquela escrita à pressa para conquistar cliques e gostos nas redes sociais, outra é a do jornalismo de investigação, de contrapoder, a grande entrevista, a reportagem no local, como só nós temos condições para fazer e já praticamos há décadas.


Começou na região a campanha eleitoral para as eleições autárquicas de Setembro. É verdade que já anunciamos alguns candidatos, mas o anúncio da candidatura de Pedro Ribeiro a Santarém, fica a marcar definitivamente o calendário que na capital de distrito já só tem um depois. Vêm aí mais surpresas. Tão ou mais significativas quanto a candidatura do actual presidente da câmara de Almeirim a Santarém. Cada surpresa será julgada em resultado do número de eleitores do concelho. No nosso trabalho as coisas não funcionam assim, há uma lógica diferente, mas é assunto que não me parece difícil de ser entendido sem mais explicações. 

É no capítulo das surpresas que a edição online de O MIRANTE, ou de outro jornal, não consegue ganhar à edição impressa para onde escrevo este texto. Na sexta-feira anunciámos online o que já se esperava da reunião da concelhia do PS de Santarém, e em poucos minutos a informação circulou a toda a velocidade. Agora, nesta edição em papel, fazemos o melhor que sabemos, que mais ninguém na região consegue igualar. E um dia que os computadores se apaguem, ou os arquivos antigos desapareçam, como já aconteceu, ficarão estas folhas encardidas à mão de semear em qualquer biblioteca.

Os jornalistas de O MIRANTE, cuja redacção vai crescer nos próximos dias, vão ter muito trabalho pela frente se quiserem continuar a fazer a diferença. Uma coisa é a notícia do momento, aquela escrita à pressa para conquistar cliques e gostos nas redes sociais, outra é a do jornalismo de investigação, de contrapoder, a grande entrevista, a reportagem no local, como só nós temos condições para fazer e já praticamos há décadas. Claro que temos que ser melhores, principalmente a formar os mais novos da equipa, claro que trabalhamos para pequenas comunidades onde os caciques não aceitam o nosso escrutínio como aceitam os dos grandes jornais; e fazem jogo sujo, mas isso para nós nunca foi problema. Estamos habituados a dar o corpo às balas, e o jornalismo é isso mesmo: uma luta pela democracia num parlamento que tem a sua sede no meio da rua. 

Não estou aqui para fazer futurologia, mas não é preciso ser bruxo para arriscar escrever que um dia, mais tarde ou mais cedo, a maioria dos jornais vão ser como o nosso: ou escolhem uma região ou morrem, por serem insignificantes ou por não terem viabilidade económica.

Não se lêem quase 400 páginas de prosa de Aquilino Ribeiro sem que se consiga fugir à tentação de o anunciar aos amigos. Pois aqui vai. Acabei de ler Luís de Camões. Fabuloso* Verdadeiro, e mais uma vez fiquei rendido ao autor de "A Casa Grande de Romarigães" e de "Quando os Lobos Uivam", entre mais de três dezenas de romances que chegam para encher uma biblioteca. António Valdemar, o decano dos jornalistas portugueses, assina o prefácio e foi o responsável pela reedição dos textos. António Valdemar conheceu e conviveu com o Mestre Aquilino Ribeiro, por isso a sua entrega a este livro dá-lhe uma maior visibilidade. E bem merecida. Quem quiser saber do autor de Os Lusíadas tem que ler Aquilino Ribeiro. E também António Valdemar no prefácio, que é grande ajuda para o leitor desconfiado, que nunca sabe ao que vai quando se mete páginas adentro a ler sobre um poeta que morreu há 500 anos, pobre e miserável, mas que deixou uma Obra que muitos de nós ainda não conseguimos ler por falta de cultura geral. É magnífico, fabuloso e verdadeiro, perceber melhor pela pena de Aquilino Ribeiro que Camões já se insurgia contra "a generalizada corrupção instalada em Portugal". JAE .

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Abaixo os sonhos... vivam os velhoses

Já não há velhoses nem coscorões como antigamente. A massa de abóbora dá muito trabalho e exige ciência apurada na hora de cair na frigideira para fazer os filhoses. Em Lisboa ninguém sabe o que é isso de velhoses e em Santarém sabem, mas as lojas de proximidade estão às moscas porque os supermercados são mais que as moscas.

Na passada terça-feira, último dia do ano, caminhei por Lisboa e entrei nas principais pastelarias da antiga e bela cidade de Lisboa, há procura de velhoses. E não encontrei. Foi na pastelaria Mexicana que fui mais bem recebido, e me deram conversa três senhores idosos que trabalhavam ao balcão com ar atarefado. Tive que repetir o nome duas vezes em vários casos porque sempre entendiam filhoses em vez de velhoses. Com um sorriso rasgado, simpático, um dos mais novos do grupo da Mexicana disse-me que nunca venderam velhoses naquele balcão. "Deve ser algum frito tradicional de alguma região do país", afirmou o mais velho e igualmente simpático balconista da Mexicana, procurando consolar-me depois de lhes dizer que já tinha corrido Seca e Meca e não tinha encontrado o que procurava. O atendimento na Versalhes, no Galeto, nas pastelarias do Rossio e da Avenida de Roma foram um ver se te avias, sinal dos tempos em que o trabalho de balconista de pastelaria é uma roda viva, como aliás em muitas outras profissões.

Neste meio tempo liguei para quem estava do outro lado do telemóvel e fiquei a saber que o que eu tinha visto nas grandes superfícies comerciais da capital do país, por onde andei também em excursão, e depois nas pastelarias, repetia-se na capital do Ribatejo; com uma diferença, a mercearia no centro da cidade de Santarém, onde costumo comer velhoses de abóbora (também os há de cenoura e são igualmente bons) estava às moscas, e o dono do estabelecimento estava desolado porque para ele já nada é como dantes.

Como é evidente as grandes superfícies comerciais aproveitam o hábito dos portugueses seguirem o ditado de "onde mija um, mijam dois ou três", e toca de correrem todos para os espaços onde é muito mais fácil e simples encher o carrinho das compras e a variedade é muito maior. As lojas tradicionais que não têm uma lista de amigos, não fazem marketing de proximidade, não sorteiam um presunto na altura do Natal, não oferecem velhoses nem coscorões, essas estão condenadas, mais tarde ou mais cedo vão morrer na praia, mesmo que saibam nadar.

Portugal é um quintal, um jardim zoológico em obras, e acho engraçado que os meninos e os velhos da Versalhes e da Mexicana fiquem de boca aberta e sorriso escancarado quando lhes perguntamos se já não têm velhoses, e respondam, quando respondem, que não sabem o que é, e ficam a rir-se como se tivessem acabado de ouvir uma pergunta de um chimpanzé que aprendeu a falar com os visitantes do jardim zoológico. "Ah! o que você quer são sonhos , isso temos, estão ali", ouvimos algumas vezes como se os sonhos pudessem competir com os velhoses.

Depois deste episódio fui saber por que razão, até na nossa região, não há muito quem venda velhoses. Eis o motivo: a massa dá muito trabalho e é preciso ter um bom pasteleiro que não facilite, ou os velhoses ficam uma miséria e depois ninguém os quer. Fiquei a saber ainda que o mesmo se passa com os coscorões: aqueles lisos e estaladiços foram substituídos por uns de massa grossa, que se comem como uma sandes, porque os coscorões à antiga têm que ser fritos com a mesma massa dos velhoses, e precisam igualmente de um pasteleiro à antiga.

A minha mãe era um desastre, tal como eu sou, com as mãos, tanto a partir copos como pratos, e o mais que vier às mãos. Mas sabia fazer e fritar velhoses como ninguém. Ainda hoje os meus filhos falam dos velhoses da avó. Não há melhor maneira de festejar o Natal e a entrada de um novo ano que recordar os que partiram e que esperam por nós mais tarde ou mais cedo.

Neste final e início de ano vi-me a reler livros de uma vida de Rosa Montero (A Louca da Casa e A ridícula ideia de não voltar a ver-te), Lêdo Ivo; (Confissões de um poeta), Ana Hatherly (Tisanas), Jorge de Sena (Sinais de fogo), David Mourão Ferreira (Um amor feliz), Ovídeo (Metamorfoses e  Arte de Amar), Baptista Bastos (Viagem de um pai e de um filho pelas ruas da amargura), Camilo Castelo Branco (A queda de um anjo), Rainer Maria Rilke (Uma biografia sobre Rodin de quem foi secretário) Francoise Gilot (Uma Vida com Picasso: uma biografia que já li dezenas de vezes ao longo dos anos e que continua a ser inspiradora de um tempo e de algumas vidas que me fascinam e que me fazem continuar a viajar em corpo e espírito) e Marguerite Yorcenar (a Obra ao Negro ainda é o livro que eu mais admiro pela genialidade da escrita e da trama). Claro que falo de releituras de parte destes livros, mas o pretexto é falar deles para quem no início do ano procura referências literárias e não sabe para que lado se virar). JAE.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Em defesa de Marcelo Rebelo de Sousa e do Ministério Público zurzidos por Jorge Lacão

Jorge Lacão retirou-se da política activa mas apareceu recentemente com um artigo de opinião a desancar o Ministério Público e o Presidente da República. Tudo leva a crer que o ataque tenha a ver com a nomeação de Almeida Guerra para Procurador Geral da República e a quase certeza que José Sócrates vai mesmo a julgamento.

Jorge Lacão assinou recentemente no jornal Público (edição de 26 de Dezembro) um artigo em que acusa o Ministério Público de sempre perseguir “a ambição de se constituir um estado dentro do Estado”. Depois das críticas generalizadas à classe política, descarrega ainda em cima do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, escrevendo esta pérola sobre o “Estado de direito à deriva”, título que deu ao artigo que estamos a citar: “Perante este cenário pessimista, mas não menos realista, seria de esperar que um Presidente da República, principal garante do funcionamento das instituições democráticas, se mostrasse particularmente vigilante face às crescentes ameaças à integridade dos princípios mais estruturantes do Estado de direito”. E acaba o artigo a classificar o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa como se ele fosse o culpado do desastre em que vivemos, lamentando por fim que a nossa República não tenha “servidores corajosos”.

Uma pessoa lê e não acredita: Jorge Lacão só fez política nestes últimos 50 anos. Foi quase tudo na vida pública com a camisola do PS, incluindo ministro, Secretário de Estado, vice da Assembleia da República, deputado até se cansar da política. Quando se iniciou, foi durante anos uma espécie de secretário particular de Mário Soares, o que diz bem da escola em que se formou. Resumindo, se há políticos que fizeram e dormiram na cama da República portuguesa, Jorge Lacão foi um deles. Não estou a criticar; estou a dar conta de um facto. O que leva Jorge Lacão, retirado da política por vontade própria, depois de fazer o seu caminho, a reaparecer nas páginas de um jornal a desancar o Ministério Público, prevendo uma “catástrofe” em resultado do descrédito das nossas instituições, e acusando o actual Presidente da República de estar “do lado errado da história (...) vergado a uma ideologia populista (...)  que sopra do lado da extrema direita” ?

É claro que não estou à espera que os leitores me respondam, muito menos Jorge Lacão, que foi sempre eleito deputado pelo distrito de Santarém, mais tarde pelo de Lisboa, algumas vezes com o meu voto. Tenho, no entanto, uma “desconfiança certa”, como dizia o meu avô materno, que depois de um “grão na asa” tinha algumas frases consideradas interessantes e que ficaram na memória popular do povo da minha terra: a nomeação de Almeida Guerra para Procurador Geral da República está a deixar os cabelos em pé a muita gente. Teme-se que José Sócrates vá mesmo a julgamento e que caia o Carmo e a Trindade porque vai lavar-se muita roupa suja que já devia estar no lixo ou arrumada no armário. O artigo de opinião de Jorge Lacão não mereceu qualquer referência dos habituais comentadores políticos da nossa praça. Mas não é de estranhar. Lacão ataca o Presidente da República e o Ministério Público, mas não diz ao que vem nem ao que vai. É como se Lacão estivesse agora a iniciar-se na vida política, a posicionar-se ao lado dos cães de guarda da República, contra todos os malfeitores que se aproveitaram do Estado e da Justiça desorganizada para esconder dinheiro em envelopes nos gabinetes de trabalho, ou viverem do dinheiro recebido em envelopes dos seus motoristas, entre tantas malfeitorias que se contam e nos enchem de vergonha. 

Jorge Lacão foi considerado um parlamentar brilhante, vai certamente ficar na História do Partido Socialista e do país por ter ocupado cargos de relevo. É uma tristeza lê-lo num jornal de referência a mandar bitaites contra o Presidente da República que, como todos sabemos, está em final de mandato e é tão responsável pela má governação do país e da Justiça como Jorge Lacão é pela proveniência dos 80 mil euros que o chefe de gabinete de António Costa tinha escondido em envelopes e que obrigou o ex-primeiro ministro a pedir a demissão num caso que nos envergonha, como país, até ao tutano. JAE.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Mensagens de ódio contra a comunicação social são um perigo para a democracia

Há uma campanha de mensagens de ódio contra os meios de comunicação social que não são espontâneas. A normalização de estados de ódio é o perigo mais patente para uma democracia, revela estudo publicado na vizinha Espanha que, como é evidente, tem reflexos que atingem todos os países onde há democracia.  


Na passada semana fiz-me caro ao receber um telefonema em Madrid, onde fui comprar dois livros e visitar duas exposições, na véspera do fecho da edição de O MIRANTE. Lembrei-me que não tinha a crónica escrita e desabafei com o editor que não me apetecia nada apurar o caldo dos textos que tenho sempre, mais ou menos, preparados e adiantados. Recebi como resposta: deixe estar; o jornal vai ficar com muito texto de fora e assim aproveitamos a última página para publicar notícias. E assim foi. Desliguei do assunto e engoli a desfeita. Um dia destes vou ouvir dizer, já com os olhos semicerrados, que o cemitério está cheio de pessoas insubstituíveis. É bom ter quem nos vá abrindo os olhos antes de os fecharmos definitivamente.

O MIRANTE publica nesta edição a segunda parte de uma entrevista com o jornalista do DN João Céu e Silva. Há razões para conversar com ele que vão da sua experiência como jornalista até à sua carreira como biógrafo e romancista. Dou nota da entrevista para lembrar que nesta altura o DN tem cerca de dúzia e meia de jornalistas, o que diz bem do estado a que chegou o jornal centenário de referência em Portugal que resistiu ao passar do tempo. O pretexto para falar deste caso é também a insolvência da empresa dona da revista Visão e Exame, as propostas de rescisão amigável no jornal Público, e a forma como o falso jornalismo televisivo está a querer ajudar a acabar com a profissão mais bela do mundo. À excepção do Correio da Manhã e do Expresso, o panorama do jornalismo português ao nível dos grandes meios está pelas ruas da amargura. Como a profissão está em decadência, não há novas fornadas de jornalistas que daqui a uma década, no mínimo, ocupem o lugar daqueles que ainda fazem o trabalho de casa, embora cumprindo apenas o mínimo dos mínimos. A distribuição está definitivamente nas mãos de uma só empresa, as gráficas para lá caminham e as tiragens começam a ser insignificantes, o que, lamentavelmente, vão levar à falência da maioria dos títulos que ainda resistem (O MIRANTE, por exemplo, já é impresso em Espanha há mais de um ano por falta de soluções em Portugal). Ao contrário do que se esperava, a imprensa local e regional vai pelo mesmo caminho, por mais estranho que pareça.

Um estudo, que também chega de Espanha, que em termos de imprensa escrita é das mais fortes do mundo, prova que há uma campanha de mensagens de ódio contra os meios de comunicação social que não são espontâneas.  A conclusão surge na sequência de uma investigação que analisou mais de nove milhões de mensagens nas redes sociais. O trabalho, dirigido por investigadores da Universidade Internacional de La Rioja (UNIR) e com a participação de académicos de outros sete centros, descobriu padrões de escrita, horários e dias em que as mensagens de ódio são recebidas nos meios tradicionais na Internet, tanto na rede X e Facebook, como nas suas próprias páginas. O resultado do estudo é uma descrição da situação que enfrentam os media espanhóis desde há uns anos. Nas plataformas analisadas, as mensagens são maioritariamente de ódio e uma grande parte são mensagens de desprezo, insultos e ameaças. O estudo converteu-se, este ano, num monitor permanente que analisa, dia a dia, o ódio contra os meios de comunicação tradicionais. A monitorização classifica o ódio por intensidade e categoria. Isso permite ver se, num determinado momento há mais ataques contra mulheres, imigrantes, minorias sexuais, políticos, etc. Também analisa a intensidade porque as mensagens com ameaças podem ter consequências legais e os investigadores descobriram que milhões de mensagens menos importantes acabam por criar um problema para as sociedades, porque permitem incorporar o ódio na cultura. "A normalização de estados de ódio é o perigo mais patente para uma democracia”, refere o investigador. JAE.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

O trabalho, dançar em Paris, Milan Kundera e à memória de José Manuel Roque

A reabertura da catedral de Notre Dame, o trabalho de jornalista, a morte que existe para alimentar a eternidade, e outras palavras roubadas ao quotidiano dos últimos dias.

Já vou em quatro horas de trabalho a montar uma entrevista quando recebo no telemóvel fotos de uma neta, com meses de vida, a chorar no momento em que prova a sua primeira comida sólida, uma sopa que, pela aparência, deve estar muito boa, mas para ela deve saber a amêndoa amarga, uma vez que até agora só conhecia o sabor do leite da mãe.

A meio da manhã recebo a notícia da morte do empresário e amigo José Manuel Roque, cujo internamento no Hospital tenho vindo a acompanhar; nos últimos dias o seu coração batia como o de um passarinho, diziam os médicos da unidade hospitalar onde estava internado. A última vez que estivemos juntos, se bem me lembro, foi no Tribunal de Santarém, onde foi minha/nossa testemunha abonatória, num caso que envolveu um personagem manhoso. Ficamos a dever-lhe esse favor que, agora, só lhe poderei  pagar na eternidade.  

Antes de me mandar à entrevista como um leão, velho e um pouco cansado da jornada, mas ainda com as garras afiadas, andei a navegar nos vários endereços de email onde tenho guardado dezenas de currículos para ajudar a equipa a escolher novos colaboradores.

Ainda trabalho textos de entrevistas de vida, mas recuso-me a fazer entrevistas de emprego. Chega. Não quero pensar no tempo em que comi a primeira sopa, mas também não quero chegar à idade do empresário José Manuel Roque e ainda andar à pesca, sabendo que o que vem à rede é peixe mas nem todo é de confiança.

Vou à cozinha de hora a hora beber café das velhas e mordiscar qualquer coisa. A televisão é toda catedral de Notre Dame, que, neste dia, volta a abrir ao público depois do grande incêndio que comoveu o mundo. Vou lá todos os anos, mas é muito raro entrar na Catedral; o meu destino é um lugar a 100 metros do monumento onde se dança numa cave com música ao vivo e se fala em várias línguas. O espaço é pequeno, mas é único, como uma catedral. Lá dentro só sobrevive quem dança, quem vai para transpirar e conhecer gente que, tal como eu, está de passagem pela cidade e não gosta de abanar o capacete, mas de música de jazz ou dos anos sessenta. A primeira visita à Catedral foi há muitos anos, e serviu na altura para ficar por lá cerca de cinco minutos a ouvir o silêncio, que depois fica na memória durante o resto do ano, até voltarmos aos lugares onde somos felizes. Antes e depois do incêndio voltei a dormir lá por perto num daqueles pequenos hotéis que servem às mil maravilhas só para descansar um fim-de-semana.

Pela primeira vez o texto da entrevista que estou a montar saiu do gravador directamente para o computador em letra de forma graças à ajuda da IA e do Fábio Oliveira. Amanhã vou levar a novidade a toda a equipa. Veremos quem, depois desta descoberta, vai continuar a achar que não pode confiar nas tecnologias. Mesmo assim vou chorando por não poder gozar a luz do dia de sábado, agora que já são quase seis da tarde, e só trabalhei, e comi, e falei ao telefone sobre trabalho.

À noite fui a Corroios jantar a uma colectividade a convite de um amigo, mas com um pavilhão dominado por japoneses que ofereceram a comida. A vida nas colectividades é igual em todo o lado, só muda nas terras que perdem habitantes, têm as casas a cair, não há cidadania activa, estão entregues a dirigentes políticos analfabetos.  

Quando cheguei a casa vi um documentário sobre Milan Kundera, um dos meus escritores preferidos. Ultimamente tenho andado a aproveitar todos os minutos para reler a sua Obra, e em alguns casos ler pela primeira vez alguns dos seus títulos. O documentário também é para voltar a ver. Às quatro da manhã vou para a cama, mas continuo a ler "A Arte do Romance", onde o realizador do documentário foi buscar muitas frases que alimentam o filme sobre a sua vida e o seu pensamento. Não tenho sono, e acho um desperdício dormir com "A Valsa do Adeus", "A Brincadeira" e os dois volumes de "A Insustentável Leveza do Ser", à espera em cima da cómoda, embora com as marcas do tempo. Foi por causa da adaptação para cinema deste romance que o autor se zangou com o mundo, deixou de dar entrevistas e prometeu que mais nenhum dos seus romances serviriam outros interesses que não a leitura. No entanto, foi o filme que lhe deu projecção mundial, que fez com que o seu nome seja hoje muito mais popular, embora a Obra magnífica. “O artista deve fazer crer à posteridade que não viveu”. A vida privada de um homem e o seu rosto não pertencem ao público”. “Do esboço à Obra o caminho faz-se de joelhos”. “São precisas várias vidas para fazer uma só pessoa”. “O quarteto op. 131 ( de Beethoven) é o máximo da perfeição arquitectónica”. E, se bem me lembro, nessa noite de sábado sonhei pela primeira vez que dormi dentro das páginas de um livro, muitos anos depois de ter alimentado a ilusão que um dia podia encontrar Milan Kundera a passear em Paris, à beira do rio Sena, folheando livros e perguntando o preço das gravuras antigas. JAE.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Ministra da Cultura esteve em Santarém mas não teve que prestar contas

A ministra da cultura Dalila Rodrigues esteve em Santarém a acompanhar o primeiro-ministro Luís Montenegro mas chegou tão cedo que se passeou entre convidados como um escalabitano em dia de festa. Os jornalistas e os que fingem ser jornalistas ficaram todos nas covas; ninguém lhe perguntou que novidades é que ela tem para a capital do gótico.

Viver num meio pequeno parece uma desvantagem para quem nasceu numa grande cidade, mas para mim é um engano que sai caro. Sei do que falo porque tive a sorte, e ainda tenho, de viver os dois mundos nos últimos trinta anos depois de comprar casa numa grande cidade antes de me mudar para lá, embora nunca definitivamente. Uma das razões para gostar de viver num meio pequeno é conhecer-me melhor, sabendo que sou permanentemente observado e julgado. E nos meios pequenos as pessoas são tão afectuosas como podem ser cruéis; dificilmente existe o meio termo. Se uma pessoa vinga na vida e com isso a comunidade também ganha, por que ele sabe distribuir o que tem, seja em bens materiais ou simpatia e carinho, não há quem não o trate por primo, vizinho, amigo, entre outros mimos que a linguagem permite. Se a pessoa tem um azar e não vinga, faz má figura nos negócios ou tem uma família complicada, todos lhe chamam nomes feios ou dizem em jeito de desdém que deu o passo maior que a perna.

Conheço este desafio desde os meus catorze anos quando comecei a desenhar a minha vida futura no caminho que fazia sozinho da vila para casa, já noite alta, depois de ver televisão ou jogar bilhar na colectividade da terra. E já nessa altura ao ditado “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”, eu acrescentava o ditado: “sabendo do que te ocupas, saberei para onde vais”.

No dia em que reabriu a igreja de São João de Alporão, em Santarém, fui até ao local ver a festa mas não me misturei. Embora o espaço em frente da igreja seja pequeno, chegou para passar despercebido, encostado a uma parede. Pude assim observar sem ser observado até me fazer ao caminho de volta à sede do jornal. Mas só saí depois da cerimónia já ir a meio dentro da igreja, que encheu até às costuras, o que me deu a possibilidade de também reparar no que mais me interessava na paisagem humana. 

Enquanto fiz o meu papel de jornalista de folga, fui desafiado por um cidadão a dar uma volta ao edifício para o ouvir dizer que o beirado da igreja mostrava que havia várias falhas no telhado, que os milhões gastos na obra não deram para terem mais cuidado no cimento que espalharam nas paredes (que a visão de quem passa na rua não alcança), para além das severas críticas ao facto de não terem colocado os leões de pedra à entrada do monumento, uma vez que são parte da memória do local (vou ficar por aqui porque o homem parecia mesmo um fiscal das obras).

Cheguei ao templo a tempo de ver a Ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, a conviver como um à vontade que não é habitual num membro de um governo, e tiro-lho o chapéu porque não a vi ser confrontada com as políticas centralistas dos governos da nação, de que Santarém tem bastantes queixas, e muito menos a ser questionada sobre políticas públicas para a cultura. A anunciada presença e iminente chegada do primeiro-ministro fez da ministra da cultura uma simbólica figura da hierarquia dos poderosos que mandam nisto tudo. Políticas à parte deu para perceber que o novo presidente da câmara de Santarém, João Leite, ganhou estaleca e não deixa mal quem foi substituir. Luís Montenegro deu por isso e do que ouvi, com ouvidos de tísico, já que o som mal chegava cá fora, os caminhos para os gabinetes de Lisboa estão escancarados. Agora é preciso saber aproveitar.

Como é habitual no final do dia fui dormir a Lisboa, mas no dia seguinte já fui dormir à Chamusca, embora de verdade eu esteja noite e dia sempre na região, seguro que nem um barco preso a um salgueiro. Não acabo esta crónica sem contar que me perguntei o que fui fazer à inauguração da nova igreja de São João de Alporão, se a intenção era encostar-me a uma parede. Acho que fui à procura, que é aquilo que eu melhor sei fazer, embora, se eu soubesse onde está o que procuro, não andaria certamente à procura. JAE.