quinta-feira, 27 de abril de 2023

O chão da terra e o 25 de Abril

Se não fosse o 25 de Abril hoje seria um emigrante, ou ex-emigrante, pobre como muitos milhões de portugueses. Sou pobre na mesma porque não enriqueci com o 25 de Abril. Mas ninguém me leva preso por exercer uma profissão onde posso chamar habilidoso a um advogado e idiota a um político.


Para o bem (jamais para o mal, mesmo nas situações difíceis) o 25 de Abril de 1974 foi a vitória da democracia em Portugal e a vingança contra um mundo de pessoas bafientas que mandavam na nossa vida como se alguns de nós fossemos animais de palheiro. Antes de 1974 o mundo em Portugal era a preto e branco. Depois foi ganhando um colorido que cada um pode contar à sua maneira; o caminho não tem sido fácil e a prova é este Governo de António Costa que nos governa cheio de rapazes atrevidos que fazem do Estado uma pensão de segunda, onde se encontram à noite com as/os  amantes antes de chegarem ao lar doce lar.

Ando a ler apaixonadamente um ensaio biográfico de Pina Bausch, que só vi dançar uma vez, cuja vida e obra me fascina, mas não vou encher esta coluna com citações nem sequer falar do livro. Estou de regresso de uma pequena viagem e, ao chegar a casa, mergulhei no livro durante cerca de uma hora e já quase madrugada mergulhei no sono. 

Chegar de viagem e pegar num livro que conta a nossa viagem parece um pouco estranho, mas foi isso que aconteceu. Em três dias por Coimbra e Braga almocei à beira do Mondego com duas jovens mulheres ligadas à literatura, que me deram uma lição sobre o quanto é importante não desistir de aprender a ver sempre mais, a ver mais e a sentir mais, como Susan Sontag clamava nos anos sessenta quando Portugal ainda era um país de gente a pão e água.

Depois deste encontro fui revisitar Coimbra com um amigo que nasceu e vive lá, sempre encantado com a sua cidade de nascimento, como eu pelos recantos da minha terra, pelo respeito que sinto ao pisar o chão do Convento de S. Francisco onde foram enterradas dezenas ou centenas de almas há cerca de mil anos.

Em Braga dormi pela primeira vez no Convento de Tibães, onde já tinha ido mas de onde fugi em tempos como um monge fugia da sua cela. Almocei no centro da cidade com um jornalista amigo que conheço há mais de 40 anos e com quem mantenho uma ligação afectiva de quase irmandade. Ele preocupa-se comigo como se fosse da sua família, e vou ao seu encontro como se sentisse obrigação de o abraçar de vez em quando para não me deixar conquistar pelo excesso de cultura e de vida, pela sobreposição de interesses, pela permanente perda de agudeza da experiência sensorial que tanto se pode aplicar naquilo que nos liga a um livro como ao que nos liga a uma pessoa que é nossa amiga, embora não entre na nossa casa de família, e vice-versa, embora habitemos uma casa comum onde não moramos: “vemos e já é muito”, como disse o Mestre de Santa Marta.

Nesses breves dias comi e dormi por terras de Viriato, fui jantar a casa de uma família que conheço mais com o coração que com os olhos. Fui tão bem tratado que, pela primeira vez na vida, achei que podia ter uma casa a Norte onde certamente seria tão feliz como sou nas minhas casas a Sul. Reencontrei uma pessoa, que não me conheceu olhando-me nos olhos, mas a quem abri a memória com as seguintes palavras do livro de Pina Bausch: fomos amigos comuns de uma pessoa que enterramos há muitos anos, que “num mundo de desatenção e alheamento era alguém que viu mais, ouviu mais e sentiu mais”. E o abraço que demos na despedida, sobre o olhar atento do amigo comum que nos reuniu na sua casa de família, com toda a família, trouxe à lembrança a seguinte frase: no dia em que pensarmos que sabemos como as coisas funcionam devemos evaporar-nos imediatamente porque certamente já seremos uns grandes chatos junto de quem nos rodeia.

Esta crónica é sobre o 25 de Abril e o dia da Liberdade, embora não pareça. Se não fosse o 25 de Abril eu hoje seria um emigrante, ou ex-emigrante, pobre como muitos milhões de portugueses. Sou pobre na mesma porque não enriqueci com o 25 de Abril. Mas ninguém me leva preso por exercer uma profissão onde posso chamar habilidoso a um advogado, idiota a um político e, mais importante que isso, posso continuar a denunciar os que se servem da democracia e se fazerem de parvos para beneficiarem impunemente das grandes e bondosas liberdades permitidas pela Revolução dos Cravos, que permitem uma corrupção rasteira que muitas vezes é tão prejudicial ao país como a do colarinho branco. JAE.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Há casas desocupadas que só serão arrendadas por cima dos cadáveres dos seus donos

A Constituição da República diz que "todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar". O Governo de António Costa prepara-se para que a classe média abra mão das casas de família para resolver o problema que os políticos varrem para debaixo da mesa há meio século.


A população portuguesa está a gritar por uma política de habitação que lhe permita arrendar ou comprar casa a preços decentes, isto é, de acordo com o que ganha e a economia do país em que vive. Infelizmente a habitação deixou de ser um problema do Governo a seguir ao 25 de Abril de 1974 como demonstra a história da nossa democracia. As autarquias, que tinham um papel fundamental na política de habitação, demitiram-se das suas responsabilidades e gastam o dinheiro em festas e touradas como se vivêssemos no melhor dos mundos. Ninguém investe em habitação social com o dinheiro fácil que recebe do Estado e dos contribuintes. Bem mais de metade do orçamento das autarquias é para gastar em recursos humanos, embora uma boa parte dos serviços tenham sido entregues a empresas intermunicipais como é o caso da recolha do lixo e do abastecimento de água. O problema é que muitas das autarquias não se reformaram, não fazem planos para o futuro, não cumprem o seu papel de guardiões da sua população; limitam-se a gerir o dinheiro como se fossem os Donos Disto Tudo. As obras que se vêem por aí são alcatrão em cima de alcatrão. Há orçamentos em festas anuais, repito, anuais, que davam para construir todos os anos uma dezena ou duas de casas a preços acessíveis para arrendar a famílias mais carenciadas. Em vez disso, o dinheiro gasta-se num quadro de pessoal que, em muitos casos, é o dobro do que era preciso; noutros casos em obras de fachada.

Sou do tempo em que comprar casa era um objectivo de vida; já nessa altura, há meio século, se sabia que nos países da Europa desenvolvida, os jovens, assim que atingiam a maioridade, tinham o apoio do Governo para comprar uma casa e tornarem-se independentes. Meio século depois do 25 de Abril Portugal continua um país de políticos trapalhões que, em alguns casos, começam a pôr em causa os valores da liberdade como acontecia no tempo de Salazar. As autarquias mais pobres são aquelas que mais gastam em festas e festarolas e investem menos no tecido social para fixar população. Os socialistas que estão no Poder, que agora querem acabar com o excesso de alojamento local, são os mesmos que aprovaram e vão aprovar a construção de dezenas de hotéis nas grandes cidades, subjugados aos grandes interesses dos grupos económicos estrangeiros que dominam a actividade turística.

Obrigar as famílias a arrendar as casas que têm vagas, ou que só utilizam esporadicamente, é uma política muito mais ousada e autoritária que no tempo de António de Oliveira Salazar. O homem deve estar a rir-se no túmulo. Os socialistas portugueses que nos governam querem que o problema da habitação em Portugal se resolva obrigando os proprietários a arrendar as casas que futuramente vão pertencer aos seus filhos e netos; não aproveitam os fundos comunitários para construir habitação em conjunto com as autarquias; não apoiam os jovens no pagamento dos juros junto do banco público para a construção de casa própria; não criam políticas de incentivo como se faz em todo o mundo; deixam a cada entidade bancária a possibilidade de explorar os empréstimos bancários para casa própria como se vivêssemos todos em Miami ou num qualquer território das grandes Américas onde as desigualdades são pornográficas.

É minha convicção que a lei que o Governo vai criar nunca será implementada. Há pessoas que preferem que passem por cima do seu cadáver que abrirem mão da casa dos avós ou dos pais que está vazia, mas é lugar de memórias e de férias ao longo do ano.

Nota final: esta edição de O MIRANTE conta duas histórias que envolvem o Serviço Nacional de Saúde que mereciam entrar pela casa de família de todos os que ganham a vida na política e com a política. É inadmíssivel que vivamos num país que trata assim os seus cidadãos. JAE.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Relatos sobre a vida incerta dos empresários portugueses

Camões foi soldado raso, calejou os dedos a puxar adriças, tressuou a dar à bomba ouvindo descomposturas e impropérios dos mestres das naus em que viajou. O discurso do presidente da AIP no aniversário da associação não falou de Camões, mas lembrou que quem governa nos dias de hoje nunca teve vida incerta nem cheia de baldões e rica de polpa como o poeta autor de “Os Lusíadas”.

António Valdemar, um dos nossos melhores jornalistas culturais, certamente o mais sábio da actualidade, publicou recentemente um trabalho sobre Camões que tem um parágrafo que não esqueci apesar do artigo já ter uns meses.  Aquilino Ribeiro, um dos seus biógrafos, evidencia a agudeza de retina insuperável de Camões quando faz a “anotação do real”. Isto só foi possível — observou — por ter sido “soldado raso, sujeito a todos os trabalhos da mareação, calejando os dedos a puxar as adriças, tressuando a dar à bomba e ouvindo, com torva, mas obediente cara, as ordens, descomposturas e impropérios” dos mestres das naus em que viajou. Daí a obra de Camões ser um relato “da sua vida incerta, precária, cheia de baldões e rica de polpa, tanto para o bem como para o mal”.

Não encontrei melhor citação para trazer aqui o texto do presidente da AIP, José Eduardo Carvalho, que na passada semana, no aniversário da associação empresarial, partiu a loiça e falou daquilo que todos se queixam, mas em surdina, num país que, apesar de alguma evolução, continua a ser de gente bem mandada. “É muito difícil contrariar na concertação social algumas propostas e posições governamentais. É um espaço desequilibrado. Também comungo a ideia que nas matérias fiscais e laborais mais sensíveis os governos tomam sempre as dores dos sindicatos”. Já quanto à questão fiscal criticou a política do Governo que “penaliza lucro, poupança e trabalho e em que a excessiva carga fiscal é suportada por mais de quatro mil impostos e taxas, muitas delas com suporte legal discutível”. Por último, recordou que “todas as recomendações e sugestões para ultrapassar os problemas da litigância fiscal e a morosidade do contencioso tributário são ignoradas: transição voluntária para os tribunais arbitrais, limitação temporal dos juros compensatórios, aceitação voluntária por parte da AT da jurisprudência evitando o contencioso e reintrodução do regime de caducidade das garantias”.

Quem fala assim não é gago. Só não se percebe como a classe empresarial continua tão dócil e ajoujada aos interesses dos políticos do momento; à maioria daqueles que, como Pedro Nuno Santos, João Galamba, Hugo Mendes, Mariana Vieira da Silva, entre muitos outros, que nunca tressuaram ou calejaram os dedos, para voltar a citar António Valdemar sobre Camões. JAE.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Os sabujos a lixarem a vida a quem trabalha

O Governo de António Costa acabou de mandar publicar uma lei para acabar com outra lei que nunca foi cumprida. Entre a publicação dos dois decretos-leis passaram oito anos. Esta é mais uma história triste do país em que vivemos.


Uma conversa rápida com um médico do Serviço Nacional de Saúde (SNS) deixou-me mais doente do que estava na altura em que o procurei. "O SNS está perigoso, mata, temos que ter muito cuidado e não só protegermo-nos como estar de olhos na nossa família e nos nossos amigos mais próximos, para os podermos ajudar sempre que pudermos". Esta conversa não é da treta, nem é para encher páginas de jornal; pode ser comprovada lendo jornais mas, acima de tudo, falando com quem precisa do SNS e não tem a quem pedir ajuda na altura em que um médico, ou um enfermeiro, revoltados com o sistema, descarregam as suas frustrações e lutam com as suas limitações, sem protegerem os seus doentes.

António Costa fez um brilharete inventando uma coisa chamada "geringonça", que uniu toda a oposição política à volta de uma ideia e de um projecto de governo para Portugal. Com a maioria absoluta das últimas eleições perdeu-se pelo caminho e hoje parece um fantasma a dar entrevistas para se desculpar dos escândalos em que os seus ministros e pessoas de confiança aparecem ligados.

Pedro Nuno Santos, o ministro da TAP, deve estar nas suas sete quintas a contar os dias que faltam para António Costa naufragar e provar do veneno da derrota. Para quem não se lembra, este antigo ministro era a bússola do Governo; qualquer conversa com um dirigente socialista ia ter ao colo de Pedro Nuno Santos.

A verdade é que com ou sem António Costa estamos entregues aos bichos. Dou um exemplo que me toca particularmente e que está contado de forma resumida nesta edição na página 13.

O Governo criou uma lei que obrigava os beneficiários dos dinheiros comunitários a publicar os seus projectos num jornal nacional, local ou regional da área da sede da empresa. O MIRANTE fez queixa à Provedora de Justiça, Maria Lúcia Amaral, com a intervenção de um advogado, já que a lei que obrigava à publicitação das operações aprovadas nunca foi cumprida. A Provedora respondeu através do seu Provedor Adjunto reconhecendo o problema mas decidindo “não prosseguir com a instrução deste procedimento” tendo dirigido, no entanto, uma “chamada de atenção ao POR Lisboa/CCDRLVT para que, doravante, seja promovida, sem excepções, a publicitação pelos canais adequados de todos os apoios financeiros atribuídos”.

A Provedora de Justiça não só não fez justiça como permitiu que desde a data desta tomada de decisão, em Abril de 2021, até 29 de Março último, nunca tomasse medidas que obrigassem o Governo a cumprir as leis que pediu para serem aprovadas na Assembleia da República. No penúltimo dia de Março saiu uma nova lei em que "o Governo acaba com a publicação obrigatória dos fundos comunitários nos jornais".

Ora aqui está o Estado no seu melhor; aliás, não o Estado mas os técnicos, os burocratas, os manga de alpaca, os sabujos na sua melhor forma, a lixarem a vida a quem trabalha e acredita nos valores da liberdade e da democracia conquistados no dia 25 de Abril de 1974.

Quase 50 anos depois do 25 de Abril as instituições da República foram tomadas de assalto e do SNS à educação, ao emprego, à habitação, bem podemos escolher para que lado é que vamos cair porque, certamente, será sempre para o lado em que os governantes capitaneados por António Costa, com a ajuda da Provedora de Justiça, e de todos os que controlam o Sistema, têm uma espada para nos cortar o pescoço. JAE.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Um escravo virou um escravizado e já não se pode cantar "atirei o pau ao gato"

Uma crónica que não mostra o verdadeiro inferno de calor onde vivi os últimos dias, os livros que carreguei, as chatices de não ter Internet e as saudades de mergulhar no rio Zêzere.


Não sei qual é a importância do rio Zêzere para o caudal da água do rio Tejo a partir de Constância, onde as águas dos dois rios se encontram, mas sei que o Zêzere para mim tem o encanto dos pequenos rios que se podem navegar de canoa, e visitar junto às margens, como se cada enseada ou palmo de areia fosse um pequeno paraíso que a natureza nos oferece sem pedir nada em troca.

Conviver com a água dos rios, e no meio das suas marachas, tem essa mística que pode ser comparada aos prazeres sexuais da juventude. Maria Gabriela Lansoll, a autora de "Um Falcão no Punho", explica isso de outra forma comparando a energia de quem lê um livro como uma espécie de prazer do sexo porque o acto de ler, segundo ela, "penetra profundamente e reproduz". 

Na minha estante há livros e autores que nunca li e com quem nunca tive química. Haruki Murakami é um deles. A culpa é minha, de certeza, mas cada um faz as suas opções e segue os seus instintos; Quando escolho passar o meu dia livre numa enseada do Zêzere, ou no areal do Tejo, a observar as pegadas dos cães ou dos javalis, a procurar pedras que formam pequenas esculturas, a cortar canas para construir pífaros, sei o que ganhei por não ter ficado em casa, por ter trocado o carro pela mota ou pela bicicleta. Sei que vou somar emoções à flor da pele que vão mexer com as minhas opções de vida.


O prazer é um luxo; para o desfrutar é preciso que a nossa segurança não esteja em risco. Roubo a frase a Stendhal que li muito jovem e que agora releio só para treinar a memória. Raros são os autores de outras épocas bem distantes que não são misóginos e reaccionários em relação às mulheres. Nem por isso, acredito, algum dia as feministas vão propor que se proíbam os textos de Ovídio, de Pascal ou de tantos outros que embora tenham escrito livros imortais não conseguiram deixar de tratar a mulher como tendo nascido da costela do Homem. Alterar os textos dos livros para crianças a pretexto de serem racistas, ou conterem termos em desuso, é uma parvoíce digna de gente pouco sábia, principalmente num tempo em que dois minutos na Internet podem ser mais perigosos que a leitura de todos os livros do mundo onde se incentiva "atirar o pau ao gato" ou coisa do género. 

Esta crónica nasceu para abordar um assunto que vai ter que ficar para outra altura; sabem o que é que me aconteceu entretanto? estive um dia a conviver à mesa, e depois palmilhando caminho, com uma ex-jornalista da Globo que recentemente trabalhou com a actual ministra da Cultura brasileira de forma a criar adendas às principais obras de escritores brasileiros que trataram a escravidão nas suas obras como coisa natural. Diz ela, e com alguma razão, que não se deve mexer na Obra mas os editores têm a obrigação de preparar as novas edições esclarecendo, em adendas, porque é que há 100 anos se dizia que as pessoas eram escravas quando se devia escrever, como agora, que eram escravizadas. Os exemplos nunca mais acabam, e alguns deles, para quem como eu não tem tento na língua, nem se considera racista, só depois de ouvidos e explicados fazem realmente sentido e provam (será que provam?) que andamos a aprender até morrer; e morremos sem saber de que terra somos. JAE.

quinta-feira, 23 de março de 2023

Sair de casa duas ou três vezes por ano e só para subir ao telhado

"Sonho com um império onde cada província, cada cidade, seja administrada por um homem justo, temente a Deus, atento às queixas do mais fraco dos súbditos. Sonho com um Estado onde o lobo e o cordeiro bebam juntos, em toda a quietude, a água do mesmo riacho. Mas não me contento em sonhar; construo".


Não sei se Santarém vai ter ou não o futuro aeroporto internacional, que vai ser complementar ao aeroporto da Portela, em Lisboa. Não sei se o rio Tejo vai secar no Verão como um velho riacho ou se Portugal e os portugueses vão ter capacidade para se unir e encontrar uma solução que salve o rio, e as culturas de Verão, e os furos para regar as searas não sequem nem os poços nos quintais fiquem sem água. Não sei se as terras do Ribatejo, que eram ricas em laranjas e laranjais, um dia vão ser só terra de amendoais e nogueirais enquanto comemos as laranjas secas que chegam do Chile e um ou outro ribatejano vai remando contra a maré plantando couves e nabos para vender nos mercados locais. "Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não" e por isso é tão importante cantar os poetas, que não só os choramingas que escrevem versos, como lembrar quem lavra a terra e a semeia, para que muitos de nós, que nem sabemos pegar numa enxada, nem diferenciar uma semente de girassol de uma semente de feijão verde, não cheguemos a velhos tão cegos e pequerruchos como quando nascemos.

Lavrar livros é um termo que gosto de usar quando tenho tempo para recuperar leituras antigas, onde bebi a minha sabedoria de pastor que se prepara para nos próximos vinte anos, se a alma e o esqueleto forem resistentes, sair duas ou três vezes de casa e em todas as vezes só para subir ao telhado.

Por enquanto estou agarrado ao computador, a pôr o trabalho em dia, como se agarrado com unhas e dentes a um corpo erótico quando de verdade cumpro uma missão que não só me vai ajudar a descansar uma boa parte do resto do dia como sei que vai ajudar quem espera de mim o sacrifício do cordeiro.

O que me deu alento para escrever esta crónica, e onde roubei a ideia de que nos próximos anos só vou sair de casa para subir ao telhado, foi a releitura do livro Samarcanda, que tem um pequeno parágrafo que vou deixar aqui para justificar o interesse que mantenho sobre o destino do futuro aeroporto ou do leito do rio Tejo; "Sonho com um império onde cada província, cada cidade, seja administrada por um homem justo, temente a Deus, atento às queixas do mais fraco dos súbditos. Sonho com um Estado onde o lobo e o cordeiro bebam juntos, em toda a quietude, a água do mesmo riacho. Mas não me contento em sonhar; construo".

"Assim como o mar não tem vizinhos e o príncipe não tem amigos", o cronista não tem como saber quais os temas que os leitores de jornais mais gostam de ver tratados nas páginas meio encardidas do papel de jornal. Por isso, em vez de opinar sobre o que cada dirigente político, a começar nos deputados do regime, deveriam trazer para a opinião pública, a mostrar que existem, e que tem opinião, e que não são uns estupores que apenas comem da gamela do Orçamento do Estado em vez disso, recorro aos livros que já li, e agarrado ao computador, como aos cornos de um boi, pergunto onde é que andam esses trambolhos dos políticos que passam o dia ao telemóvel a falar e a fazer negociatas como se fossem os Seljúcidas dos tempos de José Sócrates, João Rendeiro, Zeinal Bava, entre tantos outros. JAE.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Sou grato a quem me pariu

De vez em quando sentimos que a nossa profissão nos consome a vida mas deixa um doce agradável na boca. É o caso esta semana em que não estou a trabalhar à secretária mas nem por isso deixo de trabalhar e pensar no trabalho.


Subir aos céus num A320neon da TAP, à meia-noite, a meio da semana, depois de um dia normal de trabalho, e não sentir a ansiedade da partida, é tudo o que procuro desde que me conheço. Agora já posso dizer que sou capaz de viver numa cabana quando começarem a construir resorts nas nuvens. Não sei quando regresso desta viagem e inspiro-me num livro de Olivier Rolin (O meu chapéu cinzento) para falar com Deus que ficou em terra a desejar-me boa viagem, já que viajo para escrever, “o que implica um desacordo com o mundo”.


A profissão de jornalista permite que falemos do nosso trabalho sem que nos julguem em bicos dos pés. Dificilmente encontraremos nos jornais ou nos livros testemunhos de mestres da carpintaria, correeiros, sapateiros, ferradores, pedreiros, ladrilhadores, entre tantos outros profissionais e profissões. Jornalista tem a faca e o queijo na mão, como se costuma dizer, daí a tentação de se julgar com direito a falar de si enquanto escreve sobre o seu trabalho.

Precisei desta introdução para contar que recentemente vi-me a fechar uma edição de O MIRANTE como nos velhos tempos chegando a casa exausto, sem sono, nervoso, incapaz como noutros tempos de dormir, o que me obriga a passar mais de metade da noite a ler, que é quase como continuar a trabalhar, embora em modo de formação para a batalha seguinte. O mais estranho é que o incidente acontece numa altura em que estou de saída da proa do barco e comecei a desenhar a tal casa nas nuvens para onde quero viajar mais vezes até um dia ficar lá a morar para sempre. 

Sou um jornalista sem grandes méritos que não o de gerir uma boa equipa. Para mim chega, se juntar a esse sentimento de orgulho e gratidão as memórias que guardo de jornalistas como Fernando Piteira Santos, Luís de Miranda Rocha, Baptista-Bastos, António Paulouro, Orlando Raimundo, entre poucos mais, que me passaram no início da profissão, testemunhos inolvidáveis desta vida de servir as pessoas e as instituições sem pedir nada em troca que não seja a liberdade para trabalhar.

Não vou falar de nomes, mas hoje sou tão reconhecido a um conjunto de profissionais que me acompanham nesta jornada, em todas as áreas da empresa editora, como aos antigos amigos e conhecidos a quem roubei, sem eles darem por isso, a alma desta profissão.

A vaidade e a inveja não me assaltam o espírito. Sou grato a quem me pariu por me ter dado algumas qualidades que, entretanto, soube valorizar. O trabalho permitiu-me ainda não valorizar o dinheiro mais do que ele merece. Adoro comer latas de sardinha e de atum em tomate, café e pão com azeitonas, e confesso que não conheço, nem quero conhecer, os restaurantes mais famosos do país e do mundo.

Nunca me deixei corromper nem corrompi. Algumas vezes paguei caro algumas liberdades e ingenuidades. Se hoje sou mais ou menos inabalável também o devo a esses momentos em que ainda não tinha aprendido a cair.

Tal como um bom médico vai para casa todos os dias com a alma cheia por suar as estopinhas para atender todos os doentes, um jornalista que se preze não vai dormir ao fim do dia sem escrever o suficiente para fazer justiça à profissão que abraçou e muito menos vai sonhar para a cama enquanto a dura realidade não lhe passa das mãos para o teclado do computador. JAE.