quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O elogio das Personalidades do Ano 2013 eleitos pelos jornalistas de O MIRANTE

O MIRANTE tem uma história que se confunde com outras histórias de outras empresas e instituições da região. Ao longo dos anos, com trabalho, muita paciência e alguma sabedoria, erguemos um projecto editorial que deve muito aos seus jornalistas mas também aos estrategas que, até agora, têm sabido como financiar o projecto. E como é que se financia um projecto editorial sem vender a alma ao diabo, ou seja, sem depender de Pedro ou de Paulo e não ter que mostrar o jornal a alguém estranho à redacção antes dele seguir para a gráfica?
Esse é o segredo que vem do tempo em que tivemos que aprender à nossa custa, errando, insistindo no uso do verbo querer, reescrevendo o verbo fazer, e acima de tudo perdendo o medo de fazer caminho contra tudo e contra todos fazendo fé na nossa competência e no nosso profissionalismo.
Agora é mais fácil escrever um texto do que há 15 anos ou 20. Agora é mais fácil realizar entrevistas e reportagens. Agora a informação pinga por aí em tudo o que é nariz e até as árvores parece que, em vez de darem laranjas e pêssegos e alperces, parece que vão começar a dar informação de proximidade a confiar nos bruxos de serviço. É mentira como todas sabemos. Basta abrir as televisões e perceber como somos usados e literalmente gozados com um jornalismo abaixo de cão que só tem piorado a cada ano que passa.
Este início de conversa tem uma justificação que me apresso a explicar antes que seja tarde. Andamos todos muito nervosos com o estado do país porque já descobrimos que isto não vai lá com meias palavras nem com boas intenções. Nós somos, nós jornal O MIRANTE, somos o melhor exemplo para mostrar o estado deplorável da nossa justiça, o estado deplorável a que chegaram algumas das nossas instituições, o estado inqualificável a que se submetem alguns organismos públicos que estão na mão de mangas de alpaca e de chantagistas que só sabem o que se passa no seu pequeno circulo de interesses, e que têm uma visão da democracia lida nos alfarrábios dos ingleses e dos alemães, mas praticada como se fossemos território marroquino, ou turco, com as devidas desculpas aos marroquinos e aos turcos naquilo que eles já são mais evoluídos que nós e mais inteligentes que os nossos velhos agiotas.
Esta sala está cheia de gente ilustre que conhece de perto os problemas que nós vivemos e que afectam também as instituições onde trabalha cada um de nós. Mesmo assim não me calo, ou por outra, não falo baixinho, porque a Justiça não funciona para os pobres; o Estado não é bom parceiro dos pequenos e dos médios empresários que são a alma da nossa terra; o país continua a ser o percurso entre assembleia da república e as docas ou, em alternativa, entre a praça do comércio e a assembleia da república com passagem por escritórios importantes.
Não há país para além dos interesses instalados em Lisboa. Não há país que resista aos interesses instalados nos grandes negócios que têm o Estado por trás, ou têm os bancos que o Estado protege, ou o Sistema que o Estado alimenta, para que os seus servidores possam continuar a mandar como monarcas. Não são só os políticos que estão em causa: é o Sistema que nós permitimos que continue a vigorar que permite aos agiotas de serviço, que ocupam os lugares importantes nas grandes instituições do Estado, que boicotam, que fazem gato sapato daquilo que deveria ser sagrado que é o interesse nacional e o dever de lealdade para com os interesses do país.
Um solicitador de execução ou um advogado manhoso por trás de interesses instalados, que podem ou não viabilizar a continuação de um negócio do qual dependem muitas famílias , faz toda a diferença entre um pais civilizado e um país do terceiro mundo. E nós sabemos, nós sabemos que o país ainda tem muitos manhosos, e idiotas, e agiotas a mandarem naquilo que devia ser sagrado e que é fundamental para fazermos a diferença como país e como nação, ou como pátria de muitas regiões e de muitas diferenças, que é aquilo que melhor distingue os homens, os homens que, para além de serem e se sentirem parte de uma comunidade, têm raízes e asas para andarem pelo mundo como andam na rua onde brincaram em crianças.
Ponto final mas sem parágrafo pelo meio. Esta iniciativa da redacção de O MIRANTE é inspirada no trabalho e no exemplo de muita gente que fomos encontrando pelo caminho fazendo caminho. Alguns deles já morreram mas continuam no nosso coração. Outros ficaram pelo caminho mas deixaram marcas.
Não sei qual é o segredo de cada uma das personalidades deste ano para atingirem o sucesso. Não sei mas posso tentar adivinhar. Não há equipas sem líderes; não há evolução sem tumulto; se não formos um exemplo naquilo que fazemos e dizemos não poderemos exigir que os outros que trabalham connosco o sejam; se formos mentirosos e mesquinhos e idiotas é disso que será feita a nossa vida de todos os dias, e é desse veneno que provaremos por muito que tenhamos capacidade para adoçar a saliva.  Se passarmos a vida a fugir por entre os pingos da chuva, e não tivermos corpo e espírito para aguentar com as tempestades, sejam elas secas ou molhadas, não iremos longe nos nossos objectivos de vida.
Esta quarta-feira, na nossa habitual reunião de trabalho, tivemos em conta tudo o que lemos neste suplemento onde são publicadas as vossas entrevistas na qualidade de personalidades do ano eleitos pelos jornalistas que ajudamos a dirigir num jornal onde a maioria de nós ainda se sente jornalista de rua e de tarimba.
E é por isso que recordo aqui cada uma das vossas entrevistas porque estão lá as razões para a nossa escolha e, na grande maioria dos casos, as razões para que eu continue, pessoalmente, motivado a dar o meu melhor a este projecto editorial e a fazer tudo para que ele não tenha vida curta como acontece frequentemente na comunicação social de todo o mundo.
Há um segredo para o nosso sucesso que será certamente, por razões evidentes, diferente de todos os vossos que é a nossa ligação com os leitores. Quem trabalha no nosso jornal sabe desde a primeira hora que damos a maior importância aos leitores na vida do jornal. E é por isso, acima de tudo por isso, que todas as semanas e todos os dias temos histórias de proximidade que depois são notícia nas televisões e nos outros jornais, muitas vezes ou a maior parte das vezes já com o selo da nossa marca que, desde há uns anos a esta parte, embora seja local e regional, tem valor e reconhecimento nacional e internacional.
Muitas das nossa notícias são aproveitadas por correspondentes de televisões alemãs e francesas e americanas, por sítios brasileiros e australianos, por jornalistas de secretária da grande maioria dos jornais de Lisboa, que têm os seus profissionais atrás de um telefone, para ficarem mais baratos à empresa, à pesca daquilo que nós sabemos fazer bem na proximidade com os leitores e com os seus interesses, ou os interesses de quem lhes está próximo, porque é da proximidade que nós vivemos e temos êxito no nosso trabalho.
JAE

Texto lido na cerimónia da entrega dos Prémios Personalidade do Ano no dia 20 de Fevereiro de 2014.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Nossa Senhora de Fátima Fonseca

Paulo Fonseca, o presidente da Câmara de Ourém, fez a diferença como político enquanto andou por aí a abrir caminho no PS, no antigo Governo Civil e como candidato à Câmara de Ourém. Fiz-lhe o elogio na altura porque achei merecido. Depois da vitória autárquica em 2009 o homem mudou como só Deus sabe. Nestas últimas eleições Paulo Fonseca só não caiu da cadeira porque Nossa Senhora de Fátima é socialista. Perdeu todo o apoio popular de há quatro anos e valeu-lhe a Santa que terá conspirado a seu favor. Quem não é crente, como eu, dirá que subiu o poder à cabeça de Paulo Fonseca e com isso tem vindo a perder não só a cabeça como a credibilidade.
A passagem das reuniões de câmara públicas quinzenais para mensais demonstraram a irracionalidade da sua governação face àquilo que dantes criticava no PSD. Recentemente mandou perguntar aos jornalistas se precisavam de uma reunião com ele a meio do mês para compensar a falta de informação que saía da reunião pública que ele tratou de eliminar. Como é evidente o senhor presidente da Câmara de Ourém julga que faz o ninho atrás da orelha a todos os jornalistas que circulam à sua volta. E deve achar que não temos mais nada para fazer que atender às suas necessidades de comunicação, logo ele que deixou de comunicar porque as notícias começaram a ser incómodas. JAE

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Desprezo pela classe política

Desertificação e abandono do território já não é conversa só para Trás-Os-Montes e Alto Douro, Alentejo e Beira Alta. Enquanto o concelho de Sintra é o que mais cresce em termos demográficos a meia centena de quilómetros de Lisboa há aldeias que ficam desertas e cujo casario à beira da estrada mete dó.
Com a implementação do nono mapa judiciário e a política de fecho de tudo o que é repartição pública o Governo acaba com o país real e cria aldeias de macacos, que somos todos nós, que servimos para votar de vez em quando e pagar impostos que é aquilo que estes últimos governantes melhor souberam implementar nos seus ofícios de governarem Portugal.
Esta maldade que se anda a fazer pelo país fora fazia sentido se estivéssemos a falar de economias milionárias e de reformas sem espinhas. Mas não é verdade. O que se está a passar é uma afronta à nossa interioridade; ao que de melhor Portugal ainda tem que é um país de gente humilde e hospitaleira, que cria galinhas, lava a roupa à mão, costura os fundilhos das calças até haver pano, bebe água do poço, compra na mercearia do bairro e já começa a sentir desprezo pelos belmiros e pelos espíritos santos como quando no tempo da outra senhora havia desprezo pela classe rica e abastada. 
Faço coro com todos os autarcas que se sentem defraudados com este Governo e alinho com todas as organizações que prometerem dar luta a Passos Coelho e Paulo Portas para que não transformem o país num galinheiro onde, por razões de higiene, não querem viver certos médicos, juízes, jornalistas  e outros profissionais que, no entanto, têm por cá a sua casa de campo. JAE

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Identidade ribatejana

O Ribatejo chegou a ser considerado o Celeiro de Portugal em parceria com o Alentejo. Os tempos eram outros mas a fama e o proveito ficaram. Hoje continuamos a ser privilegiados pela natureza e os nossos campos e terrenos de charneca adaptaram-se às exigências dos produtores que procuram na agricultura a riqueza que perdemos na indústria e nos serviços a exemplo do que aconteceu por todo o país e por toda a Europa. Não há território em Portugal que tenha tanta água; que possua uma terra onde tudo o que se semeia nasce; onde a floresta é uma das mais ricas do mundo devido principalmente ao montado; apesar da falta de governantes à altura para atacarem os incendiários e os especuladores que são donos do mundo plantando e vendendo eucaliptos.
O Ribatejo é o melhor lugar para viver. Não faz sentido que a divisão administrativa do país procure dividir aquilo que andamos tantos séculos a tentar construir e unir. Os ribatejanos são gente de carácter; hospitaleiros; corajosos; audazes e respeitadores das suas raízes. Dificilmente a política conseguirá destruir a hegemonia de um território e de um povo que tem referências por todo o mundo e é reconhecido pelo seu labor e pelas suas tradições.
É para valorizar e mostrar essa identidade, mas não só, que O MIRANTE entrega todos os anos o Prémio Personalidade do Ano a várias figuras e instituições da região. A nossa terra é como uma outra pátria; as nossas tradições são o nosso orgulho; a força do nosso trabalho é o que nos distingue; amor à terra é o que melhor caracteriza e assinala um ribatejano; se nascemos aqui e temos o privilégio de viver e trabalhar no Ribatejo é nossa obrigação mostrar o orgulho e a densidade do nosso bairrismo. Acima de tudo é preciso que cultivemos a imagem de culto que temos pela região que nos identifica muito para além das pequenas fronteiras das nossas aldeias, vilas ou cidades. JAE

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O clube dos homens

Sou um viciado no jogo de cartas. Era adolescente e já me sentava na mesa de jogo ao lado de homens que tinham idade de serem meus pais e tudo tentavam para me fazerem o ninho atrás da orelha. Nessa altura viciei-me para toda a vida no jogo do burro; da sueca; do king e do sete e meio; sempre a dinheiro e com parceiros como o José Joaquim Estorninho que morreu recentemente com 86 anos. Foi nessa época, entre a adolescência e a idade adulta, que o gosto e o vício do jogo constituíram uma das disciplinas mais importantes na minha formação. Aprendi a ganhar e a perder mas mais importante foi a forma como aprendi a ver como os meus parceiros de mesa se comportavam na hora da vitória e da derrota; esse foi o ensinamento mais importante que ainda hoje me faz pensar que contínuo viciado no jogo embora não pratique.
O melhor lugar para conhecer uma pessoa é a uma mesa de jogo. Ter 18 anos e poder bater as cartas na mesa contra adversários que tinham filhos da minha idade foi um privilégio. Sentado numa mesa de jogo sete horas seguidas aprendi a dar valor ao tempo que roubava às minhas leituras; fumando um maço de cigarros durante uma noite de jogatina aprendi a controlar o vício do tabaco; ouvindo dos mais velhos algumas ameaças que incluíam “um murro nos cornos” aprendi a calar a boca quando tenho razão e discuto com pessoas cegas e desonestas.
Um dia vou voltar a jogar as cartas como no início da minha idade adulta. O meu desejo é que seja contra adversários jovens com idade de serem meus filhos. Essa é a minha grande ambição: envelhecer sem ter vergonha do vício de jogar, fumar e beber e, quem sabe, pertencer ao clube do D.I.V.A. ( Departamento de Investigação da Vida Alheia) que é o clube dos homens que se sentam num banco de jardim ao fim da tarde a verem passar as mulheres apontando o dedo a todas as que eles já comeram e às que eles não comeram mas sabem a quem é que elas dão o corpo.
JAE

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A viúva e o alfarrabista

Os portugueses estão espalhados pelo mundo mas é no Brasil que mais se sente a presença portuguesa nos quatro cantos da terra. Um dia entrei num sebo do nordeste brasileiro e visitei um livreiro que é poeta, músico, tradutor e coleccionador. A conversa durou uma tarde inteira sentados a uma mesa ao ritmo que os clientes iam deixando; Chama-se Marco de Faria Costa e durante horas citou de cor versos cantados por Amália Rodrigues e Francisco José; poemas de Mário de Sá Carneiro, Antero de Quental, Camões, Camilo Pessanha, Bocage, Vitorino Nemésio, entre muitos outros
Dona Sónia, com uma trança loira que chegava à cintura, acompanhava a conversa respondendo a perguntas de circunstância mas sempre com um sorriso do tamanho do Atlântico.
Comprei três livros e dois foram oferecidos e com direito a autógrafo. Todos os autores que gosto e cujas edições procuro sempre que viajo eram familiares ao livreiro. 
Sempre que falava do Castelo de Abrantes, do túmulo de Pedro Álvares Cabral, do Convento de Cristo ou das muralhas dos nossos castelos, o livreiro levantava-se, tirava um livro de uma prateleira e acabava a conversa completando a informação sobre a nossa terra e a nossa cultura de oitocentos anos.
O Estado onde ele nasceu e vive é do tamanho de Portugal. A cidade onde mora tem mais habitantes que todo o Ribatejo. Mas ao citar Camões e ao cantar os versos da canção “Olhos Castanhos”, Marco parecia mais português do que eu, mais apaixonado por Portugal que o português que o visitava.
Deixei-o já com o sol a pôr-se na praia de Pujaçara e regressei ao hotel para me preparar para uma noite de leitura. O reencontro numa livraria de um centro comercial numa tarde de domingo proporcionou mais uma longa conversa onde José Saramago foi pretexto para outras viagens pela cultura portuguesa e paixão pelos livros e pela música. Antes de um último abraço quis saber mais sobre a sua vida de comerciante de livros usados: Não tem nada que saber, disse-me, a sorrir; “a viúva é a padroeira do alfarrabista; O resto você já sabe; e está com sorte por me ter encontrado numa fase da vida em que não bebo”.
JAE

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Tempestade

“As traseiras das nossas casas são as nossas tartarugas”. Não sei se isto diz alguma coisa aos leitores desta coluna mas foi a única frase que restou de um caderno de apontamentos de 2013 que está agora algures numa lixeira do outro lado do Atlântico. 2013 deu três cadernos de apontamentos de assuntos profissionais e de pequenos apontamentos literários que me dou ao luxo de produzir quando não tenho mais nada para fazer.
Deitei fora muita conversa de empresário pois 2013 foi farto em encontros com gente do empreendedorismo. Alguns apontamentos em inglês que é língua que não falo e gostava de falar de forma a fazer-me entender. Foram para os anjinhos do cesto dos papéis notas sobre trabalho que davam um livro; “a banca esfalfa-se para emprestar dinheiro mas todos disputam os cerca de 20% dos empresários portugueses que lhes dão confiança. Os outros ou têm garantias reais ou lixam-se”. “Isto é um assalto”, disseram os empresários que saíram em defesa dos seus camaradas apanhados em incumprimento com as Finanças que lançam juros impensáveis a quem se descuida ou o negócio corre para o torto.
“A tecnologia está a esculpir o jornalismo de outras formas que surpreendem”. “Notícia boi que é aquela que a gente acaba de ler e diz mmmuuuuuuhhhhh!!”. A informação tornou-se uma coisa banal e criou a sensação que nós já não precisamos dela”. Ainda sobre a realidade do jornalismo em Portugal: “os jornais nunca tiveram tantos leitores mas também é verdade que nunca tiveram tão poucas vendas”.  
“Os trovões são a poesia do céu”, disse o cabrão para a miúda que estava em casa enquanto ele andava na gandaia por locais onde não se ouviam trovoadas e nem sequer chovia” - excerto de um romance ainda por publicar de um escritor que me pediu o favor de uma leitura critica e que não é o Moita Flores. JAE