quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O burro do Frazão

O Ricardo Salgado, que Deus tem, arreava o burro do Frazão e todos os dias, domingos incluídos, metia-o entre varais para se fazer à estrada do meio até à antiga vinha da família Pestana, ali para os lados da “Cruz do Santinho” nos campos da Chamusca. Lembro-me desse burro quase todos os dias embora já tenham passado muitos, muitos anos, porque para além de morder ainda dava coice bravio. Nesse tempo eu olhava para o burro e via um belo cavalo. Era um jovem que montava um burro com a cabeça cheia da vaidade de quem montava um puro-sangue lusitano. Ultimamente tenho-me sentido burro a puxar a carroça na ida e no regresso do campo que o mesmo é dizer da secretária onde trabalho. E embora me sinta menos majestoso que o burro do Frazão, que Deus também tem no reino dos animais defuntos, a verdade é que o peso da carroça parece cada vez maior e os meus cascos já não aguentam as ferraduras como noutros tempos de burro mais novo.
Entusiasmado nas últimas noites com a leitura de dois livros de Cláudio Magris, “Alfabetos” e “Danúbio”, sempre com tradução de Miguel Serras Pereira, porventura o ribatejano (nascido no Porto) mais ilustre do nosso tempo, encontrei consolação para o burro que me sinto, e de certo que sou com todas as letras, rabo e orelhas, numa página de “Danúbio” onde Cláudio Magris lembra que “é um burro e não um puro sangue de coudelaria que aquece Jesus no estábulo do presépio; Homero compara Ajax, que salva os navios aqueus resistindo sozinho ao assalto dos troianos, a um burro, cuja garupa sob a carga e as pancadas se torna tão grande como o escudo de Telamónio. A força do burro tem a qualidade dos heróis clássicos, a paciência, a tranquila, humilde e indomável constância que não sai do seu caminho e que ascende mais alto do que o arranque nervoso do nobre corcel como Ulisses ascende mais alto que Páris”.
Havia mais para citar, nomeadamente quanto à sexual “vitalidade obstinada do burro que parece vingar todos os humilhados e ofendidos”, mas não há espaço que chegue. Só tenho duas linhas para concluir que nestes últimos dias tenho-me sentido, desgraçadamente, o mesmo burro de sempre, embora com uma majestosa diferença; sou com todas as letras, orelhas e rabo, muito mais o burro do Cláudio Magris que o burro do Frazão, e é isso que vou ter em conta quando festejar a entrada no Ano Novo. JAE

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O espaço onde Moita Flores se apresentou aos escalabitanos

Não esqueço, nem esquecerei, a pompa e circunstância com que Francisco Moita Flores se veio apresentar aos escalabitanos no Café Central já lá vai quase uma década. Foi ele que escolheu aquele lugar para se apresentar à cidade na companhia dos ilustres convidados que encheram o espaço emblemático da cidade de ontem e de outros tempos.
Fechado e vandalizado há cerca de seis anos o Café Central já era. Moita Flores foi o seu último coveiro. O autarca que passou por Santarém como o Quim Barreiros da política prometeu tudo e mais umas botas para pôr Santarém no mapa; do seu trabalho só ficaram propriedades; a compra de edifícios públicos e um aumento da dívida que já era gigantesca no tempo de Rui Barreiro e companhia.
Moita Flores foi o grande estratega para a formação da empresa Águas de Santarém; para a compra do Convento de S. Francisco e do Presídio Militar; grande homem para fazer grandes negócios com o dinheiro público; naquilo em que conta mais a disponibilidade, a arte e o engenho dos gestores foi um fiasco: um digno personagem dos seus livros de ficção.
O exemplo do Café Central é um dos melhores para percebermos como Moita Flores desprezou a cidade e esteve distante daquilo que, de forma tão duvidosa, usou sempre no seu discurso político. Moita Flores foi ao Café Central apresentar-se aos escalabitanos por ser o lugar por excelência da memória da capital do Ribatejo; no pouco tempo que esteve em Santarém deixou que o espaço se tornasse um lugar fantasma, vandalizado e com custos que davam para matar a fome a algumas famílias.
Moita Flores ficou a dever ao centro histórico de Santarém a grande maioria das promessas que fez em campanha política e que caíram em saco roto. O Café Central é o símbolo máximo da falta de vontade que ele teve em trabalhar para cumprir o prometido. JAE

Comentário à noticia: http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=630&id=96535&idSeccao=10985&Action=noticia

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Elogio a Paulo Branco

Tenho um sorriso triste debruçado sobre os jornais onde leio notícias e opiniões sobre lugares considerados sagrados da cultura lisboeta. Sou frequentador de alguns desses lugares desde há mais de três décadas e tenho opinião sobre eles que na grande maioria dos casos não coincide com a opinião da maioria que escreve e “chora” nos jornais e na rádio.
A última novela foi sobre o fecho do cinema King. Passei lá noites memoráveis ao longo destes últimos anos a ver, sozinho nas salas, dos melhores filmes da minha vida; que maravilha que era ficar a ver cinema de autor à meia-noite no centro de Lisboa, em salas que me faziam lembrar as salas de cinema da minha terra e da minha região antes de fecharem também por falta de espectadores!
Aceitei sem revolta o fecho do cinema King como aceitei, sem ter voz para levantar, o encerramento do cinema da Golegã, Torres Novas, Chamusca, Entroncamento, Santarém, entre outros. Se não dão lucro!!!
Agradeço ao Paulo Branco as noites gloriosas que me proporcionou no cinema King fazendo de mim espectador único de centenas de sessões de cinema de autor; agradeço-lhe do coração pelas noites desassossegadas em que me senti personagem dos filmes tal era o sentimento de espanto por estar sozinho a usufruir da projeção de um filme só para mim numa sala para duas centenas de pessoas;  e como era bom digerir todas essas emoções, dos filmes e do lugar, a correr pela Avenida de Roma abaixo até chegar ao Saldanha ainda a tempo de comer um prego e beber uma cerveja no Galeto.
No passado fim-de-semana, morto e enterrado o King, voltei ao Nimas, lugar de visita muito menos regular. E lá estava toda a memória ainda viva do King, incluindo os livros e os colaboradores, e aquele cheiro tão especial e característico que assinala os lugares antigos mas onde ainda se respira profundamente e apetece ficar muito tempo à espera que chegue a hora do filme.
Pedi um bilhete com número de contribuinte e a senhora demorou meia hora a imprimir a factura/recibo. Para não variar fui ver um grande filme numa sala para 300 pessoas onde só estava eu e outra criatura tão fantasmagórica como eu. Alguém sabe o que é que vai acontecer ao Nimas num futuro muito próximo? Ai meus Deus, como eu já sinto saudades do Nimas e quero agradecer ao Paulo Branco o seu amor ao cinema e a sua imensa capacidade para continuar a ser empresário e produtor.
Há por aí alguma autarquia onde os políticos ainda se lembrem do que é a força do cinema e queiram criar uma marca de prestígio para vender ao país e ao mundo ?  JAE

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Palermas do século XXI

Há meia dúzia de “trutas” na política que nos envergonham e mais cedo ou mais tarde acabam com o pouco crédito que os políticos ainda gozam na opinião pública. Quem acompanha as notícias de 
O MIRANTE sabe o que pensamos da antiga Entidade Regional de Turismo e dos seus dirigentes nomeadamente Carlos Abreu e Joaquim Rosa do Céu almas gémeas no Partido Socialista e, pelo vistos, ultimamente também noutros interesses. Com a extinção da tal entidade de Turismo, que nos últimos anos não fez ponta de corno pela região e pelo seu Turismo, a promoção do turismo na região do Ribatejo passou para uma entidade chamada Região de Turismo do Alentejo. O caricato não fica por aqui; os concelhos de Alcanena, Ourém, Abrantes, Tomar, Torres Novas, Constância, Ferreira do Zêzere, Barquinha e Sardoal fazem parte da Região de Turismo do Centro que engloba concelhos como Castelo Branco, Coimbra, Aveiro e Viseu. Definir e aplicar no terreno estratégias locais e regionais de desenvolvimento do turismo para os concelhos da região do Ribatejo, em conjunto com Viseu ou Évora, por exemplo, é a mesma coisa que esperar sentado pela influência da região junto dos lobistas de Lisboa. Com esta lógica de governação ainda ganhamos o prémio de palermas do século XXI.
O que é mais curioso nestas alterações que se vão fazendo nas instituições que nos governam é a forma burra e arrogante como cada um puxa a brasa à sua sardinha. Dou um exemplo; a região de Turismo do Alentejo ficou com a responsabilidade de promover o Turismo em parte do Ribatejo mas os imóveis continuam propriedade da região de Turismo de Lisboa e Vale do Tejo.
O actual presidente da Região de Turismo do Alentejo é um homem do terreno e dá para imaginar quantos quilómetros é que ele deve fazer por semana para poder estar em todas. Se a sua missão já aparenta ser impossível imagine-se o seu trabalho lutando contra as burocracias e os poderes instalados que se adivinham com decisões como aquela que nesta altura impede a Câmara de Santarém de tomar posse da Casa do Campino e que é notícia nesta edição. Mário Soares tem razão; esta gente que nos governa precisa de um abanão. Mas a solução não passa por mandar para casa Pedro Passos Coelho  e elegermos  António José Seguro ou outro qualquer; na nossa opinião passa por reformar a classe política intermédia, esses sim, agarrados ao Poder e aos interesses instalados como a lapa à rocha, tudo contas do mesmo rosário que Mário Soares conhece muito melhor do que nós e não fala porque, para ele, a política já é só espectáculo. JAE

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Um comentário pouco político

Pedro Passos Coelho visitou a redacção de O MIRANTE no dia do fecho da nossa edição de aniversário. O primeiro-ministro vinha de Tomar onde participou numa cerimónia oficial e antes de um jantar em Santarém onde se reuniu com militantes do PSD esteve cerca de meia hora à conversa com os jornalistas de O MIRANTE.
À chegada Pedro Passos Coelho foi recebido pelos colaboradores da área administrativa e financeira do jornal e os primeiros cinco minutos de conversa foi para falar das relações profissionais que o ligavam ao nosso jornal quando ocupava o cargo de administrador da Ribtejo uma das grandes empresas do Parque do Relvão, na Carregueira, concelho da Chamusca.
 Passos Coelho não se fez rogado e depois dos cumprimentos habituais abriu a conversa perguntando se O MIRANTE continuava a manter relações com a empresa recordando as vezes em que foi interlocutor nessa relação que já tem mais de quatro anos.
Aparentemente não há nada de interessante neste comentário. Resolvi contar o episódio por achar que a atitude marca a diferença. Regra geral os políticos no exercício dos seus altos cargos não descem à terra e fingem que não têm passado. Pedro Passos Colho fez exactamente o contrário; Apesar de nos visitar na qualidade de primeiro-ministro fez questão de valorizar a antiga ligação pessoal a colaboradores do jornal e deixou para o fim da visita os assuntos que achamos por bem colocar-lhe e que nos preocupam enquanto profissionais do sector. JAE

Jornalismo de proximidade

Há muitos anos que a luta pela sobrevivência e qualidade do jornalismo deixou de ser uma luta entre jornalistas e fontes de informação. A grande luta do jornalismo, hoje e no futuro, é pelo financiamento das empresas.
Para percebermos a miséria do sistema basta lembrarmos que a classe dos jornalistas já nem se organiza em congresso e que o sindicato é um grupo de profissionais que em algumas manifestações parecem ter chegado à terra vindos de Marte tal é a sua falta de capacidade para se adaptarem aos novos tempos e aos interesses dos profissionais da Comunicação Social de que eles próprios fazem parte.

Com o advento da internet e o crescimento dos canais de televisão a forma de fazer jornalismo nunca mais será a mesma. Portugal, como sempre, vive décadas de atraso em relação a outros países desenvolvidos.
Em Portugal funciona um sistema de protecção dos grandes grupos tanto na comunicação social como noutras atividades económicas. Faz parte de uma certa forma de ser português o culto do miserabilismo por um lado e a fanfarronice por outro dos homens que são donos do dinheiro.
Voltando ao princípio: os jornais que viviam da publicidade fácil das agências, organizados em grupos que tanto facturam publicidade como agenciam a comunicação institucional desses mesmos grupos, tão depressa não vão conseguir respirar. Fechou-se um ciclo na economia mundial e a publicidade, que por obra e graça do espírito santo caía das mãos desses grupos organizados, evaporou-se ou migrou para outras plataformas como os novos canais de televisão. Explica-se assim a morte lenta de muita comunicação social e o medo que se instalou na sociedade portuguesa de que um dia destes já ninguém consegue defender-se com as armas com que é atacado.
Corremos o risco de vivermos numa democracia ainda mais musculada com os jornais e os jornalistas de um lado e a classe política do outro a tentar organizar-se contra os jornalistas?
Corremos. Já estamos a sentir isso. Recorde-se que foi um jornal marginal ao sistema (O Crime) que trouxe a público pela primeira vez o caso da licenciatura de Miguel Relvas que o fez cair em desgraça. Os jornais de referência e os principais canais de televisão fazem manchete todos os dias com assuntos de política contrariando tudo aquilo que é, aparentemente, o interesse do mercado que prefere os
assuntos de sociedade. Há uma luta pelo controlo do poder político em Portugal que envolve os grandes grupos de comunicação social do país. Por isso está na hora de descentralizar a administração pública; de acabar com os interesses instalados nos gabinetes de Lisboa; de acabar com os interesses de uma classe política que, embora a guerra verbal, acaba sempre por se proteger a si própria esteja no governo ou na oposição.

Esta edição de O MIRANTE desmente aqueles que dizem e defendem desde há anos que as empresas de comunicação social já não se conseguem financiar com a publicidade. Hoje, tal como ontem, as empresas não podem organizar-se apenas em função de uma equipa de jornalistas. Têm que pensar numa equipa comercial e administrativa/financeira e acima de tudo numa equipa que faça do jornalismo modo de vida. É isso que fazemos neste jornal. Fazemos mais ainda: procuramos que o nosso produto chegue a um número grande de consumidores e que não só seja lido como comentado e/ou criticado.
O problema é que Portugal é um país de tradições e há muita gente habituada a dobrar o joelho nas horas das aflições e a ver os seus milagres realizados ainda que a seguir a ter dobrado os joelhos tenha que dobrar a língua. Esta edição de O MIRANTE prova que Portugal tem regiões muito fortes que podem e devem ser motores de desenvolvimento do país. Prova acima de tudo que sabemos organizar-nos e que se for preciso saberemos defender contra tudo e contra todos os nossos interesses culturais e territoriais. É um luta de David contra Golias? É sim senhor! Em Almeirim há um tribunal que contraria tudo aquilo que é o exercício de uma democracia num país desenvolvido. São os próprios agentes da Justiça que o dizem à boca cheia.
Nada disto seria tolerável se o Tribunal de Almeirim tivesse processos que envolvessem grupos de interesse que se movimentam noutras regiões do país. A interioridade já não é só o Alentejo profundo ou a região de Trás-os-Montes. Em Almeirim, a 70 km de Lisboa, a justiça faz-se por um canudo.

Para premiarmos a aposta dos anunciantes nas páginas de O MIRANTE vamos continuar a investir no jornalismo de proximidade contratando profissionais que estejam o mais possível junto das populações. Vamos continuar a inventar formas de mantermos o baixo preço do jornal em papel e na internet. Vamos continuar a parceria com outros jornais e vamos aumentar o número de postos de venda; a colaboração com organizações populares; vamos continuar a fazer de O MIRANTE um jornal representativo de cada uma das cidades e aldeias do Vale do Tejo onde cada um de nós tem as suas raízes. JAE

Editorial da Edição do 26º Aniversário de O MIRANTE

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os dias invisíveis

Vou cada vez menos ao café. Corro cada vez mais atrás do trabalho e parece que quanto mais faço mais tenho para fazer. Há dias que parecem invisíveis; chego à noite e sinto que dei um salto e nem me lembro do que comi ao almoço. Tenho tempo para fazer uma piscina regularmente, para ir ao campo fingir que percebo de agricultura; de resto estou sempre ligado ao vício como se a minha vida estivesse agora a começar. Saio de casa de manhã e chego pela noite dentro. Convivo pouco e já quase que nem conheço a maioria das pessoas com quem me cruzo. O exemplo serve não só para a terra onde nasci mas para outras que visito regulamente e das quais me sinto filho adoptivo. Foi, por isso, com surpresa que um dia destes entrei num café da Chamusca e ao dar os bons dias pediram-me um beijo. Como eram duas mulheres dei quatro beijos. Tanto no primeiro caso como no segundo foram pedidos de viva voz. Por isso não me esqueci. E por ser tão pouco beijoqueiro parece que vivi um acontecimento. E, no entanto, beijei apenas duas mulheres que me conhecem da infância e que me viram crescer como eu vi nascer os meus filhos.
Não sou do partido do ministro Rui Machete, nem nunca serei, segundo as minhas convicções. Mas não me custa admitir que tenho mais amigos no PSD do que no PS ou no PCP onde tenho as minhas raízes ideológicas tão velhas como os anos setenta. Vem a conversa a propósito do branqueamento político que se anda a fazer dos governos de José Sócrates. Porra! O homem entalou o país e foi o único responsável pela nacionalização do BPN que é o maior escândalo de corrupção depois do 25 de Abril de 1974. Diz ele com toda a calma que a sua decisão foi ingénua e baseada naquilo que sabia. Pudera! Se a minha avó não morresse ainda era viva. Em vez de um livro sobre tortura José Sócrates devia era escrever um livro sobre boas práticas de governação. E explicar como foi possível endividar o país para chegarmos ao ponto em que estamos.
Sócrates é o espelho da nossa classe política. Por muito mal que governem e contribuam para a nossa desgraça como país haverá sempre quem a seguir faça pior ou venha em defesa do que deveria ser indefensável. Mário Soares, na apresentação do livro de Sócrates, fez questão de salientar as altas notas da sua licenciatura. Já não há vergonha. JAE