quarta-feira, 24 de julho de 2019

De quantas mulheres é que um homem precisa para viver?

Uma semana cheia de encontros com algumas das mulheres importantes da minha vida, como é o caso de Maria de Medeiros, Isabel Huppert, Helena Ortiz e Natércia Freire, que habitam o peito das minhas emoções.

Não sei se tenho o direito de escrever aqui sobre teatro e livros e artistas que me interessam, fascinam ou admiro simplesmente. Não me apetece escrever sobre os problemas da minha comunidade; melhor dito: não me apetece publicar porque material não me falta. 
Esta semana que passou usei todos os meus conhecimentos pessoais e profissionais para ir ver Isabel Huppert, no CCB, numa peça de teatro a solo no papel de Maria Stuart. Meti ao barulho, para conseguir um dos mil bilhetes para as duas representações, pessoas supostamente influentes. Não consegui. Os bilhetes no CCB para determinados espectáculos são à conta para determinadas pessoas. Já a tentativa para ir ver Maria de Medeiros em Almada resolveu-se com um telefonema para o Carlos Galvão e uma viagem de mota às seis da tarde para não ficar preso no trânsito da ponte 25 de Abril (o tempo ganho na viagem permitiu-me ficar meia hora à conversa com o maestro Vitorino de Almeida que me surpreendeu com algumas partilhas da sua longa vida).
Esta semana fui à estante recuperar dois livros de Elfried Jelinek depois de acabar de ler Leila Slimani e o seu “No Jardim do Ogre”. Ando a reler a poesia de Helena Ortiz, que morreu há meses e era minha amiga, e a reler outra vez Camille Paglia e o seu último livro “Mulheres Livres Homens Livres”.
Gosto de mulheres que me espicaçam a inteligência e me desafiam a dormir menos, e a trabalhar pouco, para ter tempo de ler, ver cinema, ir ao teatro e viajar. Não preciso de conhecer pessoalmente ou apalpar os meus artistas preferidos para sentir; já assisti a muitas estreias sem me meter com os autores/artistas embora tivesse boas razões para isso. O que eu gosto é de experimentar sentimentos e emoções. E foi isso que consegui outra vez com a Maria de Medeiros, em Almada. Ela em cima do palco e eu numa coxia do teatro a vê-la representar uma peça em francês, atrapalhado para seguir a sua interpretação e ao mesmo tempo não perder nada da tradução. Guardo duas recordações da actriz quando era uma menina, e eu um rapaz, e ainda hoje quando vou ao teatro ando à procura da inocência desse tempo. Desta vez deu para perceber melhor que vão chegando os dias em que tudo se desvanece, a memória cansa-se, ou desilude-se, ou muda de planeta.
Queria ver a Isabel Huppert  (IH) para me certificar ainda melhor de que há certas alturas da vida em que a beleza também é inútil, e a alegria não serve para nada, e que há amores ociosos, e que, às vezes, um homem precisa tanto da arte para viver como um peixe precisa de uma bicicleta. Mesmo assim assinalei o dia em casa, na noite do primeiro espectáculo da IH, abrindo uma monografia da Françoise Gilot, que trouxe recentemente de Paris, onde fui ver uma exposição da Dora Maar (ironia do destino: Françoise Gilot roubou Picasso a Dora Maar quando tinha 24 anos e o pintor 60 e tem um livro sobre a relação com ele e com Matisse, entre outros, que é uma obra-prima para os amantes da literatura autobiográfica que admiram Picasso, como é o meu caso).
Falta contar que a presença da IH em Portugal fez-me voltar a procurar a biografia de Maria Stuart, a rainha da Escócia, que foi decapitada em 1587, aos 44 anos, e que esteve presa durante 18 anos em vários castelos e mansões de Inglaterra por ordem de Isabel I; e que assisti na passada quinta-feira, na Biblioteca Nacional, ao primeiro acto da festa do centenário de nascimento da escritora Natércia Freire, que escreveu um dia que “Amor e Livre” são palavras desavindas, embora toda a sua obra seja um hino ao amor e à liberdade. JAE

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Mação é um exemplo para o país. A Chamusca é um caso de estudo.

Os autarcas de Mação conseguiram, sozinhos, entalar o Governo do país que acha que, no interior, somos todos raposas em extinção. A Chamusca tem um presidente de câmara que só pode ter saído do fundo de um poço…sem água.

Mesmo quando a Justiça funciona, como foi o caso recente em Mação, que viu reconhecido pelo Tribunal de Leiria o seu direito aos apoios para a calamidade dos fogos, ficam sempre em evidência os espaços vazios entre os factos e os sentimentos, as dilacerações que cada indivíduo e cada grupo de uma comunidade guarda no seu íntimo. Com esta decisão do tribunal, que faz lembrar mais uma vez a história do homem que mordeu o cão, o interior, as suas gentes e os seus dirigentes, voltaram a ter honras de horário nobre nas notícias. E acima de tudo percebem que o mundo é injusto e todos os governos são injustos mas há sempre forma de os combater quando somos bons lutadores. Nem o facto de ser uma luta contra uma decisão brutal e atentatória dos direitos dos mais fracos fez com que os autarcas da região ribatejana se unissem e pedissem em uníssono, junto do Governo, justiça, lisura, competência e respeito pelos infortunados.
Sou contra a regionalização no papel, feita e desenhada em Lisboa pelos mesmos de sempre, exactamente por situações como esta de Mação. Se a pobreza a que o concelho e as suas gentes estão sujeitos, por causa da calamidade dos fogos, dependesse da solidariedade pública e da reivindicação dos autarcas da comunidade urbana do Médio Tejo, era desgraça pela certa. Estas são as melhores alturas para medir a capacidade dos dirigentes, o poder de iniciativa dos burocratas que os acompanham na gestão do Poder (leia-se aqui os nomes de alguns dirigentes da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, que são lugares de grande responsabilidade na gestão dos territórios, que muitas vezes acabam entregues a políticos que só querem um emprego e trabalho fácil, como acho que é o caso).
Se numa situação como a que Mação vive, e vai continuar a viver, os autarcas não se mobilizaram junto do Governo a pedirem justiça, e fizeram a autarquia de Mação percorrer o caminho das pedras, em que século é que se vão entender para gerirem um território tão diferenciado e com tantos problemas como o nosso, do Minho ao Algarve?

Não largo o assunto dos autarcas, e das suas competências e responsabilidades, para deixar registo do trabalho infantil que o presidente da Câmara da Chamusca está a fazer na gestão da sua autarquia. Admito, pelas evidências da sua gestão, que o autarca possa estar doente e não tenha capacidade sequer para gerir a sua secretária.
A forma como ele compra património, e faz o negócio em público, é de bradar aos céus. A entrevista que publicamos nesta edição com o vereador Manuel Romão, a quem Paulo Queimado comprou uma casa, vai ficar na história porque mostra o nível da capacidade intelectual, política e pessoal de Paulo Queimado.
O autarca leva seis anos de trabalho a gerir um orçamento anual de 12 milhões de euros como se gere uma mercearia de aldeia; e a ser o principal guardião de um património também de muitos milhões que não é só cimento, floresta e alcatrão, mas também cultura, tradição, memória, legado, honestidade, desenvolvimento e progresso. Um território entregue a políticos como Paulo Queimado é um território condenado à morte lenta. Como se tem visto nos últimos tempos; como se vê e se sabe todos os dias, principalmente aqueles que têm que gramar diariamente as suas fuças, e sofrem na pele a desvalorização do seu melhor património pessoal e colectivo. JAE

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Que título davas a esta crónica ó tu que fumas? *

Estamos em Santarém, perto de Lisboa o suficiente para irmos em coluna militar destronar um regime fascista, e não estamos perto o suficiente para fazermos parte de um território onde deixem de mandar os ódios políticos e as invejas.

Vivo e trabalho numa região cheia de gente boa e de respeito. O meu território dá pão, fruta e vinho, como muitos poucos territórios no mundo; posso trabalhar em Lisboa e ir dormir todos os dias a Santarém, ou vice-versa, que não perco qualidade de vida. Foi por aqui que nasceram ou morreram homens como José Saramago e Pedro Álvares Cabral, só para dar dois exemplos. O Tejo é uma realidade que diferencia os campos da Lezíria e um rio que nasce em Espanha mas é em território português que a qualidade dos aquíferos lhe dá uma riqueza e excelência que não tem paralelo em muitos rios de outros países da Europa.
Não me faltam adjectivos para valorizar a terra onde nasci. Não me faltam palavras para dizer ao mundo que o meu território é mágico; e sou um privilegiado por ter nascido, viver e trabalhar aqui.
O facto de ser jornalista de profissão faz com que não aproveite bem esta bênção. Não me conformo com a postura arrogante e a sobranceria dos líderes políticos e empresariais da minha terra e da minha região; nesta altura não vejo ninguém a nível regional que mereça verdadeira admiração pelo trabalho que lhe compete fazer em nome do território.
Com todo o respeito pelas galinhas, que nos dão os ovos e são o melhor petisco no espeto, só vejo galináceos à minha frente a disputarem pequenos poderes que, hoje, como há 40 anos, só dividem em vez de unirem. Algumas associações lideres, que deviam ser o exemplo, em vez de premiarem os melhores dão as mãos aos falhados frustrando as expectativas de quem confia neles por gerirem pessoas e territórios. Os políticos dos concelhos mais ricos não conseguem uma agenda colectiva que não seja para as reuniões obrigatórias nas comunidades intermunicipais. Não há mérito colectivo no Ribatejo que seja notícia nacional salvo uma ou outra excepção.
Em Santarém dizemos alto e bom som que somos mil vezes melhor que os alentejanos, mas vamos a Évora, que tem um território e uma população mais pequena que a nossa, e encontramos uma diferença que nos envergonha. E Évora não tem rio, nem Lisboa a 60 quilómetros por auto-estrada, nem a Linha de Sintra quase à mesma distância de Lisboa, nem Leiria ou a Nazaré ou o Santuário de Fátima a pouco mais de meia hora de carro.
O Turismo do Ribatejo e do Alentejo entrega todos os anos prémios aos melhores espaços turísticos. Candidatam-se duzentas empresas do Alentejo e 20 do Ribatejo. Alguém percebe esta apatia? Santarém foi a terra de onde saiu a coluna militar de Salgueiro Maia para reconquistar a liberdade em Portugal em 25 de Abril de 1974. Alguém consegue perceber esta anomalia portuguesa e ribatejana? Estamos em Santarém, perto de Lisboa o suficiente para irmos em coluna militar destronar um regime fascista, e não estamos perto o suficiente para fazermos parte de um território onde deixem de mandar os ódios políticos, as invejas, os punhetas que têm lugares de responsabilidade e passam a vida a fingir que a evolução do território não é com eles nem com as suas associações e as suas empresas?
Juro que ainda não perdi a paciência nem a esperança. Estou por aqui todos os dias a dar conta também de alguns exemplos que me fazem ter esperança no futuro e em algumas pessoas da minha terra e da minha região com quem vou também partilhando o meu descontentamento: a desilusão por ter que baixar diariamente a minha fasquia quando o meu gozo maior é acordar todos os dias com a ilusão que trabalho e vivo no melhor território do mundo com as melhores pessoas do mundo. JAE

* Título roubado à memória de uma pergunta
que me fizeram há 30 anos e para a qual não tive resposta