quarta-feira, 29 de maio de 2019

Deus, a Igreja e as mãos do diabo

Um padre ralha do cima do altar contra a pobreza e o Estado corrupto, mas depois reza umas missas pelos que morreram nos últimos dias e recebe os euros com as mãos do Diabo que foge aos impostos.

Na passada semana fui ver numa igreja património nacional um espectáculo de teatro. Como não consegui comprar bilhetes na internet fui mais cedo e comprei bilhete na entrada da igreja. O salvo conduto em troca de 15 euros foi um programa do espectáculo. Nem bilhetes nem factura e muito menos conversa já que a fila era grande e a bilheteira era improvisada.
A representação foi gira mas o espectáculo foi fraco. A igreja estava a abarrotar, o que quer dizer que a ideia da companhia de teatro foi boa e lucrativa.
O que não percebo é como nas igrejas tudo é permitido. Não há grupo de teatro neste país que não seja obrigado a ter uma bilheteira organizada. Vamos ver um espectáculo a uma igreja e a caixa registadora é uma caixa de papelão sem fundo.
Mas há mais: a Igreja em Portugal é um Estado à parte. Em quase tudo. Os padres das nossas freguesias são verdadeiros chefes de finanças. A troco de euros confessam, baptizam, casam, encomendam as nossas almas moribundas, rezam missas, enfim, a Igreja só não tem uma verdadeira Casa da Moeda para explorar os serviços que presta à comunidade. De resto é um negócio como não há outro no mundo; pelo que recebem dos baptizados, os padres passam uma factura numa folha de couve; pelo que recebem dos casamentos passam uma factura num papel pardo de jornal; pelo que recebem de todos os trabalhos religiosos os padres funcionam, pelo que sei como qualquer organização secreta que não é obrigada a cumprir a regras de um Estado de direito onde a grande maioria dos serviços paga IVA, e a grande maioria das empresas e dos portugueses que trabalham pagam impostos, sem poderem chiar quanto mais miar. Não sei nada do regime das caixas de esmolas mas gostava de saber porque imagino, só para dar um exemplo, quantos fios de ouro é que o Santuário de Fátima manda derreter para transformar o metal em “cacau”; tudo isto em nome do Senhor e da Senhora.
Não é novidade para ninguém que vivemos num mundo desigual; os grandes tubarões do nosso regime democrático almoçam todo os dias com os nossos ministros e os seus assessores. Alguns deles já foram governantes. Outros desempenham profissões como advogado ou consultor de empresas e são deputados na casa da Democracia como se vivêssemos ainda no tempo do Marquês de Pombal. O nosso Joe Berardo vai inaugurar mais dois museus pagos com dinheiro da Comunidade Europeia, para valorizar as suas colecções de arte. E no entanto tem empresas insolventes e nada é dele. José Sócrates passa pela vergonha de ter dado milhares de computadores às crianças portuguesas e o grande computador da sua vida de governante era o motorista João Perna.
Voltando à Igreja: não tenho nada contra os padres nem a organização religiosa. E admito que posso estar a tomar a nuvem por Juno em alguns casos. Mas tenho contra a sociedade injusta em que vivemos. Não aceito que um padre esteja do cimo do altar a mandar umas bocas contra a pobreza, e os políticos corruptos, e a seguir reze umas missas pelos que morreram nos últimos dias e depois receba os euros com as mãos do diabo que foge aos impostos. JAE

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Sobre uma fotografia de Sophia de Mello Breyner Andresen


No próximo domingo somos todos Europa. Oportunidade para recordar uma foto de Sophia numa conferência única em Santarém de que resta pouca memória.

Anda por aí um burburinho por causa de uma biografia de Sophia assinada pela jornalista Isabel Nery. É a biografia ideal para quem conhece e gosta da poesia de Sophia mas que nunca se interessou pela sua vidinha. Dizem as criticas que estão lá todos os episódios que meio mundo do meio literário sabe de ginjeira e já enjoa.
Por mim vou ler como quem lê um romance porque o que me interessa em Sophia é a sua Obra escrita mas também tudo o que dela posso descortinar sobre a longa vida de viajante e admiradora dos prazeres da vida e dos seus mistérios. Por exemplo; os textos sobre o Nu na antiguidade clássica e a sua paixão pela Grécia, que nunca visitei e é o país sobre o qual mais li ao longo da minha vida com destaque para o livro “O Colosso de Maroussi” de Henry Miller.
Escrevo sobre Sophia porque esta semana voltei a encontrar uma foto de um encontro em Santarém em que compareceram meia dúzia de gatos pingados onde eu me incluía. Não encontrei o texto no jornal nem me lembro em que data foi mas sei que já escrevi algures sobre o assunto. 
Lembro-me da sua voz serena a falar e depois a declamar poesia. O que guardo mais dela foi a distância respeitosa que guardei depois de a ouvir; fui incapaz de lhe roubar duas palavras depois da conferência. A verdade é que deixei passar a grande oportunidade de lhe perguntar se era verdade que ela detestava que um dia a biografassem e contassem a sua vida como quem conta um conto e acrescenta-lhe um ponto.

Sophia é uma das mais ilustres mulheres do nosso país de Abril. Recordo-a com foto na semana em que vamos votar para as eleições europeias. Ela era uma europeísta de coração e sabia, tal como quase todos nós, que a Europa é a União de todas as vontades e virtudes democráticas. A Europa não é só poder e dinheiro. Não é só uma União em construção, com ou sem o Reino Unido; não é só uma questão de territórios e estatísticas; é uma forma de consolidarmos um território mais vasto com pessoas que respeitam os mesmos valores  da tolerância, do pluralismo, justiça, solidariedade e dos direitos humanos.
É pela Europa que viajam livremente e diariamente milhares de jovens de comboio em programas à medida dos seus ideais de vida. É na Europa que muitos milhares de estudantes de todos os países frequentam o programa Erasmus. As eleições do próximo domingo dão-nos a oportunidade de fazer ouvir a nossa voz na defesa daquilo em que acreditamos. Votar é influenciar o nosso destino comum. Domingo somos todos Europa. Para podermos viajar sem fronteiras mas também para termos a liberdade de escolher o melhor lugar do mundo para vivermos e trabalharmos e nunca mais nos sentirmos orgulhosamente sós. JAE

quinta-feira, 16 de maio de 2019

As lideranças políticas e o exemplo que vem de baixo

Por mim estou satisfeito com a evolução da democracia; tal como já escreveu, e continua a escrever, a Procuradora Maria José Morgado, há duas décadas o que aconteceu a Armando Vara era impensável.


Escrever num jornal é muito mais que escrever opiniões. Os tipos que têm um espaço para escrever, como eu tenho, podem prestar um mau serviço à comunidade se não fizerem mais nada que dar ao dedo na onda do que está na moda criticar.
Dou um exemplo; a corrupção na política que tem minado a democracia em todo o mundo. Este último exemplo com José Berardo é de bradar aos céus; mas o caminho está a fazer-se. Por mim estou satisfeito com a evolução da democracia; tal como já escreveu, e continua a escrever, a Procuradora Maria José Morgado, há duas décadas o que aconteceu a Armando Vara era impensável. E o mesmo a José Sócrates, só para citar dois exemplos; mas há mais casos e muito significativos: há duas décadas nem que a burra tossisse Ricardo Salgado caía do pedestal. E caiu com grande estrondo. E estamos todos a pagar a ousadia do ataque aos crimes económicos mas fica o exemplo que há-de dar frutos.
Portugal tem vindo, pouco a pouco, a cimentar as suas instituições e o seu regime democrático. Há muito por fazer, todos sabemos, mas a missão é de todos, e os principais deputados do regime são as pessoas que todos os dias exercem os seus direitos de cidadania. Pedro Passos Coelho e António Costa, os dois últimos chefes de Governo, são figuras que inspiram pela sua força política, carácter e capacidade de liderança. Mas a nível político e partidário eles não são o exemplo para uma ralé que domina nas lideranças locais e regionais. Basta tomar como exemplo o distrito de Santarém onde as figuras de proa dos partidos políticos são pessoas pouco comprometidas com o serviço público e os interesses da comunidade. Culpa nossa, como é evidente, que não reivindicamos e nos demitimos do dever de criticar ou colaborar e entregamos o poder a quem faz da política profissão e negócio.
Quem se der ao trabalho de ler as mensagens trocadas entre governantes e responsáveis da GALP, que andaram a oferecer bilhetes para os jogos de futebol do mundial de França, percebe como a democracia portuguesa ainda é uma criança, precisa da vigilância cívica de todos os portugas que sabem festejar a vitória da selecção portuguesa mas, também, sabem rir-se do selecionador, que diz que recebeu a certa altura do campeonato uma mensagem de Nossa Senhora de Fátima. Como se os deuses tivessem alguma coisa a ver com os resultados dos jogos dentro do campo e a justeza dos resultados finais.
Dizer que o país é uma merda por causa do que aconteceu e está a acontecer com José Berardo é justo. Mas não pode ser essa a nossa postura. Berardo acabou de chamar azêmolas aos políticos da geração de José Sócrates que entregaram o país aos especuladores, e acharam que o efeito Berlusconi em Itália era possível em Portugal, para serem, também eles, donos disto tudo. Enganaram-se e vão pagar caro, se não acontecerem reviravoltas nesta evolução conturbada da democracia e do sistema judicial. JAE

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Políticos com força na verga

Em tempo de eleições não se percebe como é que em Santarém não se berra contra o Governo por manter fechada uma estrada nacional que nos faz falta.



Nos últimos tempos tenho andado todos os dias a ver a morte nos olhos de um familiar que visito na cama de um hospital. A sensação é terrível por causa do sofrimento; o piso da unidade hospitalar onde estão muitos outros doentes nas mesmas condições é o espelho da nossa futura desgraça. É preciso sermos muito fortes, ou muito ignorantes, para aceitarmos sem condições o caminho para a falência física e mental. Não há como reclamar quando se está muito doente num hospital, seja ele público ou privado, mas é claro que morremos muito mais lentamente e com muito mais sofrimento onde o serviço é pago só pelo Estado.

Falo do assunto porque sou a favor de um Serviço Nacional de Saúde (SNS), como a maioria dos portugueses, mas também defendo com unhas e dentes a iniciativa privada e, neste caso, as parcerias com o Estado que se forem bem negociadas trazem muitas vantagens para os cidadãos e para os cofres do Estado. O Bloco de Esquerda e o PCP continuam a ver na iniciativa privada a raiz de todos os nossos problemas, quando são os empresários e as empresas que sustentam a nossa Economia, neste e noutros sectores, gerando trabalho e riqueza.

Sempre me considerei um homem de esquerda mas tenho que reconhecer que, nos dias de hoje, os partidos de direita defendem mais e com melhores argumentos a sociedade livre e democrática pela qual luto e lutarei até morrer. O Bloco, o PCP e uma certa ala do PS, querem legislar a todas as horas para que as leis coincidam com os comportamentos humanos. Para eles nós temos que ser máquinas, não podemos viver das emoções, temos que viver conformados, fiéis aos mandamentos de um Estado tutelar que nos pode esmagar a qualquer momento. A política anti Europa é o maior exemplo da mesquinhez de que vivem os partidos de esquerda em quem já votei e com quem me identifico, apesar de tudo, em algumas políticas; mas nas próximas eleições vou votar em quem luta pelo SNS mas também em quem acredita e acha que vale a pena viver integrado numa União Europeia.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Não consigo perceber a passividade dos autarcas de Santarém depois de gastarem milhões na recuperação das barreiras da cidade. A EN 114 continua fechada prejudicando a cidade e milhares de pessoas que vivem e trabalham na região. Já lá vão cinco anos. Todos sabemos que o problema que impede a reabertura da estrada é de acção; murro na mesa, manifestação popular ou convocação das televisões e dos jornais para ridicularizar os serviços comandados por gente afecta ao Governo que vive das dificuldades que criam ao país e aos cidadãos.
Em tempo de eleições, como é o caso, chamar os bois pelos nomes tem o dobro do efeito na opinião pública, e faz a rapaziada do partido do Poder meter pernas ao caminho. Chamar incompetente ao Governo de António Costa numa altura destas, certamente que rolarão cabeças na Infraestruturas de Portugal e a estrada será reaberta. Mas onde é que andam os políticos de Santarém com força na verga? JAE

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Manual de pintura e caligrafia ribatejana

Uma viagem escrita por Florença para lembrar as tontices dos nossos autarcas e a dimensão da cabeça de alguns deles a começar na Azambuja e a acabar em Santarém.

Há um mês voltei a Florença quase 25 anos depois da minha primeira vez. Marquei a viagem no dia a seguir à noite em que acabei de reler, também muitos anos depois, o livro “Manual de Pintura e Caligrafia”, de José Saramago, uma ficção que se lê como autobiografia, o meu género literário preferido (o livro fala de Florença, como é evidente, ou de outra forma não estava aqui referenciado. E tem uma frase “assassina” sobre Santarém que um dia destes trago aqui noutra crónica). Florença é a cidade mais bem cuidada do mundo; talvez a mais bem governada; talvez a mais bem frequentada; porventura a mais extraordinária de todas as cidades do mundo por razões que me dispenso de comentar e que desafio cada leitor a descobrir.
Não há alcatrão nas ruas de Florença, cuja dimensão é maior cem vezes que a vila de Azambuja; as ruas são todas empedradas, da mesma pedra que parece ter mais de quinhentos anos como têm as pedras dos palácios.
Fico com insónias quando leio as palavras dos nossos autarcas a dizerem que vão acabar com os empedrados nos centros das suas terras para facilitarem o escoamento das águas e mais o raio que os parta, já que a ignorância e o desrespeito pelos valores da cultura e da civilização, em muito do território português, é literalmente militar.
Todos os dias da minha vida nos últimos 20 anos, mando o antigo presidente da Câmara de Santarém, Rui Barreiro, para um sítio que só eu sei, porque a renovação do denominado Largo do Seminário, onde circulo com frequência, é um aborto, tal como Rui Barreiro sempre foi politicamente a gerir a cidade enquanto mandou alguma coisa.
Já escrevi noutras alturas, em que me apetecia escrever com mais pimenta, que uma grande maioria dos nossos autarcas não viaja e quando viajam não vão em trabalho. Vão e regressam com a mesma mala de cartão; voam e aterram com a mesma cara de parvos, que também é a minha, com que saem do aeroporto de Lisboa ou do Porto. Poucos, muitos poucos, neste país de Ruis Barreiros, que trabalham uma vida inteira para o Estado e mais para quem só Deus sabe, têm noção do serviço público que lhes é confiado quando os partidos políticos os escolhem para receberem os votos dos eleitores. As cabeças de muitos deles estão ao serviço dos interesses próprios e não da comunidade. São presidentes de câmara e não estão presidentes de câmara. São assim uns analfabetos políticos, como é aquele jovem da Chamusca, que se chama Paulo Queimado, que se acha muito importante, principalmente nos dias em que consegue apertar o cinto das calças sem grande esforço.
Volto à Câmara da Azambuja e ao projecto de alcatroar o coração da vila da Azambuja. Se bem conheço Luís Sousa, o actual presidente da câmara, ele não vai levar até ao fim esta ideia maluca. Não é velho o suficiente para mandar às urtigas o amor à sua terra e não acredito que esteja a querer arranjar trabalho a uma empresa que vende alcatrão só porque ela precisa de pagar as prestações do Processo Especial de Revitalização. JAE

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Uma classe de impostores


Temos os maiores impostores à frente de organismos públicos e privados que mandam na nossa vida e dispõem de nós como se fossemos peças de um jogo que eles jogam e arbitram ao mesmo tempo.

Portugal tem uma classe política que se descompõe nas televisões, o palco de todas as mentiras, mas que no essencial está unida em volta dos mesmos interesses. Devemos ser o único país da Europa que está sempre em campanha eleitoral. Os partidos enchem o espaço urbano de publicidade e provocam uma poluição que contraria todas as regras do bom senso. Os partidos chamados de esquerda, como é o caso do Partido Comunista e do Bloco, chegam a abusar de forma pornográfica.

Este fim-de-semana assisti em Lisboa a um seminário intitulado Sete Vidas Sete Debates sobre o futuro do jornalismo, e ouvi o mesmo de sempre: “A internet chegou para cumprir um sonho da humanidade mas também para acabar com o jornalismo tal como o conhecemos desde sempre”.
Os jornalistas que aceitam falar do assunto não sabem mais do que sabiam há uma década quando tudo começou a desmoronar-se. Por isso, quando se juntam é para adivinharmos qual deles tem o pior prognóstico; qual deles está mais perto de adivinhar em que braços desgraçados vamos cair.
Uma coisa dou como certa: os jornalistas do reino que nos orientam nestas opiniões continuam a funcionar como os políticos da Assembleia da República; eles só concebem o jornalismo a partir das secretárias das redacções em Lisboa, dos directos e dos dias de trabalho sem tréguas atrás dos políticos que governam a República, ainda que as novidades sejam sempre as mesmas, embora com outras roupagens.
Os jornais dão cada vez menos notícias e publicam cada vez mais opinião. Esta constatação generalizada não merece autocrítica nem discussão que ponha uma plateia em sentido. O Correio da Manhã, o mais temido de todos os jornais em Portugal, começa a ser elogiado, não porque escorre sangue das suas páginas mas porque é o único que cumpre a função de informar. Os outros reconhecem as suas limitações mas não dizem porque não publicam notícias e contentam-se com a opinião folclórica dos colunistas de serviço que, regra geral, são políticos, ex-políticos ou administradores/professores/gestores de empresas públicas.


“O sucesso é fruto de 10% de inspiração e 90% de transpiração”. A frase é de Thomas Edison e tem várias versões. Esta é aquela que eu gosto mais. Relembro-a para fecho desta crónica porque acho uma frase importante para modelo de vida e de trabalho; a verdade é que somos muitos a ignorar ou a inverter a máxima e o seu espírito. A maioria de nós espera tudo da inspiração e da sorte e qualquer coisinha do resultado da transpiração.
É por sermos um povo capado, incapaz de nos unirmos em órgãos de cidadania, medrosos até às canelas, que temos os maiores impostores à frente de organismos públicos e privados, que mandam na nossa vida e dispõem de nós como se fossemos peças de um jogo que eles jogam e arbitram ao mesmo tempo. JAE

quinta-feira, 28 de março de 2019

Terras sem Sombra e a Ordem dos Jornalistas

Esta semana acompanhei uma edição do Terras Sem Sombra que foi até Olivença; Registo aqui a morte de pessoas notáveis da minha terra e dou conta que defendo uma Ordem para a classe dos jornalistas


Sou a favor de uma Ordem para a classe dos jornalistas porque entendo que a auto-regulação que hoje se pratica jamais será um caminho para uma grande maioria daqueles que trabalham na profissão. Escrevo sobre o assunto porque entendo que os jornalistas portugueses deveriam ser mais cuidadosos na publicação de fotos sobre incêndios e terrorismo, entre outros actos criminosos que sacrificam vidas humanas por questões de luta política e religiosa. Todos sabemos que os crimes desta natureza são praticados por gente convencida que com os seus actos ficam para a posteridade e são exemplo a seguir. Condená-los ao anonimato era um serviço público que todos os órgãos de comunicação social tinham obrigação de prestar seguindo os velhos valores do jornalismo. 


Esta semana morreram duas figuras conhecidas da minha terra com quem conversei muitas vezes e aprendi muitas coisas. Falo da morte de Manuel José Moedas, um homem que ainda tirava o chapéu da cabeça para cumprimentar as pessoas na rua, e de Jaime Grilo, um pescador a quem ouvi contar histórias bonitas sobre a arte da pesca mas também episódios que confirmam que o leito do rio é perigoso para quem o conhece quanto mais para patos bravos que se afoitam nas suas águas.
Aproveito o espaço para lembrar a morte recente de outras pessoas importantes da minha terra que não foram notícia neste jornal mas que poderiam ter sido: Augusto Lourenço, vulgo Augusto da Bicicleta, Álvaro Agnelo, vulgo Álvaro Chané, Joaquim Arraiolos, vulgo Joaquim Burrico, Ercília Santos, vulgo Ercília dos bolos, Madalena Cardoso, vulgo Madalena do Chico Polícia, Luís Faustino, vulgo Luís Lameira, Manuel Matias, vulgo Manuel Calcanhar, Eduarda Ferreira, vulgo Eduarda Melrinho, Inácio Pestana, Domicília Barreiras e Joaquim Rafael Guita, entre muitos outros que agora não me lembro e que certamente também mereciam ser notícia no jornal da terra.


O Terras sem Sombra é um festival de cultura no Alentejo que já vai na sua 15ª edição. Tem como principal objectivo partilhar o legado cultural e natural do Alentejo, assim como dar a conhecer o que há de mais fascinante, dos centros históricos às áreas rurais, da vida selvagem às etnografias locais. A ambição da organização é projectar a região, nacional e internacionalmente, como um território de identidade ímpar que se afirma como destino de arte e natureza.
No passado fim de semana acompanhei em Olivença uma das actividades do Festival deste ano que só termina em Junho. Oportunidade para conhecer um território cheio de memórias e reencontrar o José António Falcão e a Sara grandes responsáveis pelo Festival e pelo êxito de cada iniciativa que mobiliza artistas, políticos, agentes culturais e população. JAE

quinta-feira, 14 de março de 2019

Carta para Francisco Pinto Balsemão e Paulo Fernandes*

O associativismo na comunicação social está pela hora da morte. Um recado para dois dos patrões mais influentes da imprensa portuguesa.

O MIRANTE faz parte da Associação Portuguesa de Imprensa (API) que defende os interesses das empresas de comunicação social em Portugal. No princípio como simples associado e, mais tarde, como membro da sua direcção. Infelizmente não temos suficiente voto na matéria para denunciarmos no seio da associação, e em nome dela, a falta de políticas dos sucessivos governos no apoio ao serviço público que a maioria dos jornais praticam.
Trago o assunto a público porque acho que vale pena reflectir sobre o papel da comunicação social que todos os dias condiciona a nossa forma de olhar o mundo.
Os patrões da imprensa em Portugal, na sua grande maioria, somam interesses na vida pública e política, e acima de tudo na vida empresarial, que nada têm a ver com a comunicação social. E longe vai o tempo em que alguns dos melhores deles se uniam nas diferenças para lutarem pelos mesmos interesses. Quando era assim, os mais pequenos, como sempre foi o caso da imprensa regional, só tinham a ganhar.
A verdade é que as televisões, e a febre pelo controlo do espaço televisivo, acabou com o associativismo entre patrões. Ninguém quer pensar nos negócios de tostões quando os das televisões são de milhões.
Os jornais estão reduzidos a tiragens miseráveis com a excepção do “Expresso”, do “Correio da Manhã” e do “Jornal de Notícias”, embora as quedas nas tiragens sejam de meter medo ao susto. 
Cerca de 70% das notícias dos jornais digitais são acessadas através de telemóveis. Esta forma de ler notícias não tem futuro. Não são os leitores de notícias nos telemóveis que justificam uma redacção de 20, 50 ou 100 jornalistas. Nem pode ser essa a política dos empresários dos Media por muito que alguns jornais trabalhem apenas para elegerem o próximo Presidente da República. O jornalismo precisa do papel como os textos precisam das ilustrações. O jornalismo precisa de jornalistas motivados para contarem histórias de página inteira como o mundo precisa de memória muito para além daquela que se apaga cada vez que se desliga um aparelho digital.
OS CTT acabaram recentemente com o Correio Azul na distribuição dos jornais (à taxa normal). O serviço era uma conquista de uma anterior negociação com os Correios. A associação que representa os patrões dos jornais está demasiado ocupada com problemas de sobrevivência que põem tudo em causa. A ideia que fica é que já ninguém acredita no associativismo para defender os mesmos interesses. Mesmo que, com esta forma de trabalhar, ponham em perigo o espaço mediático português e a qualidade da democracia.  JAE

* São os dois nomes maiores da imprensa em Portugal e responsáveis pelo melhor e pelo pior que se passa no associativismo na comunicação social.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Mudar de terra e de casa para não morrer do coração

Mudei a minha residência permanente para longe da Chamusca e dos seus dirigentes analfabetos e grosseiros. Assim posso poupar o meu coração às intempéries das emoções negativas.

Sou amigo de duas figuras gradas da vida cultural portuguesa com quem aprendi e aprendo ainda a arte de viver e trabalhar: falo de António Valdemar e Francisco Pinto Balsemão. Cito-os porque ouvi aos dois, muito recentemente, a confissão de que estão a escrever as suas memórias, à pressa, com as dificuldades decorrentes de quem nunca tomou notas, perdeu o norte a muitos documentos, e não teve em conta que a memória não precisa que lhe dêem indicações para mandar para o lixo tudo o que não interessa. São duas pessoas com mais de oitenta anos de idade que, no entanto, mantêm um ritmo de trabalho e de intervenção na vida pública que só podemos admirar e elogiar.
Não tenho nem nunca vou ter prestígio público para escrever memórias e as minhas recordações o mais que podem interessar é aos meus filhos. Por isso faço questão de não guardar muita coisa do que tenho para dizer, ou escrever, às pessoas do meu tempo.
Nos últimos meses mudei a minha residência permanente, assim como a gestão da maioria dos meus interesses, para outras paragens longe da santa terrinha. A Chamusca está entregue a duas pessoas (a duas, pelo menos) anafalbetas politicamente e demasiado grosseiras no trato para eu aturar nem que seja por acidente.
Estou a viver uma experiência única proporcionada em parte por pessoas que tratam os jornalistas por filhos de puta, oferecem pares de estalos como se tivessem sido educados numa cavalariça, e atacam à navalhada os pneus dos carros pela calada da noite como fazem os gatunos das lojas nomeadamente os de ourivesarias.
Não troco o meu coração ribatejano pelo lisboeta, carioca, gaúcho ou madrileno, só para citar alguns lugares da terra onde podia viver sem nunca esquecer ou deixar esmorecer o amor às raízes. Só pelo amor à terra dou conta destas mudanças, embora o que eu quero realmente deixar aqui em letra de forma, para memória futura, é que mudei a residência permanente para outras paragens porque assim preservo melhor o amor à terra de nascença e às suas gentes. Como não tenho vocação para a militância política, nem projectos para mudar de profissão, recuso-me a combater politicamente os analfabetos que governam a câmara da Chamusca. Assim, longe da vista longe do coração;  a cada dia que passa sinto-me mais confortável na minha nova terra e o meu coração já agradeceu o tanto que o poupei às intempéries das emoções negativas.  JAE

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Os 30 anos da Nersant e o papel de José Eduardo Carvalho

Nersant comemora 30 anos e vai homenagear pessoas e empresas que contribuíram para a importância da associação.


A Nersant vai comemorar 30 anos em Maio. A direcção presidida por Salomé Rafael já anunciou um programa de comemorações digno do estatuto da associação.
Estão agendadas homenagens a muitas empresas e individualidades que ao longo destes 30 anos ajudaram a Nersant a transformar-se numa associação única, líder em todas as frentes na relação com o tecido empresarial e não só. O melhor elogio que se pode fazer à Nersant é comparando-a com outras, com o mesmo estatuto, que trabalham noutras regiões do país. Na grande maioria dos casos o seu trabalho é infinitamente melhor, com grandes vantagens para os empresários e para o tecido económico da região ribatejana.
No texto em que anuncia as comemorações são referidos alguns projectos e processos que a Nersant liderou, estruturantes para a região e muito importantes para o desenvolvimento do território, nomeadamente a distribuição do gás natural, com a criação da Tagusgás, a criação da Garval – Sociedade de Garantia Mútua do Vale do Tejo, a implantação de Parques de Negócios, potenciando a atracção de investimento externo, e a criação da Escola Profissional do Vale do Tejo, a única escola profissional do país com uma estrutura accionista, constituída por 28 entidades, da qual fazem parte algumas das maiores empresas da região.
Todos os projectos citados e referenciados como exemplares são do tempo da presidência de José Eduardo Carvalho, actual presidente da AIP (Associação industrial Portuguesa) que continua a trabalhar no associativismo empresarial a nível nacional com a mesma entrega de há duas décadas, quando trabalhava para deixar a sua marca no associativismo da Nersant.
José Eduardo Carvalho é certamente uma das figuras de maior relevo da nossa região. Tem convivido e trabalhado com muitos ministros, secretários de Estado e outras figuras gradas do país, e deve-se a ele uma boa parte do prestígio institucional que a região tem vindo a ganhar no país e junto dos decisores.
A homenagem da direcção da Nersant é bem vinda mas sabe a pouco. José Eduardo Carvalho merecia ser reconhecido pela associação num acto único, diferenciado, que a exemplo do seu trabalho fosse também uma iniciativa que fizesse jus à sua importância na vida da associação, assim como à sua continuada e bem sucedida actividade como dirigente associativo.
Maria Salomé Rafael devia esquecer a boa relação pessoal, e o facto de ter pertencido a algumas direcções presididas por JEC, e de ter sido apoiada por ele para ficar na presidência da associação, e pensar apenas no quanto JEC fez e faz a diferença, comparado com outros que merecem a homenagem mas que depois do trabalho feito foram à sua vidinha. José Eduardo Carvalho foi presidente da NERSANT durante 17 anos (1994-2011) e ainda hoje trabalha todos os dias para o prestigio do associativismo, embora a outro nível e com outras responsabilidades. A sua ligação à região e o seu empenho diário, numa luta que é de todos, mereciam um olhar mais atento dos seus pares. JAE

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O autarca medroso da Chamusca e os outros

Paulo Queimado é presidente de uma associação de municípios ribatejanos que tem medo dos projectos com financiamento europeu.


Os autarcas da região ribatejana entregaram ao presidente da Câmara da Chamusca, Paulo Queimado, a presidência de uma associação que entre outras competências deve gerir a Colónia Balnear da Nazaré. Há muito tempo que ouço falar do assunto porque havia para aquele espaço um projecto de cerca de 18 milhões de euros, financiado em grande parte pela Comunidade Europeia que, entretanto, de ano para ano, foi sendo reduzido e sem qualquer financiamento. Resumindo: Paulo Queimado ficou tão assustado com o lugar que lhe ofereceram, e as responsabilidades que assumiu, que reduziu um projecto de investimento de muitos milhões a coisa nenhuma. Quem conhece Paulo Queimado sabe que ele é fraca roupa; mas os autarcas seus parceiros de associação, que lhe entregaram tamanha responsabilidade, dormem descansados e limitam-se a rir do inábil político da Chamusca? E não sentem vergonha do fracasso? É assim que querem meter a região no mapa? Estamos bem entregues sim senhores.
Não há português que se preze que não ache que anda a ser escutado pela Polícia Judiciaria (PJ). Desde políticos a militares, jornalistas e médicos, empregados públicos e taxistas, todos as pessoas que se acham importantes, e que falam com pessoas importantes, têm medo e gostam de manifestar o receio de que alguém os anda a escutar. Portugal tem 10 milhões de habitantes. Pelas minhas contas, e tendo em conta o número de pessoas que ouço falarem do assunto, pelo menos 5 milhões de portugueses podem estar sob escuta da PJ. Barulhos de fundo e vozes a sobreporem-se durante as chamadas são as interferências mais frequentes que nos fazem crer que estamos a ser escutados. Só quem não conhece a realidade do país, e da PJ, pode divagar e estragar o sono com este assunto.
O exercício da profissão ensinou-me a perceber certas realidades e a dominar certos receios. Confesso que nunca me senti escutado mas já fui protagonista de algumas situações caricatas; uma delas com um amigo de longa data que me ensinou, com conhecimento de causa, como eu podia saber se o meu aparelho estava sob escuta. O dele estava, segundo tentou provar. Soube mais tarde, por outro amigo igualmente sabichão, que aquela consulta ao meu aparelho teria servido para ele accionar uma escuta em proveito próprio. Ainda hoje acho graça à possibilidade de ser escutado; só posso fazer pessoas felizes porque os meus telefonemas regra geral são bem dispostos e bem servidos de palavras chulas.
Um polícia de quem fui amigo disse-me um dia que sabia a que horas eu chegava ao jornal e a que horas saía. A intenção parecia ser afectuosa mas mais tarde vim a saber que só podia ser maldosa. Ainda hoje me rio das intenções porque eu sempre dormi com armas sofisticadas à cabeceira da cama que são os meus sonhos azuis. Um outro amigo ensinou-me que a maneira mais engenhosa de saber os segredos de alguém não é escutando os telefonemas mas vasculhando o caixote do lixo no final do dia de trabalho. O segredo é encontrar quem tenha acesso ao caixote do lixo. Contou-me outras ainda mais engenhosas, que mais tarde encontrei nos livros de escritores como John le Carré, o autor de A Casa da Rússia. Foram ensinamentos que me ajudaram a conhecer as pessoas e nunca serviram ou hão-de servir para trabalhar. JAE

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Portugal é dos ricos; o resto é conversa.... de pobre

Fundos comunitários do Portugal 2020 são estatizados e grandes empresas com os melhores aconselhamentos e as mais eficientes consultorias são as grandes beneficiadas em favor das pequenas que não aguentam a burocracia e os atrasos.

Os três anos de Governo de António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins, já criaram mais dificuldades às pequenas empresas que o governo de Passos Coelho em todo o mandato. Era impensável num governo socialista a aprovação de uma lei que impede qualquer organismo público de contratar por um período de três anos mais de vinte mil euros de serviços a uma empresa. É uma medida estalinista que passa despercebida no meio político e jornalístico porque os pequenos empresários, atingidos por esta medida, já não têm quem os defenda, nem ao nível político nem associativo. Hoje o que rende votos politicamente são os discursos a favor dos cães, dos gatos e dos bois; em termos associativos a CAP, a CIP e a UGT, entre outras, monopolizam, aproveitando-se da proximidade com o poder para facturarem à maneira deles para os negócios que lhes garantem o equilíbrio orçamental e os ordenados das centenas de funcionários; no resto marimbam-se para as realidades dos pequenos empresários que são chulados pelo Estado, pelos bancos e pelas condições adversas de qualquer economia de mercado livre, onde até os assaltantes roubam à vontade porque já não há dinheiro para polícias.

Os fundos comunitários do Portugal 2020 estão a servir ao Governo de António Costa para financiar as despesas públicas, nomeadamente as do sector da educação, incluindo o ensino superior. A estatização dos fundos comunitários nunca foi tão evidente, e a forma como os organismos como o IFADAP são hoje acusados de corrupção e de mau trabalho, sem qualquer esclarecimento público a defender a honra dos seus dirigentes, só confirma aquilo que é uma evidência: quanto pior for o trabalho deles mais sobra para o Governo, e para as grandes empresas que têm os melhores aconselhamentos e as mais eficientes consultorias.

Em Julho do ano passado as melhores notícias sobre o Portugal 2020 eram as seguintes: dos melhores 30 financiamentos do programa, 26 eram do Estado; os outros quatro eram assim distribuídos; 120 milhões com 67% a fundo perdido para a Navigator, para a construção de uma nova fábrica de papel; muitos milhões para a Celtejo, empresa de celulose do Tejo, outros tantos para a Embraer, empresa da indústria de aeronáutica, e cerca de 50 milhões para a Continental Mabor, também comparticipados a 67% a fundo perdido, para a expansão do negócio de pneus para tractores.

Seis meses passados não há notícia de que as pequenas empresas consigam vencer as grandes no acesso aos fundos comunitários, nomeadamente ao nível da contratação de engenhosos aconselhamentos e experimentados consultores. E Portugal é mesmo um país diferente: mais de quatro décadas depois da revolução dos cravos vermelhos, 60% do emprego em Portugal é garantido pelas microempresas, aquelas que em Portugal nunca chegam a ver a cor do dinheiro. JAE

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Trabalha-se pouco no Ribatejo

As opiniões fortes de António Fonseca Ferreira.

A morte de António Fonseca Ferreira, antigo presidente da CCDR/LVT, fez-me recuar ao tempo em que na região ribatejana ainda se investia a sério em projectos estruturantes que ajudaram a mudar o rosto de muitos concelhos ribatejanos.
Fonseca Ferreira era um político e técnico experimentado quando assumiu o cargo de presidente da CCDR/LVT. Daí que tenha servido como interlocutor privilegiado aos autarcas da maioria dos concelhos do Ribatejo; era um dirigente sempre presente e disposto a usar da palavra quando o convidavam. Tinha opinião sobre a maioria dos assuntos e nunca fugia às questões. De Vila Franca de Xira a Abrantes, acompanhei-o em muitas visitas de trabalho mas também em algumas iniciativas que marcaram um tempo; uma delas foi em Tomar na entrega dos prémios Personalidade do Ano de O MIRANTE em Fevereiro de 2012. Mas houve muitas outras em Vila Franca de Xira, Cartaxo, Almeirim, Chamusca, Entroncamento e Abrantes.
Nunca o tratei por tu mas conheci bem o seu pensamento e algumas opiniões fortes. Encontrei-o também algumas vezes a almoçar em Lisboa num restaurante onde uma refeição custa tanto como almoçar toda a semana nos restaurantes de Santarém; mas nunca almocei na sua mesa. Foi na altura desses almoços de trabalho que descobri o segredo da resposta a uma pergunta que um dia fiz a um ourives da rua do Ouro, em Lisboa; por que é que um anel com 30 diamantes 8/8 custa sete mil euros se o valor real das pedras preciosas é de apenas 700?
Perdi o contacto com ele nestes últimos anos; sei que andava por aí a comandar uma empresa de consultoria e que mantinha contactos privilegiados na região, mas não tenho notícias de grandes afectividades com os novos e velhos políticos e autarcas da região. Nem tão pouco ao nível dos negócios. A vida é mesmo assim. Com os políticos mas também com os jornalistas que perdem o emprego. Se um jornalista de repente deixar de ter um espaço onde escrever bem pode espernear que ninguém lhe liga importância por mais que ele afie o aparo da caneta e seja muito bom a contar histórias.
Um dia destes ouvi este tesourinho a um dirigente da administração central que intervém na nossa região: “os autarcas estão adormecidos; muito do dinheiro dos fundos comunitários não é utilizado porque não há projectos, ou seja, trabalha-se pouco no Ribatejo; há muita gente inexperiente nas autarquias que não sabe de que terra é”.
Não ouvi de boca calada e desafiei o dito cujo a repetir alto e bom som o que tinha acabado de dizer meio entre dentes. Chamou-me maluco e brindou-me com muitos sorrisos e provas de confiança para não o obrigar a fazer aquilo para o qual ele diz que não está fadado.
Na apresentação do livro “Gestão Estratégica de Cidades e Regiões”, que ajudei a apresentar na nossa região em 2005, no qual relata a experiência de muitos anos de vida e de trabalho como responsável pelo planeamento estratégico de muitas cidades do país, António Fonseca Ferreira não deixou de falar do seu estado de perplexidade por continuarmos a desperdiçar e a estragar um território tão rico que nos calhou em legado. Fica aqui a lembrança do trabalho do político e do gestor que marcou uma época. JAE

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Um ano novo com uma pulseira verde

Crónica sobre os primeiros dias de 2019 e a sensação de viver uma nova experiência no sangue.

Passei o dia de ano novo com uma pulseira verde num serviço de atendimento permanente de um hospital privado. Saí de lá com uma nova experiência no sangue: uma dose de morfina que me transportou gradativamente para outro mundo; pela primeira vez soube o que era voar nas asas dos anjos azuis. Não sei ainda se o azar da doença vai valer pela experiência mas tenho fé que sim.
Nos últimos dias tive tempo para escrever uma crónica por hora, para ler os livros todos que não li nos últimos anos, para reescrever os textos esquecidos no disco do computador e nos cadernos perdidos lá de casa, mas limitei-me a usar o telemóvel, a ler alguns (poucos) jornais, a visitar uma livraria da avenida de Roma, a comer, a dormir e a caminhar para os médicos.
Entretanto constipei-me. Mal pude usar a mota em que gosto de me transportar. Troquei a ida regular ao cinema por uma série na televisão chamada House of Cards e garanto que foi a única ficção que me prendeu à realidade nos últimos oito dias.
Tive mais tempo para acompanhar o correio dos leitores de O MIRANTE e para perceber a dinâmica das mensagens no Facebook que chegam a solicitarem trabalhos editoriais, entre outros. Mas nada disso teve qualquer importância na minha vida. Desde o alvor do dia de ano novo que o trabalho deixou de ter qualquer prioridade no meu dia-a-dia. Recebi mensagens pessoais sobre cursos de dança, fotos misteriosas no meio do Tejo, e viagens pelo mundo, bem mais interessantes que todo o correio de trabalho diário que normalmente me entusiasma e faz andar a mil à hora de manhã à noite.
Tenho um bom amigo a passar por um período de doença complicada e pensei nele a toda a hora; e nunca me lembrei se o António Palmeiro, João Calhaz, Marco Rodrigues, Mário Cotovio, o Alberto Bastos ou a Joana estavam a precisar de ajuda, ou sequer se alguma vez voltam a precisar da minha ajuda para puxarem pela carroça.
Estar doente, mesmo que seja só com uma dor nas costas que apanha a cabra da perna, é pior que ser obrigado a comer todos os dias nos restaurantes de Santarém que carregam nos temperos; bem pior que trabalhar de sol a sol pressionado pelo tempo e o stress; muito pior que não ter descanso sequer ao fim-de-semana e passar a vida a trabalhar para os outros mesmo que já tenhamos idade e estatuto para não fazermos ponta de corno.
Nestes primeiros dias de ano novo não abri livros novos, excepto os que visitei na livraria, mas tive oportunidade de passar os olhos pelo Samarcanda, do Amin Maalouf, um livro que li em 2018 e que deixou marcas. Estive quase para o oferecer no dia 5 de Janeiro como prenda de anos, mas agarrei-me às páginas sublinhadas como se fossem uma prova da minha existência.
É o único acto egoísta de que me lembro e arrependo desde que o ano novo deitou as antenas de fora. É nesse livro que se diz que “as palavras, boas ou más, são como flechas: quando se disparam várias há sempre uma que atingirá o alvo”.  JAE

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Sobre jornais e jornalistas: uma reflexão a partir de uma redacção de um jornal de província

As palavras do Presidente da República sobre o apoio aos jornais, proferidas nos últimos tempos de forma sempre cautelosa, tornaram ainda mais pública e notória a crise da imprensa e do jornalismo em Portugal.
Marcelo Rebelo de Sousa foi durante muito tempo director do Expresso e colaborador de vários jornais, rádios e televisões. Percebe o drama que se vive no seio das empresas e na vida de cada jornalista.
Portugal ainda não é um caixote do lixo de jornais mas para lá caminha. A maioria dos jornais de referência já tem tiragens absurdas para publicações que empregam dezenas de profissionais e se propõem contribuírem com notícias e opiniões para a vida democrática do país.
A falta de publicidade, mãe de todas as independências editoriais, deixou em palpos-de-aranha todas as administrações. Os chefes estão habituados a trabalhar com jornalistas mas ignoram, e até parece que desprezam, os departamentos comerciais. Ninguém olha para um jornal e vê um produto de promoção de empresas e serviços. Muitas empresas que contactamos para investirem em publicidade dizem aos nossos colegas que não podem gastar dinheiro e que temos obrigação de dar notícias sobre elas porque são assinantes.
Felizmente não é uma opinião maioritária. Ao nível da organização dos jornais poucos têm um sector comercial preparado para fazer o jornal sobreviver com as receitas da publicidade. A grande maioria depende ora de um grupo de distribuição, ora de um patrão da indústria, quando não é o caso de dependerem de investidores literalmente interessados no uso e fruto das notícias. A maioria dos patrões parece sintonizada com os empresários que se acham donos disto tudo.
Deixo aqui meia dúzia de linhas sobre assuntos da imprensa que não posso desenvolver agora mas que demonstram a fraqueza do sistema.
1) A única associação de classe dos patrões dos jornais quase que desapareceu. 2) Os jornalistas que vão saindo das empresas não querem voltar à profissão tal é a desconfiança. 3) As universidades continuam a formar jornalistas que nunca saem das salas de aula durante os anos do curso. 4) Os jornais de maior referência em Portugal continuam a ter uma agenda comum o que empobrece o jornalismo e a democracia. 5) Um assalto sofisticado a um banco, na Chamusca, só é notícia em O MIRANTE; se for uma porta arrombada de uma residência em Lisboa pode sair na primeira página ou ser abertura de telejornal. 6) Os membros do Governo não precisam ter mérito na governação para serem notícia diariamente e para falarem ao país: os jornais parece que existem em função do governo e dos deputados com prejuízo das notícias e das reportagens sobre o país real. JAE