quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Com os olhos em José Saramago e na Azinhaga

Os Caminhos de Saramago, na Azinhaga, continuam na gaveta e já lá vão 20 anos da entrega do Nobel e quase um século do seu nascimento.


O prémio Nobel da Literatura para a polaca Olga Tokarczuk é o décimo quinto atribuído a polacos e o sexto a escritores daquele país. Portugal só teve dois laureados: Egas Moniz, em 1949, e José Saramago, em 1998. Não temos que fazer comparações com a Polónia, o país da Olga ou da genial Wisława Szymborska, para deixar aqui preto no branco que Portugal é um país cheio de gente igualmente genial em todas as áreas da Ciência e da Cultura mas muito pouco reconhecida. E acho que a culpa é nossa; fomos poupados nas guerras mundiais e nas ocupações militares (a Polónia foi um dos países da Europa mais sacrificado) mas nada disso nos serviu para crescermos como pessoas, como povo e como país.
José Saramago teve um percurso de vida que não contribuiu em nada para esta pasmaceira de país; nunca se acomodou, nunca se vendeu ao Diabo, não perdeu a cabeça com provocações e escreveu uma obra que corre mundo e confirma-se, com o tempo, como de grande actualidade e qualidade literária.
Há iniciativas quase diárias nas suas duas casas; em Lisboa e em Lanzarote; congressos e encontros por todo o mundo; só na Azinhaga é que a porca torce o rabo; Não há em Santarém ou na Azinhaga ou na Golegã apaixonados pela Obra de Saramago que ponham mãos aos “Caminhos de Saramago” que seria, na nossa opinião, a melhor forma de trazer pessoas à terra natal do escritor e valorizar o território ribatejano que tanto precisa.
O escritor não ignorou a sua terra e a sua região. Há na sua obra razões mais do que suficientes, mais do que nos lembramos ou valorizamos, para se criar um roteiro de caminhos mas também de sentimentos e afectos, que fazem as delícias dos grandes amantes da literatura e, neste caso, certamente dos grandes admiradores de Saramago.
O Ribatejo é território e casa de um dos maiores escritores de sempre, que vai ficar na História da literatura mundial, mesmo que ainda seja odiado ou menosprezado por certa gente de outros tempos que confundem patriotismo com fascismo ou comunismo. Talvez pela genialidade da sua escrita, e da sua obra literária, José Saramago despertou esses demónios que atacam as pessoas que não sabem nem sonham, como diria outro poeta, que “a literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”.
A obra literária e o percurso de vida de José Saramago são inspiração para realizadores de cinema, músicos, poetas e outros criadores de todo o mundo.
Há lá melhor razão para mobilizar grupos de acção cultural, e pessoas ligadas à cultura, para se unirem e valorizarem o escritor na terra e na região onde nasceu e que soube valorizar e pôr no mapa?
Somos quase todos contemporâneos do homem que levou a memória do seu avô analfabeto à distinta realeza da Suécia, com repercussão em todo o mundo, e valorizamos menos esse acontecimento que a chegada do vinho novo pelo São Martinho.
É verdade que devemos sempre colocar cada coisa no seu lugar. Por isso deixo aqui mais uma vez a minha admiração pela fraca visão dos dirigentes políticos e associativos da região que aparentemente desconhecem a força mobilizadora da Obra do autor de Memorial do Convento. JAE

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