quinta-feira, 12 de março de 2020

Apanhados do clima e agora também do coronavírus

Vamos todos ser responsáveis e seguir as indicações da Direcção-Geral de Saúde para não morrermos na praia por causa de um desgraçado de um vírus. Mas não levem a mal que não tenha medo de beijar, abraçar, apertar e andar por aí sem máscara na cara e no coração.


Seja responsável: não brinque com as desgraças que pode ser o próximo desgraçado. Tento levar a brincar a ameaça do coronavírus e, para ser sincero, não consigo ter medo embora tenha cu como toda a gente. Como se ainda tivesse 20 anos, e vivesse em permanente estado de revolução, só me lembro das quedas na Bolsa e dos mil milhões de prejuízo que as grandes empresas estão a sofrer; e nunca me esqueço dos refugiados que desesperam por ajuda; e das notícias que nos informam que os EUA acabam de fazer a maior venda de sempre de armamento. E o Brasil é um dos maiores importadores de armas da América do Sul, logo o Brasil que é o país do mundo que mais gosto e para onde mais viajei ao longo da vida.
Sou sensível e bate mais forte o coração ao ler as notícias da NASA que falam de uma diminuição drástica da poluição nos céus da China por causa da crise do coronavírus. As centrais a carvão da China (e já agora também as do Japão) poluem mais que todos os Estados europeus. E a Europa vive de joelhos perante o comércio chinês. E Portugal, o nosso portugalzinho, já entregou ao chineses uma boa parte da sua economia e, talvez não seja exagero afirmar, uma parte substantiva da sua independência. Nós fechamos as centrais a carvão por razões ambientais e de solidariedade com a vida no Planeta Terra e o Japão e a China inauguram novas centrais a carvão todos os anos como se fossem os donos disto tudo. E é de lá que vem para todo o mundo, incluindo Portugal, o dinheiro e a mercadoria, Deus e o Diabo, agora também o Coronavírus e um dia destes sabe-se lá o que mais.
Tenho na minha estante um livro de capa vermelha, da autoria de Alain Peyrefitte, que tem este título sugestivo: “Quando a China despertar o mundo tremerá”. O livro deve ser de 1975 e não consigo encontrar as razões que me levaram a comprá-lo no Círculo de Leitores que, na altura, era a minha única livraria de bairro. A minha e a de muitos milhões de portugueses. Nunca mais lhe peguei e nem agora que escrevo este texto tenho oportunidade de o folhear. Mas lembro-me dele muita vez porque está lá perdido entre os livros que um dia destes vou doar a uma instituição.
Talvez tenha sido influenciado pelos políticos da altura. Talvez tenha sido também maoísta e não me lembre. Esta é a parte em que mais gosto de pensar que ainda tenho 20 anos e, em vez de imaginar que posso morrer com o Covid-19, só penso nos desgraçados dos lesados do BES, os emigrantes na Venezuela que foram enganados pelos banqueiros mas também os outros; e nas quedas da Bolsa que já chegam aos dois dígitos.
Não estou (só) a brincar com as palavras; tenho leitores que me puxam as orelhas quando me alargo mais em comentários esquerdistas e irresponsáveis; e tenho mais de sessenta anos de idade; pertenço ao grupo de pessoas que correm mais riscos com o vírus da moda. Se morrer pelo caminho pelo menos morro consolado e já tenho com que ranger os dentes na hora da agonia. JAE.

quinta-feira, 5 de março de 2020

A entrega dos prémios Personalidade do Ano de O MIRANTE

A entrega dos prémios Personalidade do Ano de O MIRANTE (edição 2019, realizada no dia 20 de Fevereiro em Santarém, no Convento de São Francisco) junta sempre alguns dos nossos parceiros mais importantes que, regra geral, nunca são notícia porque eles próprios são parte da nossa equipa e responsáveis pelo êxito do nosso projecto editorial e empresarial. Ficam aqui os rostos e os nomes de quatro dessas personalidades para memória futura.
 Fernando Guedes da Silva, Director Comercial e de Marketing da VASP

 Jorge Pires, Director Geral da Moneris

 Jaime Rodrigues, Director de Produção na Grafedisport

Henrique de Carvalho Dias, fotógrafo. (Na foto acompanhado pela sua esposa) 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A política e os negócios de Francisco Moita Flores

Movimentos financeiros entre a empresa “ABB Construções” e empresa da mulher e dos filhos de Moita Flores põem em causa credibilidade do ex-autarca


A Câmara de Santarém deu uma compensação de um milhão e oitocentos mil euros a uma empresa (ABB Construções) que construiu um parque de estacionamento em Santarém e, pouco tempo depois, essa empresa fez chegar à conta de uma empresa dos filhos de Francisco Moita Flores uma verba de 300 mil euros que serviu depois para transferir para uma outra conta da empresa da mulher de Moita Flores, Filomena Gonçalves.
Não é normal um político ter negócios pessoais e familiares com uma empresa que trabalha para a autarquia onde ele é presidente e sujeitar-se a estes movimentos financeiros, sabendo que, hoje, o escrutínio sobre os políticos aumentou substancialmente. Ainda por cima Moita Flores saiu do concelho de Santarém aos pontapés nos seus antigos camaradas e deitando fumo pelos olhos nas relações com todos aqueles com quem partilhou o Poder. Nada do que acabo de escrever, baseado no que é do conhecimento público (ver notícia nesta edição na página 9) prova que Francisco Moita Flores é corrupto ou se deixou corromper; mas os indícios que o Ministério Público (MP) encontrou e persegue são muito perigosos para a credibilidade do ex-autarca de Santarém a quem sempre ouvi dizer que estava na política para devolver ao país aquilo que as suas instituições lhe tinham dado ao longo da sua vida. Não conheço melhor forma de justificar o dever de cidadania que pagar a quem devemos na mesma moeda, ainda para mais quando se chega a uma idade em que o dinheiro deixa de ter tanto valor e nem para comer já precisamos do prato cheio.
A maior parte dos camaradas e companheiros que ele levou de Santarém em excursão à sua casa de campo no Alentejo ainda hoje falam disso, não para valorizarem o gesto de hospitalidade mas dando conta de uma certa vaidade, própria dos novos ricos, que gostam de fazer alarde das condições de vida que lhes permitem a compra de bens e a contratação de pessoas para os servirem.
Francisco Moita Flores é um Franciscano praticante que acredita em Deus e, sempre que pode, vai confessar-se aos padres. Acredito por isso que, nesta altura, ele já esteja a contas com a sua fé e creia piamente que tudo se resolverá para seu bem e da sua família. Mas eu, que sou ateu e não me confesso às mulheres da minha vida, quanto mais aos padres, não acabo esta crónica sem lembrar que quem semeia ventos colhe tempestades. Quinze dias antes das eleições autárquicas, em que Moita era candidato em Oeiras, o ex-presidente deu uma entrevista a um jornal, entretanto defunto, em que só faltou chamar atrasados mentais aos políticos camaradas e ex-amigos que deixou no seu lugar a governarem o concelho de Santarém. Não é normal este tipo de comportamento, por maiores que fossem as zangas na direcção política da autarquia. A ira revelada nestas relações é um sinal pouco abonatório da personalidade do político e escritor, autor de alguns livros como “O Carteirista que fugiu a tempo”, “Mataram o Rei” e “Polícias sem História”.
Moita Flores justifica em declarações ao jornal Expresso que tudo o que está a acontecer é uma perseguição do MP e do actual presidente da Câmara de Santarém, Ricardo Gonçalves. Quanto ao movimento do dinheiro diz que está tudo justificado e que ninguém tem que ver com as contas das empresas da mulher e dos filhos. Parecem-me fracos argumentos para uma pessoa que conhece bem as investigações a estes casos e o valor que têm para o MP as acusações de perseguição política. JAE.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A vida que dá trabalho e o trabalho de uma vida


O MIRANTE volta a entregar os prémios Personalidade do Ano. Oportunidade para recordar o valor das entrevistas dos nossos premiados e a memória de Manuel da Costa Brás, falecido em Julho do ano passado.


A entrega dos prémios Personalidade do Ano, que O MIRANTE organiza esta quinta-feira pelo 15º ano consecutivo, vai ser muito provavelmente a nossa melhor e mais participada iniciativa de sempre. A oito dias da data já tínhamos o Convento de S. Francisco, em Santarém,  esgotado com a presença garantida das nossas Personalidades mas também de uma boa parte dos nossos principais parceiros neste projecto.
Este ano voltei a acompanhar de perto algumas das entrevistas que vêm publicadas na edição especial de 52 páginas que integra a edição semanal onde publico esta crónica. Devo confessar que já tinha saudades de um desafio como este; nos últimos tempos o trabalho obrigou-me a fazer contas, organizar papéis e arquivos, enfim, a fazer uma série de coisas que escapam aos meus interesses principais mas que não posso deixar de cuidar.
O jornalista que se preza quando faz entrevistas sabe como entrar na vida pessoal e profissional do seu entrevistado e se não o explora até ao tutano não está a fazer um bom trabalho. Depois, a montar a conversa, só entra aquilo que não ultrapassa as fronteiras definidas entre as duas partes mais aquilo a que a profissão obriga.
De todas as entrevistas das Personalidades de 2019 que elegemos para receberem o prémio esta quinta-feira posso testemunhar que nenhuma delas frustrou as nossas expectativas. O que fica no gravador e não cabe no papel, principalmente por questões de espaço, dava outra edição especial. Uma das entrevistas tirou-me o sono durante alguns dias por ser impossível publicar metade da conversa que eu achava que não podia deixar de fora. Como perder o sono é perder também qualidade de vida tive que entregar a outra pessoa a decisão final sobre o que devia ficar de fora depois do texto trabalhado e apurado.
Posso dar-me a este luxo porque trabalho com uma equipa que tem muitos anos e que não desafina nas grandes questões e nos maiores desafios. Para além de jornalistas fomos obrigados a aprender a editar os nossos textos e os textos dos nossos camaradas. Alguns de nós levam mais de duas décadas a aprender como se enxofra e ainda nos emocionamos com o cheiro do enxofre.
Acho que merecemos estas Personalidades. Assim como acho que merecemos muitas outras que ao longo dos anos nos honraram com o recebimento do prémio e com a sua presença na cerimónia. Recordo com saudade as palavras de Manuel da Costa Brás, a quem demos o prémio Vida em 2014, e que este ano voltamos a homenagear a título póstumo (faleceu a 2 de Julho do ano passado com 84 anos). Vamos editar na cerimónia de 20 de Fevereiro algumas imagens da entrevista que realizámos com ele no Pombalinho, de onde era natural e onde viveu parte dos últimos anos da sua vida. Era uma figura de referência da nossa região. Um homem com uma vida cheia de trabalho e cargos importantes mas genuinamente uma pessoa humilde e sem peneiras. Em 2014, em Rio Maior, a voz tremeu-lhe na hora de agradecer o prémio mas não deixou de lembrar o exemplo de vida que recebeu dos seus pais. JAE.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Viver a vida a trabalhar longe do trabalho



O restaurante Mirante da Paraíba, no Brasil, é só um pretexto para o autor desta crónica confirmar que a vida não é só trabalho mas que mesmo a viajar estamos sempre a trabalhar.


Há muitos anos fui convidado a visitar Jericoacoara, a meio de uma viagem a Porto Seguro, onde subi o Monte Pascoal. Fiquei de tal modo agarrado ao lugar onde, segundo reza a história, os índios avistaram pela primeira vez as naus de Pedro Álvares Cabral, que não tive coragem de deixar a cidade durante 15 dias de férias que passei por lá. 25 anos depois, de mochila às costas, meti-me a caminho e cumpri o sonho adiado.
Pelo que me contaram já não fui a tempo de reconhecer Jericoacoara dessa altura. Mas ainda vale a pena perdermo-nos naqueles caminhos de areia e dunas, mar e rios.
Fiz o caminho já de noite, a partir de Jijoca, na camioneta do Pantera, acompanhado de uma dezena de nativos que tinham vindo à cidade tratar da vidinha. Todos com menos de metade da minha idade. Cheguei à pousada Paradise, com o Rodrigo do outro lado do telefone, antes de negociar a viagem, a desaconselhar-me todas as propostas indecentes que me fizeram antes da decisão de viajar no banco da frente ao lado do Pantera.
Jijoca é uma cidade a uma dúzia de quilómetros de Jericoacoara, que vive dos turistas que viajam para o mítico lugar do Ceará. É lá que deixamos os nossos carros e é para lá que voltamos depois da descoberta do paraíso. Apesar da existência de pousadas de cinco estrelas esqueçam o conforto dos grandes hotéis. Fiquei na pousada Paradise, gerida pelo Rodrigo, e paguei cerca de 20 euros por noite; mas só o tempo que ele me dedicou a contar histórias, e o prazer de o ver a fumar um baseado, sentado na rede, justifica o preço da diária e desculpa todas as falhas com a Internet, a falta de água quente e as duas ou três baratas sem importância que me fizeram companhia durante três noites.
Foi ele que me recomendou o restaurante para jantar, mas também o pequeno espaço onde tomei diariamente o café da manhã, que paguei com os trocos que sobravam dos passeios, que ele também ajudou a marcar a preço de amigo. Hoje Jericoacoara não é nada daquilo que ouvi contar, mas a culpa é minha que viajei com mais de 20 anos de atraso. Mesmo assim valeu a pena, embora há duas dezenas de anos certamente teria aproveitado muito melhor as noites de festa.
Aproveitei a proximidade com o estado de Piauí e do Maranhão e fui dormir à cidade de Parnaíba para dar uma volta pelo rio e visitar as praias e, melhor do que as praias, os Lençóis Maranhenses, outro projecto adiado das viagens do tempo em que tinha mais olhos que barriga.
Fiz muitos quilómetros de carro, comi muitas moscas pelo caminho, dormi demais para o meu gosto, mas nunca mais me vou esquecer da Anna, do Gleicivan, da Lindalva, do Rodrigo, do Pantera, do Tiago, da Gardénia e do Valdir. E de mais meia dúzia de pessoas que, tal como eu, têm o sonho de ir por esse mundo fora mas acabam presos nas teias de aranha do lugar onde nasceram ou onde escolheram sobreviver a trabalhar.
Falta contar que em Parnaíba fui almoçar ao restaurante Mirante, que é um dos que de vez em quando aparece pelo meio das pesquisas sobre notícias de O MIRANTE. De repente, o dono do restaurante, que fica na Praça do Amor, no centro de Paraíba, era o mais orgulhoso dos proprietários de um título a verde que é o orgulho da família.
Gleicivan, o filho de José Ribaba, que comprou o restaurante em 2005, acabou de o renovar e fazer dele um dos melhores lugares para comer no centro da cidade. Ficava bem aqui um pequeno apontamento sobre as qualidades gastronómicas do Mirante e um pouco da história de vida do proprietário que é um homem que trabalhou muitos anos no duro para ter uma vida decente. Mas o espaço é curto e escrevo esta crónica quase na hora de me meter num avião de regresso a Lisboa, para depois ir trabalhar para Santarém, ainda a tempo de, no outro dia, ir apanhar umas laranjas ao campo da Chamusca. JAE.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A luta pelo financiamento dos Media e a crise no jornalismo

Os novos projectos de comunicação social não precisam de gráficas, nem de negociarem o preço do papel, dos CTT, distribuidoras, e muito menos dos postos de venda. Mas os patrões querem resolver a crise pedindo ao Governo apoio para assinaturas e redução do IVA. Está tudo parado no tempo a ver a banda passar.


O associativismo empresarial ligado aos Media anda pela hora da morte. Numa altura em que os jornais perdem todos os anos 10% de circulação, os CTT têm os preços mais altos da Europa, as gráficas estão falidas e a distribuição já só tem uma empresa no mercado que é a VASP (só no ano passado a distribuição baixou cerca de 13% no conjunto de todas as publicações vendidas em banca).
Contra a crise os patrões propõem ao Governo a compra de pacotes de assinaturas para as escolas, vantagens no IVA, apoio no combate à iliteracia, enfim, uma série de reivindicações que já vêm de tempos antigos. E ainda bem, porque estas medidas não resolvem nada. Sem a publicidade do Turismo e de outras entidades do Estado, e sem o apoio às empresas de comunicação social a exemplo do apoio às empresas de outras áreas da cultura, é mais do que evidente que não vamos a lado nenhum. Se os jornalistas e empresários do sector não sabem que a classe política quer é câmaras de televisão atrás das suas comitivas, mais os jornalistas da LUSA e da RDP/ RTP que, mal ou bem, lhes fazem o serviço mínimo, quem é que vai conseguir compreender este mundo em mudança que vivemos todos os dias?
O jornal “Observador” é um bom exemplo da caducidade das propostas dos patrões dos Media: chegou ao mercado e venceu; com apoios de investidores ricos, é verdade, mas com a vantagem de não precisar das empresas da distribuição, de ensacamento, de plastificação, de endereçamento, das gráficas e dos CTT, que são o grande calcanhar de Aquiles da denominada imprensa tradicional. Como muito bem recordava recentemente um estudioso do sector, Nobre-Correia, o El País lançou em Novembro de 2013 uma edição diária digital em português destinada ao Brasil. É só um exemplo que serve às mil maravilhas para exemplificar o nosso amadorismo até a pedir apoios ao Governo.
A maioria dos jornais e rádios de referência têm as suas redacções em Lisboa e Porto e organizam-se sem equipas comerciais, mesmo depois de as Agências de Meios terem secado a distribuição do bolo publicitário. A solução para todos eles é irem à procura de publicidade por esse país fora. O problema é que a grande maioria dos patrões querem gerir a crise sem mudarem de gestão e de mentalidade. Outro exemplo da crise no sector que não é financeira mas de regime: a grande maioria dos jornalistas passa o dia de trabalho em Lisboa e no Porto a canibalizarem as notícias uns aos outros, regra geral relacionadas com aquilo que se passa nos corredores do poder, mais o que vai soprando das fontes policiais e tribunais onde os grandes processos, como o caso Marquês e tantos outros, vão dando para encher chouriços todos os dias.
 Arlindo Consolado Marques, cidadão de Mação e Torres Novas, faz mais pelo rio Tejo que todos os funcionários dos organismos oficiais. Os seus textos no Facebook geraram a maior onda de indignação sobre a poluição recente no Rio Tejo e seus afluentes. Arlindo trabalha todos os dias na sua profissão e nas horas livres dedica-se a uma missão que põe em sentido qualquer jornalista sentado à secretária a escrever sobre a deputada Joacine, André Ventura e companhia Lda., alguns dos bobos de serviço. Arlindo é o exemplo de que muitos jornais e jornalistas estão a mais no mercado. Por muito que se critiquem as redes sociais há gente a trabalhar mais nas horas livres pela defesa do país e do seu património do que muitos jornalistas encartados. JAE

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Em defesa da Casa Memória de Camões em Constância


Em defesa da Casa de Camões, do trabalho ímpar de Manuela de Azevedo, e da inutilidade de certa gente que faz a gestão dos cargos e dos dinheiros públicos sem critérios e sem honra. E uma visita a José Saramago que depois do episódio do DN fez justiça à sua antiga companheira de redacção no Diário de Notícias.


A Casa Memória de Camões, em Constância, começou a ser notícia em O MIRANTE nos tempos mais recentes com a divulgação de uma comunicação que o actual director, António Matias Coelho, fez numa altura em que o espaço serviu para uma reunião do conselho geral da Nersant e para uma exposição documental da história da Fábrica do Caima. Daí para cá voltámos a falar com o responsável pela Casa Memória e a dar-lhe voz já que o espaço foi esquecido pelos poderes políticos e públicos.
Luís Vaz de Camões é a maior figura da cultura portuguesa, dá nome ao Dia de Portugal e não tem qualquer casa museu no território onde nasceu e foi enterrado em vala comum. Há meses andei por Florença e fui visitar a casa de Dante que é só um repositório de recordações da época em que viveu, mais umas esculturas de artistas dos nossos tempos e pouco mais. A casa foi adaptada para museu e fica situada na zona medieval da cidade. Reza a história que parte do edifício pertenceu à família do poeta que nasceu em 1265 e é considerado o pai da língua italiana.
Depois da visita, que me deu apenas o prazer da viagem no tempo, perguntei-me: se Lisboa despreza a memória de Camões por que é que o Estado português não apoia a Casa de Camões em Constância, onde já foi gasto muito dinheiro e o poeta viveu desterrado e escreveu alguma da sua lírica mais bela e memorável?
Quero crer que as razões não são problema do Estado português mas do estado em que vivemos. Os políticos de Constância e o conjunto dos autarcas da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo agradecem e são reconhecidos por aquilo que lhes cai no colo mas não têm colo suficiente para lutar por um projecto desta envergadura. Talvez tenham razão. Camões ainda hoje é difícil de ler e a sua história de vida é coisa que nem lembra ao diabo quanto mais a gente santa como aquela que os políticos contrataram para lhes tratar da papelada no Terreiro do Paço como é o caso do ex-presidente de Vila Nova da Barquinha, o burocrata Miguel Pombeiro.
Sei que é fácil criticar e mais fácil ainda dizer mal. Mas também é difícil ficar calado perante tamanha indiferença do poder político a um trabalho que demorou metade da vida de Manuela Azevedo que ao longo de dezenas de anos conseguiu a proeza de angariar financiamento para erguer sobre ruínas quinhentistas um edifício de cinco pisos que tem todas as condições para ser na Vila Poema a casa do maior poeta português que, a exemplo de Dante, foi responsável pela renovação da língua portuguesa e pela fixação de um duradouro cânone.
Manuela de Azevedo morreu aos 105 anos, foi a primeira jornalista profissional em Portugal. Dedicou toda a sua vida à cultura portuguesa. Ao contrário da maior parte dos intelectuais não lutou só pela sua obra. Foi à luta e conseguiu financiamento do Estado para a Casa de Camões que, a cada dia que passa, é um sonho que parece ter morrido com a mulher a quem José Saramago, um dia, em Constância, depois da representação da sua peça de teatro “Que Farei Com Este Livro”, que fala de Camões, cumprimentou, tirando da cabeça a sua boininha: «Muito obrigado, senhora dona Manuela, a senhora é melhor do que eu.» ( Retirado de uma entrevista ao DN). JAE.