quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O rio Tejo a Património Mundial da Humanidade

 Os rios falam; umas vezes inconformados (...) outras vezes quando se tornam lágrimas. Por isso os rios deviam ser Património Mundial da Humanidade, por razões muito mais urgentes que os monumentos de pedras seculares.

Anda por aí um burburinho, que eu aplaudo, sobre a forma de salvar o rio Tejo e a água poder servir melhor os interesses dos agricultores e das populações ribeirinhas. Gostava de ver este assunto discutido com unhas e dentes, com gente que se interessa verdadeiramente pelo ambiente e não está a pensar só no valor do rio para a economia, mas também na defesa do ambiente e na preservação da natureza.

O rio Tejo só continua igual ao rio das nossas aldeias para alguns de nós que vivem abaixo do território de Abrantes, só para citar um exemplo da agressão ao leito do rio. Quem vive para cima sabe que o Governo de José Sócrates autorizou a construção de um açude que se tornou numa verdadeira aberração, que prova o quanto a política é a arte da mentira e do engano, neste caso com custos iniciais de mais de 10 milhões de euros, para além dos prejuízos que há mais de 15 anos se vão somando e acumulando. Para nada. Para nada de importante. Aparentemente só para que Abrantes tenha o maior espelho de água urbano de Portugal. Tudo à vista dos políticos e ambientalistas que, também aparentemente, são pessoas em quem devemos continuar a confiar os destinos do país e das instituições.

Os afluentes do Tejo, desde Castelo Branco até Santarém, que são os que conheço melhor, têm uma história triste a cada ano que passa apesar das promessas políticas de defesa da qualidade da água e das suas margens. Não vou contar desgraças neste texto. Vou deixar aqui uma mensagem para todos os que gostam dos rios, e bebem água da torneira, sem se questionarem sobre o futuro do planeta.

Devíamos desafiar os autarcas a promoveram o rio Tejo a Património Mundial da Humanidade. Não estamos a falar de muralhas, nem de castelos, nem de conventos e muito menos de palácios construídos de pedras seculares e representativos de uma História com mais de 800 anos. Estamos a falar da sobrevivência das espécies e do futuro do nosso planeta que tem milhões de anos.

Já ninguém consegue recuperar os ribeiros onde as nossas mães lavavam a roupa, nem os riachos onde mergulhámos em crianças, nem os rios navegáveis que atravessavam os territórios da charneca e do bairro; mas é urgente amar os rios, criar um projecto que envolva as escolas e os professores, falarmos dos lugares onde nascem, do seu percurso, da sua flora e dos danos que sofrem da nascente até à foz. Têm que ser projectos locais para depois se tornarem nacionais.

Os rios falam; umas vezes inconformados, que é quando as águas saltam as margens e destroem tudo à sua volta, outras vezes quando se tornam lágrimas, como acontece cada vez mais com o rio Tejo e com a grande maioria dos seus afluentes. Por isso os rios deviam ser Património Mundial da Humanidade, por razões muito mais urgentes que os monumentos de pedras seculares; porque não teremos vida sem os rios; porque quase toda a água do planeta é salgada, pouca é a água doce; e porque os rios são seres fabulosos que não podemos perder por causa dos interesses dos produtores agrícolas e dos industriais que ignoram as práticas ecológicas e só pensam nos lucros imediatos dos seus negócios. JAE.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

As palavras dos outros: António Valdemar, Alberto Dines, Fernando Lemos, Ana Miranda e Baptista-Bastos

 Esta edição de O MIRANTE inclui uma entrevista que tem o meu dedo. Oportunidade para recordar que uma vida não chega para fazermos tudo o que gostamos e a profissão exige.

O MIRANTE publica nesta edição uma entrevista com o jornalista António Valdemar que tem o meu dedo. Foi fruto de um encontro para partilharmos livros e pormos a conversa em dia. Gosto da entrevista como género maior do jornalismo. Mas a vida não me deixa fazer só o que quero e, muitas vezes, só faço o que menos gosto. Quando a conversa com António Valdemar já ia adiantada, o jornalista perguntou-me: “o que você quer é uma entrevista não é?” E eu respondi com a cabeça já com a máquina fotográfica ligada, a tomar notas sempre que ouvia matéria de interesse. Por causa dessa mania de usar a caneta e o caderno enquanto converso, ouvi uma dúzia de vezes ao longo da tarde: “olhe para mim”, quando Valdemar queria dizer coisas importantes que achava que eu também tinha que ouvir com os olhos. Esta entrevista com António Valdemar fez-me voltar atrás no tempo quando falhei entrevistas com Alberto Dines, que morreu com 86 anos, e que é uma das figuras maiores do jornalismo em língua portuguesa. Tenho o mesmo sentimento em relação a Fernando Lemos, outra figura maior que desapareceu também recentemente com 93 anos, embora com esse tenha partilhado momentos que me deixaram de alma cheia. Alberto Dines deixou um legado no Brasil que não vai desaparecer tão depressa. Para além de ter sido o fundador do “Observatório de Imprensa” era um estudioso da obra de Stefan Zweig cuja casa museu ajudou a fundar, para além de ter escrito uma biografia que é uma obra monumental sobre a vida de uma personalidade fascinante da literatura mundial. O meu desencontro com ele foi só presencial; de resto fui um seguidor da sua obra e do seu exemplo como jornalista e como homem.

Fernando Lemos deixa um rasto inconfundível quando há mais de sessenta anos deixou Portugal para ir morar em São Paulo. O que começou por nos ligar foi a obra de Jorge de Sena, num congresso no Rio de Janeiro, onde fomos ambos conferencistas convidados, graças à Gilda Santos que era nossa amiga comum e uma das maiores divulgadoras da obra do autor de “Sinais de Fogo”.

Fernando Lemos tem uma obra também monumental ao nível da fotografia e das artes plásticas. Não há outro artista da sua geração, e há muitos e famosos, que tivesse deixado uma obra tão diversificada e valorosa. Como pessoa era um homem de uma afectividade e de uma bondade extraordinária.

António Valdemar é diferente destas duas figuras que me conquistaram a estima e o coração. São as tais diferenças que tornam tudo semelhante quando “há um espinho que as anima”, para citar Augusto dos Anjos em a “Última Quimera”, um dos melhores romances da escritora maior da nossa língua, chamada Ana Miranda.

António Valdemar tem uma ligação muito afectiva ao Ribatejo e a muitas personalidades ribatejanas, matéria que não entrou na conversa mas que um dia destes talvez consigamos actualizar noutro encontro.

Uma última nota para quem gosta de jornalistas e de jornais e dos segredos da profissão: Armando Baptista-Bastos foi, sem espinhas, um dos melhores jornalistas de sempre na arte da entrevista. Conheça a maioria das suas grandes entrevistas e alguns dos seus entrevistados que, ou o elogiavam ou lhe chamavam os piores nomes, sempre por causa do seu génio e da arte do seu trabalho. Esta conversa com António Valdemar não é uma peça à Baptista-Bastos nem nada que se pareça. Mas é fruto do mesmo prazer pela profissão e pelo gosto de dar a conhecer “As palavras dos outros”, um dos seus livros que reúne algumas das suas melhores entrevistas. JAE.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Raios partam aqueles que só estão bem com o mal dos outros

A história de O MIRANTE é a história de uma terra, de uma região e de um povo; com muitas e variadas leituras, com muitas e variadas cores, com grandes e extensas lacunas, omissões, erros, falhanços, mas também alegrias, missões impossíveis, lições de vida, serviço público e dever cumprido.

O MIRANTE comemorou 33 anos a 16 de Novembro; deve parecer uma eternidade para quem tem 18 anos; talvez um sopro do vento para quem já passou dos 70 ou dos 80 anos; para alguns de nós pode ser apenas um número se olharmos os anos que passam como simples elementos da nossa vida.

“Não podendo fundir totalmente a sua vida com a existência das coisas, o poeta cria um objecto em que as coisas lhe parecem transformadas em existência sua.

Não podendo fundir-se com o mar e com o vento, cria um poema onde as palavras são simultaneamente palavras, mar e vento.

A finalidade do poeta não é acrescentar objectos à natureza. O mundo não precisa nem de retratos que o repitam nem de ornamentos que o enfeitem.

O poema aparece porque é necessário à existência do poeta. É por isso que Rilke diz que o único julgamento duma obra de arte está na sua origem.

Nenhum sistema de filosofia, nenhum tratado de estética, pode ensinar a distinguir um poema verdadeiro dum falso poema. Sabemos da poesia que ela é uma necessidade mas que não é uma necessidade geral. Como necessidade, sabemos que ela é uma necessidade elementar e não uma necessidade secundária.

De facto, um homem que precisa de poesia precisa dela, não para ornamentar a sua vida, mas sim para viver. Precisa dela como precisa de comer ou de beber. Precisa dela como condição de vida, sem a qual tudo é apenas marginal e cinza morta”.

Recorro às palavras de Sophia de Mello Breyner, retiradas de um texto publicado em 1960, para marcar a crónica que coincide com a data de mais um aniversário do jornal.

Assim como um poema é noventa por cento de labor e dez por cento de inspiração, mais coisa menos coisa, uma ideia, um trabalho, ou lá o que fazemos todos os dias, o que nos liga ao mundo é sempre o selo da aliança com as coisas.

A história de O MIRANTE é a história de uma terra, de uma região e de um povo; com muitas e variadas leituras, com muitas e variadas cores, com grandes e extensas lacunas, omissões, erros, falhanços, mas também alegrias, missões impossíveis, lições de vida, serviço público e dever cumprido.

Nunca seremos mais do que aquilo que os leitores e os anunciantes quiserem que sejamos. Em 33 anos sempre acrescentamos valor ao valor; basta conferir a edição que temos na mão, uma das mais participadas de sempre a nível editorial e comercial.

Só os governos do país, e os apaniguados dos governantes que se escondem como ratos nos gabinetes de Lisboa, desconhecem que há uma força e uma urgência no interior do território que eles nunca conseguirão extinguir; nem vencer pelo boicote e pelo desprezo com que nos tratam. E é certo que um dia vão ter que ceder; é certo que um dia vão ter que ser mais justos para quem vive longe do Terreiro do Paço, da linha de Sintra, dos corredores do Poder, onde se distribuem as prebendas e quase todos são filhos de Deus; e os que não são depressa aprendem a viver debaixo das saias do Senhor.

Raios partam aqueles que só estão bem com o mal dos outros. JAE.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Saia de casa: vá caminhar e abraçar as árvores

 Tenha casa à beira do rio, na charneca ou no bairro, saia à rua, caminhe e conviva nem que seja com os animais presos à corda à beira da estrada. Se mora na cidade bom proveito: a fauna é bem mais divertida que a dos caminhos das hortas e dos quintais da aldeia.

A pandemia obriga-nos a ter mil cuidados para não ficarmos infectados. Mas, por favor, saia de casa e vá para a rua, com máscara, dupla se achar necessária, com luvas, proteja-se de forma a que não seja contaminado. Arranje forma de não levar as mãos ao rosto; Se é pessoa de risco elevado, por causa de outras doenças, vá às compras onde houver menos barafunda. Mas saia de casa; caminhe e conviva com a vizinhança; use o telefone para triplicar as chamadas para os seus amigos e familiares. Se ainda não sabe usar o telefone para entrar nas redes sociais peça a alguém que lhe ensine: o Facebook e o Instagram são o melhor local para se divertir a ver e a ler as figuras ridículas que nos oferecem.

Comente as notícias de O MIRANTE, do Expresso, e do Público, e de outros jornais da terra quando não andar na rua a apanhar o sol de Outono ou a chuva miudinha que molha tolos; não se importe que o/a olhem de lado por andar na rua a vadiar; fechado em casa é que não; desde a antiguidade que está escrito na nossa testa que os homens são animais sociais; todos precisamos uns dos outros para alcançarmos a plenitude da vida. Está provado que as pessoas que se isolam ficam deprimidas com muita facilidade. Perdem os amigos e, sem eles, ninguém vive. A falta de contacto social cria ódio, e revolta, nas pessoas. A maioria fica agressiva, e quanto mais dura o isolamento, ou o confinamento, mais se agravam os problemas psiquiátricos devido à perda da autoestima, e à sensação de que não pertencemos a este mundo, ou que pertencemos mas somos excluídos sem dó nem piedade. Os políticos populistas ganham terreno quando acontecem desgraças como a actual pandemia. O ódio e a revolta que se instala nas pessoas isoladas, e confinadas, faz com que percam a razão e fiquem do lado dos fascistas e dos comunistas que acham que o mundo só se endireita com mais autoridade.

Ligue a televisão mas veja os programas sobre viagens e natureza; há meia dúzia de canais que passam documentários sobre ciência e vida animal, só para dar dois exemplos, que nos enchem a alma e engrandecem o espírito. Há programas que nos transportam para territórios físicos e mentais que nunca pisaremos, mas que podemos dizer que já sentimos depois de os vermos na televisão.

O livro é o melhor companheiro para nos proteger da solidão e dos desgostos da vida. Quando entramos num livro entramos na vida de outras pessoas, pisamos as fronteiras de outros países, subimos a outras latitudes; só precisamos de ligar o cérebro ao coração e não nos enganarmos na escolha do livro; assim como há filmes e programas de televisão que nos deixam os olhos em bico, também há livros que só servem para base de candeeiros ou para enfeitar uma estante. Opte pelos clássicos e assim terá a certeza de que fará sempre uma escolha acertada mesmo que o género não seja o seu preferido. Leia e saia todos os dias à rua, o tempo suficiente para se libertar da angústia, para recarregar baterias, para deixar a sua marca na conversa com o dono da padaria, ou com o dono da pastelaria, ou com quem encontrar pelo caminho e achar que merece dois dedos de conversa.

Proteja-se da Covid-19 com máscara; e proteja-se acima de tudo das pessoas que entraram em pânico por causa da doença; dos políticos e da comunicação social que lhe dão Covid-19 ao almoço e ao jantar; More à beira do rio, na charneca ou no bairro, saia de casa, caminhe e conviva nem que seja com os animais presos à corda à beira da estrada; em último caso não se esqueça que pode abraçar as árvores. Pode fazer tudo o que quiser para quebrar a rotina e não deixar que a loucura tome conta de si. Se mora na cidade bom proveito; a fauna é bem mais divertida que a dos caminhos das hortas e dos quintais da aldeia. JAE.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O mau exemplo do Instituto Politécnico de Santarém

 O IPS tem novo presidente assim como um novo líder do Conselho Geral. Mas se não houver uma revolução na gestão da instituição antes da data das próximas eleições o IPS abre falência.

O Instituto Politécnico de Santarém (IPS) tem um novo presidente do Conselho Geral (Hermínio Martinho) por desistência do anterior. Francisco Madelino terá pedido escusa por ter muito trabalho no Inatel do qual é presidente. Francisco Madelino nunca foi um bom presidente do Conselho Geral do IPS. A sua escolha foi política e é exactamente nessa área que ele é uma fraca figura. Quem conhece bem Francisco Madelino diz que ele era bom para exercer actividade política na antiga União Soviética, por ser cara de pau e ter carácter conflituoso próprio de quem acha que todos lhe devem e ninguém lhe paga. Enquanto presidente do Conselho Geral do IPS, Francisco Madelino foi um zero à esquerda. Como sempre, ser natural da região (Salvaterra de Magos) não importa quando o importante é o trabalho e o amor à causa. No Ribatejo ou na Beira Baixa, quando os políticos querem o Poder pelo Poder, é sempre no Terreiro do Paço que têm os olhos e o coração palpitante.

A nova realidade do IPS, com João Moutão a comandar a instituição, não promete nada de novo se não houver coragem para mudar a forma como a Escola funciona e está organizada. A instituição vai estar sempre nas mãos dos que, como os Madelinos, querem é tacho porque não gostam da profissão que escolheram, seja a gerir o Inatel seja num qualquer organismo do Estado que sirva de trampolim para mais altos voos.

Dou um pequeno exemplo do modelo de funcionamento do IPS que serve às mil maravilhas para percebermos como é difícil endireitar o que já nasceu torto; cada Escola tem um serviço administrativo com tudo o que isto acarreta ao nível das chefias e da importância que cada um acha que deve ter no futuro da instituição. São seis serviços administrativos, a contar com o da presidência, onde reinam não sei quantas dezenas de gestores, todos a puxarem para o lado que lhe dá mais jeito na gestão da sua quintinha.

Com a desorganização e a divisão que se instala com este modelo de gestão, os professores, que, regra geral, ganham bem e trabalham pouco, têm sido o maior foco de instabilidade da instituição. Para se perceber até que ponto os professores são capazes do melhor e do pior, na votação para a eleição do novo Conselho Geral, os três votos que faltaram de um total de 21 foram exatamente os votos dos representantes do pessoal docente. Faltou ainda o voto do representante dos alunos mas aí a burocracia da instituição é que levou a melhor.

O IPS, com o seu estatuto e com uma média de quatro mil alunos, devia ser o maior líder regional, alavanca de progresso e de desenvolvimento de parcerias que elevassem a região ao estatuto que merece. Ao contrário, é uma instituição onde há uma guerra civil permanente, onde se escondem políticos de carreira como Francisco Madelino, onde se divide para reinar, como nos países e nas instituições onde o poder se conquista nos gabinetes ou nas ruas. Não estou a exagerar; dou outro exemplo gritante; os professores de uma determinada Escola do IPS só podem dar aulas naquela Escola. Não pode haver misturas; O IPS parece mais um colete de forças que uma instituição de ensino.

Ouvi muitas vezes o Professor Joaquim Veríssimo Serrão falar do seu sonho de ver o IPS transformado em universidade. É um sonho cada vez mais adiado. Mas não deixo de recordar o homem que esteve por trás da fundação desta escola de Homens que nunca mais teve uma direcção que honrasse o seu nome e o seu trabalho a um nível digno de figurar nos anais da instituição.

João Moutão tem idade e estatuto para fazer uma revolução no IPS. Se não for um guerreiro vai acabar a sua presidência antes das próximas eleições porque o tempo não está para lutas inglórias como as dos seus antecessores. JAE.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A guerra contra o Diabo e um apelo às armas

 Os patrões da comunicação social desinteressaram-se da única associação (API) que tinha voz para reivindicar junto do Governo. Por ser uma associação amordaçada e confinada, a imprensa regional e local não tem interlocutores junto dos poderes de Lisboa.

Conheço um músico de orquestra que depois de cada trabalho enfia o instrumento na mala até chegar a hora da actuação seguinte. É assim há muitos anos. É músico profissional como muitos são talhantes, caixas de supermercado, cantoneiros, etc, etc, por que não conseguiram ainda melhor profissão para ganharem a vida. É um músico profissional que já sabe a música de cor, não tem respeito pelo maestro nem toca em orquestras que lhe exijam muito. O exemplo serve para comparar com aqueles profissionais do jornalismo que acham que a profissão resolve-se diariamente com umas notas sobre a pandemia, uma entrevista com um político ou um dirigente desportivo e dois ou três textos roubadas da reunião de câmara dos assuntos de antes da ordem do dia. Não estou a atirar pedras a ninguém, mas a fazer um exercício que só me contempla a mim, que ainda sou jornalista de tarimba, quase 33 anos depois de ter fundado este jornal.

Esta semana tomei a decisão de pedir a demissão da Associação Portuguesa de Imprensa (API) de que somos sócios desde a fundação do jornal. Aprendi muito com o associativismo; com os jornalistas e os patrões dos jornais que noutros tempos davam o coiro e o cabelo na defesa dos seus interesses. Era nesses encontros que os políticos do Governo gostavam de se mostrar; era nessas arenas que percebiamos quem estava no negócio para fazer jornalismo e quem estava no jornalismo para valorizar os negócios.

Ver como o mundo mudou nos últimos 30 anos na área da comunicação social é um exercício mais fácil para quem entrou no jornalismo por dever de cidadania e não por opção profissional. Por isso, esta semana pedi a demissão da única associação que conheço que representa os jornais nacionais e regionais. Estive sempre na primeira linha do combate associativo; e devo ter sido daqueles que mais luta deu às direcções da associação sempre numa postura de combate pelo colectivo. Desisti. A API, antiga AIND, continua a ser gerida por gente que respeito como pessoas mas que, como dirigentes, não valem um chavo.

33 anos depois de fundar O MIRANTE ainda vivo a ensacar jornais, a angariar assinantes, a dirigir jornalistas, a zangar-me todas as semanas com os distribuidores dos jornais, enquanto a grande maioria dos dirigentes baixaram os braços, vivem alegremente do sistema ou sobrevivem do negócio que se tornou ser dirigente associativo. A coisa é complicada demais para explicar numa crónica. Fica aqui a nota para que os leitores de O MIRANTE saibam que somos líderes de mercado, mas não dormimos na forma.

Não é a pandemia que está a acabar com a imprensa local e regional; é a falta de liderança empresarial e a incapacidade para reivindicar junto do Governo medidas de apoio para a comunicação social que trabalha e representa 90% do território que sofre os problemas que todos bem conhecemos. Agora que o associativismo devia ser um apelo às armas, para citar a ministra da Justiça, a propósito do combate contra a fraude e a corrupção, a associação que representa os jornais (API) está amordaçada e confinada; não há reuniões, nem estratégias conjuntas, nem planos de acção que ajudem o sector a sair da crise ou a minorar os seus efeitos. Que fiquem com Deus; nós vamos continuar a guerra contra o Diabo. JAE.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

A biblia e a palavra de Deus contra as mulheres

 Uma releitura do Eclesiastes, uma citação de mais um artigo do advogado João Correia e uma lembrança de Juliette Gréco a musa da canção francesa.


No tempo em que o leito do Tejo na Chamusca e em Santarém era caudaloso, e muita gente ainda vivia da pesca, li uma entrevista de um escritor que me fascinava, truculento, brigão, mestre da língua portuguesa, polemista, que confessava ter sempre a Bíblia na mesa de cabeceira; e quando viajava levava-a sempre consigo. Fiquei pasmado. Eu imaginava o porquê, mas tive que ir à procura. Para mim a Bíblia sempre foram os Provérbios, os Salmos e o Cântico dos Cânticos. O resto era enfadonho. E o apelo dos grandes clássicos, dos livros cujas matérias mais me interessam, sempre suplantaram o interesse maior pela leitura integral do livro dos livros.

Recentemente, graças a Fátima Salgado, voltei ao tema com a descoberta do Eclesiastes, vigésimo primeiro livro da Bíblia, da autoria de Kohelet. A leitura de alguns trechos são familiares; fiquei a saber que é um dos escritos bíblicos que mais influenciaram a literatura ocidental.

Antes de Baptista Bastos e José Saramago, só para citar dois autores que usaram a influência dos textos bíblicos nas suas obras, William Shakespeare cansou-se de usar a expressão “não há nada de novo debaixo do sol”, Leo Tolstoy rendeu-se ao Eclesiastes e diz que foi o livro que mudou a sua vida. Machado de Assis, talvez o maior escritor de sempre em língua portuguesa, tem influências do Eclesiastes em toda a sua obra, que também considerava o seu livro de cabeceira. No romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, que reli recentemente, o escritor traça a epopeia da irremediável tolice humana, a sátira da nossa incurável ilusão, feita por um defunto desenganado da vida. “A vida é boa mas com a condição de não a tomarmos muito a sério”, “uma certeira repetição do velho tema da vaidade de tudo, e do engano da vida”, a que o Eclesiastes deu a consagração secular.

O meu orgulho, que ainda dura, de ter lido a Odisseia e a Ilíada aos 30 anos, sofreu um revés agora que percebi que por causa de não gostar de hábitos, assim como não gosto de fardas, só agora aprendi que “é melhor escorregar no chão do que no falar”. Mas não acabo sem um aviso à navegação; a Bíblia é o livro mais perigoso para a emancipação das mulheres e a sua luta contra a discriminação e a violência que, para muitos homens, está institucionalizada pela palavra de Deus: “É melhor a maldade do homem do que a bondade da mulher; a mulher causa vergonha e chega a expor insulto”. Mesmo com muitos ultrajes, impropérios e violência contra as mulheres, como aliás é norma em quase todo o texto bíblico, a leitura do livro de Kohelet foi uma das boas redescobertas destes últimos tempos de leitura.



Hoje, a Ordem dos Advogados deixou de ser uma realidade judiciária e forense e, provavelmente, nunca mais atingirá o prestígio que a levava a ombrear com as demais corporações, a ser respeitada e ouvida pelo poder político.

Tudo isto, antes e depois de 25 de Abril. Tenho muita mágoa. Tenho esperança numa jovem advocacia que retome a dignidade e o prestígio da advocacia portuguesa. (João Correia, jornal Público 17/09/2020).

Não sei se Juliette Gréco visitou a lezíria ou a charneca ribatejana. Nunca a encontrei em Santarém, nem sequer em Lisboa onde actuou a última vez em 2008, já com 81 anos. Eu é que, num dia já distante, fui de Marselha até Saint-Tropez, onde ela vivia, e tenho quase a certeza que vi a dama de negro da canção francesa numa esplanada da cidade. A imagem que tenho dela é de braço dado com Miles Davis, na noite de Paris, mas nesse dia em que a vi estava de cigarro na boca, túnica negra e óculos escuros, olhando os sapatos de salto alto que as mulheres deixavam abandonados no passeio marítimo, quando aceitavam entrar nos iates de luxo para beberem champanhe e, quem sabe, incendiarem o coração na presença dos playboys que as aguardavam. Juliette Gréco morreu no dia 23 setembro, com 93 anos, e embora famosa sempre dizia que a sua vida andante tinha pelo meio muito caminho de cabras. JAE.