quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A Gazeta do Povo e o meu amigo Campos Valério

Nos últimos dias visitei uma das maiores empresas de comunicação social em língua portuguesa para perceber o que tinha mudado em duas décadas desde que a visitei pela primeira vez. Mudou tudo. O jornal deixou de se publicar diariamente no papel, sai ao domingo, e a aposta está toda no online. O sector comercial é uma sombra do que era há duas décadas. O retrato da empresa está irreconhecível comparado com o de há 20 anos. Saí da reunião com a Ana Amélia Filizola, na sede do Gazeta do Povo, em Curitiba, confirmando o que já sabia; tudo no Brasil ao nível da comunicação social é incomensuravelmente maior, e diferente, de Portugal. Por isso a lição, hoje como ontem, é sempre ao gosto do aluno.


Reencontrei mais uma vez o meu amigo António Campos Valério, um emigrante português em Curitiba há mais de sessenta anos. Tem uma história de vida que me comove. Voltamos a almoçar em família. O restaurante era perto de um antigo barracão onde há mais de meio século se alojavam os emigrantes portugueses em Curitiba. Ele não. O pai era construtor civil e tinha casa própria. Foi graças aos conhecimentos do pai que aos 16 anos entrou para uma empresa de automóveis só para fazer recados.
Poucos anos depois era vendedor e chefe de vendas. Há mais de vinte anos levou-me a dar uma volta ao mundo pelo Estado do Paraná e pelas cidades onde geria delegações da empresa. O fim da viagem foi em Foz de Iguaçu onde a luz do dia é azul devido à energia/magia das águas das cataratas.
António Campos Valério viu crescer Curitiba dos 160 mil habitantes para os dois milhões. Conversar com ele é abrir o livro da vida. É um homem de família, generoso, sábio, profundamente crente nos valores da amizade e da solidariedade. Jamais voltaria a viver em Portugal mas ama a terra e todos os dias sabe pela televisão o suficiente para matar saudades. Quase todos os anos atravessa o Atlântico mas, de costas ou de barriga, regressa sempre ao Mirante da Serra, em Curitiba, o bairro onde construiu a sua casa e onde criou as cinco filhas.
JAE

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O médico Lopes Dias não falava de política, mas tinha opinião sobre as pessoas que faziam política

A morte do médico Henrique Lopes Dias, da Golegã, apanhou-me a ler um livro de memórias que fala da terra mãe, da respiração dos sentimentos do berço, da contemplação das diferentes nuvens em céus diversos do mundo que, no entanto, nos transportam sempre para a terra natal das palavras que dizemos e escrevemos, que guardam o nosso local de nascimento.
A Golegã podia ser a minha terra. Os lugares, os caminhos e as pessoas fazem parte importante do meu imaginário. Lopes Dias foi o médico da minha família até muito depois de se reformar. À noite, quase sempre depois do jantar, o seu consultório era o meu banco de urgências, para mim e para toda a família. Por causa de um internamento de um familiar no Hospital da Golegã atravessei o Dique dos Vinte no auge da maior cheia de sempre, no ano em que cedeu com a força da água. Tenho memória disso em casa porque o Francisco Cid estava lá com a máquina fotográfica.
Apesar de ser especialista em ouvidos, nariz e garganta, Lopes Dias fazia clínica geral. Não era um homem de muita conversa mas era afectuoso. Trabalhava todos os dias. Lembro-me de falar com ele sobre o stress do trabalho e ele confessar que fazia o que gostava. Por isso, dava consultas à noite depois de um dia normal de trabalho. Muitas vezes, eu era o único doente. Saltava da sala de televisão para o consultório só para me atender. Nessas alturas dialogava mais. Púnhamos a conversa em dia. Ele não falava de política, mas falava das pessoas da política. Guardo dele uma voz amiga e solidária, nas horas em que mais precisamos de alguém que nos faça esquecer que “viver é irreparável”, e que “é terrível ter o destino da onda anónima morta na praia. A citação literária vem a propósito, porque falávamos muito de literatura e de Miguel Torga em particular.
No mundo não há nada mais importante do que os médicos e os farmacêuticos das pequenas cidades (inspirado num verso de Mário Quintana e a recordar-me também da morte de Joaquim Cabeça, Joaquim Machado (farmacêuticos) e Armando Cumbre e Artur Barbosa (médicos)). 
JAE

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Os empresários são os mágicos da economia

O MIRANTE voltou a entregar prémios às empresas da região. Ocasião para recordar que também há empresários à força que procuram apenas o lucro e que o melhor do nosso excelentíssimo território é a auto-estrada.

O MIRANTE entrega todos os anos os prémios Galardão Empresa do Ano em conjunto com a NERSANT que escolhemos como parceiro para esta iniciativa.
Não é por acaso que nos ligamos às empresas e tivemos a ideia do prémio. Os empresários são os mágicos da nossa economia. Sem eles não teríamos território; e se tivéssemos era para ver passar os carros e os comboios (de barcos já nem vale a pena falar).
Tenho admiração por alguns empresários da região que já nomeei algumas vezes nos meus textos e que tenciono voltar a nomear. Acho muito mais fácil governar uma região com empresários do que com políticos. Mas precisamos das duas actividades; e que todos os protagonistas sejam gente boa, com estatuto, Homens de palavra e de solidariedade.
A nossa região é um bom exemplo de empreendedorismo. Mas é bom que não esqueçamos que há muitos empresários à força, nascidos de um certo oportunismo de mercado, empresários que querem ficar ricos rapidamente, que não têm qualquer consideração pelo tecido social da terra onde têm as empresas.
Gente que ganha muito dinheiro a gerir as empresas da região mas que não sabe nada da nossa geografia nem do tecido social; que ignora o território para mais tranquilamente poder poluir os rios, e as terras férteis do bairro, do campo e da charneca; gente que vive em Cascais ou no Estoril e dá graças a Deus por termos uma excelente auto-estrada num excelentíssimo território.
E ainda temos os empresários falhados, que só são empresários para darem cabo da vida deles e dos outros; que vão para a insolvência como quem vai dar um mergulho na piscina.
O MIRANTE não tem, nem nunca teve, um posicionamento negativo quanto ao papel dos empresários e à sua importância no desenvolvimento do país e da região. Por isso temos um caderno de economia dentro da edição; e publicamos todas as semanas dezenas de notícias sobre os nossos empresários e as nossas empresas.
É com eles, com a maioria deles, que queremos continuar a mostrar trabalho e também, nem que seja uma vez por ano, a entregar prémios.
JAE

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

O centro histórico de Santarém é dos violadores?

A formação dos magistrados não inclui lições sobre civilização e vida na terra? A segurança, a honra e a dignidade das pessoas podem ser violadas como as dos animais pelos caçadores furtivos ou em época de caça?

Esta semana recebi vários recados e sugestões para não nos esquecermos de actualizar as notícias sobre as tentativas de violação no centro histórico de Santarém.
Como é evidente a cidade não fala de outra coisa; mesmo passado tanto tempo.
A violação é um dos crimes mais temido e capaz de gerar um alarme social parecido ou igual ao clima de guerra civil. As pessoas mais fragilizadas deixam de sair de casa; outras vivem o drama permanentemente e com isso adoecem e ficam mais dependentes dos seus familiares. Ninguém merece viver num país que tem um Governo e uma Justiça que não nos protege dos assaltantes e dos assassinos.
O caso de Santarém, que O MIRANTE actualiza nesta edição (ver página 8), é menos dramático que o caso, também recente, de Pombal, onde a polícia desmantelou um gangue que se dedicava a roubar e martirizar até à morte gente idosa e indefesa; trabalho de sapa dos polícias que o Tribunal desvalorizou ouvindo e soltando logo a seguir os presumíveis criminosos.
Todos sabemos que em Portugal não há prisões para tanto gatuno; mas também já não há para quem rouba e agride até à morte ou quase até à morte? Os juízes dos tribunais que não prendem esta gente bárbara não têm coração? Nem família? A formação dos magistrados não inclui lições sobre civilização e vida na terra? A segurança, a honra e a dignidade das pessoas podem ser violadas como as dos animais pelos caçadores furtivos ou em época de caça?
Vamos todos esperar que as tentativas de violação no centro histórico de Santarém não se repitam a breve prazo e com os mesmos personagens. É assim que a coisa funciona regra geral. Os criminosos prevaricam, a polícia apanha-os, o tribunal solta-os. Até que os criminosos voltem ao local do crime e tudo se repita.
 JAE

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O crime que nunca existiu

Uma crónica roubada das páginas do livro “O Processo - tentativas de condicionamento da informação em Portugal”, da autoria do jornalista Orlando Raimundo, que conta como começou e acabou uma tentativa de calar a informação sobre as avenças do advogado José de Oliveira Domingos assinadas no tempo de Rui Barreiro. Um livro com lançamento público marcado para 19 de Setembro.

No primeiro trimestre de 2010, o advogado de Santarém, José Oliveira Domingos, apresentou ao Ministério Público uma queixa-crime contra O MIRANTE, acusando-o de abuso da liberdade de imprensa. Em concreto, o cidadão, à partida tão respeitável como qualquer outro, dizia-se muitíssimo ofendido pelo jornal, por este ter dado dele, enquanto pessoa e homem de leis, a imagem de uma criatura ambiciosa e sem escrúpulos, capaz dos maiores atropelos para conseguir os seus objectivos. Nada disto era dito ou estava escrito no jornal, entenda-se. «Dar a imagem» não significava que em algum momento os jornalistas o tivessem comparado à controversa figura de Nicolau Maquiavel. O que tinha, afinal, acontecido? O MIRANTE tinha-se limitado a noticiar, na edição de 6 de Janeiro de 2010, que Oliveira Domingos, enquanto advogado avençado da Câmara de Santarém, exigia o pagamento imediato de meio milhão de euros, pelo acompanhamento de seis processos judiciais, transitados da anterior presidência da autarquia.
O presidente em exercício, Moita Flores, que sucedera a Rui Barreiro, surpreendido e chocado com a exorbitante exigência, avaliava-a como não sendo sequer merecedora de resposta. E isso era escrito no jornal. Nada, na notícia, era imputável à opinião do jornalista que a redigira, que se limitara a relatar os factos. Na sequência da participação criminal, o Procurador do Ministério Público do Círculo de Santarém, António Artilheiro, que deveria ter-se limitado a defender a legalidade democrática e os interesses que a lei determina, tomou as dores do ofendido e deduziu a acusação.
O MIRANTE era processado porque, imagine-se, não tinha nada que se meter no assunto e muito menos que publicar notícias sobre os negócios do advogado.
É por demais evidente que a notícia estragara os planos de Oliveira Domingos. Se o assunto tivesse sido mantido em módulo sigiloso, negociado no silêncio dos gabinetes, de forma discreta, talvez ele tivesse conseguido o que queria. Sem correr o risco, o que era o mais importante, de o tema se tornar escandaloso e passar para as bocas do mundo. Ou não fosse o segredo a alma de todos os negócios. JAE

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A qualidade do ensino e as lideranças nos Politécnicos

Jorge Justino é daqueles dirigentes que não saem da toca, não sabem dar um grito nem um murro na mesa.

Os dois Politécnicos da região são imprescindíveis para a economia local. Tomar e Santarém perderiam muita e importante actividade económica se por alguma razão os Politécnicos falissem.
O actual panorama do ensino Politécnico não é o melhor, nem o mais recomendável, para que o seu futuro possa estar garantido a médio prazo. Embora existam várias realidades a ter em conta, conforme as instituições e os líderes, a generalidade debate-se com falta de alunos e com um ensino muito abaixo da média. Há muitas dúvidas sobre a qualidade do ensino e muitas certezas sobre a falta de liderança de algumas escolas.
O presidente do Politécnico de Leiria foi à cerimónia do dia da cidade defender para Leiria a criação de uma Universidade Técnica. Segundo ele, o Politécnico deve evoluir para Universidade até ao ano 2022. E pediu apoio à região para a criação de um ecossistema educativo de investigação e inovação que ajude a chegar a esse objectivo.
Ninguém vai preso em Portugal, por enquanto, por ser ambicioso e aproveitar as cerimónias públicas para dar conta do mérito da sua instituição, da excelência da sua gestão ou dos objectivos a que se propõe. O que se estranha é que os lideres não apareçam em público, convidados ou por iniciativa própria, a puxarem dos galões e a defenderem o seu trabalho e a importância das suas instituições.
Jorge Justino está de saída do Instituto Politécnico de Santarém e não vai deixar saudades. O Politécnico está cheio de problemas, dividido, tal como ele o encontrou, e não se lhe conhece em oito anos de gestão uma atitude, um discurso, uma medida que o faça ficar na memória quanto mais História. Jorge Justino é daqueles dirigentes que não saem da toca, não sabem dar um grito nem um murro na mesa. O que ele fez na presidência do Politécnico de Santarém foi exercer o poder, mas sem carisma, talvez com ambição mas sem coragem, talvez com um bom programa mas sem energia para o pôr em prática, eventualmente cheio de boas intenções mas sem corpo para dar o peito às balas, fugindo sempre às perguntas difíceis, escondendo o rosto nas alturas em que devia ter dado a cara. Alguém conhece Jorge Justino? JAE

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

As elites que temos e não temos

O aeródromo de Tancos continua abandonado e as reuniões urgentes pedidas ao Presidente da República e ao Governo caíram em saco roto.

Estamos em Agosto mas há assuntos que não podem esperar pelos leitores que estão de férias.
O roubo das armas de Tancos, que trouxe a Chamusca e a região ribatejana para as capas dos jornais e a abertura dos telejornais, não foi o suficiente para despertar as nossas elites para a luta pelo aeródromo de Tancos, uma infraestrutura em elevado estado de degradação que não serve os interesses militares nem civis.
Há cerca de três meses a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo deu sinal de vida num comunicado muito mal distribuído e muito pouco aproveitado pela comunicação social. A sensação que tive na altura foi que o texto era para inglês ver e não para ter qualquer efeito ou cumprir qualquer pretensão.
Dizia o texto que os autarcas do Médio Tejo pediram reuniões urgentes ao Presidente da República, ao primeiro-ministro e ao chefe de Estado-Maior da Força Aérea, para pedirem que reinvistam na pista da base área de Tancos e a rentabilizem como meio de valorização do interior e de coesão territorial.
Tudo o que é dito no comunicado é uma amostra daquilo que os autarcas e outros responsáveis mais próximos da base área de Monte Real vêm defendendo, com unhas e dentes, desde há muito tempo e com outras armas, incluindo artigos de opinião nos jornais, organização de fóruns de discussão, mobilização dos formadores de opinião incluindo agentes políticos com responsabilidades governativas.
A proximidade com Fátima, a centralidade da região, o turismo, o combate à desertificação do interior, a proximidade com as fronteiras da vizinha Espanha, são, entre outros, argumentos que tanto servem as reivindicações dos defensores de um aeroporto em Monte Real como em Tancos.
A diferença está nas elites. No caso de Monte Real a luta está quase ganha embora continue a ser diária e a mobilizar várias forças que trabalham no terreno e sabem lutar pelos seus interesses; no Médio Tejo, para já, é só conversa fiada e pedidos de reuniões. JAE