quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Confinado em Lisboa mas sempre a vêr o Ribatejo do cimo de um Mirante

A livraria é a minha melhor praia de verão ou de inverno. Crónica de uma tarde na Gulbenkian, onde bebo café ao lado de alguns dos meus escritores preferidos, mas onde também já fui assaltado numa cena digna de filme.

A Fundação Gulbenkian, em Lisboa, tem o jardim mais bonito do mundo para compensar um provinciano desterrado do ambiente do campo e da charneca. Há mais de quatro décadas que frequento aquele espaço, e vejo-o sempre com novos olhos e sentimentos. Um dia destes passei a manhã na livraria, para onde consegui entrar fugindo a algumas condicionantes pelo facto de andarem em filmagens nos jardins. Dentro da livraria, uma hora depois de ter folheado meia dúzia de livros( a minha melhor praia de verão e de inverno é o ambiente de uma livraria), comecei a ver do lado de lá do vidro as cenas para a série “Crónica dos Bons Malandros”, mais uma adaptaçao do livro com o mesmo título de Mário Zambujal, que a RTP está a produzir. Fiquei ali mais uma hora a ver uma dúzia de actores a repetirem uma cena, um deles empurrando uma cadeira de rodas e os outros todos em rebanho. A cena parecia a coisa mais banal do mundo, não tinha falas, e o realizador mandou repetir uma dúzia de vezes. Ninguém imagina o peso daqueles microfones no ar a acompanharem as cenas e a cara de enfado dos artistas e dos técnicos depois de cada repetição.

Quando resolvi voltar aos livros, sem outras distrações, comecei a ouvir a voz do Mário Zambujal. Espreitei até o encontrar fora da livraria, mas dentro do edifício, a conversar com uma jornalista. Posicionei-me de forma a ficar a ouvir a conversa do jornalista e escritor que está com 84 anos mas mantém uma clareza de espírito e uma qualidade na escrita que faz inveja aos santos.

Embora não tenha frequentado, como jornalista, as redacções onde trabalharam os grandes jornalistas do tempo em que comecei a escrever, convivi e fui amigo de muitos que me proporcionaram o contacto directo com a realidade. Cito dois que já morreram; Luís de Miranda Rocha, no Diário de Lisboa, e Baptista Bastos, que trabalhou no Diário Popular e, mais tarde, ajudou a fundar O Ponto, um jornal de vida curta mas que muito me inspirou. Duas figuras distintas mas igualmente homens de talento, que se entregaram ao trabalho de alma e coração, a quem ouvi contar muitas vezes alguns segredos da profissão de jornalista/escritor de quando eu nascia para a vida.

Do quanto consegui ouvir, fiquei a saber que Mário Zambujal precisou de reescrever algumas crónicas para que algumas personagens tenham história que caiba no filme, para mais ou para menos, conforme os casos, já que “os malandros hoje são muito mais sofisticados”, e “aquelas histórias tiveram o seu tempo”, segundo palavras do autor. Mas o que retenho acima de tudo foi a forma como ele contou o ambiente nas redacções dos jornais nos anos 70: “Havia sempre uma nuvem de fumo nas salas, um vozear constante entre camaradas a trocarem informação e a fazerem perguntas, que os motores de busca hoje resolvem em segundos, e aquele batuque das máquinas de escrever, que ainda hoje parece que ouço, um batuque constante, que parecia uma música de orquestra”.

Não tenho a certeza que este episódio de um sábado à tarde na livraria da Gulbenkian sirva os leitores desta coluna. Por isso acrescento duas notas que podem ajudar a minorar o textinho de uma semana de muito trabalho com os dentes cerrados e pouca inspiração. Já fui assaltado, com uma faca de cozinha a centímetros do meu nariz, nos jardins da Gulbenkian, mas só conto a história completa do assalto a um realizador de cinema.

A Fundação tem uma biblioteca onde se passa uma manhã, ou uma tarde, sem darmos conta do tempo; e mesmo ao lado tem um café com esplanada para o jardim, onde é possível encontrarmos o nosso escritor de eleição a beber um café ao lado da nossa mesa; sempre a dois passos da água do lago, dos patos e dos peixes, e também com um barulho de fundo dos carros da Avenida de Berna, e agora também das obras na Praça de Espanha. Sonho todas as noites com viagens a Estocolmo, Budapeste, Copenhaga, Berlim, etc, etc, mas, de verdade, se conseguir esquecer-me do trabalho que tenho á minha espera em Santarém ou na Chamusca, ligar o telemóvel em modo de silêncio, mesmo com os pés no chão, e confinado em Lisboa, viajo mais do que alguma vez pensei ser possível. JAE.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Os empresários já não são um exemplo como eram dantes

Faltam mais empresários preocupados com o associativismo, que se substituam aos políticos na organização da sociedade. Quatro décadas depois da revolução vivemos os maiores escândalos financeiros cujos rostos são em grande maioria os dos dirigentes do pós 25 de Abril.


Nas últimas décadas desapareceu em Portugal, definitivamente, uma elite empresarial que faz falta ao país e ao futuro do país. Portugal perdeu empresários que noutros tempos pensavam o país e substituíam-se à classe política na organização da sociedade, naquilo que sempre souberam fazer melhor que é participar na vida colectiva das populações de proximidade.

As empresas eram escolas de engenharia, de gestão, etc, etc, muito melhores que universidades; eram os empresários ligados a vários grupos, e a vários ramos da economia, das mais variadas classes, que criavam modelos de gestão que tinham impacto na vida do país e na qualidade de vida dos trabalhadores e das suas famílias.

O 25 de Abril de 1974 em Portugal, e o ano de 1975 em Espanha, só para dar dois exemplos, trouxeram-nos liberdade e democracia, certamente as conquistas mais importantes do mundo dos últimos cem anos. Ao contrário do que seria de esperar, perdemos os grandes líderes do passado e herdamos alguns dos maiores falsários da história da humanidade que fazem lembrar os grandes facínoras dos tempos das barbáries. Não é por acaso que, só para falarmos de Portugal, temos o caso Marquês e o caso BES, que envolvem uma parte muito significativa de dirigentes políticos e empresariais do pós 25 de Abril.

A maioria dos grandes empresários de hoje já não é um exemplo para ninguém como foi Alfredo da Silva há 150 anos. Hoje os empresários de referência da região ribatejana, por exemplo, têm carros de marca escondidos nas garagens das vivendas, ganham milhões todos os anos, fazem obras nas suas mansões à custa dos apoios do Estado para o turismo, entre outras manhas, mas culturalmente e no exercício da cidadania são uns analfabetos, que correm todos os dias de Lisboa para Madrid, de Madrid para Berlim, solitários como lobos na serra, fugindo aos seus deveres sociais, como os animais em extinção fogem dos caçadores furtivos, vivendo e isolando-se para não morrerem apoplécticos nos resorts ou nas suas mansões com muros altos e longe dos lugares mais povoados.

Sou desde sempre um aliado dos empresários e também um deles; admito com orgulho que foi com os pequenos empresários que aprendi quase tudo o que sei de melhor. Tive esse privilégio de conviver com pequenos empresários que me fizeram perceber o valor da palavra dada e o mérito da honradez. Não posso negar, no entanto, que sou testemunha de um tempo em que muitos empresários se divorciam do seu estatuto de cidadãos e de agentes de transformação sócio-económicae cultural. As associações são um espelho desse divórcio. A falta de dimensão humana e cultural de muitos empresários, que só pensam no lucro e no estatuto; a falta de líderes com credibilidade, que saibam liderar homens e não só estruturas produtivas, é um dos problemas dos nossos tempos que não vamos conseguir resolver sem outra revolução de mentalidades.

O que muitos dos nossos empresários têm a mais nas contas bancárias e nos investimentos em carros de marca e imobiliário, têm a menos em ousadia, frontalidade, coragem e solidariedade. Só dão para a sopa dos pobres porque é barato e não causa chatice. Quando lhes cheira a trabalho colectivo, a política de proximidade, fogem de circulação como se vivessem, não no Entroncamento, em Abrantes ou Benavente, mas num palacete de Sintra.

Não é por vivermos em tempo de pandemia que vamos aliviar o valor das palavras que precisam ser escritas, e repetidas, se for caso disso. A pandemia devia ser uma oportunidade para nos questionarmos sobre o nosso papel em sociedade. Se a pandemia durar uma década, alguns de nós, que tiveram sorte no negócio ou no emprego que escolheram, vão morrer pelo caminho mais ricos do que estão agora. A grande questão é esta: de que lhes serviu terem enriquecido num tempo em que não puderam viajar, conviver, viver em família e em paz espiritual com os amigos e os familiares? JAE.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Os CTT são uma empresa que nos envergonha

A administração dos CTT não tem rosto na relação com os seus clientes. Mais grave ainda: a administração dos CTT não tem estruturas intermédias que falem com os clientes, que dêem justificações formais sobre o mau serviço que prestam, que eventualmente se disponham a devolver o dinheiro pelo serviço que cobraram e que não foi realizado, entre tantos casos que são de bradar aos céus para quem não tem outro remédio senão trabalhar com os CTT. 

O MIRANTE é um dos grandes clientes dos Correios. Desde a privatização que nos queixamos dos serviços. A nossa política de empresa, a exemplo da maioria da imprensa em Portugal, foi sempre seguida confiando no bom trabalho dos Correios para a fidelização dos assinantes. Quando os CTT eram empresa pública tínhamos sempre alguém do outro lado a dar a cara e a tentar remediar as situações mais complicadas. Desde que a empresa foi privatizada a relação é... tu precisas, então põe-te no teu lugar: paga e não bufes. Quem achar a linguagem demasiado chula não entende o que é editar um jornal para ser distribuído pelos CTT e, três dias depois, saber que o jornal ainda não chegou a casa dos assinantes quando há tão poucos anos chegava no dia a seguir.  

Só a cobrar a nova administração é severa. Um dia de atraso no pagamento da factura e carta na hora a informar que o contrato pode ser suspenso e que vão ser lançados os juros do atraso de um dia. 

O leitor está admirado com este tratamento de uma grande empresa na relação com os seus clientes? É bem pior do que aqui vai descrito. O Governo e os autarcas de todo o país sabem desta pouca vergonha. Mas veremos se o Governo de António Costa tem coragem de actuar em função dos números vergonhosos que a Anacom acaba de divulgar sobre a qualidade do trabalho dos CTT.

Comentário à notícia: https://omirante.pt/sociedade/2020-09-12-CTT-falham-servico-publico-de-qualidade-ha-4-anos-seguidos

Santarém é uma terra com pouca memória

Os 500 anos de Pedro Álvares Cabral são pretexto para recordarmos a fundação da Casa do Brasil em Santarém  e as guerras intestinas que os socialistas travaram na cidade que a fez ficar parada no tempo.   


O melhor presidente da câmara de Santarém a seguir ao 25 de Abril foi José Miguel Noras. Se não foi, o homem fez tudo para ser. Uma das suas iniciativas mais meritórias foi a fundação da Casa do Brasil em Santarém, que teve honras de visita do chefe de Estado brasileiro Fernando Henrique Cardoso. Só quem não percebe nada de política, e anda nisto para tratar dos seus interesses pessoais em primeiro lugar, é que passa ao lado destes assuntos sérios que fazem a diferença entre cidades prósperas e cidades moribundas. O trabalho de José Miguel Noras com a fundação da Casa do Brasil esfumou-se assim que Rui Barreiro assaltou o poder em Santarém. O espaço foi transformado no gabinete da vereadora Idália Moniz e, adeus Casa do Brasil. Estamos a falar de políticos do mesmo partido (PS) mas, nesta altura, a briga foi tão grande que José Miguel Noras só não recebeu ordem de prisão de Rui Barreiro porque o senhor era político e não chefe da polícia. Rui Barreiro só não desviou o curso do rio Tejo ali junto à Ribeira de Santarém, onde José Miguel Noras foi lavar a cara quando era criança, porque a obra era para um século e Barreiro, na altura, já sabia que não vivia tanto tempo para ver. Um dia alguém vai ter que contar estas histórias, algumas delas documentadas em crónicas de jornal, outras ainda na memória de todos os escalabitanos, ou de alguns, porque Santarém é definitivamente uma terra com memória muito, muito curta.

Indo ao que interessa: ainda em 2019 alertei os responsáveis políticos de Santarém para a data dos 500 anos da morte de Pedro Álvares Cabral. Pus-me várias vezes a jeito durante 2020 para dar corpo a uma iniciativa editorial que fizesse jus ao descobridor do Brasil e dos quatro cantos do mundo. Falei com quem de direito mas, como sempre, em Santarém manda quem pode e obedece quem quer.

Enquanto a maioria das cidades do mundo retoma a normalidade, Santarém tem o pessoal na toca, a começar nos homens que mandam nos assuntos da cultura. É uma tristeza franciscana, porque é a continuação da política de terra queimada que vem do tempo do senhor Rui Barreiro. Ele acabou com a Casa do Brasil mais a sua vereadora Idália Moniz, e agora podem passar mais 500 anos que o trabalho de José Miguel Noras nunca mais vai ter visibilidade ou cumprir o seu desígnio. É assim que se trabalha em Santarém quando se trata dos interesses dos cidadãos e das comunidades e do seu património físico e espiritual. Tiveste a ousadia de pôr em prática uma boa ideia que pode dar muitos frutos e queres ficar na História à minha custa se eu der andamento ao teu trabalho? Então já vais ver como elas te mordem; toma lá uma vereadora espertalhona, cega de ambições, a precisar de protagonismo, e vai lá montar a tenda na Casa do Brasil que um dia ainda chegas a banqueira. E não é que chegou mesmo?

É assim a vida. Um dia destes Idália Moniz ainda convida Rui Barreiro para assessor do Banco Montepio e as contas ficam saldadas. Entretanto Pedro Álvares Cabral fará mais um ano de morto, e a Igreja da Graça continuará a ser lugar de culto, mas só para uma minoria, à memória de um dos mais valorosos portugueses de todos os tempos. JAE.


Comentário à notícia: https://omirante.pt/cultura-e-lazer/2020-09-14-Nao-sabia-que-Santarem-tambem-tinha-uma-Casa-do-Brasil

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Os papéis de fumar do Vergílio Alberto Vieira

Enquanto enrolava um cigarro lembrei-me dos “Papéis de fumar” de Vergílio Alberto Vieira, um grande poeta que, como todos os grandes escritores, escreve todos os dias para “não falhar ser”. 

O mercado do tabaco deixou de comercializar cigarros com filtro de mentol. Confesso que sou consumidor de dois cigarros por dia, certos dias, quando, depois do jantar, tento manter-me inspirado para adiantar trabalho para o dia seguinte. É um prazer que sei pouco recomendável mas garanto que me sabe pela vida. Com o fim do tabaco de mentol comecei a comprar filtros de mentol e a fazer o cigarro à unha. De um dia para o outro recuperei a memória do meu avô paterno a quem vi enrolar milhares de cigarros durante toda a minha infância e adolescência. O meu avô morava numa casa no fundo do meu quintal, e foi o homem que, à chaminé, me iniciou no mundo mágico da literatura, contando dezenas de vezes, sempre de forma diferente, a história do Touro Azul e do Menino da Mata e do seu cão piloto, entre outros contos infantis.

Um dia destes, enquanto fumava um cigarro mal enrolado, lembrei-me dos “Papéis de fumar”, uma antologia da poesia do meu amigo Vergílio Alberto Vieira, com quem almocei recentemente em Esposende para pormos a conversa em dia. Tenho mais de três dezenas de livros do Vergílio Alberto Vieira, todos com as dedicatórias que honram a nossa amizade, que não é muito antiga mas cimenta-se em anos de convívio, frequentando os mesmos lugares de tertúlia literária embora cada um no seu lugar.

Vergílio Alberto Vieira é um perfeccionista da palavra; um poeta culto, de culto também com os seus 70 anos, que escreve para ser lido sem a preocupação de ser compreendido por todos os seus leitores. A sua poesia atravessa o último meio século, desde “A margem do silêncio” de 1971, até “Todo o trabalho toda a pena”, que é a nova reunião da sua poesia, livro editado em 2016 pela “Crescente Branco”. É um autor que ao longo de meio século experimentou, sempre com êxito, a escrita diarística, teatro, romance,  poesia, literatura infantil, para além de ter escrito durante muitos anos crítica literária em vários jornais e revistas de referência. Os “Papéis de fumar”, que não tenho na minha biblioteca, e de que me lembrei agora a fumar um cigarro mal enrolado, são a prova da minha dedicação como leitor e amigo de confidências, que não excluem a má língua, e se fixam em memórias de experiências vividas em Terras do Demo, Amares, São Miguel de Ceide, Melo, São Martinho da Anta, Lisboa, Braga e Coimbra, entre tantos outros lugares, chão de poetas e romancistas cujas leituras marcaram e marcam a viagem da nossa vida que, no caso do Vergílio Alberto Vieira vai sempre desaguar na foz do Rio Cávado e, no meu caso, numa ribeira que nasce na charneca e vai desaguar no Tejo, na Chamusca, noutros tempos bem distantes o meu mar da Figueira da Foz.

O último livro de Vergílio Alberto Vieira é um diário; “Minha ex-mulher a solidão”, Editora Crescente Branco, 2020, de onde copiei este poema que é um dos mais belos que já li em língua portuguesa:

AS MÃES;
De as não terem já só os filhos sabem
Que céus invocam, quando a noite cai;
Na terra estreita em silêncio cabem
Perdida ‘strelas de que a luz se esvai.

P’lo olhar ausente a que infinitas abrem
Passagem a caminhos de quem vai
Hão-de voltar que, das mães, o maior bem
Foi ser homem da casa sem ser pai.


Se nada teve o que não teve amor,
E o amor foi tudo o que do mundo quis
Quem do mundo só teve desamor,
Que jamais seja arrancada pela raiz
 A árvore, que nasceu para ser dor.
E, nem abatida, deixou de ser feliz.

JAE.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A pandemia, a justiça e o novo filme de Carlos Reygadas

O advogado João Correia anda a publicar textos sobre justiça que são de leitura obrigatória. Oportunidade para recordarmos  “O Processo”, de Orlando Raimundo, e o último filme do realizador mexicano Carlos Reygadas. 


O estado de pandemia em que vivemos também serve para percebermos que o mundo pode voltar ao tempo da pedra lascada em poucos anos se começar a faltar em casa o essencial para nos alimentarmos em família.

No meu bairro, que tem mais população que todas as cidades maiores do Ribatejo, trato por vizinho o sapateiro que tem loja e oficina a 10 minutos a pé de minha casa. Fui lá com umas sandálias para consertar e uma mala com o fecho meio arrombado. Coisa para uma agulha e dois centímetros de linha. “São 20 euros vizinho. Se pagar já, daqui a duas horas pode vir buscar. Tenho muito trabalho mas dou prioridade a quem paga à cabeça”. E assim foi. Sem factura, e sem remorsos, porque os mais ricos têm as empresas nos paraísos fiscais e quando querem lavar dinheiro são mais habilidosos que os traficantes de droga.


Em tempo de Feira do Livro, em Lisboa e no Porto, tiro o chapéu a um filme que ainda está nas salas de cinema: “O nosso tempo”, de Carlos Reygadas; são três horas de rendição absoluta pelo cinema de autor. O filme é quase todo rodado num rancho onde se criam touros bravos, que são parte importante para compreendermos a magnitude da trama do filme. 

Por ter mamado nos últimos meses muitos filmes sem qualidade nos canais tradicionais rendi-me à Netflix, embora saiba que há outros bons canais de filmes por assinatura. Nos últimos dias vi dois documentários; um sobre a vida da directora da Vogue italiana, Franca Sozzani, e outro sobre Cuba, que visitei durante quase um mês há 20 anos, do americano Jon Alpert, que me deixaram sem palavras e sem sono. O cinema documental é o meu género preferido; faço jus também à literatura autobiográfica que prefiro a todos os outros géneros, incluindo agora também a poesia.


Quem anda distraído sobre o exercício da Justiça em tempo de pandemia devia estar atento aos textos de opinião que o advogado João Correia escreve no jornal Público. É um sério aviso à navegação. Alguns jornalistas de O MIRANTE sentiram na pele durante sete anos, pelo menos, todos os problemas que ele aflora sobre a Justiça, que “não é a manifestação da vontade dos titulares do direito de decidir”, mas sim “o resultado da actividade de uma comunidade de trabalho reunida em tribunal para obter uma decisão justa e em prazo razoável”. Os jornalistas de O MIRANTE foram vítimas durante sete anos de um advogado da nossa praça, Oliveira Domingos, que respondeu a uma notícia que dava conta do seu pedido de quase meio milhão de euros de indemnização à Câmara de Santarém, com providências cautelares que nos proibiram de escrever sobre ele durante todo o tempo que decorreu o processo, que só acabou no Supremo com a nossa absolvição. Oliveira Domingos gastou uma pipa de massa nos tribunais a acusar os jornalistas de O MIRANTE; mas para quem, aparentemente, ganhou dinheiro fácil da Câmara de Santarém, o que teve de pagar foram trocos. O jornalista Orlando Raimundo conta todo o esquema kafkiano num livro com o título “O Processo”, editado em Setembro de 2018, que pode ser adquirido em qualquer livraria por quem se interessa por estes assuntos. JAE.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

A pandemia ajuda a matar a democracia (2)

A democracia como a conhecemos antes da pandemia também está em confinamento. Vamos empobrecer pessoalmente mas, mais grave do que isso, vamos ver empobrecer lentamente as nossas instituições porque vai haver menos cidadania activa e, logo, menos vigilância sobre os oportunistas, os sendeiros, os sabujos que não vão perder a oportunidade de mostrar a sua natureza.  


Recupero o título de uma crónica de Junho para voltar ao tema da pandemia e do que vivemos hoje graças a um vírus que voltou a fazer do planeta Terra uma casca de noz e do povo, ricos e pobres, um rebanho de ovelhas tresmalhadas. A velha máxima de que em tempos de crise só devemos começar a comprar propriedades quando o sangue correr nas ruas aplica-se igualmente, em termos de crueldade, ao que hoje se passa com a grande maioria dos cidadãos que precisam da administração pública para renovarem o livrete de um carro ou simplesmente para tratarem de um documento que lhes faz tanta falta como o pão para a boca.
Na grande maioria dos casos a administração pública não funciona, está em teletrabalho, só alguns advogados conseguem abrir portas e têm acesso aos serviços; numa palavra: a democracia para alguns cidadãos está em período de confinamento.
Quanto mais afundarmos na crise mais os bancos tomam conta da nossa economia; quanto mais precisarmos de financiamento para mantermos as nossas empresas, ou as nossas responsabilidades com a compra da casa ou do carro, ou da prestação do lar para os nossos familiares, mais ficamos nas mãos dos agiotas e menos tempo dedicamos a exercer a cidadania. É nestas alturas que o “é fartar vilanagem” ganha dimensão; por cada cem cidadãos apanhados pelos efeitos da pandemia haverá meia dúzia deles que espreitam a oportunidade de os sugarem até ao tutano, ao serviço dos bancos mas também ao serviço do Estado, atrás de um balcão de penhores mas também pela calada da noite.
No início da pandemia muito se escreveu e falou sobre o regresso ao campo e à agricultura familiar. Pura ilusão. Ao “nada será como dantes” vai vencer outra vez o “tudo como dantes, quartel-general em Abrantes”. O interior vai continuar a despovoar-se, o casario vai continuar a desvalorizar-se, o património vai valer cada vez menos e deixar mais pobres quem apostou em recuperar as suas casas, em manter as suas propriedades, em investir o seu pé-de-meia na economia local. “O capitalismo que mata”, nas palavras do Papa Francisco, está cada vez mais inteligente e protegido. Os escândalos financeiros à volta das instituições bancárias, as facilidades concedidas às empresas que se servem dos paraísos fiscais, empobrecem cada vez mais o Estado e obrigam ao aumento de impostos sobre os cidadãos indefesos que trabalham no duro para não morrerem na praia.
Vamos empobrecer pessoalmente mas, mais grave do que isso, vamos ver empobrecer lentamente as nossas instituições porque vai haver menos cidadania activa e, logo, menos vigilância sobre os oportunistas, os sendeiros, os sabujos que não vão perder a oportunidade de mostrar a sua natureza.
Para animar o circo em que se transformou a sociedade capitalista, o Benfica e a Cristina Ferreira enchem os noticiários por causa das transferências milionárias. A luta pelas vitórias nos relvados, e pelas audiências nas televisões, faz esquecer o que nos espera com a evolução do escândalo do BES, o financiamento da TAP, a discussão à volta do contrato dos CTT para o serviço postal universal que termina em Dezembro de 2020, a aposta cada vez mais duvidosa no novo aeroporto no Montijo, a regularização do rio Tejo, o ataque às culturas intensivas, a falta de água nas torneiras e as políticas agrícolas e florestais que deviam ser um desígnio nacional. JAE.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

A importância de se chamar Joaquim Veríssimo Serrão

Joaquim Veríssimo Serrão deu nome a um Centro de Investigação em Santarém que é uma fachada para a promoção de muita gente, entre elas a do seu presidente. Martinho Vicente Rodrigues aproveitou-se da instituição para publicar a sua História de Santarém e ignorou a de Joaquim Veríssimo Serrão que está esgotada e pede reedição há dezenas de anos.


Agustina Bessa-Luís, que morreu com 96 anos no dia 3 de Junho de 2019, esteve cerca de uma década a sofrer o resultado de um AVC que a retirou para sempre da vida pública. Quando morreu a família já tinha conseguido a publicação e republicação da maioria dos seus livros, e muitos outros inéditos tinham sido publicados, nomeadamente “Ensaios e Artigos (1951-2007)”, em três volumes, reunindo mais de mil artigos publicados na imprensa.
Joaquim Veríssimo Serrão, 95 anos, está a viver uma situação muito parecida com a que viveu Agustina. Internado há uma década num lar, em Santarém, os seus problemas de saúde afastaram-no para sempre da vida pública. E o que é que aconteceu à sua obra? Nada. Quase nada comparado com aquilo que era suposto ter acontecido para quem escreveu 18 volumes da História de Portugal, é autor de um dos livros mais importantes para compreender o antes e depois do 25 de Abril de 1974 (Confidências no Exílio), e autor de milhares de outras comunicações, artigos, livros, entre centenas ou milhares de cartas que marcam a História de Portugal dos últimos 70 anos.
O nome e a obra de Joaquim Veríssimo Serrão deram origem a um Centro de Investigação em Santarém que reúne a maior parte do espólio do historiador escalabitano. É de lá que todos esperam que comece a sair a republicação de alguns dos seus livros, o estudo da sua obra, a reunião da sua correspondência, enfim, aquilo que ele merece dos seus pares ou de quem ficou responsável pela sua obra, nomeadamente aquela que nunca viu a luz do dia, e é tão importante para compreendermos o tempo em que vivemos. Volto às “Confidências no Exílio” só para dizer que o livro foi censurado na altura e muitas das cartas, talvez as mais importantes, ficaram de fora por razões que têm a ver com o tempo político que se vivia no ano de 1985.
O que me leva a escrever esta crónica é a existência de um livro, Santarém-História e Arte, da autoria de Joaquim Veríssimo Serrão, editado em 1959, reeditado mais duas vezes mas esgotado há muitos anos para lamento dos seus leitores, e até lamento público de alguns dos seus familiares. A história não acaba aqui. O presidente da Fundação Joaquim Veríssimo Serrão é o professor de História, entretanto reformado, Martinho Vicente Rodrigues, que também se dedica a escrever livros. Foi o que acabou de fazer editando a História de Santarém, um tijolo com uma lombada de seis centímetros, edição de luxo, em capa dura, remetendo para o lixo a História de Santarém, de Portugal e da bibliografia escalabitana, o livrinho de Joaquim Veríssimo Serrão, impresso nos tempos de antanho em papel de embrulhar sardinhas.
É importante que se esclareça que o calhamaço foi construído à conta de uma arte antiga de satisfazer leitores que procuram livros nas estantes pelo volume da lombada; o livro foi composto num corpo de letra grandinho, com espaçamentos entre parágrafos que só se usam em livros infantis, profusamente ilustrado, coisa nunca vista em Portugal, nem no mundo, o que faz dele um tijolo digno de admiração para bibliófilos liliputianos.
A história que estou a contar é triste e deixa-me triste. Não sei se para Agustina Bessa-Luís, ou para Joaquim Veríssimo Serrão, interessa o amor e o desvelo da família, e dos leitores, depois da vida passada, ou do melhor da vida já ter acabado.
Eu é que não durmo descansado desde que iniciei a escrita deste texto e o deixei a marinar durante semanas. Mesmo assim ainda não tive tempo de ler a História de Santarém do presidente do Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão, livro editado e pago pela instituição de que é presidente, certamente com o conhecimento dos seus pares, que sabem tão bem como eu o quanto o velho Joaquim gostava que o seu livro, Santarém-História e Arte, fosse reeditado mais uma vez e pudesse ser conhecido pelas novas gerações.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Os sonhos pesados de António Rodrigues com Pedro Ferreira

Pedro Ferreira andou cerca de vinte anos a lavar com água das malvas o fiofá, o olho cego, o fuleco de António Rodrigues; nos últimos anos é o inimigo público do seu ex-camarada que o quer apear do lugar e que, pela calada, lhe faz a vida negra. 


Torres Novas tem um novo movimento político dirigido por António Rodrigues que, nos últimos anos, tem feito um chinfrim dentro do aparelho do PS para voltar a ser candidato à câmara. Como no aparelho do partido ninguém o leva a sério, António Rodrigues resolveu criar um movimento político em desespero de causa.
Para que os leitores percebam melhor o que vai na cabeça deste ex-autarca, a presença de O MIRANTE na conferência foi motivo para reclamar com o jornalista, apontando o dedo, dizendo que ninguém nos tinha chamado. Um rotundo convite a que fossemos à nossa vida e deixássemos os assuntos de Torres Novas nas mãos dele e da meia dúzia de amigos que, com ele, prometem acabar de vez com os mouros em território torrejano.
Conheço António Rodrigues há mais de 30 anos. Assisti a muitas iniciativas onde o antigo autarca era um cidadão no papel de ilustre presidente de câmara, para logo a seguir se comportar como um tontinho a dizer e a fazer disparates que faziam corar de vergonha.
António Rodrigues é um homem habituado às facilidades do sistema, e trata por tu muitos ex-governantes, e gente ligada a interesses económicos. Não é por lhe terem respeito que ele é tu cá tu lá com certa gente; é por não ter vergonha de exibir o ruído da sua voz e da sua presença, não ter consciência do quanto é ridículo em algumas das suas atitudes, quando usa com ligeireza linguagem chula ou a sua língua de trapos para classificar os seus inimigos políticos; quando, com as suas artes e manhas, se comporta como um artista de novela que tem que ganhar a vida representando. António Rodrigues é verdadeiramente um político sem vergonha, que ora arrota postas de pescada como daí a pouco está a pedir batatinhas aos amigos influentes.
De António Rodrigues podemos esperar tudo: as maiores baboseiras sobre um cidadão exemplar, as maiores foleirices sobre um adversário político, as maiores parolices sobre assuntos que exigem respeito e sentido de Estado. Agora que apresentou um movimento político, é mais que certo que vai ser candidato. Para perder as eleições, como aconteceu noutros tempos a Joaquim Sousa Gomes, em Almeirim, a José Cunha, no Entroncamento, a Pedro  Marques, em Tomar, tudo em épocas diferentes mas pelas mesmas razões que fazem com que António Rodrigues não durma com o peso dos sonhos de voltar a querer ser presidente da Câmara de Torres Novas.
António Rodrigues sempre sonhou ser o Xanana Gusmão de Portugal, depois de perceber que não podia ser o novo D. Sancho I. Vai acabar a sua vida política a chorar baba e ranho pelo lugar de Pedro Ferreira, que ainda por cima é um homem sem vaidades, sem ressentimentos, um autarca que jamais pôs à frente dos interesses do seu concelho os seus interesses pessoais.
Não acabo sem lembrar que Pedro Ferreira andou cerca de vinte anos a lavar com água das malvas o peidador, o fiofá, o olho cego, o fuleco de António Rodrigues, ora como vereador, ora como vice-presidente da câmara. Cada um de nós que imagine até onde é possível fantasiar o que é que Pedro Ferreira viveu durante vinte anos, diariamente, aturando um camarada que desde o início de 2017 anda a fazer dele inimigo público. Pedro Ferreira pode não ser o melhor político do mundo mas é, certamente, um político de confiança, um homem honesto, uma personalidade que merece o respeito dos torrejanos. Não por acaso ganhou as últimas eleições com maioria absoluta. Não por acaso conseguiu suportar 20 anos de trabalho sob as ordens de Rodrigues, e agora faz-lhe frente, obrigando o seu ex-camarada a mostrar o quanto o Poder, para ele, tem pózinhos de perlimpimpim. JAE .

quinta-feira, 2 de julho de 2020

A pandemia ajuda a matar a democracia

A pandemia fragiliza as famílias, os líderes e acima de tudo os cidadãos mais idosos. O vírus faz cobarde o mais destemido dos nossos amigos.


Stefan Zweig conta na sua autobiografia “O mundo de ontem” que se lembra de ver Adolf Hitler a dirigir comícios nos largos da cidade de Viena para meia dúzia de apoiantes. Depois foi crescendo em discurso, e em apoiantes, até se tornar o maior criminoso da História da Humanidade. É verdade que passaram cem anos e a civilização evoluiu mais nas últimas dezenas de anos do que em muitos séculos. Mas a modernidade, que em alguns casos equivale à descoberta da roda e do fogo, não nos deve impedir de olharmos para o passado como lição, quanto mais não seja para não baixarmos as guardas: nós, que exercemos profissões em que o trabalho tem muito de cidadania, e aqueles que, noutras frentes, têm tantas ou mais responsabilidades do que nós no exercício do poder e na defesa da democracia.
A pandemia fragiliza as famílias, os líderes e acima de tudo os cidadãos mais idosos que dependem de uma instituição de acolhimento. Não são só os velhos que estão nas mãos de gente sem escrúpulos que gere lares ilegais, com o Estado a demitir-se das suas responsabilidades. Portugal ganhou nos últimos anos na educação, principalmente no ensino pré-escolar e universitário, o mesmo, ou ainda mais, do que perdeu para o apoio à terceira idade.  Está à vista de todos. Bastou um vírus que, em teoria, só é mortal para quem tem graves problemas de saúde, para cairmos todos por terra e vivermos com o sentimento de que vamos morrer que nem tordos, se não for às mãos do Diabo será aos pés dos homens dos impostos, ou dos bancos, ou dos DDT (donos disto tudo), só para lembrar alguns dos tentáculos que nos cercam.
O que se passa na pequena aldeia do Arripiado, Chamusca, é pior que a Covid-19 e não vemos ninguém na defesa daquela gente. A justiça deu um sinal mas todos sabemos que os monstros mexem-se devagar. Os políticos estão cagados de medo e não têm dinheiro para contratarem segurança privada que substitua a GNR. Má sorte ter nascido no Arripiado e ter como presidente da Câmara da Chamusca um tipo tosco e analfabeto.
Toda a sociedade está refém de um vírus que fecha portas e janelas e até faz cobarde o mais destemido dos nossos amigos. Mais do que enfraquecer a democracia, o vírus enfraquece as relações, põe a nu as nossas mais pobres ambições, mostra que somos muito menos resistentes numa relação de amizade, ou familiar, do que na luta contra a doença ou no medo da doença.
Não me revejo nos políticos que participam em programas de humor na televisão com o fato de fim-de-semana, nos poderosos que se juntam para festejar calendários de jogos de futebol; nos iluminados que vão para as avenidas empunhar bandeiras políticas e comemorar dias especiais; acho que o vírus já matou e vai continuar a matar de medo muita gente que achava que fazia parte das estatísticas que apontam para uma esperança de vida acima dos 80 anos. A culpa será menos do vírus e mais daqueles que nos metem medo com o vírus, que nos confinam em Abrantes pelas mesmas razões que nos mandam para casa em Odivelas ou na Amadora, por aqueles que agora mesmo estão a decidir nos gabinetes de Lisboa quais as empresas que vão morrer e os empresários que vão continuar a dominar o sistema.
O autor de que falo no início deste texto viveu as duas guerras mundiais a fugir da Áustria para Inglaterra e, mais tarde, para o Brasil.  Foi amigo de Rilke, Freud, Joyce, Mann e tantos outros artistas e humanistas da época. Dizia ele que fugia de um mundo cruel e louco para poder sobreviver, embora depois sucumbisse às feridas do seu tempo.
Para quem sente que a leitura é um remédio milagroso contra todas as doenças, que entretanto reapareceram com a chegada do coronavírus, recomendo a leitura da sua autobiografia; poucas vezes na vida compreendi, durante a leitura deste livro, o mundo em que não vivi. JAE.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Um país de Sargentos e de 10 milhões de carecas

A greve dos CTT seria caso de polícia se vivêssemos num país de gente responsável e solidária. Ao contrário: vivemos num regime político em que, tal como na tropa, quem manda são os sargentos. 


A greve dos Correios, que aconteceu recentemente, é um bom exemplo do país em que vivemos e do mau governo da Nação. Os sindicatos, que agora já não estão pressionados pelo PCP, porque a gerigonça acabou, convocaram uma greve pornográfica para uma sexta-feira a seguir a dois dias feriados. Mas, antes dos dias feriados, portanto, antes do inicio de umas férias a meio do mês, alguns concelhos já não tiveram distribuição de correio, como aconteceu na cidade de Santarém, só para dar um exemplo.
A greve, imagine-se, é por causa do pagamento do subsídio de refeições em cartão. Podia ser pelo aumento dos vencimentos, pela política empresarial suicida da administração dos CTT, pela irresponsabilidade dos gestores que mandaram às urtigas o serviço público postal para ganharem dinheiro como banqueiros. Mas não foi por nada disto; o pretexto foi a ninharia, ou seja, o grande objectivo foi prejudicar os cidadãos e as empresas que precisam de um serviço postal de qualidade. A greve é um direito constitucional, mas assim, com pretextos como este, num calendário como o escolhido, faz lembrar um país em auto-gestão. É certo que nunca mais voltaremos a ter um serviço postal como tínhamos antes da privatização dos Correios. E isso é culpa do Governo do PS e do PSD que, sendo partidos de regime, não sabem reconhecer o que são empresas de bandeira, como deveria ser o caso dos CTT, uma empresa lucrativa até cair nas mãos dos privados, que se aproveitam do Estado para fugirem às suas responsabilidades, perante 10 milhões de pessoas carecas de saberem que isto não vai lá com paninhos quentes e abracinhos de Marcelo Rebelo de Sousa.
Não sei se a classe política, de onde começam a emergir novos líderes, como é o caso de André Ventura, não merece o país que temos. Desde Cavaco Silva a António Guterres, dois dos mais conhecidos governantes do regime democrático que sucedeu a Salazar e Marcelo Caetano, nenhum deles teve coragem e inteligência política para fazer a reforma do Estado.

Quem trabalha, e tem que lidar com a administração pública, sabe que, a exemplo do que se passa nas instituições militares, quem manda nos gabinetes dos ministros e na administração central são os sargentos, ou seja, aqueles que controlam a máquina, que defendem com unhas e dentes as suas corporações, que não cedem um milímetro quanto aos seus privilégios e dos seus camaradas de partido. Na maior parte dos casos, os governantes e os seus homens de mão nos organismos do Estado são peças que qualquer sargento ao serviço de interesses corporativos facilmente avaria ou põe na oficina para revisão prolongada. Eles mandam no dinheiro, mas também nas prioridades; são eles que escolhem quem tem acesso ao dinheiro mas também à honra de ser tratado de igual para igual. Na maioria dos casos passamos o nosso tempo de vida na parada do quartel, ao sol e à chuva, como recrutas, à espera da hora do barbeiro, do acesso às camaratas e na esperança de que o dia seguinte não seja de chuva. JAE.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Comer, dormir e visitar Santarém, Tomar e Torres Novas

Nos últimos meses li uma dúzia de livros que me salvaram do coronavírus e da doença que se abateu sobre todos nós, principalmente sobre aqueles que, depois de três meses de confinamento, voltaram às ruas para mostrarem o seu ódio à civilização, e aqueles que, desde há séculos, lutam pelos ideais de justiça, liberdade e igualdade.  


Sou solidário com a luta dos negros, com os homens e as mulheres vítimas de violência  doméstica, os jornalistas vítimas da arrogância do poder policial ou político. Ultimamente a imprensa portuguesa esqueceu-se da Amnistia Internacional mas o trabalho desta organização é um dos mais importantes e valorosos do mundo na defesa dos mais fracos e desprotegidos. O jornalismo, em geral, é cada vez mais de modas, e de interesses particulares. Revejo-me cada vez menos na comunicação social portuguesa. Abro uma excepção para a RTP2, que melhorou substancialmente os seus conteúdos, e para o jornal “Expresso” que continua a ser, a longa distância de todos os outros, o melhor do país e um dos melhores do mundo.
Com as crises, o jornalismo sai sempre mais forte; mas é durante as crises que se vêem melhor os jornalistas que são os lenços de assoar dos políticos.

Nos últimos meses li uma dúzia de livros que me salvaram do coronavírus e da doença que se abateu sobre todos nós, principalmente sobre aqueles que, depois de três meses de confinamento, voltaram às ruas para mostrarem o seu ódio à civilização, e aqueles que, desde há séculos, lutam pelos ideais de justiça, liberdade e igualdade. Tenho um dos livros na cabeça para todos os momentos difíceis do dia-a-dia. É um livro biográfico de Ana Miranda sobre Gregório de Matos, de que já falei aqui. Não me contentei com a leitura e escrevi um longo texto para exercitar a minha capacidade de elogiar um escritor que dedica parte importante da sua vida a estudar a vida de outro, para depois se sentar a uma secretária durante quase outra vida a escrever a sua história. Dou valor a quem prescinde da praia, dos longos passeios e das longas sestas, para escrever, escrever, escrever até que a Obra-prima aconteça. “Musa Praguejadora” é uma Obra-prima da literatura em língua portuguesa, que não conta só uma boa parte da história de Gregório de Matos mas também da História de Portugual e do Brasil do século XVII, onde se incluiu o Padre António Vieira, contemporâneo e amigo de Gregório de Matos, e agora tão lembrado mais uma vez pelas piores razões, ele que será, depois de Luís de Camões, um dos que poderia dar nome ao Dia de Portugal.
Li e depois escrevi sobre “Musa Praguejadora” entre uma esplanada de Tomar e outra de Santarém, num fim de tarde em Torres Novas, no caminho para as piscinas onde passei bons momentos da minha adolescência, muitas vezes com o livro debaixo do braço sem o abrir ao longo do dia, mas confiante na boa companhia, e vivendo do que a memória ainda guardava da leitura dos dias anteriores. Não há melhor companhia que um bom livro, uma lição de vida em letras miudinhas, em que nos revemos, a nós e àqueles que marcam a nossa vida desde que temos memória, e também os lugares, e as épocas que nos antecederam, e parece que afinal ainda vivemos ou estamos a viver. JAE.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Um autarca na Chamusca que ninguém merece; muito menos o povo da Carregueira


O Presidente da República foi almoçar à Carregueira a um Centro Social graças à luta e militância de um deficiente pela causa dos seus pares. O presidente da Câmara da Chamusca, Paulo Queimado, apareceu sem antes fazer contas com a instituição e “virou as costas” ao Chefe de Estado.


O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi almoçar à Carregueira, uma freguesia do concelho da Chamusca, a convite de um homem que resolveu lutar pelos direitos dos deficientes. A história é conhecida mas os resultados, como sempre, nunca aparecem de uma vez. Eduardo Jorge está agora a facturar o resultado da sua militância, e também do seu atrevimento, porque ninguém ganha uma guerra sem travar muitas batalhas. Por causa do trabalho de um homem, que luta pelos direitos dos deficientes, Marcelo Rebelo de Sousa pôs a Carregueira no mapa do país, e na agenda da Presidência da República, que prometeu voltar em breve para uma reunião de trabalho nas instalações do restaurante.
Quem vive na região, e não está confinado ao seu bairrismo, sabe que é na Carregueira que se despejam os lixos mais perigosos do país. Sabe ainda que esta conquista do Governo de Pedro Passos Coelho foi conseguida à custa do sacrífico da população, que aceitou o investimento num clima de paz, depois de o mesmo ter sido rejeitado noutras localidades do país num clima de guerra.
O Eco Parque do Relvão, que foi o grande projecto do reinado de Sérgio Carrinho, custou a presidência da Câmara da Chamusca à CDU. O PS ganhou a câmara nas penúltimas eleições autárquicas, graças à campanha dos socialistas da freguesia, que deram um resultado esmagador e histórico ao partido, deixando o candidato da CDU a poucas dezenas de votos da vitória.  Os empregos criados pelo Eco Parque do Relvão podem não ser suficientes para compensar a violência contra o meio ambiente, o perigo para a saúde das populações, a desvalorização das propriedades confinantes, e tudo o que se sabe que está por trás de lixeiras de resíduos perigosos. O Eco Parque do Relvão um dia destes vai dar grandes e tristes histórias por causa da falta de estradas em condições, de uma nova ponte sobre o Tejo, por causa da eventual má gestão do Parque, da especulação com os lotes de terreno que valorizaram mil por cento, quem sabe, esperemos que não, pelas razões que levaram o PS local a fazer uma campanha silenciosa contra Sérgio Carrinho que, fora da corrida às eleições, não teve substituto à altura para que a CDU mantivesse a presidência da câmara.
Paulo Queimado foi para a Carregueira receber Marcelo Rebelo de Sousa sem fazer contas com a direcção da instituição que o convidou, e sem dar, ao menos, uma justificação nem que fosse de mau pagador. Para alem de ter aceite um convite de uma instituição que despreza, não aproveitou a ocasião para sensibilizar a mais alta figura do Estado para todos os problemas do concelho da Chamusca, que são tão actuais como a situação de pandemia em que vivemos. Paulo Queimado é um dirigente político que ninguém merece; muito menos o povo e os dirigentes associativos da Carregueira. JAE.

Chamar racista a Luís de Sousa é tão leviano como chamar oportunista a um deputado

O presidente da Câmara de Azambuja foi notícia no Parlamento por ter identificado a comunidade cigana como vítima do surto que afectou um bairro social da vila. António Costa criticou e André Ventura e Catarina Martins tiraram proveito político, cada um à sua boa maneira.


O presidente da Câmara de Azambuja, Luís de Sousa, está a meio do seu último mandato com o maior desafio da sua presidência; ajudar a gerir e controlar a pandemia do coronavírus no seu concelho onde, até agora, o drama atingiu proporções que assustam as autoridades.
Depois do fecho da Avipronto, por ordem das autoridades, que entretanto se tornou também um caso de justiça, e do toque a rebate nas instalações da Sonae, eis que uma comunidade de um bairro social da Azambuja gerou forte contestação e medo na vila, levando o presidente da câmara a pedir um cordão sanitário para impedir mais focos de infecção.
Luís de Sousa identificou a comunidade como sendo de origem cigana e foi um regabofe no Parlamento com André Ventura a perguntar ao primeiro-ministro, em jeito de desafio, se sabia dos problemas do PS com os ciganos; “não passo a concordar consigo quando discordo dos meus autarcas. E quando eles dizem as mesmas coisas que o senhor diz discordo na mesma sem problemas”, disse António Costa, ouvindo de André Ventura a provocação do dia: “quem sabe o seu autarca não será o próximo candidato do Chega à Câmara da Azambuja”.
Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, também se atirou a Luís de Sousa com o pretexto, errado, de que o autarca tinha pedido um cordão sanitário só porque os infectados eram ciganos. Nenhuma diferença entre André Ventura, que é racista para ganhar eleitorado, e Catarina Martins, que é anti-racista exactamente com o mesmo objectivo de conquistar votos às populações que vivem num mundo à parte e sabem de todos os problemas sociais pela televisão ou pelo Instagram.
No meio deste combate ideológico salva-se a acção política de Luís de Sousa que, com serenidade e sabedoria, como é seu timbre, assumiu as suas declarações com a clareza e frontalidade de um autarca de proximidade que está habituado a tratar os ciganos por tu e a identificá-los um a um, pelo nome próprio.
Chamar racista a Luís de Sousa, ou pôr em causa a sua forma de chamar os bois pelos nomes, gerindo o seu território em situação de pandemia, é a mesma coisa que dizermos que os deputados da Assembleia da República são todos uns figurantes e oportunistas, com a diferença de que ganham quase três mil euros por mês, quando passam a maior parte do tempo de trabalho a coçar a micose. É verdade que ganham bem, mas também é verdade que, mal ou bem, são eles que garantem o funcionamento da democracia em que vivemos desde o dia 25 de Abril de 1974.
Luís de Sousa deve orgulhar-se do seu trabalho e do facto de gerir um concelho que tem uma das maiores áreas logísticas do país, com mais de duas centenas de empresas, que dão trabalho a cerca de nove mil pessoas.

Na mesma altura em que o Parlamento discutia esta questão a Câmara Municipal de Santarém, em colaboração com diversas entidades, despejava habitações no centro histórico da cidade, que tinham sido ocupadas ilegalmente, e cujos habitantes punham em causa a saúde pública. Fica aqui a informação, sem comentários, mas em cima do acontecimento, para darmos conta que nem sempre a Assembleia da República é o lugar onde se passam as coisas mais importantes que acontecem no país. JAE.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

O gatuno do Arripiado, os toureiros amarrados e o populismo de Marcelo Rebelo de Sousa

A população de Arripiado vai ter o merecido descanso. Pandemia não rima com touradas; Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa são dois populistas que se aproveitam do jornalismo tipo “pé de microfone”.


Pandemia não rima com tauromaquia. Não é preciso ser bruxo para antecipar, a muito curto prazo, a morte das corridas de toiros se não forem pagas com língua de palmo como aconteceu recentemente na Chamusca onde a câmara municipal se substituiu ao empresário da praça e pagou tudo, à grande e à fartazana, dando ar ao dinheiro que não utiliza para as obras e para o desenvolvimento social, cultural e económico do concelho.

Alguns artistas da festa foram acorrentar-se nos portões da praça de toiros do Campo Pequeno, em Lisboa, para serem filmados para as televisões e assim reivindicarem publicamente o regresso das touradas para poderem voltar a trabalhar. A mobilização não envergonha quem lá esteve mas devia envergonhar quem vive da festa e ficou em casa. O mundo dos toiros é um retrato das velhas tradições do mundo de outras eras e de outros costumes. Basta estarmos atentos à popularidade e à intervenção cívica da maioria dos artistas para percebermos que as touradas têm os dias contados se a montagem dos espectáculos não for assegurada por dinheiros públicos. É evidente o receio das grandes marcas de se associarem a um espetáculo que, entretanto, começou a ser considerado bárbaro por uma boa parte da sociedade portuguesa. Curiosamente os homens dos toiros continuam a assobiar para o lado e não fazem nada para darem a mão à palmatória evoluindo também em consonância com os novos tempos e a forma de pensar das novas gerações.

O MIRANTE deu voz à população do Arripiado, Chamusca, que vive aterrorizada com os assaltos. Foram as pessoas que nos ligaram e que, depois, se juntaram no largo principal da aldeia à volta do repórter para gritarem por socorro. Nesta edição damos conta de desenvolvimentos que provam a importância da intervenção cívica dos cidadãos que dão a cara para defenderem o que têm de mais precioso que é a vida e o juízo. Neste meio tempo, aqueles que tinham por obrigação darem o peito às balas, e mostrarem solidariedade, ficaram escondidos no conforto dos seus gabinetes.

Quem tem a sorte de poder acompanhar visitas de trabalho do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ou do primeiro-ministro, António Costa, percebe quantas dezenas de jornalistas, vulgo “pés de microfone”, se movimentam como bonecos articulados tentando roubar um som diferente, apanhar um gesto espectacular ou, quem sabe, filmar em directo um tropeção ou uma brejeirice de um destes protagonistas. Tanto Marcelo Rebelo de Sousa como António Costa têm feito a agenda de muitos jornalistas só para debitarem o mesmo discurso de sempre, como se o mundo ficasse melhor cada vez que entram numa livraria, num restaurante ou num jardim-de-infância. Respeitar a democracia também é combater o populismo. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa dão um mau exemplo quando exercem as suas funções institucionais permitindo que os jornalistas os persigam como se, de repente, pudessem caminhar por cima dos microfones ou dos teclados dos smartphones. JAE.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Os lares ilegais no país de Sócrates, Jerónimo e Cavaco

Os lares ilegais na região podem chegar ao número das quatro centenas. Não por acaso alguns países da Europa tratam os políticos portugueses com desprezo.


Os lares ilegais no distrito de Santarém poderão chegar às quatro centenas segundo informação que O MIRANTE obteve junto de fontes da protecção civil. A notícia da passada semana, que apontava para 130, peca por defeito e minimiza um problema que é muito mais grave do que se pensava. O facto deste negócio, que mexe com a saúde pública e os direitos dos mais desprotegidos, passar ao lado do crivo das entidades que cobram impostos e zelam pela segurança de utentes e trabalhadores, diz bem do atraso civilizacional do nosso país. Não é impunemente que os dirigentes dos países mais desenvolvidos da Europa nos tratam com algum desprezo. Estas notícias são assassinas para a nossa classe política que se pavoneia todos os dias nas televisões.
Jerónimo de Sousa disse em Baleizão, no dia em que se assinalou os 66 anos do assassinato de Catarina Eufémia, que o vírus estava a ser pretexto para os patrões explorarem ainda mais os trabalhadores. Só encontro paralelo nestas declarações com aquelas que, antes do 25 de Abril de 1974, anunciavam que os comunistas comiam crianças ao pequeno-almoço.

Estamos de volta ao trabalho, à praia, aos restaurantes e às livrarias. Os números de mortes e infectados com o coronavírus em Portugal esteve muito longe daquilo que aconteceu e ainda acontece noutras paragens.  Foram pouco mais de dois meses de confinamento mas o suficiente para que nada volte a ser como dantes. Gerir empresas ou trabalhar por aí será muito mais desafiante mas também muito mais perigoso. Tudo o que aconteceu nestes últimos meses já se vinha sentindo mesmo sem coronavírus. Agora temos que aprender a viver em cima das incertezas e não podemos protestar. Claro que haverá sempre os que vivem do sistema, e cavalgam a sorte de terem empregos dourados, ou uma situação financeira acima dos simples mortais. Outros enriquecerão ainda mais com o advento da crise e as incertezas dos mercados. De verdade estaremos todos no mesmo barco porque ninguém sobrevive num mar tumultuoso mesmo que ocupe o melhor lugar do navio.

Por aqui reina o espírito decidido de quem sabe trabalhar e levar a água ao seu moinho. Para O MIRANTE a montanha pariu um rato quanto aos apoios do Estado em publicidade institucional. Vamos receber 10 mil euros limpos que dão para pagar o gasóleo de três meses de trabalho. Os milhões ficam para as empresas de comunicação social de Lisboa que são cerca de 85% das que se publicam no país e, em muitos casos, se limitam, a  nível sócio económico, a fazer informação de carregar pela boca. Não faltam excepções que confirmam a regra, o que prova que não podemos desistir de continuar a sonhar que podemos mudar o mundo nem que seja só na nossa rua.

Nestes últimos dias morreram duas grandes escritoras que conheci pessoalmente. Olga Savary (1933-2020) uma poeta brasileira que me abriu as portas da sua casa no Rio de Janeiro para contar o seu longo percurso de vida literária. Nas duas cassetes da entrevista estão também duas horas de gravação com Ferreira Gullar, outro dos maiores poetas de língua portuguesa, que também me recebeu na sua casa, no bairro do Leblon, para me contar a história da ditadura brasileira do tempo em que escreveu “Poema Sujo”.  Maria Velho da Costa (1938-2020) não era a minha escritora de eleição mas tem uma obra poderosa e um percurso de vida que faz a inveja de muitos escritores e intelectuais do seu tempo. JAE.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

A Justiça e o vinho de bom grau e boa cepa

A democracia em Portugal sofre cada vez mais das fraquezas que tanto afectam a Justiça como o Jornalismo.  


Há um dia em que a Justiça nos cai em cima e percebemos que, afinal, os tribunais também estão cheios de malandrecos e malandrecas que se servem da Justiça como o taberneiro se serve do vinho bom para lhe acrescentar água. Não é com jornais, rádios e televisões que se garante a democracia também é com liberdade de imprensa; mas sem Justiça a sério não há regime democrático que resista. Esse ditado popular que diz “mal por mal antes cadeia que hospital”, é talvez o mais mentiroso de todos os ditados populares que já conhecemos; prefiro ter uma doença a sério que passar dois dias de cadeia por ter metido a mão onde não devia ou por ter cometido outro qualquer crime merecedor de prisão. Como eu deveremos ser quase dez milhões de portugueses. Agora que a Justiça portuguesa mostrou mais uma vez o seu lado mais fraco, e isto é só a ponta do véu, o caminho fica mais estreito para todos aqueles que se servem da Justiça como o taberneiro se serve do vinho de boa cepa.
Portugal tem uma imprensa cada vez mais fraca e concentrada em grupos de grande poder económico. Os jornais e as televisões, defendem o interesse público mas estão colados a grupos de interesses e a pessoas que, na maioria dos casos, fazem parte do sistema corporativo, muitas vezes, corrupto. Não é raro lermos notícias sobre assuntos de corrupção que fazem manchete no jornal do grupo A, que entretanto passa completamente ao lado dos interesses dos jornalistas da redacção do jornal ou da televisão do grupo B. Está a acontecer neste momento, no ano da graça de 2020, para vergonha dos jornais e dos jornalistas portugueses. E o caso Marquês, em que é réu, entre muitos, o impagável José Sócrates, serve às mil maravilhas para camuflar essas fraquezas da nossa democracia que tanto afectam a Justiça como o Jornalismo.

Há uma dúzia de anos fomos roubados por uma pessoa que se apropriou de uma dezena de cheques que depositou na sua conta bancária. Apesar de estarem devidamente endossados, o meliante conseguiu enganar o caixa de uma agência bancária de Tomar e depositar os cheques na sua conta. Depois de ser descoberto, e de uma queixa em tribunal, conseguimos reaver o dinheiro em pouco tempo porque o banco em causa tentou, o mais rápido possível, sair do imbróglio em que um funcionário se deixou enredar. Quando pedimos ao nosso advogado que tentasse em tribunal uma queixa que castigasse o abuso de confiança, a resposta foi clara: pensem bem nisso; a Justiça não condena roubos/desvios de pouca monta e vocês vão gastar muito tempo e dinheiro. E assim acabou a história. A Justiça ainda é boa demais para quem vive dela e boa demais para quem se serve dela como o taberneiro se serve do vinho de boa cepa. JAE.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Rui Rio podia ser personagem de romance de João Ubaldo Ribeiro

O presidente do PSD, Rui Rio, não é muito diferente de André Ventura. Ambos carregam no verbo para compensarem a falta de ideias.

Rui Rio, presidente do PSD, afirmou que as empresas de comunicação social deviam ter do Estado o mesmo apoio que as empresas de calçado. Rui Rio alinha com André Ventura em muitas questões da vida política à portuguesa. A diferença entre eles é de comportamento. Rui Rio é mais ao jeito dos forcados, que João Ubaldo Ribeiro descreve de forma satírica no seu livro “A Casa dos Budas Ditosos”, e André Ventura é todo ele toureiro, sem capa e espada, como aqueles que frequentam as picarias mas não gostam de corridas de toiros.

O Governo diz que vai dar, em 2020, por causa da pandemia, 15 milhões de euros em publicidade institucional às empresas de comunicação social que fazem o mesmo trabalho de serviço público que a rádio e a televisão do Estado, que levam todos os anos cerca de 300 milhões de euros. Estes 15 milhões, que poderão chegar em tempo de pandemia a cerca de 500 empresas de comunicação social, entre imprensa e rádio, são uma esmola comparado com aquilo que o Estado gasta com o serviço público de televisão, rádio e agência pública de notícias. E, pior que isso, foi preciso uma pandemia para que o Estado finalmente cumpra aquilo que está publicado em Diário da República há muitos anos, que é a obrigatoriedade de publicar publicidade institucional nos jornais, entre eles os regionais e locais, que é aquilo que muito raramente acontece. Ou seja; o Estado está obrigado por lei a publicar publicidade institucional nos jornais e rádios, só que não o faz, e ninguém vai atrás do prejuízo porque dá muito trabalho e muitas inimizades. Quem conhece a minha opinião sobre as associações de muitos sectores, agricultura incluída, fica agora a conhecer também a minha opinião sobre as associações de imprensa: são quase todas prestadoras de serviço, que vivem dos negócios com o Estado, à custa dos que trabalham nos vários sectores da vida empresarial.
Rui Rio, responsável pelo maior partido da oposição, podia aproveitar o estado calamitoso em que vivemos e ganhar estatuto, lutar por um lugar na frente para um dia chegar a primeiro ministro. Ao contrário, fala do que não sabe, tem uma língua de trapos e a sua ousadia em matéria política só pode ser gozada, ao jeito de João Ubaldo Ribeiro, quando brinca com as touradas e os forcados em “A Casa dos Budas Ditosos”, ou quando cita Nelson Rodrigues para dizer que tinha razão ao afirmar que “se todo o mundo soubesse da vida sexual de todo o mundo ninguém se dava com ninguém”.

Não vem nos livros, nem é matéria dos noticiários das televisões, os dramas das populações que vivem no interior e estão entregues à bicharada. Os preços das casas em algumas vilas e aldeias da região caíram a pique e ninguém as quer comprar. Entretanto a Câmara de Lisboa está a preparar-se para comprar casas, prontas a habitar, para arrendar, e assim aumentar o seu património habitacional. As autarquias do interior, que perdem população e vêem definhar o comércio tradicional e são obrigadas a fechar escolas, não têm qualquer política social para implementar nos próximos anos, mesmo sabendo que a União Europeia apoia políticas de habitação contra o problema da interioridade. Não vou falar dos concelhos que conheço bem, onde as populações perdem qualidade de vida e vêem o seu património desvalorizado. Mas deixo aqui, mais uma vez, um aviso àqueles que gostam da sua terra e não exercem a crítica necessária para que os políticos de proximidade sejam obrigados a vestirem as luvas de boxe para lutarem pela sua gente e pelo futuro das suas cidades, vilas e aldeias. JAE

quinta-feira, 7 de maio de 2020

O Estado não paga, não paga, não paga

As cativações são o sistema mais perverso que o Estado português inventou para baixar a dívida pública. Foi com este tipo de esquemas que o ministro Centeno ficou conhecido como o Ronaldo das Finanças.

A malta do Estado, que governa o dinheiro do Estado, bem pode atravessar pandemias e épocas trágicas de fogos, cheias do Tejo, tempestades de granizo e outras catástrofes, que não muda nem que a vaca tussa. A situação que atravessamos, com a crise provocada pelo coronavírus, alterou a nossa vida individual e colectiva de maneira abrupta e, nalguns casos, extrema ao ponto de nunca mais voltar a ser como era. Ninguém sabe o que nos espera ainda. O Estado, e a malta que trabalha nos organismos do Estado, está na mesma como a lesma, nomeadamente nas relações com os contribuintes, com as empresas e os empresários. Do cimo do altar em que vivem todos os dias, na segurança dos deuses do poder e do dinheiro dos contribuintes, e dos impostos que pagamos automaticamente como pagamos com a vida os erros que cometemos, ignoram as dívidas e os compromissos daqueles que, no mercado livre e concorrencial, arriscam, apostam, investem e entregam-se ao trabalho como gente grande, e civilizada, que não acredita no milagre de Fátima mas respeita quem acredita.

Na passada semana demos visibilidade à divida milionária do Estado a uma empresa da área dos transportes públicos que trabalha na nossa região e que precisa do dinheiro que o Estado lhe deve para poder continuar a trabalhar e pagar vencimentos. Mas esta é apenas uma situação, entre milhares, em que o Estado, pela voz dos políticos diz uma coisa, e depois na acção dos burocratas faz outra completamente diferente. Há organismos do Estado que, por causa das célebres cativações dos governos de António Costa, não pagam o que devem; não pagam, não pagam, não pagam, e ainda respondem de forma descarada aos que vão atrás do dinheiro, argumentando que o país atravessa momentos difíceis e que, nesta altura, não é fácil resolver problemas.

António Costa, em nome do Governo socialista que lidera, tem passado uma imagem de serenidade e seriedade que não se ajusta a esta política de calotice, quase criminosa, que corrói e destrói a vida e a honra de muita gente que confiou no Estado. Provavelmente não foi ele que inventou este esquema das cativações, mas é com esta forma trapaceira de governar que o ministro Mário Centeno é conhecido como o Ronaldo das Finanças; e foi assim que o Governo conseguiu apresentar para 2020 um Orçamento de Estado considerado histórico, porque previa um excedente orçamental, coisa inédita em Portugal desde que vivemos em democracia. Coisa que um vírus, com o tamanho e a magnitude de uma perversidade como as cativações, vai transformar provavelmente no maior défice orçamental desde 1974. JAE.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Jornalismo, serviço público e os CTT ao barulho

Os Correios perderam qualidades na distribuição nos últimos anos mas agora com o problema da pandemia o serviço ficou ainda mais prejudicado.

O jornalismo é uma das actividades mais poderosas do mundo mas também uma das mais dispensáveis. Sei isso desde que comecei a escrever neste jornal e assumi o papel de empresário, director e todos os outros que estão associados à criação e fundação de um órgão de comunicação social.

Sempre defendi, mesmo contra ventos e marés, que em tempo de vacas gordas, ou em tempo de pandemia, o jornalismo é sempre serviço público. Se o tempo é de vacas gordas há abuso e corrupção; se a época é de vacas magras há certamente especulação e falta de vergonha. E o jornalismo existe para defender o interesse público e desmascarar os trapaceiros, os que dizem uma coisa em público e outra em privado, os que impunemente abusam do poder político e económico, entre tantos outros exemplos que chocam com os direitos humanos e as leis da República.
Um jornalista tem que estar sempre do lado dos mais desprotegidos. E no seu posto de trabalho não pode depender de alguém que tenha interesse na exploração de negócios, da vida política ou da exploração da ignorância dos mais desfavorecidos. A fundação de jornais, depois do 25 de Abril, esteve quase sempre associada a lutas pelo poder político e económico. Nunca se fará, verdadeiramente, a história do nascimento de um órgão de comunicação social onde um dos fundadores seja um grande empresário ou um político no activo. O exemplo da tentativa de José Sócrates, exprimeiro-ministro, em criar um grupo de comunicação social com empresas amigas, é uma história que deixou rasto mas que no futuro só será contada pela metade. Os tempos são de grande azáfama e já não há espaço para a investigação nem sequer em causa própria.
Uma boa parte dos jornais abandonaram as assinaturas digitais para proporcionarem a leitura, em tempo de pandemia, a todos os cidadãos em situação de confinamento. Enquanto os jornais em papel perdem importância, por que os postos de venda estão fechados e a distribuição porta a porta está dificultada, eis que as empresas entram em contra-ciclo e em vez de aproveitarem a oportunidade oferecem a navegação gratuita nos seus sítios.

O MIRANTE pratica a assinatura mais baixa do mercado dos jornais. Sempre vivemos da publicidade e defendemos que a informação deve ser paga pelos anunciantes ou patrocinadores. Talvez por isso, em tempo de emergência social, sejamos hoje um dos poucos jornais no mercado português que mantém um caderno de classificados e editamos um diário online sem qualquer custo para os leitores.

Os CTT perderam qualidades na distribuição nos últimos anos mas mantinham, apesar de tudo, um serviço mínimo de qualidade na entrega de jornais. Desde que começou o período de pandemia a distribuição tem sofrido muitas falhas. Os CTT já assumiram perante a administração de O MIRANTE que estão a sofrer o mesmo problema de todas as empresas. Vamos esperar, com a compreensão dos assinantes, que este tempo passe depressa e que o serviço da entrega do jornal retome a normalidade. Os CTT são um parceiro importante de O MIRANTE e de toda a imprensa que aposta na assinatura. Esperamos que a sua administração não se confine nos lucros das outras actividades da empresa que nada têm a ver com o serviço público da entrega de correio. JAE.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A memória dos dias e a “Musa Praguejadora” de Ana Miranda

Esta crónica é fruto do entusiasmo na leitura de “Musa Praguejadora”, de Ana Miranda, e regista um tempo em que os rebentos das cepas crescem diariamente ao ritmo da barba dos homens.

Vivemos dias tristes que nem os sonhos das viagens marcadas conseguem dissipar. Mas nem tudo são tristezas; há dias felizes que se vivem a trabalhar e outros que são ainda mais felizes no meio do campo, a cuidar das árvores, que também cuidam de nós, com os ramos cheios de flores, algumas já com frutos do tamanho de bolas de berlinde. Nesta altura do ano as oliveiras já carregam o azeite que há-de chegar aos lagares lá para Novembro. E os rebentos das vinhas das terras da Lezíria crescem todos os dias ao ritmo que cresce a barba dos homens mais jovens deste tempo de pandemia em que vivemos.
Tenho a sorte de ter chegado a uma idade em que o futuro já não me preocupa tanto a nível pessoal. Vivo um dia de cada vez, perdi os medos e as angústias e sinto-me com força e segurança suficientes para continuar a ajudar a construir um mundo melhor, também a pensar no mundo ideal para os meus filhos.
Vivemos tempos tristes mas não de desesperança. Sinto isso todos os dias a trocar mensagens com amigos, e com pessoas muito próximas, que mantêm um espírito de resiliência e de coragem que são comoventes de tanto nos despertarem as boas emoções.
Tenho registado na memória recente a morte de muita gente que me viu nascer, e de outros e outras que me viram crescer como homem e, ao mesmo tempo, como profissional de várias artes, entre elas a de ourives e agora de jornalista. Aprendi todos os meus ofícios trabalhando, ou tarimbando, como é mais uso dizer-se em bom português. E isso é uma marca pessoal de que me orgulho e me obriga a reinventar-me todos os dias sem esquecer que viemos do pó e ao pó voltaremos.

Vivemos tempos tristes mas nunca me sinto triste; nem quando vejo lágrimas no rosto de quem não sabe o que fazer da vida. Tenho dois amigos de longa data a lutarem contra o cancro; sempre que tenho notícias deles percebo melhor o quanto sou um sortudo; fugir do coronavírus e manter distanciamento social, para não adoecer, é uma brincadeira comparado com aquilo que sofrem as pessoas que caminham para os hospitais e não podem falhar as consultas.
Picasso dizia que para se ser jovem é preciso viver muito tempo. Esta crónica é fruto do entusiasmo na leitura de “Musa Praguejadora”, de Ana Miranda, que conta a vida de Gregório de Matos, e de “Picasso, Criador Destruidor”, que foram as minhas melhores companhias nos últimos dias. Ana Miranda biografou a vida de Gregório de Matos (conhecido pelo Boca do Inferno) de tal forma que o livro se lê como um romance de aventuras. Muito do que está escrito nas 555 páginas do livro é a História de Portugal e do Brasil do século XVII e a grande marca do génio de Gregório de Matos que, como todos os génios, acabou por morrer pobre e enjeitado pelos seus contemporâneos depois de uma vida tão atribulada que incluiu uma deportação para Angola.

No dia em que escrevo esta crónica ouvi o presidente do Sindicato dos Médicos dizer que 15% dos infectados com o coranavírus são profissionais de saúde. Falta contabilizar os profissionais dos lares, e das outras unidades de cuidados de saúde espalhadas pelo país, para termos a noção exacta do que é uma profissão de risco, e de quanto vale ficar em casa com o ordenado garantido faça sol ou faça chuva.

O aeroporto de Lisboa, que estava a abarrotar de gente e era território de negócios chorudos para as grandes marcas nacionais e internacionais, está fechado como a loja do meu vizinho Carlos que vende livros em segunda mão num espaço de dez metros quadrados, na rua mais pobre e mal iluminada da minha cidade. Foi lá que vi, e não comprei, um azulejo com estes versos atribuídos a Gregório de Matos: “o honesto é pobre, o ocioso triunfa, o incompetente manda”. JAE.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

CAP e Marcelo Rebelo de Sousa lavam mais branco

O presidente da República Portuguesa já nos habituou às conversas caridosas e bem intencionadas. Em tempo de pandemia precisamos de governantes tesos e não de políticos beijoqueiros e lambanceiros.

Andamos todos cheios de pressa a pedir ao Governo de António Costa que tome medidas para apoio à economia e não deixe morrer as empresas e os empregos. E com razão. Os políticos não são de confiança e quem não se fizer ouvir agora bem pode berrar depois que já vai ser tarde demais. E todos sabemos o quanto a Europa tem as tetas grandes para quem sabe mamar. As ajudas em tempo de crise calham sempre aos mesmos. Nesta altura as grandes empresas com centenas de trabalhadores já têm o pessoal por conta do Estado. Tão fácil como ir lavar as mãos ao Tejo.
É difícil governar em tempo de crise? Claro que é; mas será que não merecíamos melhores políticos quase meio século depois do 25 de Abril de 1974?
O Presidente da República interrompeu a quarentena para visitar a Lezíria Grande e dar uma mãozinha à agricultura. Falou pouco e o seu discurso foi paupérrimo como se não soubesse nada de searas e muito menos de tomates, mas falou o suficiente para dizer que já não voltará a sair à rua tão depressa e que vai respeitar o isolamento em tempo de Páscoa. Só a CAP conseguia que um Presidente da República furasse o isolamento social em tempo de pandemia para ir para o meio do campo falar aos portugueses. De verdade não disse nada, só se mostrou, como se fosse um modelo, uma espécie de ave rara, um artista do circo político. Mas a CAP também não quer mais do que aquilo que o Presidente lhes deu. Para eles a luta política também passa por mostrarem aos portugueses que têm sua Excelência o Presidente da República do lado deles. O resto é com a força de trabalho que cada agricultor há-de ter e com a sorte que os há-de ajudar, se quando for tempo de colheita as fábricas estiverem a laborar ou aceitarem pagar o suficiente pela produção de forma a que a colheita valha a pena.

O nosso problema é que não é só a CAP que vive de negócios e de compadrios deste género com o Estado e com os políticos que o governam e representam. As outras associações fazem o mesmo. Por isso é que andamos todos com o credo na boca a tentarmos que o Governo decrete medidas urgentes para mantermos as empresas saudáveis e garantirmos os empregos. Ninguém está com calma para esperar e ver o que isto vai dar. Estamos todos com medo que os nossos governantes, mais uma vez, fujam com o rabo à seringa e os mais fracos é que tenham que ficar com o vírus da fome e da desgraça.

Em Portugal as pequenas e médias empresas representam 99% da actividade comercial e industrial. São os pequenos negócios que ainda fazem de Portugal um país decente. É por isso que nestas alturas é uma tristeza ver o Presidente da República a fazer jeitinhos em tempo de isolamento, com as televisões atrás de si para garantir o tempo de antena, e no outro dia a fingir que está a sensibilizar os bancos para serem meiguinhos nas taxas de juro. Como se a gestão dos bancos, e a gula dos banqueiros, pudesse ser controlada por uma política de boas vontades e de conversas caridosas. Temos aí o exemplo da Caixa Geral de Depósitos que foi até hoje, a par do BES, o maior escândalo financeiro em Portugal; e só Armando Vara é que está preso e, pasme-se, por tráfico de influências em negócios com um empresário do ferro-velho. JAE.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Ganhar leitores à custa do coronavírus

O MIRANTE online teve um milhão de visitantes únicos na semana passada devido às notícias sobre a pandemia. Caso para dizer que somos uma boa companhia para quem fica em casa.

A pandemia do coronavírus ocupa todo o tempo de antena das televisões; e os jornais para lá caminham. Na passada semana O MIRANTE online teve um milhão de visitantes únicos o que quer dizer que tivemos o dobro dos leitores que vivem na região ribatejana que é a nossa área de influência. Em meados da passada semana reforçámos as notícias sobre o tema publicando online todos os despachos da agência Lusa que consideramos importantes para orientação dos leitores. Porque está tudo em causa por causa da pandemia vamos manter o tema nesta coluna. E desta vez não deixo de registar o facto de TODOS os órgãos de comunicação social continuarem a apontar os números dos mortos chineses como se alguém soubesse o que se passa na China, um território com 1.400 milhões de habitantes governado por um Imperador. É incrível a falta de respeito para com os leitores e o branqueamento que fazemos a um regime comunista que só divulga e dá a conhecer o que muito bem entende.
Escrevo esta crónica a uma terça-feira, sentado numa espécie de secretária, ao lado de uma equipa que não desmobilizou nem vai desmobilizar. O correio electrónico mantém a ligação ao mundo e aos leitores; e todos os dias recebemos colaboração, embora muita dela não se ajuste ao nosso estatuto editorial porque segue a linha das redes sociais que é denunciar sem provas e no conforto do anonimato.

Uma semana antes da eclosão do vírus estive em Madrid para visitar a ARCO. Passei uma tarde a tentar perceber do que vivem as galerias de arte, quem estava na montra, e aproveitei para visitar os dois principais museus da cidade. Não paguei entrada porque a profissão dá-me entrada gratuita em qualquer destas feiras ou museus do mundo. Em Lisboa, na edição do ano passado da ARCO, não consegui entrar com a carteira de jornalista nem com o cartão multibanco; tinha que pagar em dinheiro vivo. Recusei-me e preferi ignorar que Lisboa ainda é, em muitas situações, uma rua movimentada de Madrid, e certa gente do mundo das galerias portuguesas fazem lembrar os contrabandistas de outros tempos.

Sigo diariamente um blog de um médico que me ajuda a perceber melhor o mundo em que vivo e a desculpar as pessoas que acham que enfiadas debaixo da cama ficam mais seguras; mas também os mesmos de sempre que acham que o pior só acontece aos outros.

Tenho um velho amigo, com 84 anos, que trato de forma afectiva por EdMar, que acabou de se livrar de um vírus hospitalar e logo de seguida do coranavírus. Está de regresso a casa para voltar a fumar a sua cigarrilha. E eu a sonhar que vou ter, até morrer, um espírito sábio e sereno como o dele.

Muitas autarquias da região anunciaram medidas de apoio às populações que são uma boa razão para confiarmos nos políticos de proximidade que elegemos para o governo das nossas aldeias, vilas e cidades. Ficamos todos à espera que as ajudas já anunciadas, e as que ainda faltam anunciar, incluam um plano de contingência para apoio aos idosos que são a parte mais fraca desta batalha contra o coronavírus. JAE.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Boas notícias para quem tem medo de morrer do coronavírus

É mais que certo que a grande maioria das pequenas e médias empresas vai morrer na praia mas o combate ao coronavírus vai ser bem sucedido. Pretexto para escrever sobre angústias no aeroporto de Lisboa.

A profissão de jornalista é uma das profissões mais entusiasmantes do mundo. Quem leva a sério a profissão está sempre a aprender e a levar lições de Humanidade e Civilização. Tive acesso a dados que demonstram que a pandemia do coronavírus pode não ser a tragédia que todos estamos à espera. Nada está provado cientificamente mas a sabedoria dos homens a trabalharem em conjunto nos grandes laboratórios vai encontrar certamente o antídoto que todos queremos para voltarmos a ter de volta uma vida normal. Não é por isso que até lá não temos que seguir cuidados especiais ficando em casa. Não é o meu caso. Sinto-me no dever de trabalhar todos os dias e de contribuir com o meu trabalho para que o mundo seja cada vez mais um lugar melhor para vivermos. E faço parte da gestão de uma das pequenas empresas deste país que pode ficar pelo caminho se não soubermos reinventar o negócio.

Nos últimos dias assisti no aeroporto de Lisboa a um drama que passou despercebido à comunicação social. Um grupo numeroso de brasileiros, apanhados pelos efeitos da pandemia no fim de uma viagem pelo mundo, com regresso a casa marcado no aeroporto de Lisboa, dormiu dias seguidos no chão, à entrada do aeroporto de Lisboa, sem possibilidade de usarem as casas de banho ou sequer encherem uma garrafa de água.
Tratados que nem porcos (ouvi esta expressão dezenas de vezes como grito de revolta), alguns deles sofrem de doenças oncológicas, outros são diabéticos e outros viajavam com crianças. Nada demoveu os responsáveis do aeroporto para acudirem aquela gente que durante os últimos dias choraram baba e ranho à espera de uma vaga num avião. A Embaixada e o Consulado do Brasil em Lisboa estiveram em parte incerta e nunca foram interlocutores no terreno de forma a diminuírem as angústias, as lágrimas e os perigos de contágio do coronavírus. Num desses dias ajudei a dar assistência a um homem que desmaiou e caiu no chão como morto. Os gritos de aflição da mulher a chamar um médico iam criando uma revolução nos senhores que controlavam a fila há dias seguidos. Os dois paramédicos que vieram em auxílio do homem levaram-no para o interior do aeroporto mas a mulher do homem ficou na rua à espera. A polícia, em número razoável, garantia o descanso dos donos das companhias aéreas e dos responsáveis do aeroporto de Lisboa. No meio desta anarquia, destas organizações preparadas para facturarem a correr e antes de prestarem o serviço, apareceu um homem, chamado Ricardo Amaral, presidente de uma associação de brasileiros, que 12 horas por dia fez o que pôde e o que estava ao seu alcance. No último domingo, depois do pequeno tumulto com o desmaio do homem, disse, visivelmente agastado, que ele próprio era doente oncológico e que estava ali desde o primeiro dia, exposto e disposto a morrer pelos compatriotas. Os índios habituais, que vestem do tecido da bandeira do Brasil, ainda hoje estão em parte incerta (na quinta-feira, dia de saída desta edição para as bancas, certamente que alguns ainda estarão à espera de uma solução para o seu regresso a casa).
Falta contar que tinha amigos a sofrerem desta desordem e pude confirmar que alguns deles gastaram o dinheiro que tinham e não tinham para recomprarem passagens aéreas que de nada lhes serviram porque continuaram em terra.

Quem trabalha em comunicação e gosta desta arte de ajudar a construir diariamente o mundo em que vivemos deve actualizar-se e ler o artigo do jornalista João Garcia, no jornal Expresso de 21 de Março, com o título “Um vírus a infetar o jornalismo”, e o de J.M.Nobre Correia no jornal Público, edição de 9 de Março, com o título “Por onde andam os jornalistas” JAE.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Combater a pandemia do coronavírus  e manter o emprego

O Governo português tem milhões prometidos para os empresários mas tudo indica que o dinheiro não vai chegar e se chegar vai ser tarde demais.

A grande maioria dos governos da Europa (Alemanha e França dão o exemplo) está a disponibilizar créditos aos empresários e às empresas que vão sofrer com o impacto da pandemia provocada pelo coronavírus. Se o vírus continuar a ameaçar a saúde dos portugueses até Maio/Junho, o que já é um cenário animador, há empresas que vão pagar salários durante pelo menos quatro meses sem que obtenham quaisquer receitas da sua actividade. Se tivermos em conta que uma boa parte das pequenas e médias empresas vivem com dificuldades de tesouraria, e sofrem as dificuldades de financiamento, é mais que certo que muitas delas vão acabar na falência. Certamente que a médio prazo voltarão a nascer outras empresas mas, até lá, ficam pelo caminho muitos empregos e a segurança e bem-estar de muitas famílias. Os empresários vão passar um mau bocado porque perdem os seus investimentos e, como é norma, vão ficar endividados e a contas com a banca, o fisco e os fornecedores que são sempre os que sofrem a maior pancada, nomeadamente quando são eles próprios também pequenas e médias empresas que ficam sem as receitas da sua actividade. Para usarmos uma expressão popular, que se ajusta bem à realidade, vai ser assim como a pescadinha de rabo na boca: o processo não acaba bem nem para quem comprou nem para quem não consegue pagar o que lhe foi facturado. Já sabemos que, ao Estado, todos vão ter que pagar, mais tarde ou mais cedo, nem que seja entregando o esqueleto.
No sítio do IAPMEI (organismo do Estado que apoia as empresas) está anunciado desde terça-feira, 16 de Março, uma verba de 200 milhões de euros destinadas a apoiar as empresas que estejam a sofrer o efeito do surto. Mas, como é habitual em Portugal, as empresas só se podem candidatar daqui a dois meses fazendo prova do prejuízo, não podem ter dívidas ao Estado e outros quejandos que anulam qualquer oportunidade de apoio.
No dia em que escrevo esta crónica vi dois sinais da CIP e da Nersant preocupadas a pedirem ao Governo que não esqueça as dificuldades das empresas e dos empresários. O Governo não tem mãos a medir para acudir à saúde pública e, aparentemente, tem gerido bem o processo embora só esta quarta-feira tenha acertado com Espanha o encerramento das fronteiras. Entretanto o ministro da Economia desapareceu e aparentemente está de quarentena. E os empresários, nomeadamente os pequenos empresários, só podem estar a trabalhar no duro, fazendo das tripas coração, porque ninguém confia nos políticos nem nos burocratas que trabalham para o Estado.

NOTA IMPORTANTE. O dia de quarta-feira (dia do fecho desta edição que vai para a gráfica aos 11-30h) começou com uma conferência de imprensa dos Ministros das Finanças e da Economia a prometerem ajudas aos empresários. Nada do que disseram contraria o pessimismo desta crónica. Prometo voltar ao assunto e explicar as razões porque não reescrevi o texto. JAE.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Apanhados do clima e agora também do coronavírus

Vamos todos ser responsáveis e seguir as indicações da Direcção-Geral de Saúde para não morrermos na praia por causa de um desgraçado de um vírus. Mas não levem a mal que não tenha medo de beijar, abraçar, apertar e andar por aí sem máscara na cara e no coração.


Seja responsável: não brinque com as desgraças que pode ser o próximo desgraçado. Tento levar a brincar a ameaça do coronavírus e, para ser sincero, não consigo ter medo embora tenha cu como toda a gente. Como se ainda tivesse 20 anos, e vivesse em permanente estado de revolução, só me lembro das quedas na Bolsa e dos mil milhões de prejuízo que as grandes empresas estão a sofrer; e nunca me esqueço dos refugiados que desesperam por ajuda; e das notícias que nos informam que os EUA acabam de fazer a maior venda de sempre de armamento. E o Brasil é um dos maiores importadores de armas da América do Sul, logo o Brasil que é o país do mundo que mais gosto e para onde mais viajei ao longo da vida.
Sou sensível e bate mais forte o coração ao ler as notícias da NASA que falam de uma diminuição drástica da poluição nos céus da China por causa da crise do coronavírus. As centrais a carvão da China (e já agora também as do Japão) poluem mais que todos os Estados europeus. E a Europa vive de joelhos perante o comércio chinês. E Portugal, o nosso portugalzinho, já entregou ao chineses uma boa parte da sua economia e, talvez não seja exagero afirmar, uma parte substantiva da sua independência. Nós fechamos as centrais a carvão por razões ambientais e de solidariedade com a vida no Planeta Terra e o Japão e a China inauguram novas centrais a carvão todos os anos como se fossem os donos disto tudo. E é de lá que vem para todo o mundo, incluindo Portugal, o dinheiro e a mercadoria, Deus e o Diabo, agora também o Coronavírus e um dia destes sabe-se lá o que mais.
Tenho na minha estante um livro de capa vermelha, da autoria de Alain Peyrefitte, que tem este título sugestivo: “Quando a China despertar o mundo tremerá”. O livro deve ser de 1975 e não consigo encontrar as razões que me levaram a comprá-lo no Círculo de Leitores que, na altura, era a minha única livraria de bairro. A minha e a de muitos milhões de portugueses. Nunca mais lhe peguei e nem agora que escrevo este texto tenho oportunidade de o folhear. Mas lembro-me dele muita vez porque está lá perdido entre os livros que um dia destes vou doar a uma instituição.
Talvez tenha sido influenciado pelos políticos da altura. Talvez tenha sido também maoísta e não me lembre. Esta é a parte em que mais gosto de pensar que ainda tenho 20 anos e, em vez de imaginar que posso morrer com o Covid-19, só penso nos desgraçados dos lesados do BES, os emigrantes na Venezuela que foram enganados pelos banqueiros mas também os outros; e nas quedas da Bolsa que já chegam aos dois dígitos.
Não estou (só) a brincar com as palavras; tenho leitores que me puxam as orelhas quando me alargo mais em comentários esquerdistas e irresponsáveis; e tenho mais de sessenta anos de idade; pertenço ao grupo de pessoas que correm mais riscos com o vírus da moda. Se morrer pelo caminho pelo menos morro consolado e já tenho com que ranger os dentes na hora da agonia. JAE.

quinta-feira, 5 de março de 2020

A entrega dos prémios Personalidade do Ano de O MIRANTE

A entrega dos prémios Personalidade do Ano de O MIRANTE (edição 2019, realizada no dia 20 de Fevereiro em Santarém, no Convento de São Francisco) junta sempre alguns dos nossos parceiros mais importantes que, regra geral, nunca são notícia porque eles próprios são parte da nossa equipa e responsáveis pelo êxito do nosso projecto editorial e empresarial. Ficam aqui os rostos e os nomes de quatro dessas personalidades para memória futura.
 Fernando Guedes da Silva, Director Comercial e de Marketing da VASP

 Jorge Pires, Director Geral da Moneris

 Jaime Rodrigues, Director de Produção na Grafedisport

Henrique de Carvalho Dias, fotógrafo. (Na foto acompanhado pela sua esposa) 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A política e os negócios de Francisco Moita Flores

Movimentos financeiros entre a empresa “ABB Construções” e empresa da mulher e dos filhos de Moita Flores põem em causa credibilidade do ex-autarca


A Câmara de Santarém deu uma compensação de um milhão e oitocentos mil euros a uma empresa (ABB Construções) que construiu um parque de estacionamento em Santarém e, pouco tempo depois, essa empresa fez chegar à conta de uma empresa dos filhos de Francisco Moita Flores uma verba de 300 mil euros que serviu depois para transferir para uma outra conta da empresa da mulher de Moita Flores, Filomena Gonçalves.
Não é normal um político ter negócios pessoais e familiares com uma empresa que trabalha para a autarquia onde ele é presidente e sujeitar-se a estes movimentos financeiros, sabendo que, hoje, o escrutínio sobre os políticos aumentou substancialmente. Ainda por cima Moita Flores saiu do concelho de Santarém aos pontapés nos seus antigos camaradas e deitando fumo pelos olhos nas relações com todos aqueles com quem partilhou o Poder. Nada do que acabo de escrever, baseado no que é do conhecimento público (ver notícia nesta edição na página 9) prova que Francisco Moita Flores é corrupto ou se deixou corromper; mas os indícios que o Ministério Público (MP) encontrou e persegue são muito perigosos para a credibilidade do ex-autarca de Santarém a quem sempre ouvi dizer que estava na política para devolver ao país aquilo que as suas instituições lhe tinham dado ao longo da sua vida. Não conheço melhor forma de justificar o dever de cidadania que pagar a quem devemos na mesma moeda, ainda para mais quando se chega a uma idade em que o dinheiro deixa de ter tanto valor e nem para comer já precisamos do prato cheio.
A maior parte dos camaradas e companheiros que ele levou de Santarém em excursão à sua casa de campo no Alentejo ainda hoje falam disso, não para valorizarem o gesto de hospitalidade mas dando conta de uma certa vaidade, própria dos novos ricos, que gostam de fazer alarde das condições de vida que lhes permitem a compra de bens e a contratação de pessoas para os servirem.
Francisco Moita Flores é um Franciscano praticante que acredita em Deus e, sempre que pode, vai confessar-se aos padres. Acredito por isso que, nesta altura, ele já esteja a contas com a sua fé e creia piamente que tudo se resolverá para seu bem e da sua família. Mas eu, que sou ateu e não me confesso às mulheres da minha vida, quanto mais aos padres, não acabo esta crónica sem lembrar que quem semeia ventos colhe tempestades. Quinze dias antes das eleições autárquicas, em que Moita era candidato em Oeiras, o ex-presidente deu uma entrevista a um jornal, entretanto defunto, em que só faltou chamar atrasados mentais aos políticos camaradas e ex-amigos que deixou no seu lugar a governarem o concelho de Santarém. Não é normal este tipo de comportamento, por maiores que fossem as zangas na direcção política da autarquia. A ira revelada nestas relações é um sinal pouco abonatório da personalidade do político e escritor, autor de alguns livros como “O Carteirista que fugiu a tempo”, “Mataram o Rei” e “Polícias sem História”.
Moita Flores justifica em declarações ao jornal Expresso que tudo o que está a acontecer é uma perseguição do MP e do actual presidente da Câmara de Santarém, Ricardo Gonçalves. Quanto ao movimento do dinheiro diz que está tudo justificado e que ninguém tem que ver com as contas das empresas da mulher e dos filhos. Parecem-me fracos argumentos para uma pessoa que conhece bem as investigações a estes casos e o valor que têm para o MP as acusações de perseguição política. JAE.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A vida que dá trabalho e o trabalho de uma vida


O MIRANTE volta a entregar os prémios Personalidade do Ano. Oportunidade para recordar o valor das entrevistas dos nossos premiados e a memória de Manuel da Costa Brás, falecido em Julho do ano passado.


A entrega dos prémios Personalidade do Ano, que O MIRANTE organiza esta quinta-feira pelo 15º ano consecutivo, vai ser muito provavelmente a nossa melhor e mais participada iniciativa de sempre. A oito dias da data já tínhamos o Convento de S. Francisco, em Santarém,  esgotado com a presença garantida das nossas Personalidades mas também de uma boa parte dos nossos principais parceiros neste projecto.
Este ano voltei a acompanhar de perto algumas das entrevistas que vêm publicadas na edição especial de 52 páginas que integra a edição semanal onde publico esta crónica. Devo confessar que já tinha saudades de um desafio como este; nos últimos tempos o trabalho obrigou-me a fazer contas, organizar papéis e arquivos, enfim, a fazer uma série de coisas que escapam aos meus interesses principais mas que não posso deixar de cuidar.
O jornalista que se preza quando faz entrevistas sabe como entrar na vida pessoal e profissional do seu entrevistado e se não o explora até ao tutano não está a fazer um bom trabalho. Depois, a montar a conversa, só entra aquilo que não ultrapassa as fronteiras definidas entre as duas partes mais aquilo a que a profissão obriga.
De todas as entrevistas das Personalidades de 2019 que elegemos para receberem o prémio esta quinta-feira posso testemunhar que nenhuma delas frustrou as nossas expectativas. O que fica no gravador e não cabe no papel, principalmente por questões de espaço, dava outra edição especial. Uma das entrevistas tirou-me o sono durante alguns dias por ser impossível publicar metade da conversa que eu achava que não podia deixar de fora. Como perder o sono é perder também qualidade de vida tive que entregar a outra pessoa a decisão final sobre o que devia ficar de fora depois do texto trabalhado e apurado.
Posso dar-me a este luxo porque trabalho com uma equipa que tem muitos anos e que não desafina nas grandes questões e nos maiores desafios. Para além de jornalistas fomos obrigados a aprender a editar os nossos textos e os textos dos nossos camaradas. Alguns de nós levam mais de duas décadas a aprender como se enxofra e ainda nos emocionamos com o cheiro do enxofre.
Acho que merecemos estas Personalidades. Assim como acho que merecemos muitas outras que ao longo dos anos nos honraram com o recebimento do prémio e com a sua presença na cerimónia. Recordo com saudade as palavras de Manuel da Costa Brás, a quem demos o prémio Vida em 2014, e que este ano voltamos a homenagear a título póstumo (faleceu a 2 de Julho do ano passado com 84 anos). Vamos editar na cerimónia de 20 de Fevereiro algumas imagens da entrevista que realizámos com ele no Pombalinho, de onde era natural e onde viveu parte dos últimos anos da sua vida. Era uma figura de referência da nossa região. Um homem com uma vida cheia de trabalho e cargos importantes mas genuinamente uma pessoa humilde e sem peneiras. Em 2014, em Rio Maior, a voz tremeu-lhe na hora de agradecer o prémio mas não deixou de lembrar o exemplo de vida que recebeu dos seus pais. JAE.