quinta-feira, 18 de junho de 2020

Comer, dormir e visitar Santarém, Tomar e Torres Novas

Nos últimos meses li uma dúzia de livros que me salvaram do coronavírus e da doença que se abateu sobre todos nós, principalmente sobre aqueles que, depois de três meses de confinamento, voltaram às ruas para mostrarem o seu ódio à civilização, e aqueles que, desde há séculos, lutam pelos ideais de justiça, liberdade e igualdade.  


Sou solidário com a luta dos negros, com os homens e as mulheres vítimas de violência  doméstica, os jornalistas vítimas da arrogância do poder policial ou político. Ultimamente a imprensa portuguesa esqueceu-se da Amnistia Internacional mas o trabalho desta organização é um dos mais importantes e valorosos do mundo na defesa dos mais fracos e desprotegidos. O jornalismo, em geral, é cada vez mais de modas, e de interesses particulares. Revejo-me cada vez menos na comunicação social portuguesa. Abro uma excepção para a RTP2, que melhorou substancialmente os seus conteúdos, e para o jornal “Expresso” que continua a ser, a longa distância de todos os outros, o melhor do país e um dos melhores do mundo.
Com as crises, o jornalismo sai sempre mais forte; mas é durante as crises que se vêem melhor os jornalistas que são os lenços de assoar dos políticos.

Nos últimos meses li uma dúzia de livros que me salvaram do coronavírus e da doença que se abateu sobre todos nós, principalmente sobre aqueles que, depois de três meses de confinamento, voltaram às ruas para mostrarem o seu ódio à civilização, e aqueles que, desde há séculos, lutam pelos ideais de justiça, liberdade e igualdade. Tenho um dos livros na cabeça para todos os momentos difíceis do dia-a-dia. É um livro biográfico de Ana Miranda sobre Gregório de Matos, de que já falei aqui. Não me contentei com a leitura e escrevi um longo texto para exercitar a minha capacidade de elogiar um escritor que dedica parte importante da sua vida a estudar a vida de outro, para depois se sentar a uma secretária durante quase outra vida a escrever a sua história. Dou valor a quem prescinde da praia, dos longos passeios e das longas sestas, para escrever, escrever, escrever até que a Obra-prima aconteça. “Musa Praguejadora” é uma Obra-prima da literatura em língua portuguesa, que não conta só uma boa parte da história de Gregório de Matos mas também da História de Portugual e do Brasil do século XVII, onde se incluiu o Padre António Vieira, contemporâneo e amigo de Gregório de Matos, e agora tão lembrado mais uma vez pelas piores razões, ele que será, depois de Luís de Camões, um dos que poderia dar nome ao Dia de Portugal.
Li e depois escrevi sobre “Musa Praguejadora” entre uma esplanada de Tomar e outra de Santarém, num fim de tarde em Torres Novas, no caminho para as piscinas onde passei bons momentos da minha adolescência, muitas vezes com o livro debaixo do braço sem o abrir ao longo do dia, mas confiante na boa companhia, e vivendo do que a memória ainda guardava da leitura dos dias anteriores. Não há melhor companhia que um bom livro, uma lição de vida em letras miudinhas, em que nos revemos, a nós e àqueles que marcam a nossa vida desde que temos memória, e também os lugares, e as épocas que nos antecederam, e parece que afinal ainda vivemos ou estamos a viver. JAE.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Um autarca na Chamusca que ninguém merece; muito menos o povo da Carregueira


O Presidente da República foi almoçar à Carregueira a um Centro Social graças à luta e militância de um deficiente pela causa dos seus pares. O presidente da Câmara da Chamusca, Paulo Queimado, apareceu sem antes fazer contas com a instituição e “virou as costas” ao Chefe de Estado.


O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi almoçar à Carregueira, uma freguesia do concelho da Chamusca, a convite de um homem que resolveu lutar pelos direitos dos deficientes. A história é conhecida mas os resultados, como sempre, nunca aparecem de uma vez. Eduardo Jorge está agora a facturar o resultado da sua militância, e também do seu atrevimento, porque ninguém ganha uma guerra sem travar muitas batalhas. Por causa do trabalho de um homem, que luta pelos direitos dos deficientes, Marcelo Rebelo de Sousa pôs a Carregueira no mapa do país, e na agenda da Presidência da República, que prometeu voltar em breve para uma reunião de trabalho nas instalações do restaurante.
Quem vive na região, e não está confinado ao seu bairrismo, sabe que é na Carregueira que se despejam os lixos mais perigosos do país. Sabe ainda que esta conquista do Governo de Pedro Passos Coelho foi conseguida à custa do sacrífico da população, que aceitou o investimento num clima de paz, depois de o mesmo ter sido rejeitado noutras localidades do país num clima de guerra.
O Eco Parque do Relvão, que foi o grande projecto do reinado de Sérgio Carrinho, custou a presidência da Câmara da Chamusca à CDU. O PS ganhou a câmara nas penúltimas eleições autárquicas, graças à campanha dos socialistas da freguesia, que deram um resultado esmagador e histórico ao partido, deixando o candidato da CDU a poucas dezenas de votos da vitória.  Os empregos criados pelo Eco Parque do Relvão podem não ser suficientes para compensar a violência contra o meio ambiente, o perigo para a saúde das populações, a desvalorização das propriedades confinantes, e tudo o que se sabe que está por trás de lixeiras de resíduos perigosos. O Eco Parque do Relvão um dia destes vai dar grandes e tristes histórias por causa da falta de estradas em condições, de uma nova ponte sobre o Tejo, por causa da eventual má gestão do Parque, da especulação com os lotes de terreno que valorizaram mil por cento, quem sabe, esperemos que não, pelas razões que levaram o PS local a fazer uma campanha silenciosa contra Sérgio Carrinho que, fora da corrida às eleições, não teve substituto à altura para que a CDU mantivesse a presidência da câmara.
Paulo Queimado foi para a Carregueira receber Marcelo Rebelo de Sousa sem fazer contas com a direcção da instituição que o convidou, e sem dar, ao menos, uma justificação nem que fosse de mau pagador. Para alem de ter aceite um convite de uma instituição que despreza, não aproveitou a ocasião para sensibilizar a mais alta figura do Estado para todos os problemas do concelho da Chamusca, que são tão actuais como a situação de pandemia em que vivemos. Paulo Queimado é um dirigente político que ninguém merece; muito menos o povo e os dirigentes associativos da Carregueira. JAE.

Chamar racista a Luís de Sousa é tão leviano como chamar oportunista a um deputado

O presidente da Câmara de Azambuja foi notícia no Parlamento por ter identificado a comunidade cigana como vítima do surto que afectou um bairro social da vila. António Costa criticou e André Ventura e Catarina Martins tiraram proveito político, cada um à sua boa maneira.


O presidente da Câmara de Azambuja, Luís de Sousa, está a meio do seu último mandato com o maior desafio da sua presidência; ajudar a gerir e controlar a pandemia do coronavírus no seu concelho onde, até agora, o drama atingiu proporções que assustam as autoridades.
Depois do fecho da Avipronto, por ordem das autoridades, que entretanto se tornou também um caso de justiça, e do toque a rebate nas instalações da Sonae, eis que uma comunidade de um bairro social da Azambuja gerou forte contestação e medo na vila, levando o presidente da câmara a pedir um cordão sanitário para impedir mais focos de infecção.
Luís de Sousa identificou a comunidade como sendo de origem cigana e foi um regabofe no Parlamento com André Ventura a perguntar ao primeiro-ministro, em jeito de desafio, se sabia dos problemas do PS com os ciganos; “não passo a concordar consigo quando discordo dos meus autarcas. E quando eles dizem as mesmas coisas que o senhor diz discordo na mesma sem problemas”, disse António Costa, ouvindo de André Ventura a provocação do dia: “quem sabe o seu autarca não será o próximo candidato do Chega à Câmara da Azambuja”.
Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, também se atirou a Luís de Sousa com o pretexto, errado, de que o autarca tinha pedido um cordão sanitário só porque os infectados eram ciganos. Nenhuma diferença entre André Ventura, que é racista para ganhar eleitorado, e Catarina Martins, que é anti-racista exactamente com o mesmo objectivo de conquistar votos às populações que vivem num mundo à parte e sabem de todos os problemas sociais pela televisão ou pelo Instagram.
No meio deste combate ideológico salva-se a acção política de Luís de Sousa que, com serenidade e sabedoria, como é seu timbre, assumiu as suas declarações com a clareza e frontalidade de um autarca de proximidade que está habituado a tratar os ciganos por tu e a identificá-los um a um, pelo nome próprio.
Chamar racista a Luís de Sousa, ou pôr em causa a sua forma de chamar os bois pelos nomes, gerindo o seu território em situação de pandemia, é a mesma coisa que dizermos que os deputados da Assembleia da República são todos uns figurantes e oportunistas, com a diferença de que ganham quase três mil euros por mês, quando passam a maior parte do tempo de trabalho a coçar a micose. É verdade que ganham bem, mas também é verdade que, mal ou bem, são eles que garantem o funcionamento da democracia em que vivemos desde o dia 25 de Abril de 1974.
Luís de Sousa deve orgulhar-se do seu trabalho e do facto de gerir um concelho que tem uma das maiores áreas logísticas do país, com mais de duas centenas de empresas, que dão trabalho a cerca de nove mil pessoas.

Na mesma altura em que o Parlamento discutia esta questão a Câmara Municipal de Santarém, em colaboração com diversas entidades, despejava habitações no centro histórico da cidade, que tinham sido ocupadas ilegalmente, e cujos habitantes punham em causa a saúde pública. Fica aqui a informação, sem comentários, mas em cima do acontecimento, para darmos conta que nem sempre a Assembleia da República é o lugar onde se passam as coisas mais importantes que acontecem no país. JAE.

quinta-feira, 4 de junho de 2020

O gatuno do Arripiado, os toureiros amarrados e o populismo de Marcelo Rebelo de Sousa

A população de Arripiado vai ter o merecido descanso. Pandemia não rima com touradas; Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa são dois populistas que se aproveitam do jornalismo tipo “pé de microfone”.


Pandemia não rima com tauromaquia. Não é preciso ser bruxo para antecipar, a muito curto prazo, a morte das corridas de toiros se não forem pagas com língua de palmo como aconteceu recentemente na Chamusca onde a câmara municipal se substituiu ao empresário da praça e pagou tudo, à grande e à fartazana, dando ar ao dinheiro que não utiliza para as obras e para o desenvolvimento social, cultural e económico do concelho.

Alguns artistas da festa foram acorrentar-se nos portões da praça de toiros do Campo Pequeno, em Lisboa, para serem filmados para as televisões e assim reivindicarem publicamente o regresso das touradas para poderem voltar a trabalhar. A mobilização não envergonha quem lá esteve mas devia envergonhar quem vive da festa e ficou em casa. O mundo dos toiros é um retrato das velhas tradições do mundo de outras eras e de outros costumes. Basta estarmos atentos à popularidade e à intervenção cívica da maioria dos artistas para percebermos que as touradas têm os dias contados se a montagem dos espectáculos não for assegurada por dinheiros públicos. É evidente o receio das grandes marcas de se associarem a um espetáculo que, entretanto, começou a ser considerado bárbaro por uma boa parte da sociedade portuguesa. Curiosamente os homens dos toiros continuam a assobiar para o lado e não fazem nada para darem a mão à palmatória evoluindo também em consonância com os novos tempos e a forma de pensar das novas gerações.

O MIRANTE deu voz à população do Arripiado, Chamusca, que vive aterrorizada com os assaltos. Foram as pessoas que nos ligaram e que, depois, se juntaram no largo principal da aldeia à volta do repórter para gritarem por socorro. Nesta edição damos conta de desenvolvimentos que provam a importância da intervenção cívica dos cidadãos que dão a cara para defenderem o que têm de mais precioso que é a vida e o juízo. Neste meio tempo, aqueles que tinham por obrigação darem o peito às balas, e mostrarem solidariedade, ficaram escondidos no conforto dos seus gabinetes.

Quem tem a sorte de poder acompanhar visitas de trabalho do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ou do primeiro-ministro, António Costa, percebe quantas dezenas de jornalistas, vulgo “pés de microfone”, se movimentam como bonecos articulados tentando roubar um som diferente, apanhar um gesto espectacular ou, quem sabe, filmar em directo um tropeção ou uma brejeirice de um destes protagonistas. Tanto Marcelo Rebelo de Sousa como António Costa têm feito a agenda de muitos jornalistas só para debitarem o mesmo discurso de sempre, como se o mundo ficasse melhor cada vez que entram numa livraria, num restaurante ou num jardim-de-infância. Respeitar a democracia também é combater o populismo. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa dão um mau exemplo quando exercem as suas funções institucionais permitindo que os jornalistas os persigam como se, de repente, pudessem caminhar por cima dos microfones ou dos teclados dos smartphones. JAE.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Os lares ilegais no país de Sócrates, Jerónimo e Cavaco

Os lares ilegais na região podem chegar ao número das quatro centenas. Não por acaso alguns países da Europa tratam os políticos portugueses com desprezo.


Os lares ilegais no distrito de Santarém poderão chegar às quatro centenas segundo informação que O MIRANTE obteve junto de fontes da protecção civil. A notícia da passada semana, que apontava para 130, peca por defeito e minimiza um problema que é muito mais grave do que se pensava. O facto deste negócio, que mexe com a saúde pública e os direitos dos mais desprotegidos, passar ao lado do crivo das entidades que cobram impostos e zelam pela segurança de utentes e trabalhadores, diz bem do atraso civilizacional do nosso país. Não é impunemente que os dirigentes dos países mais desenvolvidos da Europa nos tratam com algum desprezo. Estas notícias são assassinas para a nossa classe política que se pavoneia todos os dias nas televisões.
Jerónimo de Sousa disse em Baleizão, no dia em que se assinalou os 66 anos do assassinato de Catarina Eufémia, que o vírus estava a ser pretexto para os patrões explorarem ainda mais os trabalhadores. Só encontro paralelo nestas declarações com aquelas que, antes do 25 de Abril de 1974, anunciavam que os comunistas comiam crianças ao pequeno-almoço.

Estamos de volta ao trabalho, à praia, aos restaurantes e às livrarias. Os números de mortes e infectados com o coronavírus em Portugal esteve muito longe daquilo que aconteceu e ainda acontece noutras paragens.  Foram pouco mais de dois meses de confinamento mas o suficiente para que nada volte a ser como dantes. Gerir empresas ou trabalhar por aí será muito mais desafiante mas também muito mais perigoso. Tudo o que aconteceu nestes últimos meses já se vinha sentindo mesmo sem coronavírus. Agora temos que aprender a viver em cima das incertezas e não podemos protestar. Claro que haverá sempre os que vivem do sistema, e cavalgam a sorte de terem empregos dourados, ou uma situação financeira acima dos simples mortais. Outros enriquecerão ainda mais com o advento da crise e as incertezas dos mercados. De verdade estaremos todos no mesmo barco porque ninguém sobrevive num mar tumultuoso mesmo que ocupe o melhor lugar do navio.

Por aqui reina o espírito decidido de quem sabe trabalhar e levar a água ao seu moinho. Para O MIRANTE a montanha pariu um rato quanto aos apoios do Estado em publicidade institucional. Vamos receber 10 mil euros limpos que dão para pagar o gasóleo de três meses de trabalho. Os milhões ficam para as empresas de comunicação social de Lisboa que são cerca de 85% das que se publicam no país e, em muitos casos, se limitam, a  nível sócio económico, a fazer informação de carregar pela boca. Não faltam excepções que confirmam a regra, o que prova que não podemos desistir de continuar a sonhar que podemos mudar o mundo nem que seja só na nossa rua.

Nestes últimos dias morreram duas grandes escritoras que conheci pessoalmente. Olga Savary (1933-2020) uma poeta brasileira que me abriu as portas da sua casa no Rio de Janeiro para contar o seu longo percurso de vida literária. Nas duas cassetes da entrevista estão também duas horas de gravação com Ferreira Gullar, outro dos maiores poetas de língua portuguesa, que também me recebeu na sua casa, no bairro do Leblon, para me contar a história da ditadura brasileira do tempo em que escreveu “Poema Sujo”.  Maria Velho da Costa (1938-2020) não era a minha escritora de eleição mas tem uma obra poderosa e um percurso de vida que faz a inveja de muitos escritores e intelectuais do seu tempo. JAE.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

A Justiça e o vinho de bom grau e boa cepa

A democracia em Portugal sofre cada vez mais das fraquezas que tanto afectam a Justiça como o Jornalismo.  


Há um dia em que a Justiça nos cai em cima e percebemos que, afinal, os tribunais também estão cheios de malandrecos e malandrecas que se servem da Justiça como o taberneiro se serve do vinho bom para lhe acrescentar água. Não é com jornais, rádios e televisões que se garante a democracia também é com liberdade de imprensa; mas sem Justiça a sério não há regime democrático que resista. Esse ditado popular que diz “mal por mal antes cadeia que hospital”, é talvez o mais mentiroso de todos os ditados populares que já conhecemos; prefiro ter uma doença a sério que passar dois dias de cadeia por ter metido a mão onde não devia ou por ter cometido outro qualquer crime merecedor de prisão. Como eu deveremos ser quase dez milhões de portugueses. Agora que a Justiça portuguesa mostrou mais uma vez o seu lado mais fraco, e isto é só a ponta do véu, o caminho fica mais estreito para todos aqueles que se servem da Justiça como o taberneiro se serve do vinho de boa cepa.
Portugal tem uma imprensa cada vez mais fraca e concentrada em grupos de grande poder económico. Os jornais e as televisões, defendem o interesse público mas estão colados a grupos de interesses e a pessoas que, na maioria dos casos, fazem parte do sistema corporativo, muitas vezes, corrupto. Não é raro lermos notícias sobre assuntos de corrupção que fazem manchete no jornal do grupo A, que entretanto passa completamente ao lado dos interesses dos jornalistas da redacção do jornal ou da televisão do grupo B. Está a acontecer neste momento, no ano da graça de 2020, para vergonha dos jornais e dos jornalistas portugueses. E o caso Marquês, em que é réu, entre muitos, o impagável José Sócrates, serve às mil maravilhas para camuflar essas fraquezas da nossa democracia que tanto afectam a Justiça como o Jornalismo.

Há uma dúzia de anos fomos roubados por uma pessoa que se apropriou de uma dezena de cheques que depositou na sua conta bancária. Apesar de estarem devidamente endossados, o meliante conseguiu enganar o caixa de uma agência bancária de Tomar e depositar os cheques na sua conta. Depois de ser descoberto, e de uma queixa em tribunal, conseguimos reaver o dinheiro em pouco tempo porque o banco em causa tentou, o mais rápido possível, sair do imbróglio em que um funcionário se deixou enredar. Quando pedimos ao nosso advogado que tentasse em tribunal uma queixa que castigasse o abuso de confiança, a resposta foi clara: pensem bem nisso; a Justiça não condena roubos/desvios de pouca monta e vocês vão gastar muito tempo e dinheiro. E assim acabou a história. A Justiça ainda é boa demais para quem vive dela e boa demais para quem se serve dela como o taberneiro se serve do vinho de boa cepa. JAE.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Rui Rio podia ser personagem de romance de João Ubaldo Ribeiro

O presidente do PSD, Rui Rio, não é muito diferente de André Ventura. Ambos carregam no verbo para compensarem a falta de ideias.

Rui Rio, presidente do PSD, afirmou que as empresas de comunicação social deviam ter do Estado o mesmo apoio que as empresas de calçado. Rui Rio alinha com André Ventura em muitas questões da vida política à portuguesa. A diferença entre eles é de comportamento. Rui Rio é mais ao jeito dos forcados, que João Ubaldo Ribeiro descreve de forma satírica no seu livro “A Casa dos Budas Ditosos”, e André Ventura é todo ele toureiro, sem capa e espada, como aqueles que frequentam as picarias mas não gostam de corridas de toiros.

O Governo diz que vai dar, em 2020, por causa da pandemia, 15 milhões de euros em publicidade institucional às empresas de comunicação social que fazem o mesmo trabalho de serviço público que a rádio e a televisão do Estado, que levam todos os anos cerca de 300 milhões de euros. Estes 15 milhões, que poderão chegar em tempo de pandemia a cerca de 500 empresas de comunicação social, entre imprensa e rádio, são uma esmola comparado com aquilo que o Estado gasta com o serviço público de televisão, rádio e agência pública de notícias. E, pior que isso, foi preciso uma pandemia para que o Estado finalmente cumpra aquilo que está publicado em Diário da República há muitos anos, que é a obrigatoriedade de publicar publicidade institucional nos jornais, entre eles os regionais e locais, que é aquilo que muito raramente acontece. Ou seja; o Estado está obrigado por lei a publicar publicidade institucional nos jornais e rádios, só que não o faz, e ninguém vai atrás do prejuízo porque dá muito trabalho e muitas inimizades. Quem conhece a minha opinião sobre as associações de muitos sectores, agricultura incluída, fica agora a conhecer também a minha opinião sobre as associações de imprensa: são quase todas prestadoras de serviço, que vivem dos negócios com o Estado, à custa dos que trabalham nos vários sectores da vida empresarial.
Rui Rio, responsável pelo maior partido da oposição, podia aproveitar o estado calamitoso em que vivemos e ganhar estatuto, lutar por um lugar na frente para um dia chegar a primeiro ministro. Ao contrário, fala do que não sabe, tem uma língua de trapos e a sua ousadia em matéria política só pode ser gozada, ao jeito de João Ubaldo Ribeiro, quando brinca com as touradas e os forcados em “A Casa dos Budas Ditosos”, ou quando cita Nelson Rodrigues para dizer que tinha razão ao afirmar que “se todo o mundo soubesse da vida sexual de todo o mundo ninguém se dava com ninguém”.

Não vem nos livros, nem é matéria dos noticiários das televisões, os dramas das populações que vivem no interior e estão entregues à bicharada. Os preços das casas em algumas vilas e aldeias da região caíram a pique e ninguém as quer comprar. Entretanto a Câmara de Lisboa está a preparar-se para comprar casas, prontas a habitar, para arrendar, e assim aumentar o seu património habitacional. As autarquias do interior, que perdem população e vêem definhar o comércio tradicional e são obrigadas a fechar escolas, não têm qualquer política social para implementar nos próximos anos, mesmo sabendo que a União Europeia apoia políticas de habitação contra o problema da interioridade. Não vou falar dos concelhos que conheço bem, onde as populações perdem qualidade de vida e vêem o seu património desvalorizado. Mas deixo aqui, mais uma vez, um aviso àqueles que gostam da sua terra e não exercem a crítica necessária para que os políticos de proximidade sejam obrigados a vestirem as luvas de boxe para lutarem pela sua gente e pelo futuro das suas cidades, vilas e aldeias. JAE

quinta-feira, 7 de maio de 2020

O Estado não paga, não paga, não paga

As cativações são o sistema mais perverso que o Estado português inventou para baixar a dívida pública. Foi com este tipo de esquemas que o ministro Centeno ficou conhecido como o Ronaldo das Finanças.

A malta do Estado, que governa o dinheiro do Estado, bem pode atravessar pandemias e épocas trágicas de fogos, cheias do Tejo, tempestades de granizo e outras catástrofes, que não muda nem que a vaca tussa. A situação que atravessamos, com a crise provocada pelo coronavírus, alterou a nossa vida individual e colectiva de maneira abrupta e, nalguns casos, extrema ao ponto de nunca mais voltar a ser como era. Ninguém sabe o que nos espera ainda. O Estado, e a malta que trabalha nos organismos do Estado, está na mesma como a lesma, nomeadamente nas relações com os contribuintes, com as empresas e os empresários. Do cimo do altar em que vivem todos os dias, na segurança dos deuses do poder e do dinheiro dos contribuintes, e dos impostos que pagamos automaticamente como pagamos com a vida os erros que cometemos, ignoram as dívidas e os compromissos daqueles que, no mercado livre e concorrencial, arriscam, apostam, investem e entregam-se ao trabalho como gente grande, e civilizada, que não acredita no milagre de Fátima mas respeita quem acredita.

Na passada semana demos visibilidade à divida milionária do Estado a uma empresa da área dos transportes públicos que trabalha na nossa região e que precisa do dinheiro que o Estado lhe deve para poder continuar a trabalhar e pagar vencimentos. Mas esta é apenas uma situação, entre milhares, em que o Estado, pela voz dos políticos diz uma coisa, e depois na acção dos burocratas faz outra completamente diferente. Há organismos do Estado que, por causa das célebres cativações dos governos de António Costa, não pagam o que devem; não pagam, não pagam, não pagam, e ainda respondem de forma descarada aos que vão atrás do dinheiro, argumentando que o país atravessa momentos difíceis e que, nesta altura, não é fácil resolver problemas.

António Costa, em nome do Governo socialista que lidera, tem passado uma imagem de serenidade e seriedade que não se ajusta a esta política de calotice, quase criminosa, que corrói e destrói a vida e a honra de muita gente que confiou no Estado. Provavelmente não foi ele que inventou este esquema das cativações, mas é com esta forma trapaceira de governar que o ministro Mário Centeno é conhecido como o Ronaldo das Finanças; e foi assim que o Governo conseguiu apresentar para 2020 um Orçamento de Estado considerado histórico, porque previa um excedente orçamental, coisa inédita em Portugal desde que vivemos em democracia. Coisa que um vírus, com o tamanho e a magnitude de uma perversidade como as cativações, vai transformar provavelmente no maior défice orçamental desde 1974. JAE.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Jornalismo, serviço público e os CTT ao barulho

Os Correios perderam qualidades na distribuição nos últimos anos mas agora com o problema da pandemia o serviço ficou ainda mais prejudicado.

O jornalismo é uma das actividades mais poderosas do mundo mas também uma das mais dispensáveis. Sei isso desde que comecei a escrever neste jornal e assumi o papel de empresário, director e todos os outros que estão associados à criação e fundação de um órgão de comunicação social.

Sempre defendi, mesmo contra ventos e marés, que em tempo de vacas gordas, ou em tempo de pandemia, o jornalismo é sempre serviço público. Se o tempo é de vacas gordas há abuso e corrupção; se a época é de vacas magras há certamente especulação e falta de vergonha. E o jornalismo existe para defender o interesse público e desmascarar os trapaceiros, os que dizem uma coisa em público e outra em privado, os que impunemente abusam do poder político e económico, entre tantos outros exemplos que chocam com os direitos humanos e as leis da República.
Um jornalista tem que estar sempre do lado dos mais desprotegidos. E no seu posto de trabalho não pode depender de alguém que tenha interesse na exploração de negócios, da vida política ou da exploração da ignorância dos mais desfavorecidos. A fundação de jornais, depois do 25 de Abril, esteve quase sempre associada a lutas pelo poder político e económico. Nunca se fará, verdadeiramente, a história do nascimento de um órgão de comunicação social onde um dos fundadores seja um grande empresário ou um político no activo. O exemplo da tentativa de José Sócrates, exprimeiro-ministro, em criar um grupo de comunicação social com empresas amigas, é uma história que deixou rasto mas que no futuro só será contada pela metade. Os tempos são de grande azáfama e já não há espaço para a investigação nem sequer em causa própria.
Uma boa parte dos jornais abandonaram as assinaturas digitais para proporcionarem a leitura, em tempo de pandemia, a todos os cidadãos em situação de confinamento. Enquanto os jornais em papel perdem importância, por que os postos de venda estão fechados e a distribuição porta a porta está dificultada, eis que as empresas entram em contra-ciclo e em vez de aproveitarem a oportunidade oferecem a navegação gratuita nos seus sítios.

O MIRANTE pratica a assinatura mais baixa do mercado dos jornais. Sempre vivemos da publicidade e defendemos que a informação deve ser paga pelos anunciantes ou patrocinadores. Talvez por isso, em tempo de emergência social, sejamos hoje um dos poucos jornais no mercado português que mantém um caderno de classificados e editamos um diário online sem qualquer custo para os leitores.

Os CTT perderam qualidades na distribuição nos últimos anos mas mantinham, apesar de tudo, um serviço mínimo de qualidade na entrega de jornais. Desde que começou o período de pandemia a distribuição tem sofrido muitas falhas. Os CTT já assumiram perante a administração de O MIRANTE que estão a sofrer o mesmo problema de todas as empresas. Vamos esperar, com a compreensão dos assinantes, que este tempo passe depressa e que o serviço da entrega do jornal retome a normalidade. Os CTT são um parceiro importante de O MIRANTE e de toda a imprensa que aposta na assinatura. Esperamos que a sua administração não se confine nos lucros das outras actividades da empresa que nada têm a ver com o serviço público da entrega de correio. JAE.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

A memória dos dias e a “Musa Praguejadora” de Ana Miranda

Esta crónica é fruto do entusiasmo na leitura de “Musa Praguejadora”, de Ana Miranda, e regista um tempo em que os rebentos das cepas crescem diariamente ao ritmo da barba dos homens.

Vivemos dias tristes que nem os sonhos das viagens marcadas conseguem dissipar. Mas nem tudo são tristezas; há dias felizes que se vivem a trabalhar e outros que são ainda mais felizes no meio do campo, a cuidar das árvores, que também cuidam de nós, com os ramos cheios de flores, algumas já com frutos do tamanho de bolas de berlinde. Nesta altura do ano as oliveiras já carregam o azeite que há-de chegar aos lagares lá para Novembro. E os rebentos das vinhas das terras da Lezíria crescem todos os dias ao ritmo que cresce a barba dos homens mais jovens deste tempo de pandemia em que vivemos.
Tenho a sorte de ter chegado a uma idade em que o futuro já não me preocupa tanto a nível pessoal. Vivo um dia de cada vez, perdi os medos e as angústias e sinto-me com força e segurança suficientes para continuar a ajudar a construir um mundo melhor, também a pensar no mundo ideal para os meus filhos.
Vivemos tempos tristes mas não de desesperança. Sinto isso todos os dias a trocar mensagens com amigos, e com pessoas muito próximas, que mantêm um espírito de resiliência e de coragem que são comoventes de tanto nos despertarem as boas emoções.
Tenho registado na memória recente a morte de muita gente que me viu nascer, e de outros e outras que me viram crescer como homem e, ao mesmo tempo, como profissional de várias artes, entre elas a de ourives e agora de jornalista. Aprendi todos os meus ofícios trabalhando, ou tarimbando, como é mais uso dizer-se em bom português. E isso é uma marca pessoal de que me orgulho e me obriga a reinventar-me todos os dias sem esquecer que viemos do pó e ao pó voltaremos.

Vivemos tempos tristes mas nunca me sinto triste; nem quando vejo lágrimas no rosto de quem não sabe o que fazer da vida. Tenho dois amigos de longa data a lutarem contra o cancro; sempre que tenho notícias deles percebo melhor o quanto sou um sortudo; fugir do coronavírus e manter distanciamento social, para não adoecer, é uma brincadeira comparado com aquilo que sofrem as pessoas que caminham para os hospitais e não podem falhar as consultas.
Picasso dizia que para se ser jovem é preciso viver muito tempo. Esta crónica é fruto do entusiasmo na leitura de “Musa Praguejadora”, de Ana Miranda, que conta a vida de Gregório de Matos, e de “Picasso, Criador Destruidor”, que foram as minhas melhores companhias nos últimos dias. Ana Miranda biografou a vida de Gregório de Matos (conhecido pelo Boca do Inferno) de tal forma que o livro se lê como um romance de aventuras. Muito do que está escrito nas 555 páginas do livro é a História de Portugal e do Brasil do século XVII e a grande marca do génio de Gregório de Matos que, como todos os génios, acabou por morrer pobre e enjeitado pelos seus contemporâneos depois de uma vida tão atribulada que incluiu uma deportação para Angola.

No dia em que escrevo esta crónica ouvi o presidente do Sindicato dos Médicos dizer que 15% dos infectados com o coranavírus são profissionais de saúde. Falta contabilizar os profissionais dos lares, e das outras unidades de cuidados de saúde espalhadas pelo país, para termos a noção exacta do que é uma profissão de risco, e de quanto vale ficar em casa com o ordenado garantido faça sol ou faça chuva.

O aeroporto de Lisboa, que estava a abarrotar de gente e era território de negócios chorudos para as grandes marcas nacionais e internacionais, está fechado como a loja do meu vizinho Carlos que vende livros em segunda mão num espaço de dez metros quadrados, na rua mais pobre e mal iluminada da minha cidade. Foi lá que vi, e não comprei, um azulejo com estes versos atribuídos a Gregório de Matos: “o honesto é pobre, o ocioso triunfa, o incompetente manda”. JAE.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

CAP e Marcelo Rebelo de Sousa lavam mais branco

O presidente da República Portuguesa já nos habituou às conversas caridosas e bem intencionadas. Em tempo de pandemia precisamos de governantes tesos e não de políticos beijoqueiros e lambanceiros.

Andamos todos cheios de pressa a pedir ao Governo de António Costa que tome medidas para apoio à economia e não deixe morrer as empresas e os empregos. E com razão. Os políticos não são de confiança e quem não se fizer ouvir agora bem pode berrar depois que já vai ser tarde demais. E todos sabemos o quanto a Europa tem as tetas grandes para quem sabe mamar. As ajudas em tempo de crise calham sempre aos mesmos. Nesta altura as grandes empresas com centenas de trabalhadores já têm o pessoal por conta do Estado. Tão fácil como ir lavar as mãos ao Tejo.
É difícil governar em tempo de crise? Claro que é; mas será que não merecíamos melhores políticos quase meio século depois do 25 de Abril de 1974?
O Presidente da República interrompeu a quarentena para visitar a Lezíria Grande e dar uma mãozinha à agricultura. Falou pouco e o seu discurso foi paupérrimo como se não soubesse nada de searas e muito menos de tomates, mas falou o suficiente para dizer que já não voltará a sair à rua tão depressa e que vai respeitar o isolamento em tempo de Páscoa. Só a CAP conseguia que um Presidente da República furasse o isolamento social em tempo de pandemia para ir para o meio do campo falar aos portugueses. De verdade não disse nada, só se mostrou, como se fosse um modelo, uma espécie de ave rara, um artista do circo político. Mas a CAP também não quer mais do que aquilo que o Presidente lhes deu. Para eles a luta política também passa por mostrarem aos portugueses que têm sua Excelência o Presidente da República do lado deles. O resto é com a força de trabalho que cada agricultor há-de ter e com a sorte que os há-de ajudar, se quando for tempo de colheita as fábricas estiverem a laborar ou aceitarem pagar o suficiente pela produção de forma a que a colheita valha a pena.

O nosso problema é que não é só a CAP que vive de negócios e de compadrios deste género com o Estado e com os políticos que o governam e representam. As outras associações fazem o mesmo. Por isso é que andamos todos com o credo na boca a tentarmos que o Governo decrete medidas urgentes para mantermos as empresas saudáveis e garantirmos os empregos. Ninguém está com calma para esperar e ver o que isto vai dar. Estamos todos com medo que os nossos governantes, mais uma vez, fujam com o rabo à seringa e os mais fracos é que tenham que ficar com o vírus da fome e da desgraça.

Em Portugal as pequenas e médias empresas representam 99% da actividade comercial e industrial. São os pequenos negócios que ainda fazem de Portugal um país decente. É por isso que nestas alturas é uma tristeza ver o Presidente da República a fazer jeitinhos em tempo de isolamento, com as televisões atrás de si para garantir o tempo de antena, e no outro dia a fingir que está a sensibilizar os bancos para serem meiguinhos nas taxas de juro. Como se a gestão dos bancos, e a gula dos banqueiros, pudesse ser controlada por uma política de boas vontades e de conversas caridosas. Temos aí o exemplo da Caixa Geral de Depósitos que foi até hoje, a par do BES, o maior escândalo financeiro em Portugal; e só Armando Vara é que está preso e, pasme-se, por tráfico de influências em negócios com um empresário do ferro-velho. JAE.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Ganhar leitores à custa do coronavírus

O MIRANTE online teve um milhão de visitantes únicos na semana passada devido às notícias sobre a pandemia. Caso para dizer que somos uma boa companhia para quem fica em casa.

A pandemia do coronavírus ocupa todo o tempo de antena das televisões; e os jornais para lá caminham. Na passada semana O MIRANTE online teve um milhão de visitantes únicos o que quer dizer que tivemos o dobro dos leitores que vivem na região ribatejana que é a nossa área de influência. Em meados da passada semana reforçámos as notícias sobre o tema publicando online todos os despachos da agência Lusa que consideramos importantes para orientação dos leitores. Porque está tudo em causa por causa da pandemia vamos manter o tema nesta coluna. E desta vez não deixo de registar o facto de TODOS os órgãos de comunicação social continuarem a apontar os números dos mortos chineses como se alguém soubesse o que se passa na China, um território com 1.400 milhões de habitantes governado por um Imperador. É incrível a falta de respeito para com os leitores e o branqueamento que fazemos a um regime comunista que só divulga e dá a conhecer o que muito bem entende.
Escrevo esta crónica a uma terça-feira, sentado numa espécie de secretária, ao lado de uma equipa que não desmobilizou nem vai desmobilizar. O correio electrónico mantém a ligação ao mundo e aos leitores; e todos os dias recebemos colaboração, embora muita dela não se ajuste ao nosso estatuto editorial porque segue a linha das redes sociais que é denunciar sem provas e no conforto do anonimato.

Uma semana antes da eclosão do vírus estive em Madrid para visitar a ARCO. Passei uma tarde a tentar perceber do que vivem as galerias de arte, quem estava na montra, e aproveitei para visitar os dois principais museus da cidade. Não paguei entrada porque a profissão dá-me entrada gratuita em qualquer destas feiras ou museus do mundo. Em Lisboa, na edição do ano passado da ARCO, não consegui entrar com a carteira de jornalista nem com o cartão multibanco; tinha que pagar em dinheiro vivo. Recusei-me e preferi ignorar que Lisboa ainda é, em muitas situações, uma rua movimentada de Madrid, e certa gente do mundo das galerias portuguesas fazem lembrar os contrabandistas de outros tempos.

Sigo diariamente um blog de um médico que me ajuda a perceber melhor o mundo em que vivo e a desculpar as pessoas que acham que enfiadas debaixo da cama ficam mais seguras; mas também os mesmos de sempre que acham que o pior só acontece aos outros.

Tenho um velho amigo, com 84 anos, que trato de forma afectiva por EdMar, que acabou de se livrar de um vírus hospitalar e logo de seguida do coranavírus. Está de regresso a casa para voltar a fumar a sua cigarrilha. E eu a sonhar que vou ter, até morrer, um espírito sábio e sereno como o dele.

Muitas autarquias da região anunciaram medidas de apoio às populações que são uma boa razão para confiarmos nos políticos de proximidade que elegemos para o governo das nossas aldeias, vilas e cidades. Ficamos todos à espera que as ajudas já anunciadas, e as que ainda faltam anunciar, incluam um plano de contingência para apoio aos idosos que são a parte mais fraca desta batalha contra o coronavírus. JAE.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Boas notícias para quem tem medo de morrer do coronavírus

É mais que certo que a grande maioria das pequenas e médias empresas vai morrer na praia mas o combate ao coronavírus vai ser bem sucedido. Pretexto para escrever sobre angústias no aeroporto de Lisboa.

A profissão de jornalista é uma das profissões mais entusiasmantes do mundo. Quem leva a sério a profissão está sempre a aprender e a levar lições de Humanidade e Civilização. Tive acesso a dados que demonstram que a pandemia do coronavírus pode não ser a tragédia que todos estamos à espera. Nada está provado cientificamente mas a sabedoria dos homens a trabalharem em conjunto nos grandes laboratórios vai encontrar certamente o antídoto que todos queremos para voltarmos a ter de volta uma vida normal. Não é por isso que até lá não temos que seguir cuidados especiais ficando em casa. Não é o meu caso. Sinto-me no dever de trabalhar todos os dias e de contribuir com o meu trabalho para que o mundo seja cada vez mais um lugar melhor para vivermos. E faço parte da gestão de uma das pequenas empresas deste país que pode ficar pelo caminho se não soubermos reinventar o negócio.

Nos últimos dias assisti no aeroporto de Lisboa a um drama que passou despercebido à comunicação social. Um grupo numeroso de brasileiros, apanhados pelos efeitos da pandemia no fim de uma viagem pelo mundo, com regresso a casa marcado no aeroporto de Lisboa, dormiu dias seguidos no chão, à entrada do aeroporto de Lisboa, sem possibilidade de usarem as casas de banho ou sequer encherem uma garrafa de água.
Tratados que nem porcos (ouvi esta expressão dezenas de vezes como grito de revolta), alguns deles sofrem de doenças oncológicas, outros são diabéticos e outros viajavam com crianças. Nada demoveu os responsáveis do aeroporto para acudirem aquela gente que durante os últimos dias choraram baba e ranho à espera de uma vaga num avião. A Embaixada e o Consulado do Brasil em Lisboa estiveram em parte incerta e nunca foram interlocutores no terreno de forma a diminuírem as angústias, as lágrimas e os perigos de contágio do coronavírus. Num desses dias ajudei a dar assistência a um homem que desmaiou e caiu no chão como morto. Os gritos de aflição da mulher a chamar um médico iam criando uma revolução nos senhores que controlavam a fila há dias seguidos. Os dois paramédicos que vieram em auxílio do homem levaram-no para o interior do aeroporto mas a mulher do homem ficou na rua à espera. A polícia, em número razoável, garantia o descanso dos donos das companhias aéreas e dos responsáveis do aeroporto de Lisboa. No meio desta anarquia, destas organizações preparadas para facturarem a correr e antes de prestarem o serviço, apareceu um homem, chamado Ricardo Amaral, presidente de uma associação de brasileiros, que 12 horas por dia fez o que pôde e o que estava ao seu alcance. No último domingo, depois do pequeno tumulto com o desmaio do homem, disse, visivelmente agastado, que ele próprio era doente oncológico e que estava ali desde o primeiro dia, exposto e disposto a morrer pelos compatriotas. Os índios habituais, que vestem do tecido da bandeira do Brasil, ainda hoje estão em parte incerta (na quinta-feira, dia de saída desta edição para as bancas, certamente que alguns ainda estarão à espera de uma solução para o seu regresso a casa).
Falta contar que tinha amigos a sofrerem desta desordem e pude confirmar que alguns deles gastaram o dinheiro que tinham e não tinham para recomprarem passagens aéreas que de nada lhes serviram porque continuaram em terra.

Quem trabalha em comunicação e gosta desta arte de ajudar a construir diariamente o mundo em que vivemos deve actualizar-se e ler o artigo do jornalista João Garcia, no jornal Expresso de 21 de Março, com o título “Um vírus a infetar o jornalismo”, e o de J.M.Nobre Correia no jornal Público, edição de 9 de Março, com o título “Por onde andam os jornalistas” JAE.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Combater a pandemia do coronavírus  e manter o emprego

O Governo português tem milhões prometidos para os empresários mas tudo indica que o dinheiro não vai chegar e se chegar vai ser tarde demais.

A grande maioria dos governos da Europa (Alemanha e França dão o exemplo) está a disponibilizar créditos aos empresários e às empresas que vão sofrer com o impacto da pandemia provocada pelo coronavírus. Se o vírus continuar a ameaçar a saúde dos portugueses até Maio/Junho, o que já é um cenário animador, há empresas que vão pagar salários durante pelo menos quatro meses sem que obtenham quaisquer receitas da sua actividade. Se tivermos em conta que uma boa parte das pequenas e médias empresas vivem com dificuldades de tesouraria, e sofrem as dificuldades de financiamento, é mais que certo que muitas delas vão acabar na falência. Certamente que a médio prazo voltarão a nascer outras empresas mas, até lá, ficam pelo caminho muitos empregos e a segurança e bem-estar de muitas famílias. Os empresários vão passar um mau bocado porque perdem os seus investimentos e, como é norma, vão ficar endividados e a contas com a banca, o fisco e os fornecedores que são sempre os que sofrem a maior pancada, nomeadamente quando são eles próprios também pequenas e médias empresas que ficam sem as receitas da sua actividade. Para usarmos uma expressão popular, que se ajusta bem à realidade, vai ser assim como a pescadinha de rabo na boca: o processo não acaba bem nem para quem comprou nem para quem não consegue pagar o que lhe foi facturado. Já sabemos que, ao Estado, todos vão ter que pagar, mais tarde ou mais cedo, nem que seja entregando o esqueleto.
No sítio do IAPMEI (organismo do Estado que apoia as empresas) está anunciado desde terça-feira, 16 de Março, uma verba de 200 milhões de euros destinadas a apoiar as empresas que estejam a sofrer o efeito do surto. Mas, como é habitual em Portugal, as empresas só se podem candidatar daqui a dois meses fazendo prova do prejuízo, não podem ter dívidas ao Estado e outros quejandos que anulam qualquer oportunidade de apoio.
No dia em que escrevo esta crónica vi dois sinais da CIP e da Nersant preocupadas a pedirem ao Governo que não esqueça as dificuldades das empresas e dos empresários. O Governo não tem mãos a medir para acudir à saúde pública e, aparentemente, tem gerido bem o processo embora só esta quarta-feira tenha acertado com Espanha o encerramento das fronteiras. Entretanto o ministro da Economia desapareceu e aparentemente está de quarentena. E os empresários, nomeadamente os pequenos empresários, só podem estar a trabalhar no duro, fazendo das tripas coração, porque ninguém confia nos políticos nem nos burocratas que trabalham para o Estado.

NOTA IMPORTANTE. O dia de quarta-feira (dia do fecho desta edição que vai para a gráfica aos 11-30h) começou com uma conferência de imprensa dos Ministros das Finanças e da Economia a prometerem ajudas aos empresários. Nada do que disseram contraria o pessimismo desta crónica. Prometo voltar ao assunto e explicar as razões porque não reescrevi o texto. JAE.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Apanhados do clima e agora também do coronavírus

Vamos todos ser responsáveis e seguir as indicações da Direcção-Geral de Saúde para não morrermos na praia por causa de um desgraçado de um vírus. Mas não levem a mal que não tenha medo de beijar, abraçar, apertar e andar por aí sem máscara na cara e no coração.


Seja responsável: não brinque com as desgraças que pode ser o próximo desgraçado. Tento levar a brincar a ameaça do coronavírus e, para ser sincero, não consigo ter medo embora tenha cu como toda a gente. Como se ainda tivesse 20 anos, e vivesse em permanente estado de revolução, só me lembro das quedas na Bolsa e dos mil milhões de prejuízo que as grandes empresas estão a sofrer; e nunca me esqueço dos refugiados que desesperam por ajuda; e das notícias que nos informam que os EUA acabam de fazer a maior venda de sempre de armamento. E o Brasil é um dos maiores importadores de armas da América do Sul, logo o Brasil que é o país do mundo que mais gosto e para onde mais viajei ao longo da vida.
Sou sensível e bate mais forte o coração ao ler as notícias da NASA que falam de uma diminuição drástica da poluição nos céus da China por causa da crise do coronavírus. As centrais a carvão da China (e já agora também as do Japão) poluem mais que todos os Estados europeus. E a Europa vive de joelhos perante o comércio chinês. E Portugal, o nosso portugalzinho, já entregou ao chineses uma boa parte da sua economia e, talvez não seja exagero afirmar, uma parte substantiva da sua independência. Nós fechamos as centrais a carvão por razões ambientais e de solidariedade com a vida no Planeta Terra e o Japão e a China inauguram novas centrais a carvão todos os anos como se fossem os donos disto tudo. E é de lá que vem para todo o mundo, incluindo Portugal, o dinheiro e a mercadoria, Deus e o Diabo, agora também o Coronavírus e um dia destes sabe-se lá o que mais.
Tenho na minha estante um livro de capa vermelha, da autoria de Alain Peyrefitte, que tem este título sugestivo: “Quando a China despertar o mundo tremerá”. O livro deve ser de 1975 e não consigo encontrar as razões que me levaram a comprá-lo no Círculo de Leitores que, na altura, era a minha única livraria de bairro. A minha e a de muitos milhões de portugueses. Nunca mais lhe peguei e nem agora que escrevo este texto tenho oportunidade de o folhear. Mas lembro-me dele muita vez porque está lá perdido entre os livros que um dia destes vou doar a uma instituição.
Talvez tenha sido influenciado pelos políticos da altura. Talvez tenha sido também maoísta e não me lembre. Esta é a parte em que mais gosto de pensar que ainda tenho 20 anos e, em vez de imaginar que posso morrer com o Covid-19, só penso nos desgraçados dos lesados do BES, os emigrantes na Venezuela que foram enganados pelos banqueiros mas também os outros; e nas quedas da Bolsa que já chegam aos dois dígitos.
Não estou (só) a brincar com as palavras; tenho leitores que me puxam as orelhas quando me alargo mais em comentários esquerdistas e irresponsáveis; e tenho mais de sessenta anos de idade; pertenço ao grupo de pessoas que correm mais riscos com o vírus da moda. Se morrer pelo caminho pelo menos morro consolado e já tenho com que ranger os dentes na hora da agonia. JAE.

quinta-feira, 5 de março de 2020

A entrega dos prémios Personalidade do Ano de O MIRANTE

A entrega dos prémios Personalidade do Ano de O MIRANTE (edição 2019, realizada no dia 20 de Fevereiro em Santarém, no Convento de São Francisco) junta sempre alguns dos nossos parceiros mais importantes que, regra geral, nunca são notícia porque eles próprios são parte da nossa equipa e responsáveis pelo êxito do nosso projecto editorial e empresarial. Ficam aqui os rostos e os nomes de quatro dessas personalidades para memória futura.
 Fernando Guedes da Silva, Director Comercial e de Marketing da VASP

 Jorge Pires, Director Geral da Moneris

 Jaime Rodrigues, Director de Produção na Grafedisport

Henrique de Carvalho Dias, fotógrafo. (Na foto acompanhado pela sua esposa) 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A política e os negócios de Francisco Moita Flores

Movimentos financeiros entre a empresa “ABB Construções” e empresa da mulher e dos filhos de Moita Flores põem em causa credibilidade do ex-autarca


A Câmara de Santarém deu uma compensação de um milhão e oitocentos mil euros a uma empresa (ABB Construções) que construiu um parque de estacionamento em Santarém e, pouco tempo depois, essa empresa fez chegar à conta de uma empresa dos filhos de Francisco Moita Flores uma verba de 300 mil euros que serviu depois para transferir para uma outra conta da empresa da mulher de Moita Flores, Filomena Gonçalves.
Não é normal um político ter negócios pessoais e familiares com uma empresa que trabalha para a autarquia onde ele é presidente e sujeitar-se a estes movimentos financeiros, sabendo que, hoje, o escrutínio sobre os políticos aumentou substancialmente. Ainda por cima Moita Flores saiu do concelho de Santarém aos pontapés nos seus antigos camaradas e deitando fumo pelos olhos nas relações com todos aqueles com quem partilhou o Poder. Nada do que acabo de escrever, baseado no que é do conhecimento público (ver notícia nesta edição na página 9) prova que Francisco Moita Flores é corrupto ou se deixou corromper; mas os indícios que o Ministério Público (MP) encontrou e persegue são muito perigosos para a credibilidade do ex-autarca de Santarém a quem sempre ouvi dizer que estava na política para devolver ao país aquilo que as suas instituições lhe tinham dado ao longo da sua vida. Não conheço melhor forma de justificar o dever de cidadania que pagar a quem devemos na mesma moeda, ainda para mais quando se chega a uma idade em que o dinheiro deixa de ter tanto valor e nem para comer já precisamos do prato cheio.
A maior parte dos camaradas e companheiros que ele levou de Santarém em excursão à sua casa de campo no Alentejo ainda hoje falam disso, não para valorizarem o gesto de hospitalidade mas dando conta de uma certa vaidade, própria dos novos ricos, que gostam de fazer alarde das condições de vida que lhes permitem a compra de bens e a contratação de pessoas para os servirem.
Francisco Moita Flores é um Franciscano praticante que acredita em Deus e, sempre que pode, vai confessar-se aos padres. Acredito por isso que, nesta altura, ele já esteja a contas com a sua fé e creia piamente que tudo se resolverá para seu bem e da sua família. Mas eu, que sou ateu e não me confesso às mulheres da minha vida, quanto mais aos padres, não acabo esta crónica sem lembrar que quem semeia ventos colhe tempestades. Quinze dias antes das eleições autárquicas, em que Moita era candidato em Oeiras, o ex-presidente deu uma entrevista a um jornal, entretanto defunto, em que só faltou chamar atrasados mentais aos políticos camaradas e ex-amigos que deixou no seu lugar a governarem o concelho de Santarém. Não é normal este tipo de comportamento, por maiores que fossem as zangas na direcção política da autarquia. A ira revelada nestas relações é um sinal pouco abonatório da personalidade do político e escritor, autor de alguns livros como “O Carteirista que fugiu a tempo”, “Mataram o Rei” e “Polícias sem História”.
Moita Flores justifica em declarações ao jornal Expresso que tudo o que está a acontecer é uma perseguição do MP e do actual presidente da Câmara de Santarém, Ricardo Gonçalves. Quanto ao movimento do dinheiro diz que está tudo justificado e que ninguém tem que ver com as contas das empresas da mulher e dos filhos. Parecem-me fracos argumentos para uma pessoa que conhece bem as investigações a estes casos e o valor que têm para o MP as acusações de perseguição política. JAE.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A vida que dá trabalho e o trabalho de uma vida


O MIRANTE volta a entregar os prémios Personalidade do Ano. Oportunidade para recordar o valor das entrevistas dos nossos premiados e a memória de Manuel da Costa Brás, falecido em Julho do ano passado.


A entrega dos prémios Personalidade do Ano, que O MIRANTE organiza esta quinta-feira pelo 15º ano consecutivo, vai ser muito provavelmente a nossa melhor e mais participada iniciativa de sempre. A oito dias da data já tínhamos o Convento de S. Francisco, em Santarém,  esgotado com a presença garantida das nossas Personalidades mas também de uma boa parte dos nossos principais parceiros neste projecto.
Este ano voltei a acompanhar de perto algumas das entrevistas que vêm publicadas na edição especial de 52 páginas que integra a edição semanal onde publico esta crónica. Devo confessar que já tinha saudades de um desafio como este; nos últimos tempos o trabalho obrigou-me a fazer contas, organizar papéis e arquivos, enfim, a fazer uma série de coisas que escapam aos meus interesses principais mas que não posso deixar de cuidar.
O jornalista que se preza quando faz entrevistas sabe como entrar na vida pessoal e profissional do seu entrevistado e se não o explora até ao tutano não está a fazer um bom trabalho. Depois, a montar a conversa, só entra aquilo que não ultrapassa as fronteiras definidas entre as duas partes mais aquilo a que a profissão obriga.
De todas as entrevistas das Personalidades de 2019 que elegemos para receberem o prémio esta quinta-feira posso testemunhar que nenhuma delas frustrou as nossas expectativas. O que fica no gravador e não cabe no papel, principalmente por questões de espaço, dava outra edição especial. Uma das entrevistas tirou-me o sono durante alguns dias por ser impossível publicar metade da conversa que eu achava que não podia deixar de fora. Como perder o sono é perder também qualidade de vida tive que entregar a outra pessoa a decisão final sobre o que devia ficar de fora depois do texto trabalhado e apurado.
Posso dar-me a este luxo porque trabalho com uma equipa que tem muitos anos e que não desafina nas grandes questões e nos maiores desafios. Para além de jornalistas fomos obrigados a aprender a editar os nossos textos e os textos dos nossos camaradas. Alguns de nós levam mais de duas décadas a aprender como se enxofra e ainda nos emocionamos com o cheiro do enxofre.
Acho que merecemos estas Personalidades. Assim como acho que merecemos muitas outras que ao longo dos anos nos honraram com o recebimento do prémio e com a sua presença na cerimónia. Recordo com saudade as palavras de Manuel da Costa Brás, a quem demos o prémio Vida em 2014, e que este ano voltamos a homenagear a título póstumo (faleceu a 2 de Julho do ano passado com 84 anos). Vamos editar na cerimónia de 20 de Fevereiro algumas imagens da entrevista que realizámos com ele no Pombalinho, de onde era natural e onde viveu parte dos últimos anos da sua vida. Era uma figura de referência da nossa região. Um homem com uma vida cheia de trabalho e cargos importantes mas genuinamente uma pessoa humilde e sem peneiras. Em 2014, em Rio Maior, a voz tremeu-lhe na hora de agradecer o prémio mas não deixou de lembrar o exemplo de vida que recebeu dos seus pais. JAE.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Viver a vida a trabalhar longe do trabalho



O restaurante Mirante da Paraíba, no Brasil, é só um pretexto para o autor desta crónica confirmar que a vida não é só trabalho mas que mesmo a viajar estamos sempre a trabalhar.


Há muitos anos fui convidado a visitar Jericoacoara, a meio de uma viagem a Porto Seguro, onde subi o Monte Pascoal. Fiquei de tal modo agarrado ao lugar onde, segundo reza a história, os índios avistaram pela primeira vez as naus de Pedro Álvares Cabral, que não tive coragem de deixar a cidade durante 15 dias de férias que passei por lá. 25 anos depois, de mochila às costas, meti-me a caminho e cumpri o sonho adiado.
Pelo que me contaram já não fui a tempo de reconhecer Jericoacoara dessa altura. Mas ainda vale a pena perdermo-nos naqueles caminhos de areia e dunas, mar e rios.
Fiz o caminho já de noite, a partir de Jijoca, na camioneta do Pantera, acompanhado de uma dezena de nativos que tinham vindo à cidade tratar da vidinha. Todos com menos de metade da minha idade. Cheguei à pousada Paradise, com o Rodrigo do outro lado do telefone, antes de negociar a viagem, a desaconselhar-me todas as propostas indecentes que me fizeram antes da decisão de viajar no banco da frente ao lado do Pantera.
Jijoca é uma cidade a uma dúzia de quilómetros de Jericoacoara, que vive dos turistas que viajam para o mítico lugar do Ceará. É lá que deixamos os nossos carros e é para lá que voltamos depois da descoberta do paraíso. Apesar da existência de pousadas de cinco estrelas esqueçam o conforto dos grandes hotéis. Fiquei na pousada Paradise, gerida pelo Rodrigo, e paguei cerca de 20 euros por noite; mas só o tempo que ele me dedicou a contar histórias, e o prazer de o ver a fumar um baseado, sentado na rede, justifica o preço da diária e desculpa todas as falhas com a Internet, a falta de água quente e as duas ou três baratas sem importância que me fizeram companhia durante três noites.
Foi ele que me recomendou o restaurante para jantar, mas também o pequeno espaço onde tomei diariamente o café da manhã, que paguei com os trocos que sobravam dos passeios, que ele também ajudou a marcar a preço de amigo. Hoje Jericoacoara não é nada daquilo que ouvi contar, mas a culpa é minha que viajei com mais de 20 anos de atraso. Mesmo assim valeu a pena, embora há duas dezenas de anos certamente teria aproveitado muito melhor as noites de festa.
Aproveitei a proximidade com o estado de Piauí e do Maranhão e fui dormir à cidade de Parnaíba para dar uma volta pelo rio e visitar as praias e, melhor do que as praias, os Lençóis Maranhenses, outro projecto adiado das viagens do tempo em que tinha mais olhos que barriga.
Fiz muitos quilómetros de carro, comi muitas moscas pelo caminho, dormi demais para o meu gosto, mas nunca mais me vou esquecer da Anna, do Gleicivan, da Lindalva, do Rodrigo, do Pantera, do Tiago, da Gardénia e do Valdir. E de mais meia dúzia de pessoas que, tal como eu, têm o sonho de ir por esse mundo fora mas acabam presos nas teias de aranha do lugar onde nasceram ou onde escolheram sobreviver a trabalhar.
Falta contar que em Parnaíba fui almoçar ao restaurante Mirante, que é um dos que de vez em quando aparece pelo meio das pesquisas sobre notícias de O MIRANTE. De repente, o dono do restaurante, que fica na Praça do Amor, no centro de Paraíba, era o mais orgulhoso dos proprietários de um título a verde que é o orgulho da família.
Gleicivan, o filho de José Ribaba, que comprou o restaurante em 2005, acabou de o renovar e fazer dele um dos melhores lugares para comer no centro da cidade. Ficava bem aqui um pequeno apontamento sobre as qualidades gastronómicas do Mirante e um pouco da história de vida do proprietário que é um homem que trabalhou muitos anos no duro para ter uma vida decente. Mas o espaço é curto e escrevo esta crónica quase na hora de me meter num avião de regresso a Lisboa, para depois ir trabalhar para Santarém, ainda a tempo de, no outro dia, ir apanhar umas laranjas ao campo da Chamusca. JAE.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A luta pelo financiamento dos Media e a crise no jornalismo

Os novos projectos de comunicação social não precisam de gráficas, nem de negociarem o preço do papel, dos CTT, distribuidoras, e muito menos dos postos de venda. Mas os patrões querem resolver a crise pedindo ao Governo apoio para assinaturas e redução do IVA. Está tudo parado no tempo a ver a banda passar.


O associativismo empresarial ligado aos Media anda pela hora da morte. Numa altura em que os jornais perdem todos os anos 10% de circulação, os CTT têm os preços mais altos da Europa, as gráficas estão falidas e a distribuição já só tem uma empresa no mercado que é a VASP (só no ano passado a distribuição baixou cerca de 13% no conjunto de todas as publicações vendidas em banca).
Contra a crise os patrões propõem ao Governo a compra de pacotes de assinaturas para as escolas, vantagens no IVA, apoio no combate à iliteracia, enfim, uma série de reivindicações que já vêm de tempos antigos. E ainda bem, porque estas medidas não resolvem nada. Sem a publicidade do Turismo e de outras entidades do Estado, e sem o apoio às empresas de comunicação social a exemplo do apoio às empresas de outras áreas da cultura, é mais do que evidente que não vamos a lado nenhum. Se os jornalistas e empresários do sector não sabem que a classe política quer é câmaras de televisão atrás das suas comitivas, mais os jornalistas da LUSA e da RDP/ RTP que, mal ou bem, lhes fazem o serviço mínimo, quem é que vai conseguir compreender este mundo em mudança que vivemos todos os dias?
O jornal “Observador” é um bom exemplo da caducidade das propostas dos patrões dos Media: chegou ao mercado e venceu; com apoios de investidores ricos, é verdade, mas com a vantagem de não precisar das empresas da distribuição, de ensacamento, de plastificação, de endereçamento, das gráficas e dos CTT, que são o grande calcanhar de Aquiles da denominada imprensa tradicional. Como muito bem recordava recentemente um estudioso do sector, Nobre-Correia, o El País lançou em Novembro de 2013 uma edição diária digital em português destinada ao Brasil. É só um exemplo que serve às mil maravilhas para exemplificar o nosso amadorismo até a pedir apoios ao Governo.
A maioria dos jornais e rádios de referência têm as suas redacções em Lisboa e Porto e organizam-se sem equipas comerciais, mesmo depois de as Agências de Meios terem secado a distribuição do bolo publicitário. A solução para todos eles é irem à procura de publicidade por esse país fora. O problema é que a grande maioria dos patrões querem gerir a crise sem mudarem de gestão e de mentalidade. Outro exemplo da crise no sector que não é financeira mas de regime: a grande maioria dos jornalistas passa o dia de trabalho em Lisboa e no Porto a canibalizarem as notícias uns aos outros, regra geral relacionadas com aquilo que se passa nos corredores do poder, mais o que vai soprando das fontes policiais e tribunais onde os grandes processos, como o caso Marquês e tantos outros, vão dando para encher chouriços todos os dias.
 Arlindo Consolado Marques, cidadão de Mação e Torres Novas, faz mais pelo rio Tejo que todos os funcionários dos organismos oficiais. Os seus textos no Facebook geraram a maior onda de indignação sobre a poluição recente no Rio Tejo e seus afluentes. Arlindo trabalha todos os dias na sua profissão e nas horas livres dedica-se a uma missão que põe em sentido qualquer jornalista sentado à secretária a escrever sobre a deputada Joacine, André Ventura e companhia Lda., alguns dos bobos de serviço. Arlindo é o exemplo de que muitos jornais e jornalistas estão a mais no mercado. Por muito que se critiquem as redes sociais há gente a trabalhar mais nas horas livres pela defesa do país e do seu património do que muitos jornalistas encartados. JAE

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Em defesa da Casa Memória de Camões em Constância


Em defesa da Casa de Camões, do trabalho ímpar de Manuela de Azevedo, e da inutilidade de certa gente que faz a gestão dos cargos e dos dinheiros públicos sem critérios e sem honra. E uma visita a José Saramago que depois do episódio do DN fez justiça à sua antiga companheira de redacção no Diário de Notícias.


A Casa Memória de Camões, em Constância, começou a ser notícia em O MIRANTE nos tempos mais recentes com a divulgação de uma comunicação que o actual director, António Matias Coelho, fez numa altura em que o espaço serviu para uma reunião do conselho geral da Nersant e para uma exposição documental da história da Fábrica do Caima. Daí para cá voltámos a falar com o responsável pela Casa Memória e a dar-lhe voz já que o espaço foi esquecido pelos poderes políticos e públicos.
Luís Vaz de Camões é a maior figura da cultura portuguesa, dá nome ao Dia de Portugal e não tem qualquer casa museu no território onde nasceu e foi enterrado em vala comum. Há meses andei por Florença e fui visitar a casa de Dante que é só um repositório de recordações da época em que viveu, mais umas esculturas de artistas dos nossos tempos e pouco mais. A casa foi adaptada para museu e fica situada na zona medieval da cidade. Reza a história que parte do edifício pertenceu à família do poeta que nasceu em 1265 e é considerado o pai da língua italiana.
Depois da visita, que me deu apenas o prazer da viagem no tempo, perguntei-me: se Lisboa despreza a memória de Camões por que é que o Estado português não apoia a Casa de Camões em Constância, onde já foi gasto muito dinheiro e o poeta viveu desterrado e escreveu alguma da sua lírica mais bela e memorável?
Quero crer que as razões não são problema do Estado português mas do estado em que vivemos. Os políticos de Constância e o conjunto dos autarcas da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo agradecem e são reconhecidos por aquilo que lhes cai no colo mas não têm colo suficiente para lutar por um projecto desta envergadura. Talvez tenham razão. Camões ainda hoje é difícil de ler e a sua história de vida é coisa que nem lembra ao diabo quanto mais a gente santa como aquela que os políticos contrataram para lhes tratar da papelada no Terreiro do Paço como é o caso do ex-presidente de Vila Nova da Barquinha, o burocrata Miguel Pombeiro.
Sei que é fácil criticar e mais fácil ainda dizer mal. Mas também é difícil ficar calado perante tamanha indiferença do poder político a um trabalho que demorou metade da vida de Manuela Azevedo que ao longo de dezenas de anos conseguiu a proeza de angariar financiamento para erguer sobre ruínas quinhentistas um edifício de cinco pisos que tem todas as condições para ser na Vila Poema a casa do maior poeta português que, a exemplo de Dante, foi responsável pela renovação da língua portuguesa e pela fixação de um duradouro cânone.
Manuela de Azevedo morreu aos 105 anos, foi a primeira jornalista profissional em Portugal. Dedicou toda a sua vida à cultura portuguesa. Ao contrário da maior parte dos intelectuais não lutou só pela sua obra. Foi à luta e conseguiu financiamento do Estado para a Casa de Camões que, a cada dia que passa, é um sonho que parece ter morrido com a mulher a quem José Saramago, um dia, em Constância, depois da representação da sua peça de teatro “Que Farei Com Este Livro”, que fala de Camões, cumprimentou, tirando da cabeça a sua boininha: «Muito obrigado, senhora dona Manuela, a senhora é melhor do que eu.» ( Retirado de uma entrevista ao DN). JAE.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Nomes de Guerra: Almada Negreiros, Nuno Rebocho e Arlindo Consolado Marques

Nomes de Guerra para dar corpo a um texto que fala da morte do jornalista e escritor Nuno Rebocho e de Arlindo Consolado Marques, o guardião do rio Tejo.


A actriz Maria do Céu Guerra contou há pouco tempo, num encontro de uma livraria Bertrand, que passou a noite a velar o corpo de Almada Negreiros com o jornalista António Valdemar contando peripécias da vida. Para quem conhece estas duas personagens não é difícil adivinhar o prazer da partilha a dois junto a um nome maior da literatura que na hora da morte só teve duas almas a alumiar a sua face na última noite sobre a terra.
Esta semana morreu Nuno Rebocho, jornalista, poeta e animador cultural, que ajudou muita gente a sentir-se feliz. Não sei sequer se teve velório, uma vez que perdi o contacto com ele e soube da sua morte no dia do funeral, por um amigo comum que, tal como eu, passou o dia a trabalhar numa redacção.
Li-o recentemente num texto onde falava da morte de Bento Vintém e de episódios passados em Santarém e tomei boa nota: ninguém vai contar por escrito, como ele gostava de contar, os episódios da vidinha política e literária que tanto o ligavam à vida. Nuno Rebocho não era um Almada Negreiros mas tinha Nome de Guerra (título de um livro famoso de Almada Negreiros), e fazia questão de o usar em todas as suas actividades, incluindo no jornalismo profissional, onde terá dado muitas dores de cabeça a quem o dirigia nas redacções, quando não era ele a mandar.
No dia, e perto da hora da morte de Nuno Rebocho, cerca das 11 da noite, outro tipo com Nome de Guerra, Arlindo Consolado Marques, meteu-se mais uma vez ao caminho até à beira do rio Tejo para denunciar que no espaço de quatro horas o leito do rio passou de seco a um nível considerado muito elevado. E com a militância habitual faz perguntas a que ninguém responde e pede aos seus seguidores para partilharem o vídeo. Como não tem material para fazer boas imagens, só ouvimos a água a correr e a voz dele a assumir-se “maluco”, debaixo de chuva, protegido por um gorro na cabeça, falando de “vergonha” e de “malandros” e perguntando quem controla os caudais do rio, uma vez que às 18 horas o leito do Tejo estava seco e às 22 horas tinha um imenso caudal. No dia seguinte, a meio da tarde, lá estava ele outra vez com as imagens da “neve branca” rio abaixo, sinal de que isto está tudo ligado. Só que agora, e desde há muito tempo, há um maluco assumido que não dorme para fazer aquilo que o Ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, não é capaz de fazer, e muito menos as autoridades que dependem do seu Ministério.
Quem se der ao trabalho de visitar o Facebook de Arlindo Consolado Marques pode verificar que ele até se aproveita da luz da lua para tentar iluminar o leito do rio e fazer passar a sua mensagem e o resultado do seu trabalho de guardião do Tejo; um pouco ao jeito de Almada Negreiros e Nuno Rebocho, que usavam as metáforas para construírem a sua obra literária, únicas nos seus valores originais na literatura portuguesa. JAE
Nota. Quem achar as comparações demasiado exagerados que leve em conta a minha amizade pelo Nuno Rebocho com quem partilhei, na Cidade Velha de Santiago, em Cabo Verde, refeições de cachupa numa esplanada de um largo onde se ouve o mar a bater na areia, cheio de algas e lixo, imprópria para banhos, como na mítica praia de Itapoã, em Salvador da Bahia, onde também por esses anos comi do melhor peixe frito do mundo mas só consegui tomar banho nas dunas, enquanto ouvia no telemóvel “Uma tarde em Itapoã”, com música de Toquinho e letra de Vinicius de Moraes .

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O Ribatejo e o Alentejo para começar o ano de olhos abertos e espírito construtivo

Não vivemos no melhor dos mundos mas acredito que podemos e devemos fazer muito mais e melhor nos nossos territórios ribatejanos.
Para isso precisamos de trabalhar mais e falar menos: como os nossos vizinhos alentejanos.


O ano que agora começa (2020) é tão redondinho nos números que deixa uma sensação de conforto e de esperança em dias melhores.
A região ribatejana só pode evoluir e melhorar. Temos concelhos já tão pobres e com tão pouca população que se não tivermos opinião e não suarmos as estopinhas algumas das nossas aldeias vão ficar como as da região transmontana: sem gente e com o casario em ruína.
Vamos acreditar que se perdermos população, o que parece inevitável, não perdemos cidadania; que não nos reformamos do nosso sentido crítico mas construtivo; que saberemos chamar os bois pelos nomes e não pactuaremos com os políticos e os dirigentes, sejam eles quais forem e a que classe pertençam, que não nos demitiremos de os criticar e elogiar quando merecerem.
É uma grande mentira a ideia que passamos de que nos faltam motivações para lutarmos por um futuro melhor. É verdade que não vivemos em estado de guerra; que não corremos o perigo de uma epidemia; que não falta trabalho para quem quer trabalhar; que o Estado funciona apesar de tudo; mas não é menos verdade que somos dos países mais atrasados do primeiro mundo; que temos um ex-primeiro ministro na praça pública acusado dos crimes mais vergonhosos, dos comportamentos mais arrogantes, alguns deles ridículos que até causam dó. Temos o maior banqueiro do país a tentar escapar da prisão e os gestores mais importantes e mais badalados dos últimos tempos a serem acusados de corrupção, com provas irrefutáveis, como é o caso de Zienal Bava, o menino bonito da imprensa portuguesa que foi considerado um exemplo como gestor.
Na região ribatejana temos o Tejo, o Alviela, o Nabão e o Almonda poluídos de forma indigna. Não temos uma Rua Augusta, que acaba num Terreiro do Paço, mas temos cidades como Tomar, Ourém, Abrantes, Torres Novas, Santarém, Almeirim e Vila Franca de Xira, que pedem meças em termos de património histórico. Tomar e Santarém podiam ser já este ano um caminho turístico obrigatório para os peregrinos de Fátima; a Rua Augusta e a Rua Garrett, Sintra e Cascais, não são definitivamente o melhor que os portugueses têm para mostrar aos turistas. As nossas aldeias, caso de Amiais de Cima, só para dar um exemplo, já têm unidades de turismo rural ao nível do melhor da Europa. Só falta fazer no Ribatejo aquilo que já se faz com muito êxito no Alentejo. E ainda há quem diga por aqui, de mão na cintura, como os toureiros, que os ribatejanos metem os alentejanos a um canto. Vamos a Évora e ficamos de boca aberta, já é uma cidade modelo, e daqui a muito poucos anos vai ser das mais badaladas do mundo, a confiar no modelo de crescimento que está a ter. É verdade que têm o maior lago da Europa mas nós temos o melhor rio do mundo. Quando vou a Évora sinto-me em casa, na minha terra, com uma diferença: tenho à mão de semear o melhor que encontro nas grandes cidades do mundo. JAE.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Acabar o ano a ouvir chorar as pedras da calçada

Os leitores que me perdoem este puxar de brasa à minha sardinha. Este texto é parte de uma comunicação em congresso de há muitos anos. Relendo-o agora acho-o mais actual do que na altura em que o escrevi. Não é um aviso à navegação mas é sem dúvida um olhar por mim abaixo.


Acabo o ano de 2019 como acabei os anos de mil novecentos e troca o passo: a ler os jornais atrasados e a recordar os assuntos que mais interessam. Cada vez mais são os assuntos internacionais: Descoberta de novos versos de Baudelaire; O poder de quem dirige um museu, Peter Handke, o Nobel da discórdia; a corrupção à volta dos dirigentes das comunidades autónomas de Espanha; a vida do Rui Pinto, o hacker mais famoso do mundo que tem o azar de ser português. Os telefonemas que valem milhões, o negócio do lixo e das armas, enfim, são meia dúzia de recortes que aproveito para iniciar este texto sobre o que é a vida de um jornalista viciado em trabalho, condição indispensável para se ser jornalista.
Foi por ter consciência do prazer deste trabalho, que não dá tréguas ao operário, que me formei jornalista. Li e aprendi com os melhores jornalistas, em congressos e em lançamentos de livros, e em todas as situações que soube aproveitar para dar mundo à minha cabeça pequenina. Como a grande maioria dos jornalistas da imprensa regional da minha geração também não tenho o diploma universitário.
Quanto mais o tempo passa mais percebo que esta luta de escrever, escrever, escrever e ter que dirigir equipas, é trabalho que nunca mais acaba. O mundo vai mudando e nós não damos por isso; se não enfiarmos os olhos no espelho estamos sempre a ver a nossa foto de infância e a ignorar a foto da velhice dos nossos pais e avós. O trabalho quando é feito com prazer rejuvenesce-nos todos os dias; é um lenitivo para nos levantarmos de manhã da cama de um salto prontos para os cem metros sabendo que podemos ter que fazer a maratona. Mas ninguém exerce a profissão de pedreiro sozinho quanto mais a de jornalista. E um pedreiro, para ter um bom servente, tem que beber uns copos com ele e de vez em quando fazerem uma patuscada, irem ao futebol, guardarem segredos íntimos, cheirarem os peidos um do outro em silêncio, enfim, fazerem aquilo que é próprio das estratégias de equipa.
O MIRANTE é um projecto de aldeia mas há muitas aldeias da região onde ainda não pusemos os pés porque ficam longe da casa do jornalista e ele, às vezes, acomoda-se aos assuntos de todos os dias e não lhe apetece fazer estrada e conhecer nova gente; O MIRANTE é um projecto para dar voz às populações mas há muita gente que acha que somos bois de trabalho e que adivinhamos as coisas para estarmos sempre no lugar certo à hora certa. Resumindo: é difícil manter profissionais motivados para fazerem jornalismo de proximidade e é difícil alimentar projectos de comunicação social que não dependam de “patos bravos”, políticos, empresários ou padres. Não é impossível, como temos provado, mas é preciso nunca esquecer a renovação dos profissionais da equipa, ou a formação mesmo dos melhores jornalistas, ter tomates para fazer mudanças, não aceitar desculpas esfarrapadas de quem não evolui e se acomoda fazendo do jornalismo uma profissão de lambe botas, ou de canastrões, que é o que acontece a muitos profissionais que aproveitam o facto de um buraco na estrada ser notícia para escreverem e porem a chorar as pedras da calçada. JAE.