quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Os papéis de fumar do Vergílio Alberto Vieira

Enquanto enrolava um cigarro lembrei-me dos “Papéis de fumar” de Vergílio Alberto Vieira, um grande poeta que, como todos os grandes escritores, escreve todos os dias para “não falhar ser”. 

O mercado do tabaco deixou de comercializar cigarros com filtro de mentol. Confesso que sou consumidor de dois cigarros por dia, certos dias, quando, depois do jantar, tento manter-me inspirado para adiantar trabalho para o dia seguinte. É um prazer que sei pouco recomendável mas garanto que me sabe pela vida. Com o fim do tabaco de mentol comecei a comprar filtros de mentol e a fazer o cigarro à unha. De um dia para o outro recuperei a memória do meu avô paterno a quem vi enrolar milhares de cigarros durante toda a minha infância e adolescência. O meu avô morava numa casa no fundo do meu quintal, e foi o homem que, à chaminé, me iniciou no mundo mágico da literatura, contando dezenas de vezes, sempre de forma diferente, a história do Touro Azul e do Menino da Mata e do seu cão piloto, entre outros contos infantis.

Um dia destes, enquanto fumava um cigarro mal enrolado, lembrei-me dos “Papéis de fumar”, uma antologia da poesia do meu amigo Vergílio Alberto Vieira, com quem almocei recentemente em Esposende para pormos a conversa em dia. Tenho mais de três dezenas de livros do Vergílio Alberto Vieira, todos com as dedicatórias que honram a nossa amizade, que não é muito antiga mas cimenta-se em anos de convívio, frequentando os mesmos lugares de tertúlia literária embora cada um no seu lugar.

Vergílio Alberto Vieira é um perfeccionista da palavra; um poeta culto, de culto também com os seus 70 anos, que escreve para ser lido sem a preocupação de ser compreendido por todos os seus leitores. A sua poesia atravessa o último meio século, desde “A margem do silêncio” de 1971, até “Todo o trabalho toda a pena”, que é a nova reunião da sua poesia, livro editado em 2016 pela “Crescente Branco”. É um autor que ao longo de meio século experimentou, sempre com êxito, a escrita diarística, teatro, romance,  poesia, literatura infantil, para além de ter escrito durante muitos anos crítica literária em vários jornais e revistas de referência. Os “Papéis de fumar”, que não tenho na minha biblioteca, e de que me lembrei agora a fumar um cigarro mal enrolado, são a prova da minha dedicação como leitor e amigo de confidências, que não excluem a má língua, e se fixam em memórias de experiências vividas em Terras do Demo, Amares, São Miguel de Ceide, Melo, São Martinho da Anta, Lisboa, Braga e Coimbra, entre tantos outros lugares, chão de poetas e romancistas cujas leituras marcaram e marcam a viagem da nossa vida que, no caso do Vergílio Alberto Vieira vai sempre desaguar na foz do Rio Cávado e, no meu caso, numa ribeira que nasce na charneca e vai desaguar no Tejo, na Chamusca, noutros tempos bem distantes o meu mar da Figueira da Foz.

O último livro de Vergílio Alberto Vieira é um diário; “Minha ex-mulher a solidão”, Editora Crescente Branco, 2020, de onde copiei este poema que é um dos mais belos que já li em língua portuguesa:

AS MÃES;
De as não terem já só os filhos sabem
Que céus invocam, quando a noite cai;
Na terra estreita em silêncio cabem
Perdida ‘strelas de que a luz se esvai.

P’lo olhar ausente a que infinitas abrem
Passagem a caminhos de quem vai
Hão-de voltar que, das mães, o maior bem
Foi ser homem da casa sem ser pai.


Se nada teve o que não teve amor,
E o amor foi tudo o que do mundo quis
Quem do mundo só teve desamor,
Que jamais seja arrancada pela raiz
 A árvore, que nasceu para ser dor.
E, nem abatida, deixou de ser feliz.

JAE.

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