sábado, 17 de novembro de 2018

José Saramago: um escritor de dimensão planetária que nasceu no Ribatejo

Vítor Guia não pode adiar mais a criação dos Caminhos de Saramago e José Veiga Maltez deve mostrar empenho na abertura diária do pólo da Fundação Saramago, na Azinhaga.


José Saramago morreu há mais de oito anos e no entanto está mais vivo do que nunca. Nas últimas semanas saíram para as livrarias quatro livros que testemunham a importância do seu legado e a excelência da sua Obra literária. “Cadernos de Lanzarote”, sexto e último volume, com textos de há 20 anos encontrados no seu computador por um estudioso da sua obra; “Rota de Vida”, uma biografia da autoria de Joaquim Vieira que é um autêntico tijolo (750 páginas), um livro que promete uma viagem à intimidade do autor de “Memorial do Convento”; “Por Saramago”, da jornalista Anabela Mota Ribeiro, um belo livro que reúne entrevistas e fotos da autoria de Estelle Valente; “Um país levantado em alegria”, de Ricardo Viel, que refaz o caminho da notícia do anúncio do Nobel, revelando episódios desconhecidos e dando a conhecer mensagens recebidas por José Saramago. O autor foi a pessoa a quem os jurados pediram ajuda para fazerem chegar a mensagem da atribuição do Nobel.
José Saramago é adorado em vários países do mundo; no Brasil e no México, só para citar duas grandes nações, há uma espécie de adoração pela figura e pela obra de José Saramago. Nada que se compare a Portugal onde os seus livros vendem, apesar de tudo, mas onde ainda hoje é vítima de inveja e desprezo que são, em grande parte, atribuídas à acção da Igreja que não gosta dos livros do escritor. A militância comunista também terá a sua parte.
José Saramago mudou-se de Lisboa para a Ilha de Lanzarote (Espanha) devido à censura que o Governo português resolveu fazer a um dos seus livros candidato a um prémio europeu. A figura inquisidora da altura era sub-secretário de Estado adjunto da pasta da Cultura. Um caso que vai ficar na História e que mostra de um lado o país progressista que nasceu com o 25 de Abril de 1974, e do outro o país salazarento representado por um indivíduo chamado Sousa Lara.
Vítor Guia, o presidente da Assembleia Municipal da Golegã, não pode perder tempo a criar o já anunciado projecto dos Caminhos de Saramago.
José Veiga Maltez, o presidente da Câmara da Golegã, deve acompanhar e incentivar a abertura diária do pólo da Fundação Saramago, na Azinhaga, para que o seu concelho beneficie, como merece, da dimensão planetária da figura do autor de “Jangada de Pedra”.
Uma última nota sem importância: José Saramago nasceu a 16 de Novembro data da fundação de O MIRANTE. JAE

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A lembrança de Alberto Dines; um jornalista que foi um exemplo

Dizer mal é muito mais fácil que dizer bem. Somos todos muito valentes a dizer mal de tudo e de todos mas falta-nos a coragem para escrevermos a dizer bem. Numa viagem recente encontrei pelo caminho a notícia da morte de Alberto Dines, uma figura famosa do jornalismo em língua portuguesa que conheço desde a fundação de O MIRANTE e que, ao longo destes últimos 30 anos, fui homenageando dando a ler centenas de vezes algumas páginas do livro “O papel do jornal e a profissão de Jornalista” que é a verdadeira Bíblia da nossa profissão. Está lá tudo aquilo que precisamos de saber para nos orientarmos. No dia em que descobri este livro cresci meio metro. E nunca mais larguei as sábias palavras de Alberto Dines que, para além de grande jornalista, foi uma figura marcante da cultura brasileira; deve-se a ele a escrita de uma das melhores biografias sobre Stefan Zweig ( Morte no Paraíso) , e à sua iniciativa a fundação em Petrópolis da casa museu do escritor austríaco, autor de “O mundo de ontem”, um relato autobiográfico de uma vida e de um mundo que devia ser leitura obrigatória em todas as escolas.
Alberto Dines morreu a 22 de Maio com 86 anos. Apesar de ter vivido em Portugal durante sete anos, a trabalhar como jornalista e pesquisador ( é da sua autoria o livro Vínculos do fogo – António José da Silva, o Judeu, e outras histórias da Inquisição em Portugal e no Brasil), a sua morte passou completamente despercebida em Portugal. Só um jornal noticiou a sua morte num obituário de meia dúzia de linhas.
Alberto Dines foi autor de mais de 15 livros, jornalista durante mais de meio século, professor universitário, fundador do Observatório de Imprensa, impulsionador do Provedor dos Leitores nos jornais brasileiros, director de várias publicações, uma figura ímpar no jornalismo brasileiro que lhe rendeu justa homenagem na hora da sua morte.
Apesar de considerar que alguns dos conselhos, publicados no livro “O papel do jornal”, valem apenas como peças de museu, ficam aqui meia dúzia deles que provam exactamente o contrário: “Se estão todos olhando para o céu, dê uma olhadinha para o chão. Certamente encontrará assuntos que os competidores estão descurando”. “Não se agarre a posições hierárquicas. O jornalismo é uma das poucas actividades em que a criatividade e a inquietação só fazem bem, sobretudo aos chefes”.” Participe mas alheie-se. Só assim você terá dimensão e isenção”.” A grande regalia de um jornalista é poder dispensar as regalias”. “ Para fazer bom jornal é preciso matéria para três. Jornalismo é depuração e síntese”.” Há um quociente de humildade necessária à profissão. A busca de poder, opulência e importância é antagónica ao espirito jornalístico”. “Os leigos em geral adorariam ser jornalistas. Desde que não precisassem sair à rua à procura de informação, escreve-la rapidamente, trabalhar à noite, aos domingos e feriados”. “Tudo o que é difícil de ser composto é difícil de ser lido”. ”Vale mais ser um repórter feliz o resto da vida que um executivo bem pago e infeliz”. “Se você quer uma boa referência para a edição de amanhã veja com atenção a que você publicou hoje” ( : ) JAE

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

A tradição de pedir bolinhos e estender a mão à caridade

Estender as mãos à caridade, ou a favor de alguém, abala a nossa vida para sempre desde que saibamos aprender a lição. Se não soubermos de nada vale a experiência e o sentimento da vergonha.


Esta edição de O MIRANTE sai a 1 de Novembro, dia de comemorar o “Pão por Deus” que eu revi (vi) recentemente na internet a fazer pesquisa para um artigo de reportagem.
Se eu disser aos adolescentes de hoje que andei a pedir bolinhos, porta a porta, no dia de pedir “Pão por Deus”, eles riem-se porque acham graça mas não sabem nem percebem o que está por detrás desta tradição e o que ela representa na vida de uma criança.
Na altura éramos (quase) todos pobres. E pedir era uma necessidade, também uma graça, derivada de um estado de espírito que nos tornava mais humanos.
Estender as mãos à caridade não é para todos. Há quem prefira morrer de fome, ou matar-se, ou enlouquecer, e assim não ter que dar contas das suas fraquezas (ou da sua força a menos). Estender as mãos à caridade, ou a favor de alguém, abala a nossa vida para sempre desde que saibamos aprender a lição. Se não soubermos de nada vale a experiência e o sentimento da vergonha; o que se aprende não deixa marcas.
Alguns dos meus melhores mestres foram aqueles que me humilharam; em criança e já em adulto. Sempre aprendi mais no infortúnio do que na sorte (embora seja um sortudo); Levei uma vida inteira a sublimar o que em criança todos os dias repetia a caminho de casa, rua do Vale acima, depois de ver a televisão no café do Checa ou na sede do Sporting: nunca hei-de ser humilhado como foram os meus avós e muitos Homens do seu tempo. Claro que fui; e ainda sou; mas todos os dias trabalho e luto para que seja cada vez menos.
Lembro-me de ir de porta em porta pedir mas também me lembro do tempo, ainda de criança, em que deixei de ter coragem para o fazer. Não me perguntem o que sentia; só sei que não achava mal mas que não era para mim. Se eu quisesse comer broas, romãs, nozes e figos tinha que os merecer. Não sei se era assim que eu me explicava a mim mesmo; mas é assim que guardo a lembrança de me ter recusado pela primeira vez a pedir bolinhos no Dia de Todos os Santos. Não me lembro quantos anos tinha mas tenho a certeza que ainda usava calções e andava descalço com orgulho de ter umas botas em casa que me magoavam os pés.
JAE

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Os Jardins Suspensos do Campo da Feira em Santarém e o CNEMA

Enquanto se discute o futuro do campo da feira, que não tem futuro à vista, a câmara negoceia com o CNEMA a compra de um terreno por muitos milhões de euros.


Não me admira que Santarém tenha realizado uma assembleia municipal para discutir o futuro do campo da feira. Não conheço classe política mais fraquinha que a de Santarém.
A cidade está afogada em problemas; o principal é a falta de pessoas, que gera uma pobreza franciscana na economia dos vários negócios de porta aberta; Só se discute
o futuro do Campo Emílio Infante da Câmara porque não há coragem política para se discutir o que verdadeiramente interessa à cidade e ao concelho.
Há uma década vi no papel um projecto para o campo da feira que era assim como uma espécie de Jardins Suspensos da Babilónia. Ri-me mas levei a coisa a sério; não há dinheiro para abrir os museus, para fazer obras de manutenção nos monumentos, para investir nas margens do Tejo e ligar o rio à cidade, para tirar os autocarros do centro, sequer para alindar os espaços nobres da urbe, mas toda a gente que tem responsabilidade política em Santarém não dorme a pensar no que fazer do Campo Emílio Infante da Câmara. É triste mas é verdade. Ricardo Gonçalves, o timoneiro da política escalabitana, tem razões para ficar preocupado, rodeado como está de tão fraca gente.
As últimas notícias dão conta que a câmara municipal anda a negociar com o CNEMA a compra de um terreno para construir um complexo desportivo. Eu não sou bruxo mas ou muito me engano ou a autarquia prepara-se para dar a sorte grande à administração do CNEMA, que gere ao jeito da ditadura do proletariado um espaço que devia ser da cidade e de todos os agentes. Tudo o que eles nunca fizeram pela cidade e pela região, tudo o que eles nunca investiram em nome da cidade e da região, vai ter um prémio; não havendo hipóteses de lhes darem o dinheiro de mão beijada, sem passar pela contabilidade organizada do município, a autarquia vai comprar-lhes um terreno por muitos milhões de euros. Como se a cidade não tivesse terrenos ao preço da uva mijona para fazer Obra e concretizar com êxito a sua política de investimento na cultura e no desporto.
JAE

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A Gazeta do Povo e o meu amigo Campos Valério

Nos últimos dias visitei uma das maiores empresas de comunicação social em língua portuguesa para perceber o que tinha mudado em duas décadas desde que a visitei pela primeira vez. Mudou tudo. O jornal deixou de se publicar diariamente no papel, sai ao domingo, e a aposta está toda no online. O sector comercial é uma sombra do que era há duas décadas. O retrato da empresa está irreconhecível comparado com o de há 20 anos. Saí da reunião com a Ana Amélia Filizola, na sede do Gazeta do Povo, em Curitiba, confirmando o que já sabia; tudo no Brasil ao nível da comunicação social é incomensuravelmente maior, e diferente, de Portugal. Por isso a lição, hoje como ontem, é sempre ao gosto do aluno.


Reencontrei mais uma vez o meu amigo António Campos Valério, um emigrante português em Curitiba há mais de sessenta anos. Tem uma história de vida que me comove. Voltamos a almoçar em família. O restaurante era perto de um antigo barracão onde há mais de meio século se alojavam os emigrantes portugueses em Curitiba. Ele não. O pai era construtor civil e tinha casa própria. Foi graças aos conhecimentos do pai que aos 16 anos entrou para uma empresa de automóveis só para fazer recados.
Poucos anos depois era vendedor e chefe de vendas. Há mais de vinte anos levou-me a dar uma volta ao mundo pelo Estado do Paraná e pelas cidades onde geria delegações da empresa. O fim da viagem foi em Foz de Iguaçu onde a luz do dia é azul devido à energia/magia das águas das cataratas.
António Campos Valério viu crescer Curitiba dos 160 mil habitantes para os dois milhões. Conversar com ele é abrir o livro da vida. É um homem de família, generoso, sábio, profundamente crente nos valores da amizade e da solidariedade. Jamais voltaria a viver em Portugal mas ama a terra e todos os dias sabe pela televisão o suficiente para matar saudades. Quase todos os anos atravessa o Atlântico mas, de costas ou de barriga, regressa sempre ao Mirante da Serra, em Curitiba, o bairro onde construiu a sua casa e onde criou as cinco filhas.
JAE

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O médico Lopes Dias não falava de política, mas tinha opinião sobre as pessoas que faziam política

A morte do médico Henrique Lopes Dias, da Golegã, apanhou-me a ler um livro de memórias que fala da terra mãe, da respiração dos sentimentos do berço, da contemplação das diferentes nuvens em céus diversos do mundo que, no entanto, nos transportam sempre para a terra natal das palavras que dizemos e escrevemos, que guardam o nosso local de nascimento.
A Golegã podia ser a minha terra. Os lugares, os caminhos e as pessoas fazem parte importante do meu imaginário. Lopes Dias foi o médico da minha família até muito depois de se reformar. À noite, quase sempre depois do jantar, o seu consultório era o meu banco de urgências, para mim e para toda a família. Por causa de um internamento de um familiar no Hospital da Golegã atravessei o Dique dos Vinte no auge da maior cheia de sempre, no ano em que cedeu com a força da água. Tenho memória disso em casa porque o Francisco Cid estava lá com a máquina fotográfica.
Apesar de ser especialista em ouvidos, nariz e garganta, Lopes Dias fazia clínica geral. Não era um homem de muita conversa mas era afectuoso. Trabalhava todos os dias. Lembro-me de falar com ele sobre o stress do trabalho e ele confessar que fazia o que gostava. Por isso, dava consultas à noite depois de um dia normal de trabalho. Muitas vezes, eu era o único doente. Saltava da sala de televisão para o consultório só para me atender. Nessas alturas dialogava mais. Púnhamos a conversa em dia. Ele não falava de política, mas falava das pessoas da política. Guardo dele uma voz amiga e solidária, nas horas em que mais precisamos de alguém que nos faça esquecer que “viver é irreparável”, e que “é terrível ter o destino da onda anónima morta na praia. A citação literária vem a propósito, porque falávamos muito de literatura e de Miguel Torga em particular.
No mundo não há nada mais importante do que os médicos e os farmacêuticos das pequenas cidades (inspirado num verso de Mário Quintana e a recordar-me também da morte de Joaquim Cabeça, Joaquim Machado (farmacêuticos) e Armando Cumbre e Artur Barbosa (médicos)). 
JAE

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Os empresários são os mágicos da economia

O MIRANTE voltou a entregar prémios às empresas da região. Ocasião para recordar que também há empresários à força que procuram apenas o lucro e que o melhor do nosso excelentíssimo território é a auto-estrada.

O MIRANTE entrega todos os anos os prémios Galardão Empresa do Ano em conjunto com a NERSANT que escolhemos como parceiro para esta iniciativa.
Não é por acaso que nos ligamos às empresas e tivemos a ideia do prémio. Os empresários são os mágicos da nossa economia. Sem eles não teríamos território; e se tivéssemos era para ver passar os carros e os comboios (de barcos já nem vale a pena falar).
Tenho admiração por alguns empresários da região que já nomeei algumas vezes nos meus textos e que tenciono voltar a nomear. Acho muito mais fácil governar uma região com empresários do que com políticos. Mas precisamos das duas actividades; e que todos os protagonistas sejam gente boa, com estatuto, Homens de palavra e de solidariedade.
A nossa região é um bom exemplo de empreendedorismo. Mas é bom que não esqueçamos que há muitos empresários à força, nascidos de um certo oportunismo de mercado, empresários que querem ficar ricos rapidamente, que não têm qualquer consideração pelo tecido social da terra onde têm as empresas.
Gente que ganha muito dinheiro a gerir as empresas da região mas que não sabe nada da nossa geografia nem do tecido social; que ignora o território para mais tranquilamente poder poluir os rios, e as terras férteis do bairro, do campo e da charneca; gente que vive em Cascais ou no Estoril e dá graças a Deus por termos uma excelente auto-estrada num excelentíssimo território.
E ainda temos os empresários falhados, que só são empresários para darem cabo da vida deles e dos outros; que vão para a insolvência como quem vai dar um mergulho na piscina.
O MIRANTE não tem, nem nunca teve, um posicionamento negativo quanto ao papel dos empresários e à sua importância no desenvolvimento do país e da região. Por isso temos um caderno de economia dentro da edição; e publicamos todas as semanas dezenas de notícias sobre os nossos empresários e as nossas empresas.
É com eles, com a maioria deles, que queremos continuar a mostrar trabalho e também, nem que seja uma vez por ano, a entregar prémios.
JAE

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

O centro histórico de Santarém é dos violadores?

A formação dos magistrados não inclui lições sobre civilização e vida na terra? A segurança, a honra e a dignidade das pessoas podem ser violadas como as dos animais pelos caçadores furtivos ou em época de caça?

Esta semana recebi vários recados e sugestões para não nos esquecermos de actualizar as notícias sobre as tentativas de violação no centro histórico de Santarém.
Como é evidente a cidade não fala de outra coisa; mesmo passado tanto tempo.
A violação é um dos crimes mais temido e capaz de gerar um alarme social parecido ou igual ao clima de guerra civil. As pessoas mais fragilizadas deixam de sair de casa; outras vivem o drama permanentemente e com isso adoecem e ficam mais dependentes dos seus familiares. Ninguém merece viver num país que tem um Governo e uma Justiça que não nos protege dos assaltantes e dos assassinos.
O caso de Santarém, que O MIRANTE actualiza nesta edição (ver página 8), é menos dramático que o caso, também recente, de Pombal, onde a polícia desmantelou um gangue que se dedicava a roubar e martirizar até à morte gente idosa e indefesa; trabalho de sapa dos polícias que o Tribunal desvalorizou ouvindo e soltando logo a seguir os presumíveis criminosos.
Todos sabemos que em Portugal não há prisões para tanto gatuno; mas também já não há para quem rouba e agride até à morte ou quase até à morte? Os juízes dos tribunais que não prendem esta gente bárbara não têm coração? Nem família? A formação dos magistrados não inclui lições sobre civilização e vida na terra? A segurança, a honra e a dignidade das pessoas podem ser violadas como as dos animais pelos caçadores furtivos ou em época de caça?
Vamos todos esperar que as tentativas de violação no centro histórico de Santarém não se repitam a breve prazo e com os mesmos personagens. É assim que a coisa funciona regra geral. Os criminosos prevaricam, a polícia apanha-os, o tribunal solta-os. Até que os criminosos voltem ao local do crime e tudo se repita.
 JAE

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O crime que nunca existiu

Uma crónica roubada das páginas do livro “O Processo - tentativas de condicionamento da informação em Portugal”, da autoria do jornalista Orlando Raimundo, que conta como começou e acabou uma tentativa de calar a informação sobre as avenças do advogado José de Oliveira Domingos assinadas no tempo de Rui Barreiro. Um livro com lançamento público marcado para 19 de Setembro.

No primeiro trimestre de 2010, o advogado de Santarém, José Oliveira Domingos, apresentou ao Ministério Público uma queixa-crime contra O MIRANTE, acusando-o de abuso da liberdade de imprensa. Em concreto, o cidadão, à partida tão respeitável como qualquer outro, dizia-se muitíssimo ofendido pelo jornal, por este ter dado dele, enquanto pessoa e homem de leis, a imagem de uma criatura ambiciosa e sem escrúpulos, capaz dos maiores atropelos para conseguir os seus objectivos. Nada disto era dito ou estava escrito no jornal, entenda-se. «Dar a imagem» não significava que em algum momento os jornalistas o tivessem comparado à controversa figura de Nicolau Maquiavel. O que tinha, afinal, acontecido? O MIRANTE tinha-se limitado a noticiar, na edição de 6 de Janeiro de 2010, que Oliveira Domingos, enquanto advogado avençado da Câmara de Santarém, exigia o pagamento imediato de meio milhão de euros, pelo acompanhamento de seis processos judiciais, transitados da anterior presidência da autarquia.
O presidente em exercício, Moita Flores, que sucedera a Rui Barreiro, surpreendido e chocado com a exorbitante exigência, avaliava-a como não sendo sequer merecedora de resposta. E isso era escrito no jornal. Nada, na notícia, era imputável à opinião do jornalista que a redigira, que se limitara a relatar os factos. Na sequência da participação criminal, o Procurador do Ministério Público do Círculo de Santarém, António Artilheiro, que deveria ter-se limitado a defender a legalidade democrática e os interesses que a lei determina, tomou as dores do ofendido e deduziu a acusação.
O MIRANTE era processado porque, imagine-se, não tinha nada que se meter no assunto e muito menos que publicar notícias sobre os negócios do advogado.
É por demais evidente que a notícia estragara os planos de Oliveira Domingos. Se o assunto tivesse sido mantido em módulo sigiloso, negociado no silêncio dos gabinetes, de forma discreta, talvez ele tivesse conseguido o que queria. Sem correr o risco, o que era o mais importante, de o tema se tornar escandaloso e passar para as bocas do mundo. Ou não fosse o segredo a alma de todos os negócios. JAE

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A qualidade do ensino e as lideranças nos Politécnicos

Jorge Justino é daqueles dirigentes que não saem da toca, não sabem dar um grito nem um murro na mesa.

Os dois Politécnicos da região são imprescindíveis para a economia local. Tomar e Santarém perderiam muita e importante actividade económica se por alguma razão os Politécnicos falissem.
O actual panorama do ensino Politécnico não é o melhor, nem o mais recomendável, para que o seu futuro possa estar garantido a médio prazo. Embora existam várias realidades a ter em conta, conforme as instituições e os líderes, a generalidade debate-se com falta de alunos e com um ensino muito abaixo da média. Há muitas dúvidas sobre a qualidade do ensino e muitas certezas sobre a falta de liderança de algumas escolas.
O presidente do Politécnico de Leiria foi à cerimónia do dia da cidade defender para Leiria a criação de uma Universidade Técnica. Segundo ele, o Politécnico deve evoluir para Universidade até ao ano 2022. E pediu apoio à região para a criação de um ecossistema educativo de investigação e inovação que ajude a chegar a esse objectivo.
Ninguém vai preso em Portugal, por enquanto, por ser ambicioso e aproveitar as cerimónias públicas para dar conta do mérito da sua instituição, da excelência da sua gestão ou dos objectivos a que se propõe. O que se estranha é que os lideres não apareçam em público, convidados ou por iniciativa própria, a puxarem dos galões e a defenderem o seu trabalho e a importância das suas instituições.
Jorge Justino está de saída do Instituto Politécnico de Santarém e não vai deixar saudades. O Politécnico está cheio de problemas, dividido, tal como ele o encontrou, e não se lhe conhece em oito anos de gestão uma atitude, um discurso, uma medida que o faça ficar na memória quanto mais História. Jorge Justino é daqueles dirigentes que não saem da toca, não sabem dar um grito nem um murro na mesa. O que ele fez na presidência do Politécnico de Santarém foi exercer o poder, mas sem carisma, talvez com ambição mas sem coragem, talvez com um bom programa mas sem energia para o pôr em prática, eventualmente cheio de boas intenções mas sem corpo para dar o peito às balas, fugindo sempre às perguntas difíceis, escondendo o rosto nas alturas em que devia ter dado a cara. Alguém conhece Jorge Justino? JAE

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

As elites que temos e não temos

O aeródromo de Tancos continua abandonado e as reuniões urgentes pedidas ao Presidente da República e ao Governo caíram em saco roto.

Estamos em Agosto mas há assuntos que não podem esperar pelos leitores que estão de férias.
O roubo das armas de Tancos, que trouxe a Chamusca e a região ribatejana para as capas dos jornais e a abertura dos telejornais, não foi o suficiente para despertar as nossas elites para a luta pelo aeródromo de Tancos, uma infraestrutura em elevado estado de degradação que não serve os interesses militares nem civis.
Há cerca de três meses a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo deu sinal de vida num comunicado muito mal distribuído e muito pouco aproveitado pela comunicação social. A sensação que tive na altura foi que o texto era para inglês ver e não para ter qualquer efeito ou cumprir qualquer pretensão.
Dizia o texto que os autarcas do Médio Tejo pediram reuniões urgentes ao Presidente da República, ao primeiro-ministro e ao chefe de Estado-Maior da Força Aérea, para pedirem que reinvistam na pista da base área de Tancos e a rentabilizem como meio de valorização do interior e de coesão territorial.
Tudo o que é dito no comunicado é uma amostra daquilo que os autarcas e outros responsáveis mais próximos da base área de Monte Real vêm defendendo, com unhas e dentes, desde há muito tempo e com outras armas, incluindo artigos de opinião nos jornais, organização de fóruns de discussão, mobilização dos formadores de opinião incluindo agentes políticos com responsabilidades governativas.
A proximidade com Fátima, a centralidade da região, o turismo, o combate à desertificação do interior, a proximidade com as fronteiras da vizinha Espanha, são, entre outros, argumentos que tanto servem as reivindicações dos defensores de um aeroporto em Monte Real como em Tancos.
A diferença está nas elites. No caso de Monte Real a luta está quase ganha embora continue a ser diária e a mobilizar várias forças que trabalham no terreno e sabem lutar pelos seus interesses; no Médio Tejo, para já, é só conversa fiada e pedidos de reuniões. JAE

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Roubaram a loja mas não levaram os donos

Chega sempre o dia em que somos protagonistas das histórias que contamos. Tenho dúvidas sobre o interesse editorial desta crónica mas vou dar ao teclado.
Assaltaram a Loja da Fátima da Chamusca com requintes de malvadez como é habitual em roubos a ourivesarias. Levaram o que tinham para levar mas ainda deixaram muita coisa, nomeadamente os donos da loja que, à hora do assalto, dormiam que nem santinhos.
O assalto foi numa noite em que morreu muita gente e outra tanta percebeu que vai morrer a curto prazo, e deixa cá tudo.
Sempre que afinamos a garganta, ou a caneta, a gritar que é uma merda perdermos os efectivos da GNR ou da PSP, não sabemos, tal como quando cantamos em coro com os sinos da igreja, que estamos a cantar no nosso próprio funeral ou, no caso, a falar da nossa própria desgraça.
Mesmo que nos roubem os vasos à porta de casa já dá para estragar o sono de algumas noites. Se nos assaltam a casa e levam o computador, ou as jóias de família, nunca mais dormimos descansados. Só quando nos assaltam a loja tudo fica na mesma se se der o caso de não levarem os donos junto com a mercadoria. Como diz o outro, as feridas que não nos matam tornam-nos mais fortes; Isto não serve para toda a gente, como é evidente, pelo que vamos vendo e vivendo. Mas quando serve para nós queremos lá saber que os outros existem.
Já fui roubado muitas vezes ao longo da vida e de algumas vezes aprendi muito com os gatunos. Aprendi essencialmente a defender-me para não ser roubado mais vezes e da mesma maneira; no caso da Loja da Fátima não aprendi nada depois do último roubo.
Mas se tivesse aprendido aceitava com o coração no lugar o infortúnio de hoje, ou era um pobre de Cristo desde metade da minha vida agarrado ao dinheiro e aos valores materiais? Que se fodam os anéis desde que fiquem os dedos. Quando chegamos a uma certa idade começamos a comer muito menos e a viver com muito pouco, exactamente como as crianças que também já fomos. E essa é uma lição que ninguém nos ensina; nem os pais nem os padres: somos nós que ao longo da vida vamos aprendendo, ou não, que a sabedoria é uma borboleta e não uma ave de rapina. JAE

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O rapaz do Governo chamado Pedro Marques

O presidente da Câmara de Sintra, Basílio Horta, diz esta semana numa entrevista ao Expresso que o ministro Pedro Marques “é um rapaz muito esforçado e muito próximo das coisas”, para acrescentar que se ele não faz mais no seu ministério é porque não tem dinheiro.
A entrevista é sobre a bela Sintra, o concelho do país que mais cresce em Portugal desde há vários anos, e só se espanta com o à-vontade de Basílio Horta a tratar os ministros e os milhões do orçamento municipal por tu quem não conhece o ex-ministro que militou em quatro governos da República desde 25 de Abril de 1974.
A opinião sobre o rapaz que é ministro mostra o seu à-vontade na vida pública e política e a sua excelente forma na presidência da Câmara Municipal de Sintra.
Uma boa parte das pessoas que se instalam há anos no segundo concelho mais populoso do país demora de duas a quatro horas a sair e a regressar a casa ao fim de um dia de trabalho. A grande maioria desloca-se de automóvel e enfrenta filas de trânsito que nem os santos aguentariam. As casas custam o dobro ou o triplo do que custam a meia hora de Lisboa, por auto-estrada, e lá não há quintais, nem é possível criar galinhas ou ter uma barraca para o cão, quanto mais um espaço onde plantar umas flores ou uma árvore de fruto para as crianças sujarem as mãos de terra depois de regressarem da escola.
Enquanto na bela Sintra os prédios nascem como cogumelos e as pessoas se orgulham do novo apartamento, embora sem saberem ainda se o conseguem pagar, a pouco mais de meia hora de Lisboa, em Aveiras ou no Cartaxo, só para dar dois exemplos, as casas vão ficando em ruínas e o número de habitações à venda parece coisa de outro país. As casas degradadas e em risco de incêndio são às centenas. As lojas fecham a torto e a direito e os negócios não se aguentam por falta de clientes. É uma pescadinha de rabo na boca que nos deixa perplexos, e sem boca para abrir, porque se os exemplos não vêm de cima quem somos nós para nos substituirmos aos políticos colegas de Basílio Horta?
Deixamos de lado Santarém e o seu centro histórico entregue aos profissionais das autarquias que continuam a mandar mais que os políticos; esqueçamos os engenheiros e os arquitectos das câmaras, que são verdadeiros líderes na arte de complicar, para o que contam com as muitas agências tuteladas pelo Estado e pelos igualmente burocratas deste país que mandam mais nisto tudo que os banqueiros e os donos das empresas de distribuição. Fixemo-nos no essencial que é o casario das nossas cidades e aldeias e perguntemo-nos: como é possível que a pouco mais de meia hora de Lisboa sejamos aldeias em ruínas, tenhamos centros históricos ao abandono e estejamos entregues a rapazes? JAE

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A minha terra está entregue à malta. Não há um projecto em candidatura para criar qualidade de vida, atrair pessoas ou segurar as poucas que ainda se vão mantendo. O grande projecto do executivo socialista da Chamusca para os próximos anos é um denominado Parque dos Amores Impossíveis, obra para a pequena aldeia do Arrepiado onde vivem cerca de duas centenas de pessoas. É literalmente uma obra que não tem em conta uma política de desenvolvimento social de uma terra pobre e sem recursos. O nome diz tudo: o concelho da Chamusca é um caso de amores impossíveis entre pessoas mas também entre os interesses maiores da população e de quem a governa. Quando a dupla que governa a Câmara da Chamusca (Paulo Queimado e Cláudia Moreira) for responsabilizada pela falta de jeitinho para governarem o concelho, nos intervalos em que se passeiam de charrete, viajam para Espanha e coçam a micose, já vai ser tarde; o Padre Borga já terá rezado mais umas centenas de missas em funerais, a Terra Branca passará a denominar-se Terra Queimada, e os chamusquenses ficarão conhecidos no mundo pelo investimento cultural, único e exemplar, à volta do Castelo de Almourol. Merecíamos muito melhor.

Na casa dos meus pais guardou-se durante muitos e muitos anos uma garrafa de vinho do Porto oferecida por uma pessoa amiga. Era para ser aberta numa ocasião muito especial. Como nenhuma ocasião foi suficientemente boa durante tantos anos a garrafa de vinho perdeu-se pelo caminho.
Esta história ainda hoje me serve de exemplo para não deixar fugir o momento, para não perder o chão quando faço o caminho. É muito fácil encontrar histórias inusitadas como esta na literatura ou no cinema; mas são as da vida real que nos marcam a pele. Recordo a propósito uma frase que tenho guardada desde a altura em que nem acreditava no que lia: “a beleza é ser-se simples e recto, ter vinte anos e amar”.

Estou em casa, a um domingo, arrumando os papéis e os livros de muitos anos de preguiça: mas sempre desejoso de me dar a veneta e marcar uma nova viagem. Por enquanto fico no remanso da vila, que parece cada vez mais uma aldeia, entre a charneca e a lezíria, recordando o tempo, passado e presente, em que os olhos dos meus filhos eram o álbum da família. “O lugar onde vivemos deixa de ter muita importância a partir da altura em que transportamos o universo na bagagem” (Marguerite Yourcenar).
Tenho um projecto de trabalho, a que vou dando corda cada vez que me sento a arrumar papéis e livros. Quero fazer uma viagem pela região. Conhecer ainda mais pessoas e lugares. Viajar no meu próprio território. Já comprei a passagem e tenho o roteiro gravado na testa. Não marquei encontros para poder encontrar de verdade; não disse ainda a ninguém o que vou fazer para poder fazer à medida dos desafios que encontrar pelo caminho.
JAE

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Última página: O nosso interior de Abrantes a Santarém

Há um problema grave com o passa-peixe no açude de Abrantes mais ou menos parecido com o da praia fluvial de Santarém

Um dos maiores dramas da nossa democracia é o abandono do interior do país. O caso recente do aumento das vagas nos Politécnicos é uma medida sem nexo que em nada vai alterar as assimetrias que se agravam a cada ano.Trazer mais jovens para os concelhos desertificados, ou em processo de desertificação, exige medidas que não sejam servidas avulso. Qual é o papel dos autarcas na política de descentralização para os seus próprios concelhos? Onde é que está o Governo do país a impor ou a propor políticas conjuntas entre autarcas e associações de municípios? Que vozes do interior é que se fazem ouvir na Assembleia da República na defesa dessas estratégias que envolvam os autarcas das várias forças políticas? Quantos deputados da região é que têm para apresentar textos ou vídeos de intervenções a chamarem os bois pelos nomes apontando o dedo também aos camaradas ineptos politicamente e confortavelmente sentados nas cadeiras do poder? Quantos Senadores da política nacional e local é que são capazes de aparecerem num debate na televisão, ou nos jornais, a empertigarem-se contra a demagogia dos governos e dos governantes preguiçosos e acomodados? Vê-se a força das concelhias locais dos partidos na luta pelo fecho dos balcões dos bancos e dos correios? É só isto que sabemos fazer diariamente pelo interesses dos concelhos e da região em que vivemos?
Podemos dar-nos ao luxo de organizar debates sobre o problema da interioridade, como aconteceu recentemente em Abrantes, com os principais intervenientes a discursarem à pressa porque tinham as agendas cheias? Que gente é esta que gosta de molhar o pão na sopa mas foge a sete pés da conversa responsável à mesa e em família alargada? Os melhores autarcas do Médio Tejo ainda dizem à socapa que o melhor de Abrantes é o caminho para Coimbra? E os da Lezíria do Tejo que o melhor do território são as estradas para Lisboa? Se não dizem ainda pensam e é como se o dissessem para todos nós que damos o escalpe pelo nosso território?
Há um problema grave com o passa-peixe no açude de Abrantes mais ou menos parecido com o da praia fluvial de Santarém que foi por água abaixo. Não falo das responsabilidades políticas e criminais que deveriam ser assacadas a quem de direito; falo da incapacidade para resolverem os problemas; da falta de vergonha para nos andarem a apertar todos os dias com abraços de urso. Mação vai conseguir justiça do Governo no apoio à calamidade dos incêndios se os autarcas da região não forem solidários e não marcharem (de fato e gravata, claro) para a Assembleia da República ou para o Terreiro do Paço?
“A Revolução é um momento. O revolucionário todos os momentos”. Alguém quer saber, hoje, do espírito da revolução dos cravos que fez de nós, por alguns anos, o povo mais feliz do mundo? Ainda há gente por aqui que acredita no seu interior? JAE

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Abaixo as touradas. Vivam as touradas.

A corrida de O MIRANTE no Campo Pequeno foi um espectáculo que deu gosto ver. Confesso a minha paixão pela festa brava que é mais devida à emoção que à razão. O facto de ter militado durante um tempo nos forcados, ainda que curto, deixou marcas. Na última quinta-feira, com a realização de algumas pegas, entre elas a dos dois forcados do Grupo da Chamusca (Bernardo Borges e Francisco Borges), que silenciaram a praça, percebi melhor as razões que levam, em certos casos, as minhas emoções a sobreporem-se às minhas razões.
Os forcados, que são os parentes pobres da festa, valeram o dinheiro do bilhete. O ganadeiro Joaquim Alves de Andrade, que já tinha assumido em entrevista a O MIRANTE que não é só criador de bois, foi ao centro da praça duas vezes, o que diz bem da qualidade do curro de touros que levou para Lisboa.
O público, como por magia, de vez em quando começava a bater palmas, de forma cadenciada e quase musical, a puxar pelos artistas, como se fizesse parte de uma plateia paga para animar o espectáculo. Nem parecia que estávamos numa corrida de toiros em Portugal. Até o tempo da corrida foi quase perfeito. E os toureiros que não brilharam também não foram receber as flores e os aplausos a favor.
A noite de quinta-feira, 19 de Julho, parecia uma noite como outra qualquer, mas no Campo Pequeno os homens da festa brava, artistas e organização, contribuíam para o futuro do espectáculo como há muito tempo não éramos testemunhas.
Não sei se este exemplo é para continuar ou se serve de alguma coisa para a preservação em Portugal dos espectáculos taurinos e das muitas tradições associadas à tauromaquia. Acredito que sim. Por isso escrevo e dou conta das emoções independentemente das razões.
Uma última nota para os militantes anti-taurinos que se concentram habitualmente a poucos metros da praça do Campo Pequeno em dia de espectáculos. Na noite de quinta-feira fui junto do grupo e sentei-me por perto a fazer número enquanto eles e elas dançavam e se divertiam exibindo pequenos cartazes na mão. Tudo muito civilizado, ao contrário de tempos ainda muito recentes em que berravam e faziam figuras que não se ajustam a pessoas que se consideram intelectualmente evoluídas, quanto mais civilizadas. Deixo aqui o meu apreço pela luta dos que defendem as suas emoções independentemente das razões. Eu também acho que as corridas de toiros podem ser melhor regulamentadas. Falo do regulamento que proíba a interdição do espectáculo a crianças até uma certa idade, a extinção das bandarilhas com arpões e, para ser sucinto, a contratação de veterinários que não sejam afectos à organização para que assegurem uma embola sem corrente eléctrica e outras barbaridades que, em muitas praças, ainda são facilmente praticáveis sem a justa condenação. JAE

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Os jornais que ficam pelo caminho e o Hospital de Santarém

O nosso tempo de vida nunca devia ultrapassar o tempo de muita saúde, física e mental. Nunca deveríamos viver para além dos nossos limites físicos e intelectuais. Andar por aí em hospitais, centros de saúde e lares de idosos é pior que ser crucificado. Quem não acredita que espere para ver. Cristo foi um sortudo: morreu na cruz cheio de fé e não na cama de um hospital ou de um lar de idosos, vítima de uma bactéria hospitalar ou de um medicamento receitado por engano ou erro no diagnóstico. Por mim não tenho dúvidas que vale mais morrer cheio de chagas, lutando por um ideal, que num hospital vítima de uma bactéria, de um erro médico ou da falência dos órgãos vitais.
O que se passa actualmente no Hospital de Santarém, e tem vindo a ser notícia em O MIRANTE, só é possível porque a sua administração foi  incompetente para lutar pelos interesses da instituição e dos doentes. Saúdam-se os membros da nova administração e espera-se uma nova postura na relação com as forças vivas da região. Está na cara que a falta de solução política para o Hospital de Santarém só é possível por falta de uma voz forte que nos proteja e defenda dos chacais da política que nos tratam como números.

Anda por aí um frenesim de angústias por causa da crise dos jornais em papel. Os tempos são de mudanças e quem sempre viveu à sombra da bananeira certamente que vai ficar pelo caminho, caindo hoje aqui, amanhã acolá, até ao dia do trambolhão final.
A imprensa nacional, local e regional, caiu a pique na última década. Vai ser caso de estudo daqui a muitos anos quando estiver completa esta fase de conflito entre o digital e o papel. Os leitores que vão desprezando os jornais em papel fazem-no não pela ascensão das redes sociais mas pelo facto de já não haver no papel nada que os motive a comprar o jornal.
Não se pode enganar o mercado uma vida inteira. As empresas editoras, como todas as empresas importantes no mercado, têm que ter um modelo de negócio, o produto tem que ter qualidade, é preciso conhecer as preocupações e necessidades dos consumidores, não se pode continuar a massificar um produto sabendo que ele não interessa às massas mas sim a um público específico e devidamente referenciado.
Há duas décadas algumas notícias de O MIRANTE, importantes em certas comunidades, eram fotocopiadas e coladas nas árvores. Os padres falavam de certas notícias na missa respondendo às dúvidas dos paroquianos que não sabiam interpretar algumas informações. Só passaram alguns anos mas com o advento das redes sociais já tudo se discute e informa online. Parece que falamos de questões do tempo das cavernas mas de verdade falamos dos nossos tempos.
Prestar serviço público e lutar por um jornalismo de qualidade não depende só dos jornalistas; depende muito das equipas que lhes dão a responsabilidade de apresentarem trabalho que vá ao encontro das necessidades da audiência do jornal, que não sejam entrevistas, reportagens e notícias sem conteúdo critico, que vendam gato por lebre.
Esta discussão dá pano para mangas e segue dentro de momentos, aqui ou numa qualquer página das redes sociais. O jornalismo de verdade só nas Redacções onde trabalham bons e experientes profissionais. JAE

quinta-feira, 12 de julho de 2018

A Chamusca governada de chinelos

A sirene tocou recentemente na Chamusca porque havia mato a arder. Como o concelho da Chamusca está sinalizado pelas autoridades, caíram em Ulme, local do fogo, uma dezena de corporações. Durou pouco tempo e queimou uma área insignificante. Este Verão atípico é uma bênção para todos os portugueses. Acima de tudo para os bombeiros e para os proprietários florestais. O fogo começou à beira de uma estrada camarária que a autarquia não limpou como estava obrigada. 
A presidência da Câmara da Chamusca está entregue a um político do PS inábil e irresponsável. Entre os seus camaradas reina a maior contestação; alguns já o avisaram que não o querem mais nas reuniões com a vice-presidente ao lado. Outros ameaçam por ele nunca atender o telefone. A voz colectiva é que ele não sabe o que anda a fazer e comporta-se como a avestruz: mete a cabeça na areia para não ser confrontado com a dura realidade: o concelho da Chamusca não tem líder político e quando tem é para desfilar nas marchas, discursar nas festas e pouco mais.
Paulo Queimado é o personagem que há quase quatros anos, a um domingo, foi de chinelos e calções a uma homenagem ao saudoso e querido médico Artur Barbosa. E passou metade do seu discurso a justificar-se pelo que levava vestido. Na altura quase toda a gente se riu da desfaçatez. E desvalorizaram. Acharam que ele era um menino a dar os primeiros passos na vida pública e que ia ganhar estatuto. Não era nem é nos dias de hoje. Na data da homenagem a Artur Barbosa, Paulo Queimado já tinha anos de trabalho como presidente de câmara, e muitos anos como vereador da oposição.
Politicamente ele é mesmo um tipo que faz a administração do concelho calçando chinelos; e a impressão que passa é que anda de calções todos os dias da semana de trabalho. 
A Terra Branca está entregue a dois socialistas, Paulo Queimado e Cláudia Moreira, que fazem da presidência da autarquia um festival de folclore 365 dias por ano, com bar aberto, muito fogo de artificio, entradas grátis e música sempre muito alta como na Ascensão. 
Por último: os poucos comerciantes da vila e das freguesias do concelho, que ainda são a alma do desenvolvimento local, fazem de apuro num ano tanto como há 20 anos faziam no mês do Natal. Se a autarquia não ganhar gestores que saibam captar investimento, que tenham cu para se sentarem nos gabinetes de Lisboa com os políticos do Governo que decidem para onde vai o dinheiro do Orçamento de Estado, estamos feitos ao bife.   JAE

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Um poeta que não acreditava na inspiração

(conversa com João Cabral de Melo Neto quatro dias antes da sua morte)

Foi a poeta Suzana Vargas que me levou a um palacete da praia do Flamengo onde vivia o poeta João Cabral de Melo Neto. Por mais incrível que possa parecer a porta estava no trinco, embora fossemos guiados já dentro de casa por uma empregada. Eu fiquei no salão à espera; a Suzana foi à procura do poeta por entre salas.
O que tínhamos previsto aconteceu; Marly Oliveira, a poeta e também mulher de JCML, não apareceu nem para nos cumprimentar nem mais tarde para se despedir: Susana, que a conhecia bem, já tinha avisado; ela gostava era que viéssemos cá a casa para a entrevistar.
Passaram quase vinte anos deste encontro; o que melhor guardo são as palavras iniciais de desânimo; a morte, que o visitou passados quatro dias, já andava por ali na luz dos seus olhos; mesmo assim o poeta fez revelações que me deixaram rendido; uma delas teve a ver com Miró. JCML contou que o visitava muitas vezes no seu atelier, em Barcelona, e que não conseguia falar com ele de poesia porque o pintor tinha muito pouco interesse pela literatura.
Da sua estadia em Portugal (Porto) como Cônsul Geral (1984-1987), pouco antes da sua reforma, o poeta tinha poucas recordações; o que nos contou foram acidentes de percurso; e não conseguimos roubar-lhe uma palavra elogiosa sobre amigos com quem tenha convivido ou relacionado na cidade Invicta.
JCML repetiu várias vezes que não acreditava na inspiração e que o verdadeiro artista tem que viver obsessivamente a sua Obra. No dia em que conversámos com ele, enterrado no sofá de um salão de época, o poeta queria falar sobre quase tudo menos de literatura; a cegueira, e "uma angústia que não tinha cura", juntamente com uma medicação muito forte era, para o autor de A Educação pela Pedra, "assim como uma bala enterrada no corpo".

Na passada terça-feira, dia 5, por volta das seis da tarde, subimos ao sétimo andar de um prédio situado na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, para visitar o poeta, João Cabral de Melo Neto. Apesar da saúde já muito frágil, o poeta, recebeu-nos com cordialidade e manteve uma conversa de quase uma hora para falar um pouco da sua vida, da sua obra e do drama de viver cego e com "uma angústia que não tinha cura". Quatro dias depois soubemos da sua morte pelos jornais. O autor de Morte e Vida Severina, A Educação pela Pedra e Museu de Tudo foi traído pelo coração aos 79 anos. A literatura de língua portuguesa perdeu um dos seus maiores representantes, Prémio Camões e Rainha Sofia pelo conjunto da sua obra.
João Cabral de Melo Neto era um dos maiores poetas de língua portuguesa. Autor de uma obra que é considerada das mais representativas e originais do século, o seu nome foi várias vezes apontado como candidato ao Nobel da Literatura e, entre muitos prémios que ganhou, os de maior destaque foram o prémio Camões e Rainha Sofia para o conjunto da obra publicada.
Autor de Morte e Vida Severina, um auto de Natal escrito por encomenda que era considerado uma das suas obras mais importantes, embora o poeta dissesse que era "a coisa mais relaxada que já escrevi", João Cabral lançou a polémica no meio literário quando confessou que não acreditava na inspiração e que "gostaria de criar como um matemático, sempre a partir de elementos racionais".
Reconhecendo dever uma boa parte da sua aprendizagem da arte a Le Corbusier, um arquitecto famoso que era muito citado por amigos seus do mesmo oficio, quando as suas vidas decorriam com normalidade na cidade natal de Recife, João Cabral de Melo Neto confessava que aprendeu com ele "a fazer arte não com o mórbido mas com o são, não com o espontâneo mas com o construído". Diplomata de carreira, João Cabral viveu os últimos anos da sua vida profissional no Porto, onde deixou muitos amigos e leu Mensagem de Fernando Pessoa, a poesia de Sofia, Eugénio de Andrade e Herberto Helder, os poetas portugueses que mais apreciava. Sobre a poesia de Camões reconheceu que nunca aprendeu a admirar verdadeiramente o poeta porque "na escola ele era muito mal ensinado" e isso pesou para sempre na suas opções de leitura.
"O meu trabalho em Portugal nunca me deu muito tempo para conviver com escritores. As relações entre Brasil e Portugal sempre foram muito difíceis e isso deixou-me pouco tempo para conviver com os amigos", recordou, acentuando no entanto que o longo período de doença da sua primeira mulher também ajudou, pela negativa, a marcar esse tempo.
Depois de recordar bons e maus momentos da vida e da sua carreira literária, de explicar como "a escrita era um verdadeiro sofrimento, é muito melhor ler do que escrever", João Cabral confessou, numa voz que parecia apagar-se a cada palavra que pronunciava, que a sua vida de escritor tinha terminado. "Estou cego e não sou capaz de ditar. Para mim a forma visual do poema é muito importante", adiantou, depois de confessar também que não aceitava que lhe lessem livros porque lhe faltava a paciência e a angústia que sentia era mais forte do que tudo. "De resto não sinto nenhuma necessidade de escrever. Os medicamentos que tomo para a depressão tomam conta de mim. Para quem passou a vida lendo e escrevendo a situação é dramática mas eu tenho sabido habituar-me a esta realidade", disse.
Numa sala ampla de um sétimo andar de um apartamento da Praia do Flamengo, o poeta de A Educação pela pedra ia procurando manter acesa uma conversa de amigos, das poucas que tinha aceitado nos últimos tempos. "Telefonam muito a pedir entrevistas mas eu já não atendo ninguém. Também já não recebo muitas visitas. As pessoas procuram-me mas eu depressa as desincentivo ou mando alguém fazê-lo por mim. Quem eu mais recebo são escritores a pedirem o meu voto para a Academia", acabou por confessar com um sorriso, talvez o primeiro dessa tarde, que durou muito pouco tempo depois de confrontado com o recente apoio a Roberto Campos, um intelectual de direita que substituiu Dias Gomes, um escritor de esquerda falecido em acidente de viação, na cada vez mais desacreditada Academia Brasileira de Letras.
Das suas passagens por Espanha, onde exerceu a carreira de diplomata durante mais tempo e com maior sucesso, João Cabral recordou as relações de amizade com Miró e outros pintores famosos da época. Das relações com Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, dois dos mais famosos escritores seus contemporâneos, falou como de irmãos se tratassem, "embora nada exista para testemunhar a não ser a memória do que foi vivido. Eu não escrevia cartas a ninguém. Devo ter sido o único escritor que não recebeu uma carta de Bandeira", confessou, adiantando no entanto que as relações com Drummond foram muitos especiais porque "foi ele que me convenceu que eu também poderia ser poeta".
Para o autor de Uma faca só lâmina, Cão com plumas e A escola das facas, "uma pessoa para criar tem que saber viver com uma obsessão. Não importa qual, pode ser o amor de uma mulher, uma ideia política, na certeza de que assim o artista toma-se uma pessoa mais lúcida".
Foi com estas palavras repetidas de uma entrevista entretanto publicada num livro de António Carlos Secchin, um dos maiores estudiosos da obra cabralina, que João Cabral começou a pôr um ponto final na conversa da tarde da passada terça-feira, dia 5, no amplo salão da sua casa na Praia do Flamengo.
Momentos antes da porta do 701 se fechar, depois de uma última despedida, o poeta falou da morte e do consolo que sentia por ter aproveitado tão bem os seus quase oitenta anos de vida. Pelo que contam os jornais, o poeta morreu vitimado por um poema que lhe atingiu o coração.

Quaderna agradece a Joaquimm António Emídio
e ao jonal O Mirante a cedência de publicação.

Inn Quaderna literatura y arte