quinta-feira, 26 de novembro de 2020

As palavras dos outros: António Valdemar, Alberto Dines, Fernando Lemos, Ana Miranda e Baptista-Bastos

 Esta edição de O MIRANTE inclui uma entrevista que tem o meu dedo. Oportunidade para recordar que uma vida não chega para fazermos tudo o que gostamos e a profissão exige.

O MIRANTE publica nesta edição uma entrevista com o jornalista António Valdemar que tem o meu dedo. Foi fruto de um encontro para partilharmos livros e pormos a conversa em dia. Gosto da entrevista como género maior do jornalismo. Mas a vida não me deixa fazer só o que quero e, muitas vezes, só faço o que menos gosto. Quando a conversa com António Valdemar já ia adiantada, o jornalista perguntou-me: “o que você quer é uma entrevista não é?” E eu respondi com a cabeça já com a máquina fotográfica ligada, a tomar notas sempre que ouvia matéria de interesse. Por causa dessa mania de usar a caneta e o caderno enquanto converso, ouvi uma dúzia de vezes ao longo da tarde: “olhe para mim”, quando Valdemar queria dizer coisas importantes que achava que eu também tinha que ouvir com os olhos. Esta entrevista com António Valdemar fez-me voltar atrás no tempo quando falhei entrevistas com Alberto Dines, que morreu com 86 anos, e que é uma das figuras maiores do jornalismo em língua portuguesa. Tenho o mesmo sentimento em relação a Fernando Lemos, outra figura maior que desapareceu também recentemente com 93 anos, embora com esse tenha partilhado momentos que me deixaram de alma cheia. Alberto Dines deixou um legado no Brasil que não vai desaparecer tão depressa. Para além de ter sido o fundador do “Observatório de Imprensa” era um estudioso da obra de Stefan Zweig cuja casa museu ajudou a fundar, para além de ter escrito uma biografia que é uma obra monumental sobre a vida de uma personalidade fascinante da literatura mundial. O meu desencontro com ele foi só presencial; de resto fui um seguidor da sua obra e do seu exemplo como jornalista e como homem.

Fernando Lemos deixa um rasto inconfundível quando há mais de sessenta anos deixou Portugal para ir morar em São Paulo. O que começou por nos ligar foi a obra de Jorge de Sena, num congresso no Rio de Janeiro, onde fomos ambos conferencistas convidados, graças à Gilda Santos que era nossa amiga comum e uma das maiores divulgadoras da obra do autor de “Sinais de Fogo”.

Fernando Lemos tem uma obra também monumental ao nível da fotografia e das artes plásticas. Não há outro artista da sua geração, e há muitos e famosos, que tivesse deixado uma obra tão diversificada e valorosa. Como pessoa era um homem de uma afectividade e de uma bondade extraordinária.

António Valdemar é diferente destas duas figuras que me conquistaram a estima e o coração. São as tais diferenças que tornam tudo semelhante quando “há um espinho que as anima”, para citar Augusto dos Anjos em a “Última Quimera”, um dos melhores romances da escritora maior da nossa língua, chamada Ana Miranda.

António Valdemar tem uma ligação muito afectiva ao Ribatejo e a muitas personalidades ribatejanas, matéria que não entrou na conversa mas que um dia destes talvez consigamos actualizar noutro encontro.

Uma última nota para quem gosta de jornalistas e de jornais e dos segredos da profissão: Armando Baptista-Bastos foi, sem espinhas, um dos melhores jornalistas de sempre na arte da entrevista. Conheça a maioria das suas grandes entrevistas e alguns dos seus entrevistados que, ou o elogiavam ou lhe chamavam os piores nomes, sempre por causa do seu génio e da arte do seu trabalho. Esta conversa com António Valdemar não é uma peça à Baptista-Bastos nem nada que se pareça. Mas é fruto do mesmo prazer pela profissão e pelo gosto de dar a conhecer “As palavras dos outros”, um dos seus livros que reúne algumas das suas melhores entrevistas. JAE.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Raios partam aqueles que só estão bem com o mal dos outros

A história de O MIRANTE é a história de uma terra, de uma região e de um povo; com muitas e variadas leituras, com muitas e variadas cores, com grandes e extensas lacunas, omissões, erros, falhanços, mas também alegrias, missões impossíveis, lições de vida, serviço público e dever cumprido.

O MIRANTE comemorou 33 anos a 16 de Novembro; deve parecer uma eternidade para quem tem 18 anos; talvez um sopro do vento para quem já passou dos 70 ou dos 80 anos; para alguns de nós pode ser apenas um número se olharmos os anos que passam como simples elementos da nossa vida.

“Não podendo fundir totalmente a sua vida com a existência das coisas, o poeta cria um objecto em que as coisas lhe parecem transformadas em existência sua.

Não podendo fundir-se com o mar e com o vento, cria um poema onde as palavras são simultaneamente palavras, mar e vento.

A finalidade do poeta não é acrescentar objectos à natureza. O mundo não precisa nem de retratos que o repitam nem de ornamentos que o enfeitem.

O poema aparece porque é necessário à existência do poeta. É por isso que Rilke diz que o único julgamento duma obra de arte está na sua origem.

Nenhum sistema de filosofia, nenhum tratado de estética, pode ensinar a distinguir um poema verdadeiro dum falso poema. Sabemos da poesia que ela é uma necessidade mas que não é uma necessidade geral. Como necessidade, sabemos que ela é uma necessidade elementar e não uma necessidade secundária.

De facto, um homem que precisa de poesia precisa dela, não para ornamentar a sua vida, mas sim para viver. Precisa dela como precisa de comer ou de beber. Precisa dela como condição de vida, sem a qual tudo é apenas marginal e cinza morta”.

Recorro às palavras de Sophia de Mello Breyner, retiradas de um texto publicado em 1960, para marcar a crónica que coincide com a data de mais um aniversário do jornal.

Assim como um poema é noventa por cento de labor e dez por cento de inspiração, mais coisa menos coisa, uma ideia, um trabalho, ou lá o que fazemos todos os dias, o que nos liga ao mundo é sempre o selo da aliança com as coisas.

A história de O MIRANTE é a história de uma terra, de uma região e de um povo; com muitas e variadas leituras, com muitas e variadas cores, com grandes e extensas lacunas, omissões, erros, falhanços, mas também alegrias, missões impossíveis, lições de vida, serviço público e dever cumprido.

Nunca seremos mais do que aquilo que os leitores e os anunciantes quiserem que sejamos. Em 33 anos sempre acrescentamos valor ao valor; basta conferir a edição que temos na mão, uma das mais participadas de sempre a nível editorial e comercial.

Só os governos do país, e os apaniguados dos governantes que se escondem como ratos nos gabinetes de Lisboa, desconhecem que há uma força e uma urgência no interior do território que eles nunca conseguirão extinguir; nem vencer pelo boicote e pelo desprezo com que nos tratam. E é certo que um dia vão ter que ceder; é certo que um dia vão ter que ser mais justos para quem vive longe do Terreiro do Paço, da linha de Sintra, dos corredores do Poder, onde se distribuem as prebendas e quase todos são filhos de Deus; e os que não são depressa aprendem a viver debaixo das saias do Senhor.

Raios partam aqueles que só estão bem com o mal dos outros. JAE.