sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

De quantos amigos se faz um Museu, em Vila Franca de Xira, e na casa do André, no Rio de Janeiro?

Uma braçada de livros e um pretexto para falar de António Redol e André Seffrin.

Esta semana recebi uma braçada de livros que não encontraria nas livrarias por circularem um pouco à margem do circuito editorial; Livros patrocinados pela Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo; António Redol tem sempre o cuidado de não se esquecer de nós e partilhar os livros que a associação vai apoiando.

O filho do autor de Gaibéus é um cidadão exemplar no trabalho de divulgação da Obra do seu pai mas também dos escritores neorealistas. E não se fica pelo trabalho de divulgação; tudo o que herdou e vale muito dinheiro está entregue para o serviço público de um museu em Vila Franca de Xira.

O herdeiro do autor de “Uma Fenda na Muralha” tem uma conta só para os direitos de autor que vai recebendo; diz ele que nunca se serviu de um cêntimo da venda dos livros; tudo o que recebe dá de volta para a comunidade apoiando autores, iniciativas e associações.

As pinturas e os desenhos de gente famosa que estão em exposição no Museu, e que foram entregues recentemente à sua guarda, para um dia serem doados definitivamente, são o melhor exemplo da militância cultural da família do autor de “Avieiros”.

É gratificante ouvir falar de Alves Redol pela voz do seu filho; A criança em quem Alves Redol se inspirou para escrever “Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos” ainda é vivo e convidado para aparecer em escolas; Mas a sua história é pouco divulgada e na empresa onde trabalha só há pouco tempo é que souberam do seu passado em livro (O MIRANTE publicou uma entrevista com ele que se encontra facilmente com uma pesquisa na internet).

António Redol fala dos autores que a Associação Promotora edita com a paixão de alguém que dedica a sua vida a uma causa; Deve-se a ele uma boa parte desta teimosia em manter viva a associação; na cidade poucos sabem desta militância mas ela é fundamental para o Museu e a sua importância. Quem é que não sabe que nem tudo vem nos livros? Que é importante haver pessoas vivas que não se escondam nos seus castelos de cimento e nos seus corações empedernidos?

Tenho um amigo, André Seffrin, homem dos sete saberes, que é outro exemplo de dedicação à Obra de Walmir Ayala, de quem herdou a casa e os livros. Há muitos anos que sou testemunha da briga que é editar e apoiar edições para manter viva a lenda.

Enquanto trocava mais uma vez afectos e conhecimentos com António Redol, tudo por causa da admiração pela Obra do seu pai, recordava as últimas conversas com o André e o último projecto que combinamos para 2020. A vida literária, e o mundo dos livros, não é coisa para meninos; mas de vez em quando dá para continuar a perguntar como Pessoa: “Que voz vem no som das ondas que não é a voz do mar?” JAE.

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