O autor do manifesto "Contra a Poesia" não conheceu Fernando Pessoa nem o seu drama em vida. Se tivesse conhecido talvez não tivesse publicado este manifesto sem ter escrito, nem que fosse em rodapé, que Fernando Pessoa foi o único grande poeta moderno que escreveu uma Obra maior que a sua vida e a sua vaidade, e que fez questão de a deixar quase inteira numa arca, como se deixam as antiguidades aos herdeiros sabujos. "Pertenço a um género de Portugueses/Que depois de estar a Índia descoberta/Ficaram sem trabalho" ( : ). Eis Pessoa no seu melhor, num livro concebido como Obra de Arte, desde logo por ostentar uma capa em madeira, nada a fingir, trabalho bem feito que irá ter seguidores, certamente, e trabalho gráfico incomum na paginação de poemas e textos que nas palavras de Manuel S. Fonseca, o editor, "bebem absinto e vinho louro e tanto fumam ópio como deitam fora um cigarro meio fumado". Ao lermos textos tão importantes da Obra de Pessoa e dos seus heterónimos, em que "o poeta se funde fisicamente com as suas drogas" lembrámos-nos de Witold Gombrowicz e da sua critica à poesia moderna considerando-a como "extracto farmacêutico". Aparentemente não há nada que ligue estas duas realidades assim como as 51 fotos de Pedro Norton que ilustram o livro não têm qualquer ligação aos textos do poeta que preferia "pensar em fumar ópio a fumá-lo/e achava mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo..."No entanto as fotos falam com os poemas e dos poemas da mesma forma que Witold Gombrowicz assume logo no início do seu manifesto que "quase ninguém gosta de versos e o mundo dos versos é fictício e falso". Pedro Norton fotografa para dizer também que a fotografia é uma arte que precisa de ser reinventada. A sola do sapato em confronto com o movimento desfocado dos pés, o fundo branco da maioria das fotos e a quase ausência de rostos, fazem deste conjunto de fotografias um bom exercício para que outro Witold Gombrowicz venha dizer que já nada era como no tempo em que Gerard Castelo-Lopes ficava dez minutos a focar a sua objectiva antes de disparar a velha Kodak e nascer uma foto quase perfeita. O meu fotógrafo de arte de eleição é Fernando Lemos que, ao contrário de Fernando Pessoa, viajou para o outro lado do mundo e não ficou em Lisboa "a fumar a vida". Aliás, Fernando Lemos tem uma Obra gigante, mais na escultura e na pintura que na fotografia, feita a partir do Brasil para onde se mudou em 1953. Recordá-lo enquanto folheamos o livro e lemos Fernando Pessoa, e tentamos decifrar as fotos de Pedro Norton, é uma boa forma de homenagear Fernando Lemos que tem uma Obra ímpar que merecia mais divulgação em Portugal. Com estas fotos Pedro Norton estende a sua arte à nossa admiração, como nas suas fotos alguém estende o braço para espetar a seringa, ou cospe no lavatório, ou dá voltas na cama preso pelos cabelos. Todas as fotos são metáforas de um passado recente que lembram heranças esquecidas, desventuras, tormentos, solidão e pecado; "Um mundo de Absinto, ópio, tabaco e outros fumos" de que tratam os poemas de Pessoa e que, ao fim de várias leituras do livro, acabamos por achar que as fotos também falam e impõem a cada novo olhar. Há ainda algo de um cigarro meio fumado que se deita fora a meio do caminho, na forma como algumas fotos nos marcam a memória de uma religião que está presente na nossa vida desde a infância, e que nos acompanha pela vida fora, neste caso mais como forma de praticarmos o sacrilégio que a oração. As Flores do Mal são uma edição Guerra & Paz com uma tiragem de 1500 exemplares numerados em algarismos árabes e eu tenho o número 65 oferta de um amigo. Texto de Joaquim Emídio publicado na edição online de O MIRANTE, na secção Livros que São Vidas, disponível através do link: http://www.omirante.pt/index.asp?idEdicao=54&id=78484&idSeccao=560&Action=noticia#.VKu4kHvLHGA |
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
As Flores do Mal
Subscrever:
Mensagens (Atom)