“Portugal é um bordel em autogestão”. De tanto ouvir esta afirmação um dia tinha que a escrever. Ouço-a repetidamente há cerca de duas dezenas de anos e voltei a ouvi-la na passada semana numa reunião de empresários e da boca da mesma pessoa. A frase é muito forte e apetece desligar da conversa quando se ouve alguém a extremar assim o discurso não deixando margem para sonharmos com a luz ao fundo do túnel. Da última vez reparei que os ouvintes, comparsas como eu, estavam mais atentos e menos chocados com as palavras. “Eu não quero nada com o António Saraiva, da CIP, porque jamais aceitarei que o patrão dos patrões portugueses seja um tipo que começou a vida como sindicalista na Lisnave”. Esta é outra das afirmações dezenas de vezes repetida e que, ao contrário do que é habitual, em vez de perder sentido com o passar do tempo ganha cada vez mais actualidade porque os empresários, principalmente os pequenos e médios, estão cada vez mais na mão de meia dúzia de bancos e de uma dúzia de capitalistas. Hoje não é pobre quem tem um emprego certo e ganha um ordenado; é pobre quem tem uma empresa e não sabe como contratar mão-de-obra especializada e como resolver os problemas das dívidas acumuladas.
Duas palavras para os figurões dos políticos que nos governam já que eu acho que isto está mau mas ainda não é verdadeiramente “um bordel em autogestão”. As eleições são uma forma dos políticos disfarçarem as suas más intenções quanto à governação do “bordel”. De outra forma mudavam a lei eleitoral; limitavam os mandatos dos deputados e não só dos autarcas; taxavam mais os ricos e não roubavam das reformas; abriam mais tribunais e não fechavam os poucos que existem; formavam mais juízes e faziam de Portugal um país do primeiro mundo. “Bordel” é uma metáfora injusta para um país que foi pátria de Camões e Salgueiro Maia. Mas que cheira a “pocilga” isso não tenho dúvidas. JAE
quarta-feira, 28 de maio de 2014
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Tom Fleming em Tomar
A NERSANT levou a Tomar um conferencista daqueles que traz o mundo nos olhos e todas as manhãs pisa o chão novo das américas do mundo. Fui ouvi-lo para depois pedir contas aos autarcas que estivessem por lá. Sabia que ele ia falar de bibliotecas abertas ao público como se fossem mercados; que ia mostrar exemplos de como se podem cativar pessoas para os centros históricos; tinha a certeza que ia ouvir falar de inter-relações; criatividade cívica; “Não há milagres mas muitas oportunidades para milagres”, disse Tom Fleming, depois de dar paletes de exemplos de como se revigora e transforma culturalmente uma cidade.
Não vi autarcas com responsabilidades. Curiosamente a organização convidou o professor Manuel Reis Ferreira que para a sua intervenção elegeu Tomar e a marca Templária. Depois de informar que o Convento de Cristo recebe anualmente cerca de 180 mil turistas, que passado quarenta minutos estão a ser empurrados para os autocarros que os transportam de regresso a Lisboa, deixou o seguinte testemunho que diz bem da nossa pobreza franciscana no que respeita a politicas culturais e económicas.
“O Convento de Cristo tem muitas portas para abrir, não só no sentido literal e material do termo, como no sentido estratégico e mesmo imaterial. Para este (dia) elegi abrir uma porta muito especial: a porta do Castelo Templário. Porque Templária é a marca da cidade e porque Templário é o início deste Convento de Cristo e desta bela cidade e porque, estranhamente, sem dizer mesmo, misteriosamente, este Castelo Templário tem sido um castelo esquecido, desconhecido de muitos cidadãos e do mundo. A importância do conjunto, Castelo e Charola Templária, representa uma época da história que nos leva a Jerusalém e à nossa nacionalidade. Porque é que um Castelo, que é um dos mais notáveis testemunhos da arquitectura militar e Templária (ibérica e europeia), de fundamental importância na definição das fronteiras de Portugal, como ainda hoje são das mais antigas do mundo, está fechado ao público?”. Não havia na sala quem pudesse responder. JAE
Não vi autarcas com responsabilidades. Curiosamente a organização convidou o professor Manuel Reis Ferreira que para a sua intervenção elegeu Tomar e a marca Templária. Depois de informar que o Convento de Cristo recebe anualmente cerca de 180 mil turistas, que passado quarenta minutos estão a ser empurrados para os autocarros que os transportam de regresso a Lisboa, deixou o seguinte testemunho que diz bem da nossa pobreza franciscana no que respeita a politicas culturais e económicas.
“O Convento de Cristo tem muitas portas para abrir, não só no sentido literal e material do termo, como no sentido estratégico e mesmo imaterial. Para este (dia) elegi abrir uma porta muito especial: a porta do Castelo Templário. Porque Templária é a marca da cidade e porque Templário é o início deste Convento de Cristo e desta bela cidade e porque, estranhamente, sem dizer mesmo, misteriosamente, este Castelo Templário tem sido um castelo esquecido, desconhecido de muitos cidadãos e do mundo. A importância do conjunto, Castelo e Charola Templária, representa uma época da história que nos leva a Jerusalém e à nossa nacionalidade. Porque é que um Castelo, que é um dos mais notáveis testemunhos da arquitectura militar e Templária (ibérica e europeia), de fundamental importância na definição das fronteiras de Portugal, como ainda hoje são das mais antigas do mundo, está fechado ao público?”. Não havia na sala quem pudesse responder. JAE
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Encontros e desencontros
Nos últimos tempos falhei encontros importantes; com o Adelino Gomes em Abrantes; com o Otelo em Santarém; com o Tiago Guedes no Cartaxo. Estou sempre a falhar encontros importantes porque o meu sonho é cada vez mais estar em todas ao mesmo tempo e depois poder escrever, ou não, conforme a minha vontade. Faço bem a gestão destes desencontros porque tenho hábitos diários de leitura e viajo com alguma regularidade. O prazer de ler diariamente um bom livro, ou de abrir caminho, regularmente, numa nova viagem, são experiências que compensam o pesadelo do trabalho diário que muitas vezes é quase um castigo. O livro é mais sagrado; ficamos mais eternos cada vez que encontramos a matéria com que se fazem os sonhos. As viagens são os abdominais da vida; sem o desconcerto, e o desconforto de tudo o que nos acontece, antes e durante uma viagem, nunca conheceríamos os segredos do olhar das rainhas quando olham os servos com que se deitam.
De um livro quero aquilo que se pode ouvir num “jardim japonês”: “Ao minuto de gozo do que chamamos Deus, fazer silêncio ainda é ruído”. ( Adélia Prado). De uma viagem espero sempre a absolvição por tudo o que de mal fiz a mim próprio e me faz sofrer de todas as maleitas do século que vão desde o stress à falta de sono. E em cada viagem vou pedindo como quem esmola: “Ó meu corpo, protege-me da alma o mais que puderes. Come, bebe, engorda, torna-te espesso para que ela me seja menos pungente” (Maria Noel). JAE
Nota Final: Morreu José Manuel Cordeiro; empresário, dirigente associativo e, imagine-se, político. Se todos os políticos fossem como ele este mundo seria bem mais justo. A lembrança do seu nome chega para o homenagear; tenho a certeza que ele aprovaria, na hora da despedida, palavras simples e gestos comedidos.
De um livro quero aquilo que se pode ouvir num “jardim japonês”: “Ao minuto de gozo do que chamamos Deus, fazer silêncio ainda é ruído”. ( Adélia Prado). De uma viagem espero sempre a absolvição por tudo o que de mal fiz a mim próprio e me faz sofrer de todas as maleitas do século que vão desde o stress à falta de sono. E em cada viagem vou pedindo como quem esmola: “Ó meu corpo, protege-me da alma o mais que puderes. Come, bebe, engorda, torna-te espesso para que ela me seja menos pungente” (Maria Noel). JAE
Nota Final: Morreu José Manuel Cordeiro; empresário, dirigente associativo e, imagine-se, político. Se todos os políticos fossem como ele este mundo seria bem mais justo. A lembrança do seu nome chega para o homenagear; tenho a certeza que ele aprovaria, na hora da despedida, palavras simples e gestos comedidos.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Recordações da Laura
A jovem que na passada quinta-feira morreu debaixo de um comboio na Estação de Santarém foi colega da minha filha no liceu de Santarém. Recentemente estivemos aos beijinhos e abraços no centro da cidade num daqueles encontros casuais que servem para matar saudades. A Laura era linda. Achei-a mais linda ainda depois de saber que ela tinha abandonado o Convento e a ideia de viver para sempre com o vestido de freira. Ainda guardo a memória do seu sorriso e do seu belo rosto de freira sem Convento. Não sei quantas pessoas a namoraram nem quantas lhe roubaram beijos. Não sei quantas pessoas a desiludiram. Nem toda a gente se suicida por amor ou por falta de amor. Certamente que ninguém se deixa “apanhar”por um comboio por excesso de amor no coração.
“Haja vertigem, um ranger de dentes e um grãozinho de loucura e a obra é boa” (Mário Saa). Acho que foi esta frase que faltou partilhar com a Laura naquela inesquecível tarde de sol em que os comboios passavam na estação cheios de pessoas felizes a caminho de casa. JAE
“Haja vertigem, um ranger de dentes e um grãozinho de loucura e a obra é boa” (Mário Saa). Acho que foi esta frase que faltou partilhar com a Laura naquela inesquecível tarde de sol em que os comboios passavam na estação cheios de pessoas felizes a caminho de casa. JAE
quarta-feira, 16 de abril de 2014
Homenagear palavras
Faço minhas as frases fortes dos depoimentos que enchem o suplemento sobre os 40 anos do 25 de Abril incluído nesta edição de O MIRANTE. Não conseguiria dizer mais sobre a data e o que ela representa para mim. Tirei as aspas para que a minha liberdade de usar as palavras ficasse quase perfeita. Fui vizinha de Salgueiro Maia e ouvi da sua boca relatos do 25 de Abril. Tenho memória de um país cinzento que existia antes do 25 de Abril. O Estado é um monstro que vive à custa do povo em vez de o servir. As gerações anteriores à minha cresceram com a angústia de irem para a guerra. Apesar de todos os defeitos o nosso sistema político é o adequado ao nosso país. Muitos portugueses ainda não perceberam que o Estado somos todos nós. Alguns atropelos à democracia afastam-nos dos valores de Abril. Temos o desafio de nos superarmos para fazermos todos os dias um novo Abril. Sem o 25 de Abril eu não teria sido eleito para o cargo que ocupo hoje. O 25 de Abril não é uma foto mas sim um filme em movimento.... Não concebo a democracia sem mais igualdade e mais justiça social. Com tristeza vejo centros de saúde encerrados e pessoas sem médico. Celebrar Abril é denunciar o que põe em causa a liberdade. Tirando a liberdade o resto foi uma desilusão. A diabolização dos políticos não ajuda em nada a preservar a democracia. As ingerências do Governo nas autarquias são contrárias aos ideais de Abril. Acredito que vamos retomar o Portugal solidário de Abril. Vivemos em democracia embora haja quem nos queira convencer do contrário. O poder local tem vindo a ser atacado e tenta-se diminuir a sua capacidade de intervenção. Só valorizamos o que conhecemos, o que respeitamos… Não podemos ser um país que maltrata os idosos e incentiva os jovens a emigrar. Eu e a minha irmã nascemos em França por o meu pai estar envolvido na luta contra a ditadura. Foi o 25 de Abril que me deu a oportunidade de tirar um curso superior. Como autarca tenho obrigação de defender uma das grandes conquistas de Abril. A justiça é fraca perante os fortes e forte perante os fracos. Precisamos de uma revolução mas com recurso às armas da participação cívica. JAE
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Navegar é preciso
Na tarde de apresentação do livro de José Fidalgo Gonçalves comentei, entre apresentações e em jeito de moderador que gosta de molhar o bico, que a intervenção de Maria da Luz Rosinha sobre o livro de José Fidalgo tinha excedido as expectativas e que não tinha notado qualquer divergência entre eles, pelo que, a existir alguma divergência no plano do pensamento ou da acção política, ninguém diria pela forma como a oradora falou do autor.
A plateia sorriu e fez-se um burburinho que durou três segundos. Depois tudo voltou ao normal. No fim da sessão, que durou cerca de duas horas, chegaram as reacções mais estranhas para quem, como eu, leva o trabalho a sério.
“Não gostei nada daquela observação. Bem podia ter-se evitado. “É pá, você queria incendiar a sala logo no início da sessão”. “Boa, Joaquim Emídio, gostei, dou-lhe os parabéns em nome da sociedade civil de Vila Franca de Xira”. Com um sorriso amarelo e, nalguns casos, com respostas de circunstância, esperei pela hora de desmobilizar e fazer-me à estrada que nesse dia tinha jantar de aniversário.
No outro dia, já refeito do meu primeiro êxito assinalável como moderador e editor, fez-se luz: José Fidalgo foi presidente da Junta de Vila Franca de Xira nos últimos três mandatos e saiu a meio do último. Quem o substituiu fez quase tudo para desvalorizar o seu trabalho. No dia do lançamento do livro, que foi anunciado quase um mês antes da data, estava a realizar-se uma assembleia municipal convocada para duas horas antes desta sessão. Por último: nas últimas eleições autárquicas o Partido Socialista perdeu a junta de freguesia para a CDU.
É difícil fazer opinião no espaço de um comentário, como é o caso, mas apetece-me deixar aqui expresso que dou tudo o que tenho e não tenho para navegar nestas águas onde posso ajudar a fazer o contraponto. JAE
A plateia sorriu e fez-se um burburinho que durou três segundos. Depois tudo voltou ao normal. No fim da sessão, que durou cerca de duas horas, chegaram as reacções mais estranhas para quem, como eu, leva o trabalho a sério.
“Não gostei nada daquela observação. Bem podia ter-se evitado. “É pá, você queria incendiar a sala logo no início da sessão”. “Boa, Joaquim Emídio, gostei, dou-lhe os parabéns em nome da sociedade civil de Vila Franca de Xira”. Com um sorriso amarelo e, nalguns casos, com respostas de circunstância, esperei pela hora de desmobilizar e fazer-me à estrada que nesse dia tinha jantar de aniversário.
No outro dia, já refeito do meu primeiro êxito assinalável como moderador e editor, fez-se luz: José Fidalgo foi presidente da Junta de Vila Franca de Xira nos últimos três mandatos e saiu a meio do último. Quem o substituiu fez quase tudo para desvalorizar o seu trabalho. No dia do lançamento do livro, que foi anunciado quase um mês antes da data, estava a realizar-se uma assembleia municipal convocada para duas horas antes desta sessão. Por último: nas últimas eleições autárquicas o Partido Socialista perdeu a junta de freguesia para a CDU.
É difícil fazer opinião no espaço de um comentário, como é o caso, mas apetece-me deixar aqui expresso que dou tudo o que tenho e não tenho para navegar nestas águas onde posso ajudar a fazer o contraponto. JAE
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Serviço público e exemplo de cidadania
O Poder Local é uma das maiores conquistas do 25 de Abril. A conclusão é velha e tem sido repetida até à exaustão pelos políticos e pelos agentes ligados a instituições locais e regionais que precisam das autarquias como de pão para a boca. Todos sabemos, no entanto, que nem sempre os políticos locais privilegiam as parcerias e a governação democrática. Há autarquias e autarcas que nos seus ministérios comportam-se ainda pior que os governos de Lisboa. Das últimas eleições autárquicas saíram executivos que estão a trabalhar com fôlego renovado; políticos que estão a tentar reorganizar o Poder Local numa direcção que não seja só a do compadrio e a do salve-se quem puder. A realidade económica a isso obriga. As mudanças no tecido económico e social, e a necessidade de aproveitamento de sinergias, não deixam outras alternativas. Mas do querer ao fazer vai um grande passo. Nomeadamente se tivermos em conta que para se ter êxito na gestão política de um território é preciso somar qualidades humanas e boas experiências de vida e de trabalho.
A edição recente do livro de José Fidalgo, “Autarquia Inclusiva & Participada”, é um bom exemplo de um autarca que, depois do trabalho feito, que é modelar nalguns capítulos, soube tirar proveito da sua passagem pelo Poder Local. O livro não é só trabalho de autor e realização pessoal; é serviço público e exemplo de cidadania. JAE
A edição recente do livro de José Fidalgo, “Autarquia Inclusiva & Participada”, é um bom exemplo de um autarca que, depois do trabalho feito, que é modelar nalguns capítulos, soube tirar proveito da sua passagem pelo Poder Local. O livro não é só trabalho de autor e realização pessoal; é serviço público e exemplo de cidadania. JAE
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