quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A Ponte da Chamusca é o maior exemplo do Portugal dos pequeninos

 O Instituto de Estradas mandou construir separadores na Ponte da Chamusca para salvaguardar a estrutura de ferro que foi inaugurada em 1909. Daí para cá a vida das pessoas que precisam daquele tabuleiro de ferro tornou-se um inferno. Os políticos locais comem e calam e assim contribuem para o país desigual em que vivemos.

A travessia da Ponte da Chamusca, baptizada com o nome de João Joaquim Isidro dos Reis, continua a ser um problema quase diário para centenas de pessoas que atravessam o Tejo nas mais variadas situações, certamente que uma boa parte delas por compromissos laborais. Na passada semana o telefone da redacção de O MIRANTE voltou a tocar; do outro lado voltamos a ouvir vozes inconformadas a pedirem que escrevêssemos sobre o assunto porque a travessia da ponte não pode ser um problema que estrague a vida às pessoas que compraram casa do lado errado do rio, ou que, por qualquer outra razão, dependem daquele caminho-de-ferro. A notícia acabou por não ser publicada, nem sequer na edição online, porque nem sempre os jornalistas estão atrás de um computador e o assunto é grave demais para escrevermos sobre ele do jeito em que se vai batendo no ceguinho, o que não é o caso, como todos sabemos.

Por causa da falta desse texto na edição online chegou-me também pelo telefone uma história desse dia que é exemplar e que merece ser contada. Um funcionário da Rodoviária do Tejo (RT), que mora na Golegã, saiu de casa 30 minutos antes de entrar ao serviço, na Chamusca, onde deveria conduzir o autocarro da manhã com destino a Lisboa. A distância entre a Golegã e a Chamusca são cinco quilómetros; se a ponte da Chamusca estiver interrompida por causa dos mesmos problemas de sempre pode demorar duas horas. Ao perceber que era isso que lhe ia acontecer na manhã desse dia o personagem desta história deu meiavolta com o carro, voltou a casa, pegou na moto e fez-se novamente ao caminho de forma a chegar a tempo e horas de cumprir os seus horários de trabalho e não deixar pendurados os passageiros da Rodoviária do Tejo.

Conto esta história para valorizar o acto de vestir a camisola deste funcionário da RT que bem podia escrever ao seu administrador a pedir-lhe que fizesse queixa ao Camões por ele não conseguir chegar a horas ao seu trabalho. Certamente que há outros exemplos a merecerem elogios; e haverá situações bem mais dramáticas de pessoas que faltam ao trabalho, e a outros compromissos importantes, por causa dos impedimentos no trânsito na ponte de ferro inaugurada em 1909, a quem foi dado o nome de João Joaquim Isidro dos Reis, que fez da sua construção uma das principais batalhas da sua vida.

Os autarcas da Chamusca acham que os problemas da Ponte da Chamusca se vão resolver por obra e graça do Espírito Santo. Imagino o presidente da câmara, Paulo Queimado, a ligar ao Padre Borga, prior da freguesia, para lhe meter uma cunha

Nenhum sacana que governa a autarquia tem coragem para marchar até Lisboa e meter pelos olhos dentro dos responsáveis do Instituto de Estradas que não se mexe na vida das pessoas como se vivêssemos numa anarquia. Não havendo alternativa aos separadores o IE tem que ter os semáforos a funcionar; se estão avariados os tribunais podem repor a legalidade; os cidadãos não são verbos de encher; os políticos de proximidade não podem ser bonecos ao serviço dos partidos em vez de ao serviço dos interesses dos seus munícipes. Está na hora do reeleito presidente da câmara, e seus vereadores, se amarrarem aos ferros da ponte, já que politicamente são invisíveis e ninguém lhes liga. JAE

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Cavaco Silva: falar e escrever para o boneco

Aníbal Cavaco Silva é o exemplo do país de manhosos em que vivemos. Cavaco diz que vivemos num país com uma “democracia amordaçada”, mas não fala dos “Pandora Papers”, das Fundações, dos políticos que usaram a banca para traficar influências e muito menos fala do seu falhanço como primeiro-ministro durante 10 anos. Curiosamente, um dos maiores actos de censura foi durante um dos seus governos e calhou a José Saramago. E ninguém esquecerá jamais a recusa da pensão a Salgueiro Maia, o herói do 25 de Abril.

A opinião de Cavaco Silva sobre o estado do país foi notícia a nível nacional. O artigo de opinião do ex-primeiro ministro e ex-Presidente da República, que marcou uma época em Portugal, ocupou uma página do jornal Expresso da passada semana e está cheia de opiniões mesquinhas que são o espelho da sua personalidade como político.

Cavaco Silva queixa-se de vivermos num país com uma “democracia amordaçada” onde o “controlo do aparelho de estado e a subserviência da comunicação social” contribuem para o “silenciamento e o empobrecimento” do país. Mas foi num Governo de Cavaco Silva que José Saramago conheceu a censura que o impediu de concorrer a um prémio literário. 

Quem viveu para contar o tempo em que Cavaco Silva dirigiu três governos durante uma década, e falhou redondamente a reforma administrativa do país, não pode ficar calado com tamanha pornografia opinativa. Miguel Cadilhe,  que dirigiu o ministério das finanças durante cinco anos, acusou publicamente o seu líder de ser o pai do “monstro”, ou seja, do défice, um dos epítetos pelos quais ficou conhecida a dimensão da ruptura das contas públicas portuguesas. Segundo Miguel Cadilhe, foi durante o Governo de Cavaco Silva que a Administração Pública portuguesa se transformou na terceira mais cara da Europa. Curiosamente, foi também o Expresso a publicar as declarações de Cadilhe que só podem ficar na História para quem acompanha a vida política das marionetas portuguesas. O facto de Cavaco Silva ainda hoje fazer opinião, ainda que ao nível de um Comendador, e de Miguel Cadilhe se ter eclipsado da vida pública e política, só abona a favor deste último, já que Cavaco Silva governou Portugal durante uma década (1985 a 1995) e só deixou alcatrão, algum dele pouco utilizado, que custa os olhos da cara ao Estado português, que tem que pagar às concessionárias a falta de receitas do tráfego automóvel. Faltam os estudos para sabermos quantos milhares de milhões é que ainda custam estes investimentos que apagaram do mapa as políticas de aposta nos caminhos-de-ferro e na navegabilidade dos rios como acontece na maior parte dos países bem governados.

Mais grave ainda; pouco antes da falência do BES Cavaco Silva fez declarações que são uma vergonha para um país onde a justiça ainda não cumpriu o seu papel para com os lesados dos bancos que foram enganados por funcionários ao serviço de uma “máfia”. Cavaco Silva podia e devia usar as páginas dos jornais para criticar os capitalistas associados às notícias dos “Pandora Papers”, ou de outros processos que fazem de Portugal um país de terceiro mundo, onde a responsabilidade política no governo de instituições bancárias, como a Caixa Geral de Depósitos, foi durante anos a fio um instrumento do tráfico de influências políticas, o lugar onde o Estado português se deixou manobrar em nome de uma rede de privilegiados sem honra ou sentimentos de dever público.

É verdade que a imprensa portuguesa está moribunda e aprisionada; falta-lhe o investimento publicitário e, pior que tudo, leitores. Cada dia que morre um velho é menos um jornal que se vende. E, como sabemos, todos os dias morrem velhos. Cavaco Silva sabe que a Google, o Facebook, a Amazon e a Apple tomaram conta do mercado que ninguém regula nem tem ferramentas para regular. Por último: Cavaco Silva não fica na História só por ter deixado censurar uma obra literária do nosso Nobel da Literatura; fica acima de tudo por ter negado uma pensão ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, quando pouco tempo depois não negou o mesmo pedido a dois antigos inspectores da extinta PIDE. 20 anos depois, Cavaco Silva redimiu-se com uma homenagem ao homem que partiu de Santarem com as suas tropas para libertar Portugal de um regime fascista mas foi pior a emenda que o soneto: Salgueiro Maia já tinha morrido. JAE.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Tomar é a cidade mais bonita da nossa região

Tomar é a cidade mais bela e bem frequentada da nossa região. Passei lá uma boa parte do dia de domingo a trabalhar e a viver as emoções da noite eleitoral.


No dia das últimas eleições autárquicas escolhi Tomar para acompanhar os resultados das eleições autárquicas. Fui a meio da tarde para ir aos figos e para visitar, ainda com a luz do dia a fazer o pino, a cidade e os seus recantos.

Tomar é a cidade onde todos gostávamos de viver ou de ter uma casa. Não é só a cidade que tem um encanto templário: à volta de Tomar há uma albufeira que faz toda a diferença com mil lugares de veraneio, de lazer e de excelência para passar o dia, o fim-de-semana ou até o resto da vida.

Tomar é a única cidade da região onde os restaurantes de qualidade se espalham pelas ruas da cidade, com as suas esplanadas, e os turistas, que não são os mesmos do Santuário de Fátima, se sentam com os olhos brilhantes de quem vê em cada estrela um milagre.

Já almocei e jantei na grande maioria dos restaurantes mas no domingo entrei pela primeira vez no espaço da sede da Nabantina onde o serviço foi demorado mas atencioso. Embora na cidade houvesse muitos restaurantes abertos, apesar de ser domingo, vi entrar e sair muitos clientes que não tiveram lugar apesar do espaço ter quatro salas, algumas delas bem espaçosas.

Sou de uma terra com metade das casas a cair, de costas voltadas para o Tejo, quase sem restaurantes, onde vivem cada vez menos almas e o que sobra são igrejas embora estejam quase sempre de portas fechadas como acontece com a mais bonita de todos situada no miradoiro de Igreja de Nossa Senhora do Pranto. Tomar tem mais vida na Rua da Corredoura, a um domingo ao fim da tarde, que a Chamusca durante toda a semana em todas as ruas.

Nos últimos anos tenho vivido mais em Lisboa e em Santarém do que na Chamusca ou em Tomar ou em Alhandra, onde também gosto de sentir a vida a passar. No domingo percebi melhor a importância de morarmos numa cidade com identidade, que não a grande Lisboa, onde nos perdemos; nem a Chamusca ou Santarém, onde todos olham para os nossos sapatos e vêem as solas rotas quando não se dá o caso de as verem forradas a ouro.

Há muito tempo que não ajudava a coordenar um trabalho em noite de eleições; há muito tempo que não saía à rua em trabalho, com o fato de repórter, e escrevia em cima do joelho e directamente no telemóvel, que é hoje a grande ferramenta de um jornalista. Não esqueci, entretanto, como se trabalha na rua, mas percebi melhor que agora é muito mais fácil mostrar trabalho do que antigamente. Tudo acontece muito mais rapidamente e à frente do nosso nariz. No domingo consegui trabalhar até às três da manhã em toda a área de abrangência de O MIRANTE, a partir de Tomar e de Abrantes, sabendo que éramos duas dezenas de profissionais a fazerem o melhor que sabem, que é o jornalismo de proximidade.

Este texto tem alguns dias no computador, quase tantos como os que já lá vão depois das eleições. A esta distância vale a pena acrescentar à crónica que soube de muitas candidaturas, de todos os partidos, que não saíram à rua para fazerem campanha eleitoral. Há pessoas em que os partidos confiam que acham que ganham eleições sem baterem às portas, sem saírem da sua rua ou da sua cidade ou aldeia. Percebe-se pelos resultados que houve candidatos que acharam que ganhavam eleições pelos seus lindos olhos; Daí as muitas surpresas destas eleições. Daqui a quatro anos veremos quem tem obra para mostrar e quem já começou a construir alternativas na oposição. JAE.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A tirania das eleições

O PCP não liga aos seus quadros, nem aos novos nem aos velhos, nem procura mobilizar pessoas que não gostem do Partido Comunista Chinês ou do chefe do Governo venezuelano Nicolás Maduro.

As eleições autárquicas de domingo foram tiranas para o PCP e o Bloco de Esquerda. Se quanto a este último partido não há culpas para apontar, porque o BE é literalmente um partido de Lisboa e do Porto, que vive de meia dúzia de estrelas do firmamento da esquerda caviar (com raras excepções), já quanto ao PCP a coisa pia mais fino. Os comunistas coligados com os Verdes, que só existem graças ao PCP, têm uma tradição de poder nas autarquias que vai ficar na História deste último meio século. Infelizmente para o partido, e para a democracia, o PCP está a deixar-se morrer por culpa daquilo que era a sua grande mais valia: a proximidade dos dirigentes com as populações e com os seus interesses mais importantes e mais imediatos. Quase meio século depois do 25 de Abril os dirigentes nacionais do PCP aburguesaram-se e entregaram o partido no interior do país aos profissionais dos sindicatos, que são incapazes de organizar uma lista de compras de supermercado quanto mais uma força política para concorrer às autarquias.

No Ribatejo o PCP já só tem a Câmara de Benavente e, provavelmente, só até 2025. A história que ficou para trás com a reforma de Sérgio Carrinho, António Mendes e agora Carlos Coutinho (tão comunistas como eu (não) sou), é fácil de explicar. O PCP não liga aos seus quadros, nem aos novos nem aos velhos, nem procura mobilizar pessoas que não gostem do Partido Comunista Chinês ou do chefe do Governo venezuelano Nicolás Maduro. Na Chamusca e em Constância, para dar dois exemplos que citei, o PCP não soube renovar-se, os comunistas ou os simpatizantes do partido não mexem uma palha para recuperarem o prestígio ganho e acumulado ao longo dos anos de trabalho em favor das populações. Os gajos em que o PCP confia a tarefa de organizar as tropas vivem literalmente na clandestinidade nas suas próprias terras e, regra geral, são pessoas que não mostram os dentes nem trabalham em favor das associações ou colectividades, como sempre foi tradição nos militantes comunistas. Os que resistem parecem personagens de cinema: uns cheios de raiva e desesperados por lutarem contra moinhos de vento e os outros, os que andam com a foice e o martelo na testa, escondidos em casa onde montaram oficinas de recuperar imagens de Che Guevara, Fidel Castro e Catarina Eufémia.

Jerónimo de Sousa e António Filipe, para falar de dois dirigentes nacionais que estão a contribuir para levar o PCP à condição de partido insignificante a nível autárquico, são dois personagens de televisão como eram os bonecos do Contra Informação da RTP. Eles estão em todos os noticiários e programas de entrevista e de entretenimento das televisões, mas nunca estão no terreno; nem eles nem os camaradas do Comité Central que, segundo dizem os números, têm uma fortuna para gerir; o PCP é o partido mais rico do mundo em património e em dinheiro a prazo nos bancos; no resto está quase apagado do mapa pelo Chega e companhia; no Ribatejo mas também no Alentejo. Só no concelho de Lisboa, tal como o BE, o PCP ainda tem uma força que faz dele um partido respeitável. Álvaro Cunhal deve estar a mexer-se no túmulo.



Escolho Jorge Faria, que ganhou o Entroncamento por 62 votos, para deixar aqui um exemplo de um autarca que governa com os punhos e dialoga com a população com os cotovelos. Um político que faz dois mandatos numa cidade, que tem tudo para dar certo, e ao fim de oito anos só fica no poder graças a 62 eleitores e a Nossa Senhora de Fátima, ou vai acabar os quatro anos de poder a caminhar para o psicólogo ou é certo que vamos ter eleições antecipadas na cidade dos comboios. JAE. 

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Jorge Sampaio e as eleições autárquicas do próximo domingo

Que país é este onde as classes mais favorecidas, com um maior nível cultural e educacional, entregam o poder político da sua terra aos mais aventureiros e, por isso, aos mais incapazes, como se vivêssemos nos tempos do Zé do Telhado?


As eleições do próximo domingo são um bom pretexto para escrevermos sobre democracia e o exercício do poder. Jorge Sampaio tem uma biografia escrita por José Pedro Castanheira que é um espelho da sua vida política que nos deixa espreitar as suas qualidade pessoais. Conheço boa parte dos dois grossos volumes de memórias. E sou testemunha de outras histórias que não são contadas nos dois volumes da biografia e foram ouvidas no meio de grupo restrito contadas pelo seu ex-chefe de gabinete, António Fonseca Ferreira, quando Jorge Sampaio foi presidente da Câmara de Lisboa. Uma delas prende-se com a entrada fulgurante, e a matar, de Belmiro de Azevedo no gabinete de Jorge Sampaio fazendo pressão para resolver o problema na construção das torres do Centro Comercial Colombo. A história tem todos os ingredientes que sabemos existir entre poder económico e poder político: a luta de uns para construírem e desenvolverem as suas empresas e os seus impérios empresariais e a batalha de quem detém as rédeas do poder e tem a obrigação de moderar os exageros urbanísticos e a especulação imobiliária e comercial. Os arquivos de imprensa estão cheios de histórias que retratam bem uma época (1990-1995) de grande crescimento económico, mas também de grandes transformações que os nossos líderes não souberam aproveitar para nos aproximarmos dos melhores indicadores sócio-económicos dos países mais ricos da Europa. José Sócrates e Armando Vara são o melhor exemplo da italianização da política portuguesa e a queda da Portugal Telecom, e de gestores como Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, a par da falência de alguns bancos, que culminou na queda estrondosa do BES, são o melhor exemplo da regressão da democracia e dos valores de um regime que pode estar em perigo com a ascensão da direita fascista em todo o mundo ocidental. 

Para quem tinha 18 anos no dia 25 de Abril de 1974, e participava em reuniões clandestinas de opositores ao regime (beneficiava do facto de trabalhar num estabelecimento comercial que era ponto de encontro dessa gente corajosa e destemida), o facto de nas últimas eleições mais de metade da população portuguesa se recusar a votar é um sinal que deveria deixar os políticos de cabelos em pé. 48 anos depois de nos libertarmos da ditadura, que nos cerceava a liberdade de reunião, o acesso ao conhecimento e à igualdade de direitos, vivemos um tempo em que metade das pessoas não vota no seu presidente de câmara ou junta de freguesia. O que é que os políticos locais esperam para merecerem a honra de desempenharem cargos públicos remunerados? Que país é este onde as classes mais favorecidas, com um maior nível cultural e educacional, entregam o poder político da sua terra aos mais aventureiros e, por isso, aos mais incapazes, como se vivêssemos nos tempos do Zé do Telhado?

Jorge Sampaio, o antigo Presidente da República, que faleceu a 10 de Setembro, é o exemplo de um político que muitos autarcas deviam tentar imitar para um dia poderem ser melhores do que os seus mestres como ensinava Picasso. É verdade que temos gente valorosa à frente das autarquias e do país, mas não temos razões para nos orgulharmos da nossa classe política actual quando vemos emergirem na vida pública políticos analfabetos, que não sabem lidar com a liberdade de imprensa, não respeitam nem sabem como lidar com os seus adversários políticos, não sabem reivindicar nem como funcionam as instituições e, pior do que isso, são autênticos caciques, com a vantagem, para eles, de pertencerem a partidos cujos dirigentes nacionais fomentam o clientelismo e a monarquia em vez de respeitarem os ideais da nossa República já mais que centenária. JAE.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Agroglobal já não vai ser o grande exemplo para a Feira da Agricultura

Pedro Torres anunciou, de forma inesperada, no último dia da Agroglobal, o fim da feira no Cartaxo e a sua passagem para Santarém com organização da CAP, que também organiza a Feira Nacional de Agricultura.

De 2014 a 2021 Pedro Torres e Manuel Paim ergueram uma feira agrícola no campo do Cartaxo que se tornou um caso de estudo. Dois empresários agrícolas, sócios e amigos, deitaram mãos a uma feira que este ano teve uma adesão nunca vista. “Isto parecia uma guerra civil”, reconheceu Pedro Torres num dos discursos de encerramento onde anunciou a passagem de testemunho para a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) e o fim da Agroglobal como a conhecemos até hoje.

Embora já há quatro anos se falasse na possibilidade de a CAP tomar conta da organização, o certo é que as conversações nunca surtiram efeito. Na altura O MIRANTE falou com as duas partes envolvidas no negócio: Pedro Torres admitiu as conversas mas pediu que guardássemos a informação privilegiada uma vez que as notícias podiam pôr em causa as conversações e um desfecho que, na sua opinião, seria bom para a cidade e para a Agroglobal.

Apesar de sondado noutras alturas nunca mais conseguimos actualizar a informação. De forma surpreendente, no final da maior edição de sempre da Agrobal, Pedro Torres e o presidente da CAP, Eduardo Oliveira e Sousa, subiram à vez ao palco para anunciar que o CNEMA vai tomar conta da feira.

Dos discursos que O MIRANTE publicou em vídeo, na notícia que escreveu na edição online, é fácil concluir que a cedência da organização da feira não foi tão simples como os organizadores fizeram parecer.

É certo que a feira vai passar para Santarém; e é certo e sabido que o CNEMA não tem estrutura nem pessoas para organizar uma boa Feira da Agricultura quanto mais uma Agroglobal que metia a Feira da Agricultura no bolso em termos de programa, de organização e participação dos agentes do sector. Não por acaso nasceu, cresceu e tornou-se uma das maiores organizações de sempre a promover o sector. A unanimidade gerada à volta desta organização nunca será possível com o CNEMA, gerido de costas viradas para a cidade e para as instituições da terra e da região.

Não é hora de pedir contas a quem tem a responsabilidade de organizar anualmente a Feira Nacional de Agricultura mas era meter a cabeça na areia não recordar que a CAP fez da Feira Nacional de Agricultura uma feira de vaidades. Manuel Paim e Pedro Torres mostram desde 2014 o que é uma feira agrícola e como se organiza e se ganha dinheiro sem cedências e facilidades (na feira da agricultura falasse em negócios paralelos no aluguer de pavilhões a artesãos, para além de outras manhas que foram instituídas ao longo dos anos e que fazem da Feira do Ribatejo um outro caso de estudo).

Pedro Torres reconheceu, no discurso em que entregou a Agroglobal ao CNEMA, que negoceia com os dirigentes da CAP desde a segunda edição da feira. Embora falem entre iguais (são pessoas que dominam o sector, andaram nas mesmas escolas, vão às mesmas festas, são parte de uma elite que domina uma parte da economia portuguesa), só cinco anos depois é que chegaram a um entendimento. Fica claro que esta cedência era a única forma do CNEMA não perder a curto prazo a Feira Nacional de Agricultura. Falta saber se Pedro Torres negociou a curto prazo a presidência do CNEMA como contrapartida por ter deixado de afrontar, com o seu trabalho a solo, a organização da Feira do Ribatejo.

Com o CNEMA a organizar a Agroglobal, certamente que a feira nunca mais atingirá a dimensão e o interesse das últimas edições; também é fácil concluir que quem organiza a Feira da Agricultura com um amadorismo desarmante não vai organizar a Agroglobal convidando os parceiros regionais e cativando aqueles que ao longo dos tempos se foram divorciando dos dirigentes da CAP.

Uma nota final que não devemos calar para darmos nomes aos bois, como se diz na gíria ribatejana: os dirigentes do CNEMA são tão bons a gerirem as suas organizações, e as suas azias pessoais, que ameaçam e retaliam contra empresários que falam a O MIRANTE de forma crítica nos suplementos que habitualmente editamos por ocasião da Feira da Agricultura. JAE.

Vêm aí as eleições autárquicas e tudo pode acontecer

Ferro Rodrigues e Marcelo Rebelo de Sousa, dois dos mais velhos protagonistas da nossa santa vida política, vieram a público manifestar solidariedade com os autarcas (...)  Depois desta corajosa tomada de posição destes dois “jovens”, o que é que têm a dizer os velhinhos das juventudes partidárias que se sentam nas cadeiras do poder? 


Pela primeira vez depois do 25 de Abril, depois do fenómeno PRD, de Hermínio Martinho e Pedro Canavarro, para citar dois escalabitanos que tiveram grande importância no partido, podemos ter umas eleições autárquicas que virem do avesso todo o espectro partidário. Não tenho desejos pessoais nem acho que aquilo que nós pensamos ou escrevemos pode influenciar umas eleições. De uma coisa estou certo; estas eleições vão baralhar a cabeça de muita gente se o PSD cair do cavalo abaixo e o PS e a CDU não mantiverem o seu eleitorado. Deixo de fora o Bloco de Esquerda que sempre foi um partido envergonhado nas eleições de proximidade e que, durante muitos e muitos anos, só teve como bandeira nacional uma senhora de Salvaterra de Magos, que desertou da CDU, e cujo nome esqueci completamente; eu e milhares de eleitores, incluídos os dos BE.


O facto de vivermos em pandemia durante tanto tempo tem os seus custos. Ninguém aguenta o ambiente de loucura que se vive em certas áreas da vida nacional. Toda a gente fala das mortes por Covid mas ninguém fala das mortes das pessoas com cancro que ficam meses e meses sem médico de família. Conheço algumas, e sei que são tão ingénuas e tão singulares que não sabem queixar-se; para elas Deus é grande e é Ele que as há-de ajudar. António Costa e Rui Rio sabem que o problema não é com Deus mas com a falta de médicos e de enfermeiros no SNS. Mas tanto um como outro vivem há meio século do mesmo que viveu Salazar e Marcelo Caetano: da renúncia natural do povo aos seus direitos quando, à sua volta, impera a mentira e uma administração pública falida, corrupta e incapaz de se reformar.

É imoral o que se passa na saúde pública depois de nos termos safo do pior da pandemia; os doentes com cancro e outras doenças graves parecem filhos de um Deus menor. Os candidatos às eleições autárquicas na Chamusca, Ourém, Carregado, Azambuja, entre muitos outros concelhos, deviam exigir ao governo políticas que permitam a formação de mais médicos e enfermeiros, e não o boicote da classe à criação de mais escolas de medicina e a entrada de mais alunos nos cursos. Não sei se alguns autarcas sabem do que estou a falar mas era bom que soubessem.


Ferro Rodrigues e Marcelo Rebelo de Sousa, dois dos mais velhos protagonistas da nossa santa vida política, vieram a público manifestar solidariedade com os autarcas que estão a ser prejudicados pela existência de uma lei eleitoral que os proíbe de fazerem campanha eleitoral ao mesmo nível dos políticos da oposição. Os deputados da Assembleia da República, muitos deles também autarcas ou ex-autarcas, conhecem de ginjeira este problema das leis eleitorais. E o que é que fazem aos longo das legislaturas? Tratam da sua vidinha e abafam diariamente os peidinhos nas almofadas das cadeiras do Parlamento para libertarem os gases provocados pelo stress de não terem nada para fazer. Depois desta corajosa tomada de posição destes dois “jovens” da nossa política, o que é que têm a dizer os velhinhos das juventudes partidárias que se sentam nas cadeiras do poder? JAE.